sexta-feira, 17 de julho de 2026

Semente e fermento: dinamismos de vida que querem se expandir

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 16º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“O reino dos céus é como uma semente...; é como o fermento que uma mulher mistura na farinha”

 

Sabemos por experiência que as imagens e parábolas (mais que as ideias) são as que nos movem em todos os níveis, despertando e renovando a vida.

Assim, da passividade de ler e refletir, somos convidados a ser cada vez mais ativos, imaginando e rezando, através dasimagens parábolas; elas nos convidam a ir além delas mesmas para encontrarmos com nosso Deus. As imagens, símbolos e parábolas são a melhor linguagem para recolher, de alguma maneira, esta experiência, que transborda sobre os nossos conceitos e repercute nas dimensões mais profundas de nossa intimidade. Elas põem em movimento outras dimensões de nosso ser (além do entendimento), igualmente importantes para que a experiência da oração nos conduza a uma interioridade maior.

O uso de imagens e parábolas foi muito frequente na Bíblia. O próprio Jesus se revelou um grande artista na construção de parábolas. Através delas, Ele nos ajuda a “ver” no centro da realidade “o que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração humano não percebeu” (1Cor 2,9), ou seja, a realidade impensável do Reino de Deus no meio de nós, emergindo como dom.

Jesus, profundo conhecedor do ser humano, insiste muito no uso das imagens e parábolas como ativadoras da imaginação. Na realidade, grande parte dos relatos evangélicos nos coloca diante de cenas, imagens e realidades, despertando nosso potencial imaginativo e envolvendo-nos ativamente no “mistério”.

Em nossa imaginação se esconde uma fonte, rica e não aproveitada, de vida e de força.

O uso da imaginação, longe de ser uma fuga da realidade, nos ajuda a mergulhar com maior profundidade na realidade presente, para captá-la melhor e abordá-la com vigor renovado.

Para Jung a linguagem do interior é visual e não verbal. Por isso, as imagens, símbolos e parábolas são o meio para expressar emoções e significados que não podemos articular. Elas nos ajudam a continuar adquirindo novas experiências, a conservá-las e a comunicá-las.

Jung denomina “imaginação ativa” ao processo de “trabalhar” com as imagens e parábolas, para conseguir uma maior abertura a seu significado. Através dos diferentes tipos de imaginação ativa há uma aproximação ao eu mais profundo, onde habita Deus; chegar ao nosso “eu interior” é também encontrar-nos com Deus como fonte e centro de nosso ser.

Ser seguidor(a) de Jesus é isto; é entrar na dinâmica da semente e do fermento, tomar consciência de que somos pequenos e frágeis, mas também de que Deus pôs em nosso interior uma energia e uma vitalidade surpreendentes, puro dom do seu Espírito. E esta força é aquela que nos transforma e vai transformando a realidade que nos cerca, aquela que vai fazendo presente o Reino, por obra do mesmo Espírito, não por nossas conquistas ou voluntarismos. Na escuridão da terra a semente se prepara, se concentra, se entrega..., para a explosão de vida; no escondimento da massa de trigo o fermento revela-se como força de crescimento.

Quando Jesus apresenta seu ensinamento através de parábolas não pretende oferecer enigmas difíceis de resolver nem mensagens ocultas que é preciso desvelar. Ele busca oferecer esperança e sentido àqueles que sentem suas vidas destruídas, se sentem cansados e marginalizados. Com uma linguagem instigante e simples, Jesus fala da ação amorosa e do Pai na história das pessoas que, a partir de suas vivências cotidianas, o sentem como uma presença próxima e providente, cheia de ternura e cuidado: algumas sementes, um pouco de fermento, um tesouro escondido... São imagens que falam de confiança numa vida diferente, que mostram um Deus que é misericórdia, paciência e perdão e que só quer salvar seus filhos e filhas.

Além disso, suas parábolas são um convite a comprometer-se com a mudança, tanto interna quanto externa, a estar atentos aos sinais que indicam o caminho, a sustentar-se com paciência ativa nos processos que transformam, como o fermento, a semente... 

Se todas as parábolas de Jesus deixam transparecer, como pano de fundo, o verdadeiro rosto de Deus, na parábola do joio e do trigo Ele nos revela um modo original do seu Pai agir, em contraste com o nosso modo mesquinho habitual de proceder. O modo de agir de Deus é um chamado desconcertante que diz respeito a todos e que, ao mesmo tempo, nos faz ver que, provavelmente, o “trigo” e o “joio” estão presentes e crescem juntos no interior de cada um de nós.

