segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Fazer memória dos mortos é abrir-nos à surpresa do “Deus dos vivos”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana), como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade de todos os Fiéis Defuntos.

“Sede como homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento...”(Lc 12,36) 

“Fazer memória” dos entes queridos que já fizeram a “travessia” para a plenitude, nos situa diante desta realidade: todos morremos sozinhos, mas morremos, ao mesmo tempo, para todos e com todos, na grande corrente de Vida da qual todos procedemos, na qual todos pós-vivemos; ou seja, retornamos ao coração d’Aquele a quem Jesus chamou “Deus dos Vivos”, não de mortos.

Morremos em Deus, para que nossa vida possa se fazer vida para os demais.

A vida é um contínuo expandir de possibilidades, recursos, dinamismos... e a morte se revela como a “expansão radical”: mergulhados em Deus, nos tornamos universais; rompemos os limites do tempo e do espaço e a plenitude de vida, tão buscada, torna-se realidade.

O impulso que alimenta nosso anseio por sermos eternos, deixa de ser uma ilusão.

Passamos por sucessivas experiências de vida que rompem os limites; assim, o nascimento de uma criança significa expandir sua vida que se tornara estreita no ventre materno. No processo de ruptura, aconteceu uma morte à situação anterior, mas as possibilidades de vida se ampliaram: novo espaço, novas relações, novos desafios... Assim, no percurso histórico de cada um, sucessivas mortes vão abrindo horizontes inspiradores e a vida vai se enriquecendo no encontro com todas as expressões de vida: nas pessoas, na natureza...

A partir desse horizonte de Vida que se abre intuímos que a “grande travessia final” é o processo natural na qual todos, um dia, vão se deparar. Para os que estão do lado de cá da fronteira, têm-se a impressão que a pessoa “partiu”; para os que estão do outro lado, há a certeza que a pessoa está “chegando”, carregada de vida, de memória e de experiências. E viverá para sempre dentro do mistério do “Deus dos vivos”.

Como cristãos, acreditamos que “a vida se transforma no seio da Vida em Cristo”; sua vitória solidária na ressurreição abre, para todos, o mesmo destino: seremos “aspirados” para dentro do coração de Deus.

Há um dado que nos afeta a todos nestes tempos pós-modernos: a incapacidade cultural de abordar os limites, perdas, fracassos, mortes... Vivemos uma cultura na qual a dor e a morte foram expulsas da experiência humana. É algo feio, de mau gosto, algo a ser eliminado da vida cotidiana.

Vivemos uma das grandes mentiras de nosso tempo, ou seja, a morte já não está presente no cenário cotidiano, já não existe. A morte é distante e virtual, que não afeta à nossa própria sensibilidade.

Vivemos como se tivéssemos que ser imortais. Sempre é assunto dos outros, mas nunca pode ser assunto “meu”. Quando ela está perto, as pessoas se afastam dela, ou então, ela é afastada para locais específicos.

É o fracasso radical de uma cultura fundada sobre o êxito e o sucesso e, quando sentem a presença da morte, tudo fica desestabilizado.

Mas o confronto com a morte não precisa desembocar em um desespero que possa destituir a vida de todo sentido. Ao contrário, a morte pode ser uma experiência que nos faz despertar para uma vida mais intensa.

Ela nos faz reingressar na vida de uma maneira mais rica e apaixonada; ela aumenta a consciência de que esta vida, nossa única vida, deve ser vivida de maneira mais inspirada e plena, sem a marca da culpa e dos remorsos. Paul Theroux disse que a morte é tão dolorosa de se contemplar que nos faz “amar a vida e valorizá-la com tal paixão que ela poderia ser a causa verdadeira de toda felicidade e de toda arte”. A experiência da morte pode servir como uma experiência reveladora, um catalisador extremamente útil para grandes mudanças na vida. “A morte, menos temida, dá mais vida”.

O evangelho indicado para este dia nos fala de “velar”, de “estar preparados”: é um chamado a despertar. Estamos despertos quando mantemos uma “atenção plena” ao que acontece em nosso interior e ao nosso redor. Um dos riscos que hoje nos ameaça e esfria nosso fervor no seguimento de Jesus é cair numa vida superficial, mecânica, rotineira, massificada... Com o passar dos anos os projetos, metas e ideais vão se apagando e perdemos a capacidade de dar um sentido novo à nossa existência.

A vigilância não é medrosa e pessimista; é alegre expectativa do Deus que nos surpreende no hoje de nossa existência; é chamado a viver com lucidez e responsabilidade, sem cair na passividade ou letargia.

Por isso é preciso estar despertos e viver a “espiritualidade da espera”: isso implica viver o momento presente, porque qualquer momento é o definitivo, é viver o tempo habitado por Deus. Esperar é estar despertos para nos conectar com essa Presença sempre surpreendente.

Uma visão esvaziada da morte desumaniza a vida presente e nos impede de viver em plenitude o momento atual. A vida presente tem pleno sentido por si mesma. O que projetamos para o futuro já está aqui e agora, ao nosso alcance. Aqui e agora podemos viver a eternidade, quando a vida é atravessada pela Vida divina.

A “espera” tem, sem dúvida, um significado ativo; a “espera” não pode separar-se da busca e do encontro, do agir, do amar e servir. A espera é agradecida, é construtiva, é autêntica sede de Deus.

Espera ligada ao verbo “esperançar”. Nosso coração está habitado de esperas. Vivemos em “estado de espera”. Somos seres esperantes: através das esperas revelamos quem somos.

Longe das esperas superficiais, efêmeras, sem densidade, o cristão vive a Espera que nos abre ao novo, ao futuro, que nos faz criativos...

A surpresa e a riqueza de cada momento fazem de cada instante da vida a antecipação do que será a vida plena. Viver a vida neste mundo, em comunhão com todas as expressões de vida, é conhecer a alegria de apostar como se fôssemos eternos.

É na escuridão da dor e da morte que a fé se manifesta e nos revela que fomos feitos por mãos celestiais, chamados à vida, para a liberdade, para a bondade, para a amplidão dos céus.

