quinta-feira, 2 de abril de 2026

Sábado Santo: um frio sepulcro nos interpela

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do Sábado Santo no Tríduo Pascal (2026).

 

“A partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa” (Jo 19,27)

 

O Sábado Santo é o dia do grande silêncio: “Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio porque o Rei dorme; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus adormeceu segundo a carne” (de uma antiga homilia de Sábado Santo). É o silêncio sepulcral. Jesus morreu e foi sepultado. Os seus amigos provaram o fel amargo da desilusão. Os evangelhos afirmam que todos os discípulos o traíram; deixaram tudo para o seguir, confiaram-lhe as suas vidas e, afinal, o messianismo de Jesus reduziu-se a um sepulcro frio, escuro e silencioso, como todos os túmulos da terra.

Em todo caminho espiritual é preciso passar pela “noite”, pela “ausência”, pelo “silêncio”, para amadurecer. É inevitável experimentar, durante algum tempo, alguma forma desconcertante de sentir a presença-ausência de Deus.

A terrível “noite escura” do Sábado Santo corresponde a um incontestável estágio espiritual, como dura, mas inevitável “passagem” (Páscoa) para a Luz do Domingo.

Só atravessando o silêncio, a “Noite Amarga” se transforma em “Noite Amável”.

Um silêncio entendido como outra forma de presença de Deus.

silêncio de Deus deve ser respeitado, pois a Deus lhe dói a morte de seus filhos e filhas; o Pai não estará fazendo lutopor seu Filho e por suas criaturas?

* Não será que o silêncio do Sábado Santo supõe o direito de Deus se calar?

* Quê Deus não tem direito de guardar silêncio?

* Quem somos nós para exigir de Deus que nos esteja falando continuamente?

Se não oramos a partir desse silêncio, é porque ainda não mergulhamos no mistério do Amor compassivo.

Muitas vezes negamos a Deus o que de mais humano há em nós: o poder fazer comunidade compassiva e solidária, compartilhando a dor e o luto.

O Pai está de luto; toda a natureza está de luto; em silêncio, ela acolhe a semente do Corpo do Verbo, na esperança de germinar Vida plena. A Terra, mais uma vez, oferece casa e abrigo ao Corpo do Crucificado. Aquele que morrera “fora dos muros da cidade” encontra moradia no seio da mãe-terra.

Sábado Santo, portanto, não é o mutismo de Deus, mas seu Silêncio, ou seja, a ação oculta de Deus estendida no tempo, quer na vida, quer na morte; Deus nos fala em sua mudez. 

silêncio do Senhor nos move a procurar, a escutar, a enxergar... O silêncio do sepulcro nos interpela.

Iluminados pelo dom da fé, sabemos que, depois do silêncio, renasce a Palavra. O que parecia o fim, na realidade aquele silêncio era o mesmo que precedeu a Palavra criadora: “Faça-se luz”. E do “caos da escuridão” surgiu a luminosidade do “cosmos”.

O silêncio de Deus é fecundo. É no tempo silencioso que a semente se torna fruto e o ser humano se torna pessoa. O silêncio permite transformar a morte em vida. Aquele túmulo, afinal, era uma fonte pujante de vida e de alegria. Aquele lugar, aparentemente escuro e vazio, veria uma luz que o mundo inteiro não pode conter. Por isso, para nós, as experiências do silêncio de Deus serão sempre um convite à fé e à esperança.

Não há razão para o medo, pois o silêncio esconde a vida e a consolação de Deus.

O enfoque dia sabático está no fato de que é preciso esperar no silêncio e na calma. Às vezes queremos passar da morte à vida sem espaços de esperas.

Sabemos que a vida da Igreja, como também a nossa vida pessoal, é feita de longos sábados santos, nos quais nem a dor da Paixão nem o consolo da festa Pascal marcam significativamente nossos dias e nossas noites, mas simplesmente a dura e paciente espera, na fé mais despojada, de um Senhor, que se faz esperar tanto que parece que já não vai chegar mais.

É o Sábado Santo de um credo pascal que sabe que amanhã florescerá a messe. Submergido no sepulcro do Senhor, espera-se simplesmente.

Ao sentir a própria incapacidade de levar adiante a exigência do Evangelho, cada um(a) se apresenta no sepulcro do Senhor de onde pode irromper a força transformadora da manhã da Ressurreição.

O Sábado Santo é um dia sem liturgia, em silêncio, não passa nada, não sucede nada, recorda a solidão do sepulcro, a tristeza das mulheres e dos discípulos, a desilusão diante do fracasso. 

“O Rei dorme”, comenta uma antiga homilia sobre o Sábado Santo. O povo canta o “Shabat mater”, acompanha a Virgem dolorosa, espera com ela, em silêncio, a aurora pascal.

Da escuridão da morte do Filho de Deus brota a Luz de uma esperança nova: a luz da Ressurreição reflete-se no rosto de Maria. Nossa amizade e devoção a Maria da esperança, a transparência feminina do Espírito, nos mantém no ritmo da espera.

Segundo S. Inácio, no percurso dos Exercícios Espirituais a Paixão termina na casa de Nossa Senhora (EE. 208). É em sua casa que se abrirá também a semana da Ressurreição.

Santo Inácio segue aqui uma tradição de sua época, onde se aceitava como fato revelado que a primeira aparição do Ressuscitado foi à Virgem Maria (EE. 299).

A Escritura não nos apresenta nenhum relato de aparição a Maria. Mas, segundo Inácio, mesmo que a Escritura não o diga, essa aparição é evidente. Talvez a mesma Escritura tenha dado por suposto, já que o caso de Maria é diferente: aqui Jesus não teve que educar a fé de sua mãe. Ele a encontrou em atitude de espera permanente. Sua fé tinha sido firme e por isso a tradição situa o início da vida da Igreja em torno a Maria, e Maria como aquela que congrega e apoia a fé conturbada dos discípulos. 

Porque ela soube estar com o Crucificado, pode ver o Ressuscitado.

Junto a Maria, é preciso considerar o Sábado Santo como um tempo de luto e pranto: depois da dor intensa da Sexta-feira Santa dá-se lugar a uma dor silenciosa, contida, como a terra que vai se empapando até suas entranhas com a água caída torrencialmente sobre a superfície.

O que aconteceu na superfície da terra na Sexta-feira Santa, acontece nas profundezas da morte no Sábado Santo, para que no Domingo da Ressurreição sejam resgatados ambos os acontecimentos.

