sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Bem-aventuranças: coração do Evangelho

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho do 4º Domingo do Tempo Comum - Ano A.

“Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5,12)

 

As Bem-aventuranças não são um tratado de moral nem um código de leis que se impõe de fora a cada um de nós; elas expressam simplesmente a experiência de Jesus, que vivia constantemente com os olhos bem abertos, captando a essência do ser humano. Todas e cada uma das bem-aventuranças são autobiográficas. Jesus viveu-as durante 30 anos, antes de proclamá-las. Elas são, portanto, a expressão do que constitui o centro mesmo da sua pessoa e da sua vida, dos seus sentimentos, atitudes; numa palavra, do seu mistério. Poderíamos dizer que as bem-aventuranças são o autorretratode Jesus: nelas, Ele deixa transparecer um coração pleno de vida, compassivo, solidário, pacífico, sensível à realidade...; nelas, Jesus não descreve sua felicidade particular, mas a oferta de uma vida plena e feliz a todo ser humano.

De fato, as bem-aventuranças correspondem àquilo que é mais nobre em cada ser humano; elas des-velam o mais profundo do ser humano, de toda ser humano, aquilo que coincide em toda pessoa: ser feliz, vida ditosa, prazerosa, viver a plenitude na relação pessoal. Todos coincidimos nessa busca. 

Jesus instigou seus ouvintes a expandirem sua capacidade de observar, interiorizar, descobrir e agir. Não queria pessoas tímidas, frágeis, submissas, mas pessoas inspiradas e livres para mudar o sentido da história, pessoal e coletiva.

Por mais que leiamos ou saboreemos, as bem-aventuranças sempre nos soam bem, tem sempre um sabor diferente; elas são casa que sempre nos acolhe, lugar no qual o Senhor sempre nos espera. Por isso, é um prazer escutá-las de novo neste domingo.

Fala-se de gente bem-aventurada, ditosa, sortuda. O vocábulo grego “makarios” significa justamente isso: alguém a quem a sorte lhe sorriu, que se encontrou com grande prêmio inesperado, que não sabia que tinha em sua casa um tesouro desconhecido. Por isso, ao comprovar sua sorte, se sente ditoso, agradecido, feliz, solidário.

As bem-aventuranças não descrevem um estado ideal, nem uma enumeração de prêmios recebidos por aquilo que fazemos, mas nos apresentam um horizonte alternativo. Elas são o “portal de entrada” do sermão da Montanha que nos convida a imaginar um mundo alternativo no qual a violência dê lugar à compaixão, as relações sejam justas e equitativas e todos possam ter acesso aos recursos disponíveis. Não é questão de alcançar alturas espirituais, mas de expandir a vida para tornar possível um mundo diferente, um mundo de acordo com o sonho do Reino de Deus, iniciado por Jesus.

As bem-aventuranças nos situam em um espaço alternativo, a partir de onde podemos ter uma nova perspectiva da realidade e de Deus. Este novo espaço é o que Jesus chamou Reino de Deus e as bem-aventuranças são centrais para imaginar esse lugar. As bem-aventuranças e o Reino de Deus estão de mãos dadas.

Jesus, ao proclamá-las, está nos convidando a re-criar os lugares que habitamos, está nos chamando a pensar e viver a partir de outros valores, com outras atitudes e práticas que, sem dúvida, não nos situarão nos centros de poder, mas nas margens, porque não se harmonizam com o que a maioria pensa. 

Ao escutá-las com atenção encontramos o “modo de proceder” e as atitudes sintonizadas com o coração de Deus. Portanto, quem quiser fazer parte da comunidade do Reino precisa não só valorizá-las e estimá-las, mas convertê-las em sinais de identidade cristã.

As bem-aventuranças nos movem a denunciar as guerras, a fome, o ódio, a intolerância e as injustiças de nosso mundo e a escutar os gritos dos pobres e da terra. As bem-aventuranças nos pedem que não nos deixemos determinar pela indiferença diante da dor de nosso mundo; elas nos despertam e nos fazem ver que já é hora de trabalhar em favor do bem comum das pessoas e do planeta terra. Frente o escândalo das guerras, da fome, do ódio e da mentira, as bem-aventuranças são para nós luz de esperança e sementes de uma vida nova.

Na formulação de cada bem-aventurança há duas partes: o que pede de todos nós e o que nos promete. Pede-nos: revestir-nos do modo de ser e viver de Jesus, levando uma vida centrada na partilha e na comunhão de bens, renunciando à violência, compadecendo-nos frente à dor dos outros, vivendo a autenticidade da entrega, da disponibilidade, sendo presença misericordiosa, justa, pacífica, etc... 

Promete-nos: nossa plenitude humana e divina, ou seja, o Reinado de Deus em nós.

Podemos também afirmar que cada bem-aventurança começa na “precariedade” e termina na “completude”: o vazio do ter se converte em plenitude do ser (5,3); pela sensibilidade solidária com os que padecem chega-se a ser consolado (5,4); pelo despojamento, os humildes se convertem na camada de húmus fértil que cobre a terra (5,5); o desejo de que haja justiça anuncia as primícias de uma humanidade nova (5,6); o descentramento de pôr o coração na miséria alheia se converte em capacidade para receber a misericórdia de Deus na própria miséria (5,7); a transparência do olhar que não julga nem compara, mas que acolhe incondicionalmente, se converte em percepção de que Deus está presente em toda situação (5,8); a preocupação pela paz faz partícipes de uma fraternidade sem fronteiras, nessa difícil tarefa de reconciliar os humanos (5,9); os que são fiéis a causas justas, para além dos modismos e dos interesses mesquinhos, são felizes porque tem o Absoluto dentro e fora de si mesmos, mesmo que sejam perseguidos porque se antecipam aos seus tempos, tal como aconteceu com os profetas e com o próprio Jesus (5,10-11).

Tudo isso são imagens da humanidade transfigurada a partir da humanidade desfigurada, a passagem entre o já e o ainda não. Nesse longo trajeto transcorre a existência de cada um e da humanidade inteira. Essa travessia, esta Páscoa, não se faz por outro caminho a não ser iluminando a realidade mesma na qual cada um se encontra.

No fundo, as bem-aventuranças são o caminho para descobrir a Deus em nós mesmos (nossa bondade e compaixão, nossa dimensão divina) e nos outros com quem Deus se identifica e se encarna (“foi a mim que fizestes”). Isso nos faz felizes porque encontramos o tesouro escondido: Deus em nós; somos “seres habitados” e nos parecemos com Deus em seus atributos (bondade, misericórdia, justiça...). Assim, nossa vida adquire um sentido transcendente, pleno...; nas bem-aventuranças encontramos razões para viver...