Confessamos que a vida é de Deus e, como Ele, é eterna. E nossa última morada não é sob a lápide fria de um túmulo, mas no coração do mistério de um infinito Amor.

A morte do ser humano é um “trânsito para o Pai”, “morrer para dentro de Deus”. Vivemos “travessias” provisórias até a grande travessia para Deus. A morte é nossa confirmação na mão de Deus: Ressurreição.

Assim diz Paulo: “Mas tudo o que é denunciado é manifestado pela luz; e tudo o que é manifestado torna-se claro com a luz. Eis porque se diz: ‘Desperta, tu que estás dormindo, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará". (Ef  5,13-14)


Texto bíblico:  Lc 12,35-40

Na oração:

Todos morreremos, mas podemos descobrir na morte a mão de Deus e oferecer nossa mão de amor a todos, como fez Jesus, como fez Maria, como fizeram tantas pessoas que deixaram suas “marcas” de amor em cada um de nós.

- “Fazer memória” dessas pessoas é ativar a “memória agradecida” que inspira um compromisso em favor da vida.

Santos e Santas: pessoas que deixam rastro e vida...

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho da solenidade de Todos os Santos e Santas.

“Os discípulos aproximaram-se, e Jesus começou a ensiná-los: Bem-aventurados...” (Mt 5,1)

A festa deste domingo nos diante de uma infinidade de santos e santas anônimos(as), esses(as) que não foram oficialmente canonizados(as), nem estão nos calendários litúrgicos, mas cujas vidas deixaram transparecer a santidade de Deus e viveram, com radicalidade, as bem-aventuranças proclamadas por Jesus; ao mesmo tempo, esta festa desperta nossa sensibilidade para perceber que estamos continuamente rodeados de muitos(as) santos(as), homens e mulheres que, no escondimento do cotidiano, revelam uma presença aberta e comprometida, inspirada e mobilizadora; uma vida carregada de fidelidade e de alegria evangélica.

Que tem todos eles (elas) em comum? Que suas vidas apontam para Deus de maneira clara; aquilo que vivem, que fazem e que dizem manifesta que são conduzidos (as) pelo Espírito de Deus. E, por isso, quando os (as) vemos ou encontramos com eles(as), intuímos que é possível o amor, a misericórdia, a compaixão, a justiça, a bondade, a mansidão, a pureza de coração...

Em que se diferenciam? Em tudo o mais: seguramente há jovens e anciãos, instruídos e analfabetos, mulheres e homens; haverá tímidos e extrovertidos, hiperativos e calmos... Uns vivem o evangelho no contato constante com as pessoas; há outros que consagram suas vidas à ciência, na solidão de um laboratório ou de uma biblioteca. Dançam, rezam, abraçam, choram, amam, se equivocam, acertam..., porque, afinal de contas, são todos humanos. E ser santo(a) é ser humano por excelência.

A santidade não é a busca de um perfeccionismo auto-centrado, nem um cumprimento virtuoso de leis para receber medalhas de mérito. É uma maneira original de viver o amor: radical, possível, definitiva.

A santidade não é buscada para que cada um possa sentir-se orgulhoso; é vivida porque é uma forma de melhorar o mundo, a própria vida e a dos outros.

Os(as) santos(as), de ontem e de hoje, nos confirmam que todos podem ser transparência da santidade de Deus neste mundo. Certamente, muito perto de nós existe alguém que é janela aberta que aponta para essa direção. Não há santos(as) de primeira grandeza e outros de segunda, mas uma só santidade que se revela e se expressa na comunhão de todos.

S. Teresa D’Ávila afirmava que a santidade não é um privilégio de poucos; é uma responsabilidade de todos nós; ser santo(a) é ser inteiro(a), é ser simples, é ser transparente, é ser original.

Nossa vocação é a santidade da Vida para além de todo sistema moral, para além de toda crença, para além de toda religião, porque fora da Igreja há salvação ou santidade.

A santidade é, pois, um dom recebido de Deus, que alimenta em nós o desejo e a disposição de “sair de nós mesmos” para viver a experiência do amor na relação com o mesmo Deus, no encontro com os outros e no cuidado e proteção da Casa Comum.

O evangelho indicado para esta festa nos revela que Jesus, no alto da Montanha, mostrou o grande caminho para nos conectar com a santidade de Deus: as bem-aventuranças. Nelas, Jesus proclama que o verdadeiro segredo para uma humanidade totalmente re-criada é a força expansiva do amor e da misericórdia, cimentadas no comum denominador da humildade.

Só entrando na dinâmica da transcendência podemos descobrir o sentido das bem-aventuranças. Muitas vezes, a Igreja se esqueceu que ela deve estar a serviço de um projeto de felicidade, e acabou se convertendo num rebanho de “sofredores” (“neste vale de lágrimas”), sob a guia de “experts” pastores da dor, do sacrifício, do medo e do juízo.

Mas, como cristãos, somos seguidores(as) d’Aquele que foi um “expert” na felicidade. Por isso, é chegado o momento de recuperar o evangelho da felicidade, na linha das bem-aventuranças.

O Deus que Jesus anunciou sempre esteve comprometido com a vida plena dos seus filhos e filhas, oferecendo um caminho de felicidade para todos, começando pelos pobres. É um Deus que ama os pequenos e perdidos, assumindo com e para a humanidade um projeto de felicidade e vida plena.

Nesta festa de “Todos os Santos e Santas”, é inspirador re-visitar as bem-aventuranças: elas nos despertam, nos des-velam e, inclusive, nos inquietam, porque, se as assumimos como estilo de vida, elas nos desinstalam e nos ajudam a compreender a vida de uma maneira diferente. Com o impacto das bem-aventuranças em nosso coração, deixam de estar na primeira linha a violência, o ódio, o poder, a vaidade, a intolerância, o negacionismo..., que ficam substituídos pela paz, solidariedade, bondade, humildade, justiça...

