quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Que fogo nos consome? Que paz buscamos?

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 20º. Domingo do Tempo Comum (Ano C).  

“Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!” (Lc 12,49)

 

À primeira vista, o evangelho deste domingo pode provocar um certo mal-estar e nos deixar com um sabor amargo; dá a sensação de que Jesus veio para trazer fogo (um incêndio provocado) e divisão. Isto seria incoerente com seu modo de viver e sua mensagem.

Em primeiro lugar, é preciso nos conectar com o evangelho do domingo anterior onde Jesus afirmava que “foi do agrado do Pai nos confiar o Reino”. Se compreendemos bem tal afirmação, que implicações e exigências têm para nós, seus(suas) seguidores(as)?

Fazer caminho com Jesus não é para as pessoas “frias” ou “mornas” em seu modo de viver. Seguimento implica calor humano, paixão, emoção...; seguir é ser fogo, reavivar o fogo interior, iluminar, dar calor...

Jesus não veio provocar um incêndio destruidor. Ele nos fala da imagem do fogo como elemento que limpa e purifica, usado tanto pelos camponeses (“limpará completamente sua eira; recolherá seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível” – Mt 3,12), como por aquele que busca purificar o ouro, “que é provado no fogo” (1 Pd 1,7). Em qualquer caso, a imagem do fogo era muito eloquente para os primeiros cristãos, também provados no fogo da perseguição, que deixava a descoberto a pureza e solidez de sua fé.

João Batista também fala de Jesus como aquele que “batizará com Espírito Santo e fogo” (Mt 3,11). E esta promessa se cumpre em Pentecostes: “Apareceram línguas como de fogo... Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2,3). Também os discípulos de Emaús sentiram arder seus corações quando escutavam as palavras do Ressuscitado, que caminhava junto deles.

Santa Teresa de Jesus entendeu isso bem quando fala da “alma” como uma mariposa que se aproxima do Fogo, até ficar transformada, ela mesma, em fogo.

A imagem do “fogo” nos desafia a nos aproximar da pessoa de Jesus e viver o seguimento de maneira mais ardente e apaixonada. Pois seguir Jesus não é questão de razão, mas de afeto, de atração, de sedução...

O fogo que ardia no interior de Jesus era a paixão pelo Reinado do Pai e a compaixão pelos que sofriam. Jamais poderá ser des-velado esse amor insondável que o animava e o fazia arder em seu compromisso com a vida. O mistério de sua vida nunca poderá ficar contido em fórmulas dogmáticas nem em livros de sábios teólogos. Jesus atraia e queimava, perturbava e purificava. Ninguém podia segui-lo com o coração apagado ou com uma piedade estéril.

Sua palavra, sua liberdade, seu estilo de vida... fez arder os corações de todos aqueles que dele se aproximaram: revelou sua presença amistosa junto aos mais excluídos, despertou a esperança e a confiança nos pecadores mais desprezados, lutou contra tudo aquilo que violentava o ser humano, combateu os formalismos religiosos, os rigorismos desumanos e as interpretações estreitas da lei. Nada e nem ninguém podia bloquear sua liberdade e impedi-lo de fazer o bem.

Nunca poderemos segui-lo vivendo na rotina das práticas religiosas ou no convencionalismo do “politicamente correto”. Nenhuma religião nos protegerá de seu olhar provocante. Nenhuma doutrina nos livrará de seu desafio. Jesus está nos chamando a viver na verdade e amar sem reservas. Isso queima!

A maneira livre de Jesus viver, junto com a fidelidade à missão confiada pelo Pai, fez com que sua vida se tornasse questionadora, e inclusive provocativa, para aqueles que se encontravam instalados em posições de poder e que não estavam dispostos a modificar. Por este motivo, a atitude e o comportamento de Jesus sempre foi fonte de tensão, conflito ou divisão. E assim deve ser entendida toda sua vida.

Jesus, com o seu modo original de ser e viver, acendia os conflitos, não os apagava. Não veio trazer falsa tranquilidade, mas tensões, enfrentamentos e divisões. Na realidade, Ele introduziu o conflito no próprio coração do ser humano. E isso comprometia inclusive a vida e a unidade das famílias. Até ali chegou a radicalidade da mensagem de Jesus, pois Ele mesmo foi incompreendido pelos seus próprios familiares, foi desprezado, traído e crucificado pelo seu povo.

Há um traço na personalidade de Jesus que os Evangelhos destacam: Ele era um “transgressor”.

Sua transgressão decorria da percepção de situações extremamente injustas vigentes na sociedade e das quais as primeiras vítimas eram os excluídos. Jesus optou por ficar do lado das vítimas.

Jesus se tornou um sinal de contradição porque permaneceu absolutamente fiel a uma mensagem, a um modo de agir e a uma missão que havia recebido do Pai e que devia realizar com critérios e opções coerentes com o conteúdo do seu Evangelho.

Jesus não buscou o conflito (já que trazia uma mensagem de amor e fraternidade), mas conheceu uma das experiências conflitivas mais dramáticas da história humana.

Falar em conflito na missão de Jesus é o mesmo que falar da sua fidelidade.

O que tem valor em sua vida é seu Amor fiel, e não os conflitos em si mesmos. A dimensão conflitiva da fidelidade de Jesus é o resultado do confronto entre sua missão (que anuncia a justiça do Reino e as bem-aventuranças) e a realidade que não quer ouvir e rejeita a novidade do Reino.

A conflituosidade na vida de Jesus proveio do choque entre as exigências do Amor e a realidade injusta e pecadora. Jesus não cria conflitos; Ele os constata ao dar testemunho das exigências do Amor.

Evidentemente, as palavras e a vida de Jesus nos mostram que Ele foi portador de paz, mas não uma paz sem conflito. Muitas vezes, Ele nos recorda que trabalhar pelo Reino é um processo transformador que exige passar pela porta estreita, deixar-nos refazer até nascer de novo; neste caso, a paz não é comodidade, não é deixar as coisas como estão, mas viver um processo de transformação profunda, que costuma incluir despojamento e sofrimento.

O conflito também perpassa nossa vida pessoal, familiar e comunitária; não é acidente de percurso, é permanente: conflitos no interior da Igreja, no interior das comunidades; conflitos de origem social, cultural e político; conflitos gerados pela missão entre os pobres e pela defesa de seus direitos; conflitos de consciência, de lealdade; conflitos que se originam da missão profética da Igreja...

Mas, o que move a pessoa sábia não é o conflito por si mesmo, e sim o “fogo” interior que a habita. Um fogo que a torna firme e flexível ao mesmo tempo, respeitosa e apaixonada, amorosa e sagaz.

Esse “fogo” não é outra coisa que a expressão da Vida em nós. Se não lhe prestamos atenção e vivemos à margem dele, fica como apagado e morto. Nossa existência permanecerá marcada pela resignação e pelo conformismo. Quando, pelo contrário, mantemos a conexão consciente com a Vida que somos, o fogo se desperta até consumir-nos por completo. A partir daí, já não vive o eu, mas a Vida mesma em nós.

Texto bíblico: Lc. 12,49-53

Na oração:

No contexto atual, a vivência cristã parece esvaziar-se, mas o fogo trazido por Jesus ao mundo continua ardendo debaixo das cinzas. Não podemos deixar que se apague. Sem fogo no coração não é possível segui-lo.

