sábado, 24 de fevereiro de 2018

TRANS-FIGURAÇÃO: expandir a luz interior

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 2º Domingo do Tempo da Quaresma - Ano B.

“E transfigurou-se diante deles” (Mc 9,2)

Todos nós temos consciência que a superficialidade, o consumismo e o individualismo são as marcas de nossa sociedade atual. Marcas que nos des-figuram e nos desumanizam. Já o grande teólogo Paul Tillich (1886-1965) afirmava que “a grande tragédia do homem moderno é ter perdido a dimensão de profundidade”. Nas suas obras há um insistente apelo a re-encontrar aquilo que ele chamava “a dimensão perdida”.
Este é o contrassenso humano: por uma parte, salta à vista a tendência a instalar-se na superficialidade (chamemos isso de “zona de conforto” ou simplesmente “comodidade”) e, por outra, a certeza de que somos todos habitados por um anseio que nos chama constantemente para a profundidade (chamemos isso de “nossas raízes”, “nosso ser”..., em definitiva, “nossa casa”). Entre esses dois extremos – superficialidade e profundidade – transcorre nossa vida.
No fundo, a superficialidade, o consumismo e o individualismo são tão somente tímidas compensações que tentam aliviar o vazio de sentido que nos habita; ao mesmo tempo se apresentam como “cantos de sereia” que nos distraem daquilo que é verdadeiramente importante: viver o que somos.
Talvez, a chamada “dimensão perdida” não seja outra coisa que a “trans-figuração” de nossa verdadeira identidade. Este é o apelo do Evangelho de hoje: viver “trans-figurados” a partir de nossa interioridade.
Estamos vivendo fora de nós mesmos, daí que nosso mundo interno permaneça na obscuridade. Se nos voltarmos para dentro, se nossa atenção começa a dirigir seu foco para o interior, então tudo se ilumina.

O chamado “mistério” da “Transfiguração” poderia ter sido, em sua origem, um relato de aparição do Ressuscitado. Posteriormente teria sido re-elaborado para transformar-se numa declaração messiânica: Jesus, confirmado pelas Escrituras judaicas, representadas nas figuras de Moisés (“a Lei”) e Elias (“os profetas”), é apresentado como “Filho amado” de Deus. Todo Ele é transparência e luminosidade.
Jesus viveu constantemente transfigurado, mas isso não se expressava externamente com espetaculares manifestações. Sua humanidade e sua divindade se revelavam cada vez que se aproximava de uma pessoa para ajudá-la a ser ela mesma. A transfiguração deixa de ser um evento para tornar-se um modo permanente de Jesus viver, pois a única luz que nele se revela é a do amor; e só quando manifesta esse amor, ilumina. Na sua humanidade deixa transparecer a luz de Deus.

A Transfiguração não está só nos dizendo quem era Jesus, mas também quem somos realmente. Ela des-vela também nossa identidade e nos faz caminhar em direção à nossa própria humanidade. Por isso, uma pessoa transfigurada é uma pessoa profundamente humana. Tudo o que é autenticamente humano, é transparência de Deus.
A transfiguração desencadeia um movimento interno de busca continuada e revela que o ser humano é inquieto por natureza, e será sempre assim, em seu afã de abrir-se a um horizonte cada vez mais amplo. Todo o ser humano traz em seu interior uma faísca de luz que busca expandir-se; não falta ao seu coração a sede de eternidade.
Transfiguração, portanto, é transformação do espaço interior. Em meio às sombras profundas, marcadas pelos traumas, feridas, experiências negativas..., encontram-se “pontos de luz”. Temos todos os recursos necessários para ativá-los. Então, o círculo de nossa luz vai se ampliando, começando pelo nosso eu mais profundo; ela vai se fazendo cada vez mais extensa, iluminando toda a realidade cotidiana. Passaremos, a viver como “seres trans-figurados”.
Cuidemos, pois, do coração, pois dele brota a luz e a vida! Iluminemos nosso caminhar com a luz que há em nós mesmos!

Nesse sentido, a cena da Transfiguração vem nos recordar que, na essência, somos luminosidade; por detrás de comportamentos com frequência sombrios, continuamos sendo transparência. Isso é o que nós cristãos reconhecemos em Jesus: Ele é o “espelho” nítido no qual vemos nossa identidade profunda. E essa identidade é luz e transparência.
Não é casual que, mesmo perdidos nas trevas de nossa inconsciência, sentimos saudades da luz. Também não é casual que, mesmo nas ações mais complicadas e questionadas, procuramos justificar nossa transparência. Uma e outra des-velam quem somos; por isso mesmo, se tornam imprescindíveis para viver com mais intensidade. Que impede que possamos percebê-las em nós e nos demais?

