sexta-feira, 3 de julho de 2026

Mansidão e humildade, atributos que nos humanizam

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 14º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“... sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29)

 

Jesus nos diz muito pouco, em primeira pessoa, sobre si mesmo. O que sabemos dele descobrimos através dos olhos de um cego que vê, de um paralítico que corre a contar aos outros sobre Ele, de uma mulher que vibra diante da bondade d’Ele...

Mas, no evangelho deste domingo, através de uma explosão de profunda gratidão, Jesus deixa transparecer sua essência; manifesta sua verdadeira identidade através destes dois atributos, tão humanos e divinos: mansidão e humildade.

Jesus, ao revelar sua identidade como “manso e humilde de coração”, está manifestando estas virtudes como sintonia com o sentir e atuar do Deus Pai. Seus discípulos são chamados a romper o círculo de ódio, intolerância, cólera, agressão, prepotência, domínio, arbitrariedade; são convidados a abandonar “os jogos de poder” e sua dinâmica de revide e vingança. Para isso é preciso ativar as bem-aventuranças da mansidão e da humildade, escondidas nas profundezas do coração.

Somos formados(as) no discipulado de “Jesus manso e humilde de coração”. Este é um aprendizado que se dá no decorrer de toda uma vida de seguimento do Bom Pastor. Ao referir-se a si mesmo como manso e humilde de coração, Jesus nos oferece a graça de uma profunda identificação com Ele e um dinamismo constante de transformação pessoal e comunitária.

mansidão parece ser a chave de leitura de todas as bem-aventuranças; é a característica existencial que dá estilo e autenticidade ao ser puro de coração, promotores de paz, misericordiosos, etc...

A bem-aventurança da mansidão é o gesto profético para o diálogo e a busca de soluções diante dos conflitos atuais. “A finalidade do caminho espiritual está na pessoa mansa”.

“Mansos” – em grego “praeis” – não são aqueles que buscam evitar a prepotência e o orgulho (como uma atitude meramente interior), senão aqueles que se despojam de todo poder diante dos olhos do mundo; são aqueles que não oprimem a ninguém, nem tiram partido (de sua situação), nem pensam na vingança nem na violência para alcançar seus objetivos. São os pacientes e generosos de coração.

Manso e humilde de coração, portanto, é quem vive distanciado de seu ego e nem se identifica com ele.

É manso, sobretudo, quem se apresenta diante de Deus, de mãos vazias. A pessoa mansa é alguém que não confia no poder humano, mas entrega-se nas mãos de Deus.

Só quem se entrega ao Pai pode ser manso com seu irmão. Apresenta-se, então, diante dos outros, desarmado, não como quem quer levar vantagem, mas como quem está disposto a “estar com os outros”. E nisso manifesta uma força diferente e misteriosamente eficaz: a força de carregar o peso dos outros, de lavar-lhes os pés, de estar disponível para os serviços...

mansidão é tão decisiva que só ela é capaz de transformar o coração do ser humano, tornando-o aberto para Deus e, ao mesmo tempo, transforma o duro coração de pedra no misericordioso coração de carne.

 “A raiz básica de nossa crise cultural reside na aterradora falta de ternura, de mansidão, de caridade e de cuidado de uns para com os outros, de todos para com a natureza e o nosso próprio futuro” (Boff).

Esta virtude, manifestada na bem-aventurança, é a forma mais delicada do amor, da suavidade, que é paciente e serviçal, não é egoísta, tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta...

A terra resiste ao violento; ela não pode se doar ao violento. Em Tagore, a não-violência é exercida sem esforço. Quando ele anda pelos campos, acaricia o solo. Ele tem uma espécie de doçura natural. A doçura é o respeito: é respeitar o que se toca, o que se vê, o que se escuta. A doçura é força, é o domínio sobre o instinto de violência que há dentro de si. Existe um grande segredo na doçura: ela é realmente uma bem-aventurança, um atributo humanizador que quebra toda pretensão do domínio sobre os outros.

mansidão está profundamente unida à humildade, a atitude mais importante para viver de maneira cristã. A paciência, como arte para a vida serena, também está emparentada com a mansidão.

A mansidão, a ternura, a humildade cristã ultrapassam a violência amarga e a insípida fraqueza. Elas revelam a solidez de um ser firme nos seus fundamentos, que acolhe o dom de sua vida e aceita a si mesmo, caminhando sempre para o melhor; é ser senhor de si, não para defender-se, mas para doar-se.

mansidão é a face externa ou o direito da humildade, como diz S. Bernardo: “é a humildade do exterior, assim como a humildade é a mansidão de dentro”. É um ser em estado de doação. É o despojamento pelo amor e o desejo do bem do irmão. Seu melhor sinal é que seu cuidado se dirige antes aos fracos, aos pequeninos, aos desamparados do que aos fortes e aos poderosos. Nunca faz carga sobre os infelizes e, tal como Jesus Cristo, é capaz de vencer o mal com o bem.

A mansidão, tal como a ternura, não é fraqueza, mas sinal de maturidade e liberdade interior; é um dos tantos valores com os quais o Senhor tem enriquecido a natureza humana, um dom presente em cada um.

Os mansos e humildes se destacam porque são senhores de si, e isto nos indica um nível sólido de maturidade e de equilíbrio. Não se deixam afetar pelos ventos da superficialidade, da vaidade e do prestígio.  Vivem uma pacífica solidez em si mesmos, sem necessidade de atacar nada nem a ninguém. Com muito pouco, tem tudo porque se possuem a si mesmos.

Vivem no instante presente, desfrutam e agradecem a vida. Experimentam que sua força está em sua debilidade, apoiado no centro indestrutível de seu eu sagrado, seu ser essencial que se sabe envolvido pela Presença. São o melhor exemplo do rosto amoroso de Deus, contemplativos na ação.

São pessoas que sorriem a partir do coração, que aprenderam a escutar e transmitem verdadeira paz.

Em definitiva, as pessoas mansas e humildes têm uma grande força interior na confiança de se sentirem nas mãos de Deus. Quem vive a mansidão leva a sério a afirmação: “Deus me ama imensamente; logo, deposito minha total confiança n’Ele”.

O manso e humilde de coração não enfrenta os outros como se fossem seus inimigos. Respeita-os e os valoriza porque sabe que também foram criados à imagem de Deus. Vivem com a expectativa de que sempre aprenderão algo mais, graças às experiências que Deus traz à sua vida. Mostram que o amor de Deus é para todas as pessoas, sem distinção.

Em contraposição ao orgulho dos mestres e entendidos de Israel, Jesus aparece oferecendo humildemente seu caminho: “pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.

Jesus se dirige aos que estão abatidos e levam pesadas cargas impostas por uma religião centrada na lei e no templo. Há tantas cargas pesadas que continuam sendo impostas nos ombros de tantos inocentes, sobretudo por aqueles que se dizem “representantes” de Deus e que controlam as pessoas através da cultura do medo, das mortificações estéreis, do legalismo doentio, da culpa mórbida, da ameaça do “inferno” ...

