sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Jesus revela o verdadeiro sentido da Cruz

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 22º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24)

 

No interior da belíssima cúpula de São Pedro em Roma está escrito em latim e grego o versículo de Mt 16,18 no qual Jesus afirma que “Pedro é Rocha” e que sobre esta rocha edificará sua Igreja, contra a qual não prevalecerão as forças do mal e da morte. Este foi o tema do evangelho do domingo passado.

Neste domingo, o evangelista Mateus acrescenta, no versículo 23, as duras palavras de Jesus contra o próprio Pedro: ao querer desviar Jesus do seu caminho, Pedro se torna pedra de tropeço, pedra de escândalo e satanás (aquele que divide).

O fato de que Pedro seja santo e pecador, já preanuncia que a Igreja também é, ao mesmo tempo, santa e pecadora, casta e prostituta, segundo os antigos padres. Isto nos liberta de todo triunfalismo idealista e espiritualista, nos faz compreender que a Igreja é humana e divina, que ela não pode ser compreendida à margem de sua história concreta, de seu peregrinar em meio às fragilidades, incoerências, perseguições e consolos de Deus. A história faz parte da eclesiologia do mesmo modo que o Jesus histórico faz parte da cristologia.

Depois de elogiar a resposta de Simão (“tu és o Cristo!) e de chamá-lo “Petra” (Rocha da Igreja), Jesus aprofunda no tema e revela sua missão messiânica (realização do Reino) na linha da entrega em favor de todos. Ele não é o Messias vencedor que se impõe, mas aquele que quer e pode dar a vida, através do perdão, do amor sem medida, do não julgamento...

Neste momento de sua vida, Jesus descobre que, na fidelidade ao projeto de Amor do Pai, Ele deve encarnar e cumprir a verdade desta mensagem: deve entregar-se por amor, não para buscar sofrimento de maneira masoquista, mas para amar, doando sua vida até o final em favor da vida.

Ele está a caminho de Jerusalém e os conflitos com os homens da religião vão se acentuando; tem consciência da presença da Cruz no horizonte de sua missão, mas leva seu compromisso com o Reinado do Pai até às últimas consequências. Ele não veio para instaurar um Reino pela força e pelo poder, mas através da entrega e do serviço. 

Sobe a Jerusalém sem armas, não para triunfar, mas para revelar seu excesso de amor a todos.

No entanto, Pedro e seus companheiros não estão sintonizados com o caminho da doação de Jesus; não aceitam essa visão e esse projeto d’Ele e, numa busca de prestígio, continuam pensando naquilo que o Reino poderia lhes dar. Pedro atreve-se a corrigir Jesus, em nome da boa tradição israelita. Mas Jesus rejeita a pretensão de Pedro e sua maneira de entender o messianismo como triunfo do poder político.

Nesse contexto, o evangelho deste domingo recolhe um duro enfrentamento que aconteceu no interior do grupo de Jesus e no início das primeiras comunidades cristãs: seu projeto de Reino tornou-se discutível.

Tudo nos permite supor que o texto atual de Mateus recolhe as controvérsias messiânicas que surgiram mais tarde nas comunidades cristãs. O próprio Jesus precisou purificar o sentido de seu envio e sua missão messiânica, a serviço do Reino, apresentando-se, em um dado momento, como Filho do Homem que entrega a vida pelo Reino. 

No texto deste domingo, Mateus não quer apresentar a oposição entre a bondade de Jesus e a maldade de Pedro, mas de traçar a novidade e as consequências daquele messianismo que Jesus iniciou na Galileia e que devia culminar em Jerusalém. Jesus des-vela (tira o véu) e propõe algo que não estava previsto nos esquemas messiânicos antigos; por isso, Pedro se opõe.

Pedro imagina que, sendo Messias, Jesus deveria subir a Jerusalém como Filho de Davi, para que Deus o coroasse Rei definitivo, instaurando o Reino em chaves de poder. Ele quer ser “Rocha gloriosa”, cheio de poder, fundamento de um edifício sem risco algum de perseguição, sem entrega da vida.

Contrariamente ao pensamento de Pedro, Jesus decide subir a Jerusalém como Filho do Homem, não para triunfar de um modo régio, mas para entregar sua vida em favor de todos.

Pedro aparece assim como “satán” (tentador) para Jesus, ou seja, como “pedra de escândalo”, que significa pedra que faz cair o caminhante ou que destrói todo o edifício.

Aqui aparece o sentido verdadeiro da Cruz, não como algo inevitável e predeterminado pelo Pai, mas como consequência de um messianismo vivido a serviço da vida.

A Cruz é um instrumento terrível da maldade, se a encaramos da perspectiva humana; e é manifestação do amor levado até as últimas consequências, se a olhamos da perspectiva de Deus.

De fato, a Redenção está na Luz e não na cruz. Esta – com minúscula – foi imposta pelos carrascos e, de nenhum modo, foi querida ou imposta pelo Pai, como expiação. 

Só podemos escrever Cruz – com maiúscula – quando ela se converte em Luz, deixa de ser ensanguentado patíbulo para se revelar como progressivo Caminho de salvação. O Deus dos cristãos se fez humano para indicar-nos o Caminho da Luz, ou seja, da humanização da pessoa e do mundo. 

Abraçar e dar sentido à Cruz supõe uma real e firme adesão aos valores pelos quais o Crucificado preferiu morrer a desertar e trair. Está aí uma multidão de mártires para comprovar isso. 

Cruz é a revelação da “escada de luz” que o Filho desceu até o fundo do poço da degradação na qual o ser humano estava (e está) metido. Só se regenera e se salva quem se empenha em subir por essa escada, vivendo os valores que o Crucificado viveu. Nem sacrifícios, nem méritos, nem pagamentos. Puro amor gratuito de um Deus que é Amor!

Na Cruz de Jesus, portanto, nos é oferecida uma nova forma de sentir o mundo“tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”. O madeiro onde Jesus de Nazaré morreu não é belo aos olhos humanos, não gratifica nossos sentidos; não é a marca de um “país católico”, nem a divisa da cristandade... É e será sempre fonte e origem de um novo modo possível de ver e ouvir o mundo, de olhar quem somos e como é Deus. 

