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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Reconfigurando a rota da vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 26º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“O filho respondeu: ‘não quero’. Mas depois mudou de opinião e foi” (Mt 21,29)

 

Somos pessoas em processo de construção; nunca estamos prontos. Também no seguimento de Jesus há um percurso a ser feito, com altos e baixos, fidelidades e infidelidades, mentiras e verdades...

Todos somos habitados por um “espírito de busca”: de sentido, de verdade, de bem, de justiça... Queremos sempre acertar em nossos compromissos, em nosso projeto de vida, em nossa vivência do Evangelho.

Buscamos, porque estamos inquietos e desejamos saborear uma paz interior, uma certa qualidade de vida, uma coerência no nosso modo de proceder.

No entanto, também somos seres limitados, inconstantes e frágeis. Há uma distância entre aquilo que buscamos e o que de fato vivemos. Nem sempre acertamos na rota do seguimento de Jesus. Muitas vezes seguimos rotas que não levam a lugar nenhum ou, pior ainda, a lugares perigosos: lugares egóicos, auto-centrados, carregados de vaidade...

É preciso, de tempos em tempos, inspirados pelo horizonte do Evangelho, reconfigurar nossa rota de vida para que ela flua pelas sendas da compaixão, da presença solidária, da sensibilidade comprometida.

No evangelho deste domingo, Jesus continua fazendo advertência à sua comunidade de seguidores(as). É muito perigoso achar que já estamos prontos, que somos “perfeitos”, que não precisamos amadurecer mais na vivência do Evangelho. É importante não só ativar os recursos e as reservas interiores de dons, mas também des-velar (tirar o véu) as fragilidades, as incoerências, os fracassos..., e reconfigurar a rota da vida, inspirada na Vida de Jesus Cristo. Somos seguidores(as) de uma Pessoa, e não de uma doutrina, de uma religião. A pura teoria não serve para nada, só a vida salva. Tudo o que dizemos ou proclamamos são palavras vazias se não são acompanhadas por uma atitude vital que, inevitavelmente, se manifestará nas obras. “Mesmo que não queirais crer em mim, crede nas minhas obras” (Jo 10,38).

Para ilustrar a realidade de nossa vida cristã, Jesus narra uma parábola que é das mais claras e simples. Um pai se aproxima de seus dois filhos para pedir-lhes que fossem trabalhar na vinha. O primeiro responde com uma negativa rotunda: “Não quero”. Em seguida, pensa melhor e vai trabalhar. O segundo reage com uma docilidade ostentosa: “Sim, vou”. No entanto, tudo fica em palavras, pois não vai trabalhar na vinha.

A mensagem que brota da parábola é clara e fora de toda discussão. Diante de Deus, o importante não é “falar”, mas fazer; o decisivo não é prometer ou confessar, mas cumprir sua vontade.

Os escribas falam constantemente da lei: o nome de Deus está sempre em seus lábios. Os sacerdotes do templo louvam a Deus sem descanso; sua boca está cheia de salmos. Mas, as coisas não são sempre como parecem. Os cobradores de impostos e as prostitutas não falam a ninguém de Deus. Faz tempo que esqueceram a lei. No entanto, segundo Jesus, vão adiante dos sumos sacerdotes e anciãos do povo no caminho do Reino de Deus.

Cada dia nos encontramos com homens e mulheres cujas vidas parecem insignificantes, limitadas, frágeis... No entanto, quando convivemos com eles e elas, nos damos conta que são almas generosas, corações abertos, desejos vivos, esperanças que os fracassos não conseguiram murchar.

Muitos proclamam com boca cheia que são cristãos, que cumprem alguns ritos e penitências, mas estão carregados de ódio, de intolerância, de preconceito; também são muitos aqueles que, sem serem cristãos de “carteirinha”, vivem o evangelho com muito mais coerência. 

O farisaísmo se torna atitude corrente entre nós, e damos por satisfeito o fato de falar do evangelho ou ouvir falar dele para tranquilizar nossa consciência.

Nossas vidas estão marcadas por muitos “sins” e “nãos”. A vida se define entre o “sim” e o “não”; mas não com o “sim” da palavra, mas com o “sim” da vida.

