sábado, 18 de abril de 2026

Caminho de Emaús: pedagogia para integrar as crises e fracassos

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho do 3º Domingo da Páscoa (Ano A - 2026).

“Não estava ardendo o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32)

 

Certamente, todos nós já passamos por experiências de decepção na vida. Sabemos que, muitas vezes, as pessoas que mais amamos são aquelas que nos decepcionam. O grau de decepção é diretamente proporcional às pessoas mais próximas; quanto mais afeiçoadas a elas, maior é a decepção. Aquelas que não amamos, ou quase não as conhecemos, não nos decepcionam tanto. Decepcionam-nos aquelas de quem esperamos algo. 

Podemos recordar quantas pessoas que nos decepcionaram em nossa vida..., ou aquelas que decepcionamos. Também nós nos decepcionamos a nós mesmos. Acreditávamos que daríamos conta de propósitos feitos e não chegamos a cumpri-los. Não se trata só de coisas grandes... Coisas pequenas são decepções de cada dia.

Cada ano, no Tempo Pascal, nos encontramos com um texto de decepcionados: relato dos “discípulos de Emaús”. Dois discípulos que queriam muito a Jesus, que estiveram a seu lado, e que, decepcionados, vão embora do grupo dos discípulos. Não suportaram estar decepcionados e continuar como discípulos.

Aqueles discípulos conviveram com Jesus durante três anos; alimentaram expectativas pessoais e não entenderam bem qual era a proposta d’Ele.  Por isso, ficaram decepcionados diante da trágica morte e do fracasso da missão do mesmo Jesus. Procuraram sair de cena, desiludidos com o que lhes parecia ser o desfecho de uma história, a mesma que suscitara neles expectativas tão altas (“nós esperávamos...).

Para eles, já não valia mais a pena seguir a quem os decepcionou. O melhor era afastar-se dele e viver a vida de acordo com aquilo que queriam. E foram embora, mergulhados na solidão, sozinhos, tristes e “discutindo” pelo caminho. Voltaram para a casa com sua decepção. Isolaram-se.

À luz do relato dos “discípulos de Emaús” podemos afirmar que a decepção é pensar ou fazer uma ideia das possibilidades de alguém de quem se espera muito e a realidade acaba revelando o contrário. 

A decepção atrofiou o olhar e não os deixava ver; travou a mente e não os deixava ter uma percepção mais ampliada; secou os sentimentos mais nobres e os mergulhou na tristeza. Ela os fez dar voltas sempre sobre o mesmo. “O que ides conversando pelo caminho?”  E eles começaram a falam de sua decepção, do “chá de cadeira” (da propaganda enganosa) que Jesus lhes dera. “Ele não era como eles haviam pensado, imaginado”. E isso os afundou na tristeza, no fracasso e os fizera “voltar para casa, deixando o projeto de viver com os amigos de Jesus”. Falavam, discutiam e voltavam a falar do mesmo. Davam voltas às coisas para dizer sempre o mesmo. Não entendiam Aquele que os decepcionou. Não era possível. Tentaram apagá-lo de sua existência e por isso se afastaram da comunidade dos seguidores d’Ele.

Para romper o círculo da conversa repetida e doentia foi preciso que alguém lhes ajudasse, lhes explicasse, lhes abrisse os olhos, lhes fizesse unir o fato acontecido com as profecias, para poder sair de suas queixas estéreis. Foi preciso passar da memória mórbida, fracassada, triste..., à memória sadia, redentora; foi preciso sair do “porque isso aconteceu?” e voltar-se ao “para que isso aconteceu?” Foi preciso situá-los em outro horizonte, mais instigante e inspirador. 

Assim fez o peregrino Ressuscitado junto aos dois discípulos que iam embora.

Qual é a boa-nova do evangelho deste domingo?

Que a decepção pode ser também o lugar de revelação, de encontro, de ver as coisas sob outra perspectiva, de dar-se conta de que tinha investido a vida em alguém segundo os próprios critérios. O caminho empreendido pela decepção, ou seja, o voltar para casa e deixar o grupo de seguidores é, em Emaús, o caminho onde o Ressuscitado também vem ao encontro deles e estabelece uma conversação carregada de afeto e ternura. Nada de julgamento, de acusação. A decepção para com o Mestre da Galileia foi a oportunidade de novo encontro com Ele. 

No caminho da decepção é onde encontramos e nos encontramos com pessoas, com acontecimentos, com ocasiões para revisar nossa decepção. No caminho da decepção é onde Deus também sai ao encontro dos decepcionados. A decepção nos leva sempre, como os discípulos de Emaús, a descobrir que temos falsas ideias de Deus, de nós mesmos, dos outros, que construímos “imagens” segundo nossos critérios, que esperamos que tudo se cumpra segundo “o que nós imaginamos e cremos”.

E na decepção, como nas pequenas decepções de cada dia, Deus está nos convidando a ir mais além, a reconhecê-lo de verdade como Senhor, a tirar as capas que fazem com que o Deus em quem cremos seja uma construção nossa. Em Emaús, a maneira que o Ressuscitado encontrou para abrir os olhos dos discípulos foi fazer-se peregrino como um de tantos homens que vão pelo caminho e falar-lhes... Outras vezes Ele se deixa encontrar no silêncio, no grupo, ou numa conversação que alenta e aquece o coração.

Há um detalhe que não deveria passar desapercebido no relato deste domingo: enquanto os dois discípulos continuam falando e discutindo, o Ressuscitado se aproxima, gasta seu tempo, caminha a seu lado, guarda silêncio e escuta-os. E toda esta aproximação... para quê? Para pôr-se a caminho com eles. Chama a atenção que não haja outra intenção em Jesus. Não há uma pretensão oculta, pois não se trata de uma aproximação interesseira ou de uma estratégia pastoral. Simplesmente, se põe a caminhar, dando tempo para que surja, sem violentá-los, o diálogo e a confidência.

Chama a atenção que não há recriminação da parte do Ressuscitado para com os discípulos que abandonam tudo num momento no qual se torna inconcebível crer no anúncio das mulheres, “enlouquecidas” de alegria diante do túmulo vazio do Nazareno. Jesus se põe a caminhar com eles sem importar-se para onde vão, sem pretender mudar-lhes o rumo que tomaram, sem forçar a voltar para a comunidade.

A aproximação honesta que busca pôr-se a caminhar com o outro, sem se importar para onde vão, possibilita a criação de espaços nos quais se podem fazer as perguntas: “De que estais falando? Que aconteceu?”.