É preciso aprender de Jesus a viver como Ele. Ele não complica nossa vida; pelo contrário, torna-a mais clara e mais simples, mais humilde e mais sadia. Oferece descanso. Não propõe nunca a seus seguidores algo que Ele não tenha vivido. Convida-nos a segui-lo pelo mesmo caminho que Ele percorreu. Por isso pode entender nossas dificuldades e nossos esforços, pode perdoar nossas fragilidades e erros, animando-nos sempre a nos levantar e a viver continuamente em clima de gratidão.

Basta ter o coração aberto para perceber o quanto “Deus é bom para conosco”, como nos envolve com ternura, sem esquecer-se das pequenas coisas, ajudando-nos assim a alcançar as grandes. 

Tudo é ocasião para contemplar, entre as cores cinzas da vida cotidiana, a cor do Amor de Deus.


MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO – Diocese Oliveira


Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 11,25-30

 

Na oração: 

Eis o tempo para agirmos com mansidão e humildade no palco da história sacudida pelos ventos do ódio, da intolerância, da vaidade! 

- É sobretudo no clima da oração que a gratidão nasce com naturalidade e espontaneidade nos corações mansos e humildes, nas pessoas conscientes de que aquilo que recebem não é por mérito ou retribuição. Tudo é gratuidade.

- Disse Jesus: “Venham a mim todos os que estão cansados e abatidos, e eu vos aliviarei” Quais são seus cansaços? O que os provoca: o trabalho pelo Reino ou seus interesses pessoais, seus egoísmos? Onde e como você busca alívio para meu cansaço?

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Pérolas Inacianas - Dia 3: O desapego em Montserrat

"Determinou deixar as suas vestes e vestir-se das armas de Cristo... foi passar a noite diante do altar de Nossa Senhora de Montserrat."

(Santo Inácio de Loyola - Autobiografia, 17-18)

 

Recuperado e decidido a mudar de vida, Inácio iniciou sua jornada como peregrino. Ao chegar ao famoso Mosteiro de Montserrat, ele realizou um gesto profundamente simbólico: confessou os pecados de toda a sua vida, despiu-se de suas roupas nobres de cavaleiro, entregou-as a um homem pobre e vestiu uma túnica rústica de saco. Naquela mesma noite, vigiou em oração diante da imagem da Virgem Negra, deixando ali sua espada e seu punhal.

Para nós, Montserrat representa o momento litúrgico do desapego. Mudar de vida exige espaço; não podemos abraçar o novo de Deus se nossas mãos continuam cheias das velhas seguranças, vaidades e ilusões de controle. Inácio nos ensina que a verdadeira liberdade espiritual nasce quando temos a coragem de identificar quais são as nossas "armaduras" modernas ( a exemplo do status, do apego à opinião alheia ou do orgulho) e as deixamos aos pés do Senhor.

Nos Passos de Inácio | Ano Inaciano

 

Para colocar em prática hoje:
O que você precisa deixar para trás para caminhar com mais leveza na presença de Deus? Identifique um apego material, um hábito nocivo ou uma atitude orgulhosa e faça o propósito firme de desapegar-se disso hoje, oferecendo essa renúncia em oração.


- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

Pérolas Inacianas - Dia 2: As leituras que transformam

 "Lendo a vida de Nosso Senhor e dos santos, pensava comigo: 'E se eu fizesse o mesmo que São Francisco e São Domingos?'" (Santo Inácio de Loyola - Autobiografia, 7)


Durante sua longa convalescença, Inácio pediu livros de cavalaria para passar o tempo, mas na casa de sua família só havia dois volumes disponíveis: A Vida de Cristo e a Legenda Áurea (a vida dos santos). Sem outra opção, começou a lê-los. Foi nesse tédio forçado que uma semente foi plantada: ele percebeu que as leituras mundanas o deixavam alegre no momento, mas seco e insatisfeito depois; já as leituras sagradas deixavam seu coração em paz, consolado e cheio de energia duradoura.

Este episódio marca o início do discernimento inaciano. Ele descobriu que aquilo que consumimos com nossa mente, seja um livro, uma série, as redes sociais ou conversas cotidianas, pode alimentar ou adoecer nosso interior. A espiritualidade inaciana nos convida a sermos guardiões da nossa atenção, percebendo o impacto real daquilo que deixamos entrar em nosso imaginário e como esses conteúdos afetam nossa paz interior no longo prazo.


Conheça a história de Santo Inácio de Loyola

Para colocar em prática hoje:
Faça uma pausa e analise o conteúdo que você consumiu nas últimas 24 horas (redes sociais, notícias, conversas). Como você se sente após esse consumo: agitado, ansioso e seco, ou inspirado, em paz e motivado a fazer o bem? 

Escolha ler ou assistir a algo que eleve seu espírito hoje.

 

- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Pérolas Inacianas - Dia 1: O Cavaleiro ferido

O sétimo mês do ano é o mês do nosso querido Inácio de Loyola. E nesse mês vamos revisitar e celebrar sua vida, seus escritos, seus ensinamentos e seu legado. Iniciamos hoje uma série de pérolas inacianas ao longo desse mês. A nossa primeira pérola está aqui:

 

"Até aos vinte e seis anos de idade, foi homem dado às vaidades do mundo e principalmente se deleitava no exercício das armas, com um grande e vão desejo de ganhar honra."  (Santo Inácio de Loyola - Autobiografia, 1)

 

Ninguém nasce "santo"! Antes de se tornar o mestre do discernimento espiritual, Íñigo de Loyola era um soldado ambicioso, focado em prestígio, vaidade e glórias humanas. Tudo mudou em 1521, na batalha de Pamplona, quando uma bala de canhão quebrou sua perna direita e despedaçou seus planos de futuro. No leito de dor, forçado a parar e a ficar imóvel por meses, ele começou a olhar para dentro de si e a perceber que os antigos sonhos de cavalaria já não preenchiam sua alma como antes.

 

Para quem já caminha na espiritualidade inaciana ou está descobrindo-a agora, este primeiro dia nos lembra que Deus se comunica conosco a partir da nossa realidade concreta, inclusive por meio das nossas crises e "balas de canhão" diárias. Aquilo que parece o fim de um plano (a exemplo de uma demissão, um término de relacionamento, uma doença ou uma frustração profunda...) pode ser, na verdade, o início de um caminho de autêntica conversão. A ferida de Inácio foi o ponto de ruptura necessário para que a graça divina entrasse e transformasse o cavaleiro orgulhoso no peregrino humilde.

Conheça a história de Santo Inácio de Loyola

Para colocar em prática hoje:
Olhe para a sua história recente. Qual foi a última "bala de canhão" ou grande imprevisto que desestruturou os seus planos? 

Em vez de focar apenas na dor da interrupção, tente silenciar o coração e perguntar: O que Deus está tentando me ensinar ou para onde Ele está me redirecionando através dessa mudança de rota?


- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Pedro e Paulo: duas “rochas vivas”, um só Fundamento

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo.


