sexta-feira, 7 de julho de 2017

31 dias com Santo Inácio de Loyola - Dia 7

Dia 7: Equilíbrio e afeições desordenadas


Em geral quando se pensa em equilíbrio é comum se associar a um ato de malabarismo, de manter-se de pé em uma superfície instável ou muito pequenas. Em se tratando de uma vida equilibrada, esta se refere àquela em que conseguimos conduzir projetos e relações de forma saudável, por meio de planejamento e foco.

Sob a perspectiva da espiritualidade cristã, equilíbrio tem mais a ver com a temperança, que significa que permitimos que nossos princípios guiem e controlem nossas paixões, de forma que não percamos o equilíbrio. 

Em seus escritos, Santo Inácio falou sobre as “afeições desordenadas”, aquelas que são governadas por desejos, e não pela liberdade fazer escolhas sensatas. Quando não praticamos a temperança, nossas afeições poderão se tornar desordenadas. Uma pessoa equilibrada e comedida honra seus desejos e paixões como presentes de Deus, mas não reorganiza constantemente sua vida de acordo com o fluxo contínuo desses desejos e paixões.

Quando nos sentimos pressionados, desesperados ou apressados devemos buscar o equilíbrio e não tomar decisões sem um tempo de reflexão. Quanto agimos por impulso por medo, pela necessidade de impressionar ou para satisfazer expectativas fantasiosas, permitimos que nossas paixões direcionem nossas ações. São as afeições desordenadas. As paixões em si não são ruins, mas não são boas em direcionar a vida de forma responsável.

Os pais devem ter equilíbrio e temperança quando for o momento de os filhos tomarem suas próprias decisões, mesmo sabendo que podem ajudá-los a organizar suas vidas. Nosso bom desejo de ajudar aqueles que amamos deve ser temperado pela sabedoria.

Um dos maiores frutos de temperança é que ela nos liberta para desfrutar nossos verdadeiros amores. Quando dispendemos tempo em alguma atividade, podemos nos dedicar completamente a isso. Mas quando a temperança nos diz que é hora de parar e fazer outra coisa, podemos realizar outras atividades com todo o coração, com a certeza de que há tempo para tudo.

Proposta: Identifique situações nas quais você se sente pressionado ou apressado ou desesperado. Você pode descrever o que está acontecendo e como você pode agir com temperança?

Fonte: Adaptação livre do site Ignatian Spirituality

quinta-feira, 6 de julho de 2017

31 dias com Santo Inácio de Loyola - Dia 6

Dia 6: Envolver os sentidos através de sua imaginação


Se você é um frequentador regular da igreja, provavelmente já ouviu muitas vezes o seguinte: “Deus nos amou tanto que nos enviou seu Filho único para que ele pudesse nos salvar de nossos pecados”. Essas palavras resumem um dos princípios básicos da fé cristã. No entanto, o que elas realmente significam para você e para mim? Embora tenhamos algumas palavras poderosas aqui – Deus, amor, pecados – elas são apenas palavras. Abstrações. Elas apelam para a nossa mente, mas não necessariamente atingem o nosso coração ou os nossos sentidos. 
Em muitos aspectos, grandes ideias acabam se tornando clichês teológicos: “Jesus morreu por nossos pecados”, “Deus ama você”. Depois de um tempo, palavras como essas acabam soando como uma mãe dizendo ao filho:  “Você é especial”. Talvez seja verdade... Mas mães sempre dizem isso dos filhos!

Uma forma de transcender a abstração é usar a técnica de São Inácio de Loyola de envolver ativamente os sentidos através de sua imaginação. Isso nos ajuda a ir além das palavras. Uma das maneiras mais fáceis de fazer isso é selecionar um texto bíblico, lê-lo algumas vezes para se familiarizar e depois visualizar-se tão profundamente na cena quanto humanamente possível.

Suponha que você tenha escolhido a passagem do livro do Êxodo em que Deus se revela a Moisés através de uma sarça ardente [Êxodo 3,1–4,17]. Abra seu coração e use seus sentidos: olhe, ouça, sinta, cheire e experimente a cena e torne-a tão real quanto possível. Imagine o Monte Sinai e a paisagem que Moisés vê quando olha para a terra. Imagine a figura de Moisés. O que ele está vestindo? Suas sandálias estão desgastadas? Ele está com fome? Imagine o vento soprando pelos seus cabelos, mas não apenas imagine, procure também sentir. Lembre-se de um momento em sua vida quando você sentiu vento em seu rosto, e traga isso para sua meditação. Tente sentir o que Moisés deve ter sentido no alto daquela montanha, com muito pouca água. Sozinho.