Infelizmente, a espiritualidade cristã se ocupou mais com o sofrimento do que com a alegria, se preocupou mais com mortificações, penitências, situações duras e penosas da vida do que com aquilo que nos proporciona felicidade, bem-estar e satisfação; alimentou uma religião da culpa, do medo, e se distanciou do prazer de viver, descentrado e aberto. 

E o que é a felicidade despertada pela vivência das bem-aventuranças? Trata-se de um estado de serenidade, como a capacidade de atravessar as perturbações cotidianas sem cair no desespero.

Felicidade como possibilidade de acalmar a consciência e repousar a mente muitas vezes atormentada.

Felicidade como vivência mansa, mas distante do imobilismo e da acomodação.

Nós cristãos, às vezes esquecemos que o Evangelho é uma resposta a esse desejo profundo de felicidade que habita o nosso coração. Às vezes não conseguimos ver em Cristo alguém que promete felicidade e que nos conduz até ela. Não acreditamos que as bem-aventuranças, antes que exigências morais, são anúncio de uma vida ditosa. Temos a tendência de pensar que a fé é algo que tem a ver exclusivamente com uma salvação futura e distante, e não com a felicidade concreta de cada dia.

O caminho desenhado nas bem-aventuranças pode nos fazer conhecer a felicidade vivida pelo próprio Jesus. Somente assim nossas pequenas alegrias alcançarão sua plenitude.


AMIGOS...São Anjos que nos ajudam a levantar , a caminhar ,quando já não  temos mais forças !

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 5,1-12

 

Na oração:

O melhor modo de fazer esta oração é seguir um dos “modos de orar” proposto por S. Inácio, ou seja: “Contemplar o significado de cada palavra das bem-aventuranças”.

- Reze as dimensões da vida que estão paralisadas, impedindo-lhe de viver a dinâmica das bem-aventuranças.

- Como ser presença visível das bem-aventuranças no seu cotidiano?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Tudo começou na Galileia...

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho do 3º Domingo do Tempo Comum - Ano A.

“Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia...” (Mt 4,13)

 

É muito importante para Mateus deixar claro que Jesus começa sua missão longe de Jerusalém, do templo, das autoridades religiosas, desconectando o ministério d’Ele de toda instituição religiosa.

Mas, ao mesmo tempo, quer deixar claro que a pregação de Jesus está em sintonia com a de João Batista, iniciando as duas com o mesmo apelo: “Convertei-vos, porque está próximo o Reino dos céus”.

O evangelista Mateus dedica um especial cuidado em descrever o cenário no qual Jesus vai fazer sua aparição pública. Apaga-se a voz do Batista e as pessoas começam a escutar a voz nova de Jesus. Desaparece a paisagem seca e sombria do deserto para dar lugar ao verdor e beleza da Galileia.

Jesus abandona Nazaré e se desloca a Cafarnaum, à margem do lago de Genesaré. Tudo sugere o aparecimento de uma vida nova. Galileia é cruzamento de caminhos; Cafarnaum, uma cidade aberta ao mar. A partir daqui, a salvação chegará a todos os povos.

Estamos, portanto, no início da vida pública de Jesus. O evangelho deste domingo nos apresenta cenas em um único relato: 1. A mensagem inicial de Jesus: “Convertei-vos, porque está próximo o reino dos céus”; 2. A eleição dos primeiros discípulos: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores do humano”; 3. Breve prelúdio-resumo do que vai ser a missão de Jesus: “Ele percorria por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, proclamando a Boa Notícia do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo”.

Com sua presença inspiradora, o anúncio da Boa Notícia e o compromisso em favor da vida, Jesus torna visível a realização do Reinado de Deus na terra.

Tudo começou nas periferias da Galileia, junto àqueles que viviam no mundo da exclusão: os pagãos, os perdidos, os extraviados e desgarrados, os enfermos, os necessitados... Sobre a terra há sombras de morte; reina a injustiça, a violência, a exploração.... A vida não pode crescer; há divisões e conflitos nas relações. Aqui não reina o Pai. No entanto, em meio às trevas, o povo começa a ver uma nova luz; entre as sombras da morte, começa a brilhar uma forte luz. Isso é sempre Jesus: uma Luz que brilha na escuridão do mundo.

Jesus sabia para quê e para quem estava no mundo: aliviar o sofrimento das pessoas, abrir um horizonte de sentido àqueles que estavam excluídos, despertar uma nova esperança para os marginalizados... 

Vida iluminada, inspirada e cheia de sentido.

É neste contexto “periférico” que Jesus começa sua pregação itinerante com um forte grito: “Convertei-vos, porque o reino de Deus está próximo”.  “Convertei-vos”: esta é sua primeira palavra; é a hora da conversão; é preciso abrir-se à novidade do Reino de Deus; não permanecer sentados nas trevas, mas caminhar na luz. A expressão “meta-noeo” (de onde vem “metanoya” – conversão) significa originariamente “mudar de opinião”, “retificar”, “mudar de mentalidade”. Assim, o termo grego “metanoya” fala de “outro modo de conhecer” que não é o habitual (do ego).

Contrariamente às concepções habituais que aparecem nas pregações e nos catecismos, que atribuem a este termo conotações de mortificação, remorso ou culpa, o termo original grego aponta para algo mais profundo. Trata-se de um convite para sair da rotina mental, da inércia do já conhecido ou da prisão de nossos pensamentos, falsas visões, pré-juízos, petrificações legalistas e moralistas...; só assim seremos capazes de “ver de outra maneira”; isso nos permitirá captar precisamente a realidade do Reino, ou seja, aquilo que constitui o mais secreto da realidade e nosso núcleo mais profundo. Na verdade, conversãosignifica nos deixar conduzir por Aquela presença que nos habita, nos inspira e nos abre a uma vida nova.

Neste sentido, converter-nos implica esvaziar-nos do “ego”, deixar de viver girando em volta dele, como se tratasse de nossa identidade verdadeira, e começar a olhar a realidade – a nós mesmos, os outros, o mundo – a partir de quem realmente somos, em profunda sintonia com Aquele que tudo habita e tudo unifica.