Nossa essência é luminosa, transparente, simples, doce, verdadeira... Mas, para percebê-la, precisamos nos despertar. E isso implica e significa, ao mesmo tempo, viver ancorados em nossa verdadeira identidade.
Para além do “ego superficial”, a trans-figuração nos faz acessar a um “lugar” sempre estável, sólido e permanente, onde reconhecemos a presença d’Aquele que é a Luz indizível.
Esse “lugar” é sempre luminosidade e transparência. E a partir dele tudo fica transfigurado. Na realidade, não é que as coisas se transfigurem, senão que, mais exatamente, vemos em tudo a Verdade, a Bondade e a Beleza daquilo que é.
Se soubéssemos olhar com os olhos transfigurados veríamos que por detrás das pobres aparências se escondem muitos sentimentos de bondade, de generosidade, de fidelidade e amor.
A transfiguração nos fala da verdade que levamos dentro de nós, mas também dos novos olhos que precisamos para ver. Se soubéssemos olhar com os olhos do coração, veríamos a luz maravilhosa escondida no interior de cada pessoa.
Conhecemos as pessoas por fora. Quem as conhece por dentro?
Debaixo das aparências de vulgaridade, pode se esconder um grande coração.

Texto bíblicoMc 9,2-10

Na oração:
Transparente é um modo de ser e de agir; é a condição para que possamos viver em chave pascal, para poder ver Deus presente e atuante em tudo e em todos.
O grande desafio para viver a transparência é facilitar, no meio de nossa cultura acelerada e carregada de imagens, espaços sossegados para perceber o que o Espírito vai fazendo em nós. Se não sabemos o que nos acon-tece por dentro, dificilmente poderemos ser presença iluminadora junto aos outros.
- Como seguidores(as) de Jesus, somos chamados a ser cúmplices do Espírito, abrindo-nos totalmente à sua ação e deixando-nos trans-figurar por Ele.
- Como isso pode se fazer presente no seu ritmo cotidiano de trabalho, nas relações, no compromisso...?

sábado, 17 de fevereiro de 2018

DESERTO: tempo de des-velamento interior

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 1º Domingo do Tempo da Quaresma - Ano B.

“O Espírito levou Jesus para o deserto” (Mc 1,12)

Ao iniciarmos a Quaresma, um lugar que continuamente será citado e que vai aparecer com frequência nos textos, reflexões e orações, é o “deserto”. Deserto que deve fazer parte de nossas vidas em algum momento: espaço de escura e de silêncio, de busca, de despojamento; lugar que nos faz tomar consciência das coisas essenciais que dão sentido à nossa existência; ambiente privilegiado para o encontro tu a tu com o Deus amor que nos habita, ou melhor, em Quem habitamos. Se nos abrirmos à Sua presença amorosa, caminharemos livres dos falsos absolutos que cada dia nos tentam, e nossos desertos existenciais se converterão em um jardim onde florescerá de novo a esperança.
Como seres humanos, de tempos em tempos precisamos passar por experiências de despojamento, de esvaziamento, de vulnerabilidade, de crise..., para poder suavizar nosso coração e, desse modo, fazer-nos mais receptivos e expansivos.
O “deserto” é o lugar das perguntas, do discernimento, da busca de profundidade, o ambiente favorável que nos oferece ferramentas com as quais poder romper as bolhas que nos aprisionam, impedindo-nos sair para a aventura da vida.
O “deserto” nos sacode e nos desnuda, porque desmascara nossas falsas seguranças. Por isso, somos movidos a buscar nossas raízes mais profundas. Quando esse percurso é vivido adequadamente, é provável que no final vamos poder dizer, como Kierkegaard, “eu teria me afundado se não tivesse ido ao Fundo”. Com efeito, antes ou depois, o deserto nos conduzirá para o Fundo estável e sereno, nos conduzirá à “casa”, à nossa verdadeira identidade, à “Terra prometida”.

Num mundo em que a imagem e as redes sociais ocupam, com suas presenças, toda a nossa vida, todos os nossos lares, os espaços públicos, fazendo-nos viver a cultura da superficialidade, muitas pessoas de diferentes condições sociais e religiosas já começam a sentir a urgente necessidade de escapar de tanta solicitação externa que as oprime e alimentam o desejo de se ocupar mais decididamente com o seu mundo interior.
Mas, se somos sinceros, adentrar-nos em nosso “eu profundo” e viver a partir de dentro é algo que não sabemos e muitas vezes até sentimos medo. É cada vez mais difícil a criação de um espaço interior, em sintonia e bem integrado com o mundo exterior.
Nesse sentido, a liturgia quaresmal revela-se como uma mediação privilegiada para potencializar nossa interioridade, ou destravá-la, para que a expansão de nossa vida seja possível. Tal experiência resgata-nos do entorpecimento e nos dá um choque de lucidez. Ela oxigena a nossa mente e implode nosso conformismo; revela-se instigadora e provocativa, fonte inspiradora que nos liberta do cárcere da rotina. Ela nos faz lembrar que somos andarilhos, deslocando-nos no traçado da existência em busca de respostas que dêem sentido à nossa existência.

