sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Não há um Deus-César nem um César-Deus

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 29º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“De quem é a figura e a inscrição desta moeda”? (Mt 22,20)

 

Estamos hoje frente a um texto evangélico muito conhecido e citado, ao mesmo tempo sugestivo e profundo, que pode nos interpelar se deixarmos de lado ideias pré-concebidas ou interpretações malfeitas.

Ao ler com atenção os primeiros parágrafos deste evangelho, é possível que encontre eco em nós uma palavra, uma realidade, que muitas vezes passa desapercebida. Aqui se fala da “verdade”, do que realmente é verdadeiro, das intenções profundas e do uso que as pessoas e as autoridades religiosas fazem destas expressões. Nesta cultura das “fake-news”, a verdade está cada vez mais violentada, prostituída, escondida.

O evangelho fala dos fariseus e herodianos, que defendiam “verdades” diferentes frente ao tema do “tributo a Cézar”, dissimulando-a, sacrificando-a, submetendo-a a interpretações pouco honestas, buscando somente prejudicar Jesus. Apresentam-lhe como busca da verdade o que não tem nada a ver com ela. 

Isso que se passou há vinte séculos, continua se fazendo presente em nossos contextos atuais. É cada vez mais clara uma sociedade insensível à verdade. É comum em nossos meios de comunicação e redes sociais relativizar, ignorar e inclusive falsear a verdade para que uma notícia venda, viralize nas redes ou prejudique o adversário. Não é preciso ser muito crítico para citar exemplos destes casos. 

No entanto, é preciso dar um passo a mais e nos perguntar: pessoalmente, temos sacrificado a verdade, ou a temos calado para conseguir algo, para prejudicar alguém ou para outros muitos interesses? Temos sido canais de transmissão de “fake-news”, destruindo a reputação de pessoas ou de grupos? Somos daqueles que descobrem e desmascaram a mentira, como Jesus, ou daqueles que compactuam e se calam diante dela? Damos o devido valor à verdade ou é tão somente uma moeda de troca frente a outros valores?

Os fariseus e herodianos, sem acreditar sinceramente em Jesus, sem pretender dar-lhe o devido valor, mas tão somente bajulá-lo, dizem: “sabemos que és sincero e que ensinas o caminho de Deus conforme a verdade”. Reconhecem n’Ele uma pessoa sincera, fiel à verdade e por isso livre. Aqui recordamos o que o evangelho de João põe na boca de Jesus: “a verdade vos fará livres” (8,32); “eu vim ao mundo para ser testemunha da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta minha voz” (18,37).

A mando dos Sacerdotes e Anciãos, fariseus e herodianos querem saber de Jesus se ele é a favor ou contra o pagamento do imposto aos romanos, a César. Pergunta esperta, cheia de malícia! Sob a aparência de fidelidade à lei de Deus, buscam motivos para poder acusá-lo. Se Jesus dissesse: “Deve pagar!”, poderiam acusá-lo junto ao povo como amigo dos romanos. Se ele dissesse: “Não deve pagar!”, poderiam acusá-lo junto às autoridades romanas como subversivo. Parecia um beco sem saída.

Jesus, em sua resposta, desmascara a mentira e a hipocrisia daqueles que lhe estendem uma armadilha, ao pedir-lhes uma moeda. Todos carregavam no bolso o denário, a moeda que é o soldo diário com o qual cobriam suas necessidades. Todos estavam usando a moeda, apesar de que sua imagem era do “Cézar”. De fato, aceitavam a moeda de Cézar para poder viver. E aqui nos deslumbra a palavra de Jesus: “Pois, se é assim, se tendes o que é de Cézar, devolvei a Cézar o que é dele” (o verbo que Jesus usa “apodidômi”, não significa “dar”, mas “devolver”. Uma pista interessante para compreender a resposta de Jesus. Eram contra César, mas levavam sua moeda na bolsa.

Se fossem verdadeiros judeus, tinham que renunciar também a utilizar o dinheiro de Roma. Eles têm muitos escrúpulos para pagar o imposto, mas não para utilizar a moeda do império. Jesus os desmascara, pois, a pergunta não tem sentido, já que eles tinham aceitado a soberania de Roma.

“Devolvei a César...”. Jesus não usa armas para combater contra o César, tampouco lhe obedece (não usa seu dinheiro), mas sai do espaço de seu domínio, para situar-se no espaço de vida e convivência onde o tributo a Cesar é desnecessário. Aqueles que o tentam estão dispostos a usar a moeda de César. Pois bem, Jesus lhes diz para devolvê-la, de modo que não tenham nada que dever-lhe, nada que pagar-lhe. Não se trata, portanto, de lutar em guerra contra César (como faziam os zelotas), mas de devolver seu dinheiro a César, pois o Reino não se alcança com moedas. 

A pergunta que é feita a Jesus em Jerusalém, acontece no momento chave de sua revelação messiânica, no contexto de máxima tensão com as autoridades religiosas. O sinal de fundo é o denário do tributo, que significativamente Jesus não carrega consigo, não por casualidade (como se tivesse esquecido de pegá-lo), mas por princípio, pois Ele mesmo pediu a seus discípulos que anunciassem o Reino sem dinheiro algum.

Esta proposta deve ser entendida à luz de todo o Evangelho; ela recebe um sentido mais preciso à luz de todo o ensinamento e conduta de Jesus, que não quis comprar com dinheiro os pães e os peixes das multiplicações, mas que pediu aos seus que partilhassem o que tinham.

Da mesma forma, lembremos o que Jesus disse ao jovem rico para que vendesse o que tinha, que repartisse o dinheiro entre os pobres, para iniciar um caminho no qual devem ser partilhados casas-campos-bens. Neste contexto, o relato deste domingo centra a nossa atenção na relação entre o movimento de Jesus e o império romano.

A partir desta introdução, na qual Jesus desmascara a falsidade e hipocrisia dos fariseus, verbalizando que conhece suas intenções ocultas, aproveita para acrescentar aquilo que eles não perguntaram: “devolvei a Deus o que é de Deus”. O ser humano é a verdadeira “imagem” de Deus, que não lhe impõe (imposto) pesados fardos, mas o liberta para que viva com mais intensidade. Ele quer que todos os seus filhos e filhas sintam-se livres de todo tipo de sujeição e domínio.