Somos muitos que dizemos a Deus “sim”, mas nossas vidas continuam sendo um “não”; somos muitos que dizemos a Deus “não”, mas logo nossas vidas são um silencioso e profundo “sim”. 

Por onde anda o “sim” decidido no cotidiano de nossa vida? Em qual dos filhos da parábola nos vemos representados? Somos homens e mulheres só de palavras? Praticamos aquilo que prometemos? Permanecemos só nas “boas intenções” ou passamos aos atos? É Deus o norte e o guia de nossa existência?

Demos graças a Deus porque Ele continua nos chamando a trabalhar em sua vinha. O importante é sermos conscientes de que, certos caminhos que elegemos nos afastam d’Ele, de seu amor, de sua presença, de sua vinha e do caminho que nos conduz à vida, à felicidade, à graça.

Não nos conformemos com a mediocridade em nossa vida cristã. Não podemos dizer “sim” ao Senhor e logo andarmos por outros atalhos totalmente diferentes ao Evangelho.

Se na primeira vez não fomos capazes de dizer “sim” ao chamado de Deus, Ele aceita sempre nossa retificação. Quase sempre acertamos às custas de muitas retificações. 

Poucos são capazes de descobrir a meta e o sentido de suas vidas logo de cara. Mas não devem se preocupar com as falhas e os fracassos. O mais frustrante é ser incapaz de reconfigurar a rota da vida.

De fato, nem os maiores fracassos e erros são definitivos. Podemos, em qualquer momento, reconfigurar a trajetória equivocada da vida. Os erros cometidos podem nos ajudar a encontrar o caminho verdadeiro. Somos limitados e temos de aceitar esta condição porque faz parte de nossa natureza humana. Não podemos pretender, nem para nós e nem para os outros, a “perfeição” (pura ilusão mental). Quando exigimos a uma pessoa que seja mais-que-perfeita, estamos exigindo que ela deixe de ser humana.

À luz do Evangelho podemos reler, ressignificar e reinterpretar nossos fracassos, erros e desvios de rota.

Quem se identifica com “ideais” muito elevados, quem se exalta a si mesmo na busca da “perfeição”, mais cedo ou mais tarde terá de confrontar-se com suas “sombras”, será forçado a tomar consciência de sua condição humana e terrena, de seu “húmus”.

Quem “desce” até sua própria realidade, até os abismos do seu interior, até a escuridão de suas sombras, até a impotência de seus próprios sonhos, quem mergulha em sua condição humana e terrena e se reconcilia com ela, este sim, está “subindo” para Deus, faz a experiência do encontro com o Deus verdadeiro.

Essa é a razão pela qual toda a vida e mensagem de Jesus se condensam na vivência do amor. O que define a pessoa de fé não é que diga “Senhor, Senhor”, mas vive a prática compassiva do “vá e faça o mesmo”.

Sem dúvida alguma, Jesus sempre se revela como uma presença surpreendente, pois nos move a todos a vermos a realidade a partir de uma perspectiva diferente da que é habitual.

Ele é Aquele que vê mais além da realidade: descobre vida onde os outros só veem morte; desvela possibilidades onde os outros se deparam com o impossível; descobre sementes de futuro escondidas onde ninguém vê mais saída; vê santos onde todos só veem pecadores... Jesus é Aquele que vê bondade presente no fundo do coração, inclusive daqueles que são condenados como “publicanos e prostitutas”; sabe ler nos gestos mais simples a grandeza de um coração capaz de amar, de mudar, de ser melhor.

Eles e elas, homens e mulheres, expulsos, marginalizados, escórias da terra..., são os portadores do Reino de Deus, acima dos sábios fariseus, dos altos sacerdotes, dos representantes da religião centrada no ritualismo, na doutrina, no legalismo... O evangelho não diz que eles nos “precederão” (no futuro), mas que nos precedem já neste mundo, como Jesus que precede os seus no caminho de Jerusalém.


Você entendeu a parábola dos dois filhos (Mateus 21)? Eu explico verso por  verso!


Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 21,28-32

 

Na oração:

“Em você há uma luz capaz de espantar as trevas dos acontecimentos mais dramáticos; você é portador de uma força que pode sustentá-lo em experiências exigentes. Em sua fraqueza há algo divino. O que a terra seca tem a oferecer? Nada, quando abandonada às suas próprias limitações. Mas ela não desespera. Mesmo sob a pobre forma de deserto, continua guardiã de tesouros insuspeitos” (Frei Cláudio V. Balen).

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Deus não trabalha com “escala 6x1”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 25º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti” (Mt 20,14)

 

Toda parábola é um espelho para nós: nela, nos vemos. No relato deste domingo Jesus demonstra um conhecimento muito profundo da psicologia humana. Constantemente nos surpreendemos comparando com as outras pessoas. É o “pecado de raiz” da inveja que envenena as relações, alimenta competições e nos esconde atrás do muro das lamentações. Quantas vezes reagimos como os trabalhadores da “primeira hora” que, ao recebermos um “denário”, começamos a reclamar: “trabalhamos a vida toda, sacrificando-nos, e agora todos somos iguais, recebendo o mesmo pagamento...”?

E nosso mal-estar aumenta porque, no fundo, o mais grave é que não temos nenhuma injustiça que denunciar: “não te contratei por um denário?” – diz o dono da vinha.

Na parábola deste domingo nos deparamos com um Deus surpreendente que dá o mesmo salário para os que tem tempos diferentes de trabalho; um Deus a quem lhe importa que estejamos todos na sua vinha, independente de quando temos chegado; um Deus que decidiu, desde sempre, dar-nos a cada um o que necessitamos para viver plenamente, sem precisar regatear ou manipular sua vontade a nosso favor. 

A sabedoria da parábola revela uma perspectiva radicalmente diferente diante do trabalho.

Hoje, todo o mundo trabalha para acentuar as desigualdades, para competir, para comparar-se...; ou seja, para ter mais que o outro, estar por cima e assim diferenciar-se dele. Isto acontece não só com relação a cada indivíduo, mas também no nível de povos e nações. Também no campo religioso nos foi inculcado que temos de ser melhores que os outros para receber um prêmio maior. Esta foi a filosofia que moveu a espiritualidade cristã de todos os tempos. O que a parábola propõe é algo completamente diferente.

Quando nos deixamos determinar pelo nosso ego, ele compreende a si mesmo como “fazedor” e atua em função do benefício que pensa obter. Não só se percebe, de maneira insensata, como que separado da vida, senão que atribui a si a autoria de tudo o que faz e se apropria do resultado, exigindo uma recompensa.

Enquanto persiste a identificação com o nosso ego, não podemos ver as coisas de outro modo. Mais ainda, julgamos como indevido ou inclusive “injusto” o fato de que todos recebam o mesmo “prêmio”.

Mas Jesus nos convida a assumir outro ponto de vista, ver a nossa vida de forma diferente e sentir gratidão pelo fato de termos sido chamados a colaborar com o Reinado do Pai.

Para os antigos Padres da Igreja, o “denário” era um símbolo para a completude do ser humano. Nosso salário nunca será maior do que nossa transformação em um ser humano completo, em harmonia conosco mesmo. Isso basta!

Em vez de nos comparar com os outros e sentir inveja, a parábola desperta em nós a vivência da gratidão e da alegria por perceber que outros, embora tardiamente, responderam ao chamado do Senhor para trabalhar em sua vinha. Muitas vezes, uma hora de trabalho pode ser vivida de maneira muito mais intensa e inspiradora que uma longa jornada.

De fato, a inveja envenena as relações humanas até tal ponto que, às vezes, a pessoa prefere prejudicar-se com a condição de que o outro se prejudique mais ainda. 

O invejoso não está preocupado que tudo lhe corra bem, mas que aconteça o pior com o outro. A inveja pode representar um muro intransponível entre o invejoso e o invejado, impedindo o prazer que representa o ato de compartilhar.

A inveja é um sentimento vergonhoso que ninguém se atreve a reconhecer; ela, quando sentida, nunca pode ser sadia. Só é realmente sadio o que sentimos a respeitos dos outros quando sentimos admiração, apreço ou alegria pelos seus êxitos ou dons.