Assim entendida, a conversão é a maneira original de ver e viver daquele que se inspiram na realidade do Reino, daqueles que tomam distância de seu ego, porque compreendem que identificar-se com ele é um engano que faz “perder a vida”, como diz o próprio Jesus.

No seu sentido mais inspirador, “metanoia” não significa mudanças de hábitos e atos, mas “troca de Senhor”; é preciso ter a coragem de nos perguntar: “quem é o senhor que comanda a nossa vida?” São os falsos senhores, nosso ego inflado, nossos ídolos...? Ou Aquele que nos habita e nos torna seres transparentes, descentrados, abertos ao novo, sintonizados com a realidade...

Depois do apelo à conversão, a segunda cena do evangelho deste domingo é a eleição dos primeiros discípulos: “Vinde e segui-me”. Desde o início de sua vida pública, Jesus quis incorporar colaboradores(as) na missão de construir o Reinado de Deus na terra. Para ajudá-lo nesta missão, Jesus chamou seus primeiros discípulos e continua nos convocando hoje, pois o reinado de Deus está inacabado, enquanto houver um ser humano bloqueado em sua vida e que necessita ser despertado para despertar o “melhor” em seu interior: “o Reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17,21)

Jesus iniciou um movimento de vida, um movimento humanizador. Ele não estava preocupado em constituir uma nova religião, renovar o culto, apresentar uma doutrina mais rígida... 

Ele elegeu seus discípulos para que o acompanhassem em sua itinerância e lhe ajudassem na implantação e desenvolvimento de seu projeto. A partir desse momento, no movimento dos seguidores de Jesus, a vocação e a missão no Reino são inseparáveis. O diferencial desse movimento é que todos trabalhem em companhia-comunidade, em ajuda mútua, em equipe. 

Naquele primeiro encontro com os discípulos à beira do mar, Jesus não propôs projetos abstratos: propôs encontros com pessoas, para que nesses encontros brotasse o mais profundo e nobre que existe em cada ser humano. É preciso “pescar o humano”, porque em cada um deles está a fonte das transformações, em cada um deles pulsa o futuro. 

O final do evangelho de hoje é um resumo-antecipação das atividades de Jesus durante sua vida pública: ensinar cuidar.Palavra e cura; ditos e atos. Seus ensinamentos explicam o mistério do Reino. As curas são antecipação e “sinais” do Reino. Ele passou a vida fazendo o bem e dizendo como se faz o bem. Como bom mestre, ensina a todos nós, seus discípulos e seguidores, a fazer o mesmo e fazer como Ele o fez. 

Nossa missão é continuar a obra começada por Ele. É uma questão de atitudes e comportamentos identificados com as atitudes e comportamentos de Jesus. Nós devemos tornar presente o Reinado de Deus com nossa vida, sermos transparência da vida de Jesus, ou seja, cuidar e aliviar o sofrimento humano, sanear a vida, trabalhar por uma vida mais sadia, digna e ditosa para todos. Esta é a vida que Deus quer para todos. Nós hoje somos sua providência, seu amor e cuidado, sua presença em meio às pessoas.

Jesus continua nos convidando a trabalhar com Ele e como Ele, a viver como Ele, a ter os critérios e os valores d’Ele. Ele continua convocando pessoas que tem espírito de audácia, de energia, de criatividade, de luta, de participação, porque Deus não nos deu espírito de timidez, de covardia, de fuga... O encontro com Ele reacende as brasas da esperança, ainda latentes em nosso interior; seu modo de ser e agir alimenta as raízes de nossa existência...

Missa com as crianças: Pescadores de homens

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 4,12-23

 

Na oração:

Jesus continua transitando pelos nossos montes e lagos, com uma proposta ousada de vida (Reino) e nos convocando para compartilhar com Ele desse mesmo projeto.

- A que me sinto chamado(a) hoje? Minha vivência cristã está centrada no seguimento e identificação com Jesus ou se reduz a algumas “práticas religiosas” estéreis e sem compromisso com a transformação da realidade?

- Como “pescar o humano” no seu contexto familiar, social e religioso, marcado por tanta intolerância, ódio e preconceito? Onde está a verdadeira identidade da vida cristã?

sábado, 17 de janeiro de 2026

As “brasas” do Espírito por debaixo das “cinzas” da vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho do 2º Domingo do Tempo Comum - Ano A.


“Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, este é quem batiza com o Espírito Santo”

 

Neste início do chamado “Tempo Comum”, após a celebração do batismo de Jesus, a liturgia continua nos pedindo e nos propondo que “façamos memória”, mais uma vez, daquele evento tão significativo.

De fato, o grande protagonista da liturgia de hoje é o Espírito Santo.

As primeiras comunidades cristãs se preocuparam em diferenciar bem o batismo de João, que submergia as pessoas nas águas do Jordão, e o batismo de Jesus que comunicava seu Espírito para purificar, renovar e transformar o coração de seus seguidores e seguidoras. João Batista anunciou que o Messias batizaria no Espírito. Para João evangelista, ser batizado por Jesus de Nazaré é participar de seu destino, é já se abrir para o Espírito que pousou sobre Ele em plenitude. Jesus se deixou conduzir pelo Espírito e o seu batismo move as pessoas a entrarem no mesmo movimento do Espírito.

Sem esse Espírito de Jesus a comunidade cristã se apaga e se extingue.

“Ver” o Espírito descer, descobrir que o Espírito pousou em Jesus, é a chave do testemunho de João. Esta sensibilidade não procede de seu esforço ou de sua vida austera e sacrificada; é um dom de Deus. Por isso, João vai além das aparências. 

Nossa fé em Jesus nos leva a essa profundidade de visão, a descobrir o Espírito de Deus presente e atuando em nosso mundo, em nossa história. Esta é a consequência do tempo natalino que acabamos de celebrar.

Sabemos que o batismo é um processo; há um momento especial para seu ritual no seio da comunidade cristã. Mas a consciência de nossa identidade profunda só vai chegando lenta e profundamente.

Pode ser que chegue lentamente porque é demasiado grande para ser assimilado com rapidez. Como um bálsamo, desliza-se pela pele de nossa interioridade, impregnando cada poro, hidratando a secura de nosso coração, tão cansado de buscar fora o que já habita dentro. Somos seres habitados pelo mesmo Espírito de Jesus. É a água que abre nossa vida à “Santa Ruah”, a água que elimina o pó de nossos espaços interiores, para que sejamos capazes de compreender, pouco a pouco, quem somos de verdade.