“Deixai-os crescer juntos até a colheita!” Quão difícil é respeitar o “tempo”; normalmente falta-nos paciência e respeito ao ritmo de cada pessoa. Deixar crescer junto é um chamado a confiar pacientemente em que tudo está envolvido pela presença providente de Deus que, a seu devido tempo, fará brilhar a verdade, a bondade e a justiça.

Quantas vezes cremos que estamos semeando boa semente, em nosso ambiente, em nossas famílias e comunidades e, inclusive, em nós mesmos. No entanto, que descobrimos que está crescendo de maneira sorrateira e sem nosso consentimento? Por mais sinceros e justos que sejamos, aos poucos vamos tomando consciência da presença das “ervas daninhas” da mentira, da intolerância, da mesquinhez... que acabam abafando as boas sementes que nos habitam e que querem se expandir (a compaixão, o amor, a bondade...)

Também as imagens da pequenina semente de mostarda e do fermento misturado na massa são inspiradoras e apontam para as dimensões mais profundas em nossa vida. Ser fermento na massa não é ser a “cereja do bolo”; a semente, quando mergulhada no chão escuro da terra, desaparece, e não a vemos mais até que se transforme em árvore. O fermento desaparece na massa. E a “massa” é a nossa realidade existencial, atravessada por forças divinas misturadas com as fragilidades humanas; somos argila que carrega o “Sopro do Espírito”. Somos chamados a descer em nossa “massa”, a deixar que a semente da Palavra se misture e seja amassada nela, até “desaparecer” ..., para fermentar tudo a partir de dentro.

Os ouvintes de Jesus sabiam que o fermento fica “escondido”, mas não permanece inativo. De maneira silenciosa e oculta vai fermentando e fazendo crescer a massa do pão. Assim está Deus atuando a partir do interior da vida. Ele não se impõe a partir de fora, mas nos transforma a partir de dentro; não domina com seu poder, mas nos atrai com seu amor para o bem; não força a liberdade de ninguém, mas se mistura com nossa condição humana para tornar mais ditosa nossa vida. 

Assim também devemos nós agir se quisermos abrir caminhos para o Reinado do Pai.

O fermento é pouco em comparação com a grande quantidade de farinha de trigo, mas ele fermenta tudo. Muitas vezes, o Reino de Deus não é visível nem perceptível, ele é uma instância interior que não podemos segurar em nossas mãos. Mesmo assim, podemos saber que Deus nos envolve completamente e cabe a nós permitir que o fermento do Espírito divino atravesse em todas as dimensões da nossa existência humana. 

Então, tudo se transformará em pão que nutre, nosso espírito dará fruto, não só para nós mesmos, mas para os outros. Nossa vida não mais será determinada por medos, mas pela presença providente de Deus. 

E todo nosso ser se tornará poroso, permeável à ação do Pai. Assim, nós daremos sabor à vida e a beleza divina transparecerá no nosso modo de ser e viver; seremos mais verdadeiros e felizes.


Plantando sementes… dando os frutos

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 13,24-43

 

Na oração:

Na intimidade com o Senhor, vamos aprendendo a viver a fé de maneira humilde, sem fazer muito ruído nem dando grandes espetáculos. Já não cultivaremos desejos de poder e prestígio; não gastaremos nossas forças em grandes operações de auto-imagem. Buscaremos o essencial; caminharemos na verdade de Jesus.

- Seguindo seus passos, buscaremos viver como a semente ou como o fermento de vida sadia que se dilui humildemente para dar sabor evangélico e fazer crescer os dinamismos de vida, em nós mesmos e nos outros.

- Contagiaremos em nosso entorno o estilo de vida de Jesus e irradiaremos a força inspiradora e transformadora de seu Evangelho. Passaremos a vida fazendo o bem, como Ele.

Pérolas Inacianas - Dia 17: O que é a Desolação Espiritual?