A Cruz, com seu mistério fascinante e tremendo, com seu mistério sempre maior, não só é fonte de salvação eterna, mas princípio de uma nova sensibilidade para um novo modo de se fazer presente neste mundo. 

Não podemos venerar a Cruz e adorar o Crucificado vivendo de costas ao sofrimento de tantos seres humanos destruídos pela fome, miséria e exclusão. Se ao contemplar o rosto do Crucificado nos esquecemos das vítimas, seja qual for sua raça, cultura ou religião, então é que nosso olhar não é o olhar da fé. Segundo Jon Sobrino, a fé no Crucificado implica em fazer descer da Cruz aqueles que estão dependurados nela.

A interpretação da morte de Jesus determina a maneira de ser cristão. Ser cristão não é subir à cruz com Jesus, mas ajudar a descer das cruzes tantos crucificados que hoje podemos encontrar em nosso caminho. 

Jesus, morrendo dessa maneira, revela presente um Deus esvaziado de poder, mas repleto de amor, que é a força suprema. Nesse amor reside a verdadeira salvação. Não é a Cruz que salva, mas o amor extremo que na cruz se faz visível. A “autoridade” de Deus se manifesta na vida de quem é capaz de amar até o extremo, entregando tudo o que é.

Por isso, não podemos pensar na Cruz de Jesus desconectando-a de sua vida. Sua morte foi consequência de suas opções em favor dos últimos. Não foi uma determinação prévia por parte de Deus para que seu Filho morresse na cruz e deste modo nos livrasse de nossos pecados. Jesus foi plenamente um ser humano que tomou suas próprias decisões. Como essas decisões foram as adequadas, de acordo com as exigências de seu verdadeiro ser, elas indicaram para nós o caminho da verdadeira salvação. 

 


Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 16,21-27

 

Na oração: 

Quando levantamos nossos olhos até o rosto do Crucificado, contemplamos o Amor insondável de Deus; se O contemplamos mais atentamente, logo descobriremos nesse Rosto o rosto de tantos outros crucificados, longe ou perto de nós, reclamando nosso amor solidário e compassivo.

- Diante do Crucificado, trazer à memória os crucificados de hoje: isto o afeta? o deixa inquietos? o incomoda?

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Perguntas que despertam a vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 21º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15)

 

Responder à pergunta – “quem é Jesus Cristo?”  não é uma questão acadêmica ou dogmática que cabe aos teólogos resolver. Na história da Igreja sempre surgiram polêmicas em torno à “identidade” de Jesus, ou ao menos enquanto à formulação das afirmações sobre Ele. E a tentação sempre foi a de encerrar numa fórmula dogmática a identidade de Jesus Cristo. Infelizmente existem aqueles que acreditam ter tudo resolvido e bem atado a respeito de Deus, da Trindade, de Jesus Cristo, tocando as raias do fanatismo.

Jesus continua sendo uma pergunta aberta e mobilizadora para o todo ser humano que se encontra com Ele em todos os tempos. Também para nós, que afirmamos ser seus seguidores.

Diferentes respostas foram surgindo ao longo da história, muitas delas limitadas e pobres.

Para os antepassados que o precederam, Jesus deveria ser o Messias que lhes devolveria a liberdade política e o esplendor como povo, até que o transformaram num blasfemo. Para outros, foi um personagem histórico a mais, talvez o mais importante que outros porque fundou a religião majoritária em nosso mundo. Os discípulos o consideravam como Mestre e, até a sua morte, não entenderam quem era realmente este carpinteiro que, sem dúvida, mudou o rumo da história. Para os cristãos, e acolhendo a formulação elaborada pelos teólogos dos primeiros séculos, Ele é Deus encarnado, humano e divino ao mesmo tempo; o Homem que deixava transparecer Deus; o Deus que nos ensinou a ser verdadeiramente humanos.

pergunta dirigida aos discípulos é profundamente existencial, onde cada um procura respondê-la com a própria vida, prolongando o modo de ser e viver do próprio Jesus. A pergunta não se reduz simplesmente a isto – “Quem é Jesus para mim?”, mas, “que implicações a pessoa de Jesus tem em minha vida?”, “altera alguma coisa?”, “Ele tem algum significado para os tempos atuais?”, ou “Ele tem se tornado um personagem estranho e irrelevante na sociedade e na Igreja?”

Embora tenhamos dificuldade para saber com precisão “quem é Jesus”, ou como nos relacionamos com Ele, não podemos ocultar seu impacto na vida de uma infinidade de pessoas através dos tempos. Cada cultu-ra realçou algum aspecto da personalidade d’Ele, mas tal é sua profundidade e radicalidade que é capaz de continuar fascinando-nos e seduzindo-nos. Continua nos provocando e nos inquietando a sua liberdade, o seu modo de amar, de investir a sua vida em favor da vida, de alimentar esperança em um mundo cada vez mais fragmentado. Seu chamado continua ressoando em nossos ouvidos com a mesma urgência de sempre.

De fato, só quando nos aproximamos dos Evangelhos é que temos a chance de conhecer um pouco mais profundamente a identidade de Jesus e o que Ele realizava.: curava, se aproximava de toda pessoa, perdoava, acolhia... Esta era a “chave” de sua vida e com ela abria as portas da vida para muitas pessoas, sobretudo aquelas que estavam “trancadas”, vítimas de estruturas religiosas e sociais que desumanizavam. 

Perguntar pela identidade de Jesus é também des-velar nossa própria identidade, porque n’Ele nossa humanidade se revela. Na verdade, trata-se de nos deixar perguntar por Ele e a partir d’Ele estamos continuamente respondendo “quem somos nós”, “quem é o ser humano” ... 

Em Jesus Cristo não só se manifesta quem é realmente Deus, mas também se demonstra quem é realmente o ser humano. Ele nos ensina que a essência do ser humano encontra-se em suas raízes mais profundas, onde habita Deus.