Entrar no fluxo do dinamismo profundo da Ruah é entrar em um espaço e refúgio seguro. A Santa Ruah entende de processos e de profundidades e, se permanecemos quietos, em silêncio expectante do qual nos fala o Evangelho, Ela realiza seu trabalho de transformação de nossas vidas.

É neste movimento do Espírito em nós e através de nós onde o batismo, recebido ritualmente uma vez, adquire de novo seu significado: cresce em nós a consciência e a experiência da nossa filiação divina. E o movimento da vida começa a se expandir de novo, deixando para trás tudo o que atrofia a mesma vida: medo, solidão, sofrimento...; e, ao nos fazer passar pela água, o batismo desperta o sentido da própria existência, ativa o amor como dinamismo vital, nos possibilita respirar de novo, cura as feridas, nos faz ver o futuro com nova luz...

Sabemos muito bem que o maior obstáculo para colocar nossa vida em marcha, no seguimento de Jesus, é a mediocridade espiritual, o ritualismo estéril, o legalismo doentio... Movidos pelo “sopro” da Ruah, aspiramos, com todas as nossas forças, uma vida mais ardente, alegre, criativa, generosa, audaz, cheia de amor até o fim; em outras palavras, uma vida contagiante. Mas, tudo será insuficiente se não arde nos nossos corações o fogo do Espírito

Só o Espírito de Jesus pode tornar a vivência cristã atual mais verdadeira e evangélica; só seu Espírito pode nos ajudar a recuperar nossa verdadeira identidade cristã, abandonando caminhos que nos desviam do Evangelho; só esse Espírito pode nos dar luz e força para empreender a renovação que a Igreja precisa hoje.

Essa renovação atual não é possível quando a falta de uma espiritualidade profunda se traduz em pessimismo, fatalismo e desconfiança, ou quando nos leva a pensar que nada pode mudar, ou quando sentimos que é inútil esforçar-nos, ou quando baixamos os braços definitivamente, dominados por um descontentamento crônico ou por um esfriamento que seca a alma.

Segundo o Papa Francisco, “às vezes perdemos o entusiasmo ao esquecer que o Evangelho responde às necessidades mais profundas das pessoas”. Tudo isto temos de descobrir através da experiência pessoal de identificação com Jesus; somos seguidores de uma Pessoa, e não de uma religião. Quem não alimenta uma paixão pelo seguimento e pela vivência do evangelho logo lhe faltará a força e a criatividade.

Com Jesus chega um “novo tempo”, um tempo decisivo para a história da humanidade. “Tempo carregado” da presença do Espírito; por isso, tempo criativo, inspirador...

É Deus quem irrompe de maneira definitiva na temporalidade. A partir desse momento, a história fica dividida em dois tempos: o anterior e o posterior ao nascimento de Jesus.

Desta maneira, o “Senhor dos tempos” faz de Jesus o centro e o ponto de referência do tempo dos homens. Todos os acontecimentos do mundo, tanto passados como futuros, encontrarão seu lugar e sentido a partir do “tempo central”, que é o tempo de Jesus.

Espírito é aquele que habita o tempo, e nos habita. Estamos no tempo do Espírito que nos faz perceber o “espírito do tempo”; só assim viveremos o tempo de maneira criativa e ousada, como Jesus. Aos seus olhos, as realidades da vida cotidiana se tornavam transparências; Ele as olhava com olhos contemplativos; todas lhe falavam do Reino de Deus e do Deus do Reino que está sempre a caminho. 

Não é raro encontrar-nos numa situação na qual vivemos o tempo como um túnel, contínuo, repetitivo... Tempo que absorve, desgasta, esgota... e nos faz entrar numa frenética corrida por rentabilizar ao máximo os minutos e as horas. O tempo torna-se cada vez mais veloz, fugaz, estressante...

Diante desse tempo não há futuro auspicioso, nem esperança que se sustenta. Nesse “tempo apertado” o Espírito não consegue entrar e a nossa maneira de viver fica desabitada e estéril.

O Espírito está no coração do tempo; Ele está ali como força explosiva que dá à nossa vida nova dimensão e uma densidade de sentido à nossa existência. De agora em diante, cada um de nossos momentos está cheio de Sua presença, transformando o “cronos” em “kairós”; de agora em diante nada em nossas vidas é insignificante, nem rotineiro. A ação mais simples é transfigurada e assume uma dimensão divina. Nada é banal, nada é comum para alguém que se deixa conduzir pelo Espírito.

É nesse nível do tempo inspirador onde respiram nossos desejos, onde nossa esperança bebe, onde nossos sonhos criam raízes... É nele que podemos moldar a arte de viver.

Nossa biografia humana se estende e se distende no tempo cotidiano. Sob o impulso do Espírito queremos viver este tempo de forma extraordinária: queremos enchê-lo de sonhos, de aspirações, de criatividade. Queremos viver o tempo intensamente, vivificá-lo, cuidá-lo e artisticamente orientá-lo para aquilo que desejamos. Queremos viver de uma maneira original como tempo de sentido único, como tempo irreversível. Este “tempo presente” é oportuno, precioso e não volta mais. Não há um “segundo tempo”. “A vida não dá duas safras”.

O grande programa da vida é precisamente aprender a viver, acolhendo a novidade e a surpresa de cada tempo. Como o sedento busca a fonte, como o peregrino busca a meta, como o náufrago a orientação do farol, o ser humano vive no rio do tempo; está sempre a caminho; é sentinela do futuro.

O Espírito é “atmosfera de Deus”, “herança de Jesus” “ambiente de realização do ser humano”; n’Ele a vida adquire profundidade, consistência; n’Ele o tempo é vivido sem sobressaltos e sem pressas.

Carregamos dentro de nós o melhor da vida. Somos uma história sagrada. É preciso exercitar o olhar contemplativo, buscando “ler” a vida pessoal e comunitária com o olhar mesmo de Deus.

 

Texto bíblico: Evangelho segundo João 1,29-34

 

Na oração: 

Enquanto seguidores de Jesus, não somos homens e mulheres escravos da regularidade, dos costumes, dos horários e das normas; somos pessoas “tocadas pelo Espírito”, inspiradas por Ele. Fazer “experiência do Espírito” é abrir-nos à novidade, à criatividade, à mobilidade...

- Quem prevalece mais em sua vida: o costume, as normas, as expectativas dos outros... ou a inspiração do Espírito?

