sexta-feira, 13 de março de 2026

Libertar o olhar para renascer

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 4º Domingo do tempo da Quaresma (2026).

“Jesus ia passando, quando viu um cego de nascença” (Jo 9,1)

 

Quaresma pode ser o ponto de partida de uma transformação profunda de vida; os quarenta dias de duração são um tempo propício para viver a “operação saída”, ou seja, expandir a vida em novas direções, rompendo com aquilo que é rotineiro, estreito e atrofiante. 

Este tempo litúrgico especial certamente mobilizará e ativará todas as dimensões de nosso ser: nossos sentidos se expandirão, olhando, escutando e sentindo a realidade que nos envolve; nossa mente tornar-se-á mais clara, sabendo discernir e não se deixando manipular; nosso coração se fará mais atento e misericordioso diante do sofrimento humano; nossa alegria será o fermento do pão cotidiano, compartilhado com os outros. E, se dedicarmos mais tempo ao silêncio e à oração, recobraremos energia e sentido, necessários para sair da “normose doentia” de todos os dias.

Neste percurso transformador, Jesus é o grande “pedagogo” que nos toma pela mão e nos ajuda a fazer a travessia em direção à Terra Prometida. Ele se revela como presença inspiradora e que desperta o “melhor” que há em cada um de nós. Por isso, o tempo litúrgico da quaresma nos situa diante das grandes realidades existenciais que nos humanizam: Fonte de Água viva, Luz, Vida...

No relato catequético deste domingo, o evangelista João resume todo o percurso de qualquer pessoa que se encontra com Jesus, que se deixa recriar por Ele, que caminha na sua fé descobrindo-O aos poucos, até acolhê-lo como Luz do mundo.

No encontro com o “cego de nascença”, Jesus se revela como Luz que desperta a luz atrofiada no interior daquele homem paralisado, impotente, dependente dos outros (marginalizado). Todos o olham como um pecador castigado por Deus. Mas Jesus o olha de maneira diferente; logo que o vê, sente o impulso de resgatá-lo daquela vida de mendigo, desprezado por todos como um amaldiçoado. Ele se sente chamado pelo Pai para defender, acolher e curar precisamente aqueles que vivem excluídos e humilhados.

Depois dos gestos terapêuticos de Jesus, o cego descobre a luz pela primeira vez. Jesus o cura, mas o cego também deve colaborar; ele é confrontado com sua própria força e vontade, pois precisa “descer” até às águas de Siloé, até às profundezas de seu próprio ser.

Com o “toque” das benditas mãos de Jesus, as dimensões mais profundas do pobre homem são despertadas, uma nova energia é ativada, a liberdade é reacendida; reconstruído em sua autonomia, agora ele pode dar direção à sua própria vida.

No encontro com Jesus, o cego obtém a visão; mais ainda, o encontro com Jesus é como um banho que não destrava somente o sentido da visão, mas toda sua vida é reconstruída, prolongando o sexto dia da Criação; finalmente, ele poderá desfrutar de uma vida digna, sem temor de envergonhar-se diante dos outros.

O evangelista João, com uma certa ironia, diz que os vizinhos e as autoridades do Templo discutiam se aquele que agora vê era o mesmo que, um pouco antes, não via. Efetivamente é o mesmo, mas não é o mesmo: sendo o mesmo, é outro. Era “o mesmo”, e graças a Jesus não era mais “o mesmo”, pois agora vê a vida de outra maneira. É a diferença entre o homem dependente, sem iniciativa, sem liberdade..., e o homem livre, capaz de abrir-se às surpresas da vida.

O homem, cego até agora, mendigava, era um personagem marginalizado. O encontro com Jesus o reabilita para a vida; volta a ser uma pessoa na convivência. Ele não sabe se é sábado ou segunda-feira, não sabe se aquele que o curou é pecador ou não; o que ele sabe é que antes não via e agora vê. Aos poucos redescobre sua identidade essencial. Todo aquele que se aproxima do “Eu Sou” (Jesus), redescobre seu “eu sou”, ou seja, participa do mesmo ser, da mesma luz de Jesus. Quem se aproxima de Jesus termina sendo como Ele, “eu sou”. Aquele ex-cego fica transformado por ver a vida a partir de Jesus; recupera sua dignidade.

Mas, ser reconstruído em sua identidade tem um preço; o homem curado provoca conflitos com as autoridades religiosas e acaba sendo expulso da sinagoga. Nessa expulsão se revela um conflito radical dos dirigentes judeus que não aceitam Jesus porque está abrindo os olhos das pessoas, para que estas vejam outro mundo, para que tenham um olhar alternativo. “Vim a este mundo para instaurar um processo, para que os cegos vejam e os que veem fiquem cegos” (9,39).

O conflito de Jesus com os dirigentes vai desembocar na morte. Alguns acolhem a visão e a vida que Jesus traz, mas outros se sentem ameaçados em seus privilégios. São as trevas que rejeitam Jesus. As trevas amam as sombras, as prisões e tumbas desconhecidas, os negócios turvos sem testemunhas, os conluios noturnos, os métodos inconfessáveis, os desaparecidos, os arquivos fechados, as alianças clandestinas. “A luz brilhou nas trevas, e as trevas não a compreenderam” (1,5).

 

Mas Jesus não abandona a quem o ama e o busca. Ele tem seus caminhos para se encontrar com aqueles que são rejeitados e expulsos. Ninguém lhe pode impedir. Ele vem sempre ao encontro daqueles que não são acolhidos oficialmente pela religião, daqueles que são excluídos das comunidades e instituições religiosas; aqueles que não têm lugar em nossas igrejas, tem um lugar privilegiado em seu coração. 

Quem levará hoje a mensagem da Boa-Nova de Jesus para os grupos ou minorias excluídas que, a todo momento, escutam condenações públicas injustas de dirigentes religiosos cegos, que se aproximam das celebrações cristãs com medo de serem reconhecidos, que não podem comungar com paz em nossas eucaristias, que se veem obrigados a viver sua fé em Jesus no silêncio de seu coração de maneira secreta e clandestina?

Como seguidores(as) de Jesus, precisamos passar por um processo de desobstrução de nossas “cataratas existenciais” que impedem viver em atitude de contínuo assombro e vibrar com a vida do outro. É preciso “cristificar” nosso olhar para sermos reconstruídos em nossa essência.