O caminho para Deus passa pela experiência mais profunda e autêntica de si mesmo, convidando cada um a repensar como, em meio às dificuldades de cada tempo, sempre é possível o percurso em direção à própria interioridade.
Buscar o Deus que “está dentro de mim, enquanto eu estou fora” (S. Agostinho), significa entrar em relação direta com nosso interior, com o que nos move, com o que sentimos e pensamos; significa dissolver bloqueios afetivos já solidificados e conflitos não resolvidos; é fazer que se calem muitos ruídos parasitas e que se escute, por fim, o silêncio sonoro que brota do oculto; desentupir os condutos do coração e processar a lava ardente dos grandes desejos significa abrir os olhos para uma paisagem desconhecida.

Foi no deserto onde Jesus descobriu o que move verdadeiramente o coração do ser humano. Foi nessa situação – de solidão – onde também descobriu o que Deus ama no coração humano.
Nessa experiência de deserto Jesus tomou consciência de duas forças ou dinamismos que atuam no coração humano: um de expansão, de saída de si, de vida aberta e em sintonia com o Pai e com os outros; outro, de retração, de auto-centração, de busca de poder, prestígio, vaidade...  
Jesus viveu impulsionado pelo Espírito, mas sentiu em sua própria carne as forças do mal: “foi tentado por
satanás”; satanás significa “o adversário”, a força hostil a Deus e a quem trabalha por seu reinado. Na tentação de Jesus se des-vela o que há em nós de verdade ou de mentira, de luz ou de trevas, de fidelidade a Deus ou de cumplicidade com a injustiça. Qual dos dois dinamismos internos alimentamos?

O evangelista Marcos ressalta que o “deserto” não é só um lugar geográfico; é também o lugar que buscamos para nos silenciar e nos oferecer a oportunidade para reconectar conscientemente com nosso centro.
Em todo processo de crescimento, e mais ainda nos períodos críticos do mesmo, vamos nos deparar com a presença dos “animais selvagens” e dos “anjos” em nosso eu profundo.
É assim que nomeamos as experiências que acontecem quando nos adentramos em nosso mundo interior.
Os “animais selvagens” são aquelas circunstâncias internas e que nos frustram e, sobretudo, aquele material psíquico que não reconhecemos ou aceitamos em nosso interior: nossas paixões, nossos traumas, nossas feridas, nossos instintos, nossa impotência e fragilidade... É a “sombra” que vamos arrastando, e que continua nos assustando enquanto não a reconhecemos e a abraçamos abertamente em sua totalidade.
Os “anjos” são os consolos – externos e internos – que aparecem em nosso caminho, em forma de paz, de luz, compreensão, de fortaleza, de amor...

“Animais selvagens e anjos” cumprem seu papel, pois nos “obrigam” a avançar para nossa verdade profunda, tirando-nos da superfície de nós mesmos, ou talvez da “zona de conforto” na qual tínhamos nos instalado, conformando-nos com uma vida “normótica” e sem criatividade.
O amadurecimento humano implica abraçar toda nossa verdade, também aquela que nos aparece sob disfarces temerosos, como o medo, a solidão, a tristeza, a angústia... Lidar com tais “feras” requer capacidade de olhá-las de frente, com compreensão, paciência e muito afeto.
A espiritualidade cristã nos mostra que exatamente em nossas feridas nós descobrimos o tesouro do nosso verdadeiro “eu”, escondido no fundo de nosso coração.
Tradicionalmente, fomos coagidos a viver uma espiritualidade que nos ensinou a prender os “animais selvagens” e a levantar junto deles um edifício de “grandes ideais”.
E com isto, passamos a viver constantemente com medo de que as feras pudessem fugir e nos devorar.
Sabemos que tudo quanto nós reprimimos nos faz falta à nossa vida. Os “animais selvagens” tem muita força. Quando os prendemos, fica nos faltando a sua força, de que temos necessidade para o nosso caminho para Deus, para nós mesmos e para os outros. Somos obrigados a fugir de nós mesmos, ficamos com medo de olhar para dentro de nós, pois poderíamos correr o risco de nos deparar com as feras perigosas.
Quando, graças à presença dos “anjos”, deixarmos de rejeitar e de resistir aos “animais selvagens”, iremos tomando consciência como a luz e a fortaleza vão se expandindo em nosso interior; nós nos perceberemos mais unificados e harmoniosos. E assim, estaremos mais preparados para a “travessia” em direção à Páscoa.

Texto bíblicoMc 1,12-15

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Na oração:
Cuidamos da interioridade quando nos questionamos sobre o modo como olhamos a vida, como atuamos diante das situações, como nos relacionamos com os outros, como vivemos nossas convicções e crenças; e, sobretudo, quando nos exercitamos em determinadas “atividades espirituais” que podem nos ajudar a des-velar o nosso “eu original”, como o silêncio, os momentos de oração, o encontro com a Palavra, a partilha em grupo...

- Quê mediações você vai ativar durante a Quaresma para ajudar a des-velar sua própria interioridade?