Se denominamos “Deus” à raiz de nossa vida, sermos fiéis a nós mesmos significa viver a partir d’Ele, que habita o profundo de nosso ser. Crer começa a ser algo tão vital e habitual, como respirar. 

Abrir-nos a Deus é abrir-nos à dimensão de profundidade, à própria raiz, é cair na conta de que nossa vida está sendo criada e nos está sendo dada agora. Isto permite viver a unidade “Deus-ser humano” e acabar com todo dualismo e espaços separados. 

Ser pessoa de fé é ser pessoa em plenitude, alguém que não esquece nenhuma das dimensões de si mesma, e que vive “a partir de dentro”, a partir da Fonte da vida, a partir d’Aquele de quem procede.

Pedro, ao personificar o ato de fé cristão em Jesus - “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” -, recebe também o “dom das chaves”: chave do serviço oblativo, do compromisso solidário, da vida doada...

Não se trata do “poder das chaves”, como normalmente foi interpretada a afirmação de Jesus: “Eu te darei as chaves do Reino dos céus”.

“Ter poder”: esta expressão ecoa forte no coração humano. O poder deslumbra, ofusca e pode facilmente se tornar o centro da identidade de uma pessoa. O poder é objeto de desejo de extraordinária magnitude e fascínio para o ser humano. Seu brilho encanta e seduz; sua proposta é extremamente atraente; para muitos, ele é a suprema ambição. Não há ser humano que não tenha sido tentado pelo canto desta sereia. 

O coração humano sofre ao ver-se dominado por este desejo de poder que intoxica suas aspirações mais profundas de comunhão e solidariedade. A vida se torna uma arena de disputas. Talvez não exista relação mais ambivalente que aquela existente entre a pessoa e o poder. Os relacionamentos são balizados, tanto no espaço institucional como nos encontros interpessoais, pela disputa do poder; o exercício do poder se expressa nas atitudes de dominar, manipular, subjugar e definir tudo segundo os próprios interesses.

A perversidade do coração humano encontra no exercício do poder o campo mais propício para a revelação de suas mazelas, autoritarismos, vaidades... Em nome do poder gera-se a morte, a divisão, a solidão. 

O texto do evangelho continua dizendo: “edificarei minha igreja...”. Essa promessa, que é o centro do evangelho de Mateus, está construída sobre esta contradição: a) Jesus diz a Simão “tu és ‘petros’”: um homem chamado simplesmente de “pedra”, sem consistência, pedregulho; b) mas, em virtude da revelação que recebeu e testemunhou dizendo: ‘tu és o Cristo, o Filho de Deus’, Jesus afirma: sobre esta “Petra”, a Rocha, fundamento firme, sobre a qual será edificada sua igreja.

Dentro da tradição católica, costuma-se dizer que as duas palavras – “petros” e “Petra” -  são equivalentes, pois provém de um mesmo termo original aramaico (“cefas”); mas, no grego, elas conservam os matizes significativos, pois realçam as duas dimensões presentes em Pedro e em todo ser humano: somos seres frágeis, vulneráveis, inconstantes e incoerentes; no entanto, no interior de cada um de nós há uma nobreza, uma consistência, uma rocha... sobre os quais fundamentamos nossa vida: valores, sonhos, recursos, inspirações, criatividade ...

É ao Pedro/Petra que Jesus confia as chaves do Reino. A partir de Pedro, a entrega das “chaves” se estende a todos nós, seus seguidores. Assim como disse a Pedro, Jesus continua dizendo a cada um de nós:

“Em tuas mãos eu entrego minhas chaves; chaves para abrir as portas fechadas do teu coração, e as portas dos corações duros e insensíveis; chaves para te mostrar todos os tesouros escondidos nas arcas, baús, de teu interior, e poder tirar dali as coisas boas e nobres.

Chaves para perdoar ofensas, tirar medos e culpabilidades, para andares de cabeça erguida, sem o peso que te faz ficar encurvado. Chaves para que ninguém encontre as portas de teu caminho fechadas, mesmo que seja noite escura.

Chaves para desatar leis injustas, mandatos frios, editos e normas de senhores, chefes e prepotentes.

Chaves para libertar os que sentem que tem as portas fechadas e a vida bloqueada e formatada.

A ti te entrego as chaves; chave da vida, para que vivas tu e todos os que te cercam.

Chaves para poder abrir o que os outros fecharam – fronteiras, igrejas, religiões...,

A ti entrego as chaves: em tuas mãos ponho a Criação inteira, também meu Reino, meus sonhos e minha confiança e Palavra de Pai. Vou te constituir como porteiro de esperanças e projetos para que te sintas livre e responsável”.


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Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 16,13-20

 

Na oração:

Desça ao mais profundo do seu coração, lugar da morada do divino, onde se encontram as reservas de bondade, amor, justiça, compaixão... e que são a “rocha” de sustentação de sua vida.

- Com as “chaves da Palavra” destrave as portas da memória, da imaginação, da inteligência, dos afetos... e deixe a vida fluir, ousada e criativa.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Assunção: Maria “completou” sua existência em Deus

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria.

“Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada...” (Lc 1,48)

 

O dogma da Assunção de Maria abre para toda a humanidade uma mesma experiência pascal, atravessando, com Jesus, a morte. Maria aparece como a primeira cristã completa, pois a vemos em Jesus e por Jesus como primeira dos ressuscitados.

A Assunção deve ser entendida como plenificação de Maria em Deus; ela é “assumida” plenamente por Aquele de quem tudo procede e tudo retorna. Durante sua vida, Maria já estava realizando esta plenitude e já deixava transparecê-la através de diferentes “sins”, em diversas circunstâncias; mas, ainda não tinha chegado à sua meta; e a meta supõe sempre um caminho, o fruto passa por longo processo de maturação na árvore, a pedra preciosa cristaliza-se lentamente nas profundezas da rocha.