"Chamo desolação (...) a escuridão da alma, a perturbação nela, a moção para as coisas baixas e terrenas." (Santo Inácio de Loyola - Exercícios Espirituais, 317)

Se a consolação é o sol, a desolação é a tempestade na alma. Trata-se daquele estado de tibieza, tristeza, aridez e sensação de afastamento de Deus. Na desolação, a oração parece pesada, as dúvidas aumentam e a tentação de desistir dos bons propósitos bate à porta. Inácio de Loyola, que viveu crises intensas em sua temporada em Manresa, compreendia perfeitamente esse estado e nos deixou regras claras para não nos perdermos no meio da névoa.

O primeiro passo para vencer a desolação é entender que ela faz parte da experiência humana e espiritual. Deus não nos abandonou; muitas vezes, Ele permite a aridez para testar nossa fidelidade e nos amadurecer. Em vez de nos desesperarmos, Inácio nos convida a resistir com paciência, lembrando que a luz sempre volta a brilhar após a noite escura.

A Noite Escura da Alma: O que é e como atravessar os períodos de desolação  espiritual - Valter Cichini Jr:. Psicanalista


Para colocar em prática hoje:

Caso sinta momentos de desânimo ou preguiça espiritual ao longo do dia, não corte suas orações ou compromissos. Pelo contrário, estenda o seu momento de oração por mais um minuto como um ato de resistência.


-- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Pérolas Inacianas - Dia 16: O que é a Consolação Espiritual?

As pérolas inacianas da terceira semana (Dias 16 a 23) vão abordar a arte do Discernimento e da Oração, com foco nas práticas de espiritualidade que Inácio deixou para o cotidiano. Eis a nossa décima sexta pérola:


“Chamo consolação todo o aumento de esperança, fé e caridade e toda a alegria interior que chama e atrai às coisas celestiais”. (Santo Inácio de Loyola - Exercícios Espirituais, 316)


A consolação espiritual é aquele momento em que a alma respira aliviada. Não se trata de uma alegria superficial ou passageira, mas de uma paz profunda que nos conecta diretamente com o Criador. Quando estamos consolados, sentimos uma facilidade maior para amar, servir e perdoar. É como se os olhos do coração se abrissem para enxergar a bondade de Deus em cada detalhe, aquecendo a nossa fé mesmo diante das dificuldades do cotidiano.

Identificar essas moções internas é fundamental para o autoconhecimento espiritual. Inácio nos ensina que a consolação nos fortalece para os tempos difíceis que inevitavelmente virão. Saborear esses momentos, agradecer por eles e registrar o que sentimos são formas de armazenar “combustível” na alma, garantindo que a nossa caminhada continue firme e generosa.


Conceito De Equilíbrio Emocional Ilustração do Vetor - Illustration of  positivo, harmonia: 246205960


Para colocar em prática hoje:

Reserve um momento do seu dia para recordar um momento recente em que você sentiu uma paz profunda e inexplicável. Agradeça a Deus por esse instante e anote o que causou essa sensação.


-- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Pérolas Inacianas - Dia 15: Sofrer e alegrar-se com Cristo

"Pedir dor com Cristo doloroso, quebranto com Cristo quebrantado... e depois pedir graça para me alegrar e gozar intensamente de tanta glória e alegria de Cristo ressuscitado." - (Inácio de Loyola - Exercícios Espirituais, 203, 221)


As últimas semanas dos Exercícios Espirituais nos levam a contemplar os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Inácio nos ensina a pedir uma graça muito específica na oração: a empatia espiritual. 

Não olhamos para a cruz como historiadores distantes, mas como amigos íntimos que sofrem com o sofrimento de Cristo, reconhecendo que Ele assumiu as nossas dores por amor. Da mesma forma, diante da Ressurreição, Inácio nos convida a nos alegrarmos não por nós mesmos, mas puramente pela alegria e vitória de Jesus.

Essa alternância entre a dor e a glória consolida a nossa maturidade espiritual. Ela nos ensina a abraçar a totalidade da vida humana sem ilusões. Quando passamos por momentos de luto, fracasso e cruz, sabemos que estamos unidos a Cristo quebrantado; quando vivemos momentos de conquista, paz e celebração, transbordamos da alegria de Cristo ressuscitado. Em ambos os cenários, a nossa vida ganha sentido porque permanece ancorada na pessoa de Jesus.

Armadura do Cristão


Para colocar em prática hoje:
Olhe para a sua situação de vida atual. Se você estiver passando por uma provação, una o seu sofrimento ao de Jesus na cruz. Se estiver vivendo um tempo de paz e conquistas, eleve o coração em gratidão e alegre-se intensamente com o Senhor que ressuscitou e caminha ao seu lado.