É preciso saber acolher este silêncio surdo, que marca a passagem entre duas experiências intensas: a Sexta-feira de dor e o Domingo de Ressurreição.

No sepulcro, Jesus se faz solidário com toda a morte humana. E é preciso esperar com Ele. É preciso esperar em nossos projetos e sonhos, na libertação dos povos, em uma nova humanidade.

Em nossas vidas teremos muitas sextas-feiras santas de dor e dias de Páscoa, mas, teremos muito mais sábados de espera.

O ser humano que espera não tem certeza, não fica seguro, não está satisfeito. Mas a esperança tem fundamento; não é uma ilusão e nem uma utopia; não é um sonho impossível e nem uma lembrança irrecuperável; não é só futuro, mas permanece, disfarçadamente, presente; não é uma morada, mas um sentimento sempre inédito. A esperança evita tropeçar no fracasso, no desânimo, na apatia e no silencioso desespero. Ela se acende à noite, vence na impotência; começa na limitação; é ousada na fragilidade.

esperança é caminho e meta, posse e dom, destino e encontro, antecipação e cumprimento, expectativa e busca, risco e proteção, nó e liberdade.  A esperança é certa, mas não dá “garantias”.

Arrancados ao silêncio dos nossos túmulos, também nós podemos gritar como Maria Madalena no primeiro dia de Páscoa: “Vi o Senhor!” Este grito, que nos enche de esperança, rasgará todo o silêncio, e ecoará por toda a eternidade.

A força da esperança está oculta precisamente na sua impotência. A Cruz permanece em seu lugar, mas o sepulcro fica vazio para sempre! É Ressurreição: vida plena antecipada.


REFLEXÃO SÁBADO SANTO – SÁBADO DE ALELUIA VIGÍLIA PASCAL (in resurrectione  Domini) – CET

 

Texto bíblico: Evangelho segundo João 19,25-27

 

Oração: 

Contemplar Maria em sua “segunda Anunciação”; na “primeira Anunciação” deu-se o início da vida de Jesus. Agora, essa Vida se revela a ela como Vida definitiva.

Que Maria eduque nossa confiança; que ela nos encha de esperança! 

segunda-feira, 30 de março de 2026

Sexta-feira da Semana Santa - Morte fecunda

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho da sexta-feira da Semana Santa - Paixão do Senhor (2026).

Uma vida consumada faz fecunda a morte

 

“Tudo está consumado” (Jo 19,30)

 

A vida humana é fecunda, é potencialidade, é explosão de criatividade... Assim como na semente há vida latente esperando a oportunidade de expandir-se, também no ser humano encontram-se ricas possibilidades, esperando a morte do “eu mesquinho”, para se plenificarem.

A morte do falso “ego” é a condição para que a verdadeira vida se liberte. É preciso passar pela morte do que é terreno, caduco, transitório (paixões, apegos desordenados...) para deixar emergir a vida interior, a vida divina, a vida de Deus em nós. 

O essencial não é encontrar um caminho para alcançar a imortalidade, mas aprender a “morrer em Cristo”. 

O “depois da vida” é um grande encontro onde seremos perguntados: “o quanto você viveu sua vida?”

vida é constantemente chamada a ser Páscoa. Porque na vitória da Vida entregue, ela ganha sentido, avança, como uma torrente que rega terras secas, ávidas de água, como um fogo que, na noite mais escura, traz uma luz que permite vislumbrar a vida oculta.

vida é movimento e, portanto, energia expansiva. Podemos consumi-la em benefício do ego (falso eu) e então vem o fracasso. Podemos consumi-la em benefício dos outros e da causa do Reino; e então, consumá-la, dando-lhe plenitude. Ter apego à própria vida é destruir-se; entregar a vida por amor não é frustrá-la, mas levá-la à sua completude. Aqui há uma inversão na lógica natural das coisas; ganha-se quando perde, vive-se quando morre, multiplica-se quando divide.

Perder-ganhar, morrer-viver, entregar-reter, doar-receber..., parecem dimensões ou realidades contraditórias, mas captar a profundidade da verdade contida nesta “contradição aparente” é descobrir o Evangelho.

“Morrer”, “perder”, “entregar” ... é este instante de ruptura, onde toda uma vida incubada, trabalhada no silêncio e no sofrimento, marcada de alegrias e tristezas, vitórias e fracassos, desponta luminosa para a vida eterna. Pois vida é um contínuo despedir-se e partir; ela nos desaloja de nossos “lugares estreitos” e nos faz caminhar em direção a novos horizontes. 

A vida aumenta quando compartilha e se atrofia quando permanece no isolamento e na comodidade.

De fato, aqueles que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança do conhecido e se dedicam apaixonadamente à missão de comunicar vida aos outros.

Ao contemplar o Crucificado, muitos questionamentos vão surgindo:  

* a Cruz é sinal de solidariedade ou sinal de poder, sinal de libertação ou sinal de opressão, sinal de rebeldia ou sinal de submissão, sinal dos vencidos ou sinal dos vencedores...? 

* Perguntamo-nos se é a Cruz dos condenados deste mundo ou a cruz dos que condenam, a Cruz dos crucificados da terra ou a cruz dos que continuam crucificando como em outro tempo crucificaram a Jesus?

A primeira coisa que descobrimos ao contemplar o Crucificado do Gólgota, torturado injustamente até à morte pelo poder político-religioso, é a força destruidora do mal, a crueldade do ódio e o fanatismo da mentira. Precisamente aí, nessa vítima inocente, nós seguidores de Jesus, vemos o Deus identificado com todas as vítimas de todos os tempos. Está na Cruz do Calvário e está em todas as cruzes sonde sofrem e morrem os mais inocentes. A partir da Cruz, Deus não responde o mal com o mal; Ele não é o Deus justiceiro, ressentido e vingativo, pois prefere ser vítima de suas criaturas antes que verdugo.

O Crucificado nos revela que não existe, nem existirá nunca um Deus frio, insensível e indiferente, mas um Deus que padece conosco, sofre nossos sofrimentos e morre nossa morte.

Despojado de todo poder dominador, de toda beleza estética, de todo êxito político e de toda auréola religiosa, Deus se revela a nós, no mais puro e insondável de seu mistério, como amor e somente amor.

Nós cristãos contemplamos o Crucificado para não esquecer nunca o “amor louco” de Deus para com a humanidade e para manter viva a recordação de todos os crucificados da história.

