sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Justificativas que atrofiam a vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 28º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Mas os convidados não deram a menor atenção” (Mt 22,5)

 

Nestes três últimos domingos a liturgia nos convida a ter acesso a três parábolas que nos apresentam Deus como pai, como proprietário de uma vinha e como rei que prepara a festa de casamento de seu filho.

Deus é Pai e nos fala de sua bondade; Deus é Rei e nos fala de sua dignidade; Deus é proprietário e nos fala da herança que nos quer transmitir.

Jesus narrou estas parábolas em um contexto polêmico e cheio de tensão com o judaísmo institucional. O grande conflito d’Ele foi com as autoridades religiosas, petrificadas em suas práticas legalistas e que se consideravam “puras” e merecedoras de uma recompensa.

A atmosfera que envolveu estas parábolas foram os últimos dias da vida de Jesus, já em Jerusalém; um momento no qual estava se formatando um duplo juízo, político e religioso, por seus discursos, ações e provocações às autoridades rabínicas. Através das parábolas Ele pretendia expressar sua certeza de que o projeto de Deus ia se realizar apesar das contradições humanas.

Na parábola deste domingo, o Deus que Jesus nos revela é um Deus a quem lhe encanta a festa, o banquete, a alegria de seus filhos e filhas. Deus é “festa”.

Ao longo da História da Salvação, Deus faz da “mesa da refeição” o local de seu encontro e de sua comunicação com a humanidade. Tanto no Primeiro como no Segundo Testamento encontramos as refeições como momentos privilegiados, nos quais Deus se manifesta ao ser humano e com ele convive.

São refeições que revelam a presença de Deus, os cuidados paternos de Deus, a vontade manifesta de Deus, sua familiaridade com o ser humano, o simbolismo das promessas que estavam à espera.

Deus instala a grande Mesa no centro do mundo, para a qual convergem todos os homens e mulheres de todos os cantos da terra e de todos os tempos; nela, todos se assentam e ali fazem a experiência do Deus companheiro, do Deus comensal, do Deus que já instalou seu Reino no meio da humanidade.

O Deus que Jesus revela é Aquele que desce das alturas, entra nas casas, toma assento junto à mesa, come com as pessoas, serve-lhes o pão. Na intimidade da mesa, Ele restitui aos excluídos a dignidade e a auto-estima, pois eles são os preferidos do Reino da Festa. 

Encanta-nos a pessoa de Jesus porque lhe encantam as festas de casamento. Começou com as Bodas de Caná, e continua agora coma parábola do Banquete do Reino. 

Aqui, Ele revela a imagem de Deus que organiza um banquete de casamento; no entanto, todos os convida-dos apresentem justificativas e motivos para deixá-lo plantado, com a mesa posta, e tudo preparado.

E, além disso, o fazem de um modo muito cortês e “educado”. Ninguém quer ficar mal com Deus, mas não participa. Cada um tem suas justificativas para desculpar-se: um campo comprado é suficiente razão para não aceitar o convite; os negócios particulares revelam-se suficiente motivo para não ir à festa; outros ainda apelam para a violência contra os servos que foram entregar os convites.

Todos afirmam crer n’Ele; mas são muitos que não lhe fazem caso.

Todos dizem que o amam; mas, são muitos que tem justificativas para apresentar-lhe suas desculpas.

Todos são corteses com Deus; mas são muitos que se fazem de surdos e não acolhem o convite festivo.

Todos são educados com Deus; mas são muitos que não querem envolver-se com Ele.

As justificativas egóicas os petrificam e os impedem de saborear a vida como festa; preferem a solidão de seus “afetos desordenados”.

No entanto, Deus não se dá por vencido. Sua bondade não tem fronteiras e não discrimina ninguém; por isso, o dom do banquete é oferta universal, é para todos. Diante da negativa dos convidados, o banquete se abre a todos os que estão fora, nos caminhos e encruzilhadas, bons e maus. A todos é dada a possibilidade de responder ao seu convite, ao seu chamado; ninguém tem o direito de sentir-se privilegiado ou de reivindicar a exclusividade. É preciso abrir-se às periferias, reconhecendo que também quem está nas margens, inclusive aquele que é rejeitado e desprezado pela sociedade, é objeto da generosidade de Deus. 

Tudo isto nos leva a vencer o costume de posicionar-nos comodamente no centro, como faziam os chefes dos sacerdotes e dos fariseus. Mais uma vez aparece o alarme de viver a fé numa posição de conforto, de busca de seguranças e certezas, de instalação no de sempre e de reatividade e resistência frente o novo. Deus oferece a possibilidade da plenitude humana, tudo está preparado no interior de cada pessoa para conectar-se com a Fonte e viver a partir do essencial.

O evangelho rejeitado por vários, encontra uma acolhida inesperada em muitos outros corações.

Enfim, a parábola deste domingo parece expressar com claridade que somos chamados a participar incondicionalmente da vida divina, onde temos pendente uma refeição que não é tristeza, mortificação, mas um festim que se expande e atrai a todos para a comunhão com o Deus festeiro.

No fundo, a parábola de hoje denuncia o “ateísmo da indiferença”, o “ateísmo da falta de apetite”, na qual nem sequer a mesa preparada e as melhores carnes, são capazes de abrir o apetite de muitos. Eles mesmos sofrem também a surdez, incapazes de escutar a música da festa.

São muitos os “inapetentes”, aqueles que tem tudo, que vivem ocupados em “suas terras”, na obsessão dos “seus negócios”. Podemos chamar isso de “surdez do ter”, ou “indiferença da abundância”. As coisas fazem muito ruído no coração; elas ocupam muito espaço no interior e não deixam lugar para Deus.

Também são muitos os que se sentem saturados do “religioso” (religião esvaziada de festa e centrada no sacrifício, na mortificação, na penitência...). Muitos ainda se perguntam se esse banquete que nós oferecemos não é demasiado pobre, repetido e sem música que alegre a vida.

