sexta-feira, 27 de março de 2026

Terça-feira da Semana Santa - Anúncio da traição

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho da terça-feira da Semana Santa (2026).

Judas, onde estás?

 

“Em verdade, em verdade vos digo, um de vós me entregará” (Jo 13,21)

 

No dia de ontem, buscamos inspiração na Casa em Betânia, lugar inspirador para Jesus. Ali, encontramos o ícone para revelar o sentido de nossas moradias: convivência, partilha, comunhão, espírito de serviço, acolhida do diferente, espaço festivo, sensibilidade diante do sofrimento...

Hoje, provocados pelo relato do evangelista João, vamos trazer presente um outro dado que nos custa compreender: a casa pode ser, muitas vezes, lugar da traição, da frieza nas relações, do ódio que divide, do distanciamento afetivo, da casa-pensão onde seus moradores não se conhecem, etc...

Poucas experiências destroem tanto alguém por dentro como a traição. 

Quem traiu e quem foi traído assume reações semelhantes, como esvaziamento da afetividade, sensação de inutilidade vital, desorientação, perda do sentido da própria existência, angústia, pânico, fobias e medos generalizados diante das pessoas e do mundo. A traição desmonta a esperança no outro ser humano e leva a desacreditar na existência do amor. A traição tira do ser humano sua capacidade de dar respostas à vida, de envolver-se num projeto e num ideal maior, que ultrapasse o valor de sua própria vida.

Nestes primeiros três dias da Semana Santa, aparece a figura de Judas, não como protagonista, mas como antagonista, como contraponto, alguém deslocado do clima de amor e amizade. Os próprios evangelistas se sentem incomodados com ele e não aceitam suas posturas e atitudes.

Na verdade, Judas não conseguiu captar que em torno a Jesus tudo é gratidão e gratuidade; já na casa em Betânia, ele destoou e criticou o gesto amoroso de uma mulher derramando perfume nos pés de Jesus.

Reagimos negativamente frente a traição de Judas, mas no fundo ele nos causa repulsa porque é projeção das nossas infidelidades e traições. Ele é o espelho no qual nos vemos.

Mas... o que vem a ser a traição? Como ela se manifesta na nossa vida? Por que traímos a confiança do outro? O ato de trair implica romper uma aliança que uma pessoa fez com outra. Trair é uma ação que revela sérias consequências, e, quando se fala de relacionamento humano, envolve sofrimento e sensação de abandono, gerando um estado de desconfiança generalizada naquele que foi traído.

Traição dói na proporção inversa da distância. Quanto mais próxima a pessoa traidora, tanto maior a dor do traído. A traiçãose situa no mundo das amizades, das vinculações afetivas intensas, das ligações íntimas, das proximidades de vida.

Podemos destacar duas dimensões na Paixão de Jesus: a primeira paixão acontece no grupo interno (traição, negação, busca de poder, incompreensão da missão...); isso provoca profundo sofrimento em Jesus.  

A outra paixão é provocada pela oposição, perseguição externa... Geralmente ficamos impactados com os sofrimentos físicos cometidos pelos opositores. O sofrimento interno não é visível, mas é maior.

Certamente o maior sofrimento de Jesus partiu do grupo mais íntimo; da perseguição externa já era esperada, mas do grupo de convivência dos discípulos, foi muito duro para Jesus. E Judas era considerado “um dos Doze”.

Judas se tornou o símbolo da traição porque fazia parte do grupo íntimo dos apóstolos. Foram anos de convivência nas mesmas caminhadas, nas noites ao relento, nas pregações, nas refeições simples do dia-a-dia e nas festas. Jesus e Judas viviam elos de amizade, de confiança, de esperança entre si.

De repente, rompe-se tal aliança e Judas entrega Jesus aos adversários.

Com a traição, Judas passou da amizade para a decepção, para a desilusão, para a perda de vinculação até a entrega. Processo lento que foi minando o seu coração, até que ele se corrompeu, a ponto de renegar a amizade e trair.

Que aconteceu no coração de Judas na noite da Última Ceia? Rodeado de um mundo de mistério, rodeado de um clima de bondade, de amor e salvação, e, no entanto, o coração de Judas está em outro lugar. Está impermeável à verdade que se celebra; está seco em seu interior, fechado ao mistério da graça.

Quando Jesus, na Última Ceia anuncia que um deles vai lhe entregar, todos ficam “assustados”, “olham-se mutuamente”, mas não conseguem identificar o traidor. Os traidores não têm um rosto especial; qualquer rosto vale para dissimular a traição do coração; qualquer rosto vale para esconder um coração traidor.

Judas, em nada dava sinais de ser diferente do restante dos discípulos. Por isso ninguém se atreveu a acusá-lo de traidor. Parecia tão normal como qualquer outro do grupo.

É que as traições são alimentadas e escondidas no coração; as traições não têm rosto, não são visíveis. Por isso mesmo, os traidores, são tão difíceis de serem reconhecidos. Caminham como todos. Comem como todos. Sorriem como todos. Tem cara de amigo, mas por dentro carregam um coração vendedor de vidas, de dignidades, de amizade...

Ao dar “o pedaço de pão passado no molho” vemos aí o último gesto de carinho por parte de Jesus para com Judas, uma graça final que o traidor recusa. Fez-se “noite” em seu interior, e ele saiu de casa para cumprir a intenção do seu coração: entregar Jesus.

O traidor é um exemplo das trevas sobre as quais brilhou a luz em vão; ele ama as trevas mais que a luz, porque suas obras eram más.

Sentimos pena de Judas, porque é um homem decepcionado com o chamado de Jesus e sua própria vocação. Não se sente como os outros, e nem sequer é tão espontâneo como Pedro ou os Zebedeus, que queriam ser importantes; ele não quer só ser importante, quer estar em tudo por cima dos outros. Está “amargo” porque Jesus não correspondia às suas expectativas como Messias e que estava perdendo o tempo com os discípulos em vez de prepará-los para a revolução e formar um grupo político, não religioso. Judas perdeu a admiração por Jesus.

Judas não compreende o gratuito, ou seja, o que recebeu de Jesus, as possibilidades de ser apóstolo e sair de si mesmo, entregando-se, doando-se... e tudo quer justificar a partir de seu próprio ponto de vista.

Judas não sabe participar e desfrutar de uma agradável refeição em companhia dos outros, nem se preocupa em agradecer a Jesus pela admirável ceia. Judas caminha para a decepção, a solidão e a morte. Abandona o grupo, sai à noite para alimentar seu “ego inflado”, sofre a decepção frente seus “falsos” amigos, vê que sua vida já não tem saída nem sentido. 

No fundo é fraco, tira a própria vida, não faz dela uma entrega, como Jesus.

Existem muitos “judas” na comunidade cristã, fechados em si mesmos e que buscam seus interesses egóicos; criticam todo gesto oblativo de acolhida e de serviço; estão só preocupados em buscar algum benefício (número de seguidores, ruídos e tumultos, atos egóicos centrados no interesse financeiro). A entrega amorosa de cada dia parece não ter sentido para eles.

Há coisas e gestos que estão muito além do dinheiro: a delicadeza para com as pessoas, a compaixão para com os excluídos, a presença solidária entre os mais necessitados. A vida de comunidade, inspirada em Jesus, deve se constituir de detalhes carinhosos e não de racionalizações e conveniências de nosso gosto.