Assumir a causa de Jesus gera conflitos; mas o conflito é um “ensaio da esperança”, uma certeza de que o Espírito renova todas as coisas sobre a face da terra. O conflito é certeza da “novidade” que vem; por isso exige um discernimento permanente.

- Como crescer e amadurecer no conflito? Como viver o Evangelho no conflito? Como ser fiel à missão em meio aos conflitos?

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Buscar o tesouro entre os “cascalhos” da vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 19º. Domingo do Tempo Comum (Ano C). 

“Onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração” (Lc 12,34) 

O evangelho deste domingo nos apresenta um texto cheio de mensagens importantes sobre o seguimento de Jesus. O contexto deste relato é a compreensão do Reinado de Deus e as atitudes que são favoráveis para percebê-lo e acolhê-lo. Encontramo-nos no caminho, junto com Jesus, subindo em direção a Jerusalém; o texto evangélico nos mostra o Mestre da Galileia liderando um novo movimento de vida e onde devemos investir para que a nossa vida tenha sentido e inspiração.

Por isso, a alegoria do “tesouro” revela a busca do essencial e não se perder no que é supérfluo e caduco.

Um antigo relato oriental nos ajuda a compreender a alegoria do tesouro, usada por Jesus: quando os deuses criaram o homem, puseram nele algo de sua divindade; mas o homem fez um mal uso dessa divindade e os deuses decidiram tirá-la. Reuniram-se em grande assembleia para ver onde podiam esconder esse tesouro que lhe haviam dado. Um disse: “vamos colocá-lo no pico da montanha mais alta”. Um outro, porém, retrucou: “não, o homem acabará escalando a montanha e encontrará o tesouro”. Um outro disse: “vamos escondê-lo no fundo do oceano”. Mas, alguém respondeu: “Não, o homem poderá descer às profundezas e descobrir o tesouro”. Por fim, um terceiro disse: “Já sei onde vamos esconder esse tesouro: no mais profundo do coração do homem! Ali, ele nunca o buscará”.

A metáfora do tesouro, presente em diferentes tradições sapienciais, constitui um convite a encontrar ou descobrir aquilo que, mesmo sem saber, mais aspiramos: o que realmente somos, nossa identidade original.

E esta imagem contém várias indicações valiosas: o tesouro está aí, no nosso interior, todo o tempo; trata-se simplesmente de descobri-lo; não é algo separado de nós, nem algo daquilo que carecemos, mas justamente aquilo que somos. Quando o descobrimos, tudo o mais começa a ser visto como algo secundário; e essa descoberta se traduz em perene alegria.

Só podemos encontrar o tesouro dentro de nós se descermos ao chão de nossa vida. É normal que nós nos surpreendamos frente a frente com um “eu” desconhecido e pleno de recursos.

O caminho para o nosso tesouro passa pelo diálogo com as dimensões não integradas, com nossas paixões, com nossos problemas e fragilidades, nossas angústias e nossas feridas, com tudo quanto clama dentro de nós e consome nossa energia. A espiritualidade cristã nos mostra que exatamente nos “cascalhos” de nossa existência descobrimos o tesouro do nosso verdadeiro “eu”, escondido no fundo de nosso coração.

Podemos, então, afirmar que o verdadeiro “tesouro” é o que há de Deus em nós.

Isto é o que somos: plenitude à qual nada nos falta, como cantava S. Teresa de Jesus: “Quem a Deus tem, nada lhe falta; só Deus basta”. Deus não é uma Presença separada que nos completaria a partir de fora, mas o “estado de presença” que constitui nossa identidade. E quando descobrimos o tesouro que é Deus, não há lugar para o medo (“não tenhais medo”).

“Foi do agrado do Pai nos confiar o Reino”. Este é o ponto de partida. “Não tenhais medo, estai preparados, etc...” depende desta verdade. O Reino não é lugar ao qual iremos depois da morte; Jesus já havia dito em outro momento: “O Reino está dentro de vós”; portanto, é um espaço que já trazemos em nossa identidade profunda. Sem acolher esta realidade, não é fácil dispor-nos para conectar com o nosso eu verdadeiro.

Se o Reino é o tesouro encontrado, nada e nem ninguém poderá nos afastar dele. O sentido da nossa existência está em descobrir o tesouro, tudo o mais virá espontaneamente. O Reino é o mesmo Deus escondido no mais profundo de nosso ser. Ele é a maior riqueza para todo ser humano. Todos os demais valores que podemos encontrar em nossa vida, devem estar subordinados ao valor supremo que é o Reino.

Este tesouro pode se expressar como “uma nova vitalidade e autenticidade, um sonho ousado, uma intuição, um dom especial, o encontro com o verdadeiro eu, a imagem que Deus faz de cada um de nós...”

O caminho para um novo sentido na vida passa pelo acesso ao nosso próprio coração. Aqui está o desafio que nos assusta, pois vivemos mergulhados numa cultura da superficialidade e da exterioridade.

“Descer” para as profundezas de nosso interior é a oportunidade para descobrir regiões novas e novos recursos, para ativar novas potencialidades, para encontrar aquele tesouro que facilitará uma contínua transformação na vida.

Isso requer coragem para passar por todas as regiões sombrias e chegar ao fundo. Mas essa descida nos possibilita descobrir um mundo diferente que não conhecíamos, ou que tínhamos perdido.

É preciso, portanto, “descer” até o chão de nossa humanidade para descobrirmos uma nova riqueza que iluminará a nossa vida; é “descendo” que poderemos revitalizar a vida que se tornara vazia e ressequida.

O apelo de Jesus é para despertarmos, escavarmos, avançarmos na direção ao “veio de ouro” e de sabermos que este não é nossa propriedade; ele nos é oferecido com dom.

Mas não basta falar de “tesouro precioso”; é também necessário “escavar” nosso “chão interior”, alargar nosso coração, garimpar em direção às riquezas que estão no eu mais profundo, assim como o “fio de ouro” no meio dos cascalhos. Nosso interior é o campo que é preciso cavar (às vezes, profundamente) para fazer vir à tona aquilo que é mais nobre em cada um de nós.

O “tesouro no céu” não é algo que nós alcançamos graças ao esforço, nem é computado como mérito; é uma nova maneira de ser e de viver que emerge quando nos esvaziamos do “ego”, inflado e prepotente.

Quando acessamos à nossa nobreza interior, descobrimos o tesouro que seduz nosso coração; só assim a vida terá mais inspiração, criatividade e sentido.

Sabemos que o coração se enraíza ali onde está o bem mais valioso de nossa vida; a partir daqui, inicia-se um impulso em direção à plenitude que tanto almejamos; o seguimento de Jesus adquire uma nova feição e o Reino se revela transparente no nosso modo de ser e viver.

Esta é a chave da existência humana e da felicidade: ser conscientes de qual é nosso tesouro, o que consideramos mais valioso, pois o coração vai habitar aí. A proposta evangélica não se refere ao coração afetivo, mas ao coração existencial, esse centro vital a partir de onde fluem as profundas “moções” e dinamismos da vida autêntica. O coração é uma potência interior que é capaz de deixar transparecer a vida divina a partir da fonte para o exterior. E Jesus lhe dedicou uma bem-aventurança, uma afirmação chave para compreender este espaço de Deus: “felizes os que tem um coração puro porque verão a Deus”.