Em seguida imagine a sarça. O arbusto pode ser tanto grande quanto pequeno, como você preferir. Imagine que a sarça começa a queimar – devagar, ardendo no início. Imagine o cheiro de fumaça... Imagine o calor... 

Imagine o que você sentiria se estivesse lá. Imagine o que você sentiria se a sarça começasse a falar com você. Como a sarça se comunica com você? Através de palavras? Através de impressões? O que a sarça diz? Como você reagiria?

Aproveite o tempo para silenciar interiormente e experimentar a cena. Se aparecerem distrações, aceite e, em seguida, retorne à cena. Então ouça, experimente, sinta, veja e cheire a cena. Permita que essa experiência fale ao seu coração...

Proposta: Experimente usar a imaginação e os sentidos com outros textos bíblicos...

Fonte: Adaptação livre do site Ignatian Spirituality

quarta-feira, 5 de julho de 2017

31 dias com Santo Inácio de Loyola - Dia 5

Dia 5: Discernimento como Visão Comum


Quando nós estamos apaixonados por alguém queremos saber quais são os seus gostos e seus desinteresses. Queremos ver o mundo através de seus olhos. O que uma vez foi trivial e sem sentido para a despertar interesse, ganha significado e torna-se um objeto de desejo. Tentando agradar, procuramos aprofundar as raízes e contar com um bom “terreno para o diálogo”, que nos ensina a arte do discernimento.

Podemos conceber o discernimento como visão comum, um olhar compartilhado no mundo. Devemos aprender a distinguir nossas grandes ideias das que emergem deliberadamente no momento da oração. Na linguagem inaciana, devemos discernir os movimentos que vem de Deus e os que vem do inimigo, da nossa natureza.

A amizade e o casamento são boas oportunidades para compartilhar visões, assim como uma boa prática para uma vida de discernimento.

Meu desejo, minhas grandes ideias são apenas uma parte da conversação e deriva da alegria de compartilhar a visão do bem.

Com o tempo, a prática do discernimento torna-se habitual, mesmo que seja imperfeita, com erros, desvios, pedidos de perdão... O mais importante é que as pessoas possam crescer de forma unida e fraterna.

Fonte: Adaptação livre do site Ignatian Spirituality 

terça-feira, 4 de julho de 2017

31 dias com Santo Inácio de Loyola - Dia 4

Dia 4: Recalculando a Rota com o Espírito Santo


Em dias atuais quando nos vemos perdidos em busca de rotas para nossos caminhos desejados, utilizamos os modernos equipamentos de GPS que calculam os percursos.

A capacidade deste aparelho de reavaliar nossa direção, não importando o quanto longe tenhamos ido e nos colocar de novo no caminho certo, nos dá a confiança neste pequeno aparelho e também na Graça de Deus!

A palavra recalcular traz outro significado quando praticamos os Exercícios Espirituais (EE). Uma importante parte dos Exercícios Espirituais é o Discernimento.

Santo Inácio, ao oferecer suas regras de discernimento, o faz na esperança de que um praticante integrara está ferramenta em todos os temas da sua vida, no caminho que ajudara as pessoas a encontrar a vontade de Deus.

No mundo atual onde a rapidez da tomada de decisão, a partir das informações existentes, nos vemos decidindo primeiro para depois discernir sobre o fato.

Lamentavelmente não usamos o discernimento como Deus gostaria que usássemos, mas Ele toma nossas decisões e faz o melhor com elas.

Podemos ver que o Espírito Santo toma nossas ideias e nossas imperfeitas decisões e as recalcula. Confia no Senhor de todo o seu coração, e não se apoie no seu próprio entendimento (Provérbios 3, 5)

Quando se toma um caminho errado na vida, esteja certo que o Espírito Santo recalculará a rota e suavemente lhe trará de volta para seu curso.

Fonte: Adaptação livre do site Ignatian Spirituality.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

31 dias com Santo Inácio de Loyola - Dia 3

Julho é o mês em que celebramos a memória de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus e idealizador da atualmente conhecida Espiritualidade Inaciana. Seu dia é celebrado em 31/07, mas assumimos a proposta de passar os 31 dias do mês com Santo Inácio. O texto que apresentamos a seguir é uma adaptação do site Ignatian Spirituality.