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Retiro Quaresmal

A Quaresma é um tempo de preparação para a Páscoa. Nesse período, busca-se fazer uma experiência da presença amorosa de Deus na vida cotidiana. Segundo o padre Luís Renato Carvalho de Oliveira, SJ para todo cristão, o itinerário fundamental desse tempo é o da conversão do coração e da solidariedade para com o próximo. “A oração é o melhor meio para orientar cada um de nós a viver sua vocação fundamental à santidade”, afirma.
A cada ano, o jesuíta prepara o material do Retiro Quaresmal, que tem como intuito ser um apoio no processo de oração pessoal. “Dessa experiência deverá brotar em nós, como resposta ao amor de Deus, o desejo e a prática de um relacionamento pessoal e amoroso com Ele em todos os momentos e situações de nossa vida. As pessoas que, nesta experiência, respondem com empenho e fidelidade à graça de Deus, tem obtido como fruto um notável crescimento em sua vida de fé, de oração, na convivência familiar e comunitária, no trabalho pastoral-evangelizador e no desejo de aprofundar sempre mais sua intimidade com Deus”, explica padre Luís Renato.
O jesuíta também destaca que, no Brasil, durante o tempo da Quaresma, há também a Campanha da Fraternidade, que é realizada anualmente pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos no Brasil). Com o tema Fraternidade e superação da violência e o lema Vós sois todos irmãos (cf. Mt 23,8), a Campanha da Fraternidade 2018 buscará recordar a vocação e a missão de todo o cristão e das comunidades de fé, a partir do diálogo e colaboração entre Igreja e Sociedade, propostos pelo Concílio Ecumênico Vaticano II.
Padre Luís Renato sugere que as pessoas organizem grupos em suas comunidades e paróquias. “Por que não formarmos uma pequena equipe para acompanhar este Retiro Quaresmal na Paróquia? Seria bom? Seria possível?”, propõe o jesuíta. Ele explica que é possível fazer a experiência do Retiro Quaresmal sozinho ou em grupo, mas lembra que é fundamental seguir alguns elementos básicos:
  1. Dedicar 30 minutos à oração pessoal diária e rever esta oração durante alguns minutos.
  2. Participar de um encontro semanal para partilha da oração, orientações e entrega do material da próxima semana.
A seguir, é possível fazer o download dos materiais do Retiro Quaresmal 2018. Em caso de dúvidas, entre em contato com o padre Luís Renato através do e-mail: luisrenatosj@gmail.com.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A Vida que Ressurge das Cinzas

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho da Quarta-feira de Cinzas, celebração que dá início ao tempo da Quaresma.

“Tu, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto…” (Mt 6,17)

Outra Quaresma que chega! E alguém pode, com certo ar de rotina, multiplicar referências ao deserto, ao jejum, à esmola e à oração, com o risco da regularidade de tudo o que, na vida, é habitual, com a tranquila cadência do ano litúrgico, com a normalidade da passagem das estações. 
No entanto, a quaresma litúrgica, que nos é dada como tempo para voltar ao essencial, ou seja, ao Evangelho, é tempo pedagógico e terapêutico para preparar as entranhas e mobilizar o nosso coração frente o acontecimento central de nossa fé, a Páscoa. Tempo que provoca uma sacudida em nossa apatia, em nosso andar por inércia...

Antes de empreender o caminho quaresmal, antes de querer fazer a travessia do deserto, é necessário inclinar um pouco a cabeça e receber o perfume de nossas cinzas. Tal e como Jesus nos recomenda no Evangelho de hoje, não se trata de des-figurar nosso rosto, mas de nos deixar trans-figurar.
As “cinzas” são o símbolo daquilo que morreu e foi reduzido à sua expressão mínima.
Essa é a nossa garantia: aquilo que passa pelo fogo, é necessariamente renovado. Animar-nos, neste tempo de travessia, a acender o fogo para converter em cinza tudo o que é caduco e ultrapassado em nós; e ao nos ver rodeados de cinzas, sentir-nos-emos esvaziados de nossas falsas seguranças e ilusões, de nossa prepotência e auto-centramento. 
Das cinzas surgirá a oportunidade de uma nova vida, mais aberta e expansiva; as folhas caídas darão lugar ao novo broto e isto implica atrever-nos a viver com mais intensidade e criatividade, fazendo a dura travessia em direção ao novo que nos humaniza.

Quê podemos cultivar nestas próximas semanas quaresmais?
O deserto como atitude de silêncio, de esvaziamento e de solidão carregada de presença, para não viver de atração em atração, na feira das vaidades.
A oração como busca do Deus compassivo, dificultada pela cultura da superficialidade; isso implica uma escuta verdadeira da Palavra e uma sintonia profunda com Aquele que sempre se revelou Mestre e Guia.
A esmola como amor compassivo, que se expressa não em dar o supérfluo, mas fazer-se presença junto àqueles que mais precisam.
O jejum como resposta austera a um mundo que constantemente excita os apetites.
A conversão como saída da acomodação, deslocando-se em direção a uma vida mais comprometida com a justiça evangélica, ou seja, “ajustar-se” ao modo de ser e de agir de Jesus.