Texto bíblico: Lc 12,32-48

Na oração:

Diante da presença de Deus, esteja aberto(a) ao contato com a própria realidade interior, para que venha à superfície aquilo que o(a) sustenta e dignifica o seu viver.

Dirija seu olhar para o mais profundo, onde nascem sentimentos e valores, decisões e gestos... onde você é convidado(a) a se alegrar com os rastros da Graça.

-Em que você investe sua vida, seu tempo mais importante, suas forças? Você busca o máximo que pode alcançar ou se conforma e se instala na mediocridade, com a falsa sensação de segurança e comodidade?

- Qual é o seu “tesouro” que pede um investimento afetivo, que alimenta um espírito de busca?

sábado, 30 de julho de 2022

“A Vida é tão Rara!”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 18º. Domingo do Tempo Comum (Ano C). 

“...a vida não consiste na abundância de bens” (Lc 12,15) 

Na sua itinerância, Jesus se depara com situações inesperadas e que não tem nada a ver com o sentido de sua missão. Mas, como bom pedagogo, Ele aproveita de todas elas para mover as pessoas na direção do verdadeiro sentido da existência.

Como sabemos, as heranças sempre suscitam problemas e conflitos. E alguém, que devia se sentir prejudicado, pede a mediação de Jesus para conseguir uma melhor partilha dos bens.

Na sua resposta, destaca-se a liberdade de Jesus frente a esse tipo de questões, não só porque corta a petição pela raiz, mas pela parábola que narra a seguir. Nem Ele se considera “árbitro” em questões de herança, nem está preso pela cobiça. O que escutamos d’Ele é o ensinamento de um mestre livre que quer mostrar o caminho da verdadeira “riqueza”.

Todos temos experiência da perene e escorregadia tentação – uma mentira perigosa que aparece como verdade - de solucionar as inseguranças e medos de nosso eu através dos impulsos à cobiça que se aninham em nosso coração. Para Jesus Cristo, a primeira e maior tentação do coração humano é a “cobiça de riqueza”. Uma vez presos à cobiça, caminhamos, irremediavelmente, para a solidão, para o auto-centra-mento e desprezo dos outros.

Na parábola de hoje, o rico fazendeiro, em seu monólogo, revela o seu ideal de vida: acumular, ter vida longa, vida assegurada... Em seu horizonte de vida há uma terrível solidão: parece não ter esposa, filhos ou amigos. Não pensa nos camponeses que trabalham em suas terras. Seus verbos preferidos: acumular, armazenar e aumentar seu bem-estar material. Só se preocupa em “amassar riquezas para si”; todo o relato insiste no uso dos pronomes possessivos: minha colheita, meus celeiros, meus bens, minha vida... Ele não se dá conta de que vive fechado em si mesmo, prisioneiro de uma lógica que o desumaniza, esvaziando-o de toda dignidade.

Aumenta seus celeiros, mas não sabe ampliar o horizonte de sua vida.

Aumenta sua riqueza, mas diminui e empobrece sua vida. Acumula bens, mas não conhece a amizade, o amor generoso, a alegria e a solidariedade. Não sabe compartilhar, só monopolizar.

Que há de humano neste tipo de vida? A vida deste rico é um fracasso e uma insensatez, pois sua falsa segurança na posse dos bens vem abaixo. Quem vive centrado em si mesmo, perde a vida; quem vive para o eu, não é rico diante de Deus.

No percurso da vida humana surgem oportunidades em que a pessoa abre os olhos e se diz a si mesma, com enorme espanto: “na realidade, não fiz outra coisa que viver para mim mesmo”. Com as riquezas, com os saberes, com os próprios recursos ou o que for, ela se dá conta de que viveu “entesourando para si” e, de repente, essa forma de viver se revela como infecunda e sem sentido. É um momento privilegiado que pode ser muito duro e, ao mesmo tempo, muito fecundo, quando consegue sair dessa “situação viscosa” e centrar sua segurança em deixar-se conduzir pela mão providente de Deus (“ser rico para Deus). Sentirá a experiência de que foi tirada de sua “pasta egóica” pela mão de Deus e brotará em sua vida uma nova melodia de saída de si em direção à fraternidade, à partilha, ao encontro com o outro...

A eterna tentação da cobiça esconde uma necessidade, mais ou menos doentia, de segurança. Dado que o ser humano não pode renunciar à segurança, a questão é saber onde ele coloca sua segurança.

Ao longo de nossa existência, é provável que o “lugar” onde a situamos vai se modificando: os pais, os amigos, os grupos, a profissão, a saúde, o dinheiro, as posses, as crenças, o prestígio...

O problema não se enraíza no fato de sentir necessidade de segurança, mas na ignorância à hora de querer afirmá-la. Colocar a segurança em qualquer realidade passageira é garantir a decepção, a frustração e o sofrimento. Essa é a primeira ignorância, porque nos faz tomar como “seguro” o que é transitório.

No evangelho deste domingo, Jesus usa a palavra “néscio” para referir-se a quem atua assim. Tal termo vem do verbo latino “nescio”, que significa literalmente “não sei”. “Néscio” é quem confunde o ter com o ser. “Néscio” é aquele que não sabe o que faz, aquele que vive perdido e ofuscado na ignorância e, em último termo, na inconsciência. Isso é viver identificado com o “ego”, na falsa ilusão de que essa é sua verdadeira identidade.

Agimos mal, a partir da cobiça, dos apegos a coisas e bens, da segurança em acumular... porque desconhecemos nossa riqueza interior, nossos recursos mais nobres, nossos dons mais originais... Perdemos o caminho do coração e “ajuntamos tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem...”

No fundo, o evangelho deste domingo nos situa diante do grande dilema do “sentido de nossa existência”: para quê vivemos? Sobre que valores queremos construir nossa vida?...

O ser humano não é só um “animal racional”, ou um “animal afetivo”, mas é também um “animal de sentido”, o que é uma definição muito mais profunda.

Ele precisa de um “sentido” para viver. E precisa disso tanto ou mais que os bens materiais necessários para sua vida. Sem sentido, sua vida se torna simplesmente sofrível, insuportável.

Uma pessoa espiritualmente anêmica enche sua existência com coisas e posses, mas isso não faz mais que aumentar sua sensação de vazio existencial.

De fato, para viver uma existência verdadeiramente humana, é preciso cumulá-la de sentido, evitando que ela caia no vazio ou no absurdo.

O ser humano tem necessidade de uma causa pela qual viver, de canalizar todas as suas forças, seus desejos, energias, impulsos vitais e recursos internos e externos em direção a um horizonte de sentido no qual acredita intensamente (“ser rico para Deus”) E nele investir tudo o que é e possui, com intensa paixão.

Aqueles que são movidos por uma forte paixão, apostam que o ser humano tem potencial criador e foi feito para voar alto, para tentar, mil e uma vezes, alcançar cumes distantes.

Todo o percurso dos Evangelhos visa despertar em nós o “espírito de busca”, latente em todo ser humano. E a busca mais humanizadora é aquela do sentido, que brota com força do mais profundo de cada um, como um impulso vital que o move a construir uma existência inspirada e carregada de significado. O sentido aponta rumos e abre caminhos, alimenta a liberdade e ativa a criatividade.