 

-- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

terça-feira, 14 de julho de 2026

Pérolas Inacianas - Dia 14: A Reforma de Vida

"Olhar em que cargo ou estado de vida está o homem... para fazer reforma e emenda na sua própria vida e estado." - (Santo Inácio de Loyola - Exercícios Espirituais, 189)

 

Os Exercícios Espirituais não foram criados para serem uma experiência isolada em um ambiente de retiro, que termina quando cruzamos a porta de saída. O objetivo final da “Terceira Semana” e da preparação inaciana é a eleição ou opção de um novo estado de vida o (Reforma de Vida). Inácio compreendia que a verdadeira conversão precisa se traduzir na forma como organizamos os nossos gastos, como gastamos o nosso tempo, como tratamos a nossa família e como conduzimos a nossa profissão.

Reformar a vida significa ordenar o que estava desordenado. É olhar para a rotina diária e retirar os excessos, estabelecer prioridades claras baseadas no amor de Deus e criar estruturas práticas que protejam a nossa paz interior. Santo Inácio nos convida a ser realistas: a santidade não se mede por belos sentimentos durante a oração, mas pela nossa capacidade de reestruturar a vida concreta para que ela seja um reflexo fiel do Evangelho.

A reforma e o plano de vida (1)


Para colocar em prática hoje:
Escolha uma área específica da sua rotina que está visivelmente desorganizada (as suas finanças, o tempo dedicado à sua família, o horário de sono ou o cuidado com a saúde). Defina uma única ação prática e concreta para começar a reformar essa área a partir de hoje.

 

-- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Pérolas Inacianas - Dia 13: Três classes de pessoas

"Três classes de homens, e cada um deles adquiriu dez mil ducados, não pura nem devidamente por amor de Deus... e todos querem salvar-se e achar em paz a Deus Nosso Senhor." - (Santo Inácio de Loyola - Exercícios Espirituais, 149-155)

 

Para nos ajudar a avaliar a sinceridade do nosso desapego, Inácio propõe uma parábola psicológica brilhante sobre três tipos de pessoas que receberam uma grande soma de dinheiro, mas perceberam que esse bem se tornou um apego que atrapalha a sua paz com Deus.

- O primeiro tipo quer se livrar do apego, mas vai adiando a decisão até a hora da morte: fala muito, mas não faz nada.

- O segundo tipo quer resolver o problema, mas quer que Deus faça a vontade dele: ele guarda o dinheiro e tenta convencer Deus de que aquilo é o melhor. Ele quer que Deus se curve aos seus planos.

- O terceiro tipo é o verdadeiramente livre: ele quer se livrar do apego de tal forma que está disposto a manter ou a entregar o dinheiro, o que quer que Deus inspirar. Ele não impõe condições ao Senhor.

Silhuetas De Cabeças De Três Pessoas. a Preto E Branco Ilustração do Vetor  - Ilustração de divertimento, companhia: 177864552

 

Para colocar em prática hoje:
Em qual dessas três classes você se encaixa quando o assunto é aquele seu apego de estimação (um mau hábito, um rancor, um controle excessivo)? 

Peça a Deus a coragem de ser como o terceiro tipo de pessoa: perfeitamente livre para o que o Senhor decidir.

 

-- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

sábado, 11 de julho de 2026

Pérolas Inacianas - Dia 12: As Duas Bandeiras

"Imaginar dois campos de batalha... um do supremo capitão e Senhor nosso, que é Cristo; o outro de Lúcifer, mortal inimigo da nossa natureza humana." - (Santo Inácio de Loyola -Exercícios Espirituais, 136-138)


A “meditação das Duas Bandeiras” é um dos pontos altos dos Exercícios Espirituais e revela a dinâmica do combate espiritual cotidiano. Inácio nos mostra que o mundo está em disputa e que somos constantemente atraídos por duas forças opostas. O inimigo da nossa natureza humana usa uma estratégia sutil e progressiva: ele nos atrai primeiro pelo desejo de riquezas, que nos leva à busca de honras e vaidades, culminando no terrível orgulho, a raiz de todos os males.

Em contrapartida, a bandeira de Cristo propõe o caminho inverso, baseado no Evangelho: a pobreza espiritual (e até material, se for para o serviço de Deus), que nos conduz ao desejo de sermos humildes e ocultos, gerando em nós a verdadeira humildade. Entender a tática das duas bandeiras nos dá uma lucidez imensa para perceber onde as armadilhas do mundo se escondem em nosso dia a dia, muitas vezes disfarçadas de falsas necessidades ou de sucesso aparente.