Jesus sempre foi muito livre perante o Templo, as leis, as tradições, os poderes... Por isso, os maiores conflitos foram com o Templo. Jesus desloca Deus do Templo para as margens e bate de frente com os encarregados do Templo.

São eles que cobram o imposto; e quem cobra imposto, impõe: alimenta medo, manipula Deus, ameaça com a lei, controla o acesso a Deus no Templo. Não deixam Deus ser Deus e Pai, impedindo que os outros se sintam filhos e filhas d’Ele. É na liberdade que se tem acesso a Ele e não pagando impostos ao Templo.

Para Jesus, diante do Pai somos filhos e não estrangeiros; e como filhos temos acesso livre a Ele e não através de impostos: leis, normas, ritos...

Mas, para não causar mais conflitos ainda com o Templo, Jesus pede a Pedro para “pescar” e pagar o imposto devido.

É lícito pagar ou não? Jesus superou esta alternativa. Não se trata de pagar ou não pagar, mas de situar-se numa dimensão mais alta de revelação de Deus, ou seja, de humanidade solidária, acima de uma economia e política fundada na posse da moeda. Jesus não aceita o tributo nem o rejeita, senão que supera esse plano monetário (pagar ou não pagar), pedindo que se devolva a Roma o dinheiro de seus impostos, para iniciar dessa maneira um caminho diferente de evangelho.

Não se trata de repartir atribuições, nem sequer com vantagens para Deus. Deus não compete com nenhum poder terreno, simplesmente porque Deus não atua a partir da categoria de poder.

Só Deus é o Senhor de nossas vidas e não compete com ridículos “césares”.

Não encontramos em Jesus a revelação do “Deus do poder” que se impõe, mas do “Deus do amor” que se expõe que se revela e se faz presente no pequeno, no simples, naqueles que não tem voz e nem vez neste mundo, nas vítimas dos sistemas econômicos que matam.

Enfim, numa sociedade corrupta e deformada, uma pessoa que se ajusta ao que está estabelecido e, portanto, não desconcerta ninguém, é uma pessoa alienada, que passa pela vida sem ser provocadora e deixa tudo como está. Só desconcerta quem, na fidelidade ao Evangelho e à causa do Reino, rompe os esquemas fechados e estruturas de poder, transgride o excesso de normas, abre novos caminhos ainda não imaginados.

meditação do dia 20/06/15- Deus ou dinheiro: ninguém pode servir a dois  senhores – Católico, volta pra casa!


Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 22,15-21

 

Na oração:

Quem é o “senhor” que move o meu coração?

O “dinheiro” ou o Deus verdadeiro?

- Quais são os “césares” que habitam meu coração e que exigem pesados impostos, tirando-me o prazer de viver com mais inspiração?

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Justificativas que atrofiam a vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 28º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Mas os convidados não deram a menor atenção” (Mt 22,5)

 

Nestes três últimos domingos a liturgia nos convida a ter acesso a três parábolas que nos apresentam Deus como pai, como proprietário de uma vinha e como rei que prepara a festa de casamento de seu filho.

Deus é Pai e nos fala de sua bondade; Deus é Rei e nos fala de sua dignidade; Deus é proprietário e nos fala da herança que nos quer transmitir.

Jesus narrou estas parábolas em um contexto polêmico e cheio de tensão com o judaísmo institucional. O grande conflito d’Ele foi com as autoridades religiosas, petrificadas em suas práticas legalistas e que se consideravam “puras” e merecedoras de uma recompensa.

A atmosfera que envolveu estas parábolas foram os últimos dias da vida de Jesus, já em Jerusalém; um momento no qual estava se formatando um duplo juízo, político e religioso, por seus discursos, ações e provocações às autoridades rabínicas. Através das parábolas Ele pretendia expressar sua certeza de que o projeto de Deus ia se realizar apesar das contradições humanas.

Na parábola deste domingo, o Deus que Jesus nos revela é um Deus a quem lhe encanta a festa, o banquete, a alegria de seus filhos e filhas. Deus é “festa”.

Ao longo da História da Salvação, Deus faz da “mesa da refeição” o local de seu encontro e de sua comunicação com a humanidade. Tanto no Primeiro como no Segundo Testamento encontramos as refeições como momentos privilegiados, nos quais Deus se manifesta ao ser humano e com ele convive.

São refeições que revelam a presença de Deus, os cuidados paternos de Deus, a vontade manifesta de Deus, sua familiaridade com o ser humano, o simbolismo das promessas que estavam à espera.

Deus instala a grande Mesa no centro do mundo, para a qual convergem todos os homens e mulheres de todos os cantos da terra e de todos os tempos; nela, todos se assentam e ali fazem a experiência do Deus companheiro, do Deus comensal, do Deus que já instalou seu Reino no meio da humanidade.

O Deus que Jesus revela é Aquele que desce das alturas, entra nas casas, toma assento junto à mesa, come com as pessoas, serve-lhes o pão. Na intimidade da mesa, Ele restitui aos excluídos a dignidade e a auto-estima, pois eles são os preferidos do Reino da Festa. 

Encanta-nos a pessoa de Jesus porque lhe encantam as festas de casamento. Começou com as Bodas de Caná, e continua agora coma parábola do Banquete do Reino. 

Aqui, Ele revela a imagem de Deus que organiza um banquete de casamento; no entanto, todos os convida-dos apresentem justificativas e motivos para deixá-lo plantado, com a mesa posta, e tudo preparado.

E, além disso, o fazem de um modo muito cortês e “educado”. Ninguém quer ficar mal com Deus, mas não participa. Cada um tem suas justificativas para desculpar-se: um campo comprado é suficiente razão para não aceitar o convite; os negócios particulares revelam-se suficiente motivo para não ir à festa; outros ainda apelam para a violência contra os servos que foram entregar os convites.

Todos afirmam crer n’Ele; mas são muitos que não lhe fazem caso.