“Jesus morreu de vida”: de bondade e de esperança lúcida, de solidariedade alegre, de compaixão ousada, de liberdade arriscada, de proximidade curadora...

Nesse sentido, a cruz de Jesus não é um “peso morto”; ela tem sentido porque é consequência de uma opção radical em favor do Reino. A Cruz não significa passividade e resignação; ela nasce de sua vida plena e transbordante; ela resume, concentra, radicaliza, condensa o significado de uma vida vivida por Jesus na fidelidade ao Pai que quer que todos vivam intensamente. 

Existem cruzes que são vazias, sem sentido, insensatas..., pois elas fecham a pessoa em si mesma, no seu sofrimento e angústia; não apontam para o futuro, para a vida.

São cruzes que nós impomos sobre nossos ombros ou que os outros nos impõem. São cruzes que nascem dos fracassos, dos traumas, das rejeições, das experiências frustrantes... Tornam-se um “peso morto” pois não abrem um horizonte de vida; elas se fixam no passado, na morte... e nos deixam no túmulo. 

Fazer o caminho contemplativo junto a Jesus que leva a Cruz da fidelidade nos ajuda a romper com as cruzes que nos afundam no desespero.

Cruz assumida por Jesus é “expansiva” porque é expressão de uma vida entregue; ao mesmo tempo, ela O projeta para a “margem” onde Ele revela uma presença despojada, vulnerável, que se identifica com a dor do mundo, com a marginalização dos excluídos e com a desgraça de todos os miseráveis da terra. Sua Cruz manifesta que Deus é Compaixão porque continua do lado do inocente sofredor; Deus não apenas se solidariza, mas sofre “em sua pele”.

Acompanhando Jesus na paixão, também “vamos sendo talhados” pelas cenas que contemplamos, com o coração aberto à dor e à aflição. É o seguimento levada às últimas consequências.  

Participando da morte de Jesus, podemos também fazer de nossas cotidianas mortes um ato de decisão, de entrega, de oblação. A certeza de nossa fé em Cristo, morto e ressuscitado, nos ajuda a tirar do coração os medos, os impulsos egoístas de busca de segurança e proteção, e encontrar uma paz profunda que nos permita fazer de nossa vida uma oferenda gratuita em favor da vida dos outros.

É gratificante fazer memória de tantos homens e mulheres que foram presença compassiva e, à maneira de Jesus, consumiram suas vidas em favor da vida; histórias silenciosas de tantas pessoas que com sua presença ajudaram os outros a viver; pessoas que revelaram a paixão por viver em pequenas paciências cotidianas, que entregaram suas vidas sem brilho algum, sem vozes que a proclamassem; foram como o fermento silencioso que se dissolveram na massa para fazê-la crescer.

Com a Cruz “descemos” com Jesus até à cruz da humanidade.

A solidariedade com os pobres, a fidelidade à vida evangélica, nos fazem descer aos porões das contradições sociais e políticas, às realidades inóspitas, aos terrenos contaminados e difíceis, às periferias insalubres das quais todos fogem e onde os excluídos deste mundo lutam por sobreviver. Ali nos encontramos com o Crucificado, o “Justo e Santo”, identificado com os crucificados da história.

Como diz Jon Sobrino, não podemos crer no Crucificado de um modo coerente se não estamos dispostos a fazer descer da Cruz aqueles que estão dependurados nela.

Entende-se, assim, o grande “grito” que brotou das profundezas da dor de Jesus na Cruz e que continua ecoando como clamor angustiado. Não são poucos os gritos dos mais pobres e excluídos. 

O grande grito de Jesus é a certeza de tudo o que sustenta o seu coração; ao ecoar junto aos crucificados, provoca grandes novidades. Um grito que não fica no vazio, mas aponta para a Vida.


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Texto bíblico: Evangelho segundo João 18,1-19,42 

 

Na oração: Somos grãos de trigo na grande seara do mundo; e o grão de trigo eterniza-se na sua entrega-doação para que outros matem suas fomes e vivam com sentido.

Aprendamos a morrer para nossos interesses mesquinhos; só assim nossa vida terá a dimensão da eternidade.

- “Se a semente do trigo sou eu, a que devo morrer, para que a vida interior possa se expandir?”

- “Fazer memória” dos crucificados da história e que clamam por uma presença solidária: os sem teto, sem-terra, sem trabalho.

Quinta-feira da Semana Santa - ELE lavou os pés dos discípulos

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho da Quinta-feira da Semana Santa - Ceia do Senhor e Lava-pés (2026).

Casa: lugar do “lava-pés”

gesto ousado que quebra toda pretensão de poder

Lembremo-nos, antes de tudo, desta expressão: “a planta dos pés”. Esta “planta” clama por raízes. Os pés escutam a terra e nos enraízam na realidade histórica. É difícil ter os pés sobre a terra...  Podemos sentir isso se “escutarmos” bem nossos pés. O Ocidente deseja que as pessoas pensem no céu, e alonguem a cabeça no ar para fazê-la olhar para cima e ver as nuvens. 

O Oriente sabe que a melhor maneira de chegar ao céu é pisar solidamente na terra. Segundo a tradição oriental, quanto mais próximo do chão estiver o corpo, mais livre fica a mente e mais sensível o coração.

Quanto mais proximidade e intimidade com a terra, mais profunda é a experiência espiritual.

Cada passo deve ser uma oração e cada caminhar é um rosário de contas que marcam os caminhos da vida com a fé do caminhante.

Dá força e inspiração sentir a grande Casa, a Terra: apalpar sua firmeza, medir sua imensidade, contemplar sua beleza; ela é o altar cósmico sobre o qual celebra-se diariamente a liturgia da vida. 

Não há uma “Terra Santa”, há uma maneira santa de caminhar sobre a terra. É a nossa maneira de caminhar sobre a terraque a torna sagrada.

Mudar o nosso modo próprio de caminhar, mudar o nosso modo de colocar o  na terra, não é somente uma terapia psicossomática, mas pode ser um exercício espiritual. É aceitar-nos em nossa dimensão terrosa.

O equilíbrio do corpo, o equilíbrio do nosso psiquismo, o equilíbrio de nossa vida espiritual depende deste enraizamento.E se as raízes são sadias, toda a árvore é sadia. Algumas vezes somos jardineiros, muito atentos à flor e ao fruto, mas esquecemos as raízes, esquecemos os pés.  

É por aí que devemos começar os nossos cuidados.