Dia 3: Santo Inácio encontrou Deus em todas as coisas 

Aquelas atividades que pareciam frenéticas, na verdade eram um relacionamento íntimo com Deus, que Inácio frequentemente achava difícil traduzir em palavras. Seus diários particulares mostram notas minúsculas aglomeradas ao lado de suas anotações da missa diária. Como os estudiosos têm concluído, estas anotações indicam, entre outras coisas, aqueles momentos em que Inácio chorou durante a Missa, dominado pelo amor a Deus.

Inácio encontrou Deus em todas as coisas: no pobre, na oração, na missa, em seus companheiros jesuítas, em sua obra e, com toda a emoção, em uma varanda da casa dos jesuítas em Roma, onde gostava de contemplar silenciosamente as estrelas à noite. Durante esses tempos, ele derramaria lágrimas de contemplação e adoração. Suas respostas emocionais à presença de Deus em sua vida desmentem o estereótipo de um “santo frio”.

Inácio era um místico que amava a Deus com uma intensidade rara, mesmo para os santos. Ele não era um estudioso renomado como Agostinho ou Tomás de Aquino, nem um mártir como Pedro ou Paulo, tampouco um grande escritor como Bento ou Teresa d´Avila, e talvez não seja uma personalidade amada como Francisco de Assis ou Teresinha de Jesus. Mas ele amava a Deus e amou o mundo, e essas duas coisas ele fez muito bem.

Questão para reflexão: Em que medida o relacionamento profundo de Inácio com Deus pode me ajudar a melhorar a minha busca diária de intimidade com o Senhor?

Fonte: Adaptação livre do site Ignatian Spirituality.

domingo, 2 de julho de 2017

31 dias com Santo Inácio de Loyola - Dia 2

Julho é o mês em que celebramos a memória de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus e idealizador da atualmente conhecida Espiritualidade Inaciana. Seu dia é celebrado em 31/07, mas assumimos a proposta de passar os 31 dias do mês com Santo Inácio. O texto que apresentamos a seguir é uma adaptação do site Ignatian Spirituality.


Dia 2: Peças de Quebra Cabeças e o Exame Espiritual Diário

O que é o Exame? É um método de oração que se executa no final do dia, leva entre 10 a 15 minutos e consta de uma oração sobre as últimas vinte e quatro horas da nossa vida.

Com Deus, olhamos para nossa vida como estivéssemos examinando as peças de um quebr- cabeças.

Frequentemente quando estamos fazendo o Exame, Jesus está ao nosso lado e juntos pegamos as peças das últimas 24 horas e as examinamos. Com a ajuda do Espírito Santo, revemos os momentos que agradecemos a presença de Deus, ao mesmo tempo podemos ver quando lutamos no nome de Deus ou não atuamos como deveríamos.

Na presença de Jesus, nós devemos perguntar " isto nos pertence?" Isto nos faz crescer na nossa relação com Deus?

Então depois de olhar as peças do nosso dia passado, devemos olhar para as próximas horas e pedir a Deus que nos ajude.

Fonte: Adaptação livre do texto Puzzle Pieces and the Examen

sábado, 1 de julho de 2017

31 dias com Santo Inácio de Loyola - Dia 1

Julho é o mês em que celebramos a memória de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus e idealizador da atualmente conhecida Espiritualidade Inaciana. Seu dia é celebrado em 31/07, mas assumimos a proposta de passar os 31 dias do mês com Santo Inácio. O texto que apresentamos a seguir é uma adaptação do site Ignatian Spirituality.





Dia 1: 10 coisas para amar a Espiritualidade Inaciana

1. Promove uma felicidade duradoura.

Reflexão: Eu me considero uma pessoa feliz, realizada interiormente? Procuro alinhar os meus anseios de felicidade e realização aos planos de Deus?



2. Nos ajuda a entrar em relacionamento com Deus.
Reflexão: Como está o meu relacionamento com Deus? É íntimo e constante ou frio e eventual?


3. Nos ajuda a tomar boas decisões.

Reflexão: Tenho buscado a oração antes de tomar decisões importantes?

4. É acessível.
Reflexão: Eu tenho cultivado uma vivência espiritual como alimento para minha vida diária? Tenho buscado Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus?

5. Incentiva o equilíbrio.
Reflexão: Minhas palavras e atitudes têm relevado que sou uma pessoa equilibrada, interna e externamente?

6. Incentiva a gratidão e o otimismo.
Reflexão: Tenho tratado com otimismo e gratidão os acontecimentos de cada dia?

7. Incentiva a comunicação positiva.
Reflexão: Minha comunicação verbal e corporal tem demonstrado gentileza e tolerância para com os outros? Cultivo sentimentos de misericórdia ou de condenação do outro?