- Diante das mudanças sociais, eclesiais e pastorais..., você se vê na defensiva? É capaz de olhar com simpatia e empatia a sociedade que o cerca e ver nela os sinais do Reino? Que implicações tem o batismo na sua vivência cristã?

sábado, 10 de janeiro de 2026

Batismo: filhos(as) no Filho

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ como sugestão para rezar o Evangelho da Festa litúrgica do Batismo de Jesus.

“Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado” (Mt 3,17)

 

Celebramos hoje o verdadeiro nascimento de Jesus. Ele mesmo nos disse que o “nascimento pela água e pelo Espírito” era o mais importante. 

Jesus, já um homem adulto, aproxima-se de João Batista para ser batizado por este profeta, a quem seguramente o escutara atentamente. Provavelmente, a pregação daquele homem de aparência excêntrica, tinha provocado já “algo” no mundo interno de Jesus. Quem sabe, aquelas palavras enérgicas que João gritava com força, junto ao rio Jordão, anunciando a iminente chegada do Messias e a exigência de conversão, tenha lhe despertado uma vibração, desde o mais fundo de seu coração.

Conduzido pela mão do Pai, saiu Jesus de Nazaré e foi batizar-se junto com todos os pecadores e pecadoras de seu tempo, que acudiam a receber o banho regenerador do batismo de João.

Por isso se situou na fila dos pecadores, sem julgar ninguém e sem medo de sua própria humanidade. Assim se mostrou ao mundo e assim reconheceu sua própria vocação de entrega.

Mas Jesus, imediatamente após descer às águas do Jordão, sai do rio, passa da água como lugar da morte à água como símbolo da vida, como no Êxodo de Israel, antecipando sua Páscoa, sua “passagem” da morte à sua gloriosa ressurreição e sua ascensão ao Pai.

O encontro com João Batista foi para Jesus uma experiência que transformou sua vida: ali tomou consciência de ser o Filho amado do Pai, o Messias esperado por gerações. Por isso, depois do batismo, Jesus não voltou mais ao seu cotidiano em Nazaré; tampouco aderiu ao movimento do Batista. Sua vida passou a estar centrada num único objetivo: proclamar a todos a Boa Notícia de um Deus que quer salvar o gênero humano.

O que transformou a trajetória de Jesus não foram as palavras que escutou dos lábios do Batista, nem mesmo o rito de purificação do batismo. Jesus viveu algo mais profundo; sentiu-se inundado pelo Espírito do Pai, aquele mesmo Espírito que pairava sobre as águas no início da Criação. Jesus reconheceu a si mesmo como Filho de Deus. De agora em diante sua vida consistirá em irradiar e contagiar esse amor insondável de um Deus Pai, providente e cuidadoso.

Ao saber-se e sentir-se amado infinitamente por um Deus que o chama “Filho amado”, Jesus descobriu, para si e para todos, o eixo do equilíbrio emocional, mental, espiritual. O amor que experimentou na descida ao Jordão se transforma em chamado vocacional, em investidura para uma missão universal e libertadora.

Cessou o tempo da espera, abriu-se o céu, escutou-se uma voz. E o Homem Jesus, equilibrado pelo Amor que experimentou em seu interior, começou a transformar as mentes e corações desequilibrados por falsas religiosidades que geram temor e submissão.

batismo e as tentações de Jesus falam da profunda transformação que provocou nele uma experiência que se prolongará durante anos. Duas cenas decisivas que confirmam sua filiação divina e o que Ele devia ser para os demais. Descobriu o sentido de sua vida.

No brevíssimo diálogo entre Jesus e João Batista, Mateus expressa que Jesus rompe todos os esquemas do messianismo judaico. Não é o fato de batizar a Jesus que o Batista custa aceitar, mas o significado de seu batismo, que desloca a ideia do Deus como “juiz poderoso”, que João manifestava em suas pregações. 

Só depois de ser batizado, a partir de sua própria experiência interior, Jesus vai além da mensagem de João e começa a pregar sua própria mensagem, na qual a ideia de Messias e de Deus que o Batista havia pregado, fica notavelmente superada.

Tudo isso preparou Jesus para uma experiência única. Os céus se abriram e Ele viu claro que o Pai o confirmava como Filho e o que esperava dele.

Jesus não foi um extraterrestre de natureza divina que estava dispensado da trajetória que todo e qualquer ser humano precisa percorrer para alcançar sua plenitude. Nem sempre levamos a sério essa experiência humana de Jesus. Mas, os primeiros cristãos tomaram muito a sério a humanidade de Jesus. Falar que Jesus fez um ato de humildade ao colocar-se na fila dos pecadores, embora não tivesse pecados, é pensar em um ato teatral que não tem nada a ver com a personalidade de Jesus.

Muitas vezes, nós nos aproximamos do relato do batismo com certos pré-juizos. O primeiro, é esquecer-nos que Jesus era plenamente humano e precisou ir aclarando suas ideias e discernindo sua missão.

Em segundo lugar, o conceito de pecado e conversão não tem nada a ver com o que até então era compreendido. Entendemos a conversão como um sair de uma situação de pecado. O que é narrado no batismo é uma “autêntica conversão de Jesus”, e isso não tem que supor uma situação de pecado, mas uma tomada de consciência daquilo que significa para um ser humano alcançar a plenitude de uma meta, ainda não conseguida.

Muitos dos estudiosos da Bíblia se perguntam se Jesus tinha neste momento de sua vida uma consciência plena de sua missão, ou se a foi descobrindo pouco a pouco, através dos mesmos acontecimentos históricos que seguiram, a partir desta decisão.

Jesus, no batismo, ao receber o Espírito, é ungido, é consagrado para sua missão, é constituído Messias.

Jesus de Nazaré, a partir do batismo, é o Cristo, que significa o “Ungido”. A partir disso, compreende-se o sentido profundo da sua ida ao deserto, que Mateus narra como fruto da moção do Espírito.

Sabemos que todo ser humano sente em seu interior a força do Espírito que rompe as barreiras de seu egoísmo, que o expande para além de si mesmo, que o arranca de seus “lugares estreitos” ...

Nesse sentido, o batismo significa uma experiência de rompimento de fronteiras profundas, de deslocamento para novos horizontes, de alargamento do coração... um movimento de expansão de todo o ser. “Experiência” que implica emoção e descoberta, com sabor do risco, da criatividade, da ousadia...