É um questionamento que todos nós temos de fazer. Por que se afastam aqueles que estão dentro da comunidade cristã? Por que não vem aqueles que estão fora? Por que será que as festas de Deus são pouco atraentes? Por que será que as festas de Deus encontram tanta indiferença?

Talvez porque a imagem de Deus e do evangelho que oferecemos é pouco atrativa.

Deus nos apresenta uma religião e uma salvação que é “boda”. Dá impressão que, em nossas comunidades cristãs, há mais velório que bodas; nossa pregação provoca mais aborrecimento que festa e banquete.

E, por último, o polêmico “traje de casamento” para entrar no banquete: não se trata de uma purificação penitencial que só afeta a cada um; é o traje da vinculação à nova comunidade festiva. 

É muito fácil entrar na festa e fazer parte da comunidade, aproveitando das vantagens, mas sem mudar as atitudes nem viver de maneira sintonizada com o evangelho. Não basta pertencer nominalmente a uma comunidade; só aquele que, de verdade, se reveste de Cristo (suas atitudes, sua liberdade, suas opções, seus sentimentos...) pode estar seguro de entrar no Reino. É preciso revestir-se com as roupas do amor, da convivência solidária, do espírito festivo...

Deus não pratica represálias contra ninguém. 

Fica de fora aquele que se nega a entrar na dinâmica da comunidade cristificada.


 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 22,1-14

 

Na oração: 

Sua comunidade cristã é lugar do anúncio da Boa Notícia do “Deus festa” ou está mais focada nas ameaças, nas mortificações e penitências?

- As celebrações da Ceia do Senhor trazem a marca da alegria, da partilha, da acolhida mútua...? Ou estão mais centradas no ritualismo frio, vazio, estéril, sem a participação dos membros da comunidade?

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Comprometidos no cuidado da Vinha do Senhor

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 27º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“... e arrendará a vinha a outros agricultores, que lhe entregarão os frutos no tempo certo” (Mt 21,41)

 

No mês de setembro de cada ano, a Igreja celebra a jornada do “Tempo da Criação”; uma iniciativa ecumênica que une os cristãos de todo o mundo para despertar a sensibilidade pelo Cuidado da Criação. Trata-se de uma boa oportunidade para refletir e orar sobre o sentido profundo de nosso compromisso com a criação, não só a partir de um ponto de vista estritamente ecológico, mas também a partir de uma visão profundamente espiritual e bíblica que nos recorda que nossa fé cristã nos compromete com a Casa Comum que Deus nos confiou.

Somos convidados a viver este Tempo da Criação como uma oportunidade espiritual para renovar nossa relação com Deus, com os outros e com a Criação inteira. Sejamos semeadores de paz e de esperança, a começar pela nossa vida cotidiana: com atitudes de gratidão, de simplicidade, de respeito, de cuidado e de amor por tudo o que nos rodeia.

Sempre dizemos que uma imagem vale mais que mil palavras. Jesus sabia disso muito bem. Por isso, no evangelho deste domingo, Ele traz a imagem da vinha que, no seu interior, revela uma força transformadora, visível nos seus frutos saborosos; ao mesmo tempo, ela é lugar do encontro, da vida, da festa, da paz e da esperança.

Na simbologia hebraica, a Vinha é a Casa Comum, a casa de todos; ela é um dom de Deus para que desfrutemos de seus frutos, mas também para que a cuidemos, com a finalidade de assegurar que todas as pessoas possam viver junto dela com dignidade. 

Na perspectiva bíblica, a imagem da vinha nos fala de convivência, de harmonia, de alegria, de acolhida e de gratuidade, por ela ser dada em herança. Não somos proprietários desta vinha, somos seus administradores. A vinha é um destino, é uma missão.

Também a Vinha pode ser para nós, hoje, símbolo de nossa Casa Comum, a mãe Terra. O Deus da ternura e do cuidado colocou em nossas mãos uma vinha que Ele embelezou e preparou para dar abundantes frutos.

A vinha é o rosto da suma bondade d’Ele; ela é o lugar da revelação das suas entranhas misericordiosas. Assim como fez aos agricultores da parábola, também a nós Ele nos convoca a sermos co-criadores em sua vinha, para que a cuidemos, a protejamos e a amemos, possibilitando-a dar todos os seus frutos. Também Ele nos entrega a vinha para que saboreemos os seus frutos, mas conscientes de que somos meros trabalhadores nela, e não donos da mesma.

O Deus da entrega e do amor extremo convida a nos relacionar com Ele, a acolher esta encomenda e a reconhecer que tudo é do Filho, aquele que é a “pedra angular” de nossa vida quando o acolhemos e sabemos devolver tudo o que temos recebido. Só dessa maneira nossa vinha dará seu fruto e saberemos trabalhar nela a partir da criação de laços de fraternidade e de entendimento, junto a tantos outros que também foram chamados a cuidar dela. E assim, unidos no Filho, continuaremos cantando um canto de amor à vinha.

E o que foi feito com a vinha do Senhor? 

O ser humano rompeu as relações com o senhor da vinha, tomou posse dela, apoderou-se de seus frutos; fechado em si mesmo e absoluto em suas decisões, desencadeou uma fúria destruidora, uma sede de dominação, um comportamento soberbo e soberano diante da Vinha que recebeu como herança. O afã de dominar a vinha em benefício próprio é a origem de muitos conflitos, da violência e da miséria no mundo.

Consequências: há um outro ar contaminado que invade tudo:

- individualismo sem medida, competitividade selvagem, falta de solidariedade, materialismo, hedonismo,

  insensibilidade diante da dor dos outros, ausência de princípios éticos, falta de compaixão e de cuidado,

  surdez às mensagens do universo e de todas as coisas, indiferença frente à sacralidade do mundo...

O drama do ser humano é perder a memória de que é parte do todo: seu instinto de posse e domínio o leva a romper a relação cordial com todas as criaturas, caindo num devastador vazio existencial. A “centração em si mesmo”, sem levar em conta a rede de relações que o envolve, provoca a quebra da “re-ligação” com tudo e com todos. Este é o veneno que corrói o ser humano por dentro: petrificação de sua interioridade, a perda do gosto pela verdade, pelo belo e pelo bem, o extravio da ternura e da transcendência, a atrofia da comunhão com o todo cósmico...