O silêncio e as perguntas do Ressuscitado lhe permitem não só escutar a narrativa dos acontecimentos ocorridos, mas, sobretudo, perceber as vivências que os dois de Emaús têm: decepção diante daquilo que foi prometido e não se realizou; frustração diante de expectativas não realizadas. 

Por debaixo daquilo que é narrado, Jesus percebe o que foi vivido pelos dois discípulos. E sua resposta se situa justamente nesse nível: o da vivência. 

Os dois discípulos de Emaús não poderiam reconhecer o Senhor ressuscitado na “fração do pão” se antes não tivessem vivido atitudes para isso: acolhê-lo como companheiro de caminho, escutar sua Palavra e deixar que Ele abrisse seus olhos. 

Depois que “seus olhos se abriram”, os discípulos passam da mais profunda tristeza e da mais radical decepção para uma alegria e um entusiasmo nunca antes experimentado.

Invadidos por uma imensa alegria, voltam para Jerusalém, sem pensar no cansaço nem na distância do caminho, sem temer a escuridão nem os perigos da noite.

Não fazem o “caminho da volta” arrastando os pés e cabisbaixos, como tinham feito o caminho de ida, mas correndo, com os olhos iluminados e o coração ardendo no meio da noite.

A dimensão comunitária é, portanto, constitutiva da experiência do encontro com o Ressuscitado.

Dito de outro modo: o encontro pessoal com o Senhor edifica a comunidade. O re-encontro e a restauração da comunhão com Jesus, agora ressuscitado, movem os dois discípulos a realizar o caminho de volta para a comunidade e para a missão.


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Texto bíblico: Evangelho segundo Lucas 24,13-31

 

Na oração:

Busque, na oração, inspirar-se na aproximação do Ressuscitado para ativar sua capacidade de se colocar e caminhar ao lado de tantas pessoas tristes e frustradas que, como os dois de Emaús, também estão se afastando. Atuar desta maneira supõe assumir riscos, ou seja, adentrar-se em seu terreno, em suas visões da vida, nas motivações que os movem. E aproximar-se não significa só um movimento de saída do lugar que proporciona segurança, senão que, sobretudo, implica a superação de pré-juízos, de imagens pré-concebidas, de suspeitas...

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Vida ressuscitada: portas e janelas abertas ao mundo

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho do 2º Domingo da Páscoa (Ano A - 2026).

“... os discípulos estavam com as portas bem  fechadas, por medo dos judeus” (Jo 20,19)

 

O relato pascal deste domingo descreve, com traços fortes, a situação da comunidade cristã quando em seu centro falta a presença do Cristo ressuscitado. Sem sua presença viva, a comunidade se reduz a um grupo de homens e mulheres que vivem “numa casa com as portas fechadas, por medo dos judeus”.

Com as “portas fechadas” não se pode saber o que acontece lá fora; não é possível captar a ação do Espírito no mundo; não dá para abrir espaços de encontro e diálogo com ninguém; apaga-se a confiança no ser humano e crescem os medos e pré-juízos. Uma comunidade que permanece no túmulo, mergulhada no medo e sem capacidade de encontro e diálogo, é uma tragédia, pois os seguidores de Jesus são chamados a tornar visível, no hoje da história, o eterno diálogo de Deus com a humanidade.

Grandes medos não aparecem com frequência; são os pequenos medos que surgem dos encontros diários com a realidade e roubam nossa vitalidade e dinamismo. O medo inibe o pensamento, impede a concentração e é, portanto, muito responsável por fazermos as coisas de modo medíocre, sem valor, abaixo das possibilidades e contra as nossas expectativas. 

medo não é um ato moral nem uma omissão. Sem ser convidado, ele cresce no nosso coração. Em tal atmosfera de medo, a imaginação e todas as energias criativas se atrofiam. 

Chegamos à pós-modernidade com uma enorme carga de medo; somos atormentados o tempo todo pelo medo; um medo sem nome, um fantasma sem rosto, escuro como uma sombra e rápido como uma tempestade; medo cruel que afeta os corajosos e agride os ousados. Não existe depósito de munição mais potencialmente explosivo do que os estoques de medo guardados nas escuras profundezas do nosso ser. O medo nos deixa vulneráveis à manipulação.

O “medo” pode paralisar o “movimento de vida” iniciado por Jesus e bloquear nossas melhores energias; sob o impacto do medo a tendência é nos fechar nos ritos estéreis, na doutrina fria, no legalismo e no moralismo doentios que nos levam a rejeitar o que é diferente e a condenar o que é novo. Com medo não é possível amar o mundo e as pessoas. E, se não o olhamos a realidade com os olhos de Deus, como vamos comunicar a Boa Notícia? Se vivemos com as portas fechadas, quem deixará o redil para buscar as ovelhas perdidas? Quem se atreverá a tocar a algum doente excluído? Quem se sentará à mesa com pecadores e marginalizados? Quem se aproximará dos esquecidos pela religião? 

Aqueles que desejam buscar o Deus de Jesus nos encontrarão com as portas fechadas.

O relato de João é sugestivo e interpelador. Só quando vê a Jesus ressuscitado no meio deles, o grupo de discípulos se transforma, recuperam a paz, desaparecem seus medos, enchem-se de uma alegria desconhecida, recebem o Sopro de Jesus sobre eles e abrem as portas, porque se sentem enviados a viver a mesma missão que Ele havia recebido do Pai.

O relato joanino deste domingo traz uma série de expressões que revelam a profunda “ressurreição” vivida pela comunidade dos discípulos; ela precisou fazer a travessia da escuridão para a luz, do medo para a coragem, da timidez para a missão; são expressões carregadas de vida, de futuro, abertas ao novo e que mobilizam a retomar a mesma missão vivida por Jesus durante sua vida pública. O Ressuscitado reconstrói sua comunidade de seguidores, rompe as cadeias do medo e os devolve ao mundo.

 

* “O primeiro dia da semana”

Começa uma nova Criação e com ela, uma nova Aliança. Em Jesus se completa a criação do ser humano, levando a humanidade à sua plenitude.

O local fechado, como consequência do medo, delimita o espaço da comunidade em meio a um mundo hostil. A mensagem de Maria Madalena fazendo-os saber que Jesus vivia, não os havia libertado do medo. Jesus sai ao encontro dos discípulos inesperadamente; sua presença se efetua diretamente. Ele é quem toma sempre a iniciativa e aparece no centro da comunidade, porque, agora, Ele é para eles a única referência e fator de unidade. A presença que experimentam não é uma invenção nem surge de um desejo ou expectativa dos discípulos. A nenhum deles teria passado pela cabeça que Jesus pudesse aparecer, uma vez que tinham testemunhado seu fracasso e sua morte. 