No Evangelho que abre o tempo da Quaresma, Jesus nos convida a praticar de coração as disciplinas espirituais da oração, do jejum e da esmola. Soa estranho falar de “disciplinas” em pleno séc. XXI.
Mas a palavra “disciplina” vem da mesma raiz de “discípulo”. Poderíamos defini-la como um modo de proceder proposto por um mestre a seu discípulo para crescer e emadurecer em diferentes aspectos de sua vida. Há disciplinas desportivas, artísticas, científicas... A partir da ótica cristã, ser discípulo de Jesus é segui-lo, escutá-lo, amá-lo e viver as “disciplinas” que nos propõe.
O problema é que as “disciplinas quaresmais” estão muito desgastadas na Igreja porque foram transformadas em leis e obrigações, impostas aos fiéis à força. Disfarçadas como penitências, se apresentavam como imprescindíveis para obter o perdão de Deus. Mas podemos redescobrir seu sentido a partir da liberdade e do amor. Assim veremos que são um presente e uma oportunidade privilegiada para nós, não para merecer o amor de Deus (pois Ele ama a todos incondicionalmente), mas para celebrar o amor de Deus. Para poder agradecer seu amor, queremos ser mais livres, mais justos, mais amorosos.
Nesta perspectiva, as três disciplinas espirituais da Quaresma (oração, jejum e esmola) encontram sua relação com as três dimensões do amor: a Deus, ao próximo e a si mesmo.

A oração nos ajuda a amar a Deus e a entrar em sintonia com Sua vontade. A vivência da oração e de todas as disciplinas associadas a ela, como o silêncio, a solidão, a reflexão, a meditação bíblica, a contemplação, a participação na liturgia da comunidade, a leitura de um livro espiritual,... nos preparam e nos ajudam a entrar no fluxo da ação amorosa de Deus, no mais profundo de nosso ser. Quando oramos, conhecemos e amamos mais a Deus, intuímos sua passagem em nosso dia-a-dia, alimentamos nossa vida interior, somos menos superficiais, nos fixamos mais nos dons que Ele nos concede, damos graças por estarmos rodeados de tanta beleza, mesmo em meio a uma terrível situação, alimentamos compaixão com aqueles que sofrem, somos mais conscientes de nossa fragilidade e, ao mesmo tempo, de nossa maravilhosa dignidade de filhos e filhas de Deus.
Quê lugar ocupa Deus em minha vida?

Esmola: a palavra “esmola” soa mal. Dá ideia de resto, de poder de quem tem sobre o nada de outros.
               O termo “esmola” deriva do grego “eleéo”, “ter piedade”, cuja forma imperativa “eleéson” figura no “kyrie” do ato penitencial da celebração eucarística. Antes que possamos ter piedade dos outros é Deus que teve piedade de nós. Precisamente porque brota da piedade divina e se modela sobre ela, a esmola não se reduz a um gesto de ordem apenas material: ela manifesta “um ato que indica o fazer-se companheiro de viagem de quantos se encontram em dificuldade”, participando na sua situação, com ternura. O sentido não está em dar coisas, mas fazer-se dom, oferecer algo de si, importante, significativo. Tem a ver com abertura de coração, sensibilidade e olhos abertos. É resultado de uma atenção permanente e ativa, que vai ao encontro do outro, que toma iniciativa, que se comove. É um estímulo a superar o assistencialismo, que mantém as diferenças, sustenta a dependência e não promove a cidadania.
A esmola nos provoca à solidariedade e ao espírito de compaixão, nos move ao serviço, à presença-qualidade, ao voluntariado, à prática do bem e da justiça.
- O quê prevalece em meu cotidiano: a mística do encontro ou a cultura da indiferença?

Finalmente, o jejum nos leva a amar-nos mais a nós mesmos. Há muitos tipos de jejum, desde aquele que busca fins terapêuticos até políticos (Gandhi) ou solidários. O desafio do jejum espiritual é que, para ser efetivo, necessitamos encontrar uma razão nobre: de quê temos de jejuar ou abster-nos?
Para muitos, o jejum clássico da comida continuará sendo um grande meio, mas para outros o jejum difícil e preciso será, por exemplo, desconectar-se um pouco das redes sociais, livrar-se de um vício ou afeto desordenado, controlar a língua e não falar mal dos outros, recuperar tempos de silêncio... Em definitiva, o jejum e a abstinência nos levam à auto-estima e a  ser “senhor de si” e são sinônimos de desintoxicar-se, desconectar-se, desapegar-se, desprender-se...Ou seja, fazer tudo o que nos leva a sermos pessoas mais equilibradas, autônomas e livres..., que tem mais tempo para amar a Deus e ao próximo.
Fazer jejum para despertar outras fomes: de justiça, de partilha, de compaixão...
- Quê outras fomes quero ativar em minha vida?

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Texto bíblicoMt 6,1-6.16-18

Na oração:

Da cabeça aos pés, perfumar-nos com o aroma da humildade. Toda a aventura para a Páscoa começará com este gesto de inclinar a cabeça e nos conduzirá, com o Mestre, a nos colocar aos pés dos outros para lavá-los com a água pura do nosso coração e cingidos, como Ele, com a toalha do serviço humilde.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Contágios que Salvam

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 6º Domingo do Tempo Comum - Ano B.

“Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou no leproso...” (Mc 1,41)

Como as narrações anteriores do evangelista Marcos, também a deste domingo é concebida como um desvelamento da personalidade de Jesus. Autoridade e compaixão: duas atributos de Deus que Jesus deixa transparecer no encontro com as pessoas, sobretudo as enfermas e excluídas; são as feições divinas que se visibilizam no agir de Jesus.
Além disso, Marcos quer também revelar a superioridade de Jesus em relação à Lei. Ele não depende da Lei para fazer o bem às pessoas ou para reintegrar o ser humano no convívio social e religioso. Pois, a Lei é (e deveria ser sempre) para o bem das pessoas; se Ele pode curar alguém pela “autoridade”, não é preciso primeiro consultar os guardiões da Lei. Basta que, depois da cura, o leproso ofereça o sacrifício de agradecimento a Deus, conforme o rito religioso costumeiro.

Jesus não duvida em transgredir a lei quando a vida está em perigo; mesmo sabendo que Ele se fazia “impuro” ao tocar no leproso, atreve-se ao risco do contágio. O motivo de sua atuação é só uma: a compaixão. Frente à situação de extrema exclusão, Jesus experimenta compaixão que faz brotar nele uma resposta amorosa; nascendo de suas entranhas e vencendo as normas rituais, a compaixão se transforma em uma palavra eficaz que devolve a vida ao homem enfermo e marginalizado.
A compaixão era já um dos atributos de Deus no AT. Jesus a faz sua em toda sua trajetória humana. É uma demonstração de que para chegar ao divino não é preciso destruir o humano. A compaixão é a forma mais humana de manifestar amor. Quando alguém sente como seu o sofrimento do outro é quando, de verdade, se fez próximo dele.
A compaixão, que toma conta do coração de Jesus, é fruto do corajoso deslocamento para a margem, para a necessidade do outro. Sua autoridade é sempre percebida como garantia e sustento da vida, pois ela é carregada de compaixão e não de poder. Só tem "autoridade" quem garante a vida e a recupera em todas as circunstâncias. A vida do outro é a razão única da autoridade compassiva.
O outro, sua necessidade e sofrimento, será sempre a alavanca que gera no coração humano a compreensão e o exercício da autoridade como verdadeiro serviço.
Só a compaixão desloca cada um para o lugar do outro. Só a compaixão ilumina a realidade do sofrimento do outro. Só a compaixão move na direção da oferta do outro.

No relato do evangelho de hoje pode-se descobrir uma cumplicidade entre o leproso e Jesus. Os dois vão mais além da Lei: um por necessidade imperiosa, o outro por convicção profunda.
O leproso, através de seu gesto ousado de se aproximar de Jesus, sabia também que sua vida – e sua libertação da marginalidade – não dependiam do Templo e dos sacerdotes, pois estes só constatavam a cura ou a permanência da doença em seu corpo. Os sacerdotes eram impotentes: não podiam restabelecer a vida.
Diante disso, o leproso toma uma atitude radical: não vai ao sacerdote, e sim a Jesus. Ao invés de ficar à distância e gritar sua marginalização, aproxima-se de Jesus, joelha-se diante dele e pede: “se queres, tens o poder de curar-me”. Reconhece que o poder da cura (que o tira da marginalidade) não vem da religião dos sacerdotes, e sim de Jesus, fonte de libertação e vida. Viola a lei para ser curado.
O leproso, dentro de sua necessidade, reconheceu que o "querer" é de Deus. A súplica que brota do seu coração, toca o centro do coração compassivo de Jesus. Esta escuta direciona a ação terapêutica d'Ele. A lição do coração de Jesus é única: o encontro de dois “quereres” que faz surgir nova vida.

Jesus, terapeuta compassivo do Espírito, revela uma presença que mobiliza o leproso a deixar emergir o Deus que habitava nele. E para isso necessita dar um passo a mais: através de suas mãos, estabelece com o enfermo um contato sanador, libera as fontes do amor que permaneciam ocultas e obstruídas. Sua ferida se converterá para ele no lugar da experiência de Deus.
O significado original do verbo “tocar” vai além de um simples e rápido contato: expressa outros sentidos: atar, enlaçar, envolver... muito mais coerente com a maneira de atuar de Jesus.
Quer dizer que Ele não só tocou o enfermo por um instante, mas que manteve essa postura durante um certo tempo. Tendo em conta o perigo do contágio que a lepra representava, podemos compreender o profundo significado do gesto, suficiente, por si mesmo, para fazer patente a atitude vital de Jesus. Não só demonstra que está acima da Lei quando se trata do bem de um homem, senão que assume o risco de contrair a lepra e tornar-se impuro também ele.
Ao tocá-lo, Jesus destravou a fonte originante da vida do leproso. Não só desapareceu a enfermidade, senão que é reconstruído em sua plena condição humana e reintegrado em seu ambiente social e religioso.
De fato, o homem, até então marginalizado, encontrou a reintegração e aproveitou-a para contar o que lhe acontecera. Mas Jesus foi ocupar o lugar do leproso, excluído para os “lugares desertos”.
De acordo com o sistema religioso vigente, ao tocar um leproso, Jesus torna-se impuro: torna-se leproso e fonte de contaminação; torna-se marginalizado e não poderá mais entrar publicamente numa cidade: deverá permanecer fora, em lugares desertos, como os marginalizados. O Filho de Deus foi morar com os excluídos. Aqui o evangelho de Marcos mostra quem é Jesus: é aquele que rompe os esquemas fechados de uma religião elitista e segregadora, indo habitar entre os banidos do convívio social.