A tradição dos Padres do Deserto nos diz que todos nós temos os pés vulneráveis, muitas vezes feridos e maltratados. E temos necessidade de sermos cuidados e curados no nível de nossos pés. Precisamos fazer o caminho que vai dos “pés inchados e feridos” aos “pés alados”; partimos de nossos pés pesados como se tivéssemos um fardo de memórias para carregar conosco. Sentimos que este fardo de memória nos entrava a marcha e nos impede o caminhar.

É preciso cuidar dos próprios pés para que eles possam reencontrar suas asas; caminharemos, assim, sobre a terra com os pés livres, leves, soltos. E, como seres humanos, reencontraremos nossa condição divina.

Jesus sabia que seus discípulos tinham pés frágeis, pés de argila. Amar alguém não é querer que ele fique deitado a seus pés, mas é querer que ele se mantenha de pé em toda sua grandeza, na plenitude de sua humanidade. Amar alguém é querê-lo com os pés “livres, leves e soltos”. Lavar os pés é gesto de humanização e gesto humanizante. É devolver ao outro a dignidade e capacidade de dar destino à sua vida.

O gesto do “lava-pés” é inspirador para todo(a) seguidor(a) de Jesus Cristo; constitui um dos gestos mais ousados e expressivos da missão e da identidade para aqueles que exercem algum serviço em sua comunidade. É revelação e ensinamento. É amor e mandamento. É gesto-vida, gesto-horizonte, gesto-luz...

Não se pode amar alguém e olhá-lo de cima. Não se trata também de se “humilhar”, de se colocar “abaixo” de seus pés, mas de cuidar de seus pés para que esse alguém possa se manter de pé, para que ambos possam estar face a face e caminhar juntos.

O Evangelho de São João substitui a instituição da Eucaristia pelo Lava-pés.

Audaciosa inovação que dirige o gesto eucarístico para a revolução das relações humanas: Jesus se esvazia de todo poder, faz-se servo e revela sua verdadeira identidade na capacidade para servir; autoridade não se exerce submetendo o outro, mas possibilitando que o outro “seja” ele mesmo.

Lava-pés é gesto ousado que quebra toda pretensão de poder. Jesus viu claramente que o perigo mais grave que ameaçava seus seguidores é a tentação do poder. Não há dúvida de que isso é o que causa o maior dano a todos, o que mais desumaniza. 

A reação de Pedro expressa bem o escândalo que este gesto produz, porque Jesus revela que a autoridade - ser Senhor – é um serviço, não uma dominação.

Pedro fica desconcertado e em dilema. Sua imagem do Messias seguro e vencedor não combina com a vulnerabilidade de um servo.

Por isso, com esse gesto, Jesus expressa que nunca quis agir como o superior que se impõe com poder; do mesmo modo, viu em semelhante comportamento uma conduta radicalmente inaceitável para seus segui-dores. A relação que se estabeleceu entre os discípulos e Jesus não foi a de submissão a um poder que manda e dá ordens, mas a do “seguimento” que brota da experiência de sentir-se atraído e seduzido pelo “modo de proceder” do mesmo Jesus.

“descendimento” do Senhor aos pés dos discípulos e fazendo-se servidor, transforma o status da servidão (“o servo não sabe o que faz seu senhor”) em fraternidade (“não vos chamo servos, mas amigos).

Deste modo se mostra o verdadeiro senhorio de Jesus: a possibilidade de restabelecer a igualdade entre as pessoas através da superabundância de um amor que se derrama, sem reservas, para todos. Este gesto provocativo de serviço e despojamento d’Aquele que é “Senhor” desperta em cada seguidor o desejo de considerar suas qualidades e capacidades como veículos de doação, não de poder ou de manipulação. 

A partir deste “ousado gesto” já não se justifica nenhum tipo de superioridade, mas somente a relação pessoal de irmãos e amigos.

A cena do lava-pés revela profundidade e delicadeza, mútuo dom e acolhimento, comunhão e pressentimento. É um gesto profético, repleto de generosidade e de humildade.

Com este gesto Jesus des-vela uma imagem nova de Deus: o Todo-Misericordioso esvazia toda e qualquer expressão de podere submissão entre os humanos.

Ninguém serve a Deus, a não ser do jeito de Jesus, isto é, lavando os pés dos outros, amando-os até o fim.

Nosso Deus não é prepotência, mas condescendência. É o Criador que se põe aos pés da criatura.

Nosso Deus é um Deus que “desce”, que se “inclina” para acolher.

Mistério da Encarnação: Deus abraçando e sendo encontrado junto aos pés dos seus filhos(as).

Casa, mesa, lava-pés, refeição, hospitalidade..., são os grandes sinais do Reino. Em torno à mesa se expressam os valores de uma nova ordem social. A casa, a hospitalidade, a refeição partilhada são o sacramento do sonho de Deus sobre a humanidade e sobre o cosmos inteiro.

A casa-lar deve ser o ambiente privilegiado onde se prolonga e se visibiliza o gesto provocativo do lava-pés;

gesto que desperta uma sensibilidade solidária diante daqueles que não tem morada digna para poderem viver os valores evangélicos da acolhida, da partilha, da convivência...

Na vivência do serviço evangélico, somos chamados a vestir o “avental de Jesus”. “Vestir o coração” com o avental da simplicidade, da ternura acolhedora, da escuta comprometida, da presença atenciosa, do serviço desinteressado...

Precisamos “levantar-nos da mesa” cotidianamente. Há sempre um lar que nos espera, um ambiente carente, um serviço urgente. Há pessoas que aguardam nossa presença compassiva e servidora, nosso coração aberto, nossa acolhida e cuidado...

Sempre teremos “pés” para lavar, mãos estendidas para acolher, irmãos que nos esperam, situações delicadas a serem enfrentadas com coragem...

Sempre teremos, também, a necessidade de nos “sentar à mesa” para renovarmos as forças e redobrarmos a coragem de nos levantar e, na humildade, sem manto, servir com amor, do jeito de Jesus.

“Levantar-nos da mesa” – “sentar-nos à mesa”: movimento de partida e de chegada; prolongamento do gesto provocativo e escandaloso de Jesus. 


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Texto bíblico: Evangelho segundo João 13,1-15

 

Na oração:

Seja você alguém que, na admiração da gratidão, se aproxima deste gesto ousado de Jesus (tirar o manto e vestir o avental), a fim de purificar sentimentos, endireitar caminhos e aprofundar a caminhada na convivência com os irmãos.