A vinha está sendo “desnaturada” e o ser humano “desumanizado”. Esta crise aponta para um ser humano doente e a doença consiste justamente na separação entre o ser humano e a vinha, na falta de cuidado e no esquecimento de seu parentesco e solidariedade.

A crise ecológica é a própria crise do ser humano. A vinha está em ruínas, devido à maneira como ele a habita; arranca pedaços dela para satisfazer seus interesses individuais e não se dá conta que está destruindo seu próprio habitat. Podemos qualificar tudo isso de desolação comunitária: o lugar pós-moderno do “inferno”. 

Diante desta situação que caminha para a destruição total, faz-se urgente uma nova consciência ecológica, ou seja, que o ser humano mude sua maneira de se relacionar com a natureza e passe da “dominação à benevolência, do ‘sobre-pôr-se’ e do ‘im-pôr-se’ ao ‘com-pôr-se’, da guerra à paz, da exploração ao respeito, da destruição ao cuidado, do secularismo devastador à sacralidade reverente (L. Boff).

Aquilo que é narrado como tendo acontecido muito tempo atrás, numa terra distante, na realidade acontece agora, dentro de cada um de nós. Daí a força provocativa da parábola deste domingo.

Em chave de interioridade, podemos afirmar que há uma vinha em nosso interior, plantada com todo cuidado. A vinha interior é plantada por Deus em função da vida; por isso ela é sagrada e é lugar de contemplação e encontro íntimo com o Criador; ela é o teatro da glória de Deus, isto é, da manifestação da presença divina. Ela deve ser o lugar da fecundidade, da convivência e da celebração.

Com o toque divino, uma identidade nova ressurge em nós: já não somos mais estrangeiros, nem inimigos em nossa própria vinha.

Para reconstruir a vinha interior é preciso:

- erradicar a “força dominadora” do nosso coração que, no afã de tudo possuir, alimenta conflitos e violências e que acabam destruindo a Vinha da vida;

- ativar uma mentalidade nova, um coração novo, uma sensibilidade cósmica, na qual a gratidão se expressa como atitude de acatamento, de respeito e de cuidado diante da Criação.

Nós e o universo só seremos felizes quando todos formos uma grande vinha, por onde o Senhor passeia, à hora da brisa fresca da tarde (Gen 3,8) . A vinha é a face graciosa que Deus oferece à humanidade. Na vinha, Deus realiza seu sonho. E fica feliz!

Nesse sentido, a espiritualidade cristã vai além de uma determinada experiência religiosa; ela se expressa como uma “atitude amorosa” para com a Vinha, recebida em herança. 

A Vinha inteira é um imenso altar, no qual podemos contemplar a presença do Criador; ela é sinfônica (harmonia de sons); estamos rodeados por uma multiplicidade de notas, sons, sinais e mensagens diferentes. Com a Vinha, formamos uma mesma realidade complexa, diversa e única; ela nos encanta e nos convida, constantemente, à admiração e ao cuidado.


O Senhor da minha vida. - BLOG DO PADRE JOÃO CARLOS - MEDITAÇÃO

 

Textos bíblico: Evangelho segundo Mateus 21,33-43

 

Na oração:

Deixe o Espírito transitar pela sua vinha interior, para que aí Ele estabeleça o “cosmos” (harmonia e beleza”) e crie um coração novo, de onde brotarão frutos de refinado sabor.

- Dê nomes aos “frutos” de sua vinha interior.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Reconfigurando a rota da vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 26º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“O filho respondeu: ‘não quero’. Mas depois mudou de opinião e foi” (Mt 21,29)

 

Somos pessoas em processo de construção; nunca estamos prontos. Também no seguimento de Jesus há um percurso a ser feito, com altos e baixos, fidelidades e infidelidades, mentiras e verdades...

Todos somos habitados por um “espírito de busca”: de sentido, de verdade, de bem, de justiça... Queremos sempre acertar em nossos compromissos, em nosso projeto de vida, em nossa vivência do Evangelho.

Buscamos, porque estamos inquietos e desejamos saborear uma paz interior, uma certa qualidade de vida, uma coerência no nosso modo de proceder.

No entanto, também somos seres limitados, inconstantes e frágeis. Há uma distância entre aquilo que buscamos e o que de fato vivemos. Nem sempre acertamos na rota do seguimento de Jesus. Muitas vezes seguimos rotas que não levam a lugar nenhum ou, pior ainda, a lugares perigosos: lugares egóicos, auto-centrados, carregados de vaidade...

É preciso, de tempos em tempos, inspirados pelo horizonte do Evangelho, reconfigurar nossa rota de vida para que ela flua pelas sendas da compaixão, da presença solidária, da sensibilidade comprometida.

No evangelho deste domingo, Jesus continua fazendo advertência à sua comunidade de seguidores(as). É muito perigoso achar que já estamos prontos, que somos “perfeitos”, que não precisamos amadurecer mais na vivência do Evangelho. É importante não só ativar os recursos e as reservas interiores de dons, mas também des-velar (tirar o véu) as fragilidades, as incoerências, os fracassos..., e reconfigurar a rota da vida, inspirada na Vida de Jesus Cristo. Somos seguidores(as) de uma Pessoa, e não de uma doutrina, de uma religião. A pura teoria não serve para nada, só a vida salva. Tudo o que dizemos ou proclamamos são palavras vazias se não são acompanhadas por uma atitude vital que, inevitavelmente, se manifestará nas obras. “Mesmo que não queirais crer em mim, crede nas minhas obras” (Jo 10,38).

Para ilustrar a realidade de nossa vida cristã, Jesus narra uma parábola que é das mais claras e simples. Um pai se aproxima de seus dois filhos para pedir-lhes que fossem trabalhar na vinha. O primeiro responde com uma negativa rotunda: “Não quero”. Em seguida, pensa melhor e vai trabalhar. O segundo reage com uma docilidade ostentosa: “Sim, vou”. No entanto, tudo fica em palavras, pois não vai trabalhar na vinha.