Os(as) santos(as), de ontem e de hoje, fizeram das bem-aventuranças o centro e a pauta de seu viver; todos(as) eles(as) colocaram à frente de suas vidas não o Decálogo escrito em tábuas de pedra, mas as bem-aventuranças, escritas em seus corações. Elas já estão presentes no mais profundo de todos os seres humanos; o que Jesus fez ao proclamá-las foi des-velar o que é mais nobre e mais humano em cada pessoa.

O (a) santo(a) é, de certa forma, um(a) especialista na arte, muitas vezes árdua, de “transgredir”, de liberar, de abrir os espaços ocupados pelas certezas efêmeras, para dar lugar à vida do Espírito. É um (a) profeta (tisa) do retorno ao essencial, um(a) espeleólogo(a) das profundezas do ser humano, na busca do que realmente importa. E essa capacidade de ir mais longe permite-lhe colher as sementes da eternidade já no “chão da vida”, de viver com o coração projetado para a “terra prometida” da plenitude. Imerso (a) no presente, sim, mas sem se deixar sobrecarregar, sabendo que cada um é parte do mundo, sem ser o seu centro.

Sua presença contagia a alegria do Evangelho pois só ele (ela) é capaz de remover obstáculos que impedem o humor de viver como ressuscitados(as).

Não é coincidência que "humildade" e "humor" têm uma origem comum, ambos derivam de "húmus", terra.

A alegria vincula-se ao estado de plenitude humana, à criatividade, ao entusiasmo, ao prazer, ao contentamento, à satisfação, ao regozijo, à felicidade. “Bem-aventurados os que sabem rir de si mesmos: nunca cessarão de se divertir”.

 “O(a) santo(a) é capaz de viver com alegria e sentido de humor. Sem perder o realismo, ilumina os outros com um espírito positivo e rico de esperança. Ser cristão é ‘alegria no Espírito Santo’” Rom. 14,17) " (Papa Francisco – GE. n. 122)

Os Evangelhos revelam que Jesus vivia sereno, feliz, alegre. As bem-aventuranças são o fiel reflexo de sua vida. Seu íntimo trato com o Pai, sua paixão pelo Reino, suas relações pessoais, suas amizades, seu modo de enfrentar a “hora”, sua aceitação da vontade do Pai, sua paixão e morte são vividas em paz.

Diante dos prodígios e milagres que vai realizando em sua vida pública, Jesus exulta de alegria no Espírito Santo. Ele nos revela que Deus é alegria em si mesmo e para nós, e que a salvação definitiva é “entrar na alegria do seu Senhor” (Mt 25,21).

Portanto, o modo de proceder do (a) santo(a) no mundo é imagem fiel do modo de proceder do próprio Jesus, que é princípio e garantia da Verdade, do Bem, da Justiça, da Misericórdia, da Compaixão...

Texto bíblico:  Mt 5,1-12

Na oração:

Olhemos, contemplemos, sintamos, observemos, deixemo-nos conduzir pela santidade do Espírito. Descobriremos as paisagens interiores e panorâmicos que nunca descobriríamos por nós mesmos; descobriremos, sobretudo, que cada um(a) de nós é um(a) “santo dos Santos”, um sacrário da santidade de Deus. O “santo dos santos” é o coração mesmo de cada pessoa e a santidade de Deus se identifica com a vida de cada um(a).

- Sua presença junto às pessoas do seu cotidiano deixa transparecer a “santidade” de Deus?

- Contemplar saboreando o significado de cada uma das bem-aventuranças: em que medida elas se visibilizam no seu dia-a-dia? Há algo petrificado em seu interior que trava o fluxo das bem-aventuranças?

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

“Dê conteúdo de Amor à sua vida”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ (Centro de Espiritualidade Inaciana), como sugestão para rezar o Evangelho do 31º Domingo do Tempo Comum (Ano B).

“Amarás o Senhor teu Deus... amaras o teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12,30-31) 

Este é o contexto do evangelho deste domingo: Jesus já está em Jerusalém há alguns dias; realizou a purificação do tempo, discutiu com os chefes dos sacerdotes, mestres da lei e anciãos sobre sua autoridade para fazer tais coisas; com os fariseus e herodianos discutiu sobre o pagamento do tributo a César; com os saduceus discutiu sobre a ressurreição...

Nesse ambiente marcado por tantos conflitos, um “mestre da lei” se aproxima de Jesus; não demonstra nenhuma agressividade e nem lhe estende uma armadilha, mas vive uma angústia existencial, marcada por um forte legalismo. Sua vida está fundamentada num emaranhado de leis e normas que lhe determinam como comportar-se em cada circunstância, sem dar margem à criatividade e ao desejo de abrir-se ao novo. Do seu coração brota uma pergunta decisiva: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?” Qual é o mais importante para acertar na vida? Onde centrar a vida para livrar-se do peso das exigências da lei?

A pergunta do mestre da lei tem sentido porque na Torá encontravam-se 613 preceitos. Para muitos rabinos todos os mandamentos tinham a mesma importância, porque procediam de Deus. Para alguns, o mandamento mais importante era o cumprimento do sábado. Para outros, o amor a Deus era o primeiro.

Jesus entende muito bem o que sente aquele homem que dele se aproxima. Quando na religião vão se acumulando normas e preceitos, costumes e ritos, doutrinas e dogmas, é fácil viver dispersos, sem saber exatamente que é o fundamental para orientar a vida de maneira sadia.

Tanto naquele tempo como hoje somos sufocados por uma abundância de leis, tanto religiosas como civis. No fundo, estão sobrando leis, mas está faltando o amor. O amor não cabe nas leis, só cabe no coração. Quem ama não precisa de leis.

A novidade da resposta de Jesus está no fato de que o mestre da lei lhe perguntou pelo mandamento principal (“amarás o Senhor teu Deus...”), mas Ele acrescenta um segundo, tão importante como o primeiro: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Ambos mandamentos estão no mesmo nível, devem ir sempre unidos; Jesus faz dos dois mandamentos um só. Ele não aceita que se possa chegar a Deus por um caminho individual e intimista, esquecendo o próximo. Deus e o próximo não são magnitudes separáveis. Por isso, tampouco se pode dizer que o amor a Deus é mais importante que o amor ao próximo.