Pensemos em tantos “judas institucionalizados” que exploram as pessoas, alimentando uma “cultura de morte”; pensemos nos “pequenos judas” que carregamos dentro de nós, na hora de eleger entre lealdade e interesse, entre gratuidade e dureza de coração. Cada um de nós tem a capacidade de trair, de vender, de só optar em favor do próprio interesse. Cada um de nós tem a possibilidade de deixar-se seduzir pelo amor ao dinheiro, pela busca de poder. Judas, onde estás? É a pergunta que faço a cada um de nós” (Papa Francisco).


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Texto bíblico: Evangelho segundo João 13,21-38

 

Na oração:

Diante de “Jesus traído”, recorde experiências pessoais de traição: quando foi traído? Quando traiu? Como se sentiu?

Segunda-feira da Semana Santa - A ceia de Betânia

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho da segunda-feira da Semana Santa (2026).

Betâniacasa da acolhida, comunidade de amor

 

“A casa inteira ficou cheia do perfume do bálsamo” (Jo 12,3)

 

No percurso contemplativo da vida pública de Jesus, o início desta Semana Santa nos conduze até Betânia, a ser e viver Betânia, a assumir Betânia:

- Casa de hospitalidade e de escuta, onde todos somos irmãos sentados à mesma mesa, junto ao Mestre, o único Senhor, em quem se centra nossa hospitalidade e nossa escuta;

- Lugar de descanso, como foi para Jesus, onde encontra humanidade, calor humano, compreensão, alívio;

- Lugar de passagem, onde recuperamos forças para viver situações de Páscoa, onde acontece a intimidade do encontro dos amigos que falam de assumir as consequências de viver em favor dos outros, de deixar-nos levar pelo Espírito e amar até o extremo...;

- “Casa dos pobres” (Beth-anawim): nela, em primeiro lugar, habitam nossas pobrezas pessoais e comunitárias, nossa pequenez e nossa fragilidade; mas, também, onde a dor de nosso mundo, da humanidade, têm lugar e tocam nosso estilo de viver, de nos relacionar, de nos confrontar em nosso seguimento de Jesus.

O tema da Campanha da Fraternidade deste ano – Fraternidade e moradia – nos ajuda a recordar que o mundo relacional de Jesus era amplo e diversificado; seus amigos e amigas se multiplicavam a cada passo que dava. Um exemplo disso é sua relação com os três irmãos, na casa em Betânia. 

Betânia é para Jesus o lar da acolhida, da hospitalidade, da escuta, da amizade e do serviço. Ali, Ele expressa as atitudes humanas presentes na cotidianidade de uma família que Ele amava e que O amava. 

Betânia é o templo onde Jesus percebe a presença e o agir de Deus nos fatos mais simples da vida cotidiana; Betânia é, para Jesus, um prolongamento de Nazaré, o lugar do cotidiano, do pequeno, do simples, o lugar da revelação. Betânia é o ícone de uma verdadeira comunidade de seguidores(as): casa da unção, do serviço, da escuta atenta; é o lugar da Páscoa que antecede a Páscoa do Filho de Deus.

Betânia nos desafia a gerar um novo estilo relacional que seja capaz de tornar visíveis os sinais do Reino, aqui e agora. Betânia é o lugar de uma nova mística: a do seguimento e identificação com Jesus, a mística da sensibilidade humana, que nos faz passar da morte à vida, como Lázaro. Ali, Ele deixa transparecer um coração carregado de amor oblativo, gratuito...

Jesus, perseguido pelos poderes civil e religioso, vai a Betânia, na casa das suas amigas Marta e Maria e de Lázaro. Mesmo sabendo que a polícia estava atrás de Jesus, os três irmãos receberam-no em casa e ofereceram-lhe um jantar. Acolher em casa uma pessoa perseguida e oferecer-lhe um jantar era perigoso. Mas o amor faz superar o medo.

Neste ambiente, já não há mais rivalidade entre as duas irmãs, Marta e Maria, mas colaboração e complementariedade. Juntas se fazem transparentes para algo maior que elas mesmas. Certamente Jesus deixou “refletir” em sua vida o que viu fazer estas duas mulheres.

Os discípulos levavam muito tempo com Jesus e nenhum tinha feito com Ele o que estas duas mulheres fizeram. Ninguém lhe havia manifestado gestos de tanto amor. 

Elas se fazem totalmente presentes a Jesus; aceitam o que vai acontecer e o acompanham. Marta, servindo a mesa e as mãos de Maria acariciando e ungindo os pés de Jesus; e Ele deixando que elas expressem em gestos o que estava no coração delas: muito amor. Um gesto que Judas não compreendeu.

Marta e Maria expressam sua amizade e fazem com Jesus o que Ele logo fará com seus discípulos no momento de sua despedida, na Última Ceia: os servirá à mesa e lavará seus pés. Jesus se deixou fazer, para poder fazer isso com outros e quis tomar para si os gestos destas mulheres para fazer memória de sua vida.

Impressiona-nos que, neste relato, elas não falam, mas expressam todo seu amor “mais em obras que em palavras (S. Inácio).

Aqui, no centro do Evangelho de João, a comunidade, reconstruída no amor, exala o bom perfume que enche toda a casa. Em lugar do cheiro da morte, a casa enche-se do perfume: símbolo do amor que exala bom odor. É um amor que não tem preço.

O perfume de Maria é o símbolo da vida e do amor de cada um. É um amor oblativo e gratuito e que está sempre voltado para os mais pobres. “Pobres, sempre os tereis convosco”, porque sempre haverá vítimas das estruturas sociais injustas e violentas.

À luz de Betânia e de nossa realidade, quais perfumes derramar para superar o mal odor dos nossos ambientes? O que cheira mal entre nós, seguidores(as) de Jesus? Medo risco e do novo, medo de perder seguranças; medo de equivocar-nos, de experimentar outras maneiras de viver; medo de enfrentar situações desafiantes na sociedade, medo da dor e da morte, medo do diferente...

Cheira mal as seguranças petrificadas, o imobilismo; cheira mal a indiferença e a acomodação, sobretudo diante das necessidades de nosso mundo; cheira mal o ódio, a intolerância, o julgamento; cheira mal a desesperança frente a um futuro incerto.

Há um forte mal odor dentro de nossas “bolhas mofadas”, dentro de nossas casas; custa-nos reforçar laços, alimentar solidariedade, entrar em sintonia com a paixão da humanidade.  Preferimos conservar a arriscar; percebemos a inércia e a falta de renovação séria e profunda, uma falta de abertura frente ao diferente, uma perda de tempo gasto em estéreis conflitos entre pessoas, grupos, gerações, dentro de nossas famílias e comunidades.

Na unção em Betânia, Maria pode ser considerada como um ícone da nova sensibilidade que o evangelho 

nos oferece. Ela está dotada de uma sensibilidade muito superior à dos discípulos, tanto para perceber o que acontece como para expressar seus sentimentos com admirável fineza e liberdade. 

Os dirigentes judeus andavam buscando uma ocasião para matar Jesus. Maria, certamente havia escutado os rumores que chegavam da vizinha Jerusalém e que circulavam em voz baixa entre as pessoas do povo. Ela, no entanto, sintonizou com este momento dramático. Sua criatividade feminina encontrou no perfume um símbolo para expressar com grande delicadeza o que esse momento transbordava seu coração. Maria investiu num gesto gratuito e desmedido, expressão de um amor exagerado.

O excesso de seu gesto sintoniza perfeitamente com o amor sem medida de Jesus, mas ultrapassa a limitada capacidade de compreensão dos presentes à mesa, sobretudo Judas Iscariotes.