Jesus olha cada ser humano como tal, mas este gesto não é um simples “ver” as pessoas, mas um olhá-las a fundo; ou seja, Jesus dirige seu olhar às pessoas para perceber nelas aquilo que para Ele é o mais importante: os traços e a imagem de Deus que elas deixam transparecer para quem as olha.

O olhar de Jesus não se restringe ao exercício da visão; seu olhar possui uma eficácia transformadora, encarnada em sua capacidade de amar, isto é, de olhar as pessoas com o amor de seu Pai. Ao olhar as pessoas, Jesus faz emergir a dignidade que elas carregam: filhas de Deus, as criaturas mais apreciadas pelo Criador. 

Na verdade, o que imobiliza e petrifica é o olhar que se fecha no egocentrismo, que não se abre ao outro numa atitude de respeito, de fidelidade criativa. “Nossa civilização, que já ultrapassou a era do trabalho escravo, ainda está na era do olhar escravo”(Eugênio Bucci).

Muitas vezes, o presente mais precioso que podemos dar a alguém é um olhar diferente; o futuro, a acolhida, o perdão, a alegria... dessa pessoa podem depender desse olhar novo, cheio de afeto e confiança. 

Em muitas situações difíceis da vida, o que salva é o olhar.

Num contexto de relações afetivas, onde os sentimentos são determinantes, qualquer caminho de volta ou de diálogo inicia-se sempre com um olhar conciliador ou reconciliador.

Olhar admirado e gratuito, como aquele de Jesus, que transforma, que liberta e que se comove diante da realidade humana, sobretudo daqueles que “não são olhados”.

Fantoche de controle de mão de titereiro. Homem de negócios ou trabalhador  sendo controlado pelo mestre

 

Texto bíblico: Evangelho segundo João 9,1-41

 

Na oração: 

- Torne o seu coração vulnerável ao olhar do Pai, receptivo a todo apelo que vem d’Ele, deixando-se tocar pelo inesperado, pela novidade, pela iniciativa amorosa d’Ele; o Amor d’Ele é sempre re-criador, suscitando em você lampejos de ressurreição. 

- Orar é ter acesso ao seu “eu profundo” sob o olhar de Deus e desejar ser visto por Ele até as profundidades mais secretas do seu próprio ser;

Evangelize seu olhar para aprender a olhar como Jesus Cristo, ultrapassando as aparências.

- Como você “olha” as pessoas, as coisas, os fatos, o mundo...?

sexta-feira, 6 de março de 2026

Buscadores de poços

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 3º Domingo do tempo da Quaresma (2026).

“Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço de Jacó” (Jo 4,6)

 

Como em tantas outras ocasiões, o evangelho deste domingo nos situa diante de um Jesus imprevisível e surpreendente, capaz de vencer a estreiteza das nossas expectativas, quando nos encontramos com Ele.

Os evangelistas se encarregam de destacar a presença do excesso e do esbanjamento que acompanham as atuações de Jesus, ultrapassando sempre aquilo que se esperava dele: nem os noivos de Caná precisavam de tanto vinho, nem os discípulos precisavam de uma pesca tão abundante que quase arrebenta as redes; e para sustentar as forças da multidão que o tinha seguido ao deserto bastava um bocado de pão e peixe e, no entanto, sobraram doze cestos; o paralítico que desejava simplesmente voltar a andar, não esperava voltar à casa livre da carga  de seus pecados; Zaqueu, interessado somente em querer ver Jesus de longe, acaba vivendo um encontro inesperado com Ele em sua casa e partilhando sua mesa; as mulheres que só pretendiam que alguém rolasse a pedra do sepulcro para embalsamar um cadáver, tiveram a grata surpresa de se encontrarem com o Vivente.

Sempre o mesmo esbanjamento da parte de Jesus, e sempre a mesma resistência de muitos quando se tratava de alargar o coração e a vida à hora de adentrar-se no imprevisível que os transbordava. Quem se contenta com vida atrofiada e estreita não pode entrar na dinâmica transbordante da Vida de Jesus. Este “excesso de vida” também transparece no encontro de Jesus com a samaritana, à beira do poço. No início, ela se mostra cética e reticente frente à promessa da água transbordante que a movia ir além de suas previsões.

No evangelho deste domingo, o relato de João nos apresenta uma catequese longa e preciosa, na qual todos os detalhes são significativos. Aproximemo-nos da experiência que ele nos narra, deixando que “ressoe” em nós e desperte (reavive) nossas próprias experiências.

Encontramo-nos, em primeiro lugar, com a experiência de uma mulher, a samaritana: uma mulher anônima, que vivia sob o fardo de uma vida rotineira, de insatisfação e de busca. Sua vida estava ocupada, enredada em tarefas cotidianas, muitas delas pesadas e repetitivas, como tirar a água necessária para a vida da família, todos os dias, debaixo de um sol escaldante, penosamente... Experiência que ela vivia como algo “fechado”, determinado, não escolhido...; o que ela mais desejava era poder sair dessa situação. Por isso, depois das primeiras palavras de Jesus, o que ela expressou foi um desejo de livrar-se desta tarefa: “dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la”.

Não é esta também, de alguma forma, nossa experiência? Quantos de nós temos experimentado e sentido alguma vez em nossa vida que são justamente as tarefas rotineiras, as atividades que não podemos deixar de fazer, aquelas que mais nos impedem viver com intensidade, inclusive nossa fé? Alimentamos sempre o desejo de que, em meio a essa rotina, nossa vida possa dar um salto de qualidade, ser mais criativa, mais ousada e com mais “sabor”, para além das tarefas e circunstâncias.

Como a samaritana, também diante de nós se apresenta uma alternativa: continuar buscando água viva e justificação em poços secos e esgotados ou eleger “vida eterna” e deixar-nos arrastar pela oferta de transformação proposta pelo mesmo Jesus que nos busca, porque deseja ampliar nossa existência e comunicar-nos alegria e plenitude. De que temos sede? Onde buscamos saciar nossa sede?

É meio-dia; há sombra profunda no poço junto ao Garizin. Uma mulher coloca seu cântaro junto à boca do poço. Certamente, ela desejaria livrar-se do próprio cansaço, do peso do dia, do vazio que percebe dentro de si mesma; ela chega ao poço não porque tenha sido informada de que nesse lugar se encontra o famoso rabi da Galileia, mas porque precisa tirar água.