A mensagem que brota da parábola é clara e fora de toda discussão. Diante de Deus, o importante não é “falar”, mas fazer; o decisivo não é prometer ou confessar, mas cumprir sua vontade.

Os escribas falam constantemente da lei: o nome de Deus está sempre em seus lábios. Os sacerdotes do templo louvam a Deus sem descanso; sua boca está cheia de salmos. Mas, as coisas não são sempre como parecem. Os cobradores de impostos e as prostitutas não falam a ninguém de Deus. Faz tempo que esqueceram a lei. No entanto, segundo Jesus, vão adiante dos sumos sacerdotes e anciãos do povo no caminho do Reino de Deus.

Cada dia nos encontramos com homens e mulheres cujas vidas parecem insignificantes, limitadas, frágeis... No entanto, quando convivemos com eles e elas, nos damos conta que são almas generosas, corações abertos, desejos vivos, esperanças que os fracassos não conseguiram murchar.

Muitos proclamam com boca cheia que são cristãos, que cumprem alguns ritos e penitências, mas estão carregados de ódio, de intolerância, de preconceito; também são muitos aqueles que, sem serem cristãos de “carteirinha”, vivem o evangelho com muito mais coerência. 

O farisaísmo se torna atitude corrente entre nós, e damos por satisfeito o fato de falar do evangelho ou ouvir falar dele para tranquilizar nossa consciência.

Nossas vidas estão marcadas por muitos “sins” e “nãos”. A vida se define entre o “sim” e o “não”; mas não com o “sim” da palavra, mas com o “sim” da vida.

Somos muitos que dizemos a Deus “sim”, mas nossas vidas continuam sendo um “não”; somos muitos que dizemos a Deus “não”, mas logo nossas vidas são um silencioso e profundo “sim”. 

Por onde anda o “sim” decidido no cotidiano de nossa vida? Em qual dos filhos da parábola nos vemos representados? Somos homens e mulheres só de palavras? Praticamos aquilo que prometemos? Permanecemos só nas “boas intenções” ou passamos aos atos? É Deus o norte e o guia de nossa existência?

Demos graças a Deus porque Ele continua nos chamando a trabalhar em sua vinha. O importante é sermos conscientes de que, certos caminhos que elegemos nos afastam d’Ele, de seu amor, de sua presença, de sua vinha e do caminho que nos conduz à vida, à felicidade, à graça.

Não nos conformemos com a mediocridade em nossa vida cristã. Não podemos dizer “sim” ao Senhor e logo andarmos por outros atalhos totalmente diferentes ao Evangelho.

Se na primeira vez não fomos capazes de dizer “sim” ao chamado de Deus, Ele aceita sempre nossa retificação. Quase sempre acertamos às custas de muitas retificações. 

Poucos são capazes de descobrir a meta e o sentido de suas vidas logo de cara. Mas não devem se preocupar com as falhas e os fracassos. O mais frustrante é ser incapaz de reconfigurar a rota da vida.

De fato, nem os maiores fracassos e erros são definitivos. Podemos, em qualquer momento, reconfigurar a trajetória equivocada da vida. Os erros cometidos podem nos ajudar a encontrar o caminho verdadeiro. Somos limitados e temos de aceitar esta condição porque faz parte de nossa natureza humana. Não podemos pretender, nem para nós e nem para os outros, a “perfeição” (pura ilusão mental). Quando exigimos a uma pessoa que seja mais-que-perfeita, estamos exigindo que ela deixe de ser humana.

À luz do Evangelho podemos reler, ressignificar e reinterpretar nossos fracassos, erros e desvios de rota.

Quem se identifica com “ideais” muito elevados, quem se exalta a si mesmo na busca da “perfeição”, mais cedo ou mais tarde terá de confrontar-se com suas “sombras”, será forçado a tomar consciência de sua condição humana e terrena, de seu “húmus”.

Quem “desce” até sua própria realidade, até os abismos do seu interior, até a escuridão de suas sombras, até a impotência de seus próprios sonhos, quem mergulha em sua condição humana e terrena e se reconcilia com ela, este sim, está “subindo” para Deus, faz a experiência do encontro com o Deus verdadeiro.

Essa é a razão pela qual toda a vida e mensagem de Jesus se condensam na vivência do amor. O que define a pessoa de fé não é que diga “Senhor, Senhor”, mas vive a prática compassiva do “vá e faça o mesmo”.

Sem dúvida alguma, Jesus sempre se revela como uma presença surpreendente, pois nos move a todos a vermos a realidade a partir de uma perspectiva diferente da que é habitual.

Ele é Aquele que vê mais além da realidade: descobre vida onde os outros só veem morte; desvela possibilidades onde os outros se deparam com o impossível; descobre sementes de futuro escondidas onde ninguém vê mais saída; vê santos onde todos só veem pecadores... Jesus é Aquele que vê bondade presente no fundo do coração, inclusive daqueles que são condenados como “publicanos e prostitutas”; sabe ler nos gestos mais simples a grandeza de um coração capaz de amar, de mudar, de ser melhor.

Eles e elas, homens e mulheres, expulsos, marginalizados, escórias da terra..., são os portadores do Reino de Deus, acima dos sábios fariseus, dos altos sacerdotes, dos representantes da religião centrada no ritualismo, na doutrina, no legalismo... O evangelho não diz que eles nos “precederão” (no futuro), mas que nos precedem já neste mundo, como Jesus que precede os seus no caminho de Jerusalém.


Você entendeu a parábola dos dois filhos (Mateus 21)? Eu explico verso por  verso!


Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 21,28-32

 

Na oração:

“Em você há uma luz capaz de espantar as trevas dos acontecimentos mais dramáticos; você é portador de uma força que pode sustentá-lo em experiências exigentes. Em sua fraqueza há algo divino. O que a terra seca tem a oferecer? Nada, quando abandonada às suas próprias limitações. Mas ela não desespera. Mesmo sob a pobre forma de deserto, continua guardiã de tesouros insuspeitos” (Frei Cláudio V. Balen).