Diante da pergunta do mestre da lei pelo mandamento mais importante (no singular), Jesus responde dizendo que são dois (no plural). E não há mandamento maior que eles.

A resposta de Jesus aponta para os dois eixos centrais na vida dos seus seguidores: Deus e o próximo; ambos eixos se exigem mutuamente, a ponto de um levar ao outro, e a ausência de um provoca a ausência do outro. Quem está sintonizado em Deus, está necessariamente aberto ao amor e à solidariedade; e quem está centrado no amor ao próximo está aberto à iniciativa e graça de Deus.

O(a) seguidor de Jesus não se caracteriza por pertencer a uma determinada religião, nem por doutrinas, nem ritos, nem normas morais... mas por viver no “fluxo do amor” que tem sua fonte no coração do Pai.

O mandamento do amor não é apresentado como uma lei que torna nossa vida dura e pesada, mas uma resposta ao que Deus é em cada um de nós, e que em Jesus se manifestou de maneira contundente. Nosso amor será “um amor que responde a seu Amor”.

O Amor que é Deus, temos de descobri-lo dentro de nós, como uma realidade que está unida intimamente ao nosso ser. Por isso, só há um mandamento: manifestar esse amor que é Deus, em nossas relações com os outros; o amor é o divino germinando nos meandros do humano. O amor é a realidade que nos faz mais humanos.

Ser seguidor(a) de Jesus, portanto, é uma questão de amor. Amar como Ele é transformar-se n’Ele.

O seguimento de Jesus nos convida a esta liberdade que se encontra na palavra “Ágape”, o amor da superabundância, o amor de gratuidade, o amor que transborda, que nada pede em troca. Amar sem ter nada de particular para amar.  Amar não a partir de nossa carência, mas amar a partir de nossa plenitude. Amar não somente a partir de nossa sede, mas amar a partir de nossa fonte que corre.

Só o “ágape” expressa o amor sem mistura de interesse pessoal. Seria um puro dom de si mesmo, só possível em Deus. Deus não é um Ser que ama, é o Amor. N’Ele, o Amor é sua essência; se Deus deixasse de amar um só instante, deixaria de existir. Não podemos esperar de Deus “amostras pontuais de amor”, porque não pode deixar de demonstrar o amor um só instante.

Ágape é o amor divino. Esse amor é o mais raro, o mais precioso, o grau mais elevado do dom de si mesmo.

Estas são algumas características do ágape cristão: é um amor espontâneo e gratuito, sem motivo, sem interesse, até mesmo sem justificação, oblativo, expansivo... o puro amor.

O amor (ágape) impregna o ser humano. “Afeta a totalidade humana; roça a sensibilidade, aloja-se na medula dos ossos, pulsa nos batimentos cardíacos, arfa na respiração, circula pelo sangue, aquele o pensamento, rola pelos braços, agita as mãos, baila na consciência, escorre no olhar, sonoriza-se na palavra, recolhe-se no silêncio, peregrina nos passos, oculta-se no inconsciente, murmura na oração...” (Juvenal Arduini). O Amor é onipresença. “É um estado de ser” (R. May). O amor é a habitação do ser humano. “O amor jamais acabará” (S. Paulo).

O amor é esvaziar-se do “ego” dentro de si mesmo, para que haja lugar para o outro. O amor tem um rosto.

Assim como Deus, que se “esvaziou de sua divindade”, o ágape se esvazia de si mesmo para dar mais lugar, para não invadir, para deixar ao outro um pouco mais de espaço, de liberdade... “Amar é encontrar sua riqueza fora de si” (Alain).

Para o poeta Rilke, o amor é constituído por “duas humanidades que se inclinam uma diante da outra”.

Amor como dom gratuito de si mesmo. Não é motivado pelo valor do outro, isto é, pela recompensa que os gestos de amizade podem trazer. Com efeito, neste caso, não se ama o outro porque ele é bom (como na amizade verdadeira), mas para para que seja bom, já que o amor quer o bem do amado.

Tal como a água de um rio escavando seu leito profundo, o amor é a força que nos escava, que alarga e aumenta nossa capacidade de irmos para além de nós mesmos. Uma das maiores razões para o amor ser uma experiência de expansão se deve à sensação de imortalidade e eternidade que nos proporciona.

O amor carrega em si a marca da eternidade. Quem ama vê o tempo se ampliar e a vida ganhar mais sentido. Alguns dizem que há lugares de nós mesmos que só passam a existir após o sofrimento ter penetrado ali. Há lugares em nosso interior que não existem enquanto o amor não tiver penetrado.

Texto bíblico: Mc 12,28-34

Na oração:

- Entoar um hino de louvor e gratidão a Deus pelo Seu “amor em excesso” que se revela no cotidiano da vida;

 - Ter sempre presente na memória que fomos criados para viver em relação de amor e solidariedade com todos;

- Considere que toda a Criação saiu das mãos do Criador como presente especial e gratuito, como uma mensagem de Amor a cada   um de nós. 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

O Salto para o Encontro

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ (Centro de Espiritualidade Inaciana), como sugestão para rezar o Evangelho do 30º Domingo do Tempo Comum (Ano B).

“O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus” (Mc 10,50) 

A imagem do cego à beira do caminho de Jericó pode ser uma ocasião privilegiada para des-velar (tirar o véu) o sentido do nosso seguimento de Jesus. Seguimento que implica, ao mesmo tempo, “ter os olhos fixos” em Jesus e “os ouvidos afinados” para escutar o clamor que vem das margens.

Esta cena pode também ser um momento oportuno para “descer” em nossa interioridade e ali encontrar os “bartimeus” que nos habitam e que estão gritando por luz: feridas, fracassos, traumas, experiências não integradas, fatos não processados...