A sua identificação com Jesus lhe confere um novo modo de ver, avaliar e assumir atitudes mais evangélicas.

É a contemplação, o modo de orar mais envolvente que lhe pode fazer enxergar o milagre; e, sensibilizado(a), abrir-se à dimensão do maior serviço, por pura gratuidade.

Quarta-feira da Semana Santa - O tempo está próximo

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho da quarta-feira da Semana Santa (2026).

Em tua casa vou celebrar a Páscoa...

 

Tomada a decisão de “subir a Jerusalém”, começamos a descobrir, contemplando Jesus, qual pode ser o preço da fidelidade no seguimento.

A contemplação dos “mistérios” da Paixão acontece numa atmosfera de grande intimidade; ela vem a ser como um acompanhar Jesus em seu caminho de entrega radical; quem contempla não pode permanecer reduzido a um simples espectador, mas “entrar” no caminho de Jesus, apropriar-se dos “mistérios”.

A contemplação nos conduz a uma oração de união: querer unir-nos a Ele, estar com Ele em silêncio, diante de sua fidelidade, mistério que nos ultrapassa.

Não podemos desligar a ação de Jesus na Última Ceia do conjunto da sua vida, da sua ação, da sua missão: o anúncio e a construção do Reinado do Pai.

Última Ceia recebe a sua significação a partir do conjunto desta vida e ação de Jesus. Ela é o ponto de chegada desta Vida comprometida com a vida; ao mesmo tempo, ela é antecipação de tudo o que vai ocorrer na Paixão: entrega radical da Vida.

Segundo os relatos dos Evangelhos, durante sua vida pública, Jesus transitou por muitas refeições, participou de muitas mesas (especialmente com os pobres e pecadores) e, para culminar, organizou com seus amigos mais próximos, uma ceia de despedida e de esperança; deixou uma “mesa” como marca dos seus seguidores: mesa da partilha do pão e da inclusão, mesa da festa e da comunhão. 

Ali, ao partir o pão e passar o cálice, pediu que se recordasse d’Ele toda vez que comessem ou bebessem juntos, reavivando a esperança de construir o mundo que todos esperavam. Eles se transfigurariam e o mundo se transformaria em Comunhão toda vez que este gesto fosse repetido.

É no interior de uma casa e em torno a uma mesa que os seguidores de Jesus se constituem como verdadeira comunidade. Ao recordar a vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus, os cristãos se comprometem a prolongar os Seus gestos, atitudes, valores, compromissos... 

“Fazer memória” de Jesus junto à mesa é acolher o apelo d’Ele: “dai-lhes vós mesmos de comer”; é comprometer-se com a vida; é colocar a própria vida a serviço da vida.

Jesus, no final de sua vida pública, quis cear com os seus amigos e por isso precisavam encontrar uma casa e uma sala na qual houvesse espaço para estarem juntos. O ritual pascal dá lugar aos gestos simples que se fazem entre amigos: partilhar o pão, beber da mesma taça, desfrutar da mútua intimidade, entrar no clima das confidências... A relação de Jesus com os discípulos vinha de longe: levavam longo tempo caminhando, descansando e tomando refeições juntos, partilhando alegrias, falando das coisas do Reino. 

Jesus sempre buscou companhia; havia nele uma necessidade irresistível de contar com amigos e confidentes.

E continuará considerando-os como amigos, mesmo quando um deles irá traí-lo e os outros fugirão.

Chama-nos a atenção, no Evangelho de Mateus, a maneira como Jesus indicou aos discípulos o local onde queria que a Ceia fosse celebrada: mandou-os seguir um homem que encontrariam à entrada da cidade

Junto a personagens conhecidos nos Evangelhos, outros, sem nome, nem identidade, nem protagonismo, surgem inesperadamente, deixando sua “marca”, como o desconhecido homem que emprestou sua casa para que Jesus e seus discípulos pudessem celebrar a Páscoa.

Anônimo perante a posteridade, porque era seguido pelos que vinham atrás dele, este homem, de certo modo e do modo certo, serviu a Jesus como a Igreja deve serví-Lo, sem perguntar qual seria seu lugar à mesa. O que aconteceu dentro de sua casa, transformada no mais importante templo material da história humana, seria mais do que suficiente para arrancar dele alguma expressão de vaidade. 

Mas, não é isso que aconteceu com ele; ofereceu a casa sem perguntar quem viria celebrar a Páscoa, sem pedir garantias, sem cobrar aluguel pelo espaço; enquanto os sacerdotes e Judas pechinchavam o valor da vida de Jesus, este desconhecido, por pura gratuidade, ofereceu sua casa ao mesmo Jesus. 

Certamente, ele e sua família foram testemunhas desta ceia única e especial, e que será a marca de todo(a) seguidor(a) de Jesus.

Aquele homem desconhecido, representa a todos nós; cabe-nos mostrar o caminho do local da Ceia, cabe-nos palmilhar, sobre as pedras do cotidiano, o rumo que leva à casa do Pai.

E devemos fazer com que outros nos sigam, para que se cumpra tudo que foi instituído.

Orientadores do povo de Deus, abramos as portas da grande sala de nossa casa e a confiemos ao Mestre para que realize ali o imenso dom da Eucaristia, “como aquele que serve”!

Assim fizeram seus seguidores: após a Ressurreição Jesus foi “reconhecido ao partir o pão”; foi reconhecido não porque estava no templo ou ensinava na sinagoga, mas porque partia o pão nas casas.

Jesus fez do universo seu corpo e se faz pão para nós. 

Por isso, no primeiro dia da semana, reuniam-se todos nas casas, oravam juntos, recordavam a mensagem de Jesus, comiam o pão, bebiam o vinho e a Vida ressuscitava. A isso chamavam, ‘ceia do Senhor” ou “fração do pão”.  Tudo era muito simples e despojado.

A transformação das relações humanas se dá através do partir o pão e do passar o cálice de vinho; como o pão é um, comer desse pão nos faz todos um. A Eucaristia faz de todos nós Corpo de Cristo. Daí o interesse da primitiva Igreja em que, na Eucaristia, comungassem todos do mesmo pão partido, com a finalidade de fazer visível essa unidade de todos.

Ninguém ceia sozinho. Há um partirum distribuir, mãos que se tocam, olhares que se encontram.

E, em tudo isto, a sensação como se fosse a de uma “conspiração”.

Conspirar, com-inspirar, respirar com alguém, juntos.