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Deus não trabalha com “escala 6x1”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 25º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti” (Mt 20,14)

 

Toda parábola é um espelho para nós: nela, nos vemos. No relato deste domingo Jesus demonstra um conhecimento muito profundo da psicologia humana. Constantemente nos surpreendemos comparando com as outras pessoas. É o “pecado de raiz” da inveja que envenena as relações, alimenta competições e nos esconde atrás do muro das lamentações. Quantas vezes reagimos como os trabalhadores da “primeira hora” que, ao recebermos um “denário”, começamos a reclamar: “trabalhamos a vida toda, sacrificando-nos, e agora todos somos iguais, recebendo o mesmo pagamento...”?

E nosso mal-estar aumenta porque, no fundo, o mais grave é que não temos nenhuma injustiça que denunciar: “não te contratei por um denário?” – diz o dono da vinha.

Na parábola deste domingo nos deparamos com um Deus surpreendente que dá o mesmo salário para os que tem tempos diferentes de trabalho; um Deus a quem lhe importa que estejamos todos na sua vinha, independente de quando temos chegado; um Deus que decidiu, desde sempre, dar-nos a cada um o que necessitamos para viver plenamente, sem precisar regatear ou manipular sua vontade a nosso favor. 

A sabedoria da parábola revela uma perspectiva radicalmente diferente diante do trabalho.

Hoje, todo o mundo trabalha para acentuar as desigualdades, para competir, para comparar-se...; ou seja, para ter mais que o outro, estar por cima e assim diferenciar-se dele. Isto acontece não só com relação a cada indivíduo, mas também no nível de povos e nações. Também no campo religioso nos foi inculcado que temos de ser melhores que os outros para receber um prêmio maior. Esta foi a filosofia que moveu a espiritualidade cristã de todos os tempos. O que a parábola propõe é algo completamente diferente.

Quando nos deixamos determinar pelo nosso ego, ele compreende a si mesmo como “fazedor” e atua em função do benefício que pensa obter. Não só se percebe, de maneira insensata, como que separado da vida, senão que atribui a si a autoria de tudo o que faz e se apropria do resultado, exigindo uma recompensa.

Enquanto persiste a identificação com o nosso ego, não podemos ver as coisas de outro modo. Mais ainda, julgamos como indevido ou inclusive “injusto” o fato de que todos recebam o mesmo “prêmio”.

Mas Jesus nos convida a assumir outro ponto de vista, ver a nossa vida de forma diferente e sentir gratidão pelo fato de termos sido chamados a colaborar com o Reinado do Pai.

Para os antigos Padres da Igreja, o “denário” era um símbolo para a completude do ser humano. Nosso salário nunca será maior do que nossa transformação em um ser humano completo, em harmonia conosco mesmo. Isso basta!

Em vez de nos comparar com os outros e sentir inveja, a parábola desperta em nós a vivência da gratidão e da alegria por perceber que outros, embora tardiamente, responderam ao chamado do Senhor para trabalhar em sua vinha. Muitas vezes, uma hora de trabalho pode ser vivida de maneira muito mais intensa e inspiradora que uma longa jornada.

De fato, a inveja envenena as relações humanas até tal ponto que, às vezes, a pessoa prefere prejudicar-se com a condição de que o outro se prejudique mais ainda. 

O invejoso não está preocupado que tudo lhe corra bem, mas que aconteça o pior com o outro. A inveja pode representar um muro intransponível entre o invejoso e o invejado, impedindo o prazer que representa o ato de compartilhar.

A inveja é um sentimento vergonhoso que ninguém se atreve a reconhecer; ela, quando sentida, nunca pode ser sadia. Só é realmente sadio o que sentimos a respeitos dos outros quando sentimos admiração, apreço ou alegria pelos seus êxitos ou dons.

Quando Deus nos chamou para trabalhar na sua vinha? Ao amanhecer de nossa vida, em nossa primeira juventude, mais tarde ou já quase no final da vida? Ele não contabiliza a quantidade de horas trabalhadas, nem lhe importam o número de anos investidos... Ele sempre sai para buscar-nos, nos admite em sua vinha e promete nos dar “o que necessitamos para viver plenamente”. Pare Ele, nunca é tarde; sempre é tempo.

É então que caímos na conta que o que mais nos incomoda é a bondade de Deus. “Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?”Tanta bondade nos assusta e nos ultrapassa!

No fundo, preferimos um Deus mesquinho como nós, um Deus calculador, que só dá bens àqueles que merecem por seu trabalho. Em definitiva, um Deus a quem possamos exigir: “fiz isto, me deves dar isto...”

É um bom momento para revisar a imagem de Deus: é aquele que imaginamos ou naquele que Jesus nos anuncia? O Deus que Jesus revela é Aquele que dá a salvação a todos gratuitamente, Aquele que trata a todos como filhos(as) muito amados(as) e lhes concede o que necessitam para viver mais plenamente.

Deus já nos “pagou o salário” antes mesmo de começarmos a trabalhar em sua vinha. Ele já “investiu” pesado em cada um de nós, dotando-nos de recursos, capacidades, inteligência, criatividade... 

É uma maneira equivocada de falar que Deus nos concede isto ou aquilo. Deus está totalmente disponível a todos; Ele é “mão aberta” e derrama continuamente suas graças. Ele não trabalha com meritocracia.

A pessoa que se sente cuidada assim por Deus, supera a dinâmica do “salário devido” e entra na dinâmica da gratuidade. Como se sentiram os trabalhadores que chegaram por último e viram que suas famílias estariam protegidas por mais um dia? Com certeza, estariam agradecidos. E, a partir do agradecimento, nasce o compromisso com o Senhor da vinha, o compromisso em favor do Reino. 

A mentalidade “mercantilista” não torna as pessoas comprometidas, implicadas..., só mercenárias.

Há um outro aspecto que é preciso realçar, inspirado na parábola deste domingo: quando respondemos afirmativamente ao chamado do Senhor da vinha, desperta-se em nós uma consciência comunitária; encontramos outros muitos que também responderam afirmativamente; ninguém se encontra no trabalho como solitário.