Todos dizem que o amam; mas, são muitos que tem justificativas para apresentar-lhe suas desculpas.

Todos são corteses com Deus; mas são muitos que se fazem de surdos e não acolhem o convite festivo.

Todos são educados com Deus; mas são muitos que não querem envolver-se com Ele.

As justificativas egóicas os petrificam e os impedem de saborear a vida como festa; preferem a solidão de seus “afetos desordenados”.

No entanto, Deus não se dá por vencido. Sua bondade não tem fronteiras e não discrimina ninguém; por isso, o dom do banquete é oferta universal, é para todos. Diante da negativa dos convidados, o banquete se abre a todos os que estão fora, nos caminhos e encruzilhadas, bons e maus. A todos é dada a possibilidade de responder ao seu convite, ao seu chamado; ninguém tem o direito de sentir-se privilegiado ou de reivindicar a exclusividade. É preciso abrir-se às periferias, reconhecendo que também quem está nas margens, inclusive aquele que é rejeitado e desprezado pela sociedade, é objeto da generosidade de Deus. 

Tudo isto nos leva a vencer o costume de posicionar-nos comodamente no centro, como faziam os chefes dos sacerdotes e dos fariseus. Mais uma vez aparece o alarme de viver a fé numa posição de conforto, de busca de seguranças e certezas, de instalação no de sempre e de reatividade e resistência frente o novo. Deus oferece a possibilidade da plenitude humana, tudo está preparado no interior de cada pessoa para conectar-se com a Fonte e viver a partir do essencial.

O evangelho rejeitado por vários, encontra uma acolhida inesperada em muitos outros corações.

Enfim, a parábola deste domingo parece expressar com claridade que somos chamados a participar incondicionalmente da vida divina, onde temos pendente uma refeição que não é tristeza, mortificação, mas um festim que se expande e atrai a todos para a comunhão com o Deus festeiro.

No fundo, a parábola de hoje denuncia o “ateísmo da indiferença”, o “ateísmo da falta de apetite”, na qual nem sequer a mesa preparada e as melhores carnes, são capazes de abrir o apetite de muitos. Eles mesmos sofrem também a surdez, incapazes de escutar a música da festa.

São muitos os “inapetentes”, aqueles que tem tudo, que vivem ocupados em “suas terras”, na obsessão dos “seus negócios”. Podemos chamar isso de “surdez do ter”, ou “indiferença da abundância”. As coisas fazem muito ruído no coração; elas ocupam muito espaço no interior e não deixam lugar para Deus.

Também são muitos os que se sentem saturados do “religioso” (religião esvaziada de festa e centrada no sacrifício, na mortificação, na penitência...). Muitos ainda se perguntam se esse banquete que nós oferecemos não é demasiado pobre, repetido e sem música que alegre a vida.

É um questionamento que todos nós temos de fazer. Por que se afastam aqueles que estão dentro da comunidade cristã? Por que não vem aqueles que estão fora? Por que será que as festas de Deus são pouco atraentes? Por que será que as festas de Deus encontram tanta indiferença?

Talvez porque a imagem de Deus e do evangelho que oferecemos é pouco atrativa.

Deus nos apresenta uma religião e uma salvação que é “boda”. Dá impressão que, em nossas comunidades cristãs, há mais velório que bodas; nossa pregação provoca mais aborrecimento que festa e banquete.

E, por último, o polêmico “traje de casamento” para entrar no banquete: não se trata de uma purificação penitencial que só afeta a cada um; é o traje da vinculação à nova comunidade festiva. 

É muito fácil entrar na festa e fazer parte da comunidade, aproveitando das vantagens, mas sem mudar as atitudes nem viver de maneira sintonizada com o evangelho. Não basta pertencer nominalmente a uma comunidade; só aquele que, de verdade, se reveste de Cristo (suas atitudes, sua liberdade, suas opções, seus sentimentos...) pode estar seguro de entrar no Reino. É preciso revestir-se com as roupas do amor, da convivência solidária, do espírito festivo...

Deus não pratica represálias contra ninguém. 

Fica de fora aquele que se nega a entrar na dinâmica da comunidade cristificada.


 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 22,1-14

 

Na oração: 

Sua comunidade cristã é lugar do anúncio da Boa Notícia do “Deus festa” ou está mais focada nas ameaças, nas mortificações e penitências?

- As celebrações da Ceia do Senhor trazem a marca da alegria, da partilha, da acolhida mútua...? Ou estão mais centradas no ritualismo frio, vazio, estéril, sem a participação dos membros da comunidade?

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Comprometidos no cuidado da Vinha do Senhor

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 27º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“... e arrendará a vinha a outros agricultores, que lhe entregarão os frutos no tempo certo” (Mt 21,41)

 

No mês de setembro de cada ano, a Igreja celebra a jornada do “Tempo da Criação”; uma iniciativa ecumênica que une os cristãos de todo o mundo para despertar a sensibilidade pelo Cuidado da Criação. Trata-se de uma boa oportunidade para refletir e orar sobre o sentido profundo de nosso compromisso com a criação, não só a partir de um ponto de vista estritamente ecológico, mas também a partir de uma visão profundamente espiritual e bíblica que nos recorda que nossa fé cristã nos compromete com a Casa Comum que Deus nos confiou.

Somos convidados a viver este Tempo da Criação como uma oportunidade espiritual para renovar nossa relação com Deus, com os outros e com a Criação inteira. Sejamos semeadores de paz e de esperança, a começar pela nossa vida cotidiana: com atitudes de gratidão, de simplicidade, de respeito, de cuidado e de amor por tudo o que nos rodeia.

Sempre dizemos que uma imagem vale mais que mil palavras. Jesus sabia disso muito bem. Por isso, no evangelho deste domingo, Ele traz a imagem da vinha que, no seu interior, revela uma força transformadora, visível nos seus frutos saborosos; ao mesmo tempo, ela é lugar do encontro, da vida, da festa, da paz e da esperança.