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* “A paz esteja convosco”

Jesus os saúda; o calor da saudação elimina o medo e as incertezas; é o gesto que conecta o que está acontecendo com o Jesus que viveu e comeu com eles. 

A presença de Jesus se impõe como figura próxima e amistosa, que manifesta seu interesse por eles e que busca conduzi-los à sua plenitude de vida.

 

* “Soprou sobre eles

É o mesmo gesto do Criador ao fazer do homem de barro um “ser vivente”. Tudo isso é obra do Espírito. Deus atuou em Jesus, atua em nós e atua no mundo. A obra da Criação continua. No sétimo dia, Deus não descansa, o Salvador não descansa até que todos sejam filhos e filhas. Jesus é nova Criação; nós também.  Somos criadores com Deus, à sua imagem e semelhança.

 

* “Meu Senhor e meu Deus”

A resposta de Tomé é tão extrema quanto sua incredulidade. Ao dizer-lhe “Senhor”, reconhece o amor de Jesus e o aceita dando-lhe sua adesão. Ao dizer “meu” expressa sua proximidade, como Madalena. Não precisou tocar as chagas, mas precisou tomar consciência de que o Ressuscitado é infinitamente mais que aquilo que os próprios sentidos podem captar. 

E ao reconhecê-Lo, modifica-se também a percepção de sua própria identidade e mergulha no assombro, na admiração e no louvor.

 

* “Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”

O Ressuscitado convida a “crer” porque, quando alguém crê, recupera a capacidade de “ver”. A fé possibilita um olhar contemplativo: vê o que todo mundo vê, mas de maneira diferente. Vê sinais do Ressuscitado em tudo o que existe e compreende que tudo tem um sentido, imperceptível à luz dos sentidos externos. A ressurreição permite um olhar aberto, simples e natural, um olhar encantado diante de cada aspecto da realidade.

O relato evangélico deste domingo vem revelar que a nossa primeira atitude é deixar entrar o Ressuscitado através de tantas barreiras que levantamos para nos defender do medo. Que Jesus ocupe o centro de nossas vidas e de nossas comunidades; que só Ele seja a fonte de vida, de alegria e de paz. Que ninguém ocupe seu lugar; que ninguém se aproprie de sua mensagem; que ninguém imponha um modo de viver diferente do seu. Precisamos, mais do que nunca, abrir-nos ao alento do Ressuscitado para acolher seu Espírito.

Para quem fez a experiência do encontro com o Ressuscitado, não existe mais medo, não existem mais obstáculos nem portas fechadas, etc., que impeçam de realizar os caminhos do anúncio do Evangelho, da comunhão e da missão.

A ressurreição nos compromete a abrir as portas para libertar as pessoas de uma religião esclerosada, uma religião de condenação e de exclusão. No Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII abriu as portas e as janelas da Igreja para arejá-la, para lhe permitir uma melhor circulação do ar, para libertar os cristãos que estavam doentes numa Igreja dogmática e doutrinal. 

É por isso que o evangelho de hoje deve nos interpelar, a nós que somos seguidores(as) do Ressuscitado. Devemos compreender que é preciso abrir a Grande Porta, que é o Cristo, para permitir que todas as pessoas circulem livremente. Se quisermos ser fiéis a Ele e à nossa missão cristã, devemos abrir a porta para o mundo a fim de que todos possam entrar nas nossas comunidades com toda a liberdade.


Por causa de um certo Reino: REFLEXÃO PARA O II DOMINGO DA PÁSCOA - JOÃO 20, 19-31

 

Texto bíblico: Evangelho segundo João 20,19-31

 

Na oração:

Para fazer a experiência do encontro com o Ressuscitado é preciso quebrar os “ferrolhos” de nossa morada interior: ferrolhos das ideias fixas, dos sentimentos frios, das relações vazias, do legalismo mortal...

- No nível mais amplo: quais são os ‘ferrolhos” que travam a vida da Igreja, impedindo-se de ser sinal do Ressuscitado? Quais são os “medos” que bloqueiam a criatividade e a ousada da verdadeira comunidade de Jesus?

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Ressuscitados(as), habitamos casas de portas e janelas abertas

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor (2026).

 

“As mulheres correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos” (Mt 28,8)

 

Ainda não é dia, mas amanhece um tempo novo, ressoam como ditas para nós as palavras de Isaías: “Algo novo está brotando, não o notais?” (Is 43,18-19). É tempo de esperança.

noite é o tempo do mistério e da promessa, é o lugar da espera e da realização, o espaço do desejo e do encontro, da invocação e da revelação, do sofrimento e da paixão, do silêncio e da oração, da vida e da morte, do Natal e da Páscoa...

A experiência da Ressurreição nos faz “passar” pela noite e perceber no seu interior os segredos ali escondidos, as surpresas que nos são reservadas. É a experiência da presença da “noite” no ritmo da vida: noite que causa medo, provoca arrepios, impede a visão, paralisa... 

A partir da experiência pascal, noite pode espantar, mas também pode ser chance para ver melhor; a morte pode ser ameaçadora, mas ela ensina a viver; o sepulcro vazio pode causar dúvida, mas ele aponta para a ressurreição; o infinito pode suscitar inquietação, mas consegue impulsionar para o além, até acender no coração uma chama persistente: a esperança.

Após a morte e o sepultamento de Jesus, os discípulos se refugiam em uma casa; anoitece em Jerusalém e também em seus corações. Ninguém os pode consolar de sua tristeza e desolação. Pouco a pouco, o medo vai se apoderando de todos; a única coisa que lhes dá certa segurança é “fechar as portas”. Estão reunidos, escondidos, polarizados na frustração, concentrados na perda dolorosa, desconfiados de tudo e de todos. 

Na comunidade reina um vazio que ninguém pode preencher; também eles estão mergulhados na morte, literalmente vivendo numa “casa sepultura”: sem futuro, sem sonhos...

Os discípulos têm a sensação de estarem sufocados, como numa prisão, na qual a inquietude, a insegurança, a confusão, o vazio, a ansiedade e a tristeza são inevitáveis. 

O evangelista Mateus descreve a transformação que acontece nas mulheres que foram ao sepulcro, de madrugada: sentem uma intensa alegria quando Jesus, cheio de vida, se faz presente diante delas. O Ressuscitado está de novo no centro de sua comunidade de seguidores; eles sentem Seu alento criador. Tudo começa de novo. Tal presença os liberta do medo e da dúvida, os faz escancarar as portas e dar início ao processo de evangelização. 