O fato de ser acolhido na vinha do Senhor implica, naturalmente, ser recebido com outros, trabalhar “com outros”; o co-laborar com Ele é inseparável do “co-laborar” com tantas pessoas que trabalham em favor do Reino, constituindo assim o grande corpo apostólico de colaboradores.

Além disso, nosso “co-laborar” tem maior visibilidade quando a missão é vivida em comunidade, quando a colaboração com outros e a partilha em comum tornam-se um “modo de proceder”, esvaziando-nos de toda pretensão de sermos proprietários para sermos simples servidores. 

Assim vivido, o “trabalho colaborativo” nos faz “amigos no Senhor” e se converte em espaço de companheirismo e em oportunidade única de encontro e comunhão com outras pessoas, movidas pelo mesmo espírito; o trabalho se revela lugar de humanização, e não lugar de competitividade e agressão.

 “Trabalhar” com os outros, inspirados e animados pelo Espírito de Jesus, é o que torna “espiritual” nossos atos, nossos pensamentos e orações, nossos trabalhos, nossa vida inteira.

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 20,1-16

 

Na oração: Que o Senhor da vinha alargue nossos corações para que possamos saborear, desfrutar e agradecer sua bondade e seu amor para com todos.

“Por que afligir-se em comparações? Não queira ser o melhor, se certamente não é o pior. Contente-se por ser diferente na missão que recebe para que algo em você passe a enriquecer os outros.

Deixe-se acompanhar pela eterna surpresa e, encantado, exercite a divina criatividade” (Frei Cláudio)

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Deus perdoa em nós

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 24º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?” (Mt 18, 33)

 

O evangelho deste domingo traz a última parte do “discurso comunitário” (Mt 18), totalmente dedicado ao perdão, que não é uma formalidade a ser cumprida, mas uma atitude fundamental e permanente, por meio da qual o(a) seguidor(a) de Jesus prolonga o modo de proceder do Pai. 

Deus, na sua essência é perdão, e a comunidade cristã é o lugar privilegiado da visibilização desse perdão.

Jesus tem plena consciência que sua comunidade de seguidores não é constituída de “perfeitos”, mas de pessoas frágeis e limitadas e que só o perdão pode sustentar os vínculos entre elas.

Pouca gente, mesmo entre cristãos, compreende o sentido profundo do perdão.

A maioria pensa que é uma forma de anistia do sentimento, esquecimento, ato interno capaz de compreender o ofensor e desculpá-lo no fundo do coração misericordioso; para uns o perdão significa passar por cima de um erro ou violência, deixando o agressor ir embora; para outros, o perdão é até imoral.

Jesus colocou no perdão fraterno uma das características do ser cristão; ao perdoar-nos, Deus cria em nós um  coração novo, feito de acordo com o Seu, capaz de perdoar à sua maneira; não pode dar o perdão quem não tem consciência de tê-lo recebido; a capacidade de perdoar é diretamente proporcional à expe-riência de ser perdoado. Não perdoar é resíduo de poder que fica em mãos de pessoas fracas.  A verdade é que o perdão exige uma grande liberdade interior.

O perdão é a aceitação do outro tal qual ele é. Uma das formas mais importantes do perdão é desejar que cada um encontre seu lugar para ser o que é. O perdão, pela superabundância que implica, revela, no outro, recursos desconhecidos, que ele permite atualizar.

O perdão é movimento, é expansão de si, é des-centramento e impulso em direção ao outro. O prefixo “per” é o mesmo que encontramos nos verbos per-correr, per-durar, per-fazer..., e leva à plenitude a ação expressa pelo verbo. O perdão é o dom realizando-se no supremo grau de sua gratuidade; é dom em excesso.

Nesse sentido, perdão é um estilo de vida, uma atitude de quem não se prende ao que o outro merece e nem se escandaliza com sua miséria. “Devemos perdoar como pecadores, e não como justos”. 

Por outro lado, o perdão, que tem como fonte o coração do Pai, faz aparecer a verdade mais profunda de nós mesmos, nos faz recuperar uma estima radical que elimina todas as nossas sensações de inferioridade.

Antes de tudo, o perdão nos revela nossa culpa e, ao mesmo tempo, nossa dignidade.

Faz-nos compreender nosso êrro, mas é também mensagem eficaz de estima e de confiança: em sua compaixão, Deus confia em nós e nos torna novamente dignos de seu Amor. O milagre é exatamente esse: poder reconhecer nossa própria fragilidade e permanecermos serenos; descobrir-nos pecadores sem desesperar-nos e deprimir-nos; sentir-nos re-criados,porque perdoados; dignos de estima porque reconci-liados.

Seu perdão é gesto criativo e redentivo: continua a criar em nós um coração novo.

A ação do Deus que perdoa não está em função do passado, mas a serviço do nosso futuro.

Perdoar é re-criar. Deus nos re-cria a cada instante. Cada dia que passa é um perdão sempre novo, pessoal, criativo, mas também discreto e silencioso.

Inspirado pela compaixão do Pai, o(a) seguidor(a) de Jesus vive em contínua atitude de perdão( 77x 7). Perdoar não é um gesto rotineiro, não é um costume de cada dia: é, antes de tudo, flor escondida, única e original, que floresce cada vez no duro terreno da fragilidade humana e do auto-domínio, sem se deixar determinar pelos sentimentos negativos que podem brotar.

Isto indica que as pessoas que têm por hábito o perdão, que vivem segundo a ética do perdão, deparam-se raramente com uma longa lista de coisas para perdoar, pois elas não guardam estas listas.

Elas não estão preocupadas com os insultos, as agressões e outras expressões de violência. Elas não nutrem sentimento de ressentimento pelo mal-feito a elas. Ao invés disso, cultivam a perspectiva que Jesus tinha em relação aos malfeitores.