“Viver a fundo” é não passar pela superfície da vida, acumulando bens e permanecendo refém de uma triste mediocridade. Há fomes existenciais, desejos mobilizadores e sonhos originais querendo encontrar canais amplos para jorrar. É preciso reaprender o caminho da própria interioridade para ativar a capacidade de amar, de vibrar, de buscar... Deixemo-nos inspirar pelo Mestre da Galileia!

Texto bíblicoLc. 12,13-21 

Na oração:

O que ainda existe para ser descoberto em sua vida?

Há espaço para o novo? Ou está tudo amarrado, costurado nas bordas, selado contra qualquer surpresa?

- Onde você investe os melhores recursos de sua vida? Você encontra motivações para viver com mais inspiração?

terça-feira, 26 de julho de 2022

Legado de Santo Inácio de Loyola: a Espiritualidade na vida cotidiana

Durante o mês de julho publicaremos semanalmente um texto para celebrar a vida e memória de Santo Inácio de Loyola. Esse texto também estará disponível em áudio (podcast) no canal Rezando o Evangelho no  Spotify e em outras plataformas de áudio. O quarto e último texto aborda uma reflexão sobre a vivência da Espiritualidade Inaciana no nosso cotidiano, mais um legado de Santo Inácio de Loyola que permanece e gera frutos até os nossos dias. Boa leitura! Que Santo Inácio nos ensine a ser e buscar sempre o Magis!

Vivemos mergulhados na cultura de resultados; o ativismo é o nosso estilo de vida; a existência inteira faz-se maquinal e rotineira; a vida perde seu sentido; já não encontramos tempo para desfrutar das atividades mais simples e humanas; nosso cotidiano torna-se pesado, cansativo, passa a ser rotineiro, convencional e, não raro, carregado de desencanto. A maioria das pessoas vive restrita ao cotidiano com o anonimato que ele envolve. Tal situação acaba gerando pessoas ansiosas, irritáveis, frustradas.

O que fazer então?

Quando a vida cotidiana se torna monótona e se faz normal, é necessário sacudi-la com algum “detalhe anormal”, que ajuda a revigorá-la e dar-lhe fecundidade. “Se, às vezes, há um fastio na rotina, não raro ela revela um mistério insondável” (Cláudio Van Balen). A mística inaciana desperta nossa atenção para o mistério das pessoas, das coisas, da normalidade da vida. Santo Inácio, quando nos convida a contemplar a “vida oculta” de Jesus, no fundo ele quer que coloquemos em evidência nossas motivações, nossos valores, nossos critérios.

Jesus nos ensina, em Nazaré, a descobrir o valor eterno do doméstico, do cotidiano.

Ele nos ensina a saborear o eterno e o Absoluto nas pausas e nos silêncios da vida cotidiana. Ele gasta praticamente toda sua vida nesta humilde condição; passou despercebido como Messias. Identificando-se com a vida de todo mundo, Jesus mostrava que a salvação não consistia em coisas extraordinárias ou em gestos fantásticos, mas na “adoração do Pai em espírito e verdade”.

Tanto em Nazaré quanto na vida pública, Jesus nos comunica uma profunda união com o Pai. Para Ele o Reino se revela no pequeno, no anônimo, no cotidiano e não no espetacular, no grandioso. Para Ele, não são as coisas que nos fazem importantes, mas somos nós que fazemos qualquer coisa ser importante. É o sentido que damos à nossa vida e à nossa ação que fazem com que estas sejam significativas ou não. É a importância do não importante. “Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia a própria dificuldade” (Mt. 6,34). Com estas palavras, Jesus estabelece a diferença entre o modo pagão e o modo cristão de viver o cotidiano. A cotidianidade de nossa vida está tecida de coisas ordinárias e não de coisas extraordinárias. Falamos de uma cotidianidade humana, isto é, daquelas atividades de nossa vida diária, que embora irrelevantes em sua aparência, tem uma razão de ser, uma motivação e um modo de fazer-se que não se deve à mera casualidade ou a um impulso instintivo de repetição e automatismo.

O cotidiano é o que vivemos e/ou fazemos cada dia: o conjunto de circunstâncias, atividades e relações que formam a trama da vida de uma pessoa por meio das quais Deus atua nela e a pessoa se relaciona com Deus. As ações cotidianas insensatas podem ser sensatas se percebermos Deus presente nelas. Descobrir a presença divina escondida no cotidiano é encontrar-se acolhido pelo abraço do Criador que nos envolve. Quando a pessoa assume seu cotidiano e o vivifica com injeções de novidade, de idealismo, de criatividade, então começa a irradiar uma rara energia interior.

A essa força denominamos de carisma, que significa a energia que tudo vitaliza, que tudo penetra e rejuvenesce. O carisma inaciano nos desperta da letargia do cotidiano. E despertos, descobriremos que o cotidiano guarda segredos, novidades, mensagens ocultas, que podem acordar e conferir sentido e brilho à vida.

O cotidiano passa a ter sabor de eternidade.

O cotidiano é o meio pelo qual o amor toma densidade e se expressa preferentemente. Tem-se dito que “a humildade do amor é o dom da vida cotidiana”, ou seja, a humildade do amor sem brilho, no escondido. O amor é, precisamente, o lubrificante que dá sentido à vida cotidiana e lhe faz superar as dificuldades inerentes à mesma: o desprendimento de si mesmo, a busca da verdade e do bem comum, a atenção ao que facilita a vida dos outros, se tornam normais quando se cultiva o amor. E é esta fidelidade no cotidiano que possibilita a transformação da realidade.

Proposta de reflexão: Faça pequenas pausas durante o seu dia: pela manhã, no início da tarde, no início da noite... Procure perceber os milagres, o sagrado nas coisas simples, os passos da presença divina em suas vivências humanas cotidianas.

Fonte: Magis Brasil. Reflexões Inacianas: Espiritualidade do cotidiano criativo, Disponível em: https://magisbrasil.com/reflexoesinacianas18-20181204

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Uma oração revolucionária

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 17º. Domingo do Tempo Comum (Ano C).

“Quando rezardes, dizei: ‘Abba’” (Lc 11,2)

 

Os evangelhos nos revelam que Jesus, em muitas ocasiões, se afastava de seus discípulos, do povo, dos espaços habituais, das atividades missionárias... para orar, sem deixar-se prender pelas necessidades urgentes, pelas expectativas de seus amigos e pelas ameaças de seus inimigos. Essa distância, que o fazia entrar em intimidade o Pai, ia gerando nele uma nova sensibilidade para perceber os acontecimentos e a ação do Pai no centro da realidade e assim poder anunciar a surpreendente notícia do Reino.

Sabemos que Jesus vivia uma profunda sintonia com o Pai; e esta sintonia se manifestava no seu modo de orar: Ele orava nos momentos difíceis; dava graças ao Pai e o louvava por ter revelado os mistérios do Reino aos pequenos; orava solicitando o perdão na Cruz para aqueles que o crucificavam; rezava nos momentos decisivos da missão: batismo, pregação, eleição dos discípulos, transfiguração...

Sua oração contagiava, despertava interesse nos outros até o ponto de seus amigos lhe pedirem que lhes ensinassem a orar, porque viam que Ele tinha outra profundidade e superava os formalismos e as orações recitadas de memória.

O que é mais original e revolucionário em Jesus é a atitude de dirigir-se abertamente ao Pai com palavras simples e emotivas, na linguagem de todos os dias. Na sua oração, Jesus revela um Deus Pai-Mãe, cheio de ternura e compaixão, que toma iniciativa e rompe as distâncias, entrando em comunhão com seus filhos e filhas. Por isso, a primeira palavra da oração de Jesus expressa um grito que ecoa além dos limites do espaço e do tempo. Jesus não disse “Deus nosso que estais no céu”, ou “Criador nosso”, ou “Todo-poderoso nosso”. É significativo que tenha dito “Abba”.

Uma característica comum na construção da “imagem” de Deus em todas as religiões é que Ele é intocável, incompreensível, todo-poderoso, transcendente... A oração de Jesus deixa transparecer não o Deus todo-poderoso, onipotente e onipresente, mas o Deus desejoso de interagir com seus filhos e construir uma rede de relações.

A oração de Jesus mostra um Deus que possui uma enorme sede de relacionamentos; Ele é um Pai que deseja entrar em diálogo com todos. É significativo que Jesus comece a falar de um Pai que quer se aproximar de todos, sem barreiras e preconceitos.

Fixando-nos em Jesus, os nossos olhos e o nosso coração aprendem, na graça do Espírito Santo, o caminho para o Pai. No nosso interior devemos sentir que rezamos continuamente.

Na oração de Jesus, nenhum ser humano foi excluído, nenhum errante foi rejeitado, nenhum sacrifício foi pedido, nenhum dogma proclamado, nenhuma lei estabelecida... Sua oração é instigante e provocativa, que nos liberta do cárcere da rotina, resgata-nos do entorpecimento e nos dá um choque de lucidez: a consciência de que somos conduzidos por uma presença amorosa.

Não se pode rezar de qualquer jeito e com qualquer disposição a oração que o Senhor nos ensinou.

Para Jesus de Nazaré, Deus não quer que os seres humanos tremam em Sua presença, mas que tenham intimidade com Ele; não quer demonstrar poder que desperta medo, mas sensibilidade que alimenta proximidade; não quer controlá-los, mas fomentar sua liberdade.

Segundo Jesus, o Deus que se esconde atrás da cortina do tempo e do espaço não é um Deus juiz a ser temido, mas um Pai sensível, providente, cuidadoso, que quebra distâncias e se aproxima de todos.

Aproximando-nos da oração de Jesus, percebemos que tudo se concentra em torno à expressão vocativa que abre a oração: “Abba!”. É sempre em torno da descoberta do Pai que nos situamos. Mais do que rogar por esta ou por aquela necessidade ou interceder pela satisfação de qualquer carência, o que se pede a Deus é que Ele seja “Pai”. Segundo o Cardeal José Tolentino, “Pai!” é um grito íntimo e aberto de fé, de alegria, esperança e amor; um canto de reconhecimento pelo fato de sermos verdadeiros(as) filhos(as) de Deus. Mas é também uma súplica, um gemido, que brota do nosso ser mais profundo, reconhecendo a nossa distância, a nossa pequenez, a nossa fragilidade...

Através de sua oração, Jesus comunica aos seus discípulos e a todos nós o direito de também dizer “Abba”. Ele ativa em todos nós a participação na sua condição de Filho e, porque somos seus discípulos(as), abre a oportunidade de nos dirigir ao Pai celeste com a confiança de uma criança.

Aqui, o nosso desejo se orienta fraternalmente em direção ao próprio desejo de Jesus.

Temos a mesma Origem, a mesma Fonte que Jesus: “Eu e o Pai somos um (Jo 10,30); esta é uma frase que nós também podemos repetir.

Porque, neste momento, a vida que respira em nossos pulmões, que pulsa em nossos corações, não está separada da Fonte da Vida. É preciso, pois, tomar consciência desta relação com a Fonte do Ser que Jesus chama “Abba”, que é seu Pai e nosso Pai, é sua Origem e nossa origem, e também origem do mundo.

O coração do ser humano é este lugar onde o universo inteiro clama: “Abba, Pai-Mãe”.

Um monge do Monte Athos dizia: “Quando eu digo “Abba”, o mundo inteiro está presente”.

A oração revolucionária de Jesus, portanto, nos descentra e nos move em duas direções: na primeira, nosso olhar e nosso coração se dirigem ao Pai (santificação do seu Nome, vinda do seu Reino).

Na segunda, movidos por uma atitude filial, nos dirigimos às nossas necessidades (o pão, o perdão, a força contra a tentação).

Estas duas dimensões não devem jamais ser separadas, porque o Senhor as uniu em sua oração.

Invocar Deus como “Abba” nos irmana a todos, reforça nossos vínculos e nos expande a viver a comunhão com todos. Por isso, a invocação do “pão de cada dia” é um ato de e de abandono ao Pai celeste, o qual “bem sabe que precisais de tudo isto” e nos alimenta (Mt 6,28-32).

É necessário pedir o pão, reconhecendo a nossa dependência para com a divina Providência.

O fato de que Deus cuida de cada um de nós não é motivo para não estendermos a mão a Ele.

Devemos fazê-lo, precisamente, para reconhecer a sua solicitude.

O cristão pede o “pão” para si e para os outros; ele não se sente como filho único de Deus, mas sim como membro de uma comunidade de irmãos.

“Dá-nos o pão nosso” significa também: “concede que saboreemos juntos o teu dom”.

Comer nunca significa um mero ato biológico de ingerir alimentos; é sempre um ato comunitário e um rito de comunhão. À mesa eucarística, onde se parte o pão do Senhor, o cristão aprende a partir e a partilhar o “pão de cada dia” com os outros.

Além disso, o pão que comemos esconde toda uma rede de relações anônimas; antes de chegar à mesa, ele passou pelo trabalho de muitos braços; há muitas lágrimas e suor escondidos em cada pão, como também há muito de solidariedade e partilha. Portanto, o pão que é produzido junto deve ser repartido junto e consumido junto. A mesma necessidade básica nos iguala a todos; a satisfação coletiva nos confraterniza. Só então podemos, verdadeiramente, pedir: “o pão nosso de cada dia”.

Rezamos a Deus para permanecermos “pobres”; a nossa única riqueza é o amor do Pai. De fato, só o pobre pode fazer essa oração, porque crê que hoje e amanhã é Deus que o sustenta. Ele não pede coisas supérfluas, mas simplesmente um pedaço de pão para poder viver “hoje”. Não pede riquezas nem a abundância de bens terrenos, com os quais poderia assegurar o seu futuro; pede o que necessita, o que lhe é indispensável para viver hoje. Além disso, ele sabe que este pão falta a muitos; por isso, pede para si e para todos os necessitados como ele. Nos lábios do rico esta oração soa como uma mentira.


Texto bíblico: Lc 11,1-13

Na oração:

Rezar o Pai-Nosso utilizando o Segundo modo de orar, proposto por Santo Inácio, ou seja, “Contemplar o significado de cada palavra da oração”

- Dizer palavra por palavra. Exemplo: Pai-Nosso.

- Considerar esta palavra enquanto encontrar significados, sentidos novos, comparações, gosto e consolação, em considerações relacionadas com a mesma, sem se preocupar em passar adiante.

Legado de Santo Inácio de Loyola: a Espiritualidade Inaciana

Durante o mês de julho publicaremos semanalmente um texto para celebrar a vida e memória de Santo Inácio de Loyola. Esse texto também estará disponível em áudio (podcast) no canal Rezando o Evangelho no Spotify e em outras plataformas de áudio.  O terceiro texto aborda de maneira sintética a Espiritualidade Inaciana como legado da vida e trajetória de Santo Inácio de Loyola. Boa leitura! Que Santo Inácio nos ensine a ser e buscar sempre o Magis!

Muitas escolas de espiritualidade se desenvolveram ao longo de toda a história do cristianismo como um caminho inspirado pelo Evangelho, pelo qual se procura seguir Jesus. Nessa perspectiva, cada espiritualidade assume formas próprias: na relação com Deus, no estilo de vida e no modo como se compromete com a transformação do mundo.

A Espiritualidade Inaciana enraíza-se na experiência de Santo Inácio e nos Exercícios Espirituais. Inácio de Loyola vivia convicto de que Deus habita e trabalha em tudo o que existe e acontece. A vida espiritual não se resume a momentos de oração ou à celebração dos sacramentos, mas implica identificar-se com Jesus, procurando e encontrando Deus e a Sua vontade em todas as coisas. Esta procura exige viver numa atitude de discernimento. Implica também recordar que o ser humano não se inventou a si próprio, sendo convidado a reconhecer todo o bem recebido e a viver agradecido.

Com base na experiência de Inácio de Loyola, os Exercícios Espirituais (EE) constituem um método que nos ajuda a lidar com a nossa dimensão interior. Os EE nos expõem à ação de Deus e ao seu convite para que tenhamos uma vida plena de serviço gratuito. Os EE são uma ginástica espiritual, uma experiência pessoal de Deus que transforma a vida e liberta o coração de tudo o que o impede de ser livre e fazer a vontade de Deus.

Podemos dizer que os EE são a porta de entrada da Espiritualidade Inaciana. Os EE foram pensados por Inácio para serem feitos em 30 dias, mas podem ser adaptados para períodos mais curtos. Há ainda a possibilidade de fazer os EE na vida quotidiana sem que seja necessário retira-se para algum lugar específico. Na sua versão completa, os EE dividem-se em quatro etapas designadas por semanas. Ainda que feitos em grupo, os EE são uma experiência pessoal de encontro com Deus, adaptando-se ao que cada pessoa está vivendo. Esta adaptação é feita com a ajuda de um acompanhante espiritual que orienta os EE.

Os EE são um caminho de identificação com Jesus e com o seu estilo de vida. Uma forma de estar em que, libertos de preconceitos e rótulos, aprendemos a amar livremente, e nos disponibilizamos a servir a todos. Os EE nos auxiliam a perceber o modo concreto como, em cada momento da nossa vida, Deus nos convida a colaborar com o seu Reino, tornando o mundo mais justo.

Os EE nos auxiliam a ordenar a nossa vida. Provavelmente isso implicará que, ao longo do processo, experimentemos dificuldades e resistências, desânimos e agitações, mas também alegrias e esperanças. Ao começar os EE ninguém pode saber aonde Deus vai levá-lo, mas podemos estar certos que seja onde for, só pode ser bom e para nosso bem.

A quem deseja fazer os EE, pede-se generosidade e confiança. A generosidade de procurar estar inteiro e sem reservas. Uma atitude de confiança em Deus, no processo e em que o acompanha. Os EE estão pensados para pessoas que desejam encontrar-se com Deus, procurando a conversão contínua a um modo mais livre de amar. Destinam-se aos que sabem que precisam de algo mais [Magis] na sua vida e que são atravessadas pela busca de sentido que Jesus nos oferece.

A espiritualidade sempre será um caminho que nos ajuda a ter intimidade com Deus. A mística da Espiritualidade Inaciana está intrinsecamente enraizada na realidade cotidiana. A lógica da espiritualidade inaciana nos propõe a adotar a realidade como matéria e base para a oração, a partir das seguintes perspectivas:

- Considerar a realidade: Considerar como fomos criados por Deus e qual o fim da nossa vida: “Louvar, servir e reverenciar a Deus Nosso Senhor e mediante isto salvar a sua alma. As outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem e para o ajudarem na consecução do fim para o qual é criado” (EE 23).

- Meditar a realidade: Propõe-se pedir perdão pela forma como vivemos e estamos nos relacionando com o ser humano e com a natureza; pelo modo como olhamos distantes a realidade e não nos envolvemos com ela, a fim de cuidar das feridas e vidas.

- Contemplar a realidade: Devemos pedir a graça de não sermos surdos ao chamado de Nosso Senhor, “mas sermos prontos e diligentes para cumprir a Sua santíssima vontade […]” (EE 91).

- Esperançar uma nova realidade: Devermos ser anunciadores de um Deus que nos ama e trabalha sempre, cuidando, resgatando o ser de cada criatura, em vista do Reino definitivo.

Inácio afirma nos EE que “não é o muito saber [nem o muito fazer] que sacia e satisfaz a pessoa, mas o sentir e saborear as coisas internamente.” E, à medida em que dermos a primazia à interioridade, podemos ter a certeza que daremos ainda muito mais frutos, tanto no saber quanto no fazer. Aquilo que Inácio nos propõe nos EE é impressionantemente rico e atual para o desenvolvimento pessoal, sobretudo por nos ensinar a desenvolver, de maneira integrada, os chamados “três olhos do conhecimento”: o “olho dos sentidos”, o “olho da razão” e o “olho do espírito” (Ken Wilber).

 

Proposta de reflexão: A Espiritualidade Inaciana se estrutura em uma perspectiva de desenvolvimento espiritual com os pés no chão. Colocar em oração o lugar das diversas realidades que vivencio (familiar, afetiva, profissional, social, política...) no meu diálogo com Deus e no meu agir cotidiano. 

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Organização do texto: Cláudia Cruz, membro CVX Regional Rio de Janeiro

Fontes:

A espiritualidade inaciana, uma ajuda para viver a realidade atual - José Laércio Lima, SJ. Disponível em: https://www.jesuitasbrasil.org.br/2020/08/10/a-espiritualidade-inaciana-uma-ajuda-para-viver-a-realidade-atual/

Espiritualidade Inaciana – Província Portuguesa da Companhia de Jesus. Disponível em: https://pontosj.pt/jesuitas/espiritualidade-inaciana/

Espiritualidade inaciana: um modo de ser uma escola de vida - Adroaldo Palaoro, SJ. Disponível em: http://centroloyola.com.br/espiritualidade-inaciana-um-modo-de-ser-uma-escola-de-vida.html

Exercícios Espirituais – Província Portuguesa da Companhia de Jesus. Disponível em: https://pontosj.pt/jesuitas/exercicios-espirituais/

Exercícios Espirituais: transformação a partir do interior - Luís Maria da Providência, SJ. Disponível em: https://pontosj.s3.eu-west-2.amazonaws.com/wp-content/uploads/sites/13/2018/02/14161324/EE-Transformacaoo-a-partir-do-interior.pdf

quinta-feira, 14 de julho de 2022

O ativismo trava a mística do encontro

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 16º. Domingo do Tempo Comum (Ano C).

“Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas” (Lc 10,41

No evangelho de Lucas, o caminho de Jesus a Jerusalém marca uma progressiva manifestação do Reino. À medida que avança em seu percurso, Ele vai despertando e preparando seus(suas) seguidores(as) a viver as atitudes indispensáveis de um(a) verdadeiro(a) discípulo(a): a presença compassiva, o espírito de acolhida, o abandono das pretensões de poder, a escuta de sua Palavra... Tais atitudes exigem romper com o ritmo estressante da vida para que todos se coloquem, serena e atentamente, aos pés do Mestre. Esta eleição, que aos olhos da eficiência pode parecer superficial e inútil, é uma condição fundamental para chegar a ser um(a) autêntico(a) discípulo(a).

No seu caminho em direção a Jerusalém, o evangelho deste domingo nos revela que Jesus é recebido por duas irmãs, numa casa de família. Este episódio é algo surpreendente. Os discípulos que acompanham a Jesus desaparecem da cena. Lázaro, o irmão de Marta e Maria, está ausente. Na casa da pequena aldeia de Betânia, Jesus se encontra a sós com duas mulheres; ao hospedarem Jesus, o cotidiano de Marta e Maria se altera por completo; elas precisam modificar os próprios hábitos, os próprios ritmos, reordenar as próprias atenções e ocupações.

Com o “Senhor” em casa, tudo muda; graças a Ele, tudo deve encontrar uma nova “ordem”. Jesus, o peregrino sem casa, está no centro de todas as atenções que uma verdadeira hospitalidade exige.

No entanto, Marta e Maria reagem de maneira diferente no encontro com o Mestre ilustre.

Aqui nos deparamos com duas atitudes diferentes. Uma, de total atenção e escuta; outra, de ansiedade, devido aos afazeres habituais e distração. Maria, sentada aos pés de Jesus, põe-se à escuta das suas palavras; Marta, ao invés, fica totalmente tomada pelas tarefas e preocupações.

Acolhendo-O e escutando-O, Maria encontra paz, serenidade, tempo, expectativa; Marta, ao contrário, não consegue encontrar a paz; agita-se, preocupa-se, fica insatisfeita, desconcentrada, em contínua ação. Ativismo sem sentido, sem intenção, sem motivação...

O ritmo da vida cotidiana tinha aprisionado a Marta, tornando-a surda à escuta da Palavra. Ele recebe Jesus, mas não o escuta. Embora Jesus entre em sua casa, ela o deixa à porta.

Maria, ao contrário, compreende bem o projeto de Jesus e rompe com os preconceitos culturais de sua época. Sua atitude é surpreendente pois está ocupando o lugar próprio de um “discípulo”, que só correspondia aos homens. Em lugar de andar atarefada com as atividades domésticas “próprias das mulheres”, “sentou-se aos pés do Senhor e escutava sua palavra”. Este gesto, reservado culturalmente aos discípulos varões, a confirma como discípula. De fato, Maria fez a melhor opção: decidiu aprender a escutar a Palavra e se deixa interpelar pela presença do Mestre.

Marta, ao fadigar-se com o interminável trabalho da casa, questiona a contraditória atitude de Maria e interpela o Mestre para que sua irmã, como mulher, se “coloque no seu devido lugar”. No fundo, o que ela pede a Jesus é que mande sua irmã voltar às tarefas próprias de toda mulher e deixe de ocupar o lugar reservado aos discípulos varões.

Jesus lhe dá uma resposta inesperada: felicita Maria porque acertou em sua eleição e repreende Marta por deixar-se envolver pelas preocupações cotidianas sem atender ao que é mais importante.

Em nenhum momento Jesus critica Marta por sua atitude de serviço, tarefa fundamental em todo seguimento d’Ele, mas a convida a não se deixar absorver por seu trabalho a ponto de perder a paz. E recorda que a escuta de sua Palavra deve ser prioritária para todos, também para as mulheres, e não uma espécie de privilégio dos varões. Jesus não despreza a acolhida de Marta, mas seu modo de trabalhar, nervosa, sob a pressão de muitas ocupações. Ele a alerta, e a todos nós, do perigo de viver absorvidos pelo excesso de atividades, apagando em nós a paz, contagiando nervosismo e cansaço e esvaziando a mística da acolhida.

Tem sido frequente ler este texto em chave dualista, reforçando a superioridade da “vida contemplativa” sobre a “vida ativa”. No entanto, o sentido original do texto está no fato de afirmar a primazia do discipulado acima de qualquer outra atividade. Com efeito, a expressão “estar sentado(a) aos pés de Jesus” constitui a atitude fundamental do “ser discípulo(a)”.

O texto imediatamente anterior, onde o bom samaritano aparece como um modelo por sua ação solidária, impede interpretar a cena de Betânia como uma desqualificação da ação em favor da contemplação; o contexto chama a atenção diante de uma maneira de agir que não nasce da escuta da Palavra, mas do próprio ativismo compulsivo. A escuta da Palavra inspira e dá sentido a toda ação. Ativismo ou ação insensata (sem sentido) revela auto-centramento, comparação, competição, queixa...

Marta se precipita em “fazer” e este “fazer” não nasce de uma escuta atenta da palavra de Jesus, correndo o perigo de se converter em um estéril girar sobre si mesma. Ela se limita, apesar de sua boa intenção, a acolher Jesus em sua casa. Maria, no entanto, o acolhe “dentro de si mesma”, oferece-lhe hospitalidade naquele espaço interior, secreto, e que está reservado só para Ele. Marta oferece “coisas” a Jesus; Maria oferece a si mesma; ela elegeu a “melhor parte”. Marta, ao querer que não faltasse nada ao hóspede importante, acaba deixando passar clamorosamente por alto “a única coisa necessária”.

Podemos pensar que Marta e Maria, mais que duas pessoas, são duas atitudes, duas tendências que todos temos e somos na vida. Muitas vezes vivemos num ativismo desenfreado e acabamos perdendo o fluxo de uma vida mais harmoniosa, integrada e pacificada.

Somos seres de ação, mas também somos seres necessitados de calma, serenidade, contemplação...

Como integrar Marta e Maria, como harmonizar ação e contemplação? Eis a questão!

Segundo o místico Eckhart, trata-se de deixar subir o que vem do fundo, de executar ações assinaladas pelo selo da interioridade e da profundidade.

       “Vai para o teu próprio fundo e lá age! Com efeito, todas as obras que aí executas, vivem!”

Não se trata, portanto, de qualquer ação, mas daquela que vem das profundezas.

A ação que tem sabor e frescor de “nascente”: a ação contemplativa ou o “agir tranquilo”.

Nós, hoje, nos deparamos com um ritmo de vida mais agitado que em épocas anteriores. Os meios proporcionados pela tecnologia para economizar tempo também multiplicam as ocupações e acabam fazendo-nos cair num ativismo desenfreado. E o excesso de preocupações nos leva a esquecer do fundamental...

Nervosismo, inquietação, queixa, confusão, sofrimento... nascem sempre como consequência de nossa identificação com o eu separado. Esse é o “pecado original” porque, nessa crença errônea se origina a ignorância radical que se traduz irremediavelmente em sofrimento.