Quando Deus nos chamou para trabalhar na sua vinha? Ao amanhecer de nossa vida, em nossa primeira juventude, mais tarde ou já quase no final da vida? Ele não contabiliza a quantidade de horas trabalhadas, nem lhe importam o número de anos investidos... Ele sempre sai para buscar-nos, nos admite em sua vinha e promete nos dar “o que necessitamos para viver plenamente”. Pare Ele, nunca é tarde; sempre é tempo.

É então que caímos na conta que o que mais nos incomoda é a bondade de Deus. “Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?”Tanta bondade nos assusta e nos ultrapassa!

No fundo, preferimos um Deus mesquinho como nós, um Deus calculador, que só dá bens àqueles que merecem por seu trabalho. Em definitiva, um Deus a quem possamos exigir: “fiz isto, me deves dar isto...”

É um bom momento para revisar a imagem de Deus: é aquele que imaginamos ou naquele que Jesus nos anuncia? O Deus que Jesus revela é Aquele que dá a salvação a todos gratuitamente, Aquele que trata a todos como filhos(as) muito amados(as) e lhes concede o que necessitam para viver mais plenamente.

Deus já nos “pagou o salário” antes mesmo de começarmos a trabalhar em sua vinha. Ele já “investiu” pesado em cada um de nós, dotando-nos de recursos, capacidades, inteligência, criatividade... 

É uma maneira equivocada de falar que Deus nos concede isto ou aquilo. Deus está totalmente disponível a todos; Ele é “mão aberta” e derrama continuamente suas graças. Ele não trabalha com meritocracia.

A pessoa que se sente cuidada assim por Deus, supera a dinâmica do “salário devido” e entra na dinâmica da gratuidade. Como se sentiram os trabalhadores que chegaram por último e viram que suas famílias estariam protegidas por mais um dia? Com certeza, estariam agradecidos. E, a partir do agradecimento, nasce o compromisso com o Senhor da vinha, o compromisso em favor do Reino. 

A mentalidade “mercantilista” não torna as pessoas comprometidas, implicadas..., só mercenárias.

Há um outro aspecto que é preciso realçar, inspirado na parábola deste domingo: quando respondemos afirmativamente ao chamado do Senhor da vinha, desperta-se em nós uma consciência comunitária; encontramos outros muitos que também responderam afirmativamente; ninguém se encontra no trabalho como solitário.

O fato de ser acolhido na vinha do Senhor implica, naturalmente, ser recebido com outros, trabalhar “com outros”; o co-laborar com Ele é inseparável do “co-laborar” com tantas pessoas que trabalham em favor do Reino, constituindo assim o grande corpo apostólico de colaboradores.

Além disso, nosso “co-laborar” tem maior visibilidade quando a missão é vivida em comunidade, quando a colaboração com outros e a partilha em comum tornam-se um “modo de proceder”, esvaziando-nos de toda pretensão de sermos proprietários para sermos simples servidores. 

Assim vivido, o “trabalho colaborativo” nos faz “amigos no Senhor” e se converte em espaço de companheirismo e em oportunidade única de encontro e comunhão com outras pessoas, movidas pelo mesmo espírito; o trabalho se revela lugar de humanização, e não lugar de competitividade e agressão.

 “Trabalhar” com os outros, inspirados e animados pelo Espírito de Jesus, é o que torna “espiritual” nossos atos, nossos pensamentos e orações, nossos trabalhos, nossa vida inteira.

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 20,1-16

 

Na oração: Que o Senhor da vinha alargue nossos corações para que possamos saborear, desfrutar e agradecer sua bondade e seu amor para com todos.

“Por que afligir-se em comparações? Não queira ser o melhor, se certamente não é o pior. Contente-se por ser diferente na missão que recebe para que algo em você passe a enriquecer os outros.