“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15)

 

Há indicações históricas de que já no séc. IV se celebrava uma festa em honra a S. Pedro e S. Paulo. Não é fácil descobrir as razões que levaram aqueles primeiros cristãos a unir em uma mesma celebração litúrgica duas figuras humanas tão diferentes. O mais provável é porque os dois foram martirizados em Roma durante a perseguição de Nero e quase ao mesmo tempo. Pode ser também porque suas sepulturas estivessem juntas durante muito tempo. É também provável que muito cedo se descobriu a complementariedade desses dois homens. De qualquer forma, são um claro exemplo de que personalidades tão diferentes, que inclusive discutiram duramente aspectos importantes da primitiva fé cristã, pudessem ser dois seguidores autênticos de Jesus.

Mas, desde sempre, Pedro e Paulo foram considerados como as colunas da Igreja. No caso de Paulo é tão evidente que alguns estudiosos chegaram a dizer que ele foi o verdadeiro fundador da Igreja, enquanto organização. Pedro é o personagem mais destacado em todo o NT. Mesmo assim, sabemos muito pouco de sua vida. Pelo contrário, Paulo é a pessoa mais bem documentada. É o único apóstolo do qual podemos fazer uma biografia quase completa.

O texto do Evangelho da festa de hoje nos ajuda a reler nossa vida. Ali afirma-se nossa identidade: temos um nome, que carrega algo sólido, firme, resistente, que não se desfaz com as adversidades existenciais (crises, fracassos...). A identidade nos é dada por aquilo que é consistente, seguro... no nosso interior e não pelo nome em si.

Nos evangelhos sinóticos, a pergunta sobre a identidade de Jesus ocupa um lugar destacado. Ela nos oferece as respostas do povo e da comunidade de discípulos, personalizados em Pedro.

Como seus seguidores, devemos continuar a nos perguntar “quem é Jesus?”. Aqui não se trata do conhecimento externo da pessoa de Jesus: quando e como viveu, quem são seus pais, em que cultura viveu, qual era seu entorno social e religioso; nem sequer se trata de conhecer e aceitar sua doutrina.

Nosso seguimento está fundamentado no Jesus que encarna o ideal do ser humano querido por Deus, Aquele que nos revela, ao mesmo tempo, quem é Deus e quem é o ser humano. Por isso, a pergunta que devemos responder é: “que significa Jesus, para mim?”

É preciso deixar muito claro que não se pode responder a essa pergunta se não nos perguntamos ao mesmo tempo: “quem sou eu?”. O encontro com a identidade de Jesus des-vela nossa própria identidade.

Na realidade, a pergunta pela identidade é a mais importante de todas aquelas que podemos nos fazer: “Quem sou eu?”A rigor, essa é a primeira e essencial pergunta. A resposta adequada à mesma nos liberta da ignorância, da confusão e do sofrimento. Faz-nos livres e nos possibilita viver na luz.

Porque o objetivo de nossa vida não pode ser outro que o de viver o que somos. E isso não é algo que devemos “alcançar”, “conseguir” ou “conquistar” ..., mas, simplesmente, reconhecer. Trata-se de cair na conta ou compreender quem somos. Ao compreender isso, emerge a plenitude, a sabedoria e a alegria.

Dito de outro modo: a causa de muitos sofrimentos existenciais é a ignorância ou desconhecimento de nossa identidade profunda. O grande místico cristão do século XIII, Mestre Eckhart, repetia essa expressão contundente: “Meu solo e o de Deus são o mesmo”. Em outras palavras: a Rocha é o divino que nos habita. 

No caminho do Seguimento de Jesus vamos tirando os véus que bloqueiam e obscurecem nossa visão, permitindo que aflore resplandecente nossa radiante identidade.  

Como seguidores(as) de Jesus Cristo, é no encontro com Ele que é “des-velada” (tirar o véu) nossa identidade verdadeira; a humanidade d’Ele faz emergir o que é mais nobre em nós: nossa humanidade.

Todo ser humano, para além de uma identidade externa, traz em si uma identidade não contaminada, uma identidade iluminante, uma identidade que se revela como reserva de bondade, amor, compaixão... Jesus dá o nome de “Rocha”, o fundamento sobre o qual se constrói uma vida.

Assim aconteceu com os dois grandes personagens que estamos celebrando neste domingo: Pedro e Paulo.

Duas identidades diferentes, uma única missão: prolongar e fazer chegar ao conhecimento de todos o modo de ser e de viver de Jesus. Para isso foi preciso que eles se encontrassem com a verdadeira identidade de Jesus. Ao mesmo tempo, o ser verdadeiro de Jesus fez transparecer o ser verdadeiro de cada um deles. Houve inclusive uma troca de nomes: Simão/Pedro e Saulo/Paulo.

Seus antigos nomes revelavam identidades atrofiadas: “petros” significava pedregulho, pedras que se esfarelam e não servem para o fundamento de uma casa; “Saulo” era um fanático cumpridor da lei judaica e perseguidor dos primeiros seguidores de Jesus.

A missão do cristão de ser “rocha” significa: ser um humilde servidor da comunidade, livre de poderes, despojado de privilégios e honrarias, irmão(ã) maior entre os demais irmãos, laço de unidade entre os membros da comunidade, mensageiro de paz, defensor dos pobres, protetor dos excluídos, testemunho de simplicidade e exemplo de diálogo. Só assim será a “rocha” de verdade sobre a qual Jesus poderá edificar uma nova igreja.

Não podemos continuar pensando que Jesus transmitiu um “poder” a Pedro. Jesus não exerceu poder porque o poder nunca é mediação para a libertação do ser humano (seja poder político, religioso, ou qualquer outra expressão de poder).

Jesus esvaziou-se de todo poder; Ele tinha autoridade: “ensinava-lhes com autoridade e não como os escribas”. Quem tem “poder”, o centro está em si mesmo; por isso é que toda expressão de poder é violenta, exclui, decide pelo outro... A autoridade deve ser exercida no marco da visão de Igreja que o Vaticano II nos deixou, ou seja, potenciar a comunhão. É urgente que o exercício da autoridade na Igreja vá assumindo os traços característicos de uma Igreja-comunhão, Igreja-sinodalidade, Igreja-participação, Igreja-samaritana e servidora..., se quisermos ser fiéis ao “modo de proceder” de Jesus.

A Igreja é Comunidade “Sinodal” igualmente em seu “caminhar com a totalidade de seus membros”, construindo o Reinado do Pai; ninguém é excluído, ninguém é de segundo nível. Cada um dos seguidores de Jesus é tido em conta e participa ativamente. Todas as pessoas que são membros da Igreja o são em virtude do sacramento do Batismo.

Este sacramento confere a quem o recebe o dom da filiação divina, a mais alta dignidade que um ser humano pode ter. Ninguém é superior a um filho ou a uma filha de Deus. São irmãos e irmãs entre, no nível de igualdade. Se na Igreja há alguma diferença em dignidade, se alguém crê ser superior a outros, essa Igreja não é “sinodal”, é infiel a Jesus, é uma contradição ao Evangelho. Se alguma diferença em dignidade é admitida como válido, é um abuso que é preciso suprimir.