O Ressuscitado se aproxima como Presença viva que dá Vida: deixa-se ver, fala, interpela, corrige, anima, comunica paz e alegria. Em uma palavra, presenteia seu Espírito.

Outra vez Jesus re-cria a comunidade que, depois da Paixão, estava desintegrada; as mulheres e os discípulos experimentam novamente o chamado e o envio, para serem testemunhas e cúmplices do Espírito; vivem a certeza existencial de que o Crucificado é o Ressuscitado, que a morte foi vencida, que Deus é o Senhor da Vida. Impulsionados pela força do Espírito, seguirão colaborando, ao longo dos séculos, no mesmo projeto salvador que o Pai confiou a Jesus.

Para isso, descobrem que é preciso escancarar portas e janelas das casas para anunciar a grande novidade: há “sinais” de Ressurreição perpassando todas as experiências humanas.

A imagem pascal é a da “porta da liberdade”, que possibilita uma vida sempre expansiva.

A Vida verdadeira implica saída de nossos espaços, muitas vezes atrofiados e de curto horizonte: por isso, precisamos de portas e janelas, nossa casa interior precisa de saída. Não podemos, não devemos permanecer fechados, pois isso atrofia nossas possibilidades de vida, sobretudo se estamos reclusos no egocentrismo.

Equivocadamente distraídos por alguma complacência ou comodidade interna, nem sempre caímos na conta de que vivemos fechados; não percebemos o perigo letal da asfixia existencial; não sentimos as amarras da dependência ou os vícios que a vontade fragilizada já não consegue romper. 

Nesse sentido, podemos entender a imagem pascal da “porta” enquanto espaço aberto que permite a vida fluir. Porque vida é, antes de mais nada, espaçosa, amplitude ilimitada que tudo abarca e que se expressa em infinidade de formas, todas elas habitadas pela mesma e única Vida.

Precisamos nos libertar, nos desatar, sair; precisamos de uma porta! Precisamos sair de nossos túmulos!

Bendita porta de saída!

O próprio Jesus já tinha afirmado antes: “Eu sou a Porta”. E é verdade, porque Jesus, “ressuscitado dentre os mortos”, abriu um espaço no hermético ventre da morte. Com seu próprio corpo e sua vida, Jesus se transformou em Porta da Vidaverdadeira e com a força do seu Espírito Ele nos liberta, nos desata para sair dos espaços atrofiados e passar para a vida ampla do amor, para a vida com os outros.

Uma porta aberta.  Somos impactados pela luz que vem de fora e pelo ar vivificante. Nós ouvimos sua voz. Ele se dirige a cada um(a) e à sua voz nos colocamos em marcha. O oxigênio que aí respiramos é o Sopro do próprio Deus.

Jesus é uma Porta grande e aberta que favorece a circulação com toda a liberdade. Entrar por essa Porta é o mesmo que “aproximar-nos d’Ele”, “escutar sua voz”, “identificar-nos com Ele”. 

Em Jesus, todo(a) seguidor(a) pode alcançar a verdadeira liberdade; “poderá entrar e sair”, terá liberdade de movimento. 

As portas abertas, por sua vez, permitem ampliar nosso horizonte. Através delas purifica-se o ar denso e irrespirável do nosso interior, que geramos quando nos fechados em nós mesmos. Elas nos abrem à comunhão com a natureza, com os outros, com a realidade que nos cerca. Elas nos humanizam, pois servem para nos revelar aos outros quem somos, que eles fazem parte de nossa casa e que, abertas, indicam que eles podem entrar e sair livremente em nossas vidas. 

Como seguidores(as) de Jesus, habitando em casas construídas sobre a rocha do Evangelho, deveríamos nos preocupar mais com as portas e janelas e menos com os espelhos. Outros rostos precisamos descobrir: rostos feridos, excluídos, carentes de proximidade e abraço.

Muitas vezes, as portas nos protegem da diversidade, blindam nossa individualidade e parecem itens indispensáveis à sobrevivência. Assim, somos prisioneiros de nossa estreita visão de mundo e fazemos de nossa casa uma couraça que enclausura.  Melhor a viagem que nos faz vulneráveis do que a segurança que nos rouba o horizonte. Melhor enfrentar o impacto do diferente e usufruir da liberdade do que inventar portas seguras que nos fazem cativos e solitários dentro de nossas próprias casas. 

Quando estamos atravessando graves crises, como aquela vivida pelos discípulos, depois da paixão e morte de Jesus, é reconfortante entrar na profundidade de nosso ser e deixar ressoar estas palavras: “alegrai-vos!”

É a experiência do encontro com o Ressuscitado que nos pacifica, mesmo em situações de crises, fracassos, horizontes sem saída..., quando o medo e a angústia se manifestam com mais força.

A serenidade é uma vivência profunda, íntima, salutar... De repente, alcançamos uma paz inspiradora, uma paz que ninguém pode nos comunicar; uma alegria serena que pacifica nosso interior. 

Basta permanecer nessa paz, na nossa morada interior.

Através das mulheres, os discípulos receberam novamente a missão de Jesus. Elas se converteram em mensageiras da boa notícia; elas assumiram o protagonismo e relançaram o projeto do Reino a partir de sua grande intuição: na Galileia começou a história e ali deverá ser reiniciada. 

Seguir as pegadas do Galileu confirma que Ele vai adiante guiando os seus seguidores e seguidoras. Percorrer seus passos garante à sua comunidade a experiência de contar com Ele: “Ele irá à vossa frente, na Galileia; lá vós o vereis. É o que tenho a dizer-vos” (Mt 28,7).


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Textos bíblicos: Evangelho segundo Mateus 28,1-10

 

Na oração:

- Que abramos as portas e as janelas da nossa vida, para que todos possam ver o quanto de vida há dentro dela, para que vejam quem somos, como vivemos..., de maneira que possamos oferecer e compartilhar espaço de perdão, de acolhida sem preconceitos, de amor oblativo...; é preciso afastar a pedra do dogmatismo, do legalismo, do ritualismo... que nos mantém sufocados ou respirando o ar fétido dos túmulos. 

- Que sonhemos também com uma Igreja que rompa os túmulos do conservadorismo, do legalismo, da apatia, e se abra à desafiante situação de nosso mundo, “vivendo em saída” para “tocar” os chagados e lhes oferecer o dom da unção e do consolo.