8. Nos mantém conectados.
Reflexão: Eu me sinto conectado com as pessoas da comunidade, com a dinâmica da criação? Sinto-me corresponsável pela preservação e defesa da vida?


9. Nos ajuda a tornar-nos o melhor que podemos ser.
Reflexão: Tenho cultivado o "Magis" nas minhas atitudes para com o outro e na busca do meu aperfeiçoamento enquanto pessoa?

10. Nos ajuda a fazer do mundo um lugar melhor.
Reflexão: Tenho cultivado atitudes de solidariedade perante as injustiças e necessidades dos irmãos mais pobres? Ou tenho uma atitude individual e indiferente? O que tenho feito para ajudar a construir o Reino de Deus na Terra?

Reflexão geral: Que transformações a vivência da Espiritualidade Inaciana tem ocorrido em minha vida?

Fonte: Texto adaptado do original: 10 Things to Love about Ignatian Spirituality 

Hospitalidade: acolher para humanizar-se

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 13º Domingo do Tempo Comum - Ano A.

“Quem vos recebe, é a mim que está recebendo; e quem me recebe, está recebendo Aquele que me enviou” (Mt 10,40)

Certamente todos já viram um invento recreativo para crianças, composto de um globo inflável que flutua sobre um reservatório de água; ali elas são introduzidas, e ficam se movendo prazerosamente.
Tal invento evoca um comportamento muito frequente nas pessoas atualmente. Sem se darem conta, elas mesmas fabricam uma bolha e se fecham nela como num reduzido microcosmo. Elaborado pela mente e inflado pelo ego, esse pequeno globo enclausura-as em um mundo muito definido e estreito: o êxito, a vaidade, o dinheiro, os bens materiais, um ambiente raquítico de espaço e tempo, torna-se sua única realidade. A presença do outro, sobretudo do “diferente”, é totalmente desprezada.

No entanto, para quem é seguidor(a) de Jesus, poderíamos perguntar se há algo mais além, por detrás dessa bolha, desse globo fechado no qual todos brincam como crianças inconscientes.
Despertar o “eu profundo e universal” é descobrir-nos como habitantes de um universo novo e espaçoso, um “eu sou” com sabor de infinito, com a consciência expandida que rompe a bolha e nos faz sentir a liberdade amorosa dos filhos e filhas de Deus.
Deus “se fez diferente” e é na “diferença” que Ele vem ao nosso encontro como chance de enriquecimento vital e de intercâmbio criativo. Deixemo-nos surpreender pelo Deus da vida que rompe esquemas, crenças, legalismos, bolhas...; ou nossa vivência de fé se reduzirá a um ritualismo fechado, impedindo sair de nós mesmos.
  “Aprendi que Deus, não tendo domicílio, só aceita a mística do ‘porta-em-porta’” (Frei Cláudio)

Também os muros estão voltando à moda. Não podemos esquecer que os muros foram criados para a segregação. O muro econômico e social se visibiliza no muro que segrega os excluídos e marginalizados. Um muro é uma ordem, um silêncio forçado e prolongado, é vontade de poder.
Muros são pedras no sapato dos poetas. Como tirá-los do caminho? Muros não têm semente, ainda que se multipliquem pelo mundo. O muro é um veneno. Muros são concretos: muros entre ricos e pobres, entre homens e mulheres, entre ignorantes e doutores, entre negros e brancos, entre centro e periferia...
Muros são urros. Muros são murros, são muito burros! Todos os muros deviam envergonhar, pois se os muros pudessem ensinar alguma coisa, desistiriam de serem muros.
Muitas vezes, os muros, as cercas e as portas nos protegem da diversidade, blindam nossa individualidade e parecem itens indispensáveis à sobrevivência. Assim, somos prisioneiros de nossa estreita visão de mundo e fazemos de nossa habitação uma couraça que enclausura.  Melhor a viagem que nos faz vulneráveis do que a segurança que nos rouba o caminho. Melhor enfrentar a vertigem do horizonte e usufruir da liberdade do que inventar cercas e muros reconfortantes que nos fazem cativos e solitários.