Na simbologia hebraica, a Vinha é a Casa Comum, a casa de todos; ela é um dom de Deus para que desfrutemos de seus frutos, mas também para que a cuidemos, com a finalidade de assegurar que todas as pessoas possam viver junto dela com dignidade. 

Na perspectiva bíblica, a imagem da vinha nos fala de convivência, de harmonia, de alegria, de acolhida e de gratuidade, por ela ser dada em herança. Não somos proprietários desta vinha, somos seus administradores. A vinha é um destino, é uma missão.

Também a Vinha pode ser para nós, hoje, símbolo de nossa Casa Comum, a mãe Terra. O Deus da ternura e do cuidado colocou em nossas mãos uma vinha que Ele embelezou e preparou para dar abundantes frutos.

A vinha é o rosto da suma bondade d’Ele; ela é o lugar da revelação das suas entranhas misericordiosas. Assim como fez aos agricultores da parábola, também a nós Ele nos convoca a sermos co-criadores em sua vinha, para que a cuidemos, a protejamos e a amemos, possibilitando-a dar todos os seus frutos. Também Ele nos entrega a vinha para que saboreemos os seus frutos, mas conscientes de que somos meros trabalhadores nela, e não donos da mesma.

O Deus da entrega e do amor extremo convida a nos relacionar com Ele, a acolher esta encomenda e a reconhecer que tudo é do Filho, aquele que é a “pedra angular” de nossa vida quando o acolhemos e sabemos devolver tudo o que temos recebido. Só dessa maneira nossa vinha dará seu fruto e saberemos trabalhar nela a partir da criação de laços de fraternidade e de entendimento, junto a tantos outros que também foram chamados a cuidar dela. E assim, unidos no Filho, continuaremos cantando um canto de amor à vinha.

E o que foi feito com a vinha do Senhor? 

O ser humano rompeu as relações com o senhor da vinha, tomou posse dela, apoderou-se de seus frutos; fechado em si mesmo e absoluto em suas decisões, desencadeou uma fúria destruidora, uma sede de dominação, um comportamento soberbo e soberano diante da Vinha que recebeu como herança. O afã de dominar a vinha em benefício próprio é a origem de muitos conflitos, da violência e da miséria no mundo.

Consequências: há um outro ar contaminado que invade tudo:

- individualismo sem medida, competitividade selvagem, falta de solidariedade, materialismo, hedonismo,

  insensibilidade diante da dor dos outros, ausência de princípios éticos, falta de compaixão e de cuidado,

  surdez às mensagens do universo e de todas as coisas, indiferença frente à sacralidade do mundo...

O drama do ser humano é perder a memória de que é parte do todo: seu instinto de posse e domínio o leva a romper a relação cordial com todas as criaturas, caindo num devastador vazio existencial. A “centração em si mesmo”, sem levar em conta a rede de relações que o envolve, provoca a quebra da “re-ligação” com tudo e com todos. Este é o veneno que corrói o ser humano por dentro: petrificação de sua interioridade, a perda do gosto pela verdade, pelo belo e pelo bem, o extravio da ternura e da transcendência, a atrofia da comunhão com o todo cósmico...

A vinha está sendo “desnaturada” e o ser humano “desumanizado”. Esta crise aponta para um ser humano doente e a doença consiste justamente na separação entre o ser humano e a vinha, na falta de cuidado e no esquecimento de seu parentesco e solidariedade.

A crise ecológica é a própria crise do ser humano. A vinha está em ruínas, devido à maneira como ele a habita; arranca pedaços dela para satisfazer seus interesses individuais e não se dá conta que está destruindo seu próprio habitat. Podemos qualificar tudo isso de desolação comunitária: o lugar pós-moderno do “inferno”. 

Diante desta situação que caminha para a destruição total, faz-se urgente uma nova consciência ecológica, ou seja, que o ser humano mude sua maneira de se relacionar com a natureza e passe da “dominação à benevolência, do ‘sobre-pôr-se’ e do ‘im-pôr-se’ ao ‘com-pôr-se’, da guerra à paz, da exploração ao respeito, da destruição ao cuidado, do secularismo devastador à sacralidade reverente (L. Boff).

Aquilo que é narrado como tendo acontecido muito tempo atrás, numa terra distante, na realidade acontece agora, dentro de cada um de nós. Daí a força provocativa da parábola deste domingo.

Em chave de interioridade, podemos afirmar que há uma vinha em nosso interior, plantada com todo cuidado. A vinha interior é plantada por Deus em função da vida; por isso ela é sagrada e é lugar de contemplação e encontro íntimo com o Criador; ela é o teatro da glória de Deus, isto é, da manifestação da presença divina. Ela deve ser o lugar da fecundidade, da convivência e da celebração.

Com o toque divino, uma identidade nova ressurge em nós: já não somos mais estrangeiros, nem inimigos em nossa própria vinha.

Para reconstruir a vinha interior é preciso:

- erradicar a “força dominadora” do nosso coração que, no afã de tudo possuir, alimenta conflitos e violências e que acabam destruindo a Vinha da vida;

- ativar uma mentalidade nova, um coração novo, uma sensibilidade cósmica, na qual a gratidão se expressa como atitude de acatamento, de respeito e de cuidado diante da Criação.

Nós e o universo só seremos felizes quando todos formos uma grande vinha, por onde o Senhor passeia, à hora da brisa fresca da tarde (Gen 3,8) . A vinha é a face graciosa que Deus oferece à humanidade. Na vinha, Deus realiza seu sonho. E fica feliz!

Nesse sentido, a espiritualidade cristã vai além de uma determinada experiência religiosa; ela se expressa como uma “atitude amorosa” para com a Vinha, recebida em herança. 

A Vinha inteira é um imenso altar, no qual podemos contemplar a presença do Criador; ela é sinfônica (harmonia de sons); estamos rodeados por uma multiplicidade de notas, sons, sinais e mensagens diferentes. Com a Vinha, formamos uma mesma realidade complexa, diversa e única; ela nos encanta e nos convida, constantemente, à admiração e ao cuidado.