Igreja Sinodal não é simplesmente uma Igreja que faz Sínodos, reuniões. A Igreja é Sinodal pois a totalidade de seus membros, todos e todas “caminham com Jesus” no mesmo caminho, que é a construção do Reinado do Pai.

Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 16,13-19  

 

Na oração:

oração é o caminho interior que faz a pessoa chegar até o próprio “eu original”, aquele lugar santo, intocável, onde reside não só o lado mais positivo da pessoa, mas o mesmo Deus. Este é o nível da graça, da gratuidade, da abundância, onde a pessoa “mergulha” no silêncio à escuta de todo o seu ser.

Coloque-se diante da verdade de Deus, na verdade de si mesmo:

- Que resposta você daria, agora, se um repórter lhe entrevistasse e lhe perguntasse: “quem é você?”

- O que você colocaria na sua carteira de identidade que lhe diferenciasse de todas as outras pessoas? Quais 

  seriam os seus sinais digitais mais originais? Quais os seus sinais digitais divinos? (as “marcas” de Deus);

- O que em você é “rocha” consistente, fundamento inabalável?

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Nada pode destruir nosso ser essencial

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum (Ano A).


“Não tenhais medo!” (Mt 10,31)

 

O apelo “não tenhais medo!”, que aparece com insistência no evangelho deste domingo, está situada no contexto da missão. Jesus acaba de dizer a seus seguidores que serão perseguidos, encarcerados, inclusive serão mortos. No entanto, está claro que a advertência pode ser aplicada a todas as situações de medo paralisante que podemos encontrar na vida. 

Provavelmente, o medo é o que mais trava os cristãos no seguimento fiel de Jesus Cristo. O medo do vazio existencial, da noite escura da vida; o medo do futuro, do desconhecido, do não saber...; as pessoas têm medo do que pode descobrir se escuta seu coração, medo de seus próprios “infernos interiores” ou de sua beleza interior, que lhe está oculta; têm medo do novo, como se “conservar o passado” garante automaticamente a fidelidade ao Evangelho; têm medo de assumir as tensões e os conflitos que brotam do seguimento de Jesus: calam-se quando deveriam falar, inibem-se quando deveriam denunciar.

Há um medo instintivo que é produto da evolução humana. Este é imprescindível para garantir a sobrevivência de qualquer ser vivo. Seu objetivo é defender a vida, seja fugindo, seja liberando energia para enfrentar as ameaças. Este medo é natural e seria inútil lutar contra ele. Sabemos que o medo é um sentimento que brota no ser humano quando ele, diante de certas situações externas, interpreta como perigosas para sua sobrevivência. O medo é o resultado da evolução humana e, portanto, positivo. 

Mas, como seres humanos, podemos ser presas fáceis de um medo introjetado, ilusório, que nos impedem ativar nossas possibilidades de verdadeira humanidade. Este é o que nos trai e provoca transtornos constantes porque nos paralisa e nos atormenta. Com tais condicionamentos, não é estranho que a mente veja perigos por todos os lugares, instalando-nos no medo de maneira habitual, alimentando a ansiedade e trancando-nos em um cárcere interno que nos oprime cada vez mais. 

O pior é quando o medo é utilizado por aqueles que pretendem submeter o outro; ele é o sentimento fúnebre mais eficaz para dominar pessoas, grupos e nações. Todas as autoridades, civis e religiosas, utilizaram-no sempre para conseguir a submissão e a obediência de seus súditos. Não só é explorado por empresas que se dedicam a vender todo tipo de seguros, mas também pelas religiões que exploram seus seguidores, oferecendo-lhes seguranças absolutas, prêmios eternos, depois de ter-lhes infundido o medo irracional.

Também na Igreja atual há infidelidades e fragilidades, mas há sobretudo medo de correr riscos. Estamos vivendo tempos sem audácia para renovar criativamente a vivência da fé cristã.

O anúncio da Boa Notícia do Reino exige uma boa dose de coragem e ousadia; no entanto, infelizmente, o medo teve e continua tendo uma influência nefasta; muitos dirigentes religiosos caem na armadilha de potenciar esse medo e apelam para o legalismo, o moralismo, o ritualismo estéril, a ameaça...  A causa de não se atreverem a atualizar doutrinas, ritos e normas morais, é o medo de perder o controle absoluto (poder de consciência). 

As expressões religiosas de inspiração cristã continuam alimentando a falsa imagem de um Deus que é todo-poderoso, juiz universal, ameaçador..., e essa imagem está a serviço de seus interesses e poder.

Quão distante estamos do Deus Pai/Mãe de infinita misericórdia e amor, revelado por Jesus. Por isso mesmo, temos de confiar totalmente n’Ele, porque nada pode mudar seu amor e seu compromisso com seus filhos e filhas. A causa de Deus é a causa do ser humano. Não nos enganemos; colocar-nos no caminho do seguimento de Jesus é situar-nos no compromisso com as pessoas. Deus não está, com seu capricho, manejando sua criação a partir de fora e ameaçando a todos. Ele está implicado nela entranhavelmente; faz de toda a Criação sua morada. Sua vontade é imutável. 

Este medo artificial e “religioso”, em lugar de ajudar a nos defender, nos aniquila. Este medo é o contrário da fé-confiança. Se Jesus nos convida a não ter medo, não é porque nos promete um caminho de rosas. Não se trata de confiar que não acontecerá nada desagradável, ou que, se algo mau acontecer, alguém nos livrará disso. Trata-se de uma segurança que permanece intacta em meio às dificuldades e limitações, sabendo que os contratempos não podem anular o que somos de verdade. Deus não é a garantia de que tudo irá bem, mas a segurança de que Ele estará aí em qualquer situação. Quando exigimos de Deus que nos liberte de nossas limitações, estamos demonstrando que não amamos o que Deus fez.

 não é uma apólice de seguro, nem um tranquilizador, mas um desafio. A  não tira o véu do mistério, mas ensina a olhar através dele com admiração e esperança.

A verdadeira compreensão da fé prepara a mente e o coração para os riscos da vida cotidiana, sob o olhar amoroso de Deus. As pessoas se libertam do medo à medida que se fazem merecedoras da vida.

 é, na prática, a capacidade de viver num mundo de dúvida e insegurança, mas com uma promessa de verdade. fé não suprime a condição humana, a visão limitada, a mente vacilante, o coração indeciso..., mas dá ânimo e coragem de caminhar onde o chão não está firme, de ver onde o céu não está claro, de zarpar quando o mar está agitado; ela se manifesta como o poder de despertar em meio ao desânimo, de amar em meio à indiferença, de sorrir em meio à falta de compreensão.

confiança não surge de um voluntarismo a toda prova, mas de uma experiência profunda do que Deus é em nós“A finitude, quando é acolhida na verdade, não empobrece o ser humano, mas abre-o ao reconhecimento do rosto de Deus e do outro. Aliás, precisamente porque experimenta os limites – a vulnerabilidade, a dor, o insucesso –, ele pode reconhecer como inviolável a sua dignidade e a dos outros. E, na mesma experiência dos limites, continua capaz de intuir uma fraternidade maior do que ele próprio e de reconhecer a injustiça como escândalo” (Papa Leão XIV, MH n. 122)

Acolher nossas limitações e fragilidades e descobrir nossa verdadeira riqueza é o único caminho que nos faz chegar à total confiança. A confiança significa sair de nós mesmos e descobrir que nosso fundamento não depende de nós. O fato de que nosso ser não dependa de nós mesmos, não significa uma perda, mas um ganho, porque dependemos d’Aquele que é muito mais seguro que nós mesmos. Nosso passado é Deus mesmo, nosso futuro é também Deus; nosso presente está nas mãos de Deus e não temos nada a temer.