A vivência do seguimento de Jesus Cristo implica romper a bolha que asfixia a vida e derrubar os muros que cercam o coração, atrofiando a própria existência.
Hospitalidade é a palavra-chave na identificação com Aquele que se fez andarilho e buscou hospedagem. Hospitalidade é abrir um espaço para o outro.
Muitas vezes, ser hospitaleiro não é colocar alguém dormindo na nossa própria casa. É escutar alguém que é totalmente diferente de nós; é ter a capacidade de dar espaço à fala de alguém diferente.
Para abrir espaço para o outro é preciso nos desalojar do nosso próprio espaço; é preciso ser deslocado da nossa ideia de “estar sempre certo”, das nossas próprias convicções, dos nossos próprios sentimentos. Porque o peregrino tem o potencial de subverter, despertando ansiedades enterradas e aflições contidas.
Quem oferece a hospitalidade está rompendo com seu modo habitual de ser e viver. Abrir-se ao outro é sair de sua própria comodidade. O anfitrião, ao ser deslocado, encontra valores e atitudes dentro de si que o enriquecem. A melhor metáfora desta hospitalidade é a imagem da mãe que “faz espaço dentro de si para acolher o outro”, e assim multiplica a vida.
Tal hospitalidade se apresenta como um valor humano, espiritualmente vital e conectado com a vulnerabilidade de todo ser humano que sempre requer ser acolhido; e, para acolher o outro, é precisa criar espaços habitáveis e abandonar lugares inóspitos.

Se quisermos que a vida cristã tenha a marca da Ressurreição, é necessário compreender que ela é chamada a um compromisso diferente e mais profundo: sair da reclusão do nosso próprio mundo para entrar na grande “casa” de Deus; romper com o tradicional para acolher a surpresa; deixar a “margem conhecida” para vislumbrar o “outro lado”; desnudar-nos de ilusões egocêntricas; afastar a “pedra” da entrada do coração para poder viver com mais criatividade... 
As respostas do passado às questões atuais já não satisfazem; as velhas razões para fazer coisas novas, simplesmente já não movem os corações num mundo repleto de novos desafios.
Não há razão para permanecer nas bolhas e condomínios quando todas as circunstâncias mudaram.
A mudança de mente, de coração, de esperança, de paradigmas... exige que todos, de tempos em tempos, revisem suas vidas, conservando umas coisas, alterando outras, derrubando ideias fixas, convicções absolutas, modos fechados de viver... que impedem a entrada do ar para arejar a própria vida.
Há, em todo ser humano, uma tendência a cercar-se de muros, a encastelar-se, a criar uma rede de proteção. Também os cristãos não estão imunes a esta tentação.
No entanto, nada mais contrário ao espírito cristão que a vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores...
Numa vida assim faltaria por completo o princípio da criatividade, a capacidade de questionar-se, a audácia de arriscar, a coragem de fazer caminho aberto à aventura.

Texto bíblico:     Mt 10,37-42

Na oração: 
O que é o específico do(a) cristão(ã)?
Buscar, no seguimento, fazer e viver o que fez e viveu Jesus. Para isso adota as atitudes, o olhar e a capacidade de contemplação da realidade que o mesmo Jesus adotou. Ele abraçou diferenças e novos horizontes. O Seu ministério ultrapassou as fronteiras. Ele rompeu com os muros do preconceito social, racial, religioso, de gênero... 
- Como cristãos, a graça que recebemos é estar com Ele e com Ele caminhar, olhando o mundo com os Seus olhos, amando-o com o Seu coração e penetrando no seu íntimo com a Sua infinita compaixão. Nossa vocação é a de construir pontes e ser presença reconciliadora em situações de fronteira, optando por uma “globalização na solidariedade”.

- Sua vivência cristã: risco da aventura ou medo asfixiante? Contínua surpresa ou perene rotina?  Espaço de liberdade ou vivências dentro de bolhas asfixiantes e muros de proteção? 

Identidade Des-Velada a Serviço da Vida

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho da Festa de São Pedro e São Paulo.

“Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que tu ligares na terra...” (Mt. 16,19)

Neste domingo celebramos a festa de duas grandes figuras-chave na Igreja: Pedro e Paulo; fortes personalidades que fizeram uma impactante experiência de encontro com o peregrino da Galileia. E foram profundamente transformados, a ponto de terem seus nomes mudados pelo próprio Jesus Cristo.
Diante das maravilhadas que serão proclamadas de um e de outro, podemos apresentar uma pergunta que pode nos parecer estranha. “Quê fica de Simão em Pedro?” , “Quê fica de Saulo em Paulo?”.
Porque Pedro, primeiro foi Simão; Paulo foi Saulo. E Jesus chamou Simão e chamou Saulo. Em seguida, mudou o nome deles para Pedro e Paulo.
Simão, o homem do lago e da barca de pesca; Saulo, o zeloso fariseu, fiel seguidor da lei e perseguidor da Igreja. Pedro, o homem da Igreja, a rocha sobre a qual Jesus assenta sua nova comunidade. E todos nós o recordamos como o homem das “chaves”.
Paulo, o apóstolo dos gentios, fundador de novas comunidades cristãs para além do território judaico.