À beira do caminho, Bartimeu é o símbolo da marginalização: está fora do caminho, jogado na sarjeta, sem poder se mover, percebendo como os outros passam e dependendo deles. O contexto social e religioso já tinha determinado ao cego o seu lugar (a exclusão), mas ele não se resigna. Continua procurando superar sua situação apesar da oposição das pessoas. Sentiu, na passagem de Jesus por ele, a oportunidade única para expressar sua carência e gritou.

O cego nunca imaginaria que a Luz estaria passando a seu lado e que tinha chegado para ele a ocasião única de deixar-se iluminar por ela. Por isso, o único meio para expressar seu profundo desejo de sair de sua escuridão era a sua voz; pôs-se a gritar com todas as suas forças e a chamar o caminhante de “Filho de Davi”.

Seus gritos despertaram uma reação negativa naqueles que acompanhavam Jesus e, em seguida, tentaram levantar diante do cego um muro de recriminações e proibições. Mas o cego continuou a gritar esperando que sua voz alcançasse Aquele que estava do outro lado do muro, antes que continuasse caminhando e afastando-se dele.

Mais uma vez aparece a sutil ironia de Marcos: os que seguiam a Jesus eram um obstáculo para que o cego se aproximasse d’Ele. Os mais próximos a Jesus continuavam sem ver.

O cego, imediatamente ouviu outra voz que se dirigia a ele e fazia saltar pelos ares a distância que os separava: “Chamai-o” Em menos de uma linha se repete por três vezes o verbo “chamar”. O chamado antecede sempre ao seguimento.

O menor gesto de acolhida foi suficiente para o cego jogar o manto, dar um salto, andar tateando e com cuidado e se aproximar junto d’Àquele que o havia chamado. Agora confia, embora não veja ainda.

O manto representa o que havia sido até o momento: era seu refúgio que agora se converte em um estorvo. Ao jogar seu manto para o lado, poderíamos dizer que o cego abriu mão daquilo que o protegia e retira a máscara, atrás da qual havia se escondido. Quer ir até o Mestre do jeito que é: com toda sua necessidade e impotência; levanta-se com um pulo, como que eletrizado pelo convite de Jesus.

Toda sua esperança está agora focada no “Filho de Davi”.

O Mestre não retira de imediato a cegueira de Bartimeu. Primeiro quer conhecê-lo, verificar suas reais motivações, se há um querer verdadeiro... Com sua pergunta - “o que queres que te faça?” -, Jesus o desafia a contar mais a seu respeito, dirige-se à sua vontade: o que você quer realmente?

Essa pergunta faz com que o cego entre em contato consigo mesmo e com seu anseio mais profundo.

Jesus, como um bom terapeuta pergunta ao paciente: “O que você quer de mim? Por que me procurou? O que deseja alcançar? E o que deseja que eu faça?”... São questionamentos desse tipo que movem o paciente a voltar sobre si mesmo e a verificar se há um desejo profundo de sair de sua situação ferida.

Assim, ele assume sua parte na responsabilidade pelo processo terapêutico ou de ajuda espiritual; ao mesmo tempo, a tarefa do terapeuta ou do acompanhante espiritual é claramente definida.

Quando Jesus se detém, chama Bartimeu e lhe dirige uma pergunta motivadora, abrindo-se ao diálogo e concedendo voz e palavra, na realidade Ele está afirmando que o mais decisivo não é a enfermidade, mas a humanidade da pessoa do cego. Sua pergunta desata outras tantas possibilidades e recursos que ainda estavam atrofiados no interior daquele homem.

A imagem do cego à beira do caminho se revela como instigante e provocativa: muitas vezes, nossa vivência do seguimento de Jesus pode cair no marasmo, sonolência, estagnação, medo, repetição, inércia e fixismo. Mas ela pode ser conduzida também com sabedoria e imaginação; há um momento em que é preciso “dar o salto”: isso requer coragem, ousadia, agilidade e mobilidade para ir adiante na longa jornada que a vida nos apresenta.

Nosso interior contém potencial para vencer a inércia e superar o medo do desconhecido, do fracasso, da desilusão... Carregamos sonhos e desejos, mas podemos correr o risco de convertê-los em uma contínua espera, em algo que não se materializa.

Para alcançá-los, temos de saltar, temos de nos separar do solo para poder chegar até eles. Esse instante, ou esse tempo, produz-nos vertigem, o medo pode nos paralisar.

O solo são nossas seguranças, o conhecido, o que já temos. O solo é nossa realidade. Renegar o solo que nos sustenta é viver maldizendo nossa realidade, não a aceitando.

Aquele que não conhece e não aceita o solo no qual pisa não pode saltar.

Outros, no entanto, estão tão apegados ao solo que é impossível para eles dar o salto. A realidade para eles é como o asfalto nos dias calorosos de verão: os calçados ficam colados ao chão. Estão tão presos ao presente imediato, impedidos de serem ousados no salto criativo.

Para dar o salto ousado é preciso fazer como o cego Bartimeu: desvencilhar-nos de nosso manto, fardo inútil e peso que nos imobiliza à beira do caminho. É ele que impede nossa agilidade e mobilidade no seguimento de Jesus; são nossos apegos, nossas falsas seguranças, nosso comodismo...

É preciso também recordar, ao mesmo tempo, que não podemos lamentar o solo que pisamos; ativar a atidude de gratidão por cada trecho do caminho, por cada salto feito, pelos momentos de risco e frios na barriga. No fundo, é preciso ter a tranquila certeza de que saltar é humanizador e plenificante.

É importante descobrir o real significado do salto que nos arranca do passado paralisante e nos lança na aventura que modela a vida pessoal, social, ética, religiosa, histórica...

O salto inteligente estimula a criatividade e rejeita a mediocridade.

Para isto, devemos suscitar e cultivar o legítimo “salto”, que é fenômeno inovador e fecundo. Isso implica pisar o solo com a confiança de que sabemos que a vida está cheia de novas possibilidades, de metas que ainda não superamos, de encontros que ainda não se realizaram, de chamados aos quais ainda não respondemos, de compromissos ainda não assumidos...