Maria morreu totalmente em Deus e, com sua morte, culminou sua peregrinação: ela se entregou em Deus e Ele a recebeu, no caminho e meta pascal de Jesus Cristo, toda a trajetória de sua vida, a fim de plenifica-la. Por isso, o que ressuscita é a “pessoa inteira” de Maria, tudo o que ela foi, tudo o que ela realizou. Não sobe ao “céu” a “alma separada do corpo” ou dos homens e mulheres da história, senão toda sua pessoa, com aqueles que assumem seu mesmo caminho. Assim, a Assunção é uma vitória solidária: nela, todos já vislumbramos o lampejo da eternidade.

Inspirados(as) naquela que “desapareceu” em Deus, somos chamados a antecipar a “assunção” durante nossa peregrinação terrestre, prolongando o modo de ser e viver de Maria, tão bem expresso no canto do “Magnificat”. Só seremos “assumidos” por Deus se formos capazes, como Maria, de “descer” ao chão de nossa humanidade, pessoal e coletiva, vivendo o compromisso com os mais pobres e excluídos.

Crer na Assunção de Maria implica crer na exaltação dos pequeninos e humilhados, dos pobres esquecidos, dos injustiçados sem voz, dos sofredores sem vez, dos abandonados sem proteção, dos misericordiosos descartados, dos mansos violentados...

Das “coisas” de Deus (como de tantas coisas humanas…) só podemos falar com linguagem simbólica que, mais que definir e fixar, evoca e provoca nosso olhar numa determinada direção; são como um vitral que nos conta algo da luz que brilha detrás dele. 

Podemos trazer algumas “imagens” que ajudam a nos aproximar de Maria, na festa de sua Assunção.

Se a todos nos agrada terminar as coisas que começamos, podemos pensar que com Deus acontece o mesmo, ou seja, não deixa pela metade a obra começada.

Quando alguém inicia uma construção de grande envergadura, normalmente constrói uma maquete do que será a obra e a expõe em um lugar visível para que todos possam ver como vai ser o final e, assim, desculpar os possíveis incômodos e transtornos que a construção vai trazer consigo. Ao olhá-la, contempla-se e imagina-se a obra já terminada. A festa da Assunção de Maria nos coloca diante de uma “maquete” que nos mostra a plenitude da obra de Deus na mulher que não colocou nenhuma resistência à sua ação: “Faça-se em mim...”, disse Maria, a mulher da Nova Criação, acolhendo nela a presença do mesmo Espírito que “pairava sobre as águas” (Gn 1,2) na manhã da primeira criação.

Em Maria vemos a “obra de Deus” terminada; ela não frustrou Seus planos, mas os realizou plenamente.

Podemos, também, buscar outra imagem (agora bíblica) para ilustrar o dogma da Assunção. Quando Moisés, no deserto, não sabia como convencer seu povo cansado, cético e desmotivado para entrar na terra da promessa, teve uma ideia genial: enviou exploradores a Canaã que voltaram carregados com gigantescos cachos de uvas doces, frescas e apetitosas. “Entramos no país ao qual nos enviaste; é uma terra que mana leite e mel; aqui tendes os seus frutos” (Num 13,27).

 Algo parecido faz a Igreja quando nos apresenta a Assunção de Maria. É como se dissesse: “Olhai as primícias da nova humanidade; Maria é fruto já maduro da Terra para a qual nos dirigimos! Bem-aventurados somos nós por termos recebido a boa notícia do campo onde finca suas raízes a Árvore da Vida que produz fruto semelhante. Compartilhai em voz alta esse segredo, esse sabor do vinho que enche a todos de alegria”.

A existência já glorificada de Maria e sua alegria são as mediações de que dispomos para proclamar: “É uma terra que corre leite e mel. Vale a pena caminhar em sua direção para conhecê-la”!

A partir de sua plenitude em Deus, Maria nos abençoa e nos motiva a viver em estado de peregrinação, com sentido e inspiração. Essa realidade já estava presente na sua visita à sua prima Isabel quando, cheia de alegria, deixa o seu coração transbordar através do canto do Magnificat.

O mistério da Visitação, indicado para a festa da Assunção, nos revela que Maria é a mulher que “sabe olhar” em profundidade, que deixa aflorar uma intensa “admiração”, que se alegra em seu coração, que ativa uma gratidão transbordante e vive em contínua disponibilidade: estes são os componentes da benção. 

De Maria aprendemos a sabedoria do bendizer sempre e a todos. Ela é sempre uma benção para todo(a) aquele(a) que dela se aproxima.

Maria é a mulher plena e, por isso mesmo, em seu “ser mulher” deixa Deus transparecer; ela experimenta Deus no mais profundo de si mesma e vai deixando-se viver – deixando-se fazer – a partir d’Ele. Nela descobrimos a admirável unidade humana-divina: todo o autenticamente humano é já divino e o divino é entranhavelmente humano. Esta é a unidade que nós cristãos reconhecemos e celebramos na encarnação de Jesus: “O Verbo se fez carne”. Deus é humanidade, carne, matéria...

Certamente, a Maria dos Evangelhos nada tem a ver com a imagem que muitas vezes foi apresentada como mulher passiva, silenciosa, submissa, uma imagem que, ao invés de refletir a personalidade de Maria de Nazaré, parecia ser um modelo fixo que se apresentava aos homens como mulher ideal e às mulheres para sua imitação. Como nenhum modelo é “neutro”, este também tinha a clara funcionalidade social numa cultura autoritária, machista, repressiva e patriarcalista.

O que os evangelhos nos oferecem é bem diferente. Na Anunciação, Maria aparece tomando uma decisão pessoal, numa cultura na qual a mulher era totalmente submissa. Na Visitação, encontramos uma mulher de iniciativa e com vontade própria, decidida e empreendedora. É a mulher do caminho e do serviço. Em Caná, ela é a que impulsiona Jesus para sua missão (adiantando inclusive “sua hora”). Junto à Cruz, é a mulher inteira, atravessada pela dor, mas “de pé”, profundamente humana, profundamente fiel. No Cenáculo, é a mulher “líder”, congregando os discípulos e discípulas.