É inspirador este encontro junto a um poço. Tem o sabor do cotidiano. Não há nada programado; não se percebe vestígio algum de esquema de ação “pastoral” pré-estabelecido. Há aqui algo tão refrescante como a água que se encontra a quarenta metros de profundidade.

Percebe-se inclusive a agradável sensação da improvisação. Tudo acontece de maneira espontânea, com a marca do ocasional e surpreendente, sem que haja necessidade de seguir um roteiro pré-fabricado. Jesus se detém não porque espere converter alguém, mas porque está cansado, sente calor, tem fome e sofre o tormento da sede.

Jesus não vacila à hora de destruir as barreiras, de romper os esquemas, de não mostrar apreço algum pelas convenções, de fazer saltar pelos ares os pré-juízos. Parece muita ousadia, imprópria para um rabi, interpelar uma mulher junto a um poço, discutir teologia com ela, responder suas perguntas.

Jesus, mestre de liberdade, desobedece sem problemas de consciência a estas regras discriminatórias codificadas durante séculos. Transgride as proibições impostas pelos fanatismos. É próprio seu um comportamento escandaloso para a mentalidade da época.

Jesus e a samaritana junto ao poço de Jacó deixam transparecer uma dimensão presente em todos nós: na essência, “somos eternos buscadores de poços”, ansiamos por uma vida mais profunda, desejamos escavar nossa interioridade até encontrar a fonte de água viva...

No relato de João, Jesus apresenta-se, ao mesmo tempo, como sede e como água. À samaritana, a quem pede de beber, Jesus se revela como Água Viva, a única capaz de saciar todas as sedes. E, quando sede e água se encontram, acontece a salvação.

O encontro se inicia com uma petição de Jesus que requer uma atitude de solidariedade no nível humano mais elementar, para além de todas as barreiras culturais e religiosas, que costumam separar pessoas.

Oferecer água, elemento escasso naquelas terras áridas, torna-se precioso gesto de acolhida e hospitalidade. 

Jesus não vacila em pedir, em fazer-se pobre, deixando de lado a tradicional superioridade dos judeus em sua relação com os samaritanos. Situa-se numa atitude de dependência, reconhece que tem necessidade da ajuda de outra pessoa. “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva”.

A conversação transita penosamente entre as resistências, a desconfiança e os hábeis “dribles” da mulher. Desde o primeiro momento, a samaritana intui que aquele encontro pode tornar-se “perigoso”. Este homem não é como os demais, pois pretende levá-la onde ela não queria ir. Faz de tudo para escapar dele; desvia-se astutamente da iniciativa de Jesus. Busca levar a conversa para argumentos que não sejam muito comprometedores. Aplica-se a fugir da verdadeira questão.

De forma repentina os papéis se invertem; o forasteiro que antes pedia agora se torna oferente: deixa de ser o mendigo que pede e se revela como aquele que oferece, aquele que faz alusão a um dom misterioso, a um segredo cuja chave só ele possui. É como se Jesus implorasse: “Pede-me de beber...”

A conversa se amplia; continua-se falando de água, mas a impressão é que não se trata mais da água do poço diante deles. O forasteiro se refere a uma fonte que nada tem a ver com o poço de Jacó. Menciona o tema da sede e, contudo, esta sede é diferente. Utiliza as palavras que todos usam, mas a mulher tem a impressão de que aquelas palavras adquirem um conteúdo que se revela desconhecido. Descobre dentro dela o “manancial” que poderia “matar” sua sede.

Entre os protagonistas do encontro está também presente o cântaro. A mulher o deixa na beira do poço e corre à cidade para informar a seus concidadãos sobre o encontro que teve lugar e de que uma experiência assim também é possível para eles.

A Samaritana não tem pretensão alguma de atrair a atenção sobre sua própria pessoa, de mendigar reconhe-cimento. Não busca brilhar com luz própria.

A partir do momento em que o personagem principal ocupa o centro da cena, ela pode sair de cena, sem interferir na experiência dos outros.

 

Texto bíblico: Evangelho segundo João 4,5-42

 

Na oração: 

Para Simone Weil não é o nosso desejo que alcança Deus: se permanecermos sedentos e desejosos é o próprio Deus que desce à nossa humanidade para encher de plenitude o nosso desejo. 

- Numa atitude de atenção e vigilância, deixe que o Senhor escave um poço no seu interior, um poço que se converterá em manancial inextinguível de água viva. A fonte está dentro de você e se constitui como princípio interior de conhecimento, amor, fecundidade, confiança...“Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço de Jacó” (Jo 4,6)

 

Como em tantas outras ocasiões, o evangelho deste domingo nos situa diante de um Jesus imprevisível e surpreendente, capaz de vencer a estreiteza das nossas expectativas, quando nos encontramos com Ele.

Os evangelistas se encarregam de destacar a presença do excesso e do esbanjamento que acompanham as atuações de Jesus, ultrapassando sempre aquilo que se esperava dele: nem os noivos de Caná precisavam de tanto vinho, nem os discípulos precisavam de uma pesca tão abundante que quase arrebenta as redes; e para sustentar as forças da multidão que o tinha seguido ao deserto bastava um bocado de pão e peixe e, no entanto, sobraram doze cestos; o paralítico que desejava simplesmente voltar a andar, não esperava voltar à casa livre da carga  de seus pecados; Zaqueu, interessado somente em querer ver Jesus de longe, acaba vivendo um encontro inesperado com Ele em sua casa e partilhando sua mesa; as mulheres que só pretendiam que alguém rolasse a pedra do sepulcro para embalsamar um cadáver, tiveram a grata surpresa de se encontrarem com o Vivente.

Sempre o mesmo esbanjamento da parte de Jesus, e sempre a mesma resistência de muitos quando se tratava de alargar o coração e a vida à hora de adentrar-se no imprevisível que os transbordava. Quem se contenta com vida atrofiada e estreita não pode entrar na dinâmica transbordante da Vida de Jesus. Este “excesso de vida” também transparece no encontro de Jesus com a samaritana, à beira do poço. No início, ela se mostra cética e reticente frente à promessa da água transbordante que a movia ir além de suas previsões.

No evangelho deste domingo, o relato de João nos apresenta uma catequese longa e preciosa, na qual todos os detalhes são significativos. Aproximemo-nos da experiência que ele nos narra, deixando que “ressoe” em nós e desperte (reavive) nossas próprias experiências.