Só a ânsia de buscar seguranças e de controlar nosso próprio ser é o que nos faz entrar nesse beco sem saída que é a perturbação, o mal-estar, a insegurança, em uma palavra, o medo.

Falar de uma verdadeira confiança em Deus é nos situar em um terreno diferente porque nos obriga a quebrar as falsas imagens que temos d’Ele.

Confiar em Deus é confiar em nosso próprio ser, na vida, naquilo que somos de verdade. Não se trata de confiar em um Ser que está fora de nós e que pode nos dar, a partir de fora, aquilo que tanto desejamos. Trata-se de descobrir que Deus é o fundamento de nosso próprio ser e que podemos estar tão seguros de nós mesmos como Deus está seguro de si. Por maior que seja o motivo para temer, sempre será maior o motivo para confiar. Se cremos que Deus habita em tudo e em todos, então surgirá em nós um sentimento de total segurança, de total confiança em nós, naquilo que somos e naquilo que nós significamos para Deus.

Jesus nos convida a não ter medo de nada nem de ninguém: nem das coisas, nem de Deus, nem sequer de nós mesmos. Como seguidores(as) somos chamados(as) a superar o medo covarde, permanente, irracional, os sofrimentos imaginários, sombrios que nos tornam infelizes e nos fazem experimentar provações falsas e ilusórias. O compromisso com a proposta de Jesus sela o amor, que abole o medo da vida.


Porque é que o medo tantas vezes nos paralisa?

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 10,26-33

 

Na oração: 

Devemos estar sempre mais convencidos de que a experiência de Deus, tal como Jesus no-la oferece e comunica, infunde uma paz inconfundível em nosso coração, cheio de inquietações, medos e inseguranças. Esta paz é sempre o melhor sinal de que temos escutado, desde as profundezas de nosso ser, seu chamado: “Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais”.

- Dê nomes aos medos que estão paralisando sua vida.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Grandeza e força da sensibilidade

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 11º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas porque estavam cansadas e abatidas...” (Mt 9,36)

 

O ser humano se revela pela sua sensibilidade; cada pessoa é o que é sua sensibilidade; e cada um faz o que lhe dita sua sensibilidade.

Fazemos aquelas coisas às quais somos sensíveis e deixamos de fazer tudo aquilo a que somos insensíveis.

Mais ainda, a sensibilidade tem tanta força na vida, que acaba modificando até as convicções mais firmes e, em geral, a maneira de pensar. As situações mais importantes da vida, principalmente quando se trata de sofrimento, de bem-estar ou desfrute da vida, só podem ser administradas adequadamente com base na sensibilidade e não com base na lógica da razão.

Por isso, segundo o filósofo Lévinas “a ética é uma nova sensibilidade para com os outros”. Para ele, o “rosto” não é a simples face física, mas a expressão da humanidade e da vulnerabilidade do outro, que nos interpela e nos convoca à responsabilidade.

Aquele que é sensível diante da dignidade, dos direitos ou da dor de outra pessoa, se comportará de maneira correta com quem estiver diante dele. Do mesmo modo, aquele que é insensível diante das situações humanas com as quais se depara na vida, por muitas que sejam as ideias morais que tenha armazenado em sua cabeça, será um indigno, um indiferente diante da dor alheia, um violento.

Nesse sentido, a sensibilidade é o motor da vida e da conduta humana.

Com relação a Jesus, quando os Evangelhos tratam da sensibilidade d’Ele, utilizam o verbo grego “splagchnizomai”, referindo-se a uma emoção extrema, experimentada em determinadas situações de sofrimento, enfermidade ou exclusão.

Este verbo faz referência aos órgãos internos, às entranhas do ser humano, consideradas como a sede dos sentimentos; significa literalmente “sentir uma comoção das próprias entranhas”. Traduzimos este verbo por “ter compaixão”.

Portanto, quando os Evangelhos utilizam esse verbo, para fazer referência às relações ou comportamentos de Jesus, na realidade, o que falam é algo que diz respeito à sensibilidade oblativa d’Ele.

É importante perceber que a sensibilidade de Jesus é mencionada nos evangelhos somente quando se trata de situações de sofrimento dos outros. Jesus reagia visceralmente diante daquele pobre povo que desfalecia de fome, de exclusão e de miséria; Jesus não suportava ver pessoas passando necessidade, não aguentava a dor dos outros; sua sensibilidade não tolerava isso. 

Uma sensibilidade cristificada não se mantém quieta diante da dor e da desgraça do outro. Ao contrário, quando alguém é insensível diante de determinada situação, dizemos que permanece “indiferente” ao que ali acontece. Existe, portanto, uma equivalência clara entre insensibilidade e indiferença.

E a indiferença é tão desumanizadora quanto a violência, ou seja, a indiferença diante do sofrimento provoca tanto ou mais danos que a violência.

Sem dúvida, quem melhor se deu conta da gravidade violenta da indiferença foi Jesus, através de diferentes parábolas (o rico epulão e o pobre Lázaro – Lc 16, 19-31; o bom samaritano – Lc 10, 25-37; o juízo final – Mt 25, 31-46...). A prática da compaixão para com os empobrecidos e a crítica àqueles que geram o empobrecimento foram a causa principal da condenação de Jesus à morte e à execução na cruz.

Portanto, a sensibilidade humana diante do sofrimento ou da felicidade das pessoas não é um critério que se baseia em um princípio religioso. A sensibilidade não tem como fundamento nenhum dogma sagrado, nenhuma norma revelada nem lei sobrenatural alguma.

Por isso, pode-se dizer que se trata de um princípio ético universal, que transcende todas as culturas e religiões, de maneira que, precisamente por isso, está presente onde há humanidade.

sensibilidade é comum a todos e é prévia a toda afirmação religiosa.

Com uma “sensibilidade à flor da pele” a atuação missão de Jesus foi muito mais terapêutica que “moral” ou “religiosa”. Não é que Ele não se preocupasse com o pecado, mas, para Ele, o pecado que mais se opõe a Deus é precisamente causar sofrimento ao outro ou tolerá-lo com atitude indiferente.