A cura do leproso nos revela também que há outros contágios muito piores que desumanizam: preconceito, intolerância, indiferença, suspeita....
Continuamos presos à ideia de que a impureza contagia, mas o evangelho nos está dizendo que a pureza, o amor, a liberdade, a saúde, a alegria de viver..., também podem contagiar. Com sua presença inspiradora Jesus contagia compaixão, bondade, acolhida... Por isso, contágios que salvam e libertam.
Este passo teríamos que dar, se de verdade queremos ser seguidores(as) de Jesus. No entanto, continuamos justificando muito casos de marginalização sob o pretexto de nos permanecer puros.
Quantas leis, civis e religiosas, deveríamos transgredir hoje para ajudar todos os marginalizados a se reintegrarem na sociedade e na Igreja, possibilitando-lhes se sentirem como seres humanos!

Texto bíblico: Mc 1,40-45


Na oração:
O Evangelho indica que Jesus “estendeu a mão, tocou no leproso...”
O contato é sinônimo de calor, afeto, atenção, presença e ternura. Também expressa reconhecimento e segurança. Precisamos tocar e ser tocados para viver, necessitamos uma espiritualidade que se enraíze em nossas mãos.
O leproso se abre diante de Jesus que o toca. Quê poder tem nossas mãos quando as estendemos cheias de bênçãos! Quê força sanadora quando aprendemos a tocar com ternura, a tocar despertando essa vida profunda debaixo da pele!...

Todos somos um pouco como o leproso e podemos nos reconhecer em seu desejo de cura e de abundância de vida. E todos podemos também ser como Jesus para os outros, quando nosso olhar está livre de preconceito, nossas mãos se estendem para quebrar distâncias e nossa voz é capaz de tocar com calor a vida profunda e escondida dos outros.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Casa, lugar do encontro e do serviço

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 5º Domingo do Tempo Comum - Ano B.


“Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, para a casa de Simão e André” (Mc 1,29)

O Evangelho de Jesus é experiência de casa, de encontro e comunhão, de palavra para todos, lugar aberto à novidade do Reino.
No relato de hoje, Jesus desloca-se da sinagoga, lugar oficial da religião judaica, à casa, onde se vive a vida cotidiana, junto aos entes mais queridos. Nessa casa vai sendo gestada a nova família de Jesus. As comunidades cristãs devem recordar que não são um lugar religioso onde se vive da Lei, mas um lar onde se aprende a viver de maneira nova em torno a Jesus.
A primitiva comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus não começou formando uma nova religião instituída, mas uma federação de casas abertas, a partir dos pobres e para os pobres, criando redes de comunicação e de vida fraterna, casas-família, impulsionadas pelo testemunho e presença do Espírito do mesmo Jesus. “Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e possuíam tudo em comum... partiam o pão pelas casas e tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração” (At. 2,44-46).
A casa deve ser escola de encontro e fraternidade. A comunicação (comum união) se celebra entre suas paredes que, em seguida, se expande para além de seus limites, despertando uma sensibilidade solidária.
A casa prepara para a vida, pois é ali que os fundamentos de uma personalidade vão se solidificando.
Para Jesus, ser “humano” é ser casa aberta e acolhedora.

O evangelho de Marcos apresenta Jesus como “tekton” (6,3), construtor (pedreiro, ferreiro, carpinteiro…), e seu ofício era construir casas. Um dia descobriu que sua missão não era construir mais casas para o sistema injusto; deslocou-se, então, para as periferias, em direção aos sem-teto e iniciou um movimento de transformação, a fim de que todos pudessem ter “casa na terra de Deus”. Quis construir sobre o mundo a nova Casa do Reino, aberta a todos, com pão, com palavra, com amor mútuo. Ele, que não teve onde reclinar a cabeça, quis que todos os homens e mulheres tivessem casa, família... cem vezes mais. Assim, deixando seu trabalho de construtor, se fez “arqui-tekton” do Reino de Deus, onde todos pudessem construir suas casas em bases sólidas, começando pelos excluídos sociais: leprosos, cegos, paralíticos, coxos... Não construiu casinhas para pobres sem teto nas ladeiras e encostas da Galileia, mas moradas com fundamentos na rocha; ou seja, ofereceu-lhes dignidade e consciência, solidariedade e desejo de viver, espírito de comunhão e partilha... para que eles mesmos pudessem criar novas moradas (construí-las e compartilhá-las).
A boa nova da “Casa de Deus” (para todos) devia começar pelos mais pobres, excluídos, sem-teto e sem-terra, portadores de uma nova esperança de vida e casa compartilhada.