O Senhor da minha vida. - BLOG DO PADRE JOÃO CARLOS - MEDITAÇÃO

 

Textos bíblico: Evangelho segundo Mateus 21,33-43

 

Na oração:

Deixe o Espírito transitar pela sua vinha interior, para que aí Ele estabeleça o “cosmos” (harmonia e beleza”) e crie um coração novo, de onde brotarão frutos de refinado sabor.

- Dê nomes aos “frutos” de sua vinha interior.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Reconfigurando a rota da vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 26º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“O filho respondeu: ‘não quero’. Mas depois mudou de opinião e foi” (Mt 21,29)

 

Somos pessoas em processo de construção; nunca estamos prontos. Também no seguimento de Jesus há um percurso a ser feito, com altos e baixos, fidelidades e infidelidades, mentiras e verdades...

Todos somos habitados por um “espírito de busca”: de sentido, de verdade, de bem, de justiça... Queremos sempre acertar em nossos compromissos, em nosso projeto de vida, em nossa vivência do Evangelho.

Buscamos, porque estamos inquietos e desejamos saborear uma paz interior, uma certa qualidade de vida, uma coerência no nosso modo de proceder.

No entanto, também somos seres limitados, inconstantes e frágeis. Há uma distância entre aquilo que buscamos e o que de fato vivemos. Nem sempre acertamos na rota do seguimento de Jesus. Muitas vezes seguimos rotas que não levam a lugar nenhum ou, pior ainda, a lugares perigosos: lugares egóicos, auto-centrados, carregados de vaidade...

É preciso, de tempos em tempos, inspirados pelo horizonte do Evangelho, reconfigurar nossa rota de vida para que ela flua pelas sendas da compaixão, da presença solidária, da sensibilidade comprometida.

No evangelho deste domingo, Jesus continua fazendo advertência à sua comunidade de seguidores(as). É muito perigoso achar que já estamos prontos, que somos “perfeitos”, que não precisamos amadurecer mais na vivência do Evangelho. É importante não só ativar os recursos e as reservas interiores de dons, mas também des-velar (tirar o véu) as fragilidades, as incoerências, os fracassos..., e reconfigurar a rota da vida, inspirada na Vida de Jesus Cristo. Somos seguidores(as) de uma Pessoa, e não de uma doutrina, de uma religião. A pura teoria não serve para nada, só a vida salva. Tudo o que dizemos ou proclamamos são palavras vazias se não são acompanhadas por uma atitude vital que, inevitavelmente, se manifestará nas obras. “Mesmo que não queirais crer em mim, crede nas minhas obras” (Jo 10,38).

Para ilustrar a realidade de nossa vida cristã, Jesus narra uma parábola que é das mais claras e simples. Um pai se aproxima de seus dois filhos para pedir-lhes que fossem trabalhar na vinha. O primeiro responde com uma negativa rotunda: “Não quero”. Em seguida, pensa melhor e vai trabalhar. O segundo reage com uma docilidade ostentosa: “Sim, vou”. No entanto, tudo fica em palavras, pois não vai trabalhar na vinha.

A mensagem que brota da parábola é clara e fora de toda discussão. Diante de Deus, o importante não é “falar”, mas fazer; o decisivo não é prometer ou confessar, mas cumprir sua vontade.

Os escribas falam constantemente da lei: o nome de Deus está sempre em seus lábios. Os sacerdotes do templo louvam a Deus sem descanso; sua boca está cheia de salmos. Mas, as coisas não são sempre como parecem. Os cobradores de impostos e as prostitutas não falam a ninguém de Deus. Faz tempo que esqueceram a lei. No entanto, segundo Jesus, vão adiante dos sumos sacerdotes e anciãos do povo no caminho do Reino de Deus.

Cada dia nos encontramos com homens e mulheres cujas vidas parecem insignificantes, limitadas, frágeis... No entanto, quando convivemos com eles e elas, nos damos conta que são almas generosas, corações abertos, desejos vivos, esperanças que os fracassos não conseguiram murchar.

Muitos proclamam com boca cheia que são cristãos, que cumprem alguns ritos e penitências, mas estão carregados de ódio, de intolerância, de preconceito; também são muitos aqueles que, sem serem cristãos de “carteirinha”, vivem o evangelho com muito mais coerência. 

O farisaísmo se torna atitude corrente entre nós, e damos por satisfeito o fato de falar do evangelho ou ouvir falar dele para tranquilizar nossa consciência.

Nossas vidas estão marcadas por muitos “sins” e “nãos”. A vida se define entre o “sim” e o “não”; mas não com o “sim” da palavra, mas com o “sim” da vida.

Somos muitos que dizemos a Deus “sim”, mas nossas vidas continuam sendo um “não”; somos muitos que dizemos a Deus “não”, mas logo nossas vidas são um silencioso e profundo “sim”. 

Por onde anda o “sim” decidido no cotidiano de nossa vida? Em qual dos filhos da parábola nos vemos representados? Somos homens e mulheres só de palavras? Praticamos aquilo que prometemos? Permanecemos só nas “boas intenções” ou passamos aos atos? É Deus o norte e o guia de nossa existência?

Demos graças a Deus porque Ele continua nos chamando a trabalhar em sua vinha. O importante é sermos conscientes de que, certos caminhos que elegemos nos afastam d’Ele, de seu amor, de sua presença, de sua vinha e do caminho que nos conduz à vida, à felicidade, à graça.

Não nos conformemos com a mediocridade em nossa vida cristã. Não podemos dizer “sim” ao Senhor e logo andarmos por outros atalhos totalmente diferentes ao Evangelho.

Se na primeira vez não fomos capazes de dizer “sim” ao chamado de Deus, Ele aceita sempre nossa retificação. Quase sempre acertamos às custas de muitas retificações. 

Poucos são capazes de descobrir a meta e o sentido de suas vidas logo de cara. Mas não devem se preocupar com as falhas e os fracassos. O mais frustrante é ser incapaz de reconfigurar a rota da vida.

De fato, nem os maiores fracassos e erros são definitivos. Podemos, em qualquer momento, reconfigurar a trajetória equivocada da vida. Os erros cometidos podem nos ajudar a encontrar o caminho verdadeiro. Somos limitados e temos de aceitar esta condição porque faz parte de nossa natureza humana. Não podemos pretender, nem para nós e nem para os outros, a “perfeição” (pura ilusão mental). Quando exigimos a uma pessoa que seja mais-que-perfeita, estamos exigindo que ela deixe de ser humana.