Construir a vida que queremos implica saber saltar, saber partir e deixar para trás nossa situação de comodidade, os lugares cotidianos onde nos movíamos como peixe na água, onde nos sentíamos seguros.

O salto lúcido mantém o olhar vigilante, de discernimento: em que direção saltar?

 

Texto bíblico:  Mc. 10,46-52

Na oração:

O salto autêntico reclama coragem àquele que está prostrado; de tempos em tempos precisamos de saltos que nos ajudem a superar o medo e nos garanta a autonomia e a construção de nossa própria história.

Há um impulso interior que nos convida a saltar, do conhecido ao novo: um novo projeto, um novo compromisso, uma nova missão. Isso implica momentos de risco, mas também ali está a serena confiança de que podemos e queremos saltar. Não no vazio, mas no encontro.

A oração é o ambiente natural para concentrar-se e preparar-se para o grande salto da vida.

- O que lhe impede desapegar-se do “manto” que lhe dá a falsa sensação de segurança e conforto?

- Quê saltos mais ousados você está precisando realizar neste momento de sua vida?

- “Faça memória” dos “saltos” que foram significativos em sua vida...

sábado, 16 de outubro de 2021

Somos também Filhos de Zebedeu

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ (Centro de Espiritualidade Inaciana), como sugestão para rezar o Evangelho do 29º Domingo do Tempo Comum (Ano B).

“Tiago e João, Filhos de Zebedeu, aproximaram-se de Jesus...” (Mc 10,35)

Jesus viu claramente que o perigo mais grave que ameaçava a sua nova comunidade era a tentação do poder. Não há dúvida de que isso é o que causa o maior prejuízo a todos, o que mais nos desumaniza, o que mais nos divide e o que, por isso mesmo, torna praticamente impossível a convivência em paz, sem agressões e sem violência. Por essa razão, Jesus não tolerou, de maneira alguma, as pequenas ou grandes ambições das quais os apóstolos deram sinais evidentes. Ele viu que tinha de cortar pela raiz, inclusive brotos à primeira vista insignificantes, as rivalidades e as pretensões de poder de uns sobre outros, por mais que tais pretensões aparecessem camufladas com as melhores intenções.

Por isso, Jesus não quis se relacionar com as pessoas e com os discípulos com base na superioridade ou no poder, mas na exemplaridade. Mais ainda, não só nunca quis agir como superior que se impõe com poder, mas também viu em semelhante comportamento uma conduta radicalmente inaceitável.

Marcos é o evangelista que se mostra mais duro frente ao que qualifica como “cegueira e surdez” dos discípulos para ver e entender a mensagem de Jesus.

A contraposição com as atitudes do Mestre se põe às claras, de um modo especial, nos chamados “anúncios da paixão”. Enquanto Jesus apresenta seu caminho como “entrega” até o extremo, os discípulos são flagrados quando discutem entre si questões de poder ou de “quem é mais importante” dentro do grupo.

Sabemos que a busca de poder, em todos os níveis, é tão antiga como a humanidade. Também no reduzido grupo de Jesus, que sempre denunciou isso com força, aflorou um conflito interno por esse motivo.

O poder, em qualquer de suas formas e intensidades, constitui uma das tentações mais fortes para o ser humano. Que tem o poder que tanto seduz e se converte em objeto prioritário de desejo?

O motivo é simples: nasce da necessidade do ego de auto-afirmar-se. E a ele se vinculam sensações (mesmo que ilusórias) de segurança e de liberdade. Com efeito, acredita-se que, ao ter mais poder, alguém se sentirá mais seguro e poderá fazer o que lhe apeteça. Se temos em conta que a busca de tais “ideais” constitui a essência mesma do ego, ser-nos-á fácil advertir que o poder apareça como uma das tentações mais intensas.

Onde se enraíza a armadilha? Como em qualquer outro caso, na mentira. Tudo o que nos afasta da verdade que somos produz necessariamente confusão e sofrimento. Ou, em outras palavras, sempre que experimentamos confusão e sofrimento é sinal de que estamos desconectados (afastados) da verdade que somos.

O ego prepotente se afirma na comparação, confrontando-se com os outros e marcando sua imaginária superioridade. O poder lhe promete uma posição de superioridade e inclusive de domínio. A partir de sua pretensão de que a realidade responda a seus desejos, crê encontrar no poder a posição privilegiada para conseguir tudo o que se propõe.

O ego inflado, como vazio que é, tem fome de segurança. Assim nasce sua necessidade compulsiva de apegar-se a tudo aquilo que pode lhe sustentar: posses, bens, títulos, imagem... Pois bem, o poder promete conferir-lhe uma sensação de força e de superioridade, fazendo-o crer que está acima de todos.

Isso é o que o poder promete. Mas a realidade é bem diferente: o que realmente produz é divisão e enfrentamento. E é aqui onde se faz clara a sabedoria de Jesus, constatando como funciona o exercício do poder, prevenindo de sua armadilha (“não deve ser assim entre vós”) e partilhando seu próprio caminho de serviço. O poder nunca é mediação de salvação. E o poder que mais desumaniza é o “poder religioso”, pois alimenta diferentes medos nas pessoas.

Sabemos que o poder corrói os relacionamentos, criando um ambiente carregado de tensão e desconfiança. Sem níveis básicos de confiança as instituições desmoronam.

O seguimento de Jesus não passa pelo caminho do acúmulo de poder, mas pelas trilhas despojadas do serviço até a entrega da própria vida. A busca do poder é o programa do “ego inflado”, que terminará em frustração; o espírito de serviço brota do nosso ser mais original e, por isso, mais nos humaniza, pois reforça os vínculos entre as pessoas, alimenta a circularidade de vida e não a pirâmide hierárquica.

A distinção entre poder e autoridade talvez possa nos iluminar e permite compreender o necessário ministério dos diferentes responsáveis na comunidade de Jesus.