Os dois estandartes | Salve Maria


Para colocar em prática hoje:
Observe qual “bandeira” tem ditado as suas reações hoje. Você sentiu uma necessidade urgente de ser elogiado, de ter razão a qualquer custo ou de ostentar algo? Se sim, dê um passo atrás e peça a Jesus a graça da humildade para alinhar-se sob a bandeira Dele.

 

-- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

Pérolas Inacianas - Dia 11: O chamado do Rei Eterno

"Qualquer pessoa que tiver juízo e razão oferecerá toda a sua pessoa ao trabalho... para seguir a Cristo, Rei Eterno." - (Santo Inácio de Loyola - Exercícios Espirituais, 95-96)


Inácio usa uma imagem muito viva da sua época de soldado para ilustrar o seguimento de Jesus Cristo: o chamado de um rei terrestre e nobre a quem todos os súditos desejam seguir na batalha. Contudo, Inácio eleva essa metáfora ao apresentar o Rei Eterno, Jesus Cristo. O chamado de Cristo não é para conquistar territórios geopolíticos com armas, mas para conquistar o mundo para o amor, a justiça e a verdade, trabalhando ativamente para aliviar o sofrimento da humanidade.

Seguir o Rei Eterno exige uma postura ativa e corajosa. Jesus não nos convida para sermos espectadores passivos da fé, mas companheiros de missão. Ele caminha à nossa frente, partilhando das mesmas dificuldades, do cansaço e das incompreensões. Quem atende a esse chamado compreende que a vida cristã não é uma obrigação pesada, mas uma aventura nobre e a maior honra que um coração humano pode receber.


Minha Biblioteca Católica

 

Para colocar em prática hoje:
Ao iniciar o seu trabalho ou os seus estudos hoje, faça-o com a postura de quem está servindo nas fileiras do Rei Eterno. Diga a Cristo: “Senhor, aqui está o meu dia. Eu me ofereço para trabalhar Contigo hoje, na simplicidade das minhas tarefas.”


-- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Em cada semente, uma faísca de eternidade

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 15º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Ele lhes disse muitas coisas em parábolas” (Mt 13,3)

 

O evangelho deste domingo nos traz uma das peças bíblicas mais populares e significativas da mensagem cristã. Poderíamos entrar na cena e visualizar-nos junto àquela multidão que escutava com prazer os ensinamentos de Jesus e que, mais uma vez, geram descontinuidade com a tradição judaica.

As parábolas são um modo de ensinar característico de Jesus. São pequenos relatos muito transparentes que Ele recolhe da vida cotidiana de seu tempo. Algumas delas já pertenciam ao patrimônio cultural, para além do sentido religioso. Pois bem, Jesus não inventa as parábolas, pois elas fazem parte de um estilo de comunicação utilizado por todos os povos e culturas e pela mesma tradição rabínica. 

O que é realmente original é que elas constituem o modo próprio de Jesus falar e ensinar; por isso, as parábolas conservam o mais nuclear e original de seus ensinamentos sobre o Reino de Deus.

Na verdade, Jesus de Nazaré é a verdadeira parábola e os evangelistas captam bem essa dimensão de sua existência. Seu modo de ser, viver, pensar, agir e conviver revelam-se como profundas críticas à sociedade teocrática da época, que, em nome de Deus, rotulava e excluía, escondia interesses escusos, “abençoava” e justificava o poder constituído dos sacerdotes, anciãos, doutores da lei, escribas e fariseus.

O encontro com a mensagem de Jesus revela-se um choque que questiona tudo e todos. A relação com Ele exige total redirecionamento da vida. Simplesmente não é mais possível continuar com “odres velhos para guardar vinho novo”.

Com suas parábolas Jesus não quer aliviar seus ouvintes, porém despertá-los da acomodação, desafiá-los, interpelá-los. Jesus não quer dominar seus ouvintes com doutrinas vazias; ao contrário, deseja que cada um, após tê-lo encontrado e escutado, possa se tornar sujeito ativo diante dos outros e de Deus.