Conspiradores: respiram o mesmo ar. Jesus e os discípulos, comendo o Pão e bebendo o Vinho, respiram o mesmo ar, o mesmo sonho, a mesma utopia do Reino.

É assim a comunidade dos cristãos, a Igreja: juntos, conspirando, mãos dadas, comemos o pão, bebemos o vinho e sentimos uma saudade/esperança sem fim...

Tomar o pão e o vinho da Eucaristia é fazer memória de uma presença que nos compromete.

Discípulos(as) de Jesus somos todos quando aprendemos a partir o pão. Reconhecemos os cristãos hoje quando partem o pão e não o armazenam. O pão armazenado, como o maná no deserto, se corrompe, apodrece. Compartilhar significa não “monopolizar”, não permitir que haja necessitados entre nós.

O pão partido é a vida compartilhada: meios, tempo, qualidades.

O cristão, além disso, compartilha seus ideais, seu entusiasmo, seu ânimo, sua fé, sua esperança.

Também hoje Jesus precisa de casas para celebrar a Ceia pascal; precisa de nossas mãos para plantar o trigo e triturar os, amassar a farinha e fazer o pão. E precisa de nosso coração para que o pão seja repartido.

O pão sem coração é pão “monopolizado”. Pão indigesto, que engorda o egoísmo.

O pão sem coração gera divisões e conflitos. Quantas guerras fraticidas provoca o pão sem coração!

Deus precisa de nosso coração para que o pão leve o sinal da fraternidade, seja vitamina de solidariedade, alimento de comunhão, energia de vida.


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Textos bíblicosEvangelho segundo Mateus 26,14-25

 

- Leia atentamente o relato da Última Ceia.

- Prepare-se para uma contemplação. Com a imaginação, faça-se presente à cena, indo com os discípulos para preparar o ambiente da Última Ceia.

- Procure ativar todos os sentidos: olhe as pessoas da cena, escute o que elas dizem, observe o que elas fazem, saboreie o pão e o vinho dados a você por Jesus...

- Participe, com alegria, deste evento único; deixe-se afetar por tudo o que acontece durante a refeição.

- Traga à sua memória o sentido da Eucaristia em sua vida.

- Reserve um momento de colóquio com Jesus, expressando a Ele seus sentimentos.

 

sexta-feira, 27 de março de 2026

Terça-feira da Semana Santa - Anúncio da traição

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho da terça-feira da Semana Santa (2026).

Judas, onde estás?

 

“Em verdade, em verdade vos digo, um de vós me entregará” (Jo 13,21)

 

No dia de ontem, buscamos inspiração na Casa em Betânia, lugar inspirador para Jesus. Ali, encontramos o ícone para revelar o sentido de nossas moradias: convivência, partilha, comunhão, espírito de serviço, acolhida do diferente, espaço festivo, sensibilidade diante do sofrimento...

Hoje, provocados pelo relato do evangelista João, vamos trazer presente um outro dado que nos custa compreender: a casa pode ser, muitas vezes, lugar da traição, da frieza nas relações, do ódio que divide, do distanciamento afetivo, da casa-pensão onde seus moradores não se conhecem, etc...

Poucas experiências destroem tanto alguém por dentro como a traição. 

Quem traiu e quem foi traído assume reações semelhantes, como esvaziamento da afetividade, sensação de inutilidade vital, desorientação, perda do sentido da própria existência, angústia, pânico, fobias e medos generalizados diante das pessoas e do mundo. A traição desmonta a esperança no outro ser humano e leva a desacreditar na existência do amor. A traição tira do ser humano sua capacidade de dar respostas à vida, de envolver-se num projeto e num ideal maior, que ultrapasse o valor de sua própria vida.

Nestes primeiros três dias da Semana Santa, aparece a figura de Judas, não como protagonista, mas como antagonista, como contraponto, alguém deslocado do clima de amor e amizade. Os próprios evangelistas se sentem incomodados com ele e não aceitam suas posturas e atitudes.

Na verdade, Judas não conseguiu captar que em torno a Jesus tudo é gratidão e gratuidade; já na casa em Betânia, ele destoou e criticou o gesto amoroso de uma mulher derramando perfume nos pés de Jesus.

Reagimos negativamente frente a traição de Judas, mas no fundo ele nos causa repulsa porque é projeção das nossas infidelidades e traições. Ele é o espelho no qual nos vemos.

Mas... o que vem a ser a traição? Como ela se manifesta na nossa vida? Por que traímos a confiança do outro? O ato de trair implica romper uma aliança que uma pessoa fez com outra. Trair é uma ação que revela sérias consequências, e, quando se fala de relacionamento humano, envolve sofrimento e sensação de abandono, gerando um estado de desconfiança generalizada naquele que foi traído.

Traição dói na proporção inversa da distância. Quanto mais próxima a pessoa traidora, tanto maior a dor do traído. A traiçãose situa no mundo das amizades, das vinculações afetivas intensas, das ligações íntimas, das proximidades de vida.

Podemos destacar duas dimensões na Paixão de Jesus: a primeira paixão acontece no grupo interno (traição, negação, busca de poder, incompreensão da missão...); isso provoca profundo sofrimento em Jesus.  

A outra paixão é provocada pela oposição, perseguição externa... Geralmente ficamos impactados com os sofrimentos físicos cometidos pelos opositores. O sofrimento interno não é visível, mas é maior.

Certamente o maior sofrimento de Jesus partiu do grupo mais íntimo; da perseguição externa já era esperada, mas do grupo de convivência dos discípulos, foi muito duro para Jesus. E Judas era considerado “um dos Doze”.

Judas se tornou o símbolo da traição porque fazia parte do grupo íntimo dos apóstolos. Foram anos de convivência nas mesmas caminhadas, nas noites ao relento, nas pregações, nas refeições simples do dia-a-dia e nas festas. Jesus e Judas viviam elos de amizade, de confiança, de esperança entre si.

De repente, rompe-se tal aliança e Judas entrega Jesus aos adversários.

Com a traição, Judas passou da amizade para a decepção, para a desilusão, para a perda de vinculação até a entrega. Processo lento que foi minando o seu coração, até que ele se corrompeu, a ponto de renegar a amizade e trair.

Que aconteceu no coração de Judas na noite da Última Ceia? Rodeado de um mundo de mistério, rodeado de um clima de bondade, de amor e salvação, e, no entanto, o coração de Judas está em outro lugar. Está impermeável à verdade que se celebra; está seco em seu interior, fechado ao mistério da graça.