Em resumo, em diferentes momentos da liturgia, Maria é apresentada a nós como uma mulher livre, contemplativa, espiritual, forte, pressurosa, com vontade e fibra, “transgressora” ...; é a mulher que ama, a mulher santa, em comunhão com Deus e cheia do Espírito. E esta é a revelação do evangelho: em todos os momentos e situações, ela deixa “transparecer” em sua vida o verdadeiro rosto misericordioso de Deus; em todos os cenários Maria nos revela que já vivia em permanente “assunção”, pois sentia-se “assumida” por Deus em todos os momentos e circunstâncias.

Nela buscamos inspiração para fazer de nossa vida uma contínua “assunção” em Deus.


ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA – 2020 – OFS SP

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Lucas 1,39-56

 

Na oração:

Esse é o motivo último da confiança e da alegria: que Deus nos olha, e nos olha com bondade. Assim canta Maria: “... o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva”. Ao se sentir “olhada” carinhosamente por Deus, Maria se revela como a mulher dos “olhos gran-des”, ou seja, é a mulher que “põe seus olhos” na realidade e nas pessoas. 

Seu hino deixa transparecer nela um júbilo profundo, nascido das profundezas de sua pessoa; hino que expressa bem a vontade oblativa de Maria, como mulher de alegria e de confiança.

- Faça memória das experiências de “assunção” em sua vida: o que mudou? quê movimentos vitais surgiram?

- Deixe emergir das profundezas de seu coração um canto de profunda gratidão por tudo aquilo que Deus já realizou, realiza e ainda realizará em sua vida.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Itinerantes do Espírito

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 19º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar” (Mt 14,22)

 

O primeiro aspecto da espiritualidade do seguimento de Jesus faz referência à itinerância. Somos seres de travessias. E isto supõe transitar por outras fronteiras. Com o evangelho deste domingo somos instigados por Jesus a retomar a dinâmica do “passar para o outro lado”. É preciso sair dos limites conhecidos.

Portanto, o primeiro apelo é para nos situar em outros espaços, para o encontro com o novo e o diferente; é preciso nos despojar de nossa maneira habitual de ser e viver e nos deixar provocar por outras maneiras de ser e viver. Na realidade, o evangelho ativa em nós uma atitude de contínuo deslocamento, não só espacial, mas também social, cultural, mental, espiritual...

Aonde ir e como ir; não sabemos; devemos transitar por onde não conhecemos, abertos às surpresas. Habitualmente sempre fazemos nossas “travessias” com uma infinidade de seguranças. Vamos aonde nós queremos, onde nós sabemos, onde nós somos alguém e onde vamos “fazer” algo. E a travessia, como seguidores(as) é ir aonde não sabemos, para estar com Aquele que tudo sabe.

Em muitas ocasiões nos sentiremos como um explorador que nunca sabe o que vai encontrar; às vezes nem encontra o que estava buscando; outras vezes, encontra o que não estava buscando. 

No entanto, “buscar” é o que dá sentido e sabor à nossa própria vida; e isso faz a diferença... 

Os verdadeiros motores da travessia sempre foram a curiosidade e a fé. A curiosidade impede ficar ancorados e a fé dá força para lançar-se ao mar e para seguir em momentos de desalento e tempestade. A curiosidade destrava, ativa a criatividade, abre as portas à fé. Quem se aventura à travessia deixa de ouvir a si mesmo para escutar os outros; só assim ele poderá compreender-se a si mesmo e alargar sua consciência ao viver novas experiências de acontecimentos, de lugares e de situações que lhe eram alheias.

“Nas viagens, não é simplesmente a cartografia da paisagem que as pessoas palmilham. A experiência da viagem é a experiência da fronteira e do aberto, de que cada um de nós precisa para ser. É a nossa consciência que passeia, descobre cada detalhe do mundo e olha tudo de novo como pela primeira vez. A viagem é uma espécie de propulsor desse olhar novo. É uma lente. É um observatório levantado sobre a vida plana”. (cf. José Tolentino Mendonça – A mística do presente – Paulinas)

No evangelho de hoje, Mateus descreve com detalhe a cena da travessia do mar: os discípulos acabaram de viver junto a Jesus um dos acontecimentos mais importantes dos evangelhos: a multiplicação dos pães e peixes. Descobriram que organizar-se segundo o modo de proceder de Jesus (a compaixão diante do sofrimento dos outros; a acolhida e atenção a todos, incluídos aqueles que não são contados na sociedade; a solidariedade e a partilha; o trabalho em equipe...) favorece a vida, sacia a fome e alegra o coração de todos. Esta experiência lhes fortaleceu e os animou, depois de um momento de dúvida no qual chegaram a solicitar a Jesus que despedisse as multidões, temerosos de se encontrarem diante de uma situação que ultrapassava suas possibilidades de resolvê-la.

O relato deste domingo nos recorda que é preciso viver sempre um novo êxodo. Aqui, vem à memórisa, como pano de fundo, a recordação dos hebreus libertados, que passaram pelo Mar Vermelho, salvos por Deus. Somos herdeiros de um naufrágio. Deus quer que vivamos para algo maior, deslocando-nos em direção a Terra prometida. Como acontece em toda travessia, quando é preciso deixar a margem conhecida e rotineira, os medos nos assaltam por todos os lados.

Não são os “fatos” que causam medo, mas o que nós pensamos e sentimos dos “fatos”.

Por isso, o medo é um câncer que ameaça à fé, ao amor e à esperança de pessoas e instituições.

medo corrói as fibras humanas, asfixia talentos, esvazia a vida e mata a criatividade.

medo encolhe o ser humano, inibe a decisão e bloqueia os movimentos em direção ao “mais”.

Os estragos do medo em nossa vida, em nossa sociedade, em nossa Igreja, em nosso mundo, são terríveis. O medo explica quase todos os desastres: complexos e angústias, ciúmes e invejas, cobiça, corrupção e mentira, o acúmulo de bens, as diferentes expressões de ódio, violência, preconceito, intolerância... Quem usa as redes sociais para expelir acusações, ódios... deixa transparecer um medo petrificado, uma insegurança enraizada..., que rompe a comunhão, cria distâncias, esfria os relacionamentos.