Quando alguém perguntou a Mahatma Gandhi, grande líder indiano da não-violência, se ele tinha perdoado todas as ofensas recebidas, declarou: “Nada tenho que perdoar a ninguém, porque nunca ninguém me ofendeu”. A ofensa é objetiva; considerar-se ofendido ou não é subjetivo. Gandhi simplesmente não considerou a ofensa como ofensa.

O maior dano de uma ofensa – frequentemente maior que a própria ofensa – é que ela contamina nossa liberdade de sermos nós mesmos, pois percebemo-nos involuntariamente dominados pela raiva e ressentimentos interiores (uma espécie de veneno emocional que penetra todo nosso ser) que exercerão uma influência velada, mas poderosa sobre quase todos os aspectos de nossa vida.

Perdoar é aceitar a responsabilidade por nossa maneira própria de olhar a vida e as relações entre as pessoas. Se a mágoa provocou uma desconfiança fundamental em relação aos outros, quem perdoa deve questionar essa atitude.

No entanto, a libertação das emoções negativas é possível porque no perdão começamos a ver o outro muito mais do que simplesmente alguém que foi culpado pela ofensa ou mágoa.

“Perdoar... é a única reação que não apenas reage, mas age de forma nova e inesperada, não se deixando condicionar pelo ato que a provocou e libertando assim de suas consequências, tanto o que perdoa como o que é perdoado” (Hannah Arendt)

De fato, o perdão nunca se encaixa confortavelmente dentro dos padrões naturais do comportamento humano. Ele não nasce espontâneo dentro do coração do ser humano.

O perdão viola as sensibilidades sociais, e sempre fará isso. O perdão transgride.

O perdão não é um gesto fácil; o perdão é um gesto ... “inumano”, porque toda a nossa impulsividade natural vai em direção contrária a ele.

Representa considerável avanço em relação ao mais primitivo desejo de vingança. 

Sabemos que, no nível mais primitivo, o desejo humano não visa o perdão, mas a retaliação, o revide.

Perdoar é ir além do princípio de retaliação. Por isso é uma atitude atrevida e ousada.

O perdão representa a inovação: ele ataca, com todo vigor, aquilo que parece ser uma lei de nossa história. Isso porque a lógica que regula as relações inter-humanas é regida pela lei do mais forte, ou, no melhor dos casos, pela lei da reciprocidade, da equivalência, como norma de justiça.

Perdão não é esquecimento do passado, é o risco de um outro futuro que não aquele imposto pelo passado ou pela memória ferida. É convite à imaginação para responder com um gesto inovador e criativo a quem causou dano ou ofensa. É preciso aventurar-se no encontro com o outro.

O perdão “inventa” uma atitude não prescrita e nem prevista em nenhum manual de comportamento.

O cristianismo é tão revolucionário que exige do ser humano não apenas a grandeza de compreender e desculpar o ofensor, mas a capacidade de amá-lo. O perdão é superlativo do amor. 

Reinhold Niebuh descreveu o perdão como a “forma final do amor”. Perdão é amor que reconstrói o passado e que só Deus podia inventá-lo. O perdão nos configura à imagem de Deus.


Perdão não é só sobre esquecer o que houve: 9 pontos para levar em conta -  20/02/2020 - UOL VivaBem

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 18,21-35

 

Na oração: 

Joan Chittester chama o perdão “o mais divino dos atributos divinos”. “Perdoar é ser como Deus”, afirma ela.

- Fazer “memória” dos momentos em que você experimentou a força criativa do perdão do outro, ou foi presença por onde fluiu o verdadeiro perdão.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Igreja, comunhão de comunidades

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 23º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Tudo o que vocês ligarem na terra, será ligado no céu” (Mt 18,18)

 

Precisamos reavivar a consciência de que somos comunidades de Jesus. Reunimo-nos para escutar seu Evangelho, para manter viva sua memória, para contagiar-nos com seu Espírito, para acolher em nós sua alegria e sua paz, para anunciar sua Boa Notícia.

O futuro da fé cristã entre nós depende, em boa parte, daquilo que, como seguidores(as) de Jesus, fazemos e vivemos em nossas comunidades concretas: elas são espaços de acolhida, de valorização do outro, de testemunho dos valores do Evangelho?

Somos nós que devemos centrar nossas comunidades cristãs na pessoa de Jesus como a única força capaz de regenerar nossa fé desgastada e rotineira. Ele é o único capaz de atrair os homens e as mulheres de hoje; o único capaz de despertar uma fé nova nestes tempos de incredulidade. A renovação das instâncias centrais da Igreja é urgente. Os decretos de reformas são necessários. Mas nada tão decisivo como retornar com radicalidade a Jesus Cristo. Afinal, somos “seguidores de uma Pessoa”, o Mestre da Galileia; e a essência da vida cristã está na identificação com Jesus Cristo e não nos ritos, nas doutrinas, nas leis...

O evangelho deste domingo nos desperta para a consciência de que fazemos parte de uma “comunidade em missão”; todos somos responsáveis pela vida interna da comunidade e pelo compromisso de fazer chegar a Boa Notícia a todas as pessoas; todos somos líderes e exercemos a liderança cristã o tempo todo.

É no interior das comunidades cristãs que devemos zelar pelo cuidado de seus membros, favorecer um ambiente onde todos são respeitados e se sintam envolvidos com o crescimento mútuo.

Liderar com autoridade implica espírito de confiança, tratar o outro com bondade, ouvir atentamente, ter verdadeiro respeito para com os talentos do outro, ter real interesse por ajudar o outro para que tenha êxito, confiar responsabilidade, manter acesa a chama do sonho para que cada um possa fazer emergir o melhor de si mesmo a favor da comunidade, sintonizar com os princípios profundos e permanentes da vida, expressar consideração, elogio e reconhecimento pela atuação do outro... Enfim, liderar a serviço dos outros nos livra das algemas do ego e da concentração em nós mesmos que acabam fragilizando os vínculos mútuos e destroem a alegria de viver.