Quando Jesus, na Última Ceia anuncia que um deles vai lhe entregar, todos ficam “assustados”, “olham-se mutuamente”, mas não conseguem identificar o traidor. Os traidores não têm um rosto especial; qualquer rosto vale para dissimular a traição do coração; qualquer rosto vale para esconder um coração traidor.

Judas, em nada dava sinais de ser diferente do restante dos discípulos. Por isso ninguém se atreveu a acusá-lo de traidor. Parecia tão normal como qualquer outro do grupo.

É que as traições são alimentadas e escondidas no coração; as traições não têm rosto, não são visíveis. Por isso mesmo, os traidores, são tão difíceis de serem reconhecidos. Caminham como todos. Comem como todos. Sorriem como todos. Tem cara de amigo, mas por dentro carregam um coração vendedor de vidas, de dignidades, de amizade...

Ao dar “o pedaço de pão passado no molho” vemos aí o último gesto de carinho por parte de Jesus para com Judas, uma graça final que o traidor recusa. Fez-se “noite” em seu interior, e ele saiu de casa para cumprir a intenção do seu coração: entregar Jesus.

O traidor é um exemplo das trevas sobre as quais brilhou a luz em vão; ele ama as trevas mais que a luz, porque suas obras eram más.

Sentimos pena de Judas, porque é um homem decepcionado com o chamado de Jesus e sua própria vocação. Não se sente como os outros, e nem sequer é tão espontâneo como Pedro ou os Zebedeus, que queriam ser importantes; ele não quer só ser importante, quer estar em tudo por cima dos outros. Está “amargo” porque Jesus não correspondia às suas expectativas como Messias e que estava perdendo o tempo com os discípulos em vez de prepará-los para a revolução e formar um grupo político, não religioso. Judas perdeu a admiração por Jesus.

Judas não compreende o gratuito, ou seja, o que recebeu de Jesus, as possibilidades de ser apóstolo e sair de si mesmo, entregando-se, doando-se... e tudo quer justificar a partir de seu próprio ponto de vista.

Judas não sabe participar e desfrutar de uma agradável refeição em companhia dos outros, nem se preocupa em agradecer a Jesus pela admirável ceia. Judas caminha para a decepção, a solidão e a morte. Abandona o grupo, sai à noite para alimentar seu “ego inflado”, sofre a decepção frente seus “falsos” amigos, vê que sua vida já não tem saída nem sentido. 

No fundo é fraco, tira a própria vida, não faz dela uma entrega, como Jesus.

Existem muitos “judas” na comunidade cristã, fechados em si mesmos e que buscam seus interesses egóicos; criticam todo gesto oblativo de acolhida e de serviço; estão só preocupados em buscar algum benefício (número de seguidores, ruídos e tumultos, atos egóicos centrados no interesse financeiro). A entrega amorosa de cada dia parece não ter sentido para eles.

Há coisas e gestos que estão muito além do dinheiro: a delicadeza para com as pessoas, a compaixão para com os excluídos, a presença solidária entre os mais necessitados. A vida de comunidade, inspirada em Jesus, deve se constituir de detalhes carinhosos e não de racionalizações e conveniências de nosso gosto.

Pensemos em tantos “judas institucionalizados” que exploram as pessoas, alimentando uma “cultura de morte”; pensemos nos “pequenos judas” que carregamos dentro de nós, na hora de eleger entre lealdade e interesse, entre gratuidade e dureza de coração. Cada um de nós tem a capacidade de trair, de vender, de só optar em favor do próprio interesse. Cada um de nós tem a possibilidade de deixar-se seduzir pelo amor ao dinheiro, pela busca de poder. Judas, onde estás? É a pergunta que faço a cada um de nós” (Papa Francisco).


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Texto bíblico: Evangelho segundo João 13,21-38

 

Na oração:

Diante de “Jesus traído”, recorde experiências pessoais de traição: quando foi traído? Quando traiu? Como se sentiu?

Segunda-feira da Semana Santa - A ceia de Betânia

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho da segunda-feira da Semana Santa (2026).

Betâniacasa da acolhida, comunidade de amor

 

“A casa inteira ficou cheia do perfume do bálsamo” (Jo 12,3)

 

No percurso contemplativo da vida pública de Jesus, o início desta Semana Santa nos conduze até Betânia, a ser e viver Betânia, a assumir Betânia:

- Casa de hospitalidade e de escuta, onde todos somos irmãos sentados à mesma mesa, junto ao Mestre, o único Senhor, em quem se centra nossa hospitalidade e nossa escuta;

- Lugar de descanso, como foi para Jesus, onde encontra humanidade, calor humano, compreensão, alívio;

- Lugar de passagem, onde recuperamos forças para viver situações de Páscoa, onde acontece a intimidade do encontro dos amigos que falam de assumir as consequências de viver em favor dos outros, de deixar-nos levar pelo Espírito e amar até o extremo...;

- “Casa dos pobres” (Beth-anawim): nela, em primeiro lugar, habitam nossas pobrezas pessoais e comunitárias, nossa pequenez e nossa fragilidade; mas, também, onde a dor de nosso mundo, da humanidade, têm lugar e tocam nosso estilo de viver, de nos relacionar, de nos confrontar em nosso seguimento de Jesus.

O tema da Campanha da Fraternidade deste ano – Fraternidade e moradia – nos ajuda a recordar que o mundo relacional de Jesus era amplo e diversificado; seus amigos e amigas se multiplicavam a cada passo que dava. Um exemplo disso é sua relação com os três irmãos, na casa em Betânia. 

Betânia é para Jesus o lar da acolhida, da hospitalidade, da escuta, da amizade e do serviço. Ali, Ele expressa as atitudes humanas presentes na cotidianidade de uma família que Ele amava e que O amava. 

Betânia é o templo onde Jesus percebe a presença e o agir de Deus nos fatos mais simples da vida cotidiana; Betânia é, para Jesus, um prolongamento de Nazaré, o lugar do cotidiano, do pequeno, do simples, o lugar da revelação. Betânia é o ícone de uma verdadeira comunidade de seguidores(as): casa da unção, do serviço, da escuta atenta; é o lugar da Páscoa que antecede a Páscoa do Filho de Deus.

Betânia nos desafia a gerar um novo estilo relacional que seja capaz de tornar visíveis os sinais do Reino, aqui e agora. Betânia é o lugar de uma nova mística: a do seguimento e identificação com Jesus, a mística da sensibilidade humana, que nos faz passar da morte à vida, como Lázaro. Ali, Ele deixa transparecer um coração carregado de amor oblativo, gratuito...