Encontramo-nos, em primeiro lugar, com a experiência de uma mulher, a samaritana: uma mulher anônima, que vivia sob o fardo de uma vida rotineira, de insatisfação e de busca. Sua vida estava ocupada, enredada em tarefas cotidianas, muitas delas pesadas e repetitivas, como tirar a água necessária para a vida da família, todos os dias, debaixo de um sol escaldante, penosamente... Experiência que ela vivia como algo “fechado”, determinado, não escolhido...; o que ela mais desejava era poder sair dessa situação. Por isso, depois das primeiras palavras de Jesus, o que ela expressou foi um desejo de livrar-se desta tarefa: “dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la”.

Não é esta também, de alguma forma, nossa experiência? Quantos de nós temos experimentado e sentido alguma vez em nossa vida que são justamente as tarefas rotineiras, as atividades que não podemos deixar de fazer, aquelas que mais nos impedem viver com intensidade, inclusive nossa fé? Alimentamos sempre o desejo de que, em meio a essa rotina, nossa vida possa dar um salto de qualidade, ser mais criativa, mais ousada e com mais “sabor”, para além das tarefas e circunstâncias.

Como a samaritana, também diante de nós se apresenta uma alternativa: continuar buscando água viva e justificação em poços secos e esgotados ou eleger “vida eterna” e deixar-nos arrastar pela oferta de transformação proposta pelo mesmo Jesus que nos busca, porque deseja ampliar nossa existência e comunicar-nos alegria e plenitude. De que temos sede? Onde buscamos saciar nossa sede?

É meio-dia; há sombra profunda no poço junto ao Garizin. Uma mulher coloca seu cântaro junto à boca do poço. Certamente, ela desejaria livrar-se do próprio cansaço, do peso do dia, do vazio que percebe dentro de si mesma; ela chega ao poço não porque tenha sido informada de que nesse lugar se encontra o famoso rabi da Galileia, mas porque precisa tirar água.

É inspirador este encontro junto a um poço. Tem o sabor do cotidiano. Não há nada programado; não se percebe vestígio algum de esquema de ação “pastoral” pré-estabelecido. Há aqui algo tão refrescante como a água que se encontra a quarenta metros de profundidade.

Percebe-se inclusive a agradável sensação da improvisação. Tudo acontece de maneira espontânea, com a marca do ocasional e surpreendente, sem que haja necessidade de seguir um roteiro pré-fabricado. Jesus se detém não porque espere converter alguém, mas porque está cansado, sente calor, tem fome e sofre o tormento da sede.

Jesus não vacila à hora de destruir as barreiras, de romper os esquemas, de não mostrar apreço algum pelas convenções, de fazer saltar pelos ares os pré-juízos. Parece muita ousadia, imprópria para um rabi, interpelar uma mulher junto a um poço, discutir teologia com ela, responder suas perguntas.

Jesus, mestre de liberdade, desobedece sem problemas de consciência a estas regras discriminatórias codificadas durante séculos. Transgride as proibições impostas pelos fanatismos. É próprio seu um comportamento escandaloso para a mentalidade da época.

Jesus e a samaritana junto ao poço de Jacó deixam transparecer uma dimensão presente em todos nós: na essência, “somos eternos buscadores de poços”, ansiamos por uma vida mais profunda, desejamos escavar nossa interioridade até encontrar a fonte de água viva...

No relato de João, Jesus apresenta-se, ao mesmo tempo, como sede e como água. À samaritana, a quem pede de beber, Jesus se revela como Água Viva, a única capaz de saciar todas as sedes. E, quando sede e água se encontram, acontece a salvação.

O encontro se inicia com uma petição de Jesus que requer uma atitude de solidariedade no nível humano mais elementar, para além de todas as barreiras culturais e religiosas, que costumam separar pessoas.

Oferecer água, elemento escasso naquelas terras áridas, torna-se precioso gesto de acolhida e hospitalidade. 

Jesus não vacila em pedir, em fazer-se pobre, deixando de lado a tradicional superioridade dos judeus em sua relação com os samaritanos. Situa-se numa atitude de dependência, reconhece que tem necessidade da ajuda de outra pessoa. “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva”.

A conversação transita penosamente entre as resistências, a desconfiança e os hábeis “dribles” da mulher. Desde o primeiro momento, a samaritana intui que aquele encontro pode tornar-se “perigoso”. Este homem não é como os demais, pois pretende levá-la onde ela não queria ir. Faz de tudo para escapar dele; desvia-se astutamente da iniciativa de Jesus. Busca levar a conversa para argumentos que não sejam muito comprometedores. Aplica-se a fugir da verdadeira questão.

De forma repentina os papéis se invertem; o forasteiro que antes pedia agora se torna oferente: deixa de ser o mendigo que pede e se revela como aquele que oferece, aquele que faz alusão a um dom misterioso, a um segredo cuja chave só ele possui. É como se Jesus implorasse: “Pede-me de beber...”

A conversa se amplia; continua-se falando de água, mas a impressão é que não se trata mais da água do poço diante deles. O forasteiro se refere a uma fonte que nada tem a ver com o poço de Jacó. Menciona o tema da sede e, contudo, esta sede é diferente. Utiliza as palavras que todos usam, mas a mulher tem a impressão de que aquelas palavras adquirem um conteúdo que se revela desconhecido. Descobre dentro dela o “manancial” que poderia “matar” sua sede.

Entre os protagonistas do encontro está também presente o cântaro. A mulher o deixa na beira do poço e corre à cidade para informar a seus concidadãos sobre o encontro que teve lugar e de que uma experiência assim também é possível para eles.

A Samaritana não tem pretensão alguma de atrair a atenção sobre sua própria pessoa, de mendigar reconhe-cimento. Não busca brilhar com luz própria.

A partir do momento em que o personagem principal ocupa o centro da cena, ela pode sair de cena, sem interferir na experiência dos outros.

uma representação poderosa do encontro entre Jesus e a mulher samaritana no  poço. Uma imagem que nos lembra que, mesmo quando buscamos água no fundo do  poço, existe uma fonte viva fluindo

 

Texto bíblico: Evangelho segundo João 4,5-42

 

Na oração: 

Para Simone Weil não é o nosso desejo que alcança Deus: se permanecermos sedentos e desejosos é o próprio Deus que desce à nossa humanidade para encher de plenitude o nosso desejo. 