À luz do Evangelho podemos reler, ressignificar e reinterpretar nossos fracassos, erros e desvios de rota.

Quem se identifica com “ideais” muito elevados, quem se exalta a si mesmo na busca da “perfeição”, mais cedo ou mais tarde terá de confrontar-se com suas “sombras”, será forçado a tomar consciência de sua condição humana e terrena, de seu “húmus”.

Quem “desce” até sua própria realidade, até os abismos do seu interior, até a escuridão de suas sombras, até a impotência de seus próprios sonhos, quem mergulha em sua condição humana e terrena e se reconcilia com ela, este sim, está “subindo” para Deus, faz a experiência do encontro com o Deus verdadeiro.

Essa é a razão pela qual toda a vida e mensagem de Jesus se condensam na vivência do amor. O que define a pessoa de fé não é que diga “Senhor, Senhor”, mas vive a prática compassiva do “vá e faça o mesmo”.

Sem dúvida alguma, Jesus sempre se revela como uma presença surpreendente, pois nos move a todos a vermos a realidade a partir de uma perspectiva diferente da que é habitual.

Ele é Aquele que vê mais além da realidade: descobre vida onde os outros só veem morte; desvela possibilidades onde os outros se deparam com o impossível; descobre sementes de futuro escondidas onde ninguém vê mais saída; vê santos onde todos só veem pecadores... Jesus é Aquele que vê bondade presente no fundo do coração, inclusive daqueles que são condenados como “publicanos e prostitutas”; sabe ler nos gestos mais simples a grandeza de um coração capaz de amar, de mudar, de ser melhor.

Eles e elas, homens e mulheres, expulsos, marginalizados, escórias da terra..., são os portadores do Reino de Deus, acima dos sábios fariseus, dos altos sacerdotes, dos representantes da religião centrada no ritualismo, na doutrina, no legalismo... O evangelho não diz que eles nos “precederão” (no futuro), mas que nos precedem já neste mundo, como Jesus que precede os seus no caminho de Jerusalém.


Você entendeu a parábola dos dois filhos (Mateus 21)? Eu explico verso por  verso!


Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 21,28-32

 

Na oração:

“Em você há uma luz capaz de espantar as trevas dos acontecimentos mais dramáticos; você é portador de uma força que pode sustentá-lo em experiências exigentes. Em sua fraqueza há algo divino. O que a terra seca tem a oferecer? Nada, quando abandonada às suas próprias limitações. Mas ela não desespera. Mesmo sob a pobre forma de deserto, continua guardiã de tesouros insuspeitos” (Frei Cláudio V. Balen).

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Deus não trabalha com “escala 6x1”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 25º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti” (Mt 20,14)

 

Toda parábola é um espelho para nós: nela, nos vemos. No relato deste domingo Jesus demonstra um conhecimento muito profundo da psicologia humana. Constantemente nos surpreendemos comparando com as outras pessoas. É o “pecado de raiz” da inveja que envenena as relações, alimenta competições e nos esconde atrás do muro das lamentações. Quantas vezes reagimos como os trabalhadores da “primeira hora” que, ao recebermos um “denário”, começamos a reclamar: “trabalhamos a vida toda, sacrificando-nos, e agora todos somos iguais, recebendo o mesmo pagamento...”?

E nosso mal-estar aumenta porque, no fundo, o mais grave é que não temos nenhuma injustiça que denunciar: “não te contratei por um denário?” – diz o dono da vinha.

Na parábola deste domingo nos deparamos com um Deus surpreendente que dá o mesmo salário para os que tem tempos diferentes de trabalho; um Deus a quem lhe importa que estejamos todos na sua vinha, independente de quando temos chegado; um Deus que decidiu, desde sempre, dar-nos a cada um o que necessitamos para viver plenamente, sem precisar regatear ou manipular sua vontade a nosso favor. 

A sabedoria da parábola revela uma perspectiva radicalmente diferente diante do trabalho.

Hoje, todo o mundo trabalha para acentuar as desigualdades, para competir, para comparar-se...; ou seja, para ter mais que o outro, estar por cima e assim diferenciar-se dele. Isto acontece não só com relação a cada indivíduo, mas também no nível de povos e nações. Também no campo religioso nos foi inculcado que temos de ser melhores que os outros para receber um prêmio maior. Esta foi a filosofia que moveu a espiritualidade cristã de todos os tempos. O que a parábola propõe é algo completamente diferente.

Quando nos deixamos determinar pelo nosso ego, ele compreende a si mesmo como “fazedor” e atua em função do benefício que pensa obter. Não só se percebe, de maneira insensata, como que separado da vida, senão que atribui a si a autoria de tudo o que faz e se apropria do resultado, exigindo uma recompensa.

Enquanto persiste a identificação com o nosso ego, não podemos ver as coisas de outro modo. Mais ainda, julgamos como indevido ou inclusive “injusto” o fato de que todos recebam o mesmo “prêmio”.

Mas Jesus nos convida a assumir outro ponto de vista, ver a nossa vida de forma diferente e sentir gratidão pelo fato de termos sido chamados a colaborar com o Reinado do Pai.

Para os antigos Padres da Igreja, o “denário” era um símbolo para a completude do ser humano. Nosso salário nunca será maior do que nossa transformação em um ser humano completo, em harmonia conosco mesmo. Isso basta!

Em vez de nos comparar com os outros e sentir inveja, a parábola desperta em nós a vivência da gratidão e da alegria por perceber que outros, embora tardiamente, responderam ao chamado do Senhor para trabalhar em sua vinha. Muitas vezes, uma hora de trabalho pode ser vivida de maneira muito mais intensa e inspiradora que uma longa jornada.

De fato, a inveja envenena as relações humanas até tal ponto que, às vezes, a pessoa prefere prejudicar-se com a condição de que o outro se prejudique mais ainda. 