Jesus, perseguido pelos poderes civil e religioso, vai a Betânia, na casa das suas amigas Marta e Maria e de Lázaro. Mesmo sabendo que a polícia estava atrás de Jesus, os três irmãos receberam-no em casa e ofereceram-lhe um jantar. Acolher em casa uma pessoa perseguida e oferecer-lhe um jantar era perigoso. Mas o amor faz superar o medo.

Neste ambiente, já não há mais rivalidade entre as duas irmãs, Marta e Maria, mas colaboração e complementariedade. Juntas se fazem transparentes para algo maior que elas mesmas. Certamente Jesus deixou “refletir” em sua vida o que viu fazer estas duas mulheres.

Os discípulos levavam muito tempo com Jesus e nenhum tinha feito com Ele o que estas duas mulheres fizeram. Ninguém lhe havia manifestado gestos de tanto amor. 

Elas se fazem totalmente presentes a Jesus; aceitam o que vai acontecer e o acompanham. Marta, servindo a mesa e as mãos de Maria acariciando e ungindo os pés de Jesus; e Ele deixando que elas expressem em gestos o que estava no coração delas: muito amor. Um gesto que Judas não compreendeu.

Marta e Maria expressam sua amizade e fazem com Jesus o que Ele logo fará com seus discípulos no momento de sua despedida, na Última Ceia: os servirá à mesa e lavará seus pés. Jesus se deixou fazer, para poder fazer isso com outros e quis tomar para si os gestos destas mulheres para fazer memória de sua vida.

Impressiona-nos que, neste relato, elas não falam, mas expressam todo seu amor “mais em obras que em palavras (S. Inácio).

Aqui, no centro do Evangelho de João, a comunidade, reconstruída no amor, exala o bom perfume que enche toda a casa. Em lugar do cheiro da morte, a casa enche-se do perfume: símbolo do amor que exala bom odor. É um amor que não tem preço.

O perfume de Maria é o símbolo da vida e do amor de cada um. É um amor oblativo e gratuito e que está sempre voltado para os mais pobres. “Pobres, sempre os tereis convosco”, porque sempre haverá vítimas das estruturas sociais injustas e violentas.

À luz de Betânia e de nossa realidade, quais perfumes derramar para superar o mal odor dos nossos ambientes? O que cheira mal entre nós, seguidores(as) de Jesus? Medo risco e do novo, medo de perder seguranças; medo de equivocar-nos, de experimentar outras maneiras de viver; medo de enfrentar situações desafiantes na sociedade, medo da dor e da morte, medo do diferente...

Cheira mal as seguranças petrificadas, o imobilismo; cheira mal a indiferença e a acomodação, sobretudo diante das necessidades de nosso mundo; cheira mal o ódio, a intolerância, o julgamento; cheira mal a desesperança frente a um futuro incerto.

Há um forte mal odor dentro de nossas “bolhas mofadas”, dentro de nossas casas; custa-nos reforçar laços, alimentar solidariedade, entrar em sintonia com a paixão da humanidade.  Preferimos conservar a arriscar; percebemos a inércia e a falta de renovação séria e profunda, uma falta de abertura frente ao diferente, uma perda de tempo gasto em estéreis conflitos entre pessoas, grupos, gerações, dentro de nossas famílias e comunidades.

Na unção em Betânia, Maria pode ser considerada como um ícone da nova sensibilidade que o evangelho 

nos oferece. Ela está dotada de uma sensibilidade muito superior à dos discípulos, tanto para perceber o que acontece como para expressar seus sentimentos com admirável fineza e liberdade. 

Os dirigentes judeus andavam buscando uma ocasião para matar Jesus. Maria, certamente havia escutado os rumores que chegavam da vizinha Jerusalém e que circulavam em voz baixa entre as pessoas do povo. Ela, no entanto, sintonizou com este momento dramático. Sua criatividade feminina encontrou no perfume um símbolo para expressar com grande delicadeza o que esse momento transbordava seu coração. Maria investiu num gesto gratuito e desmedido, expressão de um amor exagerado.

O excesso de seu gesto sintoniza perfeitamente com o amor sem medida de Jesus, mas ultrapassa a limitada capacidade de compreensão dos presentes à mesa, sobretudo Judas Iscariotes.

Os perfumes e os aromas estiveram muito presentes na vida de Jesus, em seus momentos de dor e prazer. O perfume revela e oculta ao mesmo tempo, aviva o desejo, a abertura à surpresa de uma presença. Jesus o recebeu agradecido, e sua própria vida tomou o símbolo do frasco, precioso e caro, que se quebra para poder derramar-se em favor de muitos.

Quando a Vida nos unge, estamos potencialmente equipados para anunciar a boa nova, a luz, a cura, o cuidado... Ações que nos plenificam.

A casa de Betânia se encheu do “esbanjamento” do amor, da ternura, da misericórdia frente ao mal odor da violência, da exclusão, do orgulho autossuficiente. 

Junto a Jesus, somos também desafiados a esbanjar a vida com Ele, isto é, viver na e a partir da comunhão com o Deus da vida. Viver, em definitiva, como Jesus viveu: Ele “derramou”, doou toda sua vida através de um compromisso real para tornar visível o amor de Deus.

Assim, na experiência cristã, a vida se “derrama” para tornar visível o amor de Jesus a toda pessoa humana. Um “esbanjamento”, muitas vezes, incompreensível para tantos contemporâneos nossos. Eles nos lançam um duro questionamento: não seria a vivência cristã uma espécie de desperdício de energias humanas, um desperdício de talentos?

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Textos bíblicos: Evangelho segundo João 12,1-11

 

Na oração:

Na contemplação, somos convidados a entrar na casa em Betânia: casa de encontro, comunidade de amor e coração de humanidade:

- Com Jesus Mestre, somos inspirados a nos fazer mais humanos e próximos;

- Com Marta, somos movidos a professar a fé e a servir na diaconia;

- Com Lázaro, somos chamados a passar da morte à vida e caminhar na liberdade do Espírito;

- Com Maria, somos desafiados a quebrar os frascos e a derramar o perfume da escuta e do amor.

- Criar Betânia em nosso interior e em nossas casas: lugar da mesa compartilhada, da unção e do cuidado; ambiente que exala perfume do amor, gratidão, amizade...