 

Uma inspirada Páscoa a todos!

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Sábado Santo: um frio sepulcro nos interpela

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do Sábado Santo no Tríduo Pascal (2026).

 

“A partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa” (Jo 19,27)

 

O Sábado Santo é o dia do grande silêncio: “Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio porque o Rei dorme; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus adormeceu segundo a carne” (de uma antiga homilia de Sábado Santo). É o silêncio sepulcral. Jesus morreu e foi sepultado. Os seus amigos provaram o fel amargo da desilusão. Os evangelhos afirmam que todos os discípulos o traíram; deixaram tudo para o seguir, confiaram-lhe as suas vidas e, afinal, o messianismo de Jesus reduziu-se a um sepulcro frio, escuro e silencioso, como todos os túmulos da terra.

Em todo caminho espiritual é preciso passar pela “noite”, pela “ausência”, pelo “silêncio”, para amadurecer. É inevitável experimentar, durante algum tempo, alguma forma desconcertante de sentir a presença-ausência de Deus.

A terrível “noite escura” do Sábado Santo corresponde a um incontestável estágio espiritual, como dura, mas inevitável “passagem” (Páscoa) para a Luz do Domingo.

Só atravessando o silêncio, a “Noite Amarga” se transforma em “Noite Amável”.

Um silêncio entendido como outra forma de presença de Deus.

silêncio de Deus deve ser respeitado, pois a Deus lhe dói a morte de seus filhos e filhas; o Pai não estará fazendo lutopor seu Filho e por suas criaturas?

* Não será que o silêncio do Sábado Santo supõe o direito de Deus se calar?

* Quê Deus não tem direito de guardar silêncio?

* Quem somos nós para exigir de Deus que nos esteja falando continuamente?

Se não oramos a partir desse silêncio, é porque ainda não mergulhamos no mistério do Amor compassivo.

Muitas vezes negamos a Deus o que de mais humano há em nós: o poder fazer comunidade compassiva e solidária, compartilhando a dor e o luto.

O Pai está de luto; toda a natureza está de luto; em silêncio, ela acolhe a semente do Corpo do Verbo, na esperança de germinar Vida plena. A Terra, mais uma vez, oferece casa e abrigo ao Corpo do Crucificado. Aquele que morrera “fora dos muros da cidade” encontra moradia no seio da mãe-terra.

Sábado Santo, portanto, não é o mutismo de Deus, mas seu Silêncio, ou seja, a ação oculta de Deus estendida no tempo, quer na vida, quer na morte; Deus nos fala em sua mudez. 

silêncio do Senhor nos move a procurar, a escutar, a enxergar... O silêncio do sepulcro nos interpela.

Iluminados pelo dom da fé, sabemos que, depois do silêncio, renasce a Palavra. O que parecia o fim, na realidade aquele silêncio era o mesmo que precedeu a Palavra criadora: “Faça-se luz”. E do “caos da escuridão” surgiu a luminosidade do “cosmos”.

O silêncio de Deus é fecundo. É no tempo silencioso que a semente se torna fruto e o ser humano se torna pessoa. O silêncio permite transformar a morte em vida. Aquele túmulo, afinal, era uma fonte pujante de vida e de alegria. Aquele lugar, aparentemente escuro e vazio, veria uma luz que o mundo inteiro não pode conter. Por isso, para nós, as experiências do silêncio de Deus serão sempre um convite à fé e à esperança.

Não há razão para o medo, pois o silêncio esconde a vida e a consolação de Deus.

O enfoque dia sabático está no fato de que é preciso esperar no silêncio e na calma. Às vezes queremos passar da morte à vida sem espaços de esperas.

Sabemos que a vida da Igreja, como também a nossa vida pessoal, é feita de longos sábados santos, nos quais nem a dor da Paixão nem o consolo da festa Pascal marcam significativamente nossos dias e nossas noites, mas simplesmente a dura e paciente espera, na fé mais despojada, de um Senhor, que se faz esperar tanto que parece que já não vai chegar mais.

É o Sábado Santo de um credo pascal que sabe que amanhã florescerá a messe. Submergido no sepulcro do Senhor, espera-se simplesmente.

Ao sentir a própria incapacidade de levar adiante a exigência do Evangelho, cada um(a) se apresenta no sepulcro do Senhor de onde pode irromper a força transformadora da manhã da Ressurreição.

O Sábado Santo é um dia sem liturgia, em silêncio, não passa nada, não sucede nada, recorda a solidão do sepulcro, a tristeza das mulheres e dos discípulos, a desilusão diante do fracasso. 

“O Rei dorme”, comenta uma antiga homilia sobre o Sábado Santo. O povo canta o “Shabat mater”, acompanha a Virgem dolorosa, espera com ela, em silêncio, a aurora pascal.

Da escuridão da morte do Filho de Deus brota a Luz de uma esperança nova: a luz da Ressurreição reflete-se no rosto de Maria. Nossa amizade e devoção a Maria da esperança, a transparência feminina do Espírito, nos mantém no ritmo da espera.

Segundo S. Inácio, no percurso dos Exercícios Espirituais a Paixão termina na casa de Nossa Senhora (EE. 208). É em sua casa que se abrirá também a semana da Ressurreição.

Santo Inácio segue aqui uma tradição de sua época, onde se aceitava como fato revelado que a primeira aparição do Ressuscitado foi à Virgem Maria (EE. 299).

A Escritura não nos apresenta nenhum relato de aparição a Maria. Mas, segundo Inácio, mesmo que a Escritura não o diga, essa aparição é evidente. Talvez a mesma Escritura tenha dado por suposto, já que o caso de Maria é diferente: aqui Jesus não teve que educar a fé de sua mãe. Ele a encontrou em atitude de espera permanente. Sua fé tinha sido firme e por isso a tradição situa o início da vida da Igreja em torno a Maria, e Maria como aquela que congrega e apoia a fé conturbada dos discípulos. 

Porque ela soube estar com o Crucificado, pode ver o Ressuscitado.

Junto a Maria, é preciso considerar o Sábado Santo como um tempo de luto e pranto: depois da dor intensa da Sexta-feira Santa dá-se lugar a uma dor silenciosa, contida, como a terra que vai se empapando até suas entranhas com a água caída torrencialmente sobre a superfície.

O que aconteceu na superfície da terra na Sexta-feira Santa, acontece nas profundezas da morte no Sábado Santo, para que no Domingo da Ressurreição sejam resgatados ambos os acontecimentos.