Quem é marcado pelo medo tem forte tendência a ver “fantasmas”; quando nos deparamos com um desafio, começamos a ver o fantasma do medo; quando nos propomos uma meta mais alta para nós, começamos a ver o fantasma do impossível; quando buscamos uma mudança na vida, começamos a ver o fantasma da insegurança; quando somos movidos a tomar o Evangelho a sério, começamos a ver o fantasma de que não é para nós; quando ouvimos o chamados à santidade, começamos a ver o fantasma de que isso é para pessoas especiais...

Nossa vida está cheia de fantasmas; o fantasma do “eu não posso”, do “é impossível”, fantasma do “que os outros vão dizer?”, o fantasma do “e seu fracassar?” ...

Também no ambiente eclesial e nas comunidades cristãs ainda hoje prevalecem muitos medos: o medo das mudanças, o medo de renunciar à posse da verdade e ao controle da moral, o medo da dúvida, o medo da heresia (sendo que a heresia mais perigosa é o medo), o medo de perder o poder e inclusive os bens, o medo da laicidade, o medo da diversidade, o medo do pluralismo, o medo da liberdade, o medo da presença feminina, o medo da perspectiva de gênero, o medo do ser humano em seu horizonte tão aberto, o medo do Espírito livre, o medo do novo, o medo da morte..., em uma palavra o medo da vida. A Igreja se encontra talvez na maior travessia de sua história, carregada de medos, dúvidas, apegos...: 

Como Igreja, temos medo de viver e caminhar sobre o mar em nossos frágeis barcos. Não nos damos conta de que eles podem ir a fundo se continuamos colocando neles pesos e mais pesos. 

Temos medo e, por isso, buscamos seguranças. Temos medo de que se afunde nosso edifício de certezas e por isso elevamos muralhas, colocamos trancas nas portas, destruímos pontes... Temos medo e transformamos a barca dos discípulos de Jesus em uma grande fortificação, feita de doutrinas, leis e imposições, de brilhos exteriores e de seguranças falsas. Ou a Igreja se liberta de seus medos ou perecerá com eles.

Somos condenados a viver mergulhados no medo, no nível pessoal, social, eclesial?

É preciso levantar velas, observar o horizonte, reorientar a rota ... Mas há uma certeza: a presença d’Aquele que viveu em contínua itinerância, guiado pelo Espírito do Pai.

Hoje a Palavra nos dá a oportunidade de reconhecer nossos próprios medos para acolhê-los a partir da confiança absoluta de que Jesus, o Senhor, caminha ao nosso lado até nas situações mais limites e dolorosas. No encontro sereno com Ele podemos experimentar que nos estende sua mão para que não nos afundemos em nossos temores e dificuldades. Ele nos dá a força necessária para arriscar-nos por aqueles caminhos que nos parecem intransitáveis.

Sigamos adiante com os olhos fixos não em nós mesmos, nem sequer em nossa pequena ou grande barca, mas no Senhor que conduz a História e nossos passos, no Filho de Deus que nos impulsiona a entrar sempre no fluxo da travessia, com a finalidade de anunciar sua Boa Nova “no outro lado do mar”.


Expectativas ante el Sínodo

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 14,23-33

 

Na oração: 

Na “barca do ego” nos sentimos facilmente sacudidos por todo tipo de ondas, cheios de medos e vendo fantasmas ao nosso redor. Mas, os medos e fantasmas se dissipam quando saímos das interpretações que nossa mente faz das coisas e nos ancoramos no nosso verdadeiro “eu sou”, nossa identidade profunda, aquela que nos faz entrar em sintonia com todos os seres, habitados por uma presença providente.

- A oração é o ambiente favorável para acessar nossa interioridade habitada, sem nos deixar afetar pelas “ondas” superficiais da vida.

- Sua vida cotidiana está ancorada no seu “eu profundo” ou é marcada pela “tempestade”, confusão, obscuridade 

- Que medos e fantasmas perturbam sua vida, seja na relação com Deus ou com os outros?

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Compaixão e partilha: verdadeiro sentido do seguimento de Jesus

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 18º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Jesus viu uma grande multidão e encheu-se de compaixão...”; “dai-lhes vós mesmos de comer!”


 

No evangelho deste domingo, Jesus é apresentado como compaixão, saúde alimento. Mas, tudo nasce da compaixão, ou seja, a comoção diante do sofrimento dos outros, que se traduz em ajuda eficaz. Não se trata de ter uma “piedade” passageira, nem de um mero movimento voluntarista, mas de um sentimento muito mais profundo que nasce da sintonia com a situação dos outros: quando calamos o “zunzum” dos pensamentos e o vai-vém dos sentimentos, emerge a “quietude” que somos e aparece a “essência” do nosso ser, que se mostra como Amor e Compaixão.

compaixão não é um atributo que apresenta uma solução mágica e simples aos problemas, mas sim amplia nossa visão da realidade e enraíza nossas decisões e nosso compromisso com a justiça. Pois a compaixão é algo mais que uma reação diante do sofrimento alheio: ela impulsiona à abertura e permite nos colocar no lugar ou na perspectiva do outro, hábito saudável no campo das relações humanas. 

Este foi o sentimento que balizou e deu a tônica no exercício da atividade de Jesus: a compaixão.

compaixão, que tomou conta do seu coração, era fruto do corajoso deslocamento para a margem, para a necessidade do outro. Os Evangelhos destacam os profundos sentimentos de humanidade, compaixão, empatia, ternura e solidariedademisericordiosa de Jesus. Porque amou e foi amado, o coração d’Ele experimentou a alegria e a tristeza, a felicidade e a saudade, a ternura e o sofrimento...

Assim era o Seu coração: feito com as fibras da fortaleza e da coragem, entrelaçadas com as fibras da compaixão e da ternura. Através de seus sentimentos Jesus revelou o rosto humano e misericordioso do Pai. 

A compaixão e a partilha são a chave de toda identificação com Jesus. É preciso sempre insistir nisto, porque é o tema central de todo o evangelho; no entanto, a maioria dos cristãos esquece essa realidade e se fecha em ritualismos estéreis, mortificações e penitências sem sentido, em devoções pessoais que não a move a viver numa atitude de abertura aos dramas dos outros.