Os perfumes e os aromas estiveram muito presentes na vida de Jesus, em seus momentos de dor e prazer. O perfume revela e oculta ao mesmo tempo, aviva o desejo, a abertura à surpresa de uma presença. Jesus o recebeu agradecido, e sua própria vida tomou o símbolo do frasco, precioso e caro, que se quebra para poder derramar-se em favor de muitos.

Quando a Vida nos unge, estamos potencialmente equipados para anunciar a boa nova, a luz, a cura, o cuidado... Ações que nos plenificam.

A casa de Betânia se encheu do “esbanjamento” do amor, da ternura, da misericórdia frente ao mal odor da violência, da exclusão, do orgulho autossuficiente. 

Junto a Jesus, somos também desafiados a esbanjar a vida com Ele, isto é, viver na e a partir da comunhão com o Deus da vida. Viver, em definitiva, como Jesus viveu: Ele “derramou”, doou toda sua vida através de um compromisso real para tornar visível o amor de Deus.

Assim, na experiência cristã, a vida se “derrama” para tornar visível o amor de Jesus a toda pessoa humana. Um “esbanjamento”, muitas vezes, incompreensível para tantos contemporâneos nossos. Eles nos lançam um duro questionamento: não seria a vivência cristã uma espécie de desperdício de energias humanas, um desperdício de talentos?

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Textos bíblicos: Evangelho segundo João 12,1-11

 

Na oração:

Na contemplação, somos convidados a entrar na casa em Betânia: casa de encontro, comunidade de amor e coração de humanidade:

- Com Jesus Mestre, somos inspirados a nos fazer mais humanos e próximos;

- Com Marta, somos movidos a professar a fé e a servir na diaconia;

- Com Lázaro, somos chamados a passar da morte à vida e caminhar na liberdade do Espírito;

- Com Maria, somos desafiados a quebrar os frascos e a derramar o perfume da escuta e do amor.

- Criar Betânia em nosso interior e em nossas casas: lugar da mesa compartilhada, da unção e do cuidado; ambiente que exala perfume do amor, gratidão, amizade...

Domingo de Ramos - A cidade que sonhamos: casas abertas e uma mesa para todos

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do Domingo de Ramos, em que celebramos a entrada de Jesus em Jerusalém.

Domingo de Ramos

A cidade que sonhamos: casas abertas e uma mesa para todos

 

“Quando Jesus entrou em Jerusalém, a cidade inteira se agitou e diziam: ’Quem é este homem?’”

 

A primeira coisa que o Evangelho nos diz é que Jesus foi um buscador de alternativas.

Ele não foi conivente e nem compactuou com a estrutura social-política-religiosa de seu tempo, que era profundamente desumanizadora. Sonhou novas possibilidades de vida e novas relações entre as pessoas. Por isso, ao anunciar o Reino, transgrediu a situação vigente e, a partir das periferias, foi despertando uma alentadora esperança nos corações dos mais pobres e excluídos, vítimas de um mundo fechado. 

Com sua entrada em Jerusalém, Jesus quis recuperar a cidade como lugar do encontro e da comunhão, como espaço da paz e da solidariedade... desalojando aqueles que se fechavam a qualquer tentativa de mudança. Por isso, seu gesto provocativo e escandaloso de entrar na cidade montado num jumentinho, símbolo da simplicidade e do despojamento de qualquer pretensão de poder e força, causou violenta reação naqueles que se beneficiavam da estrutura política e religiosa da cidade.

A Campanha da Fraternidade deste ano tem como tema - Fraternidade e moradia -, e como lema – “Ele veio morar entre nós”. Jesus fez sua morada nas terras excluídas da Galileia e sonhava também fazer morada na cidade de Jerusalém.

Vale destacar uma constante nos Evangelhos: a casa como lugar preferencial da ação de Jesus e da missão dos seus discípulos. Jesus, como um inspirado mestre, revelou um “novo ensinamento”, não em lugares fechados e controlados, mas em espaços abertos, nos campos, à beira do lago de Genezaré, nos caminhos poeirentos, nas casas...; Ele se dirigiu aos lugares onde homens e mulheres realizavam suas atividades comuns, no simples ambiente do trabalho cotidiano e, de maneira privilegiada, nas casas, começando pela sua própria, em Cafarnaum, onde fora residir. 

Jesus, como itinerante, deu início a um “movimento de casas”. De fato, a casa acabou sendo o espaço alternativo que melhor correspondia à atuação do Mestre, enquanto ponto de partida e de chegada de sua missão itinerante. Foi a partir das casas que Jesus exerceu, à margem do que estava estabelecido, sua autoridade em favor da vida, sem depender de instituições e funções previamente normatizadas. 

Assim, através de uma rede eficiente, ampliada e centrada no Mestre e com funções complementárias, seus seguidores, a partir das casas, prolongarão o mesmo ministério de Jesus: “viver em saída”, deslocar-se em direção aos excluídos, revelar a presença do Pai na simplicidade do cotidiano das pessoas, etc. 

Neste sentido, a casa cumpriu uma função vital para a expansão da causa do Reino de Deus. Em outras palavras, a causa de Jesus (Reino) encontrou nas casas seu lugar natural.

Jesus quis também levar para a Cidade Santa o “movimento de vida” iniciado nas casas, nas estradas da Galileia; Ele subiu a Jerusalém anunciando a chegada do Reino de Deus que deveria manifestar-se ali, mas de uma forma diferente: espaço aberto para todas as gentes, com uma nova estrutura humana aberta ao senhorio de Deus. 

Jesus, Filho de Davi, precisava subir à cidade de seu antepassado Davi, não para conquistá-la militarmente e reinar, a partir dela, sobre o mundo, mas para instaurar ali outro Reinado, fundado precisamente nos pobres e expulsos dos reinos da terra. Para Jesus, Jerusalém como um conglomerado de casas abertas, deveria ser entendida como centro da nova humanidade messiânica, capital do Reino dos excluídos da velha história humana. 

Por isso, Ele entrou em Jerusalém rodeado do povo, das pessoas simples. Este povo escravo e oprimido o aclamou porque viu em n’Ele uma luz de esperança, de vida, de libertação. Escutaram suas palavras e viram seus feitos durante alguns anos. Escutaram palavras de vida, de justiça, de amor, de misericórdia, de paz...

Viram seus gestos de cura dos enfermos, de defesa dos fracos, de dar alimento aos famintos, de reabilitar os desprezados, de acolher os marginalizados, de enfrentamento dos opressores... 

Jesus quer continuar anunciando e realizando na cidade de Jerusalém aquilo que fizera na região excluída da Galileia; quer também humanizar esta cidade para que ela seja sol de justiça e paz para todos os povos.

A espiritualidade da presença cristã no meio urbano convida a descobrir e indicar as presenças reais do Deus que “in-habita” em pessoas, casas, bairros, povos, cidades e metrópoles. “O coração dos povos é o santuário de Deus”. Trata-se de “passear com o Absoluto pelas ruas da cidade” (Michelstaeder)

O Deus presente nas cidades é um Deus que nos chama e interpela a partir do reverso da história, a partir dos lugares ocultos, dos “outros-espaços” de nossas cidades. 

A primitiva comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus não começa formando uma nova religião instituída, nem se preocupou com construções de templos ou com organizações hierarquizadas; ela se apresenta como uma federação de casas abertas, a partir dos pobres e para os pobres, criando redes de comunicação e de vida fraterna, casas-família, impulsionadas pelo testemunho e presença do Espírito do mesmo Jesus. “Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e possuíam tudo em comum... partiam o pão pelas casas e tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração” (At 2,44-46).

