quinta-feira, 9 de julho de 2026

Em cada semente, uma faísca de eternidade

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 15º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Ele lhes disse muitas coisas em parábolas” (Mt 13,3)

 

O evangelho deste domingo nos traz uma das peças bíblicas mais populares e significativas da mensagem cristã. Poderíamos entrar na cena e visualizar-nos junto àquela multidão que escutava com prazer os ensinamentos de Jesus e que, mais uma vez, geram descontinuidade com a tradição judaica.

As parábolas são um modo de ensinar característico de Jesus. São pequenos relatos muito transparentes que Ele recolhe da vida cotidiana de seu tempo. Algumas delas já pertenciam ao patrimônio cultural, para além do sentido religioso. Pois bem, Jesus não inventa as parábolas, pois elas fazem parte de um estilo de comunicação utilizado por todos os povos e culturas e pela mesma tradição rabínica. 

O que é realmente original é que elas constituem o modo próprio de Jesus falar e ensinar; por isso, as parábolas conservam o mais nuclear e original de seus ensinamentos sobre o Reino de Deus.

Na verdade, Jesus de Nazaré é a verdadeira parábola e os evangelistas captam bem essa dimensão de sua existência. Seu modo de ser, viver, pensar, agir e conviver revelam-se como profundas críticas à sociedade teocrática da época, que, em nome de Deus, rotulava e excluía, escondia interesses escusos, “abençoava” e justificava o poder constituído dos sacerdotes, anciãos, doutores da lei, escribas e fariseus.

O encontro com a mensagem de Jesus revela-se um choque que questiona tudo e todos. A relação com Ele exige total redirecionamento da vida. Simplesmente não é mais possível continuar com “odres velhos para guardar vinho novo”.

Com suas parábolas Jesus não quer aliviar seus ouvintes, porém despertá-los da acomodação, desafiá-los, interpelá-los. Jesus não quer dominar seus ouvintes com doutrinas vazias; ao contrário, deseja que cada um, após tê-lo encontrado e escutado, possa se tornar sujeito ativo diante dos outros e de Deus.

As parábolas só podem ser compreendidas à luz de seu autor; elas dão a conhecer muitos aspectos da verdadeira identidade de Jesus de Nazaré: suas convicções de fé, seu estilo de vida, sua missão, seu modo de ser, suas opções, suas relações... As parábolas falam do “ser profundo” do seu criador: daí o imediatismo de seu efeito, pois tocam a interioridade de quem as escuta, falam diretamente ao coração, de sentimento a sentimento; daí também sua expressividade.

Todas as parábolas contadas por Jesus são perenemente belas porque através delas temos acesso ao que constitui o Seu coração; mais ainda, através delas temos acesso ao segredo, ao “mistério” do próprio Jesus.  As parábolas falam ao nosso coração, comovem nosso coração, porque nasceram do coração do Verbo eterno de Deus. Por isso, mais do que “falar em parábolas” Jesus era a própria “parábola”.

parábola é um estilo de linguagem original, pois abre novas possibilidades de vida, não é uma história a mais, nem uma doutrinação, mas uma provocação. Ela respeita a liberdade do ouvinte, alegra sua imaginação, compromete sua consciência e anima sua iniciativa. A parábola introduz na vida um chamamento mais profundo; não remete a pessoa a um mundo diferente, longínquo, mas a um compromisso eficaz dentro deste mundo e dentro da realidade de cada um.

É necessário “entrar” na parábola e deixar-se surpreender pela sua inspiração envolvente. Não se pode ser neutro, senão expectador atento e ativo. A parábola nunca é tranquilizadora, senão que interroga, sacode o ouvinte, exigindo dele uma atitude de escuta, de abertura, pois em seu dinamismo sempre há um chamamento. As parábolas questionam, mas sem agredir; conduzem o ouvinte a confrontar-se com a verdade de sua situação e a tomar decisões novas, mas respeitando sua liberdade.

parábola é uma pergunta deixada em aberto.

Na parábola deste domingo, a cena é iniciada pelo semeador: ele sai e, com um gesto, que une misteriosamente o céu e a terra, espalha, por toda parte e com abundância, uma semente de extraordinária potencialidade criativa. O Céu fecunda o grande ventre da Criação, o ventre da “terra”, e tudo canta e grita.

É o grito de júbilo da vida e da fecundidade, que é causa de realização e sentido pleno da criação.

O verbo “sair”, com o qual se inicia a narração (“... eis que o semeador saiu...”), é colocado numa evidente posição de destaque e evoca o tema do “êxodo”, de modo a dizer que, no início da narração, podemos perceber uma alusão ao mistério do “êxodo” de Deus, que “sai” do mundo divino e traz consigo uma potencialidade de vida, que desperta em nós assombro e admiração diante da maravilha da criação e da história, com uma vitalidade inesgotável. Nada do que foi espalhado cai no vazio ou é desperdiçado: tudo, até o menor fragmento, jamais volta a Ele sem produzir vida, beleza e força criativa.

O gesto de semear é alegre, generoso, transbordante e irrefreável, precisamente porque é gratuito: não é 

um semear por semear; é um semear criativo, isto é, comunica em abundância, em toda parte e a todos, a força da vida.

Nesta parábola, a primeira coisa que percebemos é uma contradição com respeito ao semeador. O lógico seria que um bom semeador preparasse a terra para não desperdiçar as sementes e procurar ter a maior segurança de que elas vão germinar e produzir frutos. Mas este semeador as lança em todos os espaços, favoráveis ou não, preparados ou não. Jesus resgata, deste modo, a universalidade de sua mensagem que ultrapassa as fronteiras do Povo eleito e chega até aqueles que, segundo os escribas legalistas, não eram “terra boa”. Não elege a terra perfeita, aquela que cumpre perfeitamente a lei ou crê cegamente na doutrina, aquela que comercializa com a mensagem e espera receber um prêmio por sua boa conduta. 

Não é assim nesta parábola do semeador. Jesus oferece a toda a humanidade a capacidade de encontrar um sentido profundo da vida e toda pessoa é digna de recebê-lo.

Aquele ousado semeador não se preocupa, portanto, se a semente cai também onde não pode frutificar plenamente; é preciso ter um olhar diferenciado para aquelas sementes que caem ao longo do “caminho” e se tornam alimento e alegria para “os pássaros do céu que não semeiam, nem ceifam, não ajuntam em celeiros” (Mt 6,26); aquelas que caem em “lugares pedregosos”se tornam, mesmo com seu germinar efêmero, motivo de alegria, numa situação aparentemente incapaz de vida; aquelas que caem entre os “espinheiros” acendem a esperança, mesmo onde predomina a hostilidade. No final, sobretudo – e não só na “terra boa” - desce e pousa a luz dourada da bênção, da alegria e da esperança.

Este “estranho” semeador deixa a sua semente cair por toda parte; para ele nada é inútil ou esquecido.

Em cada canto da Criação desce a bênção da fecundidade. Ele semeia tudo, esgotando seus imensos celeiros, sabendo que a flor da vida enriquece a criação e a história humana. E, sob o olhar contemplativo do narrador, tudo se torna maravilha e beleza incomparáveis.

Por isso, não podemos definir antecipadamente o que é “boa” ou “má terra”, nem colocar limites à palavra, pois é ela que acaba se mostrando criadora, transformando o solo dos homens com sua força. 

A parábola do semeador evoca a força e a beleza, mas, sobretudo, a abundância criadora de Deus, que diz sua Palavra fecunda por meio de Jesus e o faz de um modo transbordante, expandindo a boa semente em todas as terras do mundo. 

O economista, homem de sistema, que busca eficácia e calcula, pensa de antemão e escolhe a terra mais fértil e boa; sabe onde estão os espinheiros e pedras; por isso não desperdiça a semente.

Mas Jesus, semeador de parábolas do Reino, sabe e vive uma lógica mais sublime, aquela do poeta criador, que confia em todo tipo de terreno e se abre às surpresas inesperadas. Esta é a lógica da gratuidade e da abundância, que se expressa no gesto generoso do bom semeador da palavra do Reino. 

Não devemos dar nenhuma importância à quantidade de respostas. A intensidade de uma só resposta pode dar sentido a toda semeadura. A sinuosa e longa trajetória da existência humana fica justificada com o aparecimento de um só Francisco de Assis ou de uma Teresa de Calcutá. Por isso Jesus pode dizer: “o Reino já está aqui, eu o faço presente; sua plena manifestação depende só de cada um”.


Raízes e asas: presentes de mãe

 

Texto bíblico:  Evangelho segundo Mateus 13,1-23

 

Na oração:

Somos seres de “enraizamento” e de “transcendência”; vivificados pelo Espírito, somos Terra que pensa, sente canta e ama.

- Na presença do Senhor deixe que a Palavra de vida ilumine e fecunde seus “terrenos interiores”, onde predominam pedras, espinheiros, dureza do solo...

- Você se parece com uma semente guardada no depósito, marcada pelo medo?

Ou se parece com uma terra ácida e estéril que não permite que nada germine?

- Em que circunstâncias seu coração se revela como “terra fértil”, gerando abundantes frutos?

Pérolas Inacianas - Dia 10: O olhar da Misericórdia

"Olhar para mim mesmo... e ver todas as minhas feridas e pecados, e considerar a misericórdia de Deus, que até agora me deu vida." - (Santo Inácio de Loyola - Exercícios Espirituais, 56-60, adaptado)

 

Os Exercícios Espirituais propostos por Santo Inácio foram organizados em “semanas”. Na “Primeira Semana”, Inácio convida o exercitante a olhar de frente para o próprio pecado. No entanto, esse exame não visa gerar culpa paralisante ou remorso destrutivo. Para Inácio, reconhecer as nossas misérias, egoísmos e falhas só faz sentido se fizermos isso sob a luz acolhedora da misericórdia divina. O pecado é visto como uma quebra de relacionamento amoroso, uma escolha errada que desorganiza a nossa vida.

O fruto dessa meditação é o “espanto grato”. Ao percebermos a distância entre as nossas fraquezas e a fidelidade paciente de Deus, o nosso coração não se desespera, mas se enche de gratidão. Nós nos descobrimos “pecadores amados”. Essa experiência profunda nos cura do orgulho de nos acharmos autossuficientes e, ao mesmo tempo, nos capacita a olhar para os erros dos outros com a mesma paciência e compaixão com que Deus nos olha todos os dias.


 

Para colocar em prática hoje:
Em vez de se autopunir por um erro ou defeito que você repete sempre, faça uma pausa. Apresente essa fraqueza a Jesus e diga: “Senhor, Tu conheces a minha miséria, mas eu confio na Tua misericórdia. Obrigado por não desistir de mim.”

 

-- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Pérolas Inacianas - Dia 9: A Santa Indiferença

"Pelo que é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas... de tal maneira que não queiramos, da nossa parte, mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra." (Santo Inácio de Loyola - Exercícios Espirituais, 23)

 

A palavra “indiferença” costuma soar fria aos nossos ouvidos, mas no vocabulário de Inácio ela significa o ápice da liberdade interior. A “santa indiferença” não é apatia ou falta de sentimento. Trata-se da capacidade espiritual de não deixar que nada, absolutamente nada, aprisione o nosso coração a ponto de tomar o lugar de Deus. É a postura de quem usa as coisas criadas “tanto quanto” elas ajudam a cumprir a vontade divina, e afasta-se delas “tanto quanto” elas atrapalham.

Se a saúde serve para a glória de Deus, nós a acolhemos com gratidão; se a doença nos visita e nos torna mais maduros, humildes e dependentes do Pai, também a aceitamos em paz. Essa liberdade radical nos protege das grandes ansiedades modernas. Quem pratica a indiferença já não vive escravizado pelo medo de perder o status, o dinheiro ou o controle, pois sabe que a sua verdadeira segurança repousa inteiramente no amor de Deus.


Conceito de liberdade Silhuetas de corrente quebrada e pássaros voando no  céu azul | Foto Premium

 

Para colocar em prática hoje:

Identifique algo que você tem muito medo de perder hoje (um plano, um elogio, uma posição). Ofereça esse receio a Deus e reze em silêncio: “Senhor, eu prefiro o que Tu queres para mim. Dá-me a liberdade de usar ou deixar isso, contanto que eu permaneça em Teu amor.”


-- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

terça-feira, 7 de julho de 2026

Pérolas Inacianas - Dia 8: O Princípio e Fundamento

Enquanto a primeira semana (dias 01 a 07/07) teve foco na biografia de Inácio e como suas crises pessoais moldaram sua visão espiritual, nessa segunda semana (dias 08 a 15/07), a proposta das pérolas diárias é tratar dos Pilares dos Exercícios Espirituais, com foco na estrutura e nos conceitos centrais da maior obra escrita do Inácio de Loyola. Eis a nossa oitava pérola:

 

O Princípio e Fundamento

"O homem é criado para louvar, fazer reverência e servir a Deus Nosso Senhor e, mediante isto, salvar a sua alma." (Santo Inácio de Loyola - Exercícios Espirituais, 23)

 

Este é o ponto de partida de toda a espiritualidade inaciana: o Princípio e Fundamento. Antes de tomarmos qualquer decisão na vida, precisamos responder à pergunta mais essencial de todas: Para que eu existo? Inácio responde com clareza cirúrgica que nossa vida tem um propósito definido. Fomos criados por amor e para o amor, para reconhecer a grandeza de Deus em nossa história e para colaborar com a sua obra através do serviço ao próximo.

Viver com base no Princípio e Fundamento funciona como uma bússola existencial. Quando compreendemos a nossa verdadeira identidade e missão, todas as outras coisas da vida, seja nossa carreira e projetos, nossos relacionamentos e nossos bens, deixam de ser fins em si mesmos e passam a ocupar o lugar correto. Eles se tornam meios que nos ajudam a caminhar em direção ao nosso destino final: a comunhão com o Criador.


Exercícios Espirituais para Jovens no Distrito Federal – CVX-CLC no Brasil

 

Para colocar em prática hoje:
Comece o seu dia repetindo mentalmente a pergunta fundamental: “Esta escolha que vou fazer agora me aproxima ou me afasta do meu propósito de louvar e servir a Deus?” 

Deixe que essa certeza guie as suas decisões mais simples hoje.

 

-- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Pérolas Inacianas - Dia 7: O estudante tardio

“Depois que o peregrino entendeu que não era vontade de Deus que ficasse em Jerusalém... deliberou consigo estudar algum tempo para poder ajudar as almas.” (Santo Inácio de Loyola - Autobiografia, 50)

Com mais de trinta anos de idade, sem dinheiro e vindo de um passado de nobreza, Inácio tomou uma decisão radical: voltou a Barcelona para aprender gramática latina básica. Ele sentava-se nos mesmos bancos escolares ao lado de crianças pequenas para aprender a ler e escrever corretamente. O homem que já tinha vivido profundas experiências místicas humilhou seu orgulho intelectual porque compreendeu que, para servir bem às pessoas (“ajudar as almas”), a boa intenção não bastava; era preciso preparar-se com excelência.

O Inácio estudante nos deixa uma lição poderosa sobre a humildade e a necessidade de formação contínua. Na vida espiritual e apostólica, o zelo sem competência pode causar estragos. Estudar, ler, aprimorar nossas habilidades profissionais e teológicas é, em si, um ato de amor e culto a Deus. A santidade inaciana não rejeita a inteligência, mas a coloca inteiramente a serviço do próximo.

Para colocar em prática hoje:

Como está a sua formação humana e espiritual? 

Procure dedicar pelo menos 15 minutos do dia de hoje para estudar algo construtivo: um trecho do Catecismo, um documento da Igreja (a exemplo da encíclica “Magnifica humanitas” do Papa Leão XIV), um livro de espiritualidade ou até um conteúdo técnico que melhore a qualidade do seu trabalho profissional.


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Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

Pérolas Inacianas - Dia 6: O peregrino em Jerusalém

"Tinha o firme propósito de ficar em Jerusalém, visitando sempre aqueles lugares santos... mas o veredito foi que não ficasse." (Santo Inácio de Loyola - Autobiografia, 45-50)

 

Inácio finalmente realizou seu grande sonho de chegar a Jerusalém como um peregrino pobre e descalço. Seu desejo mais profundo era passar o resto de seus dias ali, convertendo os infiéis e morando na terra de Jesus. No entanto, por razões de segurança e ordens das autoridades eclesiásticas locais (sob pena de excomunhão), ele foi obrigado a ir embora poucas semanas depois. O plano que parecia o mais santo e perfeito aos seus olhos foi frustrado pela realidade.

Essa “frustração santa” ensinou a Inácio o verdadeiro significado da obediência e da santa indiferença. Às vezes, nós nos apegamos tanto aos nossos bons projetos e à nossa forma de servir a Deus que nos esquecemos de que a vontade Dele pode se manifestar justamente na interrupção dos nossos planos. O peregrino aceitou o “não”, recolheu seus poucos pertences e voltou para a Europa, entendendo que o seu altar não era uma cidade geográfica, mas o mundo inteiro onde Deus o chamasse.

SANTO INÁCIO DE LOYOLA | CNBB Nordeste 1

Para colocar em prática hoje:
Faça um exercício de pensar em um bom projeto ou expectativa sua que deu errado recentemente. Em vez de se lamentar, faça o exercício inaciano de desapegar-se do resultado e reze: “Senhor, eu queria este caminho, mas aceito a Tua providência. Mostra-me onde queres que eu dê frutos agora.”


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Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

sábado, 4 de julho de 2026

Pérolas Inacianas - Dia 5: A iluminação do Cardoner

"Estando ali assentado, começaram-se-lhe a abrir os olhos do entendimento... com uma iluminação tão grande que lhe parecia ser outro homem." (Santo Inácio de Loyola - Autobiografia, 30)


Ainda em Manresa, enquanto caminhava e se sentava às margens do Rio Cardoner, Inácio viveu a maior experiência mística de sua vida. Não foi uma visão de anjos ou algo extraordinário, mas sim uma profunda clareza intelectual e espiritual. Ele relata que, naquele momento, compreendeu a criação, a fé e a própria vida com uma lucidez completamente nova. Ele não aprendeu coisas novas, mas passou a ver todas as coisas antigas de um jeito inteiramente novo, banhado pelo amor de Deus.

A iluminação do Cardoner é a raiz da famosa expressão inaciana “encontrar Deus em todas as coisas”. Ela nos ensina que a vida espiritual não nos afasta da realidade concreta, mas nos dá "olhos novos" para enxergar a assinatura do Criador no trabalho, na natureza, na dor e na alegria. A nossa rotina não muda, mas a nossa forma de habitar e santificar essa rotina é completamente transformada pela percepção da presença divina.


31 de julio: san Ignacio de Loyola, el místico a orillas del río Cardoner -  Alfa y Omega

 

Para colocar em prática hoje:

Treine o seu olhar para o Cardoner no seu cotidiano. Durante o dia de hoje, force-se a parar por um minuto em um momento comum (lavando a louça, respondendo um e-mail ou caminhando na rua) e faça o exercício consciente de perceber que Deus está ali, sustentando aquele exato instante por amor a você.

 

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Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

Pérolas Inacianas - Dia 4: A crise de Manresa

"Vinha-lhe muitas vezes um pensamento com grande ímpeto, que o atribulava, mostrando-lhe a dificuldade de sua vida... 'E como poderás tu sofrer esta vida setenta anos que hás de viver?'" (Santo Inácio de Loyola - Autobiografia, 20)

 

Após Montserrat, Inácio planejava uma breve parada na cidade de Manresa, mas acabou ficando lá por quase um ano. Esse período foi marcado por uma terrível crise interior. Ele foi assolado por escrúpulos obsessivos, acreditando que seus pecados não haviam sido perdoados, e chegou a cair em uma depressão tão profunda que pensou em suicídio. Foi no abismo dessa noite escura da alma que ele aprendeu, pela dor, a não confiar em seus próprios sentimentos flutuantes, mas na misericórdia absoluta de Deus.

Se você já vive a espiritualidade ou está passando por um momento de deserto espiritual, a crise de Manresa é um farol. Inácio nos ensina que os momentos de dúvida, desespero e silêncio de Deus não são sinais de fracasso espiritual, mas de purificação. É na crise que quebramos a ilusão de que controlamos nossa própria santidade e aprendemos a nos lançar, de braços abertos e sem garantias, nos braços do Pai.


A verdadeira santidade é a humanidade vivida e reconhecida - Colégio dos  Jesuítas

 

Para colocar em prática hoje:

Se você está vivendo um período de desânimo, cansaço ou dúvida na fé, repita ao longo do dia a jaculatória que Inácio aprendeu a rezar no seu pior momento: "Socorrei-me, Senhor, que não acho nenhum remédio nos homens nem em criatura alguma!". Confie que a tempestade vai passar.


- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Mansidão e humildade, atributos que nos humanizam

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 14º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“... sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29)

 

Jesus nos diz muito pouco, em primeira pessoa, sobre si mesmo. O que sabemos dele descobrimos através dos olhos de um cego que vê, de um paralítico que corre a contar aos outros sobre Ele, de uma mulher que vibra diante da bondade d’Ele...

Mas, no evangelho deste domingo, através de uma explosão de profunda gratidão, Jesus deixa transparecer sua essência; manifesta sua verdadeira identidade através destes dois atributos, tão humanos e divinos: mansidão e humildade.

Jesus, ao revelar sua identidade como “manso e humilde de coração”, está manifestando estas virtudes como sintonia com o sentir e atuar do Deus Pai. Seus discípulos são chamados a romper o círculo de ódio, intolerância, cólera, agressão, prepotência, domínio, arbitrariedade; são convidados a abandonar “os jogos de poder” e sua dinâmica de revide e vingança. Para isso é preciso ativar as bem-aventuranças da mansidão e da humildade, escondidas nas profundezas do coração.

Somos formados(as) no discipulado de “Jesus manso e humilde de coração”. Este é um aprendizado que se dá no decorrer de toda uma vida de seguimento do Bom Pastor. Ao referir-se a si mesmo como manso e humilde de coração, Jesus nos oferece a graça de uma profunda identificação com Ele e um dinamismo constante de transformação pessoal e comunitária.

mansidão parece ser a chave de leitura de todas as bem-aventuranças; é a característica existencial que dá estilo e autenticidade ao ser puro de coração, promotores de paz, misericordiosos, etc...

A bem-aventurança da mansidão é o gesto profético para o diálogo e a busca de soluções diante dos conflitos atuais. “A finalidade do caminho espiritual está na pessoa mansa”.

“Mansos” – em grego “praeis” – não são aqueles que buscam evitar a prepotência e o orgulho (como uma atitude meramente interior), senão aqueles que se despojam de todo poder diante dos olhos do mundo; são aqueles que não oprimem a ninguém, nem tiram partido (de sua situação), nem pensam na vingança nem na violência para alcançar seus objetivos. São os pacientes e generosos de coração.

Manso e humilde de coração, portanto, é quem vive distanciado de seu ego e nem se identifica com ele.