Em vez de unir as forças para eliminar em sua raiz a fome no mundo, só vem à mente fechar-se no próprio “bem-estar egoísta”, levantando barreiras cada vez mais degradantes e desumanizadoras. Em nome de que Deus despede-se as pessoas para que afundem em sua miséria? Onde estão os seguidores e seguidoras de Jesus? Por que a compaixão está cada vez mais ausente dos ambientes ditos cristãos?... 

Por isso, o ponto focal do relato deste domingo está nas palavras de Jesus: “dai-lhes vós mesmos de comer!” Provocados por Ele, os discípulos se dão conta do problema e pensam na lógica “comercial”. Como tantas vezes dizemos ou pensamos, também eles disseram entre si: “o problema é deles, que resolvam!” 

Jesus, no entanto, rompe com toda lógica egóica e lhes propõe uma solução muito mais ousada.

Os discípulos lhe informam que “só temos aqui cinco pães e dois peixes”. Não importa. O pouco basta quando há partilha com generosidade. 

Jesus mobilizou seus discípulos para que fossem mediadores efetivos frente à fome do povo. É como se Ele dissesse a eles: “mobilizem e despertem as pessoas para que coloquem em comum os pães e peixes que trouxeram e eu os abençoarei! Que ninguém coma sozinho, pois o alimento é dom do Pai para todos! Vivei em contínua partilha se quiserem ser meus discípulos!”

Ele continua pedindo a seus seguidores para que se ofereçam a serem agentes da solidariedade, oferecendo o que são e tudo (o pouco) que tem. Então, a ração de três pessoas (cinco pães e dois peixes), se converte no incentivo para que todos tragam de sua pobreza e todo o povo de Deus possa ser alimentado, que é o que simboliza os “doze cestos”. 

 “Quanto o pobre acredita no pobre, já poderemos cantar: Liberdade!” (canto salvadorenho).

A fome é um problema demasiadamente sério para vivermos despreocupados e deixar que cada um procure resolver sua situação. Não é o momento de nos separar, mas de unir nossas forças e ativar a criatividade para partilhar entre todos o pouco que cada um traz, sem excluir ninguém.

A cena do evangelho deste domingo não deveria continuar sendo chamado “multiplicação dos pães”, e sim, “partilha, divisão, distribuição dos pães”. O que aconteceu não foi um “milagre”, como o entendemos normalmente. Em nenhum dos relatos se diz que os pães e os peixe se “multiplicaram”. 

É preciso ter em conta que, naquele tempo, quando as pessoas partiam em viagem, não podiam se reabastecer pelo caminho; por isso, iam provisionadas de alimento para não passarem fome. Os apóstolos tinham “cinco pães e dois peixes”, o necessário para passar o dia. O encontro com Jesus e seu apelo – “dai-lhes vós mesmos de comer” - impulsionou a todos para que colocassem em comum o que tinham levado; aqui estamos diante de um exemplo de resposta à generosidade que Jesus pregava. Esse é o verdadeiro “milagre”: a partilha solidária. E onde há partilha não há mais fome.

Onde há partilha, aí também se visibiliza a “bênção” de Deus, pois tudo procede d’Ele, tudo é dom para todos. Uma das experiências mais plenificantes de Israel é a de reconhecer que a benção de Deus lhe concede vida, fecundidade, proteção. Dizer “bênção” é dizer presente, dom gratuito. A raiz hebraica do verbo “bendizer” significa poder de fertilidade ou de crescimento (cf. Deut. 28,1-14).

A benção é o termo que condensa a riqueza e a originalidade da tradição na qual Jesus aprendeu a orar.

Ao dizer, “bendito seja Deus, Senhor do Universo...”, Jesus reconhece o Pai como origem de tudo o que existe, reconhece o mundo como um dom que deve ser acolhido e reconhece os outros como irmãos com os quais procura participar do único banquete da vida.

“Bendizer significa revelar a última identidade das coisas, sua profunda interioridade, que consiste em fazer entrar em relação com o Criador” (Carmine di Sante). Os objetos, a atividade, o trabalho, as relações... podem se tornar opacos e ser ocasião de desencontro; mas a benção faz com que a realidade se torne translúcida: ilumina nossa visão e a faz chegar até Deus, que é sua origem.

Abençoar é também o verbo central da Eucaristia e a medula de nossa vida. Quando dizemos “eucaristia” estamos recolhendo toda a herança de benção, de louvor e de agradecimento transbordante que percorre todo o Antigo Testamento e se revela de maneira plena em Jesus.

A eucaristia, que nasceu nesse contexto de benção, é para nós a ocasião de converter em benção nossa vida inteira, de trazer até ela todo o peso de nosso agradecimento, tudo o que em nós e em toda a Criação é chamado a se converter em canção, em “um hino à sua gloriosa generosidade” (Ef 1,14).

Portanto, a mensagem do evangelho deste domingo é muito profunda. Cada vez que partilhamos o pão, partilhamos a vida e Deus, que é Vida-Amor, se faz presente. Não há outra maneira de nos identificar com Deus e de mover os outros a se aproximarem d’Ele. A Eucaristia é memória desta atitude de Jesus que se parte e se reparte. Ao partir-se e repartir-se, fez presente o Deus que é dom total. O pão que verdadeiramente alimenta não é o pão que comemos, mas o pão que se doa.

A mais importante cerimônia de nosso culto cristão está estruturada como uma refeição. O fato do nosso seguimento de Jesus desembocar numa refeição, não nos deve estranhar. O verdadeiramente importante é que nessa refeição todo aquele que tenha algo a trazer, colabora, e o que não tem nada, se sinta acolhido fraternalmente.

A referência à eucaristia pode nos oferecer uma chave importante sobre o nosso modo de celebrá-la: não tanto como o “santo sacrifício da Missa”, mas como momento festivo e prazeroso de encontro e partilha, de onde brota a compaixão ativa.

Multiplicação dos pães e peixes: 637 imagens, fotos e ilustrações stock  livres de direitos | Shutterstock

 

Texto bíblico:  Evangelho segundo Mateus 14,13-21

 

Na oração:

O mais nobre e o mais original que há em todo ser humano não é o que ele sabe ou o que tem, mas a qualidade de sua sensibilidade, que se expressa naquilo com o qual se sintoniza.