A cidade que Deus quer: uma praça acolhedora, casas abertas e mesas para todos. 

praça é de todos e todos podem circular livremente, criar relações e convivência, com a experiência de ser aceito e reconhecido como humano.  

casa deve ser escola de encontro e fraternidade. A comunicação (comum união) se celebra entre suas paredes que, em seguida, se expande para além de seus limites, despertando uma sensibilidade solidária.

A casa prepara para a vida, pois é ali que os fundamentos de uma personalidade vão se solidificando.

mesa é lugar de hospitalidade e partilha, de aceitação e de encontro, lugar de chegada e entrada da pluralidade e diversidade como a Nova Jerusalém.

 “Entrar na nossa Jerusalém” é comprometer-nos com uma cidade mais humana e humanizadora; a cidade que sonhamos e que queremos: a Cidade Nova. E o(a) seguidor(a) de Jesus tem em quem se inspirar.

A cidade moderna, globalizada pela tecnologia fria e sem alma, amordaçada pela funcionalidade e pela utilidade, com uma política submetida ao mercado, à produção e consumo, cidade estendida e sem muros de contorno, com horizonte atrofiado..., está cada vez mais distante da cidade sonhada por Jesus, cada vez mais refratária aos valores do Reino.

É a paixão pelo Reino que deve nos mobilizar para levar adiante a missão de Jesus nos grandes centros, a ir aos lugares onde há mais necessidade e ali realizar obras duradouras de maior proveito e fruto. 

O(a) discípulo(a) missionário(a) não é aquele(a) que, por medo, se distancia de sua cidade, mas é aquele(a) que, movido(a) por uma radical paixão, desce ao coração da realidade em que se encontra, aí se encarna e aí revela os traços da velada presença do Inefável; a cidade já não é percebida como ameaça ou como objeto de domínio, mas como dom pelo qual Deus mesmo se faz encontrar. A cidade não é lugar da exploração e da depredação, mas é o lugar da receptividade, da oferenda e do diálogo inspirador.

No Domingo de Ramos, portanto, temos duas procissões: a procissão de Pilatos que representava o poder, a dominação e a violência do império que dominava o mundo; e a procissão de Jesus que representava uma visão alternativa, aquela do Reino de Deus, centrada na comunhão, no serviço, no espírito solidário... 

Frente a estas duas paixões e duas procissões, somos convidados a propor algumas perguntas fundamentais que devem ressoar neste domingo de Ramos, na Semana Santa e, em definitiva, na vida: a quem seguimos? Quem é o “senhor” que comanda o nosso coração? Em que valores nos inspiramos? Em que procissão estamos? Em que procissão queremos estar?...


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Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 21,1-11

 

Na oração: 

É preciso, em primeiro lugar, abrir espaço na própria casa interior, para que o Senhor circule com liberdade, levando luz e inspiração para sua vida (“desce depressa, pois eu preciso ficar em sua casa”).

- A partir do interior, cristificar a própria casa-lar: lugar de encontro, de hospitalidade, de relações sadias...

- Sua casa é luz para a cidade onde você habita?

- A cidade que você aspira, que sonha e que quer é a Nova Jerusalém? Espaço de beleza, de harmonia humana?

- Que atitudes você vai propiciar em suas relações interpessoais para favorecer a presença do Reino de Deus?

- Como você vai acompanhar Jesus durante as celebrações desta Semana Santa?

sexta-feira, 20 de março de 2026

“Há vida antes da morte?”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 5º Domingo do tempo da Quaresma (2026).

“Todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais” (Jo 11,26)

 

Depois do sinal da Água (samaritana) e da Luz (cego de nascimento), o evangelista João oferece hoje o terceiro de seus grandes sinais, a Vida (êxodo de Lázaro). 

O tempo quaresmal abre um excelente caminho para aprofundarmos sobre este último tema: a vida é uma oportunidade, um dom, ou algo inevitável e, talvez, insuportável? Há algo mais valioso que a vida para o ser humano? Cuidamos dela e a amamos com empenho, buscamos preservá-la diante de qualquer anomalia ou temor de perdê-la? Porque existem pessoas que “arriscam” sua vida e há aqueles que até doam sua própria vida por uma causa justa?

A morte física nos angustia, nos transtorna. Mas há outra morte que nos ronda sem cessar, ao menos em determinados momentos de nossa existência, ou seja, a ausência do sentido da vida: para que vivemos, lutamos e morremos? O ser humano de hoje, como de todos os tempos, traz cravada em seu coração a pergunta mais inquietante e mais difícil de responder: o que vai ser de todos e de cada um de nós? 

É inútil fugir dela ou tentar nos enganar. Que podemos fazer diante da morte? Rebelar-nos? Deprimir-nos? Angustiar-nos?...

Sem dúvida, a reação mais generalizada é esquecer essa dura realidade e “tocar prá frente!”. Mas, o ser humano é chamado a viver sua vida com intensidade e inspiração, com lucidez e responsabilidade; ele não deve se aproximar de seu final de forma inconsciente e irresponsável, sem tomar atitude alguma.

Diante do mistério último da morte não é possível apelar a dogmas científicos nem religiosos; eles não nos podem guiar para além desta vida. 

E, no entanto, queremos continuar vivendo. Todos carregamos no mais íntimo de nosso ser um desejo insaciável de viver. Por que temos de morrer? Por que a vida não é mais ditosa, mais longa, mais segura, mais vida? Do mais profundo do nosso ser brota um anseio profundo que nos move a desejá-la, a amá-la, a cuidá-la, a aceitá-la. 

Como cristãos, também temos de nos aproximar com humildade diante do fato obscuro de nossa morte. Mas, fazemos isso com uma confiança radical na bondade do mistério de Deus que vislumbramos em Jesus.

Esta confiança não pode ser entendida a partir de fora; só pode ser vivida por quem responde, com fé simples, às palavras do mesmo Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida; crês isto?” O teólogo Hans Kung, no final de sua vida, afirmou que, para ele, “morrer é descansar no mistério da misericórdia de Deus”.

A vida é tão valiosa que o centro mesmo da revelação cristã é o anúncio da salvação como vida oferecida a todo ser humano. Deus nos oferece e nos garante a salvação de nossa própria vida. O cristão sabe que a existência não acaba com a morte, no nada, no absurdo.

Cremos no Deus que acolhe e abraça a vida de toda criatura e a leva à sua plenitude.

No evangelho deste domingo, em um novo relato catequético, o evangelista João nos apresenta Jesus como “ressurreição e vida”, diante da morte de seu amigo Lázaro.

Progressivamente, ao longo de todo o seu evangelho, o autor vai apresentando Jesus com várias imagens: pão de vida, água viva, luz do mundo, porta, pastor, vinha, caminho, verdade e vida, ressurreição... Todas elas têm um elemento comum: Jesus é reconhecido como portador e doador de vida. E todas pretendem um mesmo objetivo: que a comunidade dos seus seguidores se fundamente sobre esta verdade. Daí a pergunta ao redor da qual giram todas essas catequeses: “crês isto?”.

É preciso compreender, de modo mais profundo, a proclamação que o quarto evangelho põe na boca de Jesus: “Eu sou a Vida”. Assim, tomamos consciência que, com essas palavras, Jesus está revelando nossa verdadeira identidade, que está profundamente unida com a sua. De fato, quando uma pessoa sábia fala, o que diz é válido não só para ela, mas para todo ser humano. A afirmação de Jesus não é a de alguém separado, mas a própria Vida; só a Vida pode dizer “eu sou a vida”.