Da experiência batismal emerge uma pessoa internamente reconstruída, com vontade de sair daquilo que a limita, empobrece, degrada...; é a experiência de alguém que é impelido a lançar-se, a assumir novos riscos, a deslocar-se para as novas encruzilhadas de si mesmo e da história.

Para “viver o batismo”, é preciso tornar-se velejador de mar aberto, livre e desprendido, abrir-se para o novo e diferente, deixando-se conduzir pela correnteza do rio... e “passar para a outra margem”.

Essa “travessia” exige mudança de atitude, pôr-se a caminho, êxodo, sair-de-si... Sair da margem conhecida, velha, rotineira... para encontrar a nova margem da relação, do compromisso, dos sonhos...;

lugar provocador de mudanças, de onde brotam as grandes experiências, as intuições, os ideais vitais...

Talvez por isso, também nós não tenhamos reconhecido Cristo em nosso batismo. Porque O temos buscado em outras filas, em outros rios e com outros “joãos”. Falta-nos uma iluminação do céu para escutar a voz do Pai e reconhecer a Cristo detrás de nós, ou adiante, ou ao lado, como um de tantos.

Recolhamos o essencial do relato do Batismo no qual somos convidados a escutar, como Jesus, essa Voz que indica nossa raiz divina e nossa dignidade humana, nossa identidade de filhos e filhas, cuja consequência nos compromete a olhar os outros como irmãos e irmãs, na solidariedade incondicional, na igualdade enquanto dignidade, direitos e oportunidades.

O importante para nós é buscar descobrir o que aconteceu no interior de Jesus e ver até que ponto podemos nos aproximar dessa mesma experiência.

Só aqueles(as) que se submergem nas águas amorosas da graça, saem empoderados de Espírito e filiação. E vão descobrindo o lugar, a sua missão, a sua maneira original de viver o seguimento de Jesus.

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 3,13-17

 

Na oração: 

-Oxalá, ao ler ou escutar o evangelho de hoje, sintamos uma sacudida interior e nos despertemos ao perceber que, em Jesus, todos fomos citados pelo Deus-Abbá: “tu es meu(minha) filho(a) amado(a)”.

- Oxalá, o Espírito Santo nos ajude a compreender que somos filhos(as) amados(as), não servos(as); e que fomos salvos gratuitamente. Se descobrirmos que todo ser humano é filho(a) amado(a), terá acontecido um milagre.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Epifania ou o Deus de portas abertas

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade da Epifania do Senhor (Dia de Santos Reis).

“Quando entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe” (Mt 2,11)

 

Para a Igreja do Oriente, hoje é o dia da Natividade, o dia que Jesus se manifestou como a Luz do mundo, o dia que Deus elegeu para manifestar-se a todos os homens através da pequenez do filho de Maria. 

Esta festa nos convida a descobrir a “epifania” não só em nós, mas em tudo e em todos. Tudo é transpa-rência de Deus, tudo é manifestação de Sua presença providente e iluminadora.

O evangelho de Mateus nos faz aproximar do nascimento de Jesus através de um relato original, carregado de simbolismos que nos orientam e nos ajudam a captar o verdadeiro significado deste evento divino. 

Por isso, é importante não ler o texto de forma linear, mas dando atenção aos diferentes cenários que se cruzam para ter uma visão panorâmica de tudo o que está acontecendo.

O primeiro cenário, que abre e fecha o relato, é o fato simples e cotidiano do nascimento de um menino numa pequena aldeia. Um menino em quem transparece a salvação de Deus, renovada e persistente em seu desejo de convidar todo ser humano a vivê-la.

Mas essa iniciativa divina carregada de gratuidade e ternura é vista como ameaça pelo rei Herodes e pela elite religiosa de Jerusalém que protagonizam a ação do segundo cenário. Herodes usa estratégias para cortar pela raiz a ameaça ao seu poder, quando fica sabendo que o anúncio da salvação de Deus brota a partir de baixo, da periferia, das fendas cotidianas da história.

Por sua parte, os Magos vindos do Oriente, que ignoravam os grandes desígnios divinos, só conhecidos pelos representantes religiosos de Israel, aparecem como buscadores honestos, pondo todo seu conheci-mento e seu esforço em encontrar Aquele que salva e dá vida. Para isso, não duvidam em colocar-se a caminho, em questionar sua própria verdade e arriscar tudo a partir de uma intuição do coração.

 

Os Magos, dos quais Mateus se refere, representam o dinamismo próprio das religiões que vão mais além delas mesmas; um dinamismo que é busca da verdade, a busca do verdadeiro Deus, a busca da sabedoria, a busca de um sentido para a vidaPor isso, os magos são representantes dos “buscadores”de todos os tempos. Eles deixam transparecer a verdadeira identidade de todo ser humano, que se define como buscador.

Viver é desafiador na medida que viver é buscar. A dinâmica da busca marca a caminhada humana e define os rumos da vida. Vive-se em permanente busca e só à medida que se vive para buscar é que a vida se torna, de verdade, vida, com mais sabor e sentido. O que se busca define e determina o que é a vida da pessoa. Diga-me o que você busca e lhe direi quem você é”.

 

É decisivo ter claro o que é que se busca. No supermercado da vida pode-se buscar tudo. As ofertas são muitas e são sedutoras. Viver para buscar “outras coisas” é correr o risco de perder o rumo, priorizar o menos importante, apegar-se ao que é passageiro, não perceber o que é e onde está o essencial. 

Muitas buscas, que permanecem na superfície da vida, acabam gerando prejuízos graves porque aatitude de busca, tão própria do ser humano, desemboca em algo sem sentido, sem horizonte, vazio.

É difícil alimentar o “espírito de busca” quando nossa realidade insiste na vivência do imediato,entendido como carência de um projeto de vida consistente, de uma causa mobilizadora, de uma razão por viver enraizada no coração. É difícil buscar quando alguém se encontra acomodado e satisfeito de tudo e, ao mesmo tempo, de nada. Então, para que buscar? Como despertar e alimentar a fome e sede da busca?

A força da busca que move o próprio coração exige cuidado e especial atenção. Toda busca inclui a purificação de motivações para permitir, como fruto, o encontro de tudo o que garante e promove a vida. É exercício de discernimento constante: “o quê busco? Por que busco? Tem sentido e valor aquilo que busco? Para onde me leva a força da busca?...

É preciso buscar sempre, pois é esta atitude que dá garantias de fecundidade e criatividade à vida.