Toda comunidade precisa de uma mínima organização. Mas os responsáveis por ela não devem comportar-se como aqueles que governam neste mundo, que se aproveitam de sua posição e tratam os outros como subordinados. Pelo contrário, na comunidade de Jesus, todos devem atuar como servidores e serem exemplos para os demais. Neste “ser exemplo” está a diferença entre poder e autoridade.

Autoridade procede de autor. Tem autoridade aquele que tem capacidade, crédito, estimação, verdade, apreço, reputação; tem autoridade quem ativa a autoria e a autonomia no outro.

Poder, por sua vez, tem a ver com potestade, força, poderio, dominação, mando. Enquanto a autoridade tem capacidade de atração e convencimento, o poder se impõe a partir de fora e pela força. No exercício da autoridade o centro é o outro; no poder, pelo contrário, é o próprio ego que se faz centro e manipulador.

Para os seguidores de Jesus a autoridade não funciona como poder, mas como serviço. Jesus tinha muita autoridade, mas se negou a utilizar o poder. Surpreendeu a seus contemporâneos “porque lhes ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas” (Mc 1,22).

Nos Evangelhos, a “autoridade” de Jesus nunca é entendida como ação de domínio ou de imposição que violenta as pessoas. A “exousia” de Jesus é autoridade para perdoar, para curar, para ensinar...; tal ensinamento não era imposição doutrinal e normativa dos letrados que oprimiam as pessoas com cargas religiosas insuportáveis.

O contraste era evidente: os dirigentes religiosos tinham “poder”, mas não tinham “autoridade” diante das pessoas. No caso de Jesus, a situação era exatamente o inverso: não tinha “poder” sobre o povo, mas gozava de uma enorme “autoridade”, que seduzia, atraía e entusiasmava as pessoas.

A autoridade de Jesus nascia da experiência de sua filiação divina, e não de titulações. Era uma autoridade competente, a daquele que vai adiante expondo sua vida, e não o poder “daqueles que carregam as pessoas com fardos insuportáveis e, nem com um só dedo, não tocam nesses fardos” (Lc 11,46).

Jesus tinha “autoridade” porque era alguém que se definiu, sabia o que queria, tinha uma causa em seu coração, não abria mão de alguns valores fundamentais, tinha clareza onde queria chegar...; só Ele era capaz de mover as pessoas, de fazer seguidores e não meros obedientes às suas ordens.

Texto bíblico: Mc 10,35-45

Na oração:

Liderar com autoridade implica espírito de confiança, tratar o outro com bondade, ouvir atentamente, ter verdadeiro respeito para com os talentos do outro, ter real interesse por ajudar o outro para que tenha êxito, confiar responsabilidade, manter acesa a chama do sonho para que cada um possa tirar o melhor de si mesmo a favor da comunidade, sintonizar com os princípios profundos e permanentes da vida, expressar consideração, elogio e reconhecimento pela atuação do outro... Enfim, liderar a serviço dos outros nos livra das algemas do ego e da concentração em nós mesmos, destruindo a alegria de viver.

Não somos “filhos(as) de Zebedeu”; somos “companheiros(as) de Jesus” e amigos(as) entre nós, e compreendemos que só esse companheirismo energiza nossos esforços e potencializa nossas iniciativas.

- O que há em mim de busca de poder, mesmo que seja em minhas relações mais próximas; O que há em mim de serviço gratuito?

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Um olhar carregado de amor ou Amor no olhar

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ (Centro de Espiritualidade Inaciana), como sugestão para rezar o Evangelho do 28º Domingo do Tempo Comum (Ano B).

“Jesus, olhou para ele com amor e disse: ‘só uma coisa te falta...’” (Mc 10,21)

A itinerância de Jesus é um contínuo convite a sair de nossos espaços atrofiados para encontrar a Deus nos outros, e entrar em sintonia com o coração d’Ele. Deus nos espera “fora do acampamento” (EE 33,7), ou seja, fora do nosso controle, de nossos lugares seguros e confortáveis, dos espaços que escondem sua presença e onde estão presentes o medo, a desconfiança... “Fora do acampamento” Deus nos des-vela quem somos, quem são os outros e quê missão quer nos confiar. “Fora do acampamento” estão os diferentes com seus questionamentos e interpelações, com suas alegrias e medos, seus desejos e sonhos...

Foi na estrada, “quando Jesus saiu a caminhar”, que um homem rico chega correndo e se ajoelha diante dele. Jesus se detém, acolhe a pergunta que lhe é feita e inicia uma conversação, abrindo, assim, um espaço de confiança para que o “apressado” partilhasse suas inquietações, a pergunta pelo sentido de sua vida.

O homem correu ao encontro de Jesus de maneira inesperada; e Jesus não inventou desculpas para esquivar-se dizendo: “tenho que ir a outro lugar”, “todos me esperam”, “estou cansado”, “volte amanhã”...

Com este simples gesto de se deter e não passar ao largo, Jesus mostra sua acessibilidade e comunica ao homem rico que se interessa por ele, que não é insensível à sua busca, que assume sua realidade.

Embora a pergunta do homem rico esteja muito centrada nele mesmo – “que devo fazer para ganhar a vida eterna? – Jesus percebe que há uma busca inicial, um desejo incipiente, e abre para ele um caminho que, a partir do reconhecimento de todo o bem que há nele, adentra-o em novas veredas. Assim deixa transparecer o seu olhar: “olhou-o com amor”.

O homem conhece bem a Torá e viveu segundo seus preceitos. Jesus não diminui o valor de sua experiência, mas vai mais fundo, convencido de que tudo o que acontece está grávido de sinais da presença d’Aquele que sempre busca o ser humano. Encontra os pontos de apoio nos quais o homem pode se apoiar para dar um salto de crescimento no amor. Viver os mandamentos não é o suficiente, mas é um bom ponto de partida, através do qual Jesus irá conduzindo-o para dentro, ajudando-o a conectar-se consigo mesmo, a escutar o chamado de vida que pulsa em seu coração e “dar à luz” o sonho de Deus nele.