Por isso, para além da pessoa – corpo, mente, psiquismo – na qual nos experimentamos, podemos dizer que em nossa verdade mais profunda “somos vida”. Nós não “temos vida”, mas, na essência, “somos vida”. E esta nunca “morre”.

São muitas as “leituras literais” de “Lázaro” que confundem a ressurreição com o reviver. Lázaro não revive, não volta a esta vida, mas sai desta vida para a Vida, é um êxodo para a verdadeira vida.

Há um forte apelo de Jesus no relato de João, encontrado no versículo 44, e que dá a chave do sentido do grande sinal: “Desatai-o e deixai-o caminhar!” É como se Jesus dissesse: “deixai-o ir mais além, deixai-o ir para a Vida da vida?”

Infelizmente, a mentalidade dualista não consegue compreender os evangelhos; a linguagem religiosa é simbólica, pois aponta para uma outra dimensão. Não podemos nos prender à “materialidade” do relato. Sem a sensibilidade para a criatividade poética dos relatos bíblicos, é impossível deixar-nos transformar pela leitura evangélica. É preciso aprender a ler, re-ler e deixar-nos “afetar” pelos sinais bíblicos, pois despertam nossa vida da letargia, da acomodação, da paralisia. 

Todos somos “lázaros”, fechados em nossos túmulos existenciais, atados em nossas preocupações, travados em nossas “práticas religiosas” estéreis, carentes de sentido na vida, atrofiados em nossa criatividade e busca, presos à “normalidade doentia” do ritmo cotidiano... 

E o trágico está em “acostumar-nos” a uma vida de “túmulo”. Quantas potencialidades enterradas, quantos recursos não ativados, quanta energia bloqueada!... Muitas vezes nos preocupamos com o “pós-morte” e não temos a coragem de nos perguntar: “há vida antes da morte?”

O relato joanino deste domingo é tremendamente provocativo; tal relato só tem sentido quando provoca uma sacudida em nossa vida e nos arranca da acomodação. É muito fácil nos perder na interpretação fundamentalista do texto sagrado e continuarmos bloqueados por uma pesada pedra na entrada do nosso coração.

É preciso deixar ressoar o grito de Jesus nas profundezas de nossa existência: “vem para fora! Deixai-vos desatar e caminhai! Não fostes criados para a paralisia mortal, mas para serdes itinerantes em busca do novo! Deixai-vos conduzir pelo Pai que, com sua graça, fazeis passar da vida medíocre à Vida plena!”

Releiamos, portanto, e reinterpretemos, recriando a narração à luz das palavras de Jesus: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”.Devemos estar centrados na Pessoa de Jesus, que é Vida em plenitude, e não nos percamos no “assombroso” do relato de João, ou seja, um morto que sai do túmulo todo amarrado.

Encontrar-nos com Aquele que é Ressurreição e Vida é despertar a vida que quer se expandir em nós.

Com uma autoridade, soberana e amiga, a ordem de Jesus é dada com voz forte, com um grito...

Esta é a mensagem central que o evangelista João quer transmitir:

a verdadeira vida consiste em ouvir a Voz do Enviado pelo Pai para dar a vida ao mundo; o importante não é o maravilhoso, mas mostrar e compreender que Jesus tem a autoridade de dar a Vida. Jesus desata as ataduras, as amarras da morte; elas mantêm os homens cegos, mudos e surdos, atados e asfixiados. Seu lugar não é entre os mortos, mas entre os vivos. Eles precisam ser libertados e soltos por ordem de Jesus para que possam seguir seus caminhos, viver suas vidas livremente, voltar à comunhão com os outros. Não foi só Lázaro que saiu das suas faixas. 

Todos os que estavam enclausurados em seus hábitos, presos em suas memórias, sufocados e conformados pela mediocridade, todos os que preparavam túmulos antes da hora de seu último suspiro... todos ouviram esta voz: “Saia!... Saia daí, vão além de vocês mesmos, a caminho!”


Desatai-o e deixai-o ir – O blog do Pastor Alex


 

Texto bíblico: Evangelho segundo João 11,1-45

 

Na oração:

- Quais são as “faixas” que estão travando o fluir de sua vida: religiosas, políticas, sociais, intolerâncias, preconceitos, julgamentos... e que o(a) fazem permanecer no ambiente de morte?

- Para onde você sente que o grito de Jesus impulsiona a sua vida?

sexta-feira, 13 de março de 2026

Libertar o olhar para renascer

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 4º Domingo do tempo da Quaresma (2026).

“Jesus ia passando, quando viu um cego de nascença” (Jo 9,1)

 

Quaresma pode ser o ponto de partida de uma transformação profunda de vida; os quarenta dias de duração são um tempo propício para viver a “operação saída”, ou seja, expandir a vida em novas direções, rompendo com aquilo que é rotineiro, estreito e atrofiante. 

Este tempo litúrgico especial certamente mobilizará e ativará todas as dimensões de nosso ser: nossos sentidos se expandirão, olhando, escutando e sentindo a realidade que nos envolve; nossa mente tornar-se-á mais clara, sabendo discernir e não se deixando manipular; nosso coração se fará mais atento e misericordioso diante do sofrimento humano; nossa alegria será o fermento do pão cotidiano, compartilhado com os outros. E, se dedicarmos mais tempo ao silêncio e à oração, recobraremos energia e sentido, necessários para sair da “normose doentia” de todos os dias.

Neste percurso transformador, Jesus é o grande “pedagogo” que nos toma pela mão e nos ajuda a fazer a travessia em direção à Terra Prometida. Ele se revela como presença inspiradora e que desperta o “melhor” que há em cada um de nós. Por isso, o tempo litúrgico da quaresma nos situa diante das grandes realidades existenciais que nos humanizam: Fonte de Água viva, Luz, Vida...

No relato catequético deste domingo, o evangelista João resume todo o percurso de qualquer pessoa que se encontra com Jesus, que se deixa recriar por Ele, que caminha na sua fé descobrindo-O aos poucos, até acolhê-lo como Luz do mundo.

No encontro com o “cego de nascença”, Jesus se revela como Luz que desperta a luz atrofiada no interior daquele homem paralisado, impotente, dependente dos outros (marginalizado). Todos o olham como um pecador castigado por Deus. Mas Jesus o olha de maneira diferente; logo que o vê, sente o impulso de resgatá-lo daquela vida de mendigo, desprezado por todos como um amaldiçoado. Ele se sente chamado pelo Pai para defender, acolher e curar precisamente aqueles que vivem excluídos e humilhados.

Depois dos gestos terapêuticos de Jesus, o cego descobre a luz pela primeira vez. Jesus o cura, mas o cego também deve colaborar; ele é confrontado com sua própria força e vontade, pois precisa “descer” até às águas de Siloé, até às profundezas de seu próprio ser.

Com o “toque” das benditas mãos de Jesus, as dimensões mais profundas do pobre homem são despertadas, uma nova energia é ativada, a liberdade é reacendida; reconstruído em sua autonomia, agora ele pode dar direção à sua própria vida.

No encontro com Jesus, o cego obtém a visão; mais ainda, o encontro com Jesus é como um banho que não destrava somente o sentido da visão, mas toda sua vida é reconstruída, prolongando o sexto dia da Criação; finalmente, ele poderá desfrutar de uma vida digna, sem temor de envergonhar-se diante dos outros.