No relato de Mateus, proposto para este domingo, à primeira vista parece que Jesus está pedindo para descartar e expulsar aqueles que fazem o mal, considerando-os como pecadores e publicanos. No entanto, a partir do Evangelho, considerar alguém como “pagão e pecador” não significa excomungá-lo da Igreja. Quem eram os preferidos de Jesus senão os publicanos e pecadores? Tratar alguém como pagão ou pecador não é considerá-lo como um proscrito, mas como um “filho pródigo”. Este texto dá pé para perguntar-nos até que ponto é evangélica a atitude de julgamento, de condenação, de desqualificação, de expulsão. 

O texto começa dizendo: “Se teu irmão pecar contra ti...”, ou seja, um membro da comunidade. Ele não faz isso de forma intimista, mas pondo em risco a unidade e a vida comunitária, pois o “contra ti” tem aqui um caráter coletivo, como interpretam outros manuscritos que colocam “contra nós” ou “contra vós”. Por isso se instaura um processo em regra, que permite conhecer aqueles que fazem parte da comunidade.

O critério de fundo continua sendo o evangelho: gratuidade original, superação do juízo, salvação dos pobres e universalidade messiânica. O método é o diálogo, segundo a ordem descrita: um a um, duas testemunhas, comunidade inteira. O processo de discernimento torna-se doloroso, mas necessário e não pode ser delegado, deixando-o em mãos de uma instância superior ou externa, pois seria como se um casal deixasse em mãos de estranhos a solução de suas desavenças.

A comunidade dos seguidores de Jesus não pode abandonar o pecador; é a comunidade inteira que tem como missão salvar e não condenar: que ninguém exclua ninguém, nem aquele que rompeu com a comunidade. Só quando este resiste entrar em diálogo, fica praticamente excluído dela.

Não é a comunidade que exclui, mas aquele que é incapaz de deixar-se amar; ele mesmo se exclui do amor.

Onde não há amor, onde não nos deixamos amar, já deixamos de pertencer à mesma comunidade cristã.

O discurso comunitário (Mt 18) define a essência da Igreja como comunidade daqueles que se reúnem, se organizam, celebram, buscam em comum a vontade de Deus, vivem o mandamento do amor revelado por Jesus. A essência da Igreja não é definida pelos seus líderes, mas pela própria comunidade que, assim, aparece de forma autônoma, como “espaço de Deus”, fraternidade messiânica no mundo. 

Esse é o sentido do discernimento sinodal, desencadeado pelo saudoso papa Francisco.

A comunidade que discerne em comum deve criar as condições de escuta, de reciprocidade e de respeito à diversidade; também deve criar espaço de referência que deve ser protegido das intervenções externas. Uma comunidade a caminho da liberdade para buscar e encontrar a vontade de Deus, capaz de ler os sinais dos tempos através dos quais o Senhor se comunica, discernir os movimentos dos espíritos em seu interior e eleger o caminho indicado por Deus (como experiência de Êxodo). Não basta sentir, escutar; é preciso compreender quais os movimentos do Espírito surgem na comunidade. Saber ler estes movimentos é talvez a maior dificuldade para uma comunidade em discernimento, como o é para uma pessoa. No entanto, a única maneira de avançar é pôr em prática estes processos (Pe. Arturo Sosa, sj).

Eis aqui como as novas relações devem ser vividas no interior da comunidade cristã:

- relações fundadas na verdade, ou seja, saber dizer “sim” e saber dizer “não” e não basear-se em suposições; - relações de encontro: assumir os problemas cara a cara, sem escamoteá-los;

- relações de liberdade: comunidade onde reine a liberdade de palavra;

- relações de amabilidade e compreensão: face a face, mas com amor e ternura;

- relações de contínuo desbloqueio: não guardar as coisas, porque nos fecham ao próximo, e quando explodem, causam danos recíprocos;

- relações de esperança: não perder nunca a esperança no outro, não se encastelar nunca, não desistir de reconstruir a amizade com ele; 

- relações de amor vigoroso: ajuda e exigência mútua.

A estrutura hierárquica-piramidal fortalece a estrutura de poder, controle, vigilância, supervisão...; tal estrutura acaba por afetar e asfixiar a liberdade interna, a motivação e o compromisso dos membros da comunidade; além disso, ela suprime iniciativas, criatividade e incentivos, em relação a novos projetos.

Cada comunidade cristã é Igreja reunindo-se em nome de Cristo, orando a Deus Pai e resolvendo por si mesma seus problemas, em diálogo no qual todos participam (sem dúvida, em comunhão com outras igrejas); existem ministérios diferentes com lideranças diferentes, mas os assuntos da comunidade devem ser resolvidos por todos, cara a cara, irmão a irmão, em pequenos grupos ou em assembleia de todos os membros; nenhuma igreja é sucursal de outras, nem é colônia de outras maiores. Cada uma é sinal e presença de Jesus na terra.

A autoridade reside na assembleia comunitária, pois cada Igreja é responsável por seu próprio caminho de oração, comunhão e decisão, de forma que deve tomar com responsabilidade suas próprias decisões e criar suas instituições, desde os diáconos, os presbíteros e o próprio bispo. Nem o amor, nem a consciência de “estar em Cristo”, nem a solução dos possíveis problemas (de fraternidade, de sacramentos...) podem ser delegadas a pessoas isoladas ou a outra comunidade mais alta, embora todas sejam solidárias e se unem entre si pelo mesmo Cristo. O amor a Jesus e a comunhão dos seus seguidores não podem ser delegados, pois se assim fizesse deixaria de ser amor cristão, comunhão evangélica.

A Igreja não é uma Multinacional, mas uma comunhão de comunidades, e o Bispo de Roma, chamado carinhosamente Papa, representa a comunhão de todas as igrejas; não está aí para suplantar a autoridade das comunidades concretas, mas para garanti-las.


Como demonstrar amor ao próximo no dia a dia?

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 18,15-20

 

Na oração:

Ter presente sua comunidade eclesial: ela está próxima ou distante da comunidade sonhada por Jesus?

Ela é lugar do discernimento sinodal? Prevalece o poder de uma pessoa só ou todos os membros são escutados? Há uma consciência de que todos são responsáveis pela construção da comunhão entre todos os membros? Que atitudes aparecem diante dos conflitos comunitários?