- Numa atitude de atenção e vigilância, deixe que o Senhor escave um poço no seu interior, um poço que se converterá em manancial inextinguível de água viva. A fonte está dentro de você e se constitui como princípio interior de conhecimento, amor, fecundidade, confiança...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Transfiguração: o que viram em Jesus é o que todos somos

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 2º Domingo do tempo da Quaresma (2026).

“E foi transfigurado diante deles” (Mt 17,2)

 

O relato da Transfiguração em Mateus começa por um dado significativo: “Seis dias depois...”

Inevitavelmente, o leitor se pergunta o que tinha ocorrido de tão importante seis dias antes e se encontra com o primeiro anúncio da paixão.

Mateus compõe seu evangelho tendo como horizonte a nova Criação. O relato da Transfiguração “acontece” seis dias depois. Estamos no sétimo dia. A criação não se conclui na “desfiguração” (morte), mas na Transfiguração (ressurreição).

O sexto dia precede o sábado no calendário judaico. É a véspera do Shabbath no qual se celebra o final da Criação, o descanso de Deus por ter completado sua obra. É o dia da comunhão universal, dia da integração festiva de todas as criaturas, dia do repouso como prolongamento do repouso do Criador.

Mas o “sexto dia” é o que nos ocupa hoje, e nesse dia, que precede o Shabbath, acontece algo no monte.

Neste sexto dia de nossa vida, quando reconhecemos que há algo inacabado em nós e ao nosso redor, na maneira de viver e conviver, somos convidados a “subir” o monte, em companhia de outros.

Subir e tomar distância da agitação diária; subir para ter outra perspectiva da vida, acolher a experiência que nos é oferecida.

Montanha nos faz perceber (a partir do alto) certos aspectos do vale que passam desapercebidos.

Permanecer no vale, sem ter momentos de Montanha, é fechar-nos, cair na rotina, não perceber novos horizontes, não alargar a cabeça e o coração, não ampliar a visão das coisas, da realidade, da história...

Nosso compromisso no vale deve ser fruto do discernimento acolhido na Montanha; esta, nos devolve ao vale com outra visão, outro dinamismo; a Montanha ilumina, dá sentido e sabor à nossa vida no vale.

vale é o lugar do compromisso, do trabalho, da construção..., mas iluminado pela experiência da Montanha. Todo gesto no vale tem plenitude, tem ressonâncias... a partir da Montanha.

Montanha também nos revela que Deus continua “trabalhando” no vale da vida e nos impulsionando a “trabalhar” com Ele na mesma direção.

Como seguidores(as) de Jesus, devemos saber criar, em nossas vidas, espaço e momentos de Montanha (plenitude, silêncio, interioridade, escuta, discernimento); isso possibilita uma prática eficaz, um compromisso duradouro, uma decisão enraizada, uma presença transformadora nos “vale da vida”.

Subir à Montanha nos possibilita ler os horizontes e perceber se estamos caminhando na direção certa; isso implica tomar distância do ritmo diário, descobrir novos caminhos e novas decisões...

É na montanha que temos mais sensibilidade para escutar a voz do Senhor: “este(a) é o(a) meu(minha) filho(a) amado(a). A experiência do amor incondicional de Deus derruba grossos muros, arranca nossas máscaras, revela-nos quanto valemos aos Seus olhos e dá-nos uma nova liberdade para sermos nós mesmos.

Na Montanha somos olhados por Ele em profundidade e esse olhar revela nossa verdade mais original, nossa identidade mais profunda.

Trata-se de um olhar de aceitação, de amor, que nos faz descobrir o quanto valemos, que nos chama à vida, que nos livra do mundo de sombras, medos e inseguranças, que nos faz descobrir o gosto de viver sem máscaras, como alguém respirando ar puro.

Rostos resplandecentes, luz, vestes luminosas: a partir da Luz, a partir de Deus, todas as realidades humanas são vistas de maneira diferente, contemplativa. 

Cedo ou tarde, todos corremos o risco de nos instalarmos na vida, buscando o refúgio cômodo que nos permita viver tranquilos, sem sobressaltos ou preocupações, renunciando a qualquer outra aspiração.

A humanidade de Jesus deixa transparecer a proximidade de Deus. O Pai se revela presente na humanidade de Jesus. Por isso, seu rosto era luminoso como o sol. “Eu sou a luz”

Jesus era totalmente luz porque Deus o inundava; esse é o ponto de partida para Ele e para nós. Não devemos esperar nenhuma transfiguração, mas descobrir nosso ser não desfigurado. Já somos “transfigurados”, e não sabíamos. Não temos de caminhar para uma meta fantástica que nos prometem, mas descobrir já, em cada um de nós, o mais sublime dom, o próprio Deus. Somos transfigurados porque somos habitados por uma Presença, sempre providente e cuidadosa.

Sabemos, por experiência, que há um modo de “instalar-nos” que pode ser falsamente reforçado com “tons cristãos”. É a eterna tentação de Pedro que nos espreita sempre: “construir tendas no alto da montanha”. Ou seja, buscar na religião um bem-estar interior, fechando-nos em práticas “piegas”, ritos estéreis, devoções vazias..., fugindo da responsabilidade de construir uma convivência mais humana, um compromisso solidário e uma atuação em favor da transformação da realidade, tão injusta e tão desumana. É preciso também “transfigurar” nossa vivência religiosa e “descer” da montanha para prolongar o modo de ser e viver de Jesus junto aos marginalizados e excluídos.

A mensagem de Jesus é clara. Uma experiência religiosa não é verdadeiramente cristã se nos isola dos irmãos, se nos instala comodamente na vida e nos afasta do serviço aos mais necessitados.

Essa transfiguração interna se revela também na transfiguração das nossas atividades cotidianas mais comuns e nos encontros com os outros.

Como seres humanos, fazemos muitas coisas que os animais fazem, mas fazemo-las de maneira diferente e com sentidos mais profundas: comemos, mas nossa refeição torna-se encontro, festa, celebração; transfiguramos o alimento. Trabalhamos, mas como uma intenção nobre, com uma inspiração que transcende o próprio trabalho. Convivemos, mas, vamos além da proteção grupal: transfiguramos as relações, os encontros, os diferentes laços humanos. Nossa sexualidade não é mera genitalidade, mas afeto e amor; transfiguramos a dimensão afetiva humana. Viver humanamente é transfigurar a existência.