O evangelista João, com uma certa ironia, diz que os vizinhos e as autoridades do Templo discutiam se aquele que agora vê era o mesmo que, um pouco antes, não via. Efetivamente é o mesmo, mas não é o mesmo: sendo o mesmo, é outro. Era “o mesmo”, e graças a Jesus não era mais “o mesmo”, pois agora vê a vida de outra maneira. É a diferença entre o homem dependente, sem iniciativa, sem liberdade..., e o homem livre, capaz de abrir-se às surpresas da vida.

O homem, cego até agora, mendigava, era um personagem marginalizado. O encontro com Jesus o reabilita para a vida; volta a ser uma pessoa na convivência. Ele não sabe se é sábado ou segunda-feira, não sabe se aquele que o curou é pecador ou não; o que ele sabe é que antes não via e agora vê. Aos poucos redescobre sua identidade essencial. Todo aquele que se aproxima do “Eu Sou” (Jesus), redescobre seu “eu sou”, ou seja, participa do mesmo ser, da mesma luz de Jesus. Quem se aproxima de Jesus termina sendo como Ele, “eu sou”. Aquele ex-cego fica transformado por ver a vida a partir de Jesus; recupera sua dignidade.

Mas, ser reconstruído em sua identidade tem um preço; o homem curado provoca conflitos com as autoridades religiosas e acaba sendo expulso da sinagoga. Nessa expulsão se revela um conflito radical dos dirigentes judeus que não aceitam Jesus porque está abrindo os olhos das pessoas, para que estas vejam outro mundo, para que tenham um olhar alternativo. “Vim a este mundo para instaurar um processo, para que os cegos vejam e os que veem fiquem cegos” (9,39).

O conflito de Jesus com os dirigentes vai desembocar na morte. Alguns acolhem a visão e a vida que Jesus traz, mas outros se sentem ameaçados em seus privilégios. São as trevas que rejeitam Jesus. As trevas amam as sombras, as prisões e tumbas desconhecidas, os negócios turvos sem testemunhas, os conluios noturnos, os métodos inconfessáveis, os desaparecidos, os arquivos fechados, as alianças clandestinas. “A luz brilhou nas trevas, e as trevas não a compreenderam” (1,5).

 

Mas Jesus não abandona a quem o ama e o busca. Ele tem seus caminhos para se encontrar com aqueles que são rejeitados e expulsos. Ninguém lhe pode impedir. Ele vem sempre ao encontro daqueles que não são acolhidos oficialmente pela religião, daqueles que são excluídos das comunidades e instituições religiosas; aqueles que não têm lugar em nossas igrejas, tem um lugar privilegiado em seu coração. 

Quem levará hoje a mensagem da Boa-Nova de Jesus para os grupos ou minorias excluídas que, a todo momento, escutam condenações públicas injustas de dirigentes religiosos cegos, que se aproximam das celebrações cristãs com medo de serem reconhecidos, que não podem comungar com paz em nossas eucaristias, que se veem obrigados a viver sua fé em Jesus no silêncio de seu coração de maneira secreta e clandestina?

Como seguidores(as) de Jesus, precisamos passar por um processo de desobstrução de nossas “cataratas existenciais” que impedem viver em atitude de contínuo assombro e vibrar com a vida do outro. É preciso “cristificar” nosso olhar para sermos reconstruídos em nossa essência.

Jesus olha cada ser humano como tal, mas este gesto não é um simples “ver” as pessoas, mas um olhá-las a fundo; ou seja, Jesus dirige seu olhar às pessoas para perceber nelas aquilo que para Ele é o mais importante: os traços e a imagem de Deus que elas deixam transparecer para quem as olha.

O olhar de Jesus não se restringe ao exercício da visão; seu olhar possui uma eficácia transformadora, encarnada em sua capacidade de amar, isto é, de olhar as pessoas com o amor de seu Pai. Ao olhar as pessoas, Jesus faz emergir a dignidade que elas carregam: filhas de Deus, as criaturas mais apreciadas pelo Criador. 

Na verdade, o que imobiliza e petrifica é o olhar que se fecha no egocentrismo, que não se abre ao outro numa atitude de respeito, de fidelidade criativa. “Nossa civilização, que já ultrapassou a era do trabalho escravo, ainda está na era do olhar escravo”(Eugênio Bucci).

Muitas vezes, o presente mais precioso que podemos dar a alguém é um olhar diferente; o futuro, a acolhida, o perdão, a alegria... dessa pessoa podem depender desse olhar novo, cheio de afeto e confiança. 

Em muitas situações difíceis da vida, o que salva é o olhar.

Num contexto de relações afetivas, onde os sentimentos são determinantes, qualquer caminho de volta ou de diálogo inicia-se sempre com um olhar conciliador ou reconciliador.

Olhar admirado e gratuito, como aquele de Jesus, que transforma, que liberta e que se comove diante da realidade humana, sobretudo daqueles que “não são olhados”.

Fantoche de controle de mão de titereiro. Homem de negócios ou trabalhador  sendo controlado pelo mestre

 

Texto bíblico: Evangelho segundo João 9,1-41

 

Na oração: 

- Torne o seu coração vulnerável ao olhar do Pai, receptivo a todo apelo que vem d’Ele, deixando-se tocar pelo inesperado, pela novidade, pela iniciativa amorosa d’Ele; o Amor d’Ele é sempre re-criador, suscitando em você lampejos de ressurreição. 

- Orar é ter acesso ao seu “eu profundo” sob o olhar de Deus e desejar ser visto por Ele até as profundidades mais secretas do seu próprio ser;

Evangelize seu olhar para aprender a olhar como Jesus Cristo, ultrapassando as aparências.

- Como você “olha” as pessoas, as coisas, os fatos, o mundo...?

sexta-feira, 6 de março de 2026

Buscadores de poços

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 3º Domingo do tempo da Quaresma (2026).

“Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço de Jacó” (Jo 4,6)

 

Como em tantas outras ocasiões, o evangelho deste domingo nos situa diante de um Jesus imprevisível e surpreendente, capaz de vencer a estreiteza das nossas expectativas, quando nos encontramos com Ele.

Os evangelistas se encarregam de destacar a presença do excesso e do esbanjamento que acompanham as atuações de Jesus, ultrapassando sempre aquilo que se esperava dele: nem os noivos de Caná precisavam de tanto vinho, nem os discípulos precisavam de uma pesca tão abundante que quase arrebenta as redes; e para sustentar as forças da multidão que o tinha seguido ao deserto bastava um bocado de pão e peixe e, no entanto, sobraram doze cestos; o paralítico que desejava simplesmente voltar a andar, não esperava voltar à casa livre da carga  de seus pecados; Zaqueu, interessado somente em querer ver Jesus de longe, acaba vivendo um encontro inesperado com Ele em sua casa e partilhando sua mesa; as mulheres que só pretendiam que alguém rolasse a pedra do sepulcro para embalsamar um cadáver, tiveram a grata surpresa de se encontrarem com o Vivente.

Sempre o mesmo esbanjamento da parte de Jesus, e sempre a mesma resistência de muitos quando se tratava de alargar o coração e a vida à hora de adentrar-se no imprevisível que os transbordava. Quem se contenta com vida atrofiada e estreita não pode entrar na dinâmica transbordante da Vida de Jesus. Este “excesso de vida” também transparece no encontro de Jesus com a samaritana, à beira do poço. No início, ela se mostra cética e reticente frente à promessa da água transbordante que a movia ir além de suas previsões.