Deixe-se acompanhar pela eterna surpresa e, encantado, exercite a divina criatividade” (Frei Cláudio)

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Semente e fermento: dinamismos de vida que querem se expandir

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 16º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“O reino dos céus é como uma semente...; é como o fermento que uma mulher mistura na farinha”

 

Sabemos por experiência que as imagens e parábolas (mais que as ideias) são as que nos movem em todos os níveis, despertando e renovando a vida.

Assim, da passividade de ler e refletir, somos convidados a ser cada vez mais ativos, imaginando e rezando, através dasimagens e parábolas; elas nos convidam a ir além delas mesmas para encontrarmos com nosso Deus. As imagens, símbolos e parábolas são a melhor linguagem para recolher, de alguma maneira, esta experiência, que transborda sobre os nossos conceitos e repercute nas dimensões mais profundas de nossa intimidade. Elas põem em movimento outras dimensões de nosso ser (além do entendimento), igualmente importantes para que a experiência da oração nos conduza a uma interioridade maior.

O uso de imagens e parábolas foi muito frequente na Bíblia. O próprio Jesus se revelou um grande artista na construção de parábolas. Através delas, Ele nos ajuda a “ver” no centro da realidade “o que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração humano não percebeu” (1Cor 2,9), ou seja, a realidade impensável do Reino de Deus no meio de nós, emergindo como dom.

Jesus, profundo conhecedor do ser humano, insiste muito no uso das imagens e parábolas como ativadoras da imaginação. Na realidade, grande parte dos relatos evangélicos nos coloca diante de cenas, imagens e realidades, despertando nosso potencial imaginativo e envolvendo-nos ativamente no “mistério”.

Em nossa imaginação se esconde uma fonte, rica e não aproveitada, de vida e de força.

O uso da imaginação, longe de ser uma fuga da realidade, nos ajuda a mergulhar com maior profundidade na realidade presente, para captá-la melhor e abordá-la com vigor renovado.

Para Jung a linguagem do interior é visual e não verbal. Por isso, as imagens, símbolos e parábolas são o meio para expressar emoções e significados que não podemos articular. Elas nos ajudam a continuar adquirindo novas experiências, a conservá-las e a comunicá-las.

Jung denomina “imaginação ativa” ao processo de “trabalhar” com as imagens e parábolas, para conseguir uma maior abertura a seu significado. Através dos diferentes tipos de imaginação ativa há uma aproximação ao eu mais profundo, onde habita Deus; chegar ao nosso “eu interior” é também encontrar-nos com Deus como fonte e centro de nosso ser.

Ser seguidor(a) de Jesus é isto; é entrar na dinâmica da semente e do fermento, tomar consciência de que somos pequenos e frágeis, mas também de que Deus pôs em nosso interior uma energia e uma vitalidade surpreendentes, puro dom do seu Espírito. E esta força é aquela que nos transforma e vai transformando a realidade que nos cerca, aquela que vai fazendo presente o Reino, por obra do mesmo Espírito, não por nossas conquistas ou voluntarismos. Na escuridão da terra a semente se prepara, se concentra, se entrega..., para a explosão de vida; no escondimento da massa de trigo o fermento revela-se como força de crescimento.

Quando Jesus apresenta seu ensinamento através de parábolas não pretende oferecer enigmas difíceis de resolver nem mensagens ocultas que é preciso desvelar. Ele busca oferecer esperança e sentido àqueles que sentem suas vidas destruídas, se sentem cansados e marginalizados. Com uma linguagem instigante e simples, Jesus fala da ação amorosa e do Pai na história das pessoas que, a partir de suas vivências cotidianas, o sentem como uma presença próxima e providente, cheia de ternura e cuidado: algumas sementes, um pouco de fermento, um tesouro escondido... São imagens que falam de confiança numa vida diferente, que mostram um Deus que é misericórdia, paciência e perdão e que só quer salvar seus filhos e filhas.

Além disso, suas parábolas são um convite a comprometer-se com a mudança, tanto interna quanto externa, a estar atentos aos sinais que indicam o caminho, a sustentar-se com paciência ativa nos processos que transformam, como o fermento, a semente... 