Em um mundo no qual as relações se estabeleciam através da força, da dominação, de uma maneira de exercer o poder em que o forte se impõe sobre o fraco, o rico sobre o pobre, o que possui informação sobre o ignorante, o relato da mulher curada por Jesus, no evangelho de hoje, nos introduz na nova ordem de relações que devem caracterizar o Reino: nele a vinculação fundamental é a da irmandade no serviço mútuo.
A prática de Jesus desestabiliza todos os padrões e modelos mundanos de poder, desqualificando qualquer manifestação de domínio de uns sobre os outros: inaugura-se um estilo novo no qual o “desenho circular” desloca e dá por superado o “modelo hierárquico”. Sua maneira de se relacionar com as pessoas marginalizadas e excluídas põe em marcha um movimento de inclusão onde, uma casa acolhedora e uma mesa partilhada com os menos favorecidos, invalidavam qualquer pretensão de poder, de prestígio, de situar-se acima dos outros, devolvendo a todos a dignidade perdida.
Do “exorcismo” da sinagoga passamos às “curas” nas casas e a primeira destinatária da ação de Jesus é a sogra de Pedro, erguendo-a da cama e curando-a no dia de sábado. Ela, uma vez curada, respondeu com um gesto de serviço, em sua casa, oferecendo uma refeição a Jesus e seus companheiros, como uma ação que inaugura o primeiro ministério cristão.
Assim está Jesus sempre presente entre os seus: com uma mão estendida que a todos levanta, como um amigo próximo que infunde vida. Jesus só sabe servir, não ser servido. Por isso, a mulher curada por Ele se põe a “servir” a todos; ela foi integrada em seu grupo de seguidores(as) e pode então “servir”, construindo a comunidade de iguais que Jesus queria, rompendo com a mentalidade patriarcal. Seus seguidores e seguidoras deverão viver acolhendo-se e cuidando-se uns dos outros.


Tanto Jesus como a sogra de Pedro superaram uma compreensão atrofiada do sábado, porque Ele curou e ela serviu nesse dia. Ninguém precisou dizer a ela o que deveria ser feito; não aprendeu de nenhuma exegese rabínica. Ela mesma compreendeu, como mulher, o que significa estar a serviço da vida. Com gratidão, correspondeu à ação de Jesus que lhe estendeu a mão para levantá-la de sua enfermidade, precisamente no dia de sábado; seu gesto (deixar-se levantar por Jesus e servir aos outros) marcará, de agora em diante todo o evangelho de Marcos, onde as mulheres serão as protagonistas. Ela superou um tipo de reli-gião farisaica e se vinculou a Jesus de um modo pessoal, como servidora, a “ministra” da comunidade cristã.
Por isso, quando Marcos nos apresenta a sogra de Pedro “servindo”, está nos dizendo: aqui há alguém que entrou no círculo de Jesus, que “alistou-se” no seu movimento, que respondeu ao seu convite para colocar-se aos pés dos outros e começou a “ter parte com Ele” (Jo 13,8).
Muitas dificuldades que temos na vida relacional procedem justamente de nossa resistência em nos colocar na atitude básica de um serviço que não pede recompensas, nem exige agradecimentos... Quem busca viver assim, basta-lhe a alegria e o prazer de poder estar, como Jesus, com a mão estendida para erguer o que está prostrado sob o peso da enfermidade.
Quantas distâncias se encurtam quando se toma alguém pela mão! Quantas suspeitas se dissipam quando se toma alguém pela mão! Quantos medos são superados quando se toma alguém pela mão!...
As mãos são divinas: expressam ternura, proteção, cuidado. Para Jesus, as mãos são para isso: levantar o outro, ajudar o outro a colocar-se de pé, devolver ao outro a capacidade de dar direção à própria vida.
Graças a muitas pessoas que se deixaram “tomar pela mão” por Jesus para “levantar-se” e “servir”, o cristianismo primitivo foi se constituindo em pequenas comunidades domésticas, reunidas nas casas, onde muitas mulheres assumiram funções eclesiais, ora como missionárias itinerantes e ora como responsáveis pelas igrejas familiares, onde presidiam a oração e a fração do pão.

Texto bíblico:  Mc 1,29-39

Na oração:
O evangelho convida a nos deslocar e nos aproximar dos lugares onde estão os prostrados da vida, tomá-los pela mão e ajudá-los a levantar-se. Então, todos juntos, nos disporemos a servir, teceremos o manto da solidariedade social e eclesial a partir da cotidianidade; seremos assim testemunhas mobilizadoras numa sociedade cansada de palavras e necessitada de experiências que se façam verdade e vida.
- Você percebe que sua casa é prolongamento da Casa do Reino, desejada e construída por Jesus? Quê sinais você encontra nela que confirmam ser uma “casa cristificada”?