As parábolas só podem ser compreendidas à luz de seu autor; elas dão a conhecer muitos aspectos da verdadeira identidade de Jesus de Nazaré: suas convicções de fé, seu estilo de vida, sua missão, seu modo de ser, suas opções, suas relações... As parábolas falam do “ser profundo” do seu criador: daí o imediatismo de seu efeito, pois tocam a interioridade de quem as escuta, falam diretamente ao coração, de sentimento a sentimento; daí também sua expressividade.

Todas as parábolas contadas por Jesus são perenemente belas porque através delas temos acesso ao que constitui o Seu coração; mais ainda, através delas temos acesso ao segredo, ao “mistério” do próprio Jesus.  As parábolas falam ao nosso coração, comovem nosso coração, porque nasceram do coração do Verbo eterno de Deus. Por isso, mais do que “falar em parábolas” Jesus era a própria “parábola”.

parábola é um estilo de linguagem original, pois abre novas possibilidades de vida, não é uma história a mais, nem uma doutrinação, mas uma provocação. Ela respeita a liberdade do ouvinte, alegra sua imaginação, compromete sua consciência e anima sua iniciativa. A parábola introduz na vida um chamamento mais profundo; não remete a pessoa a um mundo diferente, longínquo, mas a um compromisso eficaz dentro deste mundo e dentro da realidade de cada um.

É necessário “entrar” na parábola e deixar-se surpreender pela sua inspiração envolvente. Não se pode ser neutro, senão expectador atento e ativo. A parábola nunca é tranquilizadora, senão que interroga, sacode o ouvinte, exigindo dele uma atitude de escuta, de abertura, pois em seu dinamismo sempre há um chamamento. As parábolas questionam, mas sem agredir; conduzem o ouvinte a confrontar-se com a verdade de sua situação e a tomar decisões novas, mas respeitando sua liberdade.

parábola é uma pergunta deixada em aberto.

Na parábola deste domingo, a cena é iniciada pelo semeador: ele sai e, com um gesto, que une misteriosamente o céu e a terra, espalha, por toda parte e com abundância, uma semente de extraordinária potencialidade criativa. O Céu fecunda o grande ventre da Criação, o ventre da “terra”, e tudo canta e grita.

É o grito de júbilo da vida e da fecundidade, que é causa de realização e sentido pleno da criação.

O verbo “sair”, com o qual se inicia a narração (“... eis que o semeador saiu...”), é colocado numa evidente posição de destaque e evoca o tema do “êxodo”, de modo a dizer que, no início da narração, podemos perceber uma alusão ao mistério do “êxodo” de Deus, que “sai” do mundo divino e traz consigo uma potencialidade de vida, que desperta em nós assombro e admiração diante da maravilha da criação e da história, com uma vitalidade inesgotável. Nada do que foi espalhado cai no vazio ou é desperdiçado: tudo, até o menor fragmento, jamais volta a Ele sem produzir vida, beleza e força criativa.

O gesto de semear é alegre, generoso, transbordante e irrefreável, precisamente porque é gratuito: não é 

um semear por semear; é um semear criativo, isto é, comunica em abundância, em toda parte e a todos, a força da vida.

Nesta parábola, a primeira coisa que percebemos é uma contradição com respeito ao semeador. O lógico seria que um bom semeador preparasse a terra para não desperdiçar as sementes e procurar ter a maior segurança de que elas vão germinar e produzir frutos. Mas este semeador as lança em todos os espaços, favoráveis ou não, preparados ou não. Jesus resgata, deste modo, a universalidade de sua mensagem que ultrapassa as fronteiras do Povo eleito e chega até aqueles que, segundo os escribas legalistas, não eram “terra boa”. Não elege a terra perfeita, aquela que cumpre perfeitamente a lei ou crê cegamente na doutrina, aquela que comercializa com a mensagem e espera receber um prêmio por sua boa conduta. 

Não é assim nesta parábola do semeador. Jesus oferece a toda a humanidade a capacidade de encontrar um sentido profundo da vida e toda pessoa é digna de recebê-lo.

Aquele ousado semeador não se preocupa, portanto, se a semente cai também onde não pode frutificar plenamente; é preciso ter um olhar diferenciado para aquelas sementes que caem ao longo do “caminho” e se tornam alimento e alegria para “os pássaros do céu que não semeiam, nem ceifam, não ajuntam em celeiros” (Mt 6,26); aquelas que caem em “lugares pedregosos”se tornam, mesmo com seu germinar efêmero, motivo de alegria, numa situação aparentemente incapaz de vida; aquelas que caem entre os “espinheiros” acendem a esperança, mesmo onde predomina a hostilidade. No final, sobretudo – e não só na “terra boa” - desce e pousa a luz dourada da bênção, da alegria e da esperança.