Desse modo, nossa vivência como discípulos(as) se converte em um tímido cumprimento de algumas normas e obrigações religiosas, sem espaço para o silêncio e a escuta da Palavra. Somos exortados, somos bombardeados continuamente com mensagens que nos cobram ser mais eficazes, produtivos e competitivos. Mas, com Marta e Maria, Jesus nos interpela e nos chama a investir no essencial: colocar-nos a seus pés para escutar sua palavra.

Texto bíblico: Lc 10,38-42

Na oração:

Acolher o convite para entrar na própria casa (interioridade), espaço do encontro com o Divino Mestre.

- Des-vele (tire o véu) as preocupações, agitações, ansiedades... ali presentes.

- Seja casa aberta e acolhedora, onde o Senhor vem ao seu encontro para lhe falar ao coração. O encontro com Ele se prolonga no encontro acolhedor com os outros.

quarta-feira, 13 de julho de 2022

Legado de Santo Inácio de Loyola: a Companhia de Jesus

Durante o mês de julho publicaremos semanalmente um texto para celebrar a vida e memória de Santo Inácio de Loyola. Esse texto também estará disponível em áudio (podcast) no canal Rezando o Evangelho no Spotify e em outras plataformas de áudio. 

O segundo texto aborda de maneira sintética a Companhia de Jesus como legado da vida e trajetória de Santo Inácio de Loyola. Boa leitura! Que Santo Inácio nos ensine a ser e buscar sempre o Magis!

As experiências espirituais e peregrinações de Inácio de Loyola em busca do princípio e fundamento da sua existência o colocaram em contato com muitas pessoas. Especificamente na Universidade de Paris, Inácio reuniu alguns companheiros, que formaram um grupo a partir do qual se deu a fundação da Companhia de Jesus.

Aquele grupo de companheiros tinha o desejo de se dedicar ao bem dos filhos e filhas de Deus, buscando imitar Cristo, peregrinar a Jerusalém e se colocar à disposição da Igreja. Em 15 de agosto de 1534, na capela de Montmartre, em Paris, os companheiros fizeram votos com esses propósitos. Era o início da Companhia.

O projeto inicial dos companheiros de Jesus de peregrinar a Jerusalém e lá se colocar a serviço foi adiado por tensões político-territoriais da época, então eles se estabeleceram em Roma e se dedicaram a pregar e a efetuar obras de caridade na Itália.

A Companhia de Jesus (em latim, Societas Iesu, S. J.) foi aprovada oficialmente pelo Papa Paulo III em 1540, por meio da bula Regimini militantis Ecclesiae. No ano seguinte, Inácio foi eleito o primeiro superior geral da Ordem, e passou a viver em Roma, onde se dedicou à função de preparar e enviar os jesuítas aos “novos mundos” para pregar o Evangelho de Jesus Cristo, combater os avanços do protestantismo e expandir as fronteiras da Igreja.

Nos primeiros anos da sua trajetória, a Companhia de Jesus passou por diversas adversidades, tanto de natureza econômica, por não possuir fontes permanentes de renda, quanto relacionadas à aceitação por parte da sociedade eclesial da época, marcada pelas tensões da Inquisição. Inácio, porém, manteve-se firme diante das adversidades que surgiram, pois tinha confiança plena de que a missão da Companhia tinha em vista Ad Majorem Dei Gloriam (a maior glória de Deus).

Na perspectiva de um mundo em expansão na segunda metade do século XVI, a Igreja necessitava de missionários para terras longínquas, como as Américas e o Oriente. E os jesuítas assumiram essa missão de modo marcante ao longo da história.

À época do falecimento de Inácio (31 de julho de 1556), a companhia contava com cerca de 1.000 jesuítas, espalhados em mais de 100 casas, organizadas em diversas províncias e também era responsável por cerca de 40 colégios. Atualmente, a Companhia de Jesus constitui uma das maiores ordens religiosas ligadas à Igreja Católica, congregando milhares de membros (padres e irmãos), e respondendo pelas atividades de centenas de universidades e colégios.

A despeito da sua singificativa expansão inicial, a Companhia de Jesus teve na supressão um dos episódios mais difíceis da sua história. Desde a sua fundação, a Companhia teve uma trajetória de controvérsia e confrontamento. Por ter adotado princípios missioneiros e dialógicos, as estratégias de evangelização e inserção cultural dos jesuítas atraíram críticas da própria Igreja. Além disso, a influência política e social crescente dos jesuítas, que se tornaram notórios educadores e administradores, incomodava tanto as outras ordens quanto as monarquias absolutistas da época. Esse contexto foi o cenário da supressão da companhia pelo Papa Clemente XIV em 1773, sendo restaurada somente em 1814, pelo Papa Pio VII. Após esse episódio, a Companhia de Jesus reafirmou sua unicidade e seus propósitos iniciais.

Além de serem responsáveis por muitos sinais da Evangelização nas Américas e do Oriente, os jesuítas contribuíram com relevante atuação na formação de atores sociais e políticos em diversos territórios de missão. No campo espiritual, são os principais responsáveis pela escola de espiritualidade fundada por Santo Inácio, com a difusão dos Exercícios Espirituais entre religiosos e leigos.

Em entrevista concedida em 2017, Arturo Sosa (atual superior geral dos jesuítas e primeiro não europeu) afirmou que, para a Companhia de Jesus e, portanto, para todos os jesuítas, é fundamental e necessário ser criativamente fiéis à própria vocação e à missão. Segundo o padre geral, é necessário, a partir do olhar de Santo Inácio, continuamente percorrer o caminho do retorno às fontes originais.

O Pe. Arturo Sosa afirma que “hoje, a Companhia deve encontrar, a cada dia, o caminho para pôr em prática a reconciliação. Em três níveis: com Deus, com os seres humanos, com o ambiente. Somos colaboradores da missão de Cristo, razão de ser da Igreja de que fazemos parte. E justamente a experiência de Deus nos restitui a liberdade interior e nos leva a dirigir o olhar para aqueles que estão crucificados neste mundo, para entender melhor as causas da injustiça e contribuir para elaborar modelos alternativos ao sistema que hoje produz pobreza, desigualdade, exclusão e põe em risco a vida sobre o planeta. Assim, devemos restabelecer uma relação equilibrada com a natureza. Contribuir com essa reconciliação significa também desenvolver a capacidade de diálogo, entre as culturas e entre as religiões”.

Reflexão: Após mais de 400 anos de existência da Companhia de Jesus, com adversidades e avanços, há um reconhecimento de que é necessário percorrer o caminho do retorno às fontes originais.  Proposta: Fazer memória dos altos e baixos da sua jornada pessoal e espiritual e identificar quando foi necessário retomar os propósitos iniciais e fundantes da sua vida.

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Organização do texto: Cláudia Cruz, membro CVX Regional Rio de Janeiro

Fontes:

Santo Inácio de Loyola, o fundador (https://www.jesuitasbrasil.org.br/institucional/santo-inacio-de-loyola/)

Biografia Santo Inácio de Loyola (http://www.santoinaciosp.com.br/biografia-santo-inacio-de-loyola/)

Da supressão à “Restauração” (1773-1814): A Companhia de Jesus, entre continuidade e descontinuidade (https://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/5756-luiz-fernando-rodrigues)

A missão da Companhia de Jesus hoje. Entrevista com Arturo Sosa (https://www.ihu.unisinos.br/categorias/570167-a-missao-da-companhia-de-jesus-hoje-entrevista-com-arturo-sosa