Por isso, sua sensibilidade oblativa abria espaço para que prontamente se aproximassem d’Ele todo tipo de pessoas desvalidas e excluídas. O profeta da misericórdia de Deus atraía, sobretudo, aqueles que viviam afundados na miséria, os despossuídos de tudo, os que não tinham o necessário para viver. Todos tinham um traço comum: viviam em um estado de miséria do qual já não podiam escapar. Não tinham ninguém que os defendesse; eram a “massa sobrante” daquela sociedade. Vidas sem futuro.

Para Jesus, aquela miséria e sofrimento que condena as multidões à fome, à enfermidade e ao pranto não tem sua origem em Deus. Pelo contrário, toda aquela situação desumanizadora é um escândalo para Ele. Deus quer ver a todos saciados, felizes. Aqueles a quem ninguém se interessa, Deus, sim, revela sua paternidade acolhedora. Aqueles que sobram entre os homens tem um lugar privilegiado em Seu coração. Aqueles que não tem ninguém que os defenda, tem a Deus como pai/mãe providente.  Todo mundo deve saber e sentir que são os filhos e filhas prediletos de Deus.

Por isso, Jesus atuava movido pela compaixão do Pai. A compaixão é o modo de ser de Deus, sua forma de olhar o mundo, o que o move a torná-lo mais humano e habitável. A compaixão é o atributo primeiro e a atitude fundamental de Deus, exemplo de sensibilidade diante do sofrimento e da opressão. 

Os olhos de Jesus viram muita dor, miséria, violência..., e suas entranhas se comoveram. Viu o seu povo despojado da terra, dos direitos mais elementares... Jesus viu e se compadeceu; compadeceu-se e indignou-se; indignou-se e se comprometeu na transformação daquela realidade dolente; comprometeu-se porque seus olhos viram mais a fundo, mais além e sentiu que outro mundo é possível.

Na raiz de sua atividade terapêutica e inspirando toda sua atuação junto aos enfermos esteve sempre seu amor compassivo.Jesus se aproximou dos que sofriam, aliviou sua dor, tocou os leprosos, libertou os possuídos por espíritos malignos, os resgatou da marginalização e os devolveu à convivência. 

Mas o olhar de Jesus não se fixou somente na fragilidade e no sofrimento humanos. Surpreendentemente, depois de dizer que “as multidões estavam cansadas e abatidas”, Ele afirma que já chegou o tempo da colheita. Como é possível essa mudança de linguagem? Para Jesus, a colheita está aí, à vista. 

Esta afirmação supõe um segundo olhar, mais profundo que o anterior. Seus olhos não se fixaram no abandono e na miséria, mas perceberam, no meio da multidão, valores que crescem em circunstâncias nada favoráveis, uma maturidade de trigo preparado para a colheita. Esse olhar é muito mais lúcido. Atravessa a exterioridade das aparências, dos julgamentos dominantes que desqualificam o povo simples, e descobre os verdadeiros valores, a obra do Pai, o Reino que chega a todos que o buscam com tanta paixão. 

Se as multidões procuram Jesus é porque dentro delas está vivo o Reino, porque não se deixam derrotar pelas situações mais hostis e desesperadoras.

Na encíclica “Magnífica Humanitas” o Papa Leão XIV afirma:

“Cuidemos das relações! Numa época que tende a acelerar e a fragmentar, a carne humana continua a pedir para ser cuidada e reconhecida por mãos capazes de ternura, por mentes atentas e por palavras bondosas. A cultura digital multiplica as conexões e oferece novas possibilidades de encontro; no entanto, o coração humano conserva uma necessidade inalienável de proximidade. Convido a preservar os lugares e os momentos em que a presença física continua a ser decisiva: a mesa partilhada, a comunidade cristã que se reúne, a visita a quem está só, o serviço aos pobres. São sinais de uma humanidade que continua a acreditar que cada corpo é templo do Espírito e casa de Deus, e é precisamente esta aliança entre glória e fragilidade que se torna o critério para avaliar os modelos antropológicos propostos pela cultura atual” (MH n. 239).


Jesus e a Ovelha Perdida: Mensagem de Esperança | TikTok

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 9,36-10,8

 

Na oração: 

É preciso “cristificar nossa sensibilidade” para prolongarmos o ministério terapêutico de Jesus.

No calor da compaixão ativada brota o chamado de Jesus e a resposta dos seus(suas) seguidores(as). Sem compaixão, a resposta ao chamado se esvazia, o serviço se burocratiza, o seguimento vira lei.  

- Sua vivência cristã é expressão do “projeto humanizador” de Jesus ou se restringe a cumprir “ritos reli-giosos” estéreis, sem impacto na transformação da realidade injusta?

sexta-feira, 5 de junho de 2026

O chamado que nos faz retornar à nossa morada interior

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 10º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus...” (Mt 9,10)

 

Jesus realizou sua missão na itinerância, fugindo de lugares fechados e controlados; em seus deslocamentos, revelou-se aberto aos encontros surpreendentes que apareciam. Seu olhar contemplativo captava o melhor que estava escondido no interior de cada pessoa, não importava quem fosse.

Assim aconteceu com Mateus, sentado junto a uma banca, fazendo o trabalho mais odiado pelos judeus: cobrador de impostos. Todos viam nele o inimigo por excelência, pois além de ser um colaborador do império romano, aproveitava de sua função para explorar os mais fracos. 

Jesus, no entanto, olhou para o interior desse homem e viu nele um futuro apóstolo; Ele era tão imprevisível em seus movimentos de aproximação, tão resolvido, tão direto que acabou provocando espanto naqueles que o rodeavam; de modo certeiro e sem preâmbulos dirigiu-se ao homem sentado e lhe disse: “Segue-me”. O outro, impactado pelo olhar e pelo chamado de Jesus, prontamente se levantou, deixou tudo para trás e o seguiu.

Quando alguém nos convida a segui-lo, normalmente quer nos levar a algum lugar que conhece, que nos quer mostrar, que pode ser interessante para nós... No entanto, Jesus revela-se mais imprevisível ainda e, na cena seguinte, nos encontramos com a surpresa de que Ele levou Mateus à sua própria casa, sentou-se à sua mesa com publicanos e pecadores, ou seja, os conhecidos de Mateus, pessoas com quem se relacionava. Mateus devia estar atônito, sem dizer palavras; com que palavras convidaria Jesus à sua mesa? Agora é Jesus que segue Mateus: vai à sua casa e participa de uma refeição. 

Seguir Jesus significa aceitar ser seguido por Ele em seu próprio ambiente, seu espaço mais pessoal e cotidiano. A possibilidade de escutar esse “segue-me”, pessoal e intransferível, continua tendo ressonâncias em todos nós, transtornando nosso modo habitual de viver, deslocando-nos de nossas atrofias, colocando-nos em movimento, abrindo possibilidades de novos encontros...

Jesus continua se deslocando, nos busca, nos olha e nos diz: “segue-me!”. Coloca-nos em marcha na direção que nos indica e, aos poucos, nos damos conta de que nos leva justamente para o centro de nós mesmos: a casa interior. Ali se realiza o verdadeiro encontro, porque é sua própria morada. Ali é o lugar da nossa verdadeira identidade, o celeiro de nossos dons e recursos, a sede de nossas decisões vitais, o ambiente de nossas inspirações, sentimentos elevados e desejos mais nobres. O verdadeiro seguimento tem raízes no coração, porque se trata de identificação com Alguém que des-vela (tira o véu) nossa nobreza original.