O que faz a grande diferença no relato deste domingo é a maneira de olhar. E o olhar de Jesus é um elemento essencial nos relatos de encontros com as pessoas nas estradas da vida; através de seu olhar inspirador, Jesus as mobiliza, desperta nelas seus melhores recursos, vincula-as a um projeto de serviço, abre para elas um futuro esperançador e transforma radicalmente a existência delas.

O encontro com o homem rico é também um chamado, um convite ao discipulado, mas que não será acolhido. Neste encontro, Jesus “fixou nele seu olhar e movido pelo amor a ele”, o convidou a segui-lo. O olhar intenso de Jesus se expressa nos dois verbos principais, “amou” e “disse”. Não é um olhar qualquer, mas um olhar atravessado pelo amor e estreitamente vinculado a um projeto de futuro.

Jesus fixa seus olhos e, portanto, sua atenção neste homem concreto, o toma em consideração, pensa nele. Não é um olhar de passagem, mas um olhar sustentado, capaz de penetrar até o profundo, discernidor. Mostra para o homem uma solicitude singular que indica uma “preferência-eleição” por ele.

No encontro com o homem rico, o intenso olhar de Jesus tem tal qualidade que Ele captou toda a realidade do outro desde o primeiro momento. Ao fixar seu olhar no interior daquele homem, Jesus lhe propõe deixar seu modo habitual de viver, e o convida a adentrar-se em outra maneira original de viver, que irá aumentando ao ritmo do amor recebido e oferecido.

O olhar nasce e se nutre do amor. E Jesus olha sempre com olhos claros e limpos, com olhos de ternura e de acolhida. O homem rico encontrou graça aos olhos de Jesus, ou seja, reconheceu-se como filho amado do Pai. Não é necessário que este filho seja a máxima expressão de beleza, bondade ou inteligência, para descobrir a “marca do amor” impressa em seu ser, aquela que lhe revela imagem e semelhança de Deus, aquela que lhe confirma ser o filho chamado à plenitude.

O relato de Marcos realça a qualidade do olhar de Jesus: olhos que comunicam proximidade, que se inclinam e abaixam para amar; olhos que transmitem doçura e amor, capazes de aquecer, cuidar e alentar a vida; olhos que abrem um espaço de humanização e reconhecimento. Olhos que se nutriram infinitas vezes nas entranhas misericordiosas de Deus: “O Pai me ama” (Jo 10,17).

Contudo, no relato do evangelho, assistimos ao bloqueio do desejo daquele que primeiramente se ajoelhou aos pés de Jesus chamando-lhe “Bom Mestre”. Ele parecia ter tanta sede sincera de encontro com Jesus e vinha cumprindo os mandamentos desde a sua juventude. Contudo, na hora decisiva, ele preferiu a segurança e a proteção dos seus bens e não a aventura aberta de um viver na confiança, com a disponibilidade que uma tal relação espera de todos nós.

Ao confrontar-se com a proposta ousada de Jesus, o homem rico vai embora entristecido e desolado. É incapaz de confiar em Deus da forma como Jesus lhe sugere. Aproximou-se de Jesus com alegria, mas as riquezas “afogaram as palavras”. Queria de verdade dar resposta ao desejo que levava dentro, “ganhar a vida eterna”, mas, para isso Jesus lhe convidou a dar um salto. O homem, no entanto, frente à ousadia da proposta que Jesus lhe faz, decide não se lançar. Sua decisão lhe impossibilita alcançar o que tanto deseja; preferiu as seguranças que já tinha. Está preso ao seu estilo de vida, aposta por ser prudente e não correr o risco do desconhecido. O medo de perder, a insegurança que experimenta, o levam a agarrar-se, com todas as suas forças, às suas riquezas. Salta em primeiro plano sua "insaciável cobiça”, fruto de sua angústia, seu medo e sua insegurança.

Pode soar chocante ouvir de Jesus que “um rico dificilmente entrará no Reino dos Céus”. Ele que foi sempre tão misericordioso, teria preconceito contra os ricos? Por que, então, fecha-lhes as portas do Reino?

Rico, no pensar de Jesus, é aquele que, incapaz de compartilhar, transforma os bens deste mundo em autênticos ídolos e fecha seu coração para Deus e para os irmãos; é aquele que ama suas propriedades sobre todas as coisas, e, para protegê-las e fazê-las multiplicar, não hesita em lançar mão de qualquer artifício, mesmo injusto, desonesto, ilegal. A penúria do irmão necessitado não chega a sensibilizá-lo. Só pensa em si mesmo, em suas necessidades e em seus prazeres. Por conseguinte, não existe espaço para a graça atuar em seu coração. Nesta situação, torna-se impossível Deus chegar a ser, de algum modo, senhor de sua vida. Nele, o Reino de Deus não pode acontecer. Seu coração está bloqueado.

Não é Deus quem fecha as portas do Céu para o rico. É este quem se recusa a entrar na dinâmica Reino e revestir-se do modo de ser e viver de Jesus. Os apelos de Deus tornam-se inúteis e ineficazes.

Embora Jesus desejasse que o rico abrisse mão de seu projeto de vida egoísta e acolhesse o Reino, ele persiste em sua idolatria. O amor de Deus não chega a tocá-lo. É por esta razão que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!”

Texto bíblico: Mc 10,17-30

Na oração:

Dois caminhos se abrem diante de nós, os mesmos daquele homem rico: apegar-nos ao que temos e somos ou entregar a Ele a bússola e o mapa de nossa vida; continuar na insegurança ou confiar que as perdas podem ser ocasião de ganhos, mesmo que não cheguemos a entender nem por que nem como.

Quem sabe, preferimos investir nas ações do “eu” e seus poderios, que prometem falsos benefícios, mas, com o passar dos anos, essas ações se desvalorizaram e descobrimos que suas promessas eram falsas.

- “Estamos abertos às surpresas de Deus? Ou nos fechamos, com medo, à novidade do Espírito Santo? Estamos decididos a percorrer os caminhos novos que a novidade de Deus nos apresenta ou nos entrincheiramos em estruturas caducas, que perderam a capacidade de resposta”? (Papa Francisco)