 

Nesse sentido, o relato dos Magos é uma das passagens bíblicas mais belas que descrevem o sentido, o valor e a dinâmica da busca. De fato, todo o relato e todos os protagonistas são pessoas que estão em busca: Herodes e toda Jerusalém, os sumos sacerdotes e os escribas do povo e, obviamente, os Magos.Todos envolvidos na inquietante busca do Messias. 

No entanto, quanta diferença nas motivações e nos êxitos desta busca.

Herodes não é somente o cínico e perverso rei que teme pela estabilidade do seu trono. É também aquele que vive na mentira e que tem medo da verdade. Quer, portanto, buscar a verdade, mas para eliminá-la radicalmente da face da terra. Tudo faz para conservar egoisticamente o seu poder. Este é o seu ídolo e este é o seu verdadeiro deus.

Os sumos sacerdotes e os escribas sabem onde buscar a verdade, tem a Escritura, são “experts” em indagar e investigar a verdade, mas permanecem fechados e resistentes em sua posição. No fundo estão a serviço do poder e tem medo de perder seu lugar.

 

Quão diferente, contrastante e diametralmente oposto foi a atitude de busca dos Magos!

E não foi ingenuidade o fato de irem perguntar ao rei da Judéia onde tinha nascido o Rei dos judeus;foi, antes de tudo, o desejo de envolver os outros na própria busca da verdade.

Não viram grandes prodígios, mas experimentaram uma grande alegria. Compreenderam que a aventura da busca não se dá nas alturas, mas no encontro com a humanidade.

Por isso, depois de um longo e penoso percurso, encontraram-se diante d’Aquele que se humanizou. Só lhes restou “caírem de joelhos diante dele e o adoraram”. quando aqueles homens se levantaram, já não eram mais os mesmos. 

Ajoelhar-se pode parecer um gesto servil, mas, em ocasiões como esta, é um gesto de humildade. Implica descer do pódio do ego, sobre o qual ele busca subir constantemente, acreditando ser o melhor, o mais sábio, o mais famoso, o mais perfeito. De joelhos, clama-se por compaixão, ajuda, clemência, compreensão, misericórdia. E levantar-se é poder de novo estar de pé, tendo passado pela experiência da pequenez. 

Além disso, pôr-se de joelhos diante daquele menino significa abrir passagem na própria vida à ternura, à grandeza que não está em saber mais, nem ser mais forte, mas a de ser maishumano e, por isso, profundamente imagem de Deus. Ajoelhar-se diante daquele menino éacima de tudodespertar o deslumbramento, o assombro, a admiração. Quando alguém seencontra com aquele que “é” luz, parece que tudo em sua vida se torna mais luminoso, e essa luz se revela expansiva.

 

Herodes e sua corte representam o mundo do “ego” inflado, prepotente, que busca seus próprios interesses e vê ameaça por todos os lados. Tudo vale nesse mundo quando se trata de garantir o próprio poder: o cálculo, a estratégia e a mentira. Vale inclusive a crueldade, o terror, o desprezo ao ser humano e a destruição de inocentes. Apresenta a falsa imagem de ser defensor da ordem e da justiça, mas é vulnerável e mesquinho, pois termina sempre buscando um menino para matá-lo.

Para reconhecer a dignidade do ser humano, em vez de destruí-la, é preciso percorrer um caminho oposto àquele que Herodes segue.

Como os Magos saem de sua terra para buscar o Menino, nós precisamos sair de nosso “ego”, de nossas seguranças terrenas para buscá-Lo. Sem essa atitude, embora tenha nascido o Menino, embora apareça a estrela, o encontro não acontecerá.

 

Texto bíblico:  Evangelho segundo Mateus 2,1-12


 

Na oração: 

Diante de milhões de estrelas de nosso mundo que ofuscam nossos olhos, é preciso aprender a discernir aquela que nos conduz a Jesus. Nesse sentido, o relato dos Magos é paradigma de discernimento. 

- Pedir a graça de ser libertado(a) das atitudes e comportamentos que geram resistência e acomodação; e graça de saber descobrir e discernir no céu, na história e em si mesmo(a) os sinais externos, as moções interiores e os caminhos que levam ao Deus da Vida e à vida plena das pessoas que Deus ama.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Ano Novo: o “novo” que nos habita

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade da Santa Mãe de Deus, em que se celebra também a chegada do Ano Novo e o Dia Mundial da Paz.

 

“Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido” (Lc 2,20)

 


No início deste Novo Ano busquemos inspiração no relato do evangelho de Lucas sobre os pastores dos arredores de Belém, pastores que buscam, encontram e constroem a paz. Relato que quer abrir nossos olhos, despertar nossa esperança, suscitar nosso compromisso e abrir um novo horizonte de sentido na nossa vida. 

Muitas vezes costumamos cair neste erro: considerar o ano civil como um “ciclo”, como um tempo circular que volta sempre, sem mudança, repetindo-se mecanicamente.

Esta sensação de circularidade imprime monotonia e rotina à nossa vida e não corresponde ao que procla-mamos como cristãos; continuamente celebramos o Deus da surpresa, o Deus da novidade, Aquele que vai sempre à frente, que não se repete, Aquele que sustenta e impulsiona nossa história (pessoal, comunitária, mundial, eclesial...), que nos interpela e nos compromete na construção do Reino, até que Jesus (o centro de nossa vida) seja realmente “tudo em todos”.

Foi assim que os pastores, ao se deslocarem para a gruta de Belém, se depararam com a surpreendente novidade de Deus: a salvação se fez visível na margem, na periferia da vida. No rosto de uma criança recém-nascida se revelou a ternura acolhedora de Deus. O “novo” brotou do chão despojado da vida e não dos palácios, dos templos.

 

Neste primeiro dia do Ano vamos reler o relato dos pastores com a liberdade com a qual foi escrito por Lucas. É de noite. Alguns pastores velam seus rebanhos dos perigos. São pobres, marginalizados da socieda-de e do sistema religioso. Desejam a paz, a paz da justiça ou a justiça na paz. Não querem a paz do império romano, de seu poder violento. Tampouco podem esperar que algum “messias” (rei ou sacerdote) traga a paz. Que podiam eles esperar de Deus, pois são considerados como gente de duvidosa moralidade e ritual-mente impura e, portanto, excluída dos benefícios divinos do templo, gente privada do perdão e da paz divina que a religião promete? Que podem esperar do “Deus altíssimo”, invocado pelos poderosos e a quem os sacerdotes do templo imolam os cordeiros de seus rebanhos? Que podem esperar do Deus manipulado pelos mestres da lei que os exclui, por serem ignorantes e inferiores? Por acaso existe outro Deus?