Segundo o relato deste domingo, Jesus não só se dirigiu à casa de Mateus, mas sentou-se à mesa com ele, compartilhando uma refeição. Sabemos que a refeição não se reduz a uma ingestão de alimentos; é, sobretudo, ambiente privilegiado para reforçar amizade, reconstruir laços... espaço de intimidade e de acolhida.

É urgente, por isso, recuperar o lugar e o sentido da mesa. Da mesa autêntica, daquela onde há lugar para todos e a palavra flui livremente. Porque a tentação, talvez a maior do nosso tempo, é de só nos sentarmos em mesas à medida da nossa mesquinhez, onde os lugares estão contados e o assunto para a conversa está pré-definido. 

Bastou Jesus sentar-se à mesa para provocar inquietações nas autoridades religiosas. Robert Karris afirma que “Jesus foi morto por causa da forma como comia”. Foi porque decidiu sentar-se na mesma mesa com os pecadores e os rejeitados, os cobradores de impostos e as mulheres de má vida, que as autoridades religiosas da época se empenharam em reduzi-lo ao silêncio. 

Ao instaurar aquilo que os especialistas chamam “comunhão de mesa” com aqueles que estavam excluídos de todas as mesas, Jesus quebrou os esquemas de pureza e impureza que organizavam a sociedade religiosa daquele tempo. Sentou-se à mesa com quem não devia, partilhou o pão e fez circular a palavra com quem estava condenado às migalhas e ao silêncio, e isso foi-lhe fatal. “Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?”

Nós, mais de 2000 anos depois, somos filhos e filhas da sociedade mais “sentada” e “acomodada” da história. São muitos aqueles que, todos os dias, passam longas horas à mesa: mesa do trabalho, da escola, do “fast-food”, dos negócios escusos..., enfim, mesas da morte. Nunca se viveu tanto à mesa. E, contudo, com uma ironia quase cruel, esta exponencial multiplicação das mesas acaba desembocando nesta triste situação: sentamo-nos junto às mesas onde só há lugar para um. O lugar do encontro, da partilha, da conversa, tornou-se ícone do indivíduo absorto no seu trabalho, separado do mundo e dos outros, com os olhos numa tela fria. A escrivaninha matou a mesa e nós nos acostumamos bem com esta ideia. 

Pelo contrário, a mesa verdadeira é o móvel que tende a tornar-se perigoso, sobretudo para as nossas certezas. É ali que o encontro com o outro, com o diferente, pode “dinamitar” o castelo de ideias e preconceitos que construímos à nossa volta. Não dá para furtar-nos ao diálogo, ao genuíno trocar de olhares e de palavras, e isso é uma experiência radical de humanização. Sabemos de onde viemos quando nos sentamos àquela mesa, mas ignoramos ainda aonde iremos quando nos levantarmos dali.

O modo livre de Jesus agir desperta olhares julgadores por parte dos fariseus. Ele percebe a maldade em seus corações e afirma: “quero misericórdia e não sacrifício”.

A frase lapidar de Jesus, repetida e retomada de Oséias, é espantosa síntese de virada e de maturidade de quem o segue. Em Jesus, este é o sentimento básico que nos move em direção aos impuros, aos pecadores, aos fora-da-lei, à multidão dos excluídos...

Entrar no movimento da misericórdia humaniza e cristifica essencialmente a pessoa, porque a miseri-córdia constitui “a estrutura fundamental do humano e do cristão”.

A espiritualidade da misericórdia contém em si a gratuidade do relacionamento, a dimensão desinteres-sada da doação.  O misericordioso torna-se um ser realmente livre, e isso lhe proporciona profunda alegria interior. É a partir da misericórdia que ele é capaz de amar os inimigos, de fazer o bem aos que o odeiam, de bendizer os que amaldiçoam, de oferecer a outra face, de emprestar sem esperar recompensa... misericórdia recebida e experimentada é a base da atitude compassiva, não como ato ocasional mas como estilo de vida evangélico. Torna-se o fundamento e a perene inspiração de uma existência de partilha e solidariedade.

Toda a essência do Evangelho está aqui, nesta insondável confiança na possibilidade de mudança de cada um de nós, quando nos deixamos que o chamado de Jesus desperte o “aprendiz de discípulo” que nos habita; quando esse “gen” se ativa em nós, o resto vem por acréscimo: troca de lugar e de senhor, mudança de valores, sensibilidade solidária, misericórdia acolhedora, horizonte de sentido aberto... Saímos de uma vida acomodada, autocentrada, e entramos no percurso itinerante de Jesus: vida oblativa, comprometida...


21 de Setembro: Evangelho do Dia - Mt 9,9-13 - Rádio Rainha da Paz

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 9,9-13

 

Na oração:

Deixe que o chamado de Jesus desperte o(a) aprendiz de discípulo(a) que você carrega em seu interior.

- Prepare a mesa para um momento de intimidade com Aquele que não olha o exterior de sua vida, e sim para o que é mais humano e divino, escondido nos recantos de sua casa interior.

- Como seguidores(as) de Jesus e impulsionados(as) pelo seu Espírito, nós não temos mais mesas fixas; somos chamados a sair de nossas “mesas” para participar de todas as mesas.

- Reacender o “chamado fundante” é permitir ser arrancado da mesa do imobilismo e da acomodação, para peregrinar, criativamente, por entre as desafiantes e surpreendentes mesas da vida. 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Comer e beber é fácil... assimilar uma Vida é desafiante

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi).

 

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna...” (Jo 6,54)

 

Na festa de Corpus Christi há um grande perigo de alimentar a devoção à presença real de Jesus na Eucaristia desvinculada da realidade de sua Encarnação, ou seja, esquecer que Ele se “fez corpo”, viveu intensamente seu ser corporal e comprometeu-se com os corpos desfigurados e sofredores dos outros, recriando-os e impulsionando-os a uma vida mais plena.

“Corpus Christi” é festa do Corpo de Jesus e de todos os corpos. Festa do pão e do vinho, frutos da terra e da comunhão de todos os seres. A Terra é um grande organismo vivente; o universo, com suas estrelas e galáxias é um imenso corpo. Da mesma forma, cada átomo é um corpo no qual se movimenta o universo do imensamente pequeno.

Graças a este corpo que somos, a este “continente” que nos contém, podemos vincular-nos e estabelecer relações sadias com os outros, com Deus e com o grande corpo da Criação. Nossa maneira de nos relacionar está configurada por ele porque não há experiência de amor, e por isso não há experiência de Deus e dos outros, que não ocorra em nosso corpo.

Nos mistérios da Encarnação (“Deus se faz Corpo”) e da Ressurreição de Jesus (Corpo plenificado), o corpo se tornou espelho da divindade. Assim, o corpo humano começou a ocupar um lugar central.