A transfiguração é uma vivência luminosa, um ver a vida a partir da perspectiva de Deus. Na vida temos de ter um pouco mais de lucidez e de sensatez para olhar em profundidade, para transfigurar as realidades cotidianas: uma experiência de elevação, de sentimentos “oceânicos”, de uma consolação intensa... 

Talvez isso já tenha ocorrido alguma vez quando escutamos uma música, vimos a bondade de uma pessoa, a fidelidade silenciosa no trabalho, a leitura de um salmo ou uma poesia, a contemplação da natureza, etc... Tantas vezes vemos as mesmas realidades cotidianas e, num belo dia, de maneira surpreendente, tais realidade provocam um impacto profundo em nós e, assim, caímos na conta de aspectos e valores aos quais não éramos conscientes. Muitas vezes, quando nos encontramos com determinadas pessoas, “não vemos nada”, não transluzem nada; outras vezes, encontramos uma pessoa simples, humilde, que transmite luz, bondade, proximidade... São vivências transfiguradas.


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Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 17,1-9

 

Na oração:

A voz do céu, a voz que ressoa no interior de cada um é de amor: “este(a) é meu(minha) filho(a) amado(a)”. Deus se compraz em seu Filho e em nós, que também somos seus filhos(as). O melhor que pode nos acontecer é que nos sintamos queridos(as), amados(as) e acolhidos(as) por Deus.

- A oração faz emergir à consciência uma nova imagem de nós mesmos e indica com o dedo uma área da nossa personalidade que necessita ser transfigurada com criatividade; ela promove um desenvolvimento criativo, eliminando a distância entre a imagem real e as falsas imagens que habitam o nosso interior.

- Através do encontro com o Senhor, no silêncio da montanha, a oração revela quem somos realmente, e amplia nossa vida para além de nossas pequenas fronteiras. Com efeito, orar é aproximar-nos da “verdade que nos faz livres”; livres para sermos “nós mesmos”, chegar a ser aquilo para o qual somos chamados a ser.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Deserto, chave para abrir a porta da casa de nosso “eu verdadeiro”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 1º Domingo do tempo da Quaresma (2026).

“O Espírito conduziu Jesus ao deserto...” (Mt 4,1)

 

O primeiro domingo da Quaresma nos desloca até o “deserto das tentações”; ali Jesus se deparou com as grandes “forças que desumanizam”: “pão do ego”, “poder auto-centrado”, “vaidade estéril”.

Jesus foi conduzido ao deserto imediatamente depois do seu batismo, com a palavra do Pai ressoando em seu coração: “Tu és meu filho amado...”; mas agora, no deserto, vai escutar outras palavras que “tentam” convencê-lo para que não ponha o centro de sua vida nesse amor, mas no poder, na vida fácil, na fama, nas posses... O relato das tentações resume simbolicamente outros momentos da vida de Jesus nos quais esteve submetido à alternativa entre “a maneira de pensar de Deus” ou “a maneira humana”. 

Conduzido pela força do Espírito, Ele viveu uma integração a partir de seu coração e não se deixou levar pelas aparências enganosas.

Sua vocação à messianidade ficou clara no batismo; daí em diante, buscou os melhores meios para viver sua missão. No seu discernimento, Jesus sentiu que o poder, a riqueza, o prestígio, não eram “meios” para realizar a Vontade do Pai; pelo contrário, inspirado pelo Espírito, elegeu o caminho do esvaziamento de si, da pobreza e do compromisso solidário com os mais pobres e excluídos. Sua missão como Messias devia começar nas periferias, junto aos abandonados pelo poder religioso e civil da época.

deserto, na tradição bíblica, é um lugar ambivalente: por um lado, é o cenário das maiores dificuldades, onde o ser humano, sem seguranças às quais apegar, se sente submetido às provas mais duras; por outro, no entanto, aparece como o espaço no qual se goza de uma especial intimidade com Deus: “Levá-la-ei ao deserto e lhe falarei ao coração”, diz Oséias (2,14). 

Sem dúvida, não é casual que ambos significados apareçam unidos. 

Mas existe outro “deserto” não buscado e, por isso, com frequência, mais desconcertante e mais difícil de assimilar. Entram aí todas aquelas situações e circunstâncias que a vida nos apresenta, geralmente em forma de crise ou fracasso, nas quais somos convidados a viver um despojamento, um esvaziamento daquilo com o qual tínhamos nos identificado. Trata-se de uma experiência de “deserto” porque também acontece uma quebra das falsas seguranças, nas quais fundamentávamos a vida e, assim, nos encontramos diante daquilo que que se revela como o mais vulnerável e obscuro de nossa existência.

Trata-se de um momento tão difícil como privilegiado. Difícil, inclusive doloroso, porque nos sentimos sacudidos. Este deserto inesperado se caracteriza pela aridez, pela secura, pelo sem-sentido e pela desesperança. A obscuridade parece invadir o espaço que antes nos parecia luminoso e o desconcerto ameaça introduzir-nos numa espiral de vazio.

E, no entanto, é então quando acontece o milagre. Leonard Cohen afirma: “Há uma greta, uma greta em tudo. Por aí é onde entra a luz”. Deus tem mais facilidade de entrar em nossa vida pelas fendas dos fracassos, das feridas, das crises... Esvaziados de nosso ego inflado e inflamados pela força divina, começamos a re-escrever nossa história a partir de novas bases, mais humanas, mais inspiradoras... Este é o processo de conversão a que somos chamados a viver: sair dos “lugares estritos” e entrarmos no movimento de plenitude e sentido.

No relato das tentações de Jesus destacam-se os impulsos mais fortes do ego. É facilmente compreensível: nossa primeira e permanente tentação é a de nos identificar com o ego e viver para ele.

É um engano que conduz à confusão e ao sofrimento, porque implicae esquecer-nos de nossa verdadeira identidade e reduzir-nos a “algo” que nos escraviza. O ego, alimenta necessidades e medos, obscurece nossa visão e nos faz ver a realidade a partir de uma reduzida lente contaminada. Prisioneiro de uma insatisfação constante, o ego dedica toda sua vida a acumular, a ser o centro das atenções, a alimentar vaidade e buscar prestígio: esse é o único modo de sentir-se vivo.

tempo quaresmal nos sacode e nos desnuda, porque desmascara nossas falsas seguranças, centradas na riqueza, no poder, na vaidade.  Inspirados pelo “discernimento” de Jesus no deserto, somos também movidos a buscar nossas raízes mais profundas. Quando esse percurso é vivido de maneira intensa, o Espírito nos conduzirá ao fundo estável e sereno, nos conduzirá à “casa”, à nossa verdadeira identidade, à 

“Terra prometida”, onde há fartura de nutrientes. É preciso retornar à nossa “casa interior” para esvaziá-la de todo desejo de poder, de vaidade, de prestígio e de ridículos ídolos; somente Deus é Senhor de nossa vida.