O invejoso não está preocupado que tudo lhe corra bem, mas que aconteça o pior com o outro. A inveja pode representar um muro intransponível entre o invejoso e o invejado, impedindo o prazer que representa o ato de compartilhar.

A inveja é um sentimento vergonhoso que ninguém se atreve a reconhecer; ela, quando sentida, nunca pode ser sadia. Só é realmente sadio o que sentimos a respeitos dos outros quando sentimos admiração, apreço ou alegria pelos seus êxitos ou dons.

Quando Deus nos chamou para trabalhar na sua vinha? Ao amanhecer de nossa vida, em nossa primeira juventude, mais tarde ou já quase no final da vida? Ele não contabiliza a quantidade de horas trabalhadas, nem lhe importam o número de anos investidos... Ele sempre sai para buscar-nos, nos admite em sua vinha e promete nos dar “o que necessitamos para viver plenamente”. Pare Ele, nunca é tarde; sempre é tempo.

É então que caímos na conta que o que mais nos incomoda é a bondade de Deus. “Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?”Tanta bondade nos assusta e nos ultrapassa!

No fundo, preferimos um Deus mesquinho como nós, um Deus calculador, que só dá bens àqueles que merecem por seu trabalho. Em definitiva, um Deus a quem possamos exigir: “fiz isto, me deves dar isto...”

É um bom momento para revisar a imagem de Deus: é aquele que imaginamos ou naquele que Jesus nos anuncia? O Deus que Jesus revela é Aquele que dá a salvação a todos gratuitamente, Aquele que trata a todos como filhos(as) muito amados(as) e lhes concede o que necessitam para viver mais plenamente.

Deus já nos “pagou o salário” antes mesmo de começarmos a trabalhar em sua vinha. Ele já “investiu” pesado em cada um de nós, dotando-nos de recursos, capacidades, inteligência, criatividade... 

É uma maneira equivocada de falar que Deus nos concede isto ou aquilo. Deus está totalmente disponível a todos; Ele é “mão aberta” e derrama continuamente suas graças. Ele não trabalha com meritocracia.

A pessoa que se sente cuidada assim por Deus, supera a dinâmica do “salário devido” e entra na dinâmica da gratuidade. Como se sentiram os trabalhadores que chegaram por último e viram que suas famílias estariam protegidas por mais um dia? Com certeza, estariam agradecidos. E, a partir do agradecimento, nasce o compromisso com o Senhor da vinha, o compromisso em favor do Reino. 

A mentalidade “mercantilista” não torna as pessoas comprometidas, implicadas..., só mercenárias.

Há um outro aspecto que é preciso realçar, inspirado na parábola deste domingo: quando respondemos afirmativamente ao chamado do Senhor da vinha, desperta-se em nós uma consciência comunitária; encontramos outros muitos que também responderam afirmativamente; ninguém se encontra no trabalho como solitário.

O fato de ser acolhido na vinha do Senhor implica, naturalmente, ser recebido com outros, trabalhar “com outros”; o co-laborar com Ele é inseparável do “co-laborar” com tantas pessoas que trabalham em favor do Reino, constituindo assim o grande corpo apostólico de colaboradores.

Além disso, nosso “co-laborar” tem maior visibilidade quando a missão é vivida em comunidade, quando a colaboração com outros e a partilha em comum tornam-se um “modo de proceder”, esvaziando-nos de toda pretensão de sermos proprietários para sermos simples servidores. 

Assim vivido, o “trabalho colaborativo” nos faz “amigos no Senhor” e se converte em espaço de companheirismo e em oportunidade única de encontro e comunhão com outras pessoas, movidas pelo mesmo espírito; o trabalho se revela lugar de humanização, e não lugar de competitividade e agressão.

 “Trabalhar” com os outros, inspirados e animados pelo Espírito de Jesus, é o que torna “espiritual” nossos atos, nossos pensamentos e orações, nossos trabalhos, nossa vida inteira.

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 20,1-16

 

Na oração: Que o Senhor da vinha alargue nossos corações para que possamos saborear, desfrutar e agradecer sua bondade e seu amor para com todos.

“Por que afligir-se em comparações? Não queira ser o melhor, se certamente não é o pior. Contente-se por ser diferente na missão que recebe para que algo em você passe a enriquecer os outros.

Deixe-se acompanhar pela eterna surpresa e, encantado, exercite a divina criatividade” (Frei Cláudio)

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Deus perdoa em nós

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 24º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?” (Mt 18, 33)

 

O evangelho deste domingo traz a última parte do “discurso comunitário” (Mt 18), totalmente dedicado ao perdão, que não é uma formalidade a ser cumprida, mas uma atitude fundamental e permanente, por meio da qual o(a) seguidor(a) de Jesus prolonga o modo de proceder do Pai. 

Deus, na sua essência é perdão, e a comunidade cristã é o lugar privilegiado da visibilização desse perdão.

Jesus tem plena consciência que sua comunidade de seguidores não é constituída de “perfeitos”, mas de pessoas frágeis e limitadas e que só o perdão pode sustentar os vínculos entre elas.

Pouca gente, mesmo entre cristãos, compreende o sentido profundo do perdão.

A maioria pensa que é uma forma de anistia do sentimento, esquecimento, ato interno capaz de compreender o ofensor e desculpá-lo no fundo do coração misericordioso; para uns o perdão significa passar por cima de um erro ou violência, deixando o agressor ir embora; para outros, o perdão é até imoral.

Jesus colocou no perdão fraterno uma das características do ser cristão; ao perdoar-nos, Deus cria em nós um  coração novo, feito de acordo com o Seu, capaz de perdoar à sua maneira; não pode dar o perdão quem não tem consciência de tê-lo recebido; a capacidade de perdoar é diretamente proporcional à expe-riência de ser perdoado. Não perdoar é resíduo de poder que fica em mãos de pessoas fracas.  A verdade é que o perdão exige uma grande liberdade interior.

O perdão é a aceitação do outro tal qual ele é. Uma das formas mais importantes do perdão é desejar que cada um encontre seu lugar para ser o que é. O perdão, pela superabundância que implica, revela, no outro, recursos desconhecidos, que ele permite atualizar.

