“Ouvistes o que foi dito; eu, porém, vos digo”
Continuamos tendo acesso a trechos do Sermão da Montanha. O texto deste domingo apresenta um tema complicado. Como harmonizar a pregação e a prática de Jesus com a Lei, que para os judeus era sagrada e definitiva? Ir mais além daquilo que está estabelecido pela lei é o problema radical que afeta todas as dimensões da vida; acaba-se dando valor absoluto ao que já está prescrito e não se abre à novidade do Espírito. É preciso ir sempre mais além daquilo que está delimitado pela lei.
Em meio às tensões que a comunidade de Mateus vivia, na qual se encontravam discípulos procedentes do judaísmo que exigiam o cumprimento da lei judaica e aqueles que provinham do paganismo que pediam a “ruptura” legalista vivida por Jesus, o evangelista busca um equilíbrio, nem sempre fácil. Assim é que podemos entender a afirmação favorável aos judeus-cristãos segundo a qual Jesus não veio “abolir a lei, mas dar-lhe pleno cumprimento”.
Certamente foi muito difícil para um judeu aceitar que a Lei não era absoluta. Jesus foi contundente nisto. Abriu uma nova maneira de nos relacionar com Deus. O Deus todo-poderoso, que está nos céus, que ordena e manda, dá passagem do Deus “Ágape” que se identifica com cada um de nós e nos convida a descobri-Lo nos outros. A atitude de Jesus serve de inspiração para os discípulos do Reino, que têm a obrigação de respeitar a Lei e os Profetas, porém procurando atingir-lhe o espírito, sem apegar-se exageradamente à sua letra. Essa postura lhes proporciona uma atitude criativa diante da Lei, sem o risco de descambar para o fanatismo, a intransigência, a rigidez...
Jesus não foi contra a Lei, porém viveu para além da Lei. Quis nos dizer que toda lei é sempre curta, que sempre temos que ir mais além da pura formulação, até descobrir o espírito. A vontade de Deus está mais além de qualquer formulação, por isso temos que superá-las todas.
Jesus passou de um cumprimento externo das leis a uma descoberta das exigências de seu próprio ser. Esta é a reviravolta que Ele provocou e que ainda estamos longe de viver a partir do espírito das leis. Continuamos dependentes daquilo que está mandado exteriormente e não descobrimos o que somos.
Se fôssemos capazes de descer até o mais profundo do nosso ser e compreendê-lo no essencial, descobriríamos ali a vontade de Deus; ali, sem dizer palavras, Ele está nos dizendo o que deseja e espera de nós, o que é bom e o que é mau para todos nós. A vontade de Deus não é algo acrescentado ao nosso próprio ser, não nos vem de fora. Está sempre aí, mas não somos capazes de percebê-la. Esta é a razão pela qual tantos homens e mulheres foram capazes de descer até a “marca” de seu ser e descobrir o que Deus espera de todo ser humano; é preciso lançar mão daquilo que muitos já nos disseram e descobrir o que Deus é e o que somos cada um de nós. Aquilo que os outros descobriram e nos contaram pode nos ajudar a descobri-lo em nós.
Para além dessas amostras de “instável equilíbrio” com o qual Mateus tenta manter a paz em sua própria comunidade, o relato deste domingo deve ser considerado a partir do horizonte das bem-aventuranças; sem esse contexto, podemos ter a impressão de que Jesus foi um legalista, preocupado com a menor das leis. Assim, as bem-aventuranças iluminam e dão sentido às leis; na vivência das bem-aventuranças não se pode descuidar da menor lei. As bem-aventuranças não são leis que se impõem de fora, mas emanam de dentro, pois já estão presentes no coração de todas as pessoas. Quem vive o espírito das bem-aventuranças torna-se sensível à menor lei.
Quem se deixa determinar pela lei sempre busca uma maneira de burlá-la; quem se deixa conduzir pelas bem-aventuranças se sensibiliza diante da menor falta.
As leis, sem o espírito das bem-aventuranças, não abrem à vida, mas fecham a pessoa no legalismo.