Parece que não sabemos lidar muito bem com esse estranho e (des)conhecido que são os nossos “corpos”. Do corpo temos tido suspeitas e o temos olhado com desconfiança, maltratado e submetido a penitências e mortificações sem sentido, considerado como “fonte” do pecado.

É preciso estabelecer o diálogo com o corpo. Não se trata apenas de uma reconciliação amistosa, mas de uma descoberta radical. Ignoramos nosso corpo, apesar de tê-lo tão próximo; é preciso dar-nos conta das riquezas que tem, o muito que sabe, a importância do que tem a nos dizer, a necessidade de seu apoio e a sabedoria de sua amizade. 

Aqui está nosso melhor amigo, fielmente junto a nós, e nem sempre o percebemos.

corporeidade penetra toda a nossa auto-realização como seres humanos. O corpo não é simplesmente “organismo vivo” ou mera “exterioridade” ou mero “instrumento do espírito”. O corpo não é o túmulo da alma, mas o templo do Espírito, o lugar onde o “Verbo se fez carne”.

corpo é de importância máxima para a experiência que temos de nós mesmos e para a comunicação com Deus, com os outros e com a natureza.

A consciência do respeito e do valor ao corpo é necessária para a maturidade afetiva. A desvalorização do corpo, por outro lado, resulta na mutilação da expressividade, da comunicação de sentimentos e prejudica a maturidade afetiva-social-espiritual. 

Uma relação negativa com a corporeidade equivale a uma relação negativa consigo mesmo, com os outros e até mesmo com Deus. Não aceitar o corpo é atentar contra a vida.

Jesus, na sua vida oculta e pública, não anuncia uma verdade abstrata, separada da vida, uma lei puramente social, um princípio religioso... Ao contrário, Ele “é corpo”, isto é, vida expansiva, sentida, compartilhada. 

Os Evangelhos nos situam Jesus no nível da corporalidade próxima: é Ele que sabe olhar, tocar, sustentar, acariciar... A Luz que nutre sua Encarnação nos permite ver com maior profundidade nossa humanidade, no espelho da corporalidade d’Ele. Essa é a luz que des-vela nossos rincões mais íntimos para deixar aflorar nossa verdadeira identidade, carregada de corpo. Deixando-nos contemplar, descobrimos Sua presença e Sua provocação em cada uma de nossas células. Corpo “cristificado”.

Quando viemos ao mundo, a primeira coisa que experimentamos foi que alguém estendeu suas mãos para receber este “corpo único e precioso” que nos acompanhará toda nossa vida. Alguém nos tocou ao começar a existência e, também, seremos tocados pela última vez algum dia. 

Recebemos um corpo para permanecer nele enquanto dure nossa viagem e para estabelecer com ele “contatos humanizadores”, transmitir com nossa pele, e com todos os nossos sentidos, o afeto, o calor e a presença que precisamos para expandir esta ânsia de amor que nos habita.

Há textos do evangelho que nos convidam ao compromisso; outros à interioridade. O Evangelho de hoje nos convida a perguntar sobre o sentido de nossa corporalidade: “o que escapou de nossas mãos?”

As palavras de Jesus destacam seu caráter fundamental e indispensável: “Minha carde é verdadeira comida e meu sangue é verdadeira bebida”. Se os seus seguidores e seguidoras não se alimentam d’Ele, poderão fazer e dizer muitas coisas, mas “não tereis vida em vós”. Para ter vida dentro de nós, precisamos nos alimentar da vida de Jesus, nutrir-nos de seu alento vital, interiorizar suas atitudes e seus critérios de vida. Este é o segredo e a força da Eucaristia. Só conhecem isso aqueles que comungam com Ele e se alimentam de sua paixão pelo Pai e de seu amor a seus filhos.

A linguagem de Jesus é de grande força expressiva. A quem sabe alimentar-se d’Ele, encontra-se com esta promessa: “Esse habita em mim e eu nele”. Quem se nutre da eucaristia experimenta que sua relação com Jesus não é algo externo. Jesus não é modelo de vida que imitamos a partir de fora. Alimenta nossa vida a partir de dentro.

Esta experiencia de “habitar” e deixar que Jesus “habite” em nós pode transformar nossa fé na raiz. Esse intercâmbio mútuo, esta comunhão estreita, difícil de expressar com palavras, constitui a verdadeira relação do discípulo com Jesus. Isto significa identificação com Ele, sustentados por sua força vital.

vida que Jesus transmite aos seus discípulos na eucaristia é a que Ele mesmo recebe do Pai, que é Fonte inesgotável de vida plena. Uma vida que não se extingue com nossa morte biológica. Por isso, Jesus se atreve a fazer esta promessa aos seus: “Aquele que come deste pão viverá para sempre”.

Se em nossa vida não deixamos transparecer a atitude de Jesus, a celebração da eucaristia continuará sendo “magia barata” para tranquilizar nossa consciência. É preciso descobrir Jesus em todo aquele que espera algo de nós, em todo aquele a quem podemos ajudar a ser ele mesmo, sabendo que essa é a única maneira de abrir espaço para que Ele venha “habitar” em nós.

Quem come deste Pão, entrega-se ao dinamismo da Vida, comprometendo-se com a luta contra as forças da morte: egoísmo, violência, indiferença, omissão, ódio, intolerância desonestidade na gerência dos bens, descuido nas relações afetivas, isolamento no medo, destruição da Casa-Comum...

O decisivo é ter “fome” e “sede” d’Aquele que se faz pão e vinho. Abrir-nos à sua verdade para que nos marque com seu Espírito de criatividade, de inspiração, de compaixão... e potencie o melhor que há em nós; é deixá-lo que ilumine e transforme as dimensões mais obscuras de nossa vida que estão ainda por evangelizar, fazendo-nos mais humanos e mais evangélicos.

Um “Corpus Christi” celebrado sem escutar a voz dos pobres, vítimas inocentes de nossas estruturas injustas, será, provavelmente, só um rito que não significa nada; pior ainda, uma gravíssima profanação da vontade de Deus expressa na Encarnação de seu Filho, que veio a este mundo, essencialmente para salvá-lo. Devemos, pois, discernir o verdadeiro sentido de nossas adorações, exposições do santíssimo e procissões eucarísticas: se elas nos conduzem a uma identificação com Jesus de Nazaré e se estamos  verdadeiramente dispostos a fazer “memória d’Ele”, ou seja, fazer de nossa vida um “alimento salutar”, até desaparecer em favor dos outros. 


Maçã Em Bom Estado a Olhar Para O Seu Reflexo No Espelho ...

Texto bíblico: Evangelho segundo João 6,51-58

 

Na oração:

Sinta todo o seu corpo como um templo.

E neste templo acolha o Sopro.

Procure saboreá-lo internamente. E deixe atuar em você

a força da inspiração e da expiração para que todo o seu corpo seja iluminado e plenificado. Deixe vir a Luz e que ela penetre nas partes mais dolorosas do seu ser. Sinta que você é um corpo de argila e, também, um corpo de diamante. Simplesmente respire na presença d’Aquele que É.