Este “estranho” semeador deixa a sua semente cair por toda parte; para ele nada é inútil ou esquecido.

Em cada canto da Criação desce a bênção da fecundidade. Ele semeia tudo, esgotando seus imensos celeiros, sabendo que a flor da vida enriquece a criação e a história humana. E, sob o olhar contemplativo do narrador, tudo se torna maravilha e beleza incomparáveis.

Por isso, não podemos definir antecipadamente o que é “boa” ou “má terra”, nem colocar limites à palavra, pois é ela que acaba se mostrando criadora, transformando o solo dos homens com sua força. 

A parábola do semeador evoca a força e a beleza, mas, sobretudo, a abundância criadora de Deus, que diz sua Palavra fecunda por meio de Jesus e o faz de um modo transbordante, expandindo a boa semente em todas as terras do mundo. 

O economista, homem de sistema, que busca eficácia e calcula, pensa de antemão e escolhe a terra mais fértil e boa; sabe onde estão os espinheiros e pedras; por isso não desperdiça a semente.

Mas Jesus, semeador de parábolas do Reino, sabe e vive uma lógica mais sublime, aquela do poeta criador, que confia em todo tipo de terreno e se abre às surpresas inesperadas. Esta é a lógica da gratuidade e da abundância, que se expressa no gesto generoso do bom semeador da palavra do Reino. 

Não devemos dar nenhuma importância à quantidade de respostas. A intensidade de uma só resposta pode dar sentido a toda semeadura. A sinuosa e longa trajetória da existência humana fica justificada com o aparecimento de um só Francisco de Assis ou de uma Teresa de Calcutá. Por isso Jesus pode dizer: “o Reino já está aqui, eu o faço presente; sua plena manifestação depende só de cada um”.


Raízes e asas: presentes de mãe

 

Texto bíblico:  Evangelho segundo Mateus 13,1-23

 

Na oração:

Somos seres de “enraizamento” e de “transcendência”; vivificados pelo Espírito, somos Terra que pensa, sente canta e ama.

- Na presença do Senhor deixe que a Palavra de vida ilumine e fecunde seus “terrenos interiores”, onde predominam pedras, espinheiros, dureza do solo...

- Você se parece com uma semente guardada no depósito, marcada pelo medo?

Ou se parece com uma terra ácida e estéril que não permite que nada germine?

- Em que circunstâncias seu coração se revela como “terra fértil”, gerando abundantes frutos?

Pérolas Inacianas - Dia 10: O olhar da Misericórdia

"Olhar para mim mesmo... e ver todas as minhas feridas e pecados, e considerar a misericórdia de Deus, que até agora me deu vida." - (Santo Inácio de Loyola - Exercícios Espirituais, 56-60, adaptado)

 

Os Exercícios Espirituais propostos por Santo Inácio foram organizados em “semanas”. Na “Primeira Semana”, Inácio convida o exercitante a olhar de frente para o próprio pecado. No entanto, esse exame não visa gerar culpa paralisante ou remorso destrutivo. Para Inácio, reconhecer as nossas misérias, egoísmos e falhas só faz sentido se fizermos isso sob a luz acolhedora da misericórdia divina. O pecado é visto como uma quebra de relacionamento amoroso, uma escolha errada que desorganiza a nossa vida.

O fruto dessa meditação é o “espanto grato”. Ao percebermos a distância entre as nossas fraquezas e a fidelidade paciente de Deus, o nosso coração não se desespera, mas se enche de gratidão. Nós nos descobrimos “pecadores amados”. Essa experiência profunda nos cura do orgulho de nos acharmos autossuficientes e, ao mesmo tempo, nos capacita a olhar para os erros dos outros com a mesma paciência e compaixão com que Deus nos olha todos os dias.


 

Para colocar em prática hoje:
Em vez de se autopunir por um erro ou defeito que você repete sempre, faça uma pausa. Apresente essa fraqueza a Jesus e diga: “Senhor, Tu conheces a minha miséria, mas eu confio na Tua misericórdia. Obrigado por não desistir de mim.”

 

-- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini