sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Finados: até que a morte nos una

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho da Comemoração Litúrgica de todos os Fiéis Defuntos (Finados).

“Eu não me preparo para um fim, mas para um encontro” (Papa Bento)

 

Um dia após celebrar a festa de “Todos os santos(as)”, a liturgia nos convida a fazer memória de nossos entes queridos que cumpriram sua missão nesta vida, deixaram sinais de sua presença e continuam “encantados” em nossas memórias e corações.

É muito significativa a identificação que o Povo de Deus faz da festa de “Todos os Santos(as)” com a festa de “todos os Defuntos”; para muitos, inclusive, se trata de uma só festa.

A celebração eucarística neste dia torna-se uma ocasião privilegiada para nos ajudar a encontrar o verdadeiro sentido da celebração de Finados. A Eucaristia é o sacramento da unidade, do amor, da comunhão. Nela podemos experimentar que “algo” nos une a Deus e aos outros, vivos ou mortos. Assim, a melhor maneira de nos sentirmos unidos aos nossos falecidos, é sentir-nos unidos a Deus, até que a morte nos una a todos.

Alguém já afirmou que “amar é dizer ao outro: não morrerás”. Se aquele que ama é Deus, então permaneceremos vivos para sempre. O amor pelo qual nos conectamos com Deus nos faz eternos.

É curioso que, diante do fato da morte, as várias culturas e religiões reajam de maneiras tão diferentes. Nos países de cultura cristã, predomina o sentimento de tristeza, saudade, dor, medo... Dá a impressão que a nossa fé cristã na Ressurreição não consegue nos ajudar a superar o compreensível luto frente à partida deste mundo dos parentes e amigos que amamos com tanta sinceridade, ou com quem compartilhamos longos períodos de nossa existência.

Por que a morte, “a irmã da vida”, é tão perturbadora, sempre estranha e, com frequência, incômoda?

De fato, esta é a realidade que afeta a todos nestes tempos pós-modernos: a incapacidade cultural de abordar os limites, perdas, fracassos, mortes... Vive-se uma cultura na qual a dor e a morte são expulsas da experiência humana. A morte é distante e virtual: procura-se negá-la, escondê-la, dissimulá-la. É algo feio, de mau gosto, algo a ser eliminado da vida cotidiana. Vive-se como se tivesse que ser imortal. Quando a morte está perto, as pessoas se afastam dela, ou então, ela é afastada para locais específicos. 

A vida marcada pelo medo da morte é uma vida “em terra de sombras”, que contradiz nossa vocação de ser filhos do dia e da luz. 

O medo da morte impede viver adequadamente o presente. Mais grave ainda, o medo da morte pode chegar a escravizar-nos e angustiar-nos a ponto de impedir-nos de viver a vida com sentido, qualidade e prazer. Ela nos golpeia em dimensões muito sensíveis e frágeis de nossa experiência humana. 

A negação da morte sempre cobra um preço – o encolhimento da nossa vida interior, o embaçamento da visão, o achatamento da racionalidade, a atrofia dos sonhos. No final, o auto-engano toma conta de nós.

Uma das expressões mais belas, profundas e místicas de S. Teresa de Lisieux é expressa em uma carta quando ela estava chegando ao final de sua vida, mergulhada numa profunda crise existencial; sabendo que sua vida se apagava, ela nasce para uma nova consciência na qual percebe que a morte não existe: “não morro, entro na Vida”.

Efetivamente seremos todos “aspirados” e atraídos ao mais íntimo do coração de Deus, numa existência eterna. A vida começa, mas não termina nunca. A vida eterna, a vida ressuscitada não é algo que começa com nosso morrer. A morte é a que torna possível que a vida eterna que trazemos dentro de nós floresça em plenitude, na Vida de Deus.

Leonardo Boff afirma: “Não considero a morte como o fim da vida. Morrer é um acabar de nascer. A vida vai para além da morte. Por isso meu livro sobre o tema não se intitula: ‘Vida depois da morte’, mas ‘Vida para além da morte’”. Um dia, a vida começa a nascer e vai nascendo ao longo do tempo, aprendendo a caminhar, a falar, a pensar, a se comunicar e a se autoconstruir até acabar de nascer. É o momento da morte. Do “acabar de nascer” ao “acabar de morrer” acontece a travessia para outro nível de vida que os cristãos chamam de ressurreição: é a vida que chega, na morte, à plena realização de suas potencialidades e irrompe para dentro de Deus.

Portanto, não vivemos para morrer; morremos para ressuscitar. Para José Marti, escritor e poeta cubano, “morrer é fechar os olhos para ver melhor”: para ver melhor o coração do universo, nosso lugar dentro dele e a Presença Providente que tudo faz existir e persistir.

Assim, a morte não divide a vida em duas metades, mas é passagem de uma margem da vida para a outra margem. É a mesma e única vida. Deus quer vida para todos e para sempre, para aqui, e a partir daqui, para sempre.

À luz disso, o dia “02 de novembro” não deve ser recordado como o “Dia de Finados”, mas como o “dia dos eternamente vivos”, porque a vida começa, mas não termina nunca. Desde o ventre materno passamos por diferentes maneiras de viver a vida; mas é a mesma vida. Nada desaparece, nada volta ao nada.

A ideia de imortalidade e a ânsia de viver para sempre, atravessa toda a história da humanidade. Responde à aspiração mais profunda de todo ser humano, e mais ainda daqueles que são vítimas da violência, das injustiças, da miséria e dos males deste mundo...

S. Agostinho escreveu que “é apenas perante a morte que o caráter de um homem nasce”.

Muitos monges medievais mantinham uma caveira humana em suas celas para concentrar os pensamentos na mortalidade e para servir de lição à condução da vida. Montaigne sugeriu que a mesa de trabalho de um escritor deve oferecer uma boa visão do cemitério para estimular o pensamento.

Morrer é “dar lugar” aos que virão depois, um último exercício de amor (K. Rahner).

Para terminar, podemos dizer com André Myre: "Morrer não é perder tudo, mas encontrar tudo".

Essa abordagem da morte nos leva a um compromisso maior para com a vida. Sentimos nossa existência de uma maneira profunda e nova e que, a partir desta perspectiva, tudo acontece de modo admirável, tudo tem seu sentido e tudo, no final, desemboca na plenitude.

Um dos riscos que nos ameaçam hoje é justamente cair numa vida superficial, mecânica, rotineira, massificada, sem sentido. Como manter viva a esperança? Como não cair na frustração, no cansaço ou no desânimo? Onde encontrar um princípio humanizador, capaz de nos libertar da superficialidade, da desesperança e do vazio interior?

No evangelho indicado para este dia, as palavras de Jesus são também um chamado a viver com lucidez e responsabilidade,sem cair na passividade ou na letargia. Vivemos tempos densos, carregados de presença e que pedem de nós uma prontidão. Tempo para tomar consciência dos medos, receios e resistências despertados pela “travessia” da vida; tempo para tirar de dentro de nós aquelas amarras que impedem o fluir da vida.

Não é a hora de apagar as luzes e irmos dormir. É a hora de reagir, despertar nossa fé e seguir caminhando para o futuro, projetando e promovendo caminhos novos de fidelidade ao projeto de Jesus. 

É surpreendente a insistência com que Jesus fala da vigilância, de estar com os rins cingidos e com as velas acesas. Só uma atitude vigilante quebra a falta de sentido da vida que domina muitos homens e mulheres que caminham pela vida sem meta e nem objetivo algum.

O chamado de Jesus à vigilância nos move a despertar da indiferença, da passividade ou do descuido com que vivemos, com frequência, nossa vida.

O espaço e tempo de silêncio do dia “dois de novembro” não é de morte, senão de vida germinal, é noite que aponta para aurora, são as noites escuras da vida cristã que desembocam na alegria da manhã pascal; é tempo de fé e de esperança, é momento de semear ainda que não vejamos os resultados, é tempo de crer que o Espírito do Senhor, criador e doador de vida, está fecundando a história e a terra para seu amadurecimento pleno, para a Nova Terra e os Novos Céus.

O dia não é da morte, mas da vida – Diocese de São João del Rei

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Lucas 12,35-40

 

Na oração:

Silencie e ore; faça memória de todos os seus entes queridos que já entraram na Vida, e, a partir dela, envolvem você de luz, fortaleza e proteção. Repouse. Recorde.

- Diga-lhes o que não soube dizer, ou não pôde dizer, ou o que diria hoje, com sua maturidade e realidade humana. 

- Quem sabe, você precisa perdoar ou pedir perdão. Se não o fez, hoje pode fazê-lo; talvez seja mais real porque o tempo lhe deu um toque de objetividade. 

- Às vezes é preciso explicar ou contar algo para que se entenda o que aconteceu. É tempo de estar em paz, já que, para eles e elas, a paz é um fato; porém, você, a partir deste momento, precisa verbalizar para resolver conflitos emocionais que continuam lhe arrastando para a tristeza, o vazio, frutos de lutos não processados internamente.

- Manifeste gratidão pelas presenças inspiradoras de tantas pessoas em sua vida, e que agora, saboreiam a plenitude no coração de Deus.

Santos e santas nos altares da vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho da solenidade de Todos os Santos e Santas.

“...a santidade é um passeio no cotidiano” (Adélia Prado)

 

No próximo domingo celebraremos a festa de Todos os Santos e Santas, ou seja, todos aqueles(as) que, sem exceção, estão na Memória, na Entranha, no Consolo de Deus, na eterna Compaixão que regenera, na Grande Comunhão que é o coração do próprio Deus. 

Tal festa nos recorda também que esta é a vocação fundamental à qual somos todos chamados, enquanto seguidores(as) de Jesus Cristo. Nossa vocação é a santidade da Vida para além de todo sistema moral, para além de toda crença, para além de toda religião, porque fora da Igreja há salvação ou santidade. 

Mais ainda. A santidade é nossa verdade mais íntima e universal. 

“Somos santos(as)”. Não somos santos porque somos irrepreensíveis, senão simplesmente porque somos, e vivemos, nos movemos e somos sempre em Deus e Deus em nós; também quando nos sentimos mediocres e inclusive fracassados. Ainda não temos encontrado nossa plenitude, não temos realizado nosso ser verdadeiro, mas para esse horizonte caminhamos na santa comunhão de tudo quanto é. Somos um tesouro em vasos de argila em formação, e Deus é o paciente oleiro na sombra mais profunda de nosso barro.

Nós cristãos honramos a santidade universal sem fronteiras de raça, de credo, de cultura...

Todos os santos e santas estão no coração do mundo pois são plenamente em Deus. Todos são santos(as), porque já vivem a Vida Eterna e dão alento ao coração do nosso tempo e do nosso mundo.

A festa deste domingo não só recorda os santos e santas proclamados pela Igreja, mas também todos os nossos entes queridos que já estão na plenitude de Deus. Em outras palavras, eles e elas não são estátuas inertes nos oratórios de nossos templos, mas vivem inseridos no coração de Deus e encantados em nossa memória.

Também nós que continuamos comprometidos em favor da vida, somos merecedores desta homenagem, mas não por nossos méritos ou pela heroicidade de nossa própria conduta, mas porque em nós continua refletindo o rosto santo de Deus.

O Papa Francisco já nos convidava a olhar ao nosso redor e descobrir aqueles e aquelas que já são santos(as), “santos e santas da porta ao lado”, que são os homens e mulheres do povo de Deus: os pais que criam os filhos com tanto carinho, os homens e mulheres que trabalham para levar o pão à sua casa, os enfermos, as religiosas anciãs que continuam sorrido (...), são aqueles(as) que vivem perto de nós e são pura transparência da presença santa de Deus.

Portanto, a festa “Todos os santos e santas” realça uma maneira original de viver a santidade, muitas vezes esquecida: a santidade da vida comum, da resposta à Providência divina em meio às rotinas do tempo, da caridade tecida nos pequenos gestos...

Diante de uma realidade que ameaça o ser humano pelo anonimato, pelo artificialismo, pela massificação, o(a) santo(a)injeta no interior das “veias” deste mundo a Graça transfiguradora do Amor. 

O chamado universal à santidade nos faz confiar profundamente na vida cotidiana, ou seja, no dia a dia da vida familiar, no exercício da profissão, nas relações da vida social, nas decisões éticas, na ação cidadã, no campo dos direitos humanos, no campo da economia, na presença ativa da política, no mundo da cultura, no diálogo com os meios de comunicação, na navegação pela internet... como “lugares agraciados” de encontro com Deus e manifestações explícitas de compromisso cristão.

Como evangelho inspirador para a festa de “Todos os Santos(as)” a liturgia nos propõe “saborear” as bem-aventuranças.Deformaríamos o sentido delas se não acrescentássemos algo que se destaca em cada uma. Com belas expressões Jesus põe diante de seus olhos a Deus como garantidor último da felicidade humana. Aqueles que vivem inspirando-se neste programa de vida, um dia “serão consolados”, “ficarão saciados de justiça”, “alcançarão misericórdia”, “verão a Deus” e desfrutarão eternamente em seu Reino.

As nove bem-aventuranças apresentam nove promessas de felicidade plena, nove situações que conduzem a essa felicidade, já a partir desta vida. São nove promessas de esperança. O que está em nossas mãos são as situações de fato, as nove condições para viver o Reino de Deus.

Trata-se, com efeito, de uma felicidade que transcende este mundo. E que, por isso, é para sempre e sem limitação alguma. É essa a condição daqueles que a Igreja considera e venera como santos(as).

Também é preciso levar em conta que as bem-aventuranças falam da felicidade, não no singular, mas no plural. Ou seja, Jesus não fala da felicidade do indivíduo, mas da felicidade relativa à comunidade.

A felicidade não é uma questão meramente individual, mas essencialmente social; a felicidade não se consegue isoladamente, mas comunitariamente. Em outras palavras, o que Jesus afirma é que a felicidade de cada um está em íntima relação com a felicidade dos outros, com quem cada um convive.

Aqueles que se deixam conduzir pela dinâmica das bem-aventuranças nesta vida, tem garantida a promessa de felicidade sem fim, à qual denominamos vida eterna. É, em definitiva, a Vida de todos os santos (as). Ser santo(a) é fazer das Bem-aventuranças a pauta de seu viver.

Por isso, ser santo(a) é ser humano por excelência, é ter a audácia de reinventar o humano; é resgatar a paixão por um ideal de vida e por um sonho; paixão pela vitória da esperança; paixão pela humanidade, paixão pelo mundo, paixão pelo Reino...enfim, paixão por Deus.

É uma incoerência extrema inspirar-se nas bem-aventuranças e, ao mesmo tempo, ser canais de ódio, de intolerância, de preconceito, de violência... Dói profundamente quando vemos cristãos coniventes com a cultura das “fake-news”, dos julgamentos desumanos, do racismo, da xenofobia, etc.

Temos a sensação de que a mensagem das bem-aventuranças não é clara, ou não consegue conectar-se com as pessoas de nossos ambientes. A quem lhes interessa falar hoje de santidade? Será que esta busca de felicidade tem algo a ver com a santidade ou é totalmente alheia a ela?

Tudo depende de como concebemos a santidade. Se ser santo é separar-se deste mundo e buscar uma perfeição pessoal, através de renúncias e mortificações, fazendo coisas mais ou menos “raras, o mais seguro é que as bem-aventuranças não interessa a quase ninguém. Mas, se nos apropriamos do chamado à santidade que é feito a todos, a proposta pode ir ao encontro de quem busca a felicidade e o sentido de sua vida.

Não tem por que a santidade ser aquela que só é acompanhada de virtudes heroicas, mas aquela que se expressa numa vida cotidianamente heroica; os santos vivem intensamente e colocam em prática o chamado de Deus para viver e dar vida a outros. Quer-se dizer, com isso, que santa é a vida e santo é defendê-la; fascinante é ver enormes esforços para propiciá-la.

O santo(a) sente-se cativado, envolvido, amado, entusiasmado, sintonizado, habitado por Deus de tal maneira que seus olhos, gestos, suas atitudes, palavras, seu coração, sua existência transbordam Deus.

Para humanizar nosso tempo, os(as) santos(as) revelam atitudes e critérios que nos fazem mergulhar de cheio nos desafios e problemas que afligem grande parte da humanidade. Os santos, de hoje e de sempre, não são encontrados nos pacíficos ambientes dos templos ou dentro dos limites da instituição eclesial, mas nas encruzilhadas da pobreza e da injustiça, nas “periferias existenciais”, em perigosa proximidade com o mundo da violência e da marginalidade, em situações de risco, onde a luz do amor ainda não brilha com tanta intensidade.

As bem-aventuranças nos esperam no pequeno, no cotidiano, no próximo mais próximo, e nos impulsiona a proclamar: a paz é possível, a alegria é uma realidade, a justiça não é um luxo, a mansidão está ao alcance da mão... Elas nos dizem que nascemos para a bondade, a beleza, a compaixão...

Num mundo em que nem todos são capazes de grandes façanhas ou de alcançar sucessos, Deus nos deu a aptidão de encontrar a grandeza no dia a dia. Temos apenas que ser santos o bastante para que possamos reconhecer o milagre no ritmo da vida.

“Os santos são muito corriqueiros, eles são absolutamente encardidos nas suas vidas.

O que às vezes chama a atenção são dons especiais, de milagres, de levitação, mas fora disso a santida-de é um passeio no cotidiano”(Adélia Prado).


Silhueta, grupo de crianças felizes brincando no prado, pôr do sol, verão —  Foto © zurijeta #8846457

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 5,1-12

 

Na oração: 

O santo(a) é, na essência, uma presença transgressora, subversiva e inesperada, que denuncia e interpela as barreiras e fronteiras impostas pela sociedade.

- A sua vivência da santidade faz “diferença” na sua realidade cotidiana? Ela deixa transparecer as “marcas” das bem-aventuranças?

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Vista-se da própria essência! O amor

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 30º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração...” – amarás o teu próximo como a ti mesmo”

 

Jesus, como um bom Mestre, sabe aproveitar da pergunta feita por um doutor da lei e busca recuperar o essencial da vida, re-descobrir o “espírito perdido”: qual é o mandamento principal? Que é o essencial? Onde está o núcleo de tudo? 

O próprio Jesus responde, recolhendo a fé básica de Israel: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu ser”. E acrescenta: “Amarás teu próximo como a ti mesmo”.

A cena do evangelho deste domingo tem como pano de fundo uma atmosfera religiosa em que os mestres da lei e letrados classificavam centenas de mandamentos da Lei divina em “fáceis” e “difíceis”, “graves” e “leves”, “pequenos e grandes”. Impossível mover-se com um coração sadio neste emaranhado de leis e mandamentos.

Quando as religiões esquecem o essencial, facilmente se adentram pelos caminhos da mediocridade piedosa, da casuísta moral, do legalismo doentio, do ritualismo estéril, que não só incapacitam as pessoas para uma relação sadia com Deus, mas podem desfigurar e destruir gravemente as mesmas pessoas, carregando-as de culpas, remorsos e sentimentos de indignidade. Nenhuma religião escapa deste risco.

Partindo do nosso contexto de cultura pós-moderna, também nós podemos nos perguntar: qual é a essência da vida? Por que e para que existimos? Que temos de fazer para saborear a felicidade aqui e agora? Como seguidores(as) de Jesus, o que é mais importante na vida cristã? Qual é a atitude que diferencia o cristão?

Sem dúvida, a catequese cristã nos dá a mesma resposta de Jesus: o amor a Deus com todo o nosso coração, com toda nossa alma, com todo nosso ser e ao próximo como a nós mesmos. Só damos glória a Deus quando amamos o ser humano assim como O amamos. Para um cristão, o amor a Deus e o amor ao irmão são um único amor. Ambos se implicam. Não é possível viver um sem o outro. A experiência do amor não é distinta, embora sejam distintas as pessoas amadas: Deus e os outros. Não é possível amar a Deus mais que ao ser humano, nem é possível amar mais o ser humano que a Deus. No amor não cabe o mais e o menos. Ou se ama ou não se ama. Por isso, a essência da fé e da identidade cristã é o amor evangélico (ágape, gratuito, oblativo, generoso, aberto a tudo e a todos...) que se visibiliza no serviço e na entrega. É o mesmo amor que Deus tem por todos nós, seus filhos e filhas.

De que Amor se trata? Que essência tem esse Amor? Percebemos com muita clareza que este amor não é um dever moral, ou uma lei que se impõe a partir de fora; é a vibração mais profunda do nosso ser, uma corrente interna de energia que nos conecta com a própria Fonte do Amor, com os outros seres semelhantes e com todas as criaturas. Fomos criados(as) para o amor gratuito e libertador.

Deus é amor e n’Ele vivemos o amor: esta expressão evoca um movimento circular, uma dança inclusiva, onde os outros, a realidade divina e nossa realidade humana se sincronizam para gerar um vínculo indestrutível. Este amor brota do mais profundo e só tem vida quando se expande para fora. Não vem do exterior, nem se impõe, tão somente desperta e nos faz ser conscientes de que é a essência de nossa verdadeira identidade.

Portanto, a vivência do amor é o distintivo de que somos discípulos(as) de Jesus; amor que nos faz semelhantes e nos situa numa horizontalidade que não se pode romper. Jesus nos chama à circularidade, a uma visão nova de que o amor não é buscar algo que nos complete, porque já fomos criados como seres completos. Não somos “metade” de ninguém, mas pessoas únicas que peregrinam por esta história estabelecendo vínculos e enraizados no espaço interior onde co-habitam nossa humanidade e a divindade entrelaçadas. 

É verdade que o amor se expressa através de gestos, palavras, atitudes, mas não para aperfeiçoar ninguém, mas para despertar a consciência de que todos somos valiosos e temos a mesma dignidade. Não é um amor romântico, adocicado, sensível, mas um amor que cura, liberta, fortalece e transcende.

Trata-se de um amor que não nasce da carência, mas da abundância; é ele que ativa as ricas reservas de bondade, de compaixão, de verdade, que desperta o melhor que há em cada um de nós e se expande através de uma presença solidária e comprometida.

Unificar a vida a partir do amor: esse é o grande sentido de nossa existência. O amor verdadeiro é unificador, é proximidade calorosa e envolvente; isso significa abraçar tudo a partir dele, sem excluir ninguém.

Somente o amor orienta a vida na direção certa; viemos do Amor, vivemos no amor e voltaremos para o Amor. Só acerta na vida quem vive o caminho do amor. Se o núcleo da realidade, seu “segredo” é Amor, isso significa que amar não é, em primeiro lugar, uma questão ética, mas de sabedoria. Acertamos na medida em que vivemos o amor; nos “equivocamos” sempre que nos desviamos do amor e nos enredamos num moralismo e legalismo vazios.

O amor não é simplesmente um valor moral que devemos cultivar; o amor é a própria vida bem orientada; a vida vivida a partir de sua verdadeira origem, e orientada positivamente para sua verdadeira plenitude.

Na origem de nosso ser está Deus, um Deus que é Amor infinito e insondável. O mistério que somos provém d’Ele. Nosso ser é fruto e reflexo desse amor infinito de Deus. Isso significa que a força vital que circula por nosso ser, buscando expansão e plenitude, é aquela inspirada pelo amor e orientada para o amor.

Toda vez que realizamos uma experiência fundante, uma atividade inspiradora, ou quando nos encontramos com pessoas que despertam o melhor em nós, ou quando sofremos incompreensões sem apelarmos para a violência, ou quando nos comprometemos com causas justas..., é sinal de que a força vital foi ativada, entramos no movimento oblativo de saída de nós mesmos; isso só é possível porque está orientada e impulsionada pelo amor.

“Deus é Amor” ou, em melhor tradução, “Deus consiste em estar amando” (1Jo 4,8)

O amor é a experiência humana que Deus elegeu para nos revelar seu mistério. De tudo o que procede do seu coração, Deus elegeu o amor para nos manifestar o mais parecido como é Ele. Ao amar, deixamos Deus ser Deus em nossas vidas.

“Amarás o Senhor, teu Deus com todo teu coração...” Estas palavras podem nos desconcertar. Quando poderíamos ter o coração livre para amar o Senhor inteiramente?

No entanto, “amar a Deus com todo o coração” é amá-Lo com o que há nele, “com o coração”: com seu lado de luz e de sombra, com seu trigo e seu joio, com sua terra boa e sua terra baldia... Amá-Lo com o que há de mais frágil em nós para que Ele o transforme em bem, entregar o que em nós é obscuro para que Ele possa pôr sua luz e sua ternura aí.

À luz desse amor, todas as dimensões do nosso ser - corpo, mente, afetividade, coração -, toda esta pessoa que somos nós e que está constantemente em processo de construção, com tudo o que constitui nossa vida, se coloca à disposição da corrente vital que quer atravessar-nos e alargar-nos.

Como amar os outros na densidade de sua vida se não nos recebemos primeiro desse Amor maior que nos busca e nos ama com tudo e através de tudo?


 


Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 22,34-40

 

Na oração: 

O Amor originante e fontal de Deus lhe envolve permanentemente; marcado pela gratidão, queira entrar em sintonia, “ajustar-se” ao modo de amar de Deus: amor descendente, amor sem fronteiras, oblativo, expansivo... e que se “revela mais em obras do que em palavras” (S. Inácio).

- Movido pelo Amor transbordante de Deus, entre no fluxo desse Amor criativo, “descendo” à realidade cotidiana e ali deixando transparecer esse mesmo Amor através de suas ações e atitudes.

- Faça “memória agradecida” de sua presença amorosa na realidade cotidiana. Viva em contínua ação de graças.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Não há um Deus-César nem um César-Deus

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 29º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“De quem é a figura e a inscrição desta moeda”? (Mt 22,20)

 

Estamos hoje frente a um texto evangélico muito conhecido e citado, ao mesmo tempo sugestivo e profundo, que pode nos interpelar se deixarmos de lado ideias pré-concebidas ou interpretações malfeitas.

Ao ler com atenção os primeiros parágrafos deste evangelho, é possível que encontre eco em nós uma palavra, uma realidade, que muitas vezes passa desapercebida. Aqui se fala da “verdade”, do que realmente é verdadeiro, das intenções profundas e do uso que as pessoas e as autoridades religiosas fazem destas expressões. Nesta cultura das “fake-news”, a verdade está cada vez mais violentada, prostituída, escondida.

O evangelho fala dos fariseus e herodianos, que defendiam “verdades” diferentes frente ao tema do “tributo a Cézar”, dissimulando-a, sacrificando-a, submetendo-a a interpretações pouco honestas, buscando somente prejudicar Jesus. Apresentam-lhe como busca da verdade o que não tem nada a ver com ela. 

Isso que se passou há vinte séculos, continua se fazendo presente em nossos contextos atuais. É cada vez mais clara uma sociedade insensível à verdade. É comum em nossos meios de comunicação e redes sociais relativizar, ignorar e inclusive falsear a verdade para que uma notícia venda, viralize nas redes ou prejudique o adversário. Não é preciso ser muito crítico para citar exemplos destes casos. 

No entanto, é preciso dar um passo a mais e nos perguntar: pessoalmente, temos sacrificado a verdade, ou a temos calado para conseguir algo, para prejudicar alguém ou para outros muitos interesses? Temos sido canais de transmissão de “fake-news”, destruindo a reputação de pessoas ou de grupos? Somos daqueles que descobrem e desmascaram a mentira, como Jesus, ou daqueles que compactuam e se calam diante dela? Damos o devido valor à verdade ou é tão somente uma moeda de troca frente a outros valores?

Os fariseus e herodianos, sem acreditar sinceramente em Jesus, sem pretender dar-lhe o devido valor, mas tão somente bajulá-lo, dizem: “sabemos que és sincero e que ensinas o caminho de Deus conforme a verdade”. Reconhecem n’Ele uma pessoa sincera, fiel à verdade e por isso livre. Aqui recordamos o que o evangelho de João põe na boca de Jesus: “a verdade vos fará livres” (8,32); “eu vim ao mundo para ser testemunha da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta minha voz” (18,37).

A mando dos Sacerdotes e Anciãos, fariseus e herodianos querem saber de Jesus se ele é a favor ou contra o pagamento do imposto aos romanos, a César. Pergunta esperta, cheia de malícia! Sob a aparência de fidelidade à lei de Deus, buscam motivos para poder acusá-lo. Se Jesus dissesse: “Deve pagar!”, poderiam acusá-lo junto ao povo como amigo dos romanos. Se ele dissesse: “Não deve pagar!”, poderiam acusá-lo junto às autoridades romanas como subversivo. Parecia um beco sem saída.

Jesus, em sua resposta, desmascara a mentira e a hipocrisia daqueles que lhe estendem uma armadilha, ao pedir-lhes uma moeda. Todos carregavam no bolso o denário, a moeda que é o soldo diário com o qual cobriam suas necessidades. Todos estavam usando a moeda, apesar de que sua imagem era do “Cézar”. De fato, aceitavam a moeda de Cézar para poder viver. E aqui nos deslumbra a palavra de Jesus: “Pois, se é assim, se tendes o que é de Cézar, devolvei a Cézar o que é dele” (o verbo que Jesus usa “apodidômi”, não significa “dar”, mas “devolver”. Uma pista interessante para compreender a resposta de Jesus. Eram contra César, mas levavam sua moeda na bolsa.

Se fossem verdadeiros judeus, tinham que renunciar também a utilizar o dinheiro de Roma. Eles têm muitos escrúpulos para pagar o imposto, mas não para utilizar a moeda do império. Jesus os desmascara, pois, a pergunta não tem sentido, já que eles tinham aceitado a soberania de Roma.

“Devolvei a César...”. Jesus não usa armas para combater contra o César, tampouco lhe obedece (não usa seu dinheiro), mas sai do espaço de seu domínio, para situar-se no espaço de vida e convivência onde o tributo a Cesar é desnecessário. Aqueles que o tentam estão dispostos a usar a moeda de César. Pois bem, Jesus lhes diz para devolvê-la, de modo que não tenham nada que dever-lhe, nada que pagar-lhe. Não se trata, portanto, de lutar em guerra contra César (como faziam os zelotas), mas de devolver seu dinheiro a César, pois o Reino não se alcança com moedas. 

A pergunta que é feita a Jesus em Jerusalém, acontece no momento chave de sua revelação messiânica, no contexto de máxima tensão com as autoridades religiosas. O sinal de fundo é o denário do tributo, que significativamente Jesus não carrega consigo, não por casualidade (como se tivesse esquecido de pegá-lo), mas por princípio, pois Ele mesmo pediu a seus discípulos que anunciassem o Reino sem dinheiro algum.

Esta proposta deve ser entendida à luz de todo o Evangelho; ela recebe um sentido mais preciso à luz de todo o ensinamento e conduta de Jesus, que não quis comprar com dinheiro os pães e os peixes das multiplicações, mas que pediu aos seus que partilhassem o que tinham.

Da mesma forma, lembremos o que Jesus disse ao jovem rico para que vendesse o que tinha, que repartisse o dinheiro entre os pobres, para iniciar um caminho no qual devem ser partilhados casas-campos-bens. Neste contexto, o relato deste domingo centra a nossa atenção na relação entre o movimento de Jesus e o império romano.

A partir desta introdução, na qual Jesus desmascara a falsidade e hipocrisia dos fariseus, verbalizando que conhece suas intenções ocultas, aproveita para acrescentar aquilo que eles não perguntaram: “devolvei a Deus o que é de Deus”. O ser humano é a verdadeira “imagem” de Deus, que não lhe impõe (imposto) pesados fardos, mas o liberta para que viva com mais intensidade. Ele quer que todos os seus filhos e filhas sintam-se livres de todo tipo de sujeição e domínio.

Jesus sempre foi muito livre perante o Templo, as leis, as tradições, os poderes... Por isso, os maiores conflitos foram com o Templo. Jesus desloca Deus do Templo para as margens e bate de frente com os encarregados do Templo.

São eles que cobram o imposto; e quem cobra imposto, impõe: alimenta medo, manipula Deus, ameaça com a lei, controla o acesso a Deus no Templo. Não deixam Deus ser Deus e Pai, impedindo que os outros se sintam filhos e filhas d’Ele. É na liberdade que se tem acesso a Ele e não pagando impostos ao Templo.

Para Jesus, diante do Pai somos filhos e não estrangeiros; e como filhos temos acesso livre a Ele e não através de impostos: leis, normas, ritos...

Mas, para não causar mais conflitos ainda com o Templo, Jesus pede a Pedro para “pescar” e pagar o imposto devido.

É lícito pagar ou não? Jesus superou esta alternativa. Não se trata de pagar ou não pagar, mas de situar-se numa dimensão mais alta de revelação de Deus, ou seja, de humanidade solidária, acima de uma economia e política fundada na posse da moeda. Jesus não aceita o tributo nem o rejeita, senão que supera esse plano monetário (pagar ou não pagar), pedindo que se devolva a Roma o dinheiro de seus impostos, para iniciar dessa maneira um caminho diferente de evangelho.

Não se trata de repartir atribuições, nem sequer com vantagens para Deus. Deus não compete com nenhum poder terreno, simplesmente porque Deus não atua a partir da categoria de poder.

Só Deus é o Senhor de nossas vidas e não compete com ridículos “césares”.

Não encontramos em Jesus a revelação do “Deus do poder” que se impõe, mas do “Deus do amor” que se expõe que se revela e se faz presente no pequeno, no simples, naqueles que não tem voz e nem vez neste mundo, nas vítimas dos sistemas econômicos que matam.

Enfim, numa sociedade corrupta e deformada, uma pessoa que se ajusta ao que está estabelecido e, portanto, não desconcerta ninguém, é uma pessoa alienada, que passa pela vida sem ser provocadora e deixa tudo como está. Só desconcerta quem, na fidelidade ao Evangelho e à causa do Reino, rompe os esquemas fechados e estruturas de poder, transgride o excesso de normas, abre novos caminhos ainda não imaginados.

meditação do dia 20/06/15- Deus ou dinheiro: ninguém pode servir a dois  senhores – Católico, volta pra casa!


Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 22,15-21

 

Na oração:

Quem é o “senhor” que move o meu coração?

O “dinheiro” ou o Deus verdadeiro?

- Quais são os “césares” que habitam meu coração e que exigem pesados impostos, tirando-me o prazer de viver com mais inspiração?

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Justificativas que atrofiam a vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 28º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Mas os convidados não deram a menor atenção” (Mt 22,5)

 

Nestes três últimos domingos a liturgia nos convida a ter acesso a três parábolas que nos apresentam Deus como pai, como proprietário de uma vinha e como rei que prepara a festa de casamento de seu filho.

Deus é Pai e nos fala de sua bondade; Deus é Rei e nos fala de sua dignidade; Deus é proprietário e nos fala da herança que nos quer transmitir.

Jesus narrou estas parábolas em um contexto polêmico e cheio de tensão com o judaísmo institucional. O grande conflito d’Ele foi com as autoridades religiosas, petrificadas em suas práticas legalistas e que se consideravam “puras” e merecedoras de uma recompensa.

A atmosfera que envolveu estas parábolas foram os últimos dias da vida de Jesus, já em Jerusalém; um momento no qual estava se formatando um duplo juízo, político e religioso, por seus discursos, ações e provocações às autoridades rabínicas. Através das parábolas Ele pretendia expressar sua certeza de que o projeto de Deus ia se realizar apesar das contradições humanas.

Na parábola deste domingo, o Deus que Jesus nos revela é um Deus a quem lhe encanta a festa, o banquete, a alegria de seus filhos e filhas. Deus é “festa”.

Ao longo da História da Salvação, Deus faz da “mesa da refeição” o local de seu encontro e de sua comunicação com a humanidade. Tanto no Primeiro como no Segundo Testamento encontramos as refeições como momentos privilegiados, nos quais Deus se manifesta ao ser humano e com ele convive.

São refeições que revelam a presença de Deus, os cuidados paternos de Deus, a vontade manifesta de Deus, sua familiaridade com o ser humano, o simbolismo das promessas que estavam à espera.

Deus instala a grande Mesa no centro do mundo, para a qual convergem todos os homens e mulheres de todos os cantos da terra e de todos os tempos; nela, todos se assentam e ali fazem a experiência do Deus companheiro, do Deus comensal, do Deus que já instalou seu Reino no meio da humanidade.

O Deus que Jesus revela é Aquele que desce das alturas, entra nas casas, toma assento junto à mesa, come com as pessoas, serve-lhes o pão. Na intimidade da mesa, Ele restitui aos excluídos a dignidade e a auto-estima, pois eles são os preferidos do Reino da Festa. 

Encanta-nos a pessoa de Jesus porque lhe encantam as festas de casamento. Começou com as Bodas de Caná, e continua agora coma parábola do Banquete do Reino. 

Aqui, Ele revela a imagem de Deus que organiza um banquete de casamento; no entanto, todos os convida-dos apresentem justificativas e motivos para deixá-lo plantado, com a mesa posta, e tudo preparado.

E, além disso, o fazem de um modo muito cortês e “educado”. Ninguém quer ficar mal com Deus, mas não participa. Cada um tem suas justificativas para desculpar-se: um campo comprado é suficiente razão para não aceitar o convite; os negócios particulares revelam-se suficiente motivo para não ir à festa; outros ainda apelam para a violência contra os servos que foram entregar os convites.

Todos afirmam crer n’Ele; mas são muitos que não lhe fazem caso.

Todos dizem que o amam; mas, são muitos que tem justificativas para apresentar-lhe suas desculpas.

Todos são corteses com Deus; mas são muitos que se fazem de surdos e não acolhem o convite festivo.

Todos são educados com Deus; mas são muitos que não querem envolver-se com Ele.

As justificativas egóicas os petrificam e os impedem de saborear a vida como festa; preferem a solidão de seus “afetos desordenados”.

No entanto, Deus não se dá por vencido. Sua bondade não tem fronteiras e não discrimina ninguém; por isso, o dom do banquete é oferta universal, é para todos. Diante da negativa dos convidados, o banquete se abre a todos os que estão fora, nos caminhos e encruzilhadas, bons e maus. A todos é dada a possibilidade de responder ao seu convite, ao seu chamado; ninguém tem o direito de sentir-se privilegiado ou de reivindicar a exclusividade. É preciso abrir-se às periferias, reconhecendo que também quem está nas margens, inclusive aquele que é rejeitado e desprezado pela sociedade, é objeto da generosidade de Deus. 

Tudo isto nos leva a vencer o costume de posicionar-nos comodamente no centro, como faziam os chefes dos sacerdotes e dos fariseus. Mais uma vez aparece o alarme de viver a fé numa posição de conforto, de busca de seguranças e certezas, de instalação no de sempre e de reatividade e resistência frente o novo. Deus oferece a possibilidade da plenitude humana, tudo está preparado no interior de cada pessoa para conectar-se com a Fonte e viver a partir do essencial.

O evangelho rejeitado por vários, encontra uma acolhida inesperada em muitos outros corações.

Enfim, a parábola deste domingo parece expressar com claridade que somos chamados a participar incondicionalmente da vida divina, onde temos pendente uma refeição que não é tristeza, mortificação, mas um festim que se expande e atrai a todos para a comunhão com o Deus festeiro.

No fundo, a parábola de hoje denuncia o “ateísmo da indiferença”, o “ateísmo da falta de apetite”, na qual nem sequer a mesa preparada e as melhores carnes, são capazes de abrir o apetite de muitos. Eles mesmos sofrem também a surdez, incapazes de escutar a música da festa.

São muitos os “inapetentes”, aqueles que tem tudo, que vivem ocupados em “suas terras”, na obsessão dos “seus negócios”. Podemos chamar isso de “surdez do ter”, ou “indiferença da abundância”. As coisas fazem muito ruído no coração; elas ocupam muito espaço no interior e não deixam lugar para Deus.

Também são muitos os que se sentem saturados do “religioso” (religião esvaziada de festa e centrada no sacrifício, na mortificação, na penitência...). Muitos ainda se perguntam se esse banquete que nós oferecemos não é demasiado pobre, repetido e sem música que alegre a vida.

É um questionamento que todos nós temos de fazer. Por que se afastam aqueles que estão dentro da comunidade cristã? Por que não vem aqueles que estão fora? Por que será que as festas de Deus são pouco atraentes? Por que será que as festas de Deus encontram tanta indiferença?

Talvez porque a imagem de Deus e do evangelho que oferecemos é pouco atrativa.

Deus nos apresenta uma religião e uma salvação que é “boda”. Dá impressão que, em nossas comunidades cristãs, há mais velório que bodas; nossa pregação provoca mais aborrecimento que festa e banquete.

E, por último, o polêmico “traje de casamento” para entrar no banquete: não se trata de uma purificação penitencial que só afeta a cada um; é o traje da vinculação à nova comunidade festiva. 

É muito fácil entrar na festa e fazer parte da comunidade, aproveitando das vantagens, mas sem mudar as atitudes nem viver de maneira sintonizada com o evangelho. Não basta pertencer nominalmente a uma comunidade; só aquele que, de verdade, se reveste de Cristo (suas atitudes, sua liberdade, suas opções, seus sentimentos...) pode estar seguro de entrar no Reino. É preciso revestir-se com as roupas do amor, da convivência solidária, do espírito festivo...

Deus não pratica represálias contra ninguém. 

Fica de fora aquele que se nega a entrar na dinâmica da comunidade cristificada.


 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 22,1-14

 

Na oração: 

Sua comunidade cristã é lugar do anúncio da Boa Notícia do “Deus festa” ou está mais focada nas ameaças, nas mortificações e penitências?

- As celebrações da Ceia do Senhor trazem a marca da alegria, da partilha, da acolhida mútua...? Ou estão mais centradas no ritualismo frio, vazio, estéril, sem a participação dos membros da comunidade?

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Comprometidos no cuidado da Vinha do Senhor

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 27º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“... e arrendará a vinha a outros agricultores, que lhe entregarão os frutos no tempo certo” (Mt 21,41)

 

No mês de setembro de cada ano, a Igreja celebra a jornada do “Tempo da Criação”; uma iniciativa ecumênica que une os cristãos de todo o mundo para despertar a sensibilidade pelo Cuidado da Criação. Trata-se de uma boa oportunidade para refletir e orar sobre o sentido profundo de nosso compromisso com a criação, não só a partir de um ponto de vista estritamente ecológico, mas também a partir de uma visão profundamente espiritual e bíblica que nos recorda que nossa fé cristã nos compromete com a Casa Comum que Deus nos confiou.

Somos convidados a viver este Tempo da Criação como uma oportunidade espiritual para renovar nossa relação com Deus, com os outros e com a Criação inteira. Sejamos semeadores de paz e de esperança, a começar pela nossa vida cotidiana: com atitudes de gratidão, de simplicidade, de respeito, de cuidado e de amor por tudo o que nos rodeia.

Sempre dizemos que uma imagem vale mais que mil palavras. Jesus sabia disso muito bem. Por isso, no evangelho deste domingo, Ele traz a imagem da vinha que, no seu interior, revela uma força transformadora, visível nos seus frutos saborosos; ao mesmo tempo, ela é lugar do encontro, da vida, da festa, da paz e da esperança.

Na simbologia hebraica, a Vinha é a Casa Comum, a casa de todos; ela é um dom de Deus para que desfrutemos de seus frutos, mas também para que a cuidemos, com a finalidade de assegurar que todas as pessoas possam viver junto dela com dignidade. 

Na perspectiva bíblica, a imagem da vinha nos fala de convivência, de harmonia, de alegria, de acolhida e de gratuidade, por ela ser dada em herança. Não somos proprietários desta vinha, somos seus administradores. A vinha é um destino, é uma missão.

Também a Vinha pode ser para nós, hoje, símbolo de nossa Casa Comum, a mãe Terra. O Deus da ternura e do cuidado colocou em nossas mãos uma vinha que Ele embelezou e preparou para dar abundantes frutos.

A vinha é o rosto da suma bondade d’Ele; ela é o lugar da revelação das suas entranhas misericordiosas. Assim como fez aos agricultores da parábola, também a nós Ele nos convoca a sermos co-criadores em sua vinha, para que a cuidemos, a protejamos e a amemos, possibilitando-a dar todos os seus frutos. Também Ele nos entrega a vinha para que saboreemos os seus frutos, mas conscientes de que somos meros trabalhadores nela, e não donos da mesma.

O Deus da entrega e do amor extremo convida a nos relacionar com Ele, a acolher esta encomenda e a reconhecer que tudo é do Filho, aquele que é a “pedra angular” de nossa vida quando o acolhemos e sabemos devolver tudo o que temos recebido. Só dessa maneira nossa vinha dará seu fruto e saberemos trabalhar nela a partir da criação de laços de fraternidade e de entendimento, junto a tantos outros que também foram chamados a cuidar dela. E assim, unidos no Filho, continuaremos cantando um canto de amor à vinha.

E o que foi feito com a vinha do Senhor? 

O ser humano rompeu as relações com o senhor da vinha, tomou posse dela, apoderou-se de seus frutos; fechado em si mesmo e absoluto em suas decisões, desencadeou uma fúria destruidora, uma sede de dominação, um comportamento soberbo e soberano diante da Vinha que recebeu como herança. O afã de dominar a vinha em benefício próprio é a origem de muitos conflitos, da violência e da miséria no mundo.

Consequências: há um outro ar contaminado que invade tudo:

- individualismo sem medida, competitividade selvagem, falta de solidariedade, materialismo, hedonismo,

  insensibilidade diante da dor dos outros, ausência de princípios éticos, falta de compaixão e de cuidado,

  surdez às mensagens do universo e de todas as coisas, indiferença frente à sacralidade do mundo...

O drama do ser humano é perder a memória de que é parte do todo: seu instinto de posse e domínio o leva a romper a relação cordial com todas as criaturas, caindo num devastador vazio existencial. A “centração em si mesmo”, sem levar em conta a rede de relações que o envolve, provoca a quebra da “re-ligação” com tudo e com todos. Este é o veneno que corrói o ser humano por dentro: petrificação de sua interioridade, a perda do gosto pela verdade, pelo belo e pelo bem, o extravio da ternura e da transcendência, a atrofia da comunhão com o todo cósmico...

A vinha está sendo “desnaturada” e o ser humano “desumanizado”. Esta crise aponta para um ser humano doente e a doença consiste justamente na separação entre o ser humano e a vinha, na falta de cuidado e no esquecimento de seu parentesco e solidariedade.

A crise ecológica é a própria crise do ser humano. A vinha está em ruínas, devido à maneira como ele a habita; arranca pedaços dela para satisfazer seus interesses individuais e não se dá conta que está destruindo seu próprio habitat. Podemos qualificar tudo isso de desolação comunitária: o lugar pós-moderno do “inferno”. 

Diante desta situação que caminha para a destruição total, faz-se urgente uma nova consciência ecológica, ou seja, que o ser humano mude sua maneira de se relacionar com a natureza e passe da “dominação à benevolência, do ‘sobre-pôr-se’ e do ‘im-pôr-se’ ao ‘com-pôr-se’, da guerra à paz, da exploração ao respeito, da destruição ao cuidado, do secularismo devastador à sacralidade reverente (L. Boff).

Aquilo que é narrado como tendo acontecido muito tempo atrás, numa terra distante, na realidade acontece agora, dentro de cada um de nós. Daí a força provocativa da parábola deste domingo.

Em chave de interioridade, podemos afirmar que há uma vinha em nosso interior, plantada com todo cuidado. A vinha interior é plantada por Deus em função da vida; por isso ela é sagrada e é lugar de contemplação e encontro íntimo com o Criador; ela é o teatro da glória de Deus, isto é, da manifestação da presença divina. Ela deve ser o lugar da fecundidade, da convivência e da celebração.

Com o toque divino, uma identidade nova ressurge em nós: já não somos mais estrangeiros, nem inimigos em nossa própria vinha.

Para reconstruir a vinha interior é preciso:

- erradicar a “força dominadora” do nosso coração que, no afã de tudo possuir, alimenta conflitos e violências e que acabam destruindo a Vinha da vida;

- ativar uma mentalidade nova, um coração novo, uma sensibilidade cósmica, na qual a gratidão se expressa como atitude de acatamento, de respeito e de cuidado diante da Criação.

Nós e o universo só seremos felizes quando todos formos uma grande vinha, por onde o Senhor passeia, à hora da brisa fresca da tarde (Gen 3,8) . A vinha é a face graciosa que Deus oferece à humanidade. Na vinha, Deus realiza seu sonho. E fica feliz!

Nesse sentido, a espiritualidade cristã vai além de uma determinada experiência religiosa; ela se expressa como uma “atitude amorosa” para com a Vinha, recebida em herança. 

A Vinha inteira é um imenso altar, no qual podemos contemplar a presença do Criador; ela é sinfônica (harmonia de sons); estamos rodeados por uma multiplicidade de notas, sons, sinais e mensagens diferentes. Com a Vinha, formamos uma mesma realidade complexa, diversa e única; ela nos encanta e nos convida, constantemente, à admiração e ao cuidado.


O Senhor da minha vida. - BLOG DO PADRE JOÃO CARLOS - MEDITAÇÃO

 

Textos bíblico: Evangelho segundo Mateus 21,33-43

 

Na oração:

Deixe o Espírito transitar pela sua vinha interior, para que aí Ele estabeleça o “cosmos” (harmonia e beleza”) e crie um coração novo, de onde brotarão frutos de refinado sabor.

- Dê nomes aos “frutos” de sua vinha interior.