É preciso saber acolher este silêncio surdo, que marca a passagem entre duas experiências intensas: a Sexta-feira de dor e o Domingo de Ressurreição.

No sepulcro, Jesus se faz solidário com toda a morte humana. E é preciso esperar com Ele. É preciso esperar em nossos projetos e sonhos, na libertação dos povos, em uma nova humanidade.

Em nossas vidas teremos muitas sextas-feiras santas de dor e dias de Páscoa, mas, teremos muito mais sábados de espera.

O ser humano que espera não tem certeza, não fica seguro, não está satisfeito. Mas a esperança tem fundamento; não é uma ilusão e nem uma utopia; não é um sonho impossível e nem uma lembrança irrecuperável; não é só futuro, mas permanece, disfarçadamente, presente; não é uma morada, mas um sentimento sempre inédito. A esperança evita tropeçar no fracasso, no desânimo, na apatia e no silencioso desespero. Ela se acende à noite, vence na impotência; começa na limitação; é ousada na fragilidade.

esperança é caminho e meta, posse e dom, destino e encontro, antecipação e cumprimento, expectativa e busca, risco e proteção, nó e liberdade.  A esperança é certa, mas não dá “garantias”.

Arrancados ao silêncio dos nossos túmulos, também nós podemos gritar como Maria Madalena no primeiro dia de Páscoa: “Vi o Senhor!” Este grito, que nos enche de esperança, rasgará todo o silêncio, e ecoará por toda a eternidade.

A força da esperança está oculta precisamente na sua impotência. A Cruz permanece em seu lugar, mas o sepulcro fica vazio para sempre! É Ressurreição: vida plena antecipada.


REFLEXÃO SÁBADO SANTO – SÁBADO DE ALELUIA VIGÍLIA PASCAL (in resurrectione  Domini) – CET

 

Texto bíblico: Evangelho segundo João 19,25-27

 

Oração: 

Contemplar Maria em sua “segunda Anunciação”; na “primeira Anunciação” deu-se o início da vida de Jesus. Agora, essa Vida se revela a ela como Vida definitiva.

Que Maria eduque nossa confiança; que ela nos encha de esperança! 

segunda-feira, 30 de março de 2026

Sexta-feira da Semana Santa - Morte fecunda

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho da sexta-feira da Semana Santa - Paixão do Senhor (2026).

Uma vida consumada faz fecunda a morte

 

“Tudo está consumado” (Jo 19,30)

 

A vida humana é fecunda, é potencialidade, é explosão de criatividade... Assim como na semente há vida latente esperando a oportunidade de expandir-se, também no ser humano encontram-se ricas possibilidades, esperando a morte do “eu mesquinho”, para se plenificarem.

A morte do falso “ego” é a condição para que a verdadeira vida se liberte. É preciso passar pela morte do que é terreno, caduco, transitório (paixões, apegos desordenados...) para deixar emergir a vida interior, a vida divina, a vida de Deus em nós. 

O essencial não é encontrar um caminho para alcançar a imortalidade, mas aprender a “morrer em Cristo”. 

O “depois da vida” é um grande encontro onde seremos perguntados: “o quanto você viveu sua vida?”

vida é constantemente chamada a ser Páscoa. Porque na vitória da Vida entregue, ela ganha sentido, avança, como uma torrente que rega terras secas, ávidas de água, como um fogo que, na noite mais escura, traz uma luz que permite vislumbrar a vida oculta.

vida é movimento e, portanto, energia expansiva. Podemos consumi-la em benefício do ego (falso eu) e então vem o fracasso. Podemos consumi-la em benefício dos outros e da causa do Reino; e então, consumá-la, dando-lhe plenitude. Ter apego à própria vida é destruir-se; entregar a vida por amor não é frustrá-la, mas levá-la à sua completude. Aqui há uma inversão na lógica natural das coisas; ganha-se quando perde, vive-se quando morre, multiplica-se quando divide.

Perder-ganhar, morrer-viver, entregar-reter, doar-receber..., parecem dimensões ou realidades contraditórias, mas captar a profundidade da verdade contida nesta “contradição aparente” é descobrir o Evangelho.

“Morrer”, “perder”, “entregar” ... é este instante de ruptura, onde toda uma vida incubada, trabalhada no silêncio e no sofrimento, marcada de alegrias e tristezas, vitórias e fracassos, desponta luminosa para a vida eterna. Pois vida é um contínuo despedir-se e partir; ela nos desaloja de nossos “lugares estreitos” e nos faz caminhar em direção a novos horizontes. 

A vida aumenta quando compartilha e se atrofia quando permanece no isolamento e na comodidade.

De fato, aqueles que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança do conhecido e se dedicam apaixonadamente à missão de comunicar vida aos outros.

Ao contemplar o Crucificado, muitos questionamentos vão surgindo:  

* a Cruz é sinal de solidariedade ou sinal de poder, sinal de libertação ou sinal de opressão, sinal de rebeldia ou sinal de submissão, sinal dos vencidos ou sinal dos vencedores...? 

* Perguntamo-nos se é a Cruz dos condenados deste mundo ou a cruz dos que condenam, a Cruz dos crucificados da terra ou a cruz dos que continuam crucificando como em outro tempo crucificaram a Jesus?

A primeira coisa que descobrimos ao contemplar o Crucificado do Gólgota, torturado injustamente até à morte pelo poder político-religioso, é a força destruidora do mal, a crueldade do ódio e o fanatismo da mentira. Precisamente aí, nessa vítima inocente, nós seguidores de Jesus, vemos o Deus identificado com todas as vítimas de todos os tempos. Está na Cruz do Calvário e está em todas as cruzes sonde sofrem e morrem os mais inocentes. A partir da Cruz, Deus não responde o mal com o mal; Ele não é o Deus justiceiro, ressentido e vingativo, pois prefere ser vítima de suas criaturas antes que verdugo.

O Crucificado nos revela que não existe, nem existirá nunca um Deus frio, insensível e indiferente, mas um Deus que padece conosco, sofre nossos sofrimentos e morre nossa morte.

Despojado de todo poder dominador, de toda beleza estética, de todo êxito político e de toda auréola religiosa, Deus se revela a nós, no mais puro e insondável de seu mistério, como amor e somente amor.

Nós cristãos contemplamos o Crucificado para não esquecer nunca o “amor louco” de Deus para com a humanidade e para manter viva a recordação de todos os crucificados da história.

“Jesus morreu de vida”: de bondade e de esperança lúcida, de solidariedade alegre, de compaixão ousada, de liberdade arriscada, de proximidade curadora...