O tempo quaresmal põe às claras aquelas atitudes que afogam a possibilidade de viver o seguimento de Jesus com mais inspiração; tal vivência desmascara um modo de viver acomodado aos critérios do mundo que

petrifica nosso coração: deixar-nos prender pelas garras do consumismo, concretizado nos “afetos desordenados” ou apegos aos bens, poder, auto-imagem, lugares, pessoas, títulos..., que esvaziam a vida e nos deslocam do essencial.

Diante das carências existenciais, surge a tentação de buscar compensações, que exigem investimento afetivo, nos tiram do foco e nos fazem cair em estado de letargia e acomodação. Todas essas compensações têm algo em comum: elas nos fazem adormecer e, desse modo, abortam a novidade que poderia brotar em nós e atrofiam a esperança, pois nos prende ao mais imediato (fixação afetiva).

É preciso ter os olhos abertos para além das preocupações cotidianas e poder entrar em sintonia com a presença d’Aquele que vem sempre ao nosso encontro. O maior inimigo de nossa existência é a dispersão, ou seja, investir afetivamente nas coisas cotidianas mais imediatas e esvaziar o horizonte de sentido de nossa vida. Para investir afetivamente no seguimento de Jesus, é preciso alargar espaço em nossas moradas internas, re-ordenar os afetos, expandir o coração.

Assim, a contemplação de Jesus no deserto nos move à liberdade e se manifesta como um chamado a uma vida mais simples, partilhada, apaixonada, natural, livre, transcendente, intensa, comprometida...

Como seguidores(as) de Jesus, todos nós também temos a experiência do que significa a tentação do poder. Em um mundo onde as relações se estabelecem através da força, da dominação, de uma maneira de exercer o poder, onde o forte se impõe sobre o fraco, o rico sobre o pobre, o que possui informação sobre o ignorante..., o fruto do discernimento de Jesus nos introduz na nova ordem de relações que devem caracterizar o Reino: nele a vinculação fundamental é a da irmandade no serviço mútuo.

A partir do deserto, a prática de Jesus vai desestabilizar todos os padrões e modelos mundanos de poder, desqualificando qualquer manifestação de domínio de uns sobre os outros: inaugura-se um estilo novo no qual o “desenho circular” desloca e dá por superado o “modelo hierárquico”. Sua maneira de se relacionar com as pessoas marginalizadas e excluídas vai pôr em marcha um movimento de inclusão onde, uma casa acolhedora e uma mesa partilhada com os menos favorecidos, invalidam qualquer pretensão de poder, de prestígio, de situar-se acima dos outros, devolvendo a todos a dignidade perdida.

À luz do tema da Campanha da Fraternidade (Fraternidade e moradia), podemos dizer que, no Projeto-Reino de Jesus, a casa-lar ocupa o centro, pois ela convida, convoca e abre espaço na vida de seus moradores, possibilitando a sociabilidade, a partilha, a vivência de valores inter-pessoais, de humanização.

Nela e com ela aprendemos a acolher o outro como dom; aprendemos a nos doar, a partilhar, a receber, a escutar e a falar, a contemplar o outro em sua singularidade. 

casa é também o lugar onde acolhemos as alegrias e as tristezas do outro, os êxitos e os fracassos... Ela é o lugar do suporte das relações, espaço que garante o sustento que alimenta o corpo, o emocional, o psíquico, o espiritual e o social. Esse lugar humano é revelador de cultura, de aprendizado e base para a vivência dos valores individuais e coletivos. Lugar fecundo, onde o imprevisível pode acontecer.

O deserto e a terra árida vão alegrar-se, a estepe exultará e dará flores»  (Is 35,1)

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 4,1-11

 

Na oração: 

No silêncio de seu deserto, entre em diálogo profundo com Aquele que faz morada em seu interior.

- Você é convidado(a) a adentrar-se no território sagrado, chamado “deserto do encontro”. Tão rico é esse lugar que sua espiritualidade, vista como manancial da vida, não exclui nenhum momento: situações tristes, felizes, momentos de sofrimento, de luta, de vitória...

- Nesse espaço, onde o Eterno quer habitar, é que você encontrará o bálsamo e o alívio para sua existência psíquica e espiritual. Nessa fonte sagrada, o sofrimento pode ser compartilhado, a tristeza transformada em alegria, as trevas em luz, o desejo em realidade, a esperança pode ser reacendida...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Quaresma: retornar à própria casa

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho da Quarta-feira de Cinzas (2026), que inicia o Tempo Litúrgico da Quaresma. Desejamos uma profunda "travessia quaresmal" a todos.

“Tu, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai que está no escondido” (Mt 6,6

 

A Quaresma chega de novo, sempre nos chamando a acolher a Boa Notícia a partir de dentro, a partir da conversão do coração. Embora “sejamos pó e ao pó retornaremos”, o que é mais autêntico em nós se revela no serviço e no amor, como Aquele que afirmou ser o caminho, a vida e a verdade.

Estamos iniciando mais um percurso quaresmal, centrados na pessoa de Jesus Cristo, crescendo na identificação com Ele e dando uma feição nova ao seguimento. 

Sabemos que a Quaresma é um caminho de discernimento e mudança. Os meios que ela oferece para esta transformação espiritual são as chamadas “práticas quaresmais”: jejum, oração e esmola. O jejum nos ajuda a recuperar a liberdade frente às desordens de todo tipo, adotando um estilo de vida mais simples; a oração faz com que todo o nosso ser se volte para Deus e nos deixemos conduzir por Ele; a esmola nos arranca de nossa comodidade e ativa em nós as atitudes de compaixão, solidariedade e cuidado, fazendo-nos passar da indiferença à responsabilidade diante dos outros, sobretudo dos mais pobres e excluídos.

“Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas” (Mário Quintana). Para podermos viver o tempo quaresmal com mais intensidade e inspiração, vamos entrar em sintonia com a Igreja no Brasil que nos propõe a Campanha da Fraternidade como mediação para despertar nossa sensibilidade diante de situações desumanizantes em nossa realidade. Com o tema: “fraternidade e moradia”, e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), a CF quer trazer à tona o drama da falta de moradia que afeta grande parcela de nosso povo.

O que é “estar em casa” para nós hoje, num mundo estranho e em constante mudança? O que significa “casa” para nós atualmente? Que tipo de sentimento está conectado a ela? Onde nos “sentimos em casa”?

O drama da falta de moradia para todos é sintoma do caos presente no interior de cada um. O problema da moradia não é só uma realidade externa; existe uma crise de moradia muito mais grave que a falta de casas: é a escassez de pessoas interiormente acolhedoras e disponíveis para seus irmãos.

Uma das metáforas bíblicas mais adequadas para entender nosso momento atual é aquela que fala do “regresso à casa”.Embora existam demasiados ruídos, fugas, competições, vivências superficiais nesta sociedade incerta e estressada e que parecem afogar a pessoa, não é difícil perceber um anseio interno que se expande e que pode ser resumida nesta expressão: “desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa!”

Com frequência, as pessoas se acomodam em sobreviver, não investem seus recursos internos numa causa mobilizadora e acabam atrofiando o sentido de suas vidas. E, no entanto, se elas prestarem um mínimo de atenção à voz interior, sentirão o brotar do desejo de uma vida mais plena, ativarão a escuta do Mestre interior que, com frequência, sussurra: “retorna à tua casa!”

O ser humano aspira viver em sua casa interior e, por mais distante que esteja da mesma, o sentimento mais forte é o da saudade.  Na vida de cada pessoa acontece uma transformação radical quando ela é capaz de experimentar, em si mesma, esse “lugar” interior, referido com a imagem da “casa”. Um lugar de silêncio, em meio a qualquer agitação das ondas; de calma, em meio a qualquer tempestade; de luz, em meio a qualquer obscuridade; de alegria serena em meio a qualquer mal-estar ou angústia... 

Esse é o lugar onde a pessoa se reconhece a si mesma: ali ela sente o seu ser, para além daquilo que ela faz. E só ali é possível o “descanso”, no sentido mais profundo dessa palavra. E é justamente desse lugar onde brota o convite que se repete: “retorna à tua interioridade!”

“O ser humano só está em casa no mistério de Deus” (Clemenz Schmeing). Só quando ele experimenta o “mistério de Deus” que está presente nele é que poderá verdadeiramente se “sentir em casa”. Ele só pode permanecer nele mesmo porque se sente habitado pelo próprio Deus que o sustenta e lhe fala ao coração. 

Trata-se da “tenda interior” na qual o próprio Deus faz sua morada nele; ali, é plenamente ele mesmo, verdadeiramente em casa. Ele precisa apenas olhar para dentro e transitar pelos espaços interiores. Descobrirá, então, que o céu está nele e ali, no céu interior, está a verdadeira “terra prometida” que ninguém pode roubar ou destruir.

No contexto social pós-moderno as pessoas relatam que perderam não somente seu lar exterior, mas também o interior. Elas se percebem sem o sentimento de acolhida e proteção; elas já não sabem mais quem são; perderam seu vínculo de pertença, além de não mais saberem o que as sustenta; não sabem mais onde poderão encontrar segurança e acolhimento.

Diante da “cultura líquida” e “deslocada” na qual vivemos, é urgente gerar espaços e tempos que facilitem reabrir as vias da interioridade, possibilitar o retorno à “morada interior”, onde é gestada a própria identidade e as opções mais sólidas. Espaço e tempo no qual podemos entrar em contato com algo que a plenifica e a expande. 

Nesse sentido, a vivência da Quaresma revela-se como uma excelente oportunidade para “voltar à casa interior”. Pacificados em nossa “casa interior”, brotará em nós uma sensibilidade solidária para lutar em favor de uma moradia digna para todos.

Neste mundo disperso e distraído, a vivência quaresmal pode dar referências e amparo; no percurso que fará, cada um vivenciará sua casa interior; entrará em contato com algo nobre no coração que pode estar encoberto por feridas, traumas, fracassos, sentimentos negativos...; ativará o anseio pelas raízes, a partir das quais poderá viver com mais inspiração e criatividade.

Quem habita em si mesmo, quem está desperto para aquilo que é mais nobre e que cuida dos seus movimentos interiores (inspirações, intuições, desejos...), construirá uma casa que será convidativa para que outros se aproximem, se sintam acolhidos, protegidos, amados... 

No evangelho indicado para esta Quarta-feira de Cinzas, Jesus nos convida a retirar-nos para o nosso “quarto”; é aí o nosso deserto: trata-se de um lugar íntimo, sagrado, onde nenhum estranho tem acesso, todo impregnado de solitude e silêncio. É o lugar sagrado da nossa casa. Esse “quarto interior” é habitado por uma Presença providente e compassiva; só quem tem acesso ao seu “eu” mais profundo descobrirá que ele é “morada” do Senhor e que quer estabelecer um diálogo amoroso com ele.

Em grego, o termo “quarto” (“tameión”) significa também celeiro, local onde se guardam as provisões.

Por isso “quarto” quer dizer também lugar onde estão guardados os alimentos, o sustento de cada dia, as energias, a criatividade, os sonhos, as intuições... É o lugar dos nutrientes indispensáveis para a vida.

Jesus insiste no caráter secreto desse lugar, de onde podemos escapar dos olhares alheios. É decisivo que a nossa única preocupação seja a de nos colocar apenas diante o olhar de Deus; o que conta é rezar com o coração: trata-se de reservar aí um espaço destinado exclusivamente a Deus.

Quando fazemos a experiência desse retorno à nossa “morada interna”, descobrimos que esse é o tesouro escondido, tão próximo, tão íntimo, capaz de transformar a nossa vida, nosso modo de proceder, de nos relacionar e de nos comprometer.


Paróquias da região divulgam horários das celebrações da Quarta-feira de  Cinzas


Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 6,1-6.16-18

 

Na oração:

- Quê mediações você vai ativar durante a Quaresma para ajudar a esvaziar sua “casa interior” e abrir espaço para a atuação livre de Deus?

- Como você se sente em sua casa interior? Precisa abri-la, arejá-la, modificá-la, iluminá-la... É espaço de acolhida, de gratuidade, de serviço...? Ou há falsos senhores que a habitam, travando o fluir de sua vida?