Os fariseus e escribas se preocupavam em observar rigorosamente as leis, mas descuidavam do amor e da justiça. Jesus se esforçou por incutir nos corações dos seus seguidores outro talante e outro espírito: “se vossa justiça não for maior que a justiça dos escribas e fariseus, vós não entrareis no reino de Deus”. Eles cumpriam a lei escrupulosamente, mas só externamente, e isso não os fazia melhores, mas mesquinhos.
Os “fariseus” e os “escribas” eram os típicos representantes de uma espiritualidade legalista, distante da realidade humana. Eles não percebiam que, observando detalhadamente todas as leis, não estavam pensando em Deus, mas, sim, neles mesmos. No fundo, não tinham necessidade de Deus. Acreditavam que, cumprindo perfeitamente todos os mandamentos por suas próprias forças, tinham o direito de exigir de Deus uma recompensa. Estavam menos interessados no encontro com Deus do que no cumprimento minucioso da lei. O que mais lhes interessava era o cumprimento das normas e ideais que se impunham a si mesmos.
De tanto se fixarem sobre as leis, esqueciam o que Deus realmente deseja do ser humano, tornavam-se frios, insensíveis... e assumiam o papel de juiz para julgar o comportamento dos outros.
Escribas e fariseus de ontem e de hoje! É o que mais encontramos em nossas comunidades: pessoas e ministros com a “lei” na mão e pedras no coração.
Sabemos que Deus comunica sua Vontade na intimidade do nosso coração. Em cada um de nós está a “marca” da presença de Deus. Essa presença é sua “vontade”, porque a única coisa que Ele quer de cada um de nós é que sejamos nós mesmos, ou seja, que cheguemos ao máximo de nossas possibilidades.
Quando buscamos a Vontade do Pai com a mesma paixão com que Jesus a buscava, vamos sempre mais além do que dizem as leis. Para caminhar na direção de um mundo mais humano que Deus quer para todos, o importante não é contar com pessoas observantes de leis, mas com homens e mulheres que se pareçam com Ele, movidos pela compaixão, pela bondade, pela fome e sede de justiça...
Aquele que não mata, cumpre a Lei, mas se não arranca de seu coração a agressividade para com seu irmão, não se parece com Deus. Aquele que não comete adultério, cumpre a Lei, mas se deseja egoisticamente a esposa de seu irmão, não se assemelha a Deus. Nestas pessoas reina a Lei, mas não Deus; são observantes, mas não sabem amar; vivem corretamente, mas não construirão um mundo mais humano.
Temos de escutar bem as palavras de Jesus: “Não vim abolir a Lei e os Profetas, mas dar-lhe pleno comprimento”. Não veio a lançar por terra o patrimônio legal e religioso do Primeiro Testamento. Veio para “dar plenitude”, alargar o horizonte do comportamento humano, libertar a vida dos perigos do legalismo.
Nosso cristianismo será mais humano e evangélico quando aprendermos a viver as leis, normas, preceitos e tradições como Jesus os vivia: buscando esse mundo mais justo e fraterno que o Pai tanto deseja.
Cumprir só a Lei evita o castigo. Isso não é boa-notícia.
O amor nos faz humanos e essa é sua verdadeira recompensa. O amor não é um meio para alcançar um prêmio. É o caminho e a meta de todos os caminhos.
As leis, normas religiosas são “andadores” que impedem uma queda; podemos precisar deles por um bom tempo. Mas o dia que aprendemos a andar, eles serão um grande estorvo. E se um dia pretendemos correr, será impossível. Quando chegarmos a um conhecimento profundo de nosso próprio ser não precisaremos de apoios externos para caminhar para a verdadeira meta. “Ama e faze o que quiseres” (Santo Agostinho) ou “Quem ama cumpriu toda a Lei” (São Paulo).

Textos bíblico: Evangelho segundo Mateus 5,17-37
Na oração:
O rigorismo e a rigidez, em suas diferentes manifestações, nos perpassam por dentro e se infiltram em nossas atividades e relações. Caímos no legalismo e no moralismo que nos petrificam e nos fazem insensíveis diante das fragilidades dos outros.
- Como passar do coração de pedra para a morada da fonte de água viva?
- Como reencontrar, no seu cotidiano, a fluidez que o habita e que o faz receptivo e flexível como uma “esponja”, onde a água do Espírito de vida entra “doce, leve e suavemente” (EE. 235)?