No evangelho deste domingo, o relato de João nos apresenta uma catequese longa e preciosa, na qual todos os detalhes são significativos. Aproximemo-nos da experiência que ele nos narra, deixando que “ressoe” em nós e desperte (reavive) nossas próprias experiências.

Encontramo-nos, em primeiro lugar, com a experiência de uma mulher, a samaritana: uma mulher anônima, que vivia sob o fardo de uma vida rotineira, de insatisfação e de busca. Sua vida estava ocupada, enredada em tarefas cotidianas, muitas delas pesadas e repetitivas, como tirar a água necessária para a vida da família, todos os dias, debaixo de um sol escaldante, penosamente... Experiência que ela vivia como algo “fechado”, determinado, não escolhido...; o que ela mais desejava era poder sair dessa situação. Por isso, depois das primeiras palavras de Jesus, o que ela expressou foi um desejo de livrar-se desta tarefa: “dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la”.

Não é esta também, de alguma forma, nossa experiência? Quantos de nós temos experimentado e sentido alguma vez em nossa vida que são justamente as tarefas rotineiras, as atividades que não podemos deixar de fazer, aquelas que mais nos impedem viver com intensidade, inclusive nossa fé? Alimentamos sempre o desejo de que, em meio a essa rotina, nossa vida possa dar um salto de qualidade, ser mais criativa, mais ousada e com mais “sabor”, para além das tarefas e circunstâncias.

Como a samaritana, também diante de nós se apresenta uma alternativa: continuar buscando água viva e justificação em poços secos e esgotados ou eleger “vida eterna” e deixar-nos arrastar pela oferta de transformação proposta pelo mesmo Jesus que nos busca, porque deseja ampliar nossa existência e comunicar-nos alegria e plenitude. De que temos sede? Onde buscamos saciar nossa sede?

É meio-dia; há sombra profunda no poço junto ao Garizin. Uma mulher coloca seu cântaro junto à boca do poço. Certamente, ela desejaria livrar-se do próprio cansaço, do peso do dia, do vazio que percebe dentro de si mesma; ela chega ao poço não porque tenha sido informada de que nesse lugar se encontra o famoso rabi da Galileia, mas porque precisa tirar água.

É inspirador este encontro junto a um poço. Tem o sabor do cotidiano. Não há nada programado; não se percebe vestígio algum de esquema de ação “pastoral” pré-estabelecido. Há aqui algo tão refrescante como a água que se encontra a quarenta metros de profundidade.

Percebe-se inclusive a agradável sensação da improvisação. Tudo acontece de maneira espontânea, com a marca do ocasional e surpreendente, sem que haja necessidade de seguir um roteiro pré-fabricado. Jesus se detém não porque espere converter alguém, mas porque está cansado, sente calor, tem fome e sofre o tormento da sede.

Jesus não vacila à hora de destruir as barreiras, de romper os esquemas, de não mostrar apreço algum pelas convenções, de fazer saltar pelos ares os pré-juízos. Parece muita ousadia, imprópria para um rabi, interpelar uma mulher junto a um poço, discutir teologia com ela, responder suas perguntas.

Jesus, mestre de liberdade, desobedece sem problemas de consciência a estas regras discriminatórias codificadas durante séculos. Transgride as proibições impostas pelos fanatismos. É próprio seu um comportamento escandaloso para a mentalidade da época.

Jesus e a samaritana junto ao poço de Jacó deixam transparecer uma dimensão presente em todos nós: na essência, “somos eternos buscadores de poços”, ansiamos por uma vida mais profunda, desejamos escavar nossa interioridade até encontrar a fonte de água viva...

No relato de João, Jesus apresenta-se, ao mesmo tempo, como sede e como água. À samaritana, a quem pede de beber, Jesus se revela como Água Viva, a única capaz de saciar todas as sedes. E, quando sede e água se encontram, acontece a salvação.

O encontro se inicia com uma petição de Jesus que requer uma atitude de solidariedade no nível humano mais elementar, para além de todas as barreiras culturais e religiosas, que costumam separar pessoas.

Oferecer água, elemento escasso naquelas terras áridas, torna-se precioso gesto de acolhida e hospitalidade. 

Jesus não vacila em pedir, em fazer-se pobre, deixando de lado a tradicional superioridade dos judeus em sua relação com os samaritanos. Situa-se numa atitude de dependência, reconhece que tem necessidade da ajuda de outra pessoa. “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva”.

A conversação transita penosamente entre as resistências, a desconfiança e os hábeis “dribles” da mulher. Desde o primeiro momento, a samaritana intui que aquele encontro pode tornar-se “perigoso”. Este homem não é como os demais, pois pretende levá-la onde ela não queria ir. Faz de tudo para escapar dele; desvia-se astutamente da iniciativa de Jesus. Busca levar a conversa para argumentos que não sejam muito comprometedores. Aplica-se a fugir da verdadeira questão.

De forma repentina os papéis se invertem; o forasteiro que antes pedia agora se torna oferente: deixa de ser o mendigo que pede e se revela como aquele que oferece, aquele que faz alusão a um dom misterioso, a um segredo cuja chave só ele possui. É como se Jesus implorasse: “Pede-me de beber...”

A conversa se amplia; continua-se falando de água, mas a impressão é que não se trata mais da água do poço diante deles. O forasteiro se refere a uma fonte que nada tem a ver com o poço de Jacó. Menciona o tema da sede e, contudo, esta sede é diferente. Utiliza as palavras que todos usam, mas a mulher tem a impressão de que aquelas palavras adquirem um conteúdo que se revela desconhecido. Descobre dentro dela o “manancial” que poderia “matar” sua sede.

Entre os protagonistas do encontro está também presente o cântaro. A mulher o deixa na beira do poço e corre à cidade para informar a seus concidadãos sobre o encontro que teve lugar e de que uma experiência assim também é possível para eles.

A Samaritana não tem pretensão alguma de atrair a atenção sobre sua própria pessoa, de mendigar reconhe-cimento. Não busca brilhar com luz própria.

A partir do momento em que o personagem principal ocupa o centro da cena, ela pode sair de cena, sem interferir na experiência dos outros.

 

Texto bíblico: Evangelho segundo João 4,5-42

 

Na oração: 

Para Simone Weil não é o nosso desejo que alcança Deus: se permanecermos sedentos e desejosos é o próprio Deus que desce à nossa humanidade para encher de plenitude o nosso desejo. 

- Numa atitude de atenção e vigilância, deixe que o Senhor escave um poço no seu interior, um poço que se converterá em manancial inextinguível de água viva. A fonte está dentro de você e se constitui como princípio interior de conhecimento, amor, fecundidade, confiança...“Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço de Jacó” (Jo 4,6)

 

Como em tantas outras ocasiões, o evangelho deste domingo nos situa diante de um Jesus imprevisível e surpreendente, capaz de vencer a estreiteza das nossas expectativas, quando nos encontramos com Ele.

Os evangelistas se encarregam de destacar a presença do excesso e do esbanjamento que acompanham as atuações de Jesus, ultrapassando sempre aquilo que se esperava dele: nem os noivos de Caná precisavam de tanto vinho, nem os discípulos precisavam de uma pesca tão abundante que quase arrebenta as redes; e para sustentar as forças da multidão que o tinha seguido ao deserto bastava um bocado de pão e peixe e, no entanto, sobraram doze cestos; o paralítico que desejava simplesmente voltar a andar, não esperava voltar à casa livre da carga  de seus pecados; Zaqueu, interessado somente em querer ver Jesus de longe, acaba vivendo um encontro inesperado com Ele em sua casa e partilhando sua mesa; as mulheres que só pretendiam que alguém rolasse a pedra do sepulcro para embalsamar um cadáver, tiveram a grata surpresa de se encontrarem com o Vivente.