Mas, retornemos às perguntas: o que permaneceu de Simão, aquele do lago, no Pedro da Igreja? Desapareceu o verdadeiro Simão e ficou somente o Pedro? Ou teríamos de dizer que há nele uma mescla de Simão e de Pedro? O que permaneceu de Saulo, fariseu e filho de fariseu, no Paulo que alargou as fronteiras da primitiva Igreja?
O Pedro, rocha firma, não deixa de ser o Simão do lago. Apesar de Jesus ter mudado seu nome, no entanto, em diferentes ocasiões aflora o Simão que não consegue entender Jesus e quer desviar o mestre de seus planos e projetos. Continua vivo o Simão que busca o triunfalismo messiânico de Jesus e revela resistência em seguir Aquele que vai ser crucificado. Continua sendo o Simão que compete com os outros sobre a primazia no novo Reino, e crê que é ele quem vai dar a vida por Jesus. Continua sendo o Simão covarde e com medo que nega Jesus na noite da Paixão.
O mesmo poderíamos dizer de Saulo. Muitos traços seus continuam presentes na nova identidade: Paulo.

No evangelho de hoje, Jesus deixa transparecer sua identidade através da confissão de Pedro: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”; e, ao mesmo tempo, Jesus des-vela a identidade de Pedro: “Tu és “petros” (pedregulho) e sobre esta “petra”(rocha) edificarei minha igreja”. Pedro se torna rocha firme (“petra”) quando se apoia na identidade de Jesus (a verdadeira Rocha).
Pedro, que era “petros” (pedra de tropeço no caminho, frágil, limitado...), foi sendo transformado, através da identificação com Jesus, em “petra”, rocha firme da primitiva comunidade cristã.
Dessa forma, o Simão que era “petros”/pedra lentamente vai fazendo a travessia para “Petra”/rocha firme, porque o mestre des-velou a nobreza que estava escondida no coração dele, ou seja, sua verdadeira identidade sobre a qual o mesmo Jesus iria edificar sua igreja.

Diante dos dois personagens, Pedro e Paulo, vamos intuindo que a questão não é trocar simplesmente de nome. A Graça não destrói a natureza humana, mas a plenifica e a torna expansiva. Em Pedro, a graça não destrói o Simão, em Paulo não destrói o Saulo. Eles procurarão conservar a fidelidade a Jesus e à comunidade dos seus seguidores, mas cada um imprimirá sua própria personalidade.
A graça do seguimento de Jesus não apaga nossa condição humana, nossa herança genética, nossa personalidade, nossa psicologia, nossa sensibilidade e nosso mundo afetivo; carregamos conosco nossa cultura e nossa própria história humana.
O desafio é este: que permanece de nossa herança biológica e cultural na experiência do seguimento de Jesus? É possível que em todos nós, em “Pedro”, permaneça latente muito de “Simão”; em “Paulo”, permaneça muito de “Saulo”. E como distinguir o Simão de Pedro que todos carregamos dentro de nós? Não é fácil a Pedro desprender-se do Simão de antes, nem a Paulo desprender-se do Saulo de antes.
Só a identificação com Jesus possibilita fazer a travessia para o “novo nome”, integrando e pacificando
as “marcas humanas” do antigo nome.

O Evangelho da festa de hoje nos ajuda a ler nossa vida. Ali afirma-se nossa identidade; e a identidade de uma pessoa é dada por aquilo que é sólido, consistente... no seu interior, que não se desfaz com as adversidades do mundo no qual vivemos (crises, fracassos, fragilidades, incoerências...).
Toda pessoa possui dentro de si uma profundidade que é seu mistério íntimo e pessoal.
 “Viver em profundidade” significa “entrar” no âmago da própria vida, “descer” até às fontes do próprio ser, até às raízes mais profundas.
A própria interioridade é a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que cada pessoa tem, para encontrar segurança e caminhar na vida superando as dificuldades e os inevitáveis golpes da luta pela vida. Com confiança em si e na rocha do próprio ser, todas as forças vitais se acham disponíveis para ajudar a pessoa a crescer dia-a-dia, tornando-a aquilo que originalmente é chamada a ser.