Nesse sentido, a cruz de Jesus não é um “peso morto”; ela tem sentido porque é consequência de uma opção radical em favor do Reino. A Cruz não significa passividade e resignação; ela nasce de sua vida plena e transbordante; ela resume, concentra, radicaliza, condensa o significado de uma vida vivida por Jesus na fidelidade ao Pai que quer que todos vivam intensamente. 

Existem cruzes que são vazias, sem sentido, insensatas..., pois elas fecham a pessoa em si mesma, no seu sofrimento e angústia; não apontam para o futuro, para a vida.

São cruzes que nós impomos sobre nossos ombros ou que os outros nos impõem. São cruzes que nascem dos fracassos, dos traumas, das rejeições, das experiências frustrantes... Tornam-se um “peso morto” pois não abrem um horizonte de vida; elas se fixam no passado, na morte... e nos deixam no túmulo. 

Fazer o caminho contemplativo junto a Jesus que leva a Cruz da fidelidade nos ajuda a romper com as cruzes que nos afundam no desespero.

Cruz assumida por Jesus é “expansiva” porque é expressão de uma vida entregue; ao mesmo tempo, ela O projeta para a “margem” onde Ele revela uma presença despojada, vulnerável, que se identifica com a dor do mundo, com a marginalização dos excluídos e com a desgraça de todos os miseráveis da terra. Sua Cruz manifesta que Deus é Compaixão porque continua do lado do inocente sofredor; Deus não apenas se solidariza, mas sofre “em sua pele”.

Acompanhando Jesus na paixão, também “vamos sendo talhados” pelas cenas que contemplamos, com o coração aberto à dor e à aflição. É o seguimento levada às últimas consequências.  

Participando da morte de Jesus, podemos também fazer de nossas cotidianas mortes um ato de decisão, de entrega, de oblação. A certeza de nossa fé em Cristo, morto e ressuscitado, nos ajuda a tirar do coração os medos, os impulsos egoístas de busca de segurança e proteção, e encontrar uma paz profunda que nos permita fazer de nossa vida uma oferenda gratuita em favor da vida dos outros.

É gratificante fazer memória de tantos homens e mulheres que foram presença compassiva e, à maneira de Jesus, consumiram suas vidas em favor da vida; histórias silenciosas de tantas pessoas que com sua presença ajudaram os outros a viver; pessoas que revelaram a paixão por viver em pequenas paciências cotidianas, que entregaram suas vidas sem brilho algum, sem vozes que a proclamassem; foram como o fermento silencioso que se dissolveram na massa para fazê-la crescer.

Com a Cruz “descemos” com Jesus até à cruz da humanidade.

A solidariedade com os pobres, a fidelidade à vida evangélica, nos fazem descer aos porões das contradições sociais e políticas, às realidades inóspitas, aos terrenos contaminados e difíceis, às periferias insalubres das quais todos fogem e onde os excluídos deste mundo lutam por sobreviver. Ali nos encontramos com o Crucificado, o “Justo e Santo”, identificado com os crucificados da história.

Como diz Jon Sobrino, não podemos crer no Crucificado de um modo coerente se não estamos dispostos a fazer descer da Cruz aqueles que estão dependurados nela.

Entende-se, assim, o grande “grito” que brotou das profundezas da dor de Jesus na Cruz e que continua ecoando como clamor angustiado. Não são poucos os gritos dos mais pobres e excluídos. 

O grande grito de Jesus é a certeza de tudo o que sustenta o seu coração; ao ecoar junto aos crucificados, provoca grandes novidades. Um grito que não fica no vazio, mas aponta para a Vida.


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Texto bíblico: Evangelho segundo João 18,1-19,42 

 

Na oração: Somos grãos de trigo na grande seara do mundo; e o grão de trigo eterniza-se na sua entrega-doação para que outros matem suas fomes e vivam com sentido.

Aprendamos a morrer para nossos interesses mesquinhos; só assim nossa vida terá a dimensão da eternidade.

- “Se a semente do trigo sou eu, a que devo morrer, para que a vida interior possa se expandir?”

- “Fazer memória” dos crucificados da história e que clamam por uma presença solidária: os sem teto, sem-terra, sem trabalho.

Quinta-feira da Semana Santa - ELE lavou os pés dos discípulos

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho da Quinta-feira da Semana Santa - Ceia do Senhor e Lava-pés (2026).

Casa: lugar do “lava-pés”

gesto ousado que quebra toda pretensão de poder

Lembremo-nos, antes de tudo, desta expressão: “a planta dos pés”. Esta “planta” clama por raízes. Os pés escutam a terra e nos enraízam na realidade histórica. É difícil ter os pés sobre a terra...  Podemos sentir isso se “escutarmos” bem nossos pés. O Ocidente deseja que as pessoas pensem no céu, e alonguem a cabeça no ar para fazê-la olhar para cima e ver as nuvens. 

O Oriente sabe que a melhor maneira de chegar ao céu é pisar solidamente na terra. Segundo a tradição oriental, quanto mais próximo do chão estiver o corpo, mais livre fica a mente e mais sensível o coração.

Quanto mais proximidade e intimidade com a terra, mais profunda é a experiência espiritual.

Cada passo deve ser uma oração e cada caminhar é um rosário de contas que marcam os caminhos da vida com a fé do caminhante.

Dá força e inspiração sentir a grande Casa, a Terra: apalpar sua firmeza, medir sua imensidade, contemplar sua beleza; ela é o altar cósmico sobre o qual celebra-se diariamente a liturgia da vida. 

Não há uma “Terra Santa”, há uma maneira santa de caminhar sobre a terra. É a nossa maneira de caminhar sobre a terraque a torna sagrada.

Mudar o nosso modo próprio de caminhar, mudar o nosso modo de colocar o  na terra, não é somente uma terapia psicossomática, mas pode ser um exercício espiritual. É aceitar-nos em nossa dimensão terrosa.

O equilíbrio do corpo, o equilíbrio do nosso psiquismo, o equilíbrio de nossa vida espiritual depende deste enraizamento.E se as raízes são sadias, toda a árvore é sadia. Algumas vezes somos jardineiros, muito atentos à flor e ao fruto, mas esquecemos as raízes, esquecemos os pés.  

É por aí que devemos começar os nossos cuidados.

A tradição dos Padres do Deserto nos diz que todos nós temos os pés vulneráveis, muitas vezes feridos e maltratados. E temos necessidade de sermos cuidados e curados no nível de nossos pés. Precisamos fazer o caminho que vai dos “pés inchados e feridos” aos “pés alados”; partimos de nossos pés pesados como se tivéssemos um fardo de memórias para carregar conosco. Sentimos que este fardo de memória nos entrava a marcha e nos impede o caminhar.