Na vivência cristã, ter uma sensibilidade com os mais excluídos e sofredores é o verdadeiramente extraordinário, fora do normal, cha-mativo... E a Eucaristia é celebração primordial para o despertar desta sensibilidade solidária.

- “Dai-lhes vós mesmos de comer!”: como este apelo de Jesus ressoa em seu coração diante do drama da fome, da violência e da concentração dos dons nas mãos de poucos?

Pérolas Inacianas - Dia 31: O legado inaciano

A tradição inaciana ensina que o modo de proceder deve se caracterizar pela busca constante da vontade de Deus mediante o discernimento, orientando o serviço para a maior glória de Deus (AMDG). 

Chegamos ao fim da nossa jornada de 31 dias, mas o caminho de Santo Inácio não termina aqui. O seu legado, que moldou o pensamento ocidental, a educação de excelência em colégios e universidades pelo mundo e a liderança de tantas figuras históricas, permanece incrivelmente atual. O “modo inaciano de proceder” é, em última análise, um convite a viver de olhos abertos, mente atenta e coração inflamado.

Ser herdeiro da espiritualidade de Inácio de Loyola é entender que a nossa conversão é diária, que o discernimento é uma postura contínua perante a vida e que fomos feitos para o Magis. Que as ferramentas meditadas ao longo deste mês nos inspirem a caminhar com firmeza, encontrando Deus em cada esquina e transformando a realidade ao nosso redor, sempre para a maior glória de Deus.


Santo Inácio de Loyola

 

Para colocar em prática hoje:

Olhando para os 31 dias que se passaram, qual ensinamento de Santo Inácio mais tocou o seu coração? 

Escolha esse ensinamento para ser a sua bússola nos próximos meses.

 

-- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Pérolas Inacianas - Dia 30: A oração Suscipe (Tomai, Senhor)

“Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, a minha memória, o meu entendimento e toda a minha vontade...” (Oração final dos Exercícios Espirituais)

 

A oraçãoSuscipe é o ápice do desapego e da maturidade espiritual. Depois de percorrer todo o caminho de conversão e discernimento, o orante percebe que tudo o que possui, seus talentos, sua inteligência, seu livre-arbítrio, foi recebido como um presente gratuito de Deus. A resposta natural a esse amor avassalador não pode ser outra senão devolver tudo voluntariamente nas mãos do Criador.

Rezar o Suscipe exige coragem extrema. Significa esvaziar as mãos e dizer: “Senhor, governa a minha vida segundo os Teus planos, não segundo os meus”. A recompensa dessa entrega total é a única coisa que realmente importa e que ninguém pode nos roubar: a graça e o amor de Deus. Com isso, somos plenamente ricos e nada mais nos falta.


Iniciamos a semana com a oração de Santo Inácio de Loyola. Que suas  palavras nos ajudem a ordenar os afetos, discernir os caminhos e buscar, em  tudo, amar e servir. 🙏✨ Repost @

 

Para colocar em prática hoje:

Reze o Suscipe de coração aberto hoje: “Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade... Dai-me somente o vosso amor e vossa graça, e isto me basta”. Que áreas ou coisas da sua vida ainda apresentam resistência de entregar nas mãos d'Ele?

 

-- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Pérolas Inacianas - Dia 29: O amor se mostra nas obras

“O amor deve colocar-se mais nas obras do que nas palavras.” (Santo Inácio de Loyola - Exercícios Espirituais, 230)

Nos Exercícios Espirituais, Inácio nos lembra de uma verdade incômoda, mas libertadora: o amor não é um sentimento abstrato, bonito apenas na teoria ou na poesia. O verdadeiro amor é prático, concreto e se manifesta nas ações do dia a dia. Falar que amamos a Deus ou ao próximo custa muito pouco; demonstrar esse amor por meio do sacrifício pessoal, do tempo dedicado e da partilha real dos bens é o que valida o nosso discurso.

O amor inaciano também é recíproco: consiste em dar e comunicar o que se tem e o que se é ao outro. Se tenho conhecimento, eu partilho; se tenho recursos, eu divido; se tenho alegria, eu contamino. É essa dinâmica de doação mútua que constrói o Reino de Deus e dá credibilidade à nossa fé em um mundo cansado de promessas vazias.

FÉ E OBRAS SEM NENHUMA CONTROVÉRSIA! | COMO UM FAROL

 

Para colocar em prática hoje:

Como compromisso do dia de hoje, faça um gesto concreto de caridade ou serviço por alguém, de preferência sem que a pessoa saiba ou sem esperar nada em troca.

 

-- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

terça-feira, 28 de julho de 2026

Pérolas Inacianas - Dia 28: “Ide e incendiai o mundo”

“Ide, irmãos, inflamai tudo e acendei o mundo com o fogo que Jesus Cristo veio trazer à terra.” (Palavras de envio atribuídas a Santo Inácio)


Ao enviar os jesuítas para as missões mais perigosas e distantes, Inácio não lhes dava recomendações burocráticas; ele os exortava a incendiar o mundo. Esse “fogo” é o próprio Espírito Santo, o zelo apostólico que não se conforma com a injustiça, com a ignorância e com a frieza espiritual. É a paixão por comunicar o amor de Deus de tal forma que as estruturas ao redor comecem a se transformar.

Nenhum cristão é chamado a ser uma brasa apagada. Fomos batizados para ser luz e calor no meio da nossa sociedade, ser “fogo que acende outros fogos”. Incendiar o mundo hoje significa levar integridade onde há corrupção, esperança onde há desespero e fraternidade onde impera a polarização. O seu testemunho coerente de vida é a faísca capaz de começar esse grande incêndio de amor.


Jubileu


Para colocar em prática hoje:

Que atitude corajosa você pode tomar hoje para defender a verdade, a justiça ou a paz em seu ambiente de trabalho ou familiar? Não tenha medo de brilhar, de ser “fogo que acende outros fogos”.