Para isso temos em nossas mãos as chaves da vida. O que fazemos com elas? Podemos abrir ou fechar, ligar ou desligar, atar ou desatar.... Ter a chave da vida como Pedro e Paulo ou como Simão e Saulo: abrir ou fechar as portas do futuro, das relações, dos sonhos, da missão... Dar amplitude à vida ou atrofiá-la. Atar ou desatar os nós da vida.... Aqui está o grande desafio: abrir-se ou fechar-se: abrir-se à vida, ao novo, ao outro, ao desafiante ou diferente... ou retrair-se ao próprio ego.
Ter identidade é assentar nossa vida sobre a rocha interior (Pedro) que nos sustenta e nos faz sair da prisão do ego (Simão). Nossa identidade é sempre dinâmica, histórica, fecunda, aventureira... Nossa vida é uma contínua travessia do Simão/Saulo para Pedro/Paulo, porque ela está centrada n’Aquele que tudo sustenta. Nossa identidade profunda está a serviço de quem? – do próprio “ego” como Simão ou Saulo, ou do Reino, como Pedro e Paulo.

Texto bíblicoMt. 16,13-19

Na oração:
Muitos caminhos conduzem à própria interioridade.
A oração é a chave de acesso; ela é esse silencioso exercício de deixar que Deus me habite para que eu possa abrir as portas do coração e janelas da mente àqueles com quem me encontro.
Onde a Graça de Deus tem liberdade de atuar, ali afloram o Pedro e o Paulo que tenho atrofiados dentro de mim.

- O que prevalece nas minhas relações cotidianas: Simão/Saulo ou Pedro/Paulo? 

Evangelizar nossa Interioridade

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum - Ano A.

“Vede, eu vos envio como ovelhas para o meio dos lobos; sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mt 10,16)

Os conflitos são constantes no caminho da fidelidade ao Evangelho: conflitos externos que surgem a partir da presença inspiradora e provocativa dos(as) seguidores(as) de Jesus; conflitos internos que afloram quando a mensagem evangélica ressoa na interioridade de cada um, des-velando seus contraditórios impulsos, tendências, dinamismos, forças...
O ser humano vive tencionado entre dois polos: entre luz e escuridão, céu e terra, fragmentação e unidade, espírito e instinto, solidão e vida comum, medo e desejo, amor e ódio, razão e sentimento, sagrado e profano..., enfim, entre animalidade e humanidade.
Não se trata de alimentar uma luta entre esses dois impulsos, como um combate entre o bem e o mal; tampouco se trata de uma leitura moralista diante da presença das chamadas “tentações”.
O combate dualístico desemboca no puritanismo, no farisaísmo, no legalismo, no perfeccionismo, no voluntarismo..., esvaziando a pessoa de toda densidade humana.

A questão de fundo é saber qual dos dois dinamismos nós alimentamos; é aqui que entra a liberdade (ordenada) para deixar-nos conduzir pelo Espírito. O centro é o Espírito.
Só quando dizemos sim a esta tensão básica de nossa vida é que conseguimos superar a divisão interna.
Viver uma “vida segundo o Espírito” significa, antes de tudo, chegar à compreensão e integração das polarizações internas, dos dinamismos opostos, dos movimentos contraditórios... que nos mantêm “despertos” e que dão calor e sabor à nossa existência.
É próprio do Espírito,  reunir, integrar, conciliar, pacificar, conduzir-nos a um “lugar interior”, a um centro de calma, onde tudo tem seu lugar, onde tudo encontra seu espaço.
Sua discreta presença nos move a acolher em nós nosso potencial de ternura, de cuidado e de resistência diante de todas aquelas situações e forças que desintegram a vida.
A atitude fundamental é a de sermos dóceis para nos deixar conduzir pelos impulsos do Espírito, por onde muitas vezes não entendemos e não sabemos.

À luz do evangelho deste domingo, vamos considerar os “conflitos internos”. E a questão primeira que surge é esta: como integrar, pacificar, harmonizar... os “animais interiores”, para que o seguimento de Jesus Cristo não termine num combate espiritual que desgasta, tornando pesada a vivência cristã e levando ao sentimento de impotência e desânimo?
Sob o impulso do Espírito, somos chamados a conhecer, reconhecer, nomear e integrar os animais que nos habitam. E caminhar fraternalmente com eles.
Cada um deles representa os instintos, impulsos, paixões, fragilidades, sensualidade, sentimentos... que, quando não pacificados e integrados, criam uma desarmonia interior.
Somos como a “arca de Noé”, no grande Oceano da vida, carregando em nosso interior todos os animais, com seus instintos selvagens e primitivos; e o maior desafio é, justamente, a harmonia e a convivência, onde cada um deles tem sua importância, seu papel sagrado e revelador da nossa identidade humana. São eles que nos facilitarão o acesso às nossas riquezas interiores.
Algumas vezes agimos como uma cobra, ficamos ariscos e escondidos como uma onça, rugimos como um leão ou atacamos como um cão feroz. Outras vezes, até agimos igual a animais ruminantes que mastigam continuamente os rancores e mágoas do passado.
Eles não cessam de ladrar enquanto não lhes damos atenção.
É preciso, antes de tudo, pacificar nossos animais interiores. Trata-se de conhecê-los, aprender a línguagem deles, fazer amizade com eles para que eles não nos destruam por dentro.