É preciso cuidar dos próprios pés para que eles possam reencontrar suas asas; caminharemos, assim, sobre a terra com os pés livres, leves, soltos. E, como seres humanos, reencontraremos nossa condição divina.

Jesus sabia que seus discípulos tinham pés frágeis, pés de argila. Amar alguém não é querer que ele fique deitado a seus pés, mas é querer que ele se mantenha de pé em toda sua grandeza, na plenitude de sua humanidade. Amar alguém é querê-lo com os pés “livres, leves e soltos”. Lavar os pés é gesto de humanização e gesto humanizante. É devolver ao outro a dignidade e capacidade de dar destino à sua vida.

O gesto do “lava-pés” é inspirador para todo(a) seguidor(a) de Jesus Cristo; constitui um dos gestos mais ousados e expressivos da missão e da identidade para aqueles que exercem algum serviço em sua comunidade. É revelação e ensinamento. É amor e mandamento. É gesto-vida, gesto-horizonte, gesto-luz...

Não se pode amar alguém e olhá-lo de cima. Não se trata também de se “humilhar”, de se colocar “abaixo” de seus pés, mas de cuidar de seus pés para que esse alguém possa se manter de pé, para que ambos possam estar face a face e caminhar juntos.

O Evangelho de São João substitui a instituição da Eucaristia pelo Lava-pés.

Audaciosa inovação que dirige o gesto eucarístico para a revolução das relações humanas: Jesus se esvazia de todo poder, faz-se servo e revela sua verdadeira identidade na capacidade para servir; autoridade não se exerce submetendo o outro, mas possibilitando que o outro “seja” ele mesmo.

Lava-pés é gesto ousado que quebra toda pretensão de poder. Jesus viu claramente que o perigo mais grave que ameaçava seus seguidores é a tentação do poder. Não há dúvida de que isso é o que causa o maior dano a todos, o que mais desumaniza. 

A reação de Pedro expressa bem o escândalo que este gesto produz, porque Jesus revela que a autoridade - ser Senhor – é um serviço, não uma dominação.

Pedro fica desconcertado e em dilema. Sua imagem do Messias seguro e vencedor não combina com a vulnerabilidade de um servo.

Por isso, com esse gesto, Jesus expressa que nunca quis agir como o superior que se impõe com poder; do mesmo modo, viu em semelhante comportamento uma conduta radicalmente inaceitável para seus segui-dores. A relação que se estabeleceu entre os discípulos e Jesus não foi a de submissão a um poder que manda e dá ordens, mas a do “seguimento” que brota da experiência de sentir-se atraído e seduzido pelo “modo de proceder” do mesmo Jesus.

“descendimento” do Senhor aos pés dos discípulos e fazendo-se servidor, transforma o status da servidão (“o servo não sabe o que faz seu senhor”) em fraternidade (“não vos chamo servos, mas amigos).

Deste modo se mostra o verdadeiro senhorio de Jesus: a possibilidade de restabelecer a igualdade entre as pessoas através da superabundância de um amor que se derrama, sem reservas, para todos. Este gesto provocativo de serviço e despojamento d’Aquele que é “Senhor” desperta em cada seguidor o desejo de considerar suas qualidades e capacidades como veículos de doação, não de poder ou de manipulação. 

A partir deste “ousado gesto” já não se justifica nenhum tipo de superioridade, mas somente a relação pessoal de irmãos e amigos.

A cena do lava-pés revela profundidade e delicadeza, mútuo dom e acolhimento, comunhão e pressentimento. É um gesto profético, repleto de generosidade e de humildade.

Com este gesto Jesus des-vela uma imagem nova de Deus: o Todo-Misericordioso esvazia toda e qualquer expressão de podere submissão entre os humanos.

Ninguém serve a Deus, a não ser do jeito de Jesus, isto é, lavando os pés dos outros, amando-os até o fim.

Nosso Deus não é prepotência, mas condescendência. É o Criador que se põe aos pés da criatura.

Nosso Deus é um Deus que “desce”, que se “inclina” para acolher.

Mistério da Encarnação: Deus abraçando e sendo encontrado junto aos pés dos seus filhos(as).

Casa, mesa, lava-pés, refeição, hospitalidade..., são os grandes sinais do Reino. Em torno à mesa se expressam os valores de uma nova ordem social. A casa, a hospitalidade, a refeição partilhada são o sacramento do sonho de Deus sobre a humanidade e sobre o cosmos inteiro.

A casa-lar deve ser o ambiente privilegiado onde se prolonga e se visibiliza o gesto provocativo do lava-pés;

gesto que desperta uma sensibilidade solidária diante daqueles que não tem morada digna para poderem viver os valores evangélicos da acolhida, da partilha, da convivência...

Na vivência do serviço evangélico, somos chamados a vestir o “avental de Jesus”. “Vestir o coração” com o avental da simplicidade, da ternura acolhedora, da escuta comprometida, da presença atenciosa, do serviço desinteressado...

Precisamos “levantar-nos da mesa” cotidianamente. Há sempre um lar que nos espera, um ambiente carente, um serviço urgente. Há pessoas que aguardam nossa presença compassiva e servidora, nosso coração aberto, nossa acolhida e cuidado...

Sempre teremos “pés” para lavar, mãos estendidas para acolher, irmãos que nos esperam, situações delicadas a serem enfrentadas com coragem...

Sempre teremos, também, a necessidade de nos “sentar à mesa” para renovarmos as forças e redobrarmos a coragem de nos levantar e, na humildade, sem manto, servir com amor, do jeito de Jesus.

“Levantar-nos da mesa” – “sentar-nos à mesa”: movimento de partida e de chegada; prolongamento do gesto provocativo e escandaloso de Jesus. 


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Texto bíblico: Evangelho segundo João 13,1-15

 

Na oração:

Seja você alguém que, na admiração da gratidão, se aproxima deste gesto ousado de Jesus (tirar o manto e vestir o avental), a fim de purificar sentimentos, endireitar caminhos e aprofundar a caminhada na convivência com os irmãos.

A sua identificação com Jesus lhe confere um novo modo de ver, avaliar e assumir atitudes mais evangélicas.

É a contemplação, o modo de orar mais envolvente que lhe pode fazer enxergar o milagre; e, sensibilizado(a), abrir-se à dimensão do maior serviço, por pura gratuidade.