É manso, sobretudo, quem se apresenta diante de Deus, de mãos vazias. A pessoa mansa é alguém que não confia no poder humano, mas entrega-se nas mãos de Deus.

Só quem se entrega ao Pai pode ser manso com seu irmão. Apresenta-se, então, diante dos outros, desarmado, não como quem quer levar vantagem, mas como quem está disposto a “estar com os outros”. E nisso manifesta uma força diferente e misteriosamente eficaz: a força de carregar o peso dos outros, de lavar-lhes os pés, de estar disponível para os serviços...

mansidão é tão decisiva que só ela é capaz de transformar o coração do ser humano, tornando-o aberto para Deus e, ao mesmo tempo, transforma o duro coração de pedra no misericordioso coração de carne.

 “A raiz básica de nossa crise cultural reside na aterradora falta de ternura, de mansidão, de caridade e de cuidado de uns para com os outros, de todos para com a natureza e o nosso próprio futuro” (Boff).

Esta virtude, manifestada na bem-aventurança, é a forma mais delicada do amor, da suavidade, que é paciente e serviçal, não é egoísta, tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta...

A terra resiste ao violento; ela não pode se doar ao violento. Em Tagore, a não-violência é exercida sem esforço. Quando ele anda pelos campos, acaricia o solo. Ele tem uma espécie de doçura natural. A doçura é o respeito: é respeitar o que se toca, o que se vê, o que se escuta. A doçura é força, é o domínio sobre o instinto de violência que há dentro de si. Existe um grande segredo na doçura: ela é realmente uma bem-aventurança, um atributo humanizador que quebra toda pretensão do domínio sobre os outros.

mansidão está profundamente unida à humildade, a atitude mais importante para viver de maneira cristã. A paciência, como arte para a vida serena, também está emparentada com a mansidão.

A mansidão, a ternura, a humildade cristã ultrapassam a violência amarga e a insípida fraqueza. Elas revelam a solidez de um ser firme nos seus fundamentos, que acolhe o dom de sua vida e aceita a si mesmo, caminhando sempre para o melhor; é ser senhor de si, não para defender-se, mas para doar-se.

mansidão é a face externa ou o direito da humildade, como diz S. Bernardo: “é a humildade do exterior, assim como a humildade é a mansidão de dentro”. É um ser em estado de doação. É o despojamento pelo amor e o desejo do bem do irmão. Seu melhor sinal é que seu cuidado se dirige antes aos fracos, aos pequeninos, aos desamparados do que aos fortes e aos poderosos. Nunca faz carga sobre os infelizes e, tal como Jesus Cristo, é capaz de vencer o mal com o bem.

A mansidão, tal como a ternura, não é fraqueza, mas sinal de maturidade e liberdade interior; é um dos tantos valores com os quais o Senhor tem enriquecido a natureza humana, um dom presente em cada um.

Os mansos e humildes se destacam porque são senhores de si, e isto nos indica um nível sólido de maturidade e de equilíbrio. Não se deixam afetar pelos ventos da superficialidade, da vaidade e do prestígio.  Vivem uma pacífica solidez em si mesmos, sem necessidade de atacar nada nem a ninguém. Com muito pouco, tem tudo porque se possuem a si mesmos.

Vivem no instante presente, desfrutam e agradecem a vida. Experimentam que sua força está em sua debilidade, apoiado no centro indestrutível de seu eu sagrado, seu ser essencial que se sabe envolvido pela Presença. São o melhor exemplo do rosto amoroso de Deus, contemplativos na ação.

São pessoas que sorriem a partir do coração, que aprenderam a escutar e transmitem verdadeira paz.

Em definitiva, as pessoas mansas e humildes têm uma grande força interior na confiança de se sentirem nas mãos de Deus. Quem vive a mansidão leva a sério a afirmação: “Deus me ama imensamente; logo, deposito minha total confiança n’Ele”.

O manso e humilde de coração não enfrenta os outros como se fossem seus inimigos. Respeita-os e os valoriza porque sabe que também foram criados à imagem de Deus. Vivem com a expectativa de que sempre aprenderão algo mais, graças às experiências que Deus traz à sua vida. Mostram que o amor de Deus é para todas as pessoas, sem distinção.

Em contraposição ao orgulho dos mestres e entendidos de Israel, Jesus aparece oferecendo humildemente seu caminho: “pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.

Jesus se dirige aos que estão abatidos e levam pesadas cargas impostas por uma religião centrada na lei e no templo. Há tantas cargas pesadas que continuam sendo impostas nos ombros de tantos inocentes, sobretudo por aqueles que se dizem “representantes” de Deus e que controlam as pessoas através da cultura do medo, das mortificações estéreis, do legalismo doentio, da culpa mórbida, da ameaça do “inferno” ...

É preciso aprender de Jesus a viver como Ele. Ele não complica nossa vida; pelo contrário, torna-a mais clara e mais simples, mais humilde e mais sadia. Oferece descanso. Não propõe nunca a seus seguidores algo que Ele não tenha vivido. Convida-nos a segui-lo pelo mesmo caminho que Ele percorreu. Por isso pode entender nossas dificuldades e nossos esforços, pode perdoar nossas fragilidades e erros, animando-nos sempre a nos levantar e a viver continuamente em clima de gratidão.

Basta ter o coração aberto para perceber o quanto “Deus é bom para conosco”, como nos envolve com ternura, sem esquecer-se das pequenas coisas, ajudando-nos assim a alcançar as grandes. 

Tudo é ocasião para contemplar, entre as cores cinzas da vida cotidiana, a cor do Amor de Deus.


MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO – Diocese Oliveira


Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 11,25-30

 

Na oração: 

Eis o tempo para agirmos com mansidão e humildade no palco da história sacudida pelos ventos do ódio, da intolerância, da vaidade! 

- É sobretudo no clima da oração que a gratidão nasce com naturalidade e espontaneidade nos corações mansos e humildes, nas pessoas conscientes de que aquilo que recebem não é por mérito ou retribuição. Tudo é gratuidade.

- Disse Jesus: “Venham a mim todos os que estão cansados e abatidos, e eu vos aliviarei” Quais são seus cansaços? O que os provoca: o trabalho pelo Reino ou seus interesses pessoais, seus egoísmos? Onde e como você busca alívio para meu cansaço?

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Pérolas Inacianas - Dia 3: O desapego em Montserrat

"Determinou deixar as suas vestes e vestir-se das armas de Cristo... foi passar a noite diante do altar de Nossa Senhora de Montserrat."  (Santo Inácio de Loyola - Autobiografia, 17-18)

 

Recuperado e decidido a mudar de vida, Inácio iniciou sua jornada como peregrino. Ao chegar ao famoso Mosteiro de Montserrat, ele realizou um gesto profundamente simbólico: confessou os pecados de toda a sua vida, despiu-se de suas roupas nobres de cavaleiro, entregou-as a um homem pobre e vestiu uma túnica rústica de saco. Naquela mesma noite, vigiou em oração diante da imagem da Virgem Negra, deixando ali sua espada e seu punhal.

Para nós, Montserrat representa o momento litúrgico do desapego. Mudar de vida exige espaço; não podemos abraçar o novo de Deus se nossas mãos continuam cheias das velhas seguranças, vaidades e ilusões de controle. Inácio nos ensina que a verdadeira liberdade espiritual nasce quando temos a coragem de identificar quais são as nossas "armaduras" modernas ( a exemplo do status, do apego à opinião alheia ou do orgulho) e as deixamos aos pés do Senhor.

Nos Passos de Inácio | Ano Inaciano

Para colocar em prática hoje:
O que você precisa deixar para trás para caminhar com mais leveza na presença de Deus? Identifique um apego material, um hábito nocivo ou uma atitude orgulhosa e faça o propósito firme de desapegar-se disso hoje, oferecendo essa renúncia em oração.


- Texto revisado com auxílio da ferramenta Gemini