E, de repente, sentem que, na noite da desesperança, uma luz os envolve e uma voz os consola. E se põem a caminho, guiados pelo coração e pela luz.

E na gruta, onde costumam guardar seus rebanhos, a luz de seus olhos se encontra com a glória da vida e do universo, encarnada no sinal mais humilde e luminoso: um recém-nascido. Nas ruínas do velho mundo quebrado, do mundo desgarrado, se acende a luz da justiça que garante a paz verdadeira, a luz da paz que gera a justiça. Nas profundezas do universo e de cada ser humano se acende e brota sem cessar um mundo novo, onde as honras não fascinam, as riquezas são compartilhadas, os poderes se rendem, um mundo onde a justiça e a paz se encontram. 

 

“Já não há mais um Deus altíssimo”, poderiam ter dito aqueles simples pastores. Não existe o Deus dos reis com seus exércitos, tronos e palácios, nem o Deus das religiões com suas doutrinas, cleros e templos. Deus é o Ser fontal de tudo quanto existe. É a Luz originária da qual tudo nasce e vive desde sempre. É a luz da energia que tudo atrai e tudo impulsiona. É a Paz na justiça, a paz ativa, terna e subversiva, que cria e re-cria tudo incessantemente, de transformação em transformação. É o Amor universal que atrai tudo e tudo impulsiona para o “novo céu e a nova terra”.

É preciso ter um coração de um humilde pastor para compreender o “mistério” da Gruta de Belém. O Deus de Jesus não é o Deus que já tem tudo preparado, atado e bem atado; não é o Deus da inércia ou da rotina, mas o Deus que faz tudo novo e, por isso, nos move à renovação permanente e nunca à acomodação. É o Deus sempre criativo que suscita o “novo” e o “surpreendente”, que não “ata” as coisas nem amarra a Criação; por isso, nos convida a sermos co-criadores e colaboradores com Ele na criação contínua através do trabalho e da ação humana. É o Deus da surpresa e da liberdade; uma liberdade humana que conduz a situações imprevisíveis. 

 

Naquela noite de Natal, numa Gruta despojada de qualquer tecnologia, aconteceu uma conexão muito especial, a melhor conexão jamais inventada. Deus, rompe as distâncias, faz-se “humano” e se põe em contato com a humanidade, sem mensagens nem mensageiros. É certo que fora anunciado pelos profetas, mas fazia muitos anos e não havia nenhum sinal extraordinário de que fosse acontecer naquele momento.

Mas, esta é a surpresa: Ele vem em pessoa, rompe as distâncias entre o céu e a terra, entre sua divindade e nossa humanidade; naquela luminosa noite, Deus, em Jesus, nascido da Virgem Maria, se faz um de nós, “um entre tantos” e nos faz partícipes de sua vida. O Verbo se humaniza para nos divinizar”; e assim recebemos a filiação divina e nos tornamos filhos e filhas de Deus.

 

O Deus do “novo” vem dar sentido e inspiração ao Novo Ano que se inicia. É Ele que desperta nossa imaginação, reacende nossos desejos e alimenta nosso espírito de busca.

Imaginação, inspiração, originalidade, criatividade... são o sal da vida e o sopro do Espírito; é o que faz sair luz das sombras e ordem da confusão; é o início de tudo.

Tudo o que é novo começa por uma inspiração e o que não é novo é apenas repetição do que já foi.

criação é privilégio do Criador. Participar de alguma maneira humilde, simples, mínima, na emoção suprema da criação primeira é o prazer mais íntimo que o ser humano pode ter sobre a terra. A criatividade e a inspiração são a faísca do divino no coração do ser humano. 

É a expressão da inspiração que, tal como vento, não se sabe de onde vem e nem para onde vai.

Por nossa conta não podemos fazer muito, apenas nos preparar, estar atentos, observar o horizonte, esperar a oportunidade. Mas quando a inspiração surge é preciso lançar-nos. Quem hesita diante da oportunidade perde a vida, que é feita de oportunidades. É preciso aprender a reconhecê-la, acolhê-la com imediata alegria e vontade decidida. “Cada um deve inventar sua vida”.

vida só tem sentido quando se torna “história”, isto é, quando não se limita a repetir o passado, senão que gera algo novo a partir de uma origem. Todo ser humano experimenta, de alguma maneira, impulsos para a superação de si”; sua vida está orientada para algo definitivo, pleno... e ele vai construindo-se a si mesmo até converter-se em alguém único e irrepetível. A maneira de fazer isso não pode ser forçada, mas consiste em aceitar o que já se tem e, partindo daí, dar uma direção nova à sua história.

 

Somos impulsionados, continuamente, a romper com a vida formal e convencional, a vida ordenada com normas claras e recompensas seguras, o exercício de virtudes pessoais...  e caminhar para uma vida mais audaz e incerta, de horizontes amplos, de exigências que nos impulsionam a “começar de novo”, de signifi-cado mais universal; despertar a motivação e a intenção daquilo que vivemos e fazemos: por quê? para quem?... Temos um coração maior que o mundo e desejos que nos fazem ter asas de águia.

O ser humano é, em sua essência, mudança, movimento, dinamismo, energia... Deus não nos deu um espírito de timidez, de medo, de fuga, de acomodação..., mas de audácia, de criatividade, de luta, de participação... Quando alguém não vive a vida a fundo, só lhe resta a rotina da vida e o vazio vital.

 


Texto bíblico:  Evangelho segundo Lucas 2,16-21

 

Na oração: 

Não percebemos precisamos de um coração novo? Não sentimos a necessidade de sacudir nossa apatia e auto-engano? Como despertar o melhor que há em cada um de nós? Como reavivar a atitude humilde e transparente dos simples pastores que “glorificavam e louvavam a Deus” depois de terem encontrado o Menino na Gruta?

- Qual é o “novo” que Deus quer realizar em nós e conosco, em nossos ambientes, neste ano que começa?

- É preciso nos aproximar da Gruta de Belém “com todo acatamento e reverência possível” e, se fazemos isso de boa vontade e de bom coração teremos o privilégio de nos sentir envolvidos pela rede do amor misericordioso de Deus.

Se conseguirmos que o ano de 2026 seja “novo” com a eterna novidade da bondade, então também teremos um ano feliz.

Um inspirado 2026!