Se todas as parábolas de Jesus deixam transparecer, como pano de fundo, o verdadeiro rosto de Deus, na parábola do joio e do trigo Ele nos revela um modo original do seu Pai agir, em contraste com o nosso modo mesquinho habitual de proceder. O modo de agir de Deus é um chamado desconcertante que diz respeito a todos e que, ao mesmo tempo, nos faz ver que, provavelmente, o “trigo” e o “joio” estão presentes e crescem juntos no interior de cada um de nós.

“Deixai-os crescer juntos até a colheita!” Quão difícil é respeitar o “tempo”; normalmente falta-nos paciência e respeito ao ritmo de cada pessoa. Deixar crescer junto é um chamado a confiar pacientemente em que tudo está envolvido pela presença providente de Deus que, a seu devido tempo, fará brilhar a verdade, a bondade e a justiça.

Quantas vezes cremos que estamos semeando boa semente, em nosso ambiente, em nossas famílias e comunidades e, inclusive, em nós mesmos. No entanto, que descobrimos que está crescendo de maneira sorrateira e sem nosso consentimento? Por mais sinceros e justos que sejamos, aos poucos vamos tomando consciência da presença das “ervas daninhas” da mentira, da intolerância, da mesquinhez... que acabam abafando as boas sementes que nos habitam e que querem se expandir (a compaixão, o amor, a bondade...)

Também as imagens da pequenina semente de mostarda e do fermento misturado na massa são inspiradoras e apontam para as dimensões mais profundas em nossa vida. Ser fermento na massa não é ser a “cereja do bolo”; a semente, quando mergulhada no chão escuro da terra, desaparece, e não a vemos mais até que se transforme em árvore. O fermento desaparece na massa. E a “massa” é a nossa realidade existencial, atravessada por forças divinas misturadas com as fragilidades humanas; somos argila que carrega o “Sopro do Espírito”. Somos chamados a descer em nossa “massa”, a deixar que a semente da Palavra se misture e seja amassada nela, até “desaparecer” ..., para fermentar tudo a partir de dentro.

Os ouvintes de Jesus sabiam que o fermento fica “escondido”, mas não permanece inativo. De maneira silenciosa e oculta vai fermentando e fazendo crescer a massa do pão. Assim está Deus atuando a partir do interior da vida. Ele não se impõe a partir de fora, mas nos transforma a partir de dentro; não domina com seu poder, mas nos atrai com seu amor para o bem; não força a liberdade de ninguém, mas se mistura com nossa condição humana para tornar mais ditosa nossa vida. 

Assim também devemos nós agir se quisermos abrir caminhos para o Reinado do Pai.

O fermento é pouco em comparação com a grande quantidade de farinha de trigo, mas ele fermenta tudo. Muitas vezes, o Reino de Deus não é visível nem perceptível, ele é uma instância interior que não podemos segurar em nossas mãos. Mesmo assim, podemos saber que Deus nos envolve completamente e cabe a nós permitir que o fermento do Espírito divino atravesse em todas as dimensões da nossa existência humana. 

Então, tudo se transformará em pão que nutre, nosso espírito dará fruto, não só para nós mesmos, mas para os outros. Nossa vida não mais será determinada por medos, mas pela presença providente de Deus. 

E todo nosso ser se tornará poroso, permeável à ação do Pai. Assim, nós daremos sabor à vida e a beleza divina transparecerá no nosso modo de ser e viver; seremos mais verdadeiros e felizes.


Plantando sementes… dando os frutos

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 13,24-43

 

Na oração:

Na intimidade com o Senhor, vamos aprendendo a viver a fé de maneira humilde, sem fazer muito ruído nem dando grandes espetáculos. Já não cultivaremos desejos de poder e prestígio; não gastaremos nossas forças em grandes operações de auto-imagem. Buscaremos o essencial; caminharemos na verdade de Jesus.

- Seguindo seus passos, buscaremos viver como a semente ou como o fermento de vida sadia que se dilui humildemente para dar sabor evangélico e fazer crescer os dinamismos de vida, em nós mesmos e nos outros.

- Contagiaremos em nosso entorno o estilo de vida de Jesus e irradiaremos a força inspiradora e transformadora de seu Evangelho. Passaremos a vida fazendo o bem, como Ele.