Sempre o mesmo esbanjamento da parte de Jesus, e sempre a mesma resistência de muitos quando se tratava de alargar o coração e a vida à hora de adentrar-se no imprevisível que os transbordava. Quem se contenta com vida atrofiada e estreita não pode entrar na dinâmica transbordante da Vida de Jesus. Este “excesso de vida” também transparece no encontro de Jesus com a samaritana, à beira do poço. No início, ela se mostra cética e reticente frente à promessa da água transbordante que a movia ir além de suas previsões.

No evangelho deste domingo, o relato de João nos apresenta uma catequese longa e preciosa, na qual todos os detalhes são significativos. Aproximemo-nos da experiência que ele nos narra, deixando que “ressoe” em nós e desperte (reavive) nossas próprias experiências.

Encontramo-nos, em primeiro lugar, com a experiência de uma mulher, a samaritana: uma mulher anônima, que vivia sob o fardo de uma vida rotineira, de insatisfação e de busca. Sua vida estava ocupada, enredada em tarefas cotidianas, muitas delas pesadas e repetitivas, como tirar a água necessária para a vida da família, todos os dias, debaixo de um sol escaldante, penosamente... Experiência que ela vivia como algo “fechado”, determinado, não escolhido...; o que ela mais desejava era poder sair dessa situação. Por isso, depois das primeiras palavras de Jesus, o que ela expressou foi um desejo de livrar-se desta tarefa: “dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la”.

Não é esta também, de alguma forma, nossa experiência? Quantos de nós temos experimentado e sentido alguma vez em nossa vida que são justamente as tarefas rotineiras, as atividades que não podemos deixar de fazer, aquelas que mais nos impedem viver com intensidade, inclusive nossa fé? Alimentamos sempre o desejo de que, em meio a essa rotina, nossa vida possa dar um salto de qualidade, ser mais criativa, mais ousada e com mais “sabor”, para além das tarefas e circunstâncias.

Como a samaritana, também diante de nós se apresenta uma alternativa: continuar buscando água viva e justificação em poços secos e esgotados ou eleger “vida eterna” e deixar-nos arrastar pela oferta de transformação proposta pelo mesmo Jesus que nos busca, porque deseja ampliar nossa existência e comunicar-nos alegria e plenitude. De que temos sede? Onde buscamos saciar nossa sede?

É meio-dia; há sombra profunda no poço junto ao Garizin. Uma mulher coloca seu cântaro junto à boca do poço. Certamente, ela desejaria livrar-se do próprio cansaço, do peso do dia, do vazio que percebe dentro de si mesma; ela chega ao poço não porque tenha sido informada de que nesse lugar se encontra o famoso rabi da Galileia, mas porque precisa tirar água.

É inspirador este encontro junto a um poço. Tem o sabor do cotidiano. Não há nada programado; não se percebe vestígio algum de esquema de ação “pastoral” pré-estabelecido. Há aqui algo tão refrescante como a água que se encontra a quarenta metros de profundidade.

Percebe-se inclusive a agradável sensação da improvisação. Tudo acontece de maneira espontânea, com a marca do ocasional e surpreendente, sem que haja necessidade de seguir um roteiro pré-fabricado. Jesus se detém não porque espere converter alguém, mas porque está cansado, sente calor, tem fome e sofre o tormento da sede.

Jesus não vacila à hora de destruir as barreiras, de romper os esquemas, de não mostrar apreço algum pelas convenções, de fazer saltar pelos ares os pré-juízos. Parece muita ousadia, imprópria para um rabi, interpelar uma mulher junto a um poço, discutir teologia com ela, responder suas perguntas.

Jesus, mestre de liberdade, desobedece sem problemas de consciência a estas regras discriminatórias codificadas durante séculos. Transgride as proibições impostas pelos fanatismos. É próprio seu um comportamento escandaloso para a mentalidade da época.

Jesus e a samaritana junto ao poço de Jacó deixam transparecer uma dimensão presente em todos nós: na essência, “somos eternos buscadores de poços”, ansiamos por uma vida mais profunda, desejamos escavar nossa interioridade até encontrar a fonte de água viva...

No relato de João, Jesus apresenta-se, ao mesmo tempo, como sede e como água. À samaritana, a quem pede de beber, Jesus se revela como Água Viva, a única capaz de saciar todas as sedes. E, quando sede e água se encontram, acontece a salvação.

O encontro se inicia com uma petição de Jesus que requer uma atitude de solidariedade no nível humano mais elementar, para além de todas as barreiras culturais e religiosas, que costumam separar pessoas.

Oferecer água, elemento escasso naquelas terras áridas, torna-se precioso gesto de acolhida e hospitalidade. 

Jesus não vacila em pedir, em fazer-se pobre, deixando de lado a tradicional superioridade dos judeus em sua relação com os samaritanos. Situa-se numa atitude de dependência, reconhece que tem necessidade da ajuda de outra pessoa. “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva”.

A conversação transita penosamente entre as resistências, a desconfiança e os hábeis “dribles” da mulher. Desde o primeiro momento, a samaritana intui que aquele encontro pode tornar-se “perigoso”. Este homem não é como os demais, pois pretende levá-la onde ela não queria ir. Faz de tudo para escapar dele; desvia-se astutamente da iniciativa de Jesus. Busca levar a conversa para argumentos que não sejam muito comprometedores. Aplica-se a fugir da verdadeira questão.

De forma repentina os papéis se invertem; o forasteiro que antes pedia agora se torna oferente: deixa de ser o mendigo que pede e se revela como aquele que oferece, aquele que faz alusão a um dom misterioso, a um segredo cuja chave só ele possui. É como se Jesus implorasse: “Pede-me de beber...”

A conversa se amplia; continua-se falando de água, mas a impressão é que não se trata mais da água do poço diante deles. O forasteiro se refere a uma fonte que nada tem a ver com o poço de Jacó. Menciona o tema da sede e, contudo, esta sede é diferente. Utiliza as palavras que todos usam, mas a mulher tem a impressão de que aquelas palavras adquirem um conteúdo que se revela desconhecido. Descobre dentro dela o “manancial” que poderia “matar” sua sede.

Entre os protagonistas do encontro está também presente o cântaro. A mulher o deixa na beira do poço e corre à cidade para informar a seus concidadãos sobre o encontro que teve lugar e de que uma experiência assim também é possível para eles.

A Samaritana não tem pretensão alguma de atrair a atenção sobre sua própria pessoa, de mendigar reconhe-cimento. Não busca brilhar com luz própria.

A partir do momento em que o personagem principal ocupa o centro da cena, ela pode sair de cena, sem interferir na experiência dos outros.

uma representação poderosa do encontro entre Jesus e a mulher samaritana no  poço. Uma imagem que nos lembra que, mesmo quando buscamos água no fundo do  poço, existe uma fonte viva fluindo

 

Texto bíblico: Evangelho segundo João 4,5-42

 

Na oração: 

Para Simone Weil não é o nosso desejo que alcança Deus: se permanecermos sedentos e desejosos é o próprio Deus que desce à nossa humanidade para encher de plenitude o nosso desejo. 

- Numa atitude de atenção e vigilância, deixe que o Senhor escave um poço no seu interior, um poço que se converterá em manancial inextinguível de água viva. A fonte está dentro de você e se constitui como princípio interior de conhecimento, amor, fecundidade, confiança...