O perdão é movimento, é expansão de si, é des-centramento e impulso em direção ao outro. O prefixo “per” é o mesmo que encontramos nos verbos per-correr, per-durar, per-fazer..., e leva à plenitude a ação expressa pelo verbo. O perdão é o dom realizando-se no supremo grau de sua gratuidade; é dom em excesso.

Nesse sentido, perdão é um estilo de vida, uma atitude de quem não se prende ao que o outro merece e nem se escandaliza com sua miséria. “Devemos perdoar como pecadores, e não como justos”. 

Por outro lado, o perdão, que tem como fonte o coração do Pai, faz aparecer a verdade mais profunda de nós mesmos, nos faz recuperar uma estima radical que elimina todas as nossas sensações de inferioridade.

Antes de tudo, o perdão nos revela nossa culpa e, ao mesmo tempo, nossa dignidade.

Faz-nos compreender nosso êrro, mas é também mensagem eficaz de estima e de confiança: em sua compaixão, Deus confia em nós e nos torna novamente dignos de seu Amor. O milagre é exatamente esse: poder reconhecer nossa própria fragilidade e permanecermos serenos; descobrir-nos pecadores sem desesperar-nos e deprimir-nos; sentir-nos re-criados,porque perdoados; dignos de estima porque reconci-liados.

Seu perdão é gesto criativo e redentivo: continua a criar em nós um coração novo.

A ação do Deus que perdoa não está em função do passado, mas a serviço do nosso futuro.

Perdoar é re-criar. Deus nos re-cria a cada instante. Cada dia que passa é um perdão sempre novo, pessoal, criativo, mas também discreto e silencioso.

Inspirado pela compaixão do Pai, o(a) seguidor(a) de Jesus vive em contínua atitude de perdão( 77x 7). Perdoar não é um gesto rotineiro, não é um costume de cada dia: é, antes de tudo, flor escondida, única e original, que floresce cada vez no duro terreno da fragilidade humana e do auto-domínio, sem se deixar determinar pelos sentimentos negativos que podem brotar.

Isto indica que as pessoas que têm por hábito o perdão, que vivem segundo a ética do perdão, deparam-se raramente com uma longa lista de coisas para perdoar, pois elas não guardam estas listas.

Elas não estão preocupadas com os insultos, as agressões e outras expressões de violência. Elas não nutrem sentimento de ressentimento pelo mal-feito a elas. Ao invés disso, cultivam a perspectiva que Jesus tinha em relação aos malfeitores.

Quando alguém perguntou a Mahatma Gandhi, grande líder indiano da não-violência, se ele tinha perdoado todas as ofensas recebidas, declarou: “Nada tenho que perdoar a ninguém, porque nunca ninguém me ofendeu”. A ofensa é objetiva; considerar-se ofendido ou não é subjetivo. Gandhi simplesmente não considerou a ofensa como ofensa.

O maior dano de uma ofensa – frequentemente maior que a própria ofensa – é que ela contamina nossa liberdade de sermos nós mesmos, pois percebemo-nos involuntariamente dominados pela raiva e ressentimentos interiores (uma espécie de veneno emocional que penetra todo nosso ser) que exercerão uma influência velada, mas poderosa sobre quase todos os aspectos de nossa vida.

Perdoar é aceitar a responsabilidade por nossa maneira própria de olhar a vida e as relações entre as pessoas. Se a mágoa provocou uma desconfiança fundamental em relação aos outros, quem perdoa deve questionar essa atitude.

No entanto, a libertação das emoções negativas é possível porque no perdão começamos a ver o outro muito mais do que simplesmente alguém que foi culpado pela ofensa ou mágoa.

“Perdoar... é a única reação que não apenas reage, mas age de forma nova e inesperada, não se deixando condicionar pelo ato que a provocou e libertando assim de suas consequências, tanto o que perdoa como o que é perdoado” (Hannah Arendt)

De fato, o perdão nunca se encaixa confortavelmente dentro dos padrões naturais do comportamento humano. Ele não nasce espontâneo dentro do coração do ser humano.

O perdão viola as sensibilidades sociais, e sempre fará isso. O perdão transgride.

O perdão não é um gesto fácil; o perdão é um gesto ... “inumano”, porque toda a nossa impulsividade natural vai em direção contrária a ele.

Representa considerável avanço em relação ao mais primitivo desejo de vingança. 

Sabemos que, no nível mais primitivo, o desejo humano não visa o perdão, mas a retaliação, o revide.

Perdoar é ir além do princípio de retaliação. Por isso é uma atitude atrevida e ousada.

O perdão representa a inovação: ele ataca, com todo vigor, aquilo que parece ser uma lei de nossa história. Isso porque a lógica que regula as relações inter-humanas é regida pela lei do mais forte, ou, no melhor dos casos, pela lei da reciprocidade, da equivalência, como norma de justiça.

Perdão não é esquecimento do passado, é o risco de um outro futuro que não aquele imposto pelo passado ou pela memória ferida. É convite à imaginação para responder com um gesto inovador e criativo a quem causou dano ou ofensa. É preciso aventurar-se no encontro com o outro.

O perdão “inventa” uma atitude não prescrita e nem prevista em nenhum manual de comportamento.

O cristianismo é tão revolucionário que exige do ser humano não apenas a grandeza de compreender e desculpar o ofensor, mas a capacidade de amá-lo. O perdão é superlativo do amor. 

Reinhold Niebuh descreveu o perdão como a “forma final do amor”. Perdão é amor que reconstrói o passado e que só Deus podia inventá-lo. O perdão nos configura à imagem de Deus.


Perdão não é só sobre esquecer o que houve: 9 pontos para levar em conta -  20/02/2020 - UOL VivaBem

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 18,21-35

 

Na oração: 

Joan Chittester chama o perdão “o mais divino dos atributos divinos”. “Perdoar é ser como Deus”, afirma ela.

- Fazer “memória” dos momentos em que você experimentou a força criativa do perdão do outro, ou foi presença por onde fluiu o verdadeiro perdão.