Faz parte da maturidade e crescimento pessoal encontrar e entender, em cada um de nós, a mensagem e o desafio de animais interiores como a pomba, o cachorro, o corvo, a serpente, a raposa, a perdiz, o lagarto, o falcão, o lobo, o leão... Cada animal deve ser verbalizado, integrado harmoniosamente no tempo certo e no lugar adequado. Ao fazer isso, descobriremos as diferentes dimensões da ecologia espiritual, paradisíaca e harmônica, para bem viver a maravilha da vida plena e em abundância.
Quando todas as energias animais são ordenadas, elas colaboram para o conhecimento pessoal, o refinamento da identidade e a busca da autenticidade, elas são fonte interior de sabedoria e de desfrute espiritual. Então, os animais pacificados irão nos conduzir ao mais profundo e nos mostrar onde o tesouro está escondido, e ajudam-nos a desenterrá-lo. Aqui está o lado “humanizante” da vida.

Fomos forçados, durante nossa formação cristã, a viver uma espiritualidade que nos ensinou a reprimir e a manter presos todos os animais  na gruta interior e a levantar junto dela um edifício de “grandes ideais”. Lutar contra os animais interiores é permanecer na superfície de si mesmo e não ter acesso às reservas de riqueza do próprio coração.
Tal vigilância e suspeita nos levaram a viver constantemente com medo de que os animais pudessem fugir e nos devorar. Fomos obrigados a fugir de nós mesmos, ficamos com medo de olhar para dentro de nós, pois poderíamos correr o risco de nos deparar com os eles. Quanto mais os amarramos, tanto mais perigosos eles se tornam; eles nos atacam por dentro, tirando a disposição, o ânimo de viver.
Com isso nos excluímos do prazer de viver, porque tudo é reprimido e nossa animalidade é violentada.
E onde está o nosso medo pode estar também o nosso tesouro enterrado.
“Não tenhais medo deles. Não há nada de oculto que não venha a ser revelado, e nada de escondido que não venha a ser conhecido” (Mt 10,26).
Sem a superação cotidiana desse medo, nossa missão estará comprometida; perderá sua força inovadora, garantida pela novidade do Projeto de Deus.
Sabemos que tudo quanto nós reprimimos nos faz falta à nossa vida. Os “animais selvagens” tem muita força. Quando os prendemos, gera um desgaste muito grande e fica nos faltando a sua força de que temos necessidade para o nosso caminho para Deus, para nós mesmos e para os outros.
Nosso compromisso deveria ser a de travar um diálogo amoroso com os animais dentro de nós. Então tornar-se-á realidade o que o profeta Isaías prometeu: “O cordeiro e o leão andarão juntos, e a pantera se deitará com o cabrito...” (Is. 11,6ss).
O compromisso com o Reino requer de todos uma forte dose de coragem e uma alma ágil, animada e vivificada pelo sabor da aventura e da novidade.
Vencido o medo, nós nos tornaremos autênticos, criativos e audazes seguidores de Jesus.

Texto bíblico:  Mt 10,16-33

Na oração:
Na vivência cristã, o que importa é ter a coragem de entrar na “arca interior” e dialogar amigavelmente com todos os animais. Então eles indicarão o caminho do tesouro escondido. Este tesouro pode ser “uma nova vitalidade e autenticidade, um sonho ousado, uma intuição, um dom especial, o encontro com o verdadeiro eu, a imagem que Deus faz de cada um de nós...”
“Entrar na arca” significa “buscar e encontrar a Deus” exatamente em nossas paixões, em nossos traumas, em nossas feridas, em nossos instintos, em nossa impotência e fragilidade...
Viver uma nova espiritualidade significa, então, não buscar “ideais de perfeição”, mas dialogar com nossas paixões, nossas fragilidades, nossas carências...

Poderíamos nos interrogar o que é que Deus deseja nos revelar por meio delas, e como justamente através delas Ele deseja nos conduzir ao tesouro escondido no interior de nossa vida.