sábado, 12 de março de 2022

A Oração nos Trans-Figura

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho do 2º  Domingo da Quaresma (2022).

“Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência...” (Lc 9,29)

 

Para viver com mais intensidade o caminho quaresmal, a liturgia deste domingo nos apresenta o relato evangélico que nos dá uma luz para continuar avançando bem orientados. Caminhamos para a vida, para a essência de nosso ser, para a comunhão com tudo e com todos. Precisamos, de tempos em tempos, de um “Tabor”, como parada estratégica, para “sentir e saborear” a presença próxima e amorosa de Deus Pai que nos transforma, nos transfigura e deixa ressoar em nós sua instigante voz: “este(a) é o(a) meu(minha) filho(a), o(a) Eleito(a)”.

Voz que nos desperta e nos faz tomar consciência de que há possibilidade de “ir mais além”, ao essencial de nosso ser. A experiência da Tabor nos arranca do caminho rotineiro e nos abre para um horizonte maior. Podemos reconhecer que a nós também nos foi dado o “gene” da transfiguração, que é força que nos move continuamente a não nos deixar determinar pela nossa auto-imagem, pela aparência, e sim, centrar nosso olhar n’Aquele que é pura transparência do Pai.

Trata-se de eleger entre continuar cuidando do exterior (as roupagens, os aplausos momentâneos, a presença nas redes sociais, o número de seguidores que temos...) ou cuidar dessa outra “dimensão” que nos conduz ao mais profundo, que nos tira do caminho estreito e repetitivo para nos fazer descobrir Aquela presença que nos transfigura e transfigura a realidade de nosso entorno.

O relato da “transfiguração” de Jesus se situa expressamente em um contexto de oração. É ali onde, através da luminosidade do seu rosto, Ele deixa transparecer algo da sua verdadeira identidade.

Por isso, na transfiguração, a humanidade de Jesus se revela como pura transparência do Pai. Ou seja, o que há de divino em Jesus está em sua humanidade. Só no humano transparece Deus.

A Transfiguração está nos dizendo quem era realmente Jesus e quem somos nós. Ela nos revela também nossa identidade e nos faz caminhar em direção à nossa própria humanidade.

Por isso, uma pessoa transfigurada é uma pessoa profundamente humana. Tudo o que é autenticamente humano é transparência de Deus. Em outras palavras, a vivência do humano nos diviniza.

A transfiguração não é condição de um “iluminado”, mas a realidade de toda pessoa que é capaz de “sair de seu próprio amor, querer e interesse” (S. Inácio). Transfigurar é descentrar-se e expandir-se na direção do outro.

A Transfiguração nos possibilita cultivar um “olhar” que sabe ver em profundidade, descobrindo em cada ser humano, para além de suas aparências, um ser transfigurado, porque somos capazes de vê-lo em sua beleza e bondade originais; um olhar que sabe se deixar impactar por tudo aquilo que nos cerca e é capaz de ficar assombrado diante do Mistério.

O Tabor não só é o lugar do encontro íntimo com o Senhor; implica também o encontro com o melhor de nós mesmos (nossa identidade); a Montanha nos “transfigura”, revelando nosso ser essencial; no silêncio do monte poderemos perceber nosso verdadeiro rosto, iluminado por Aquele que se deixa “trans-parecer” em tudo. “O evangelho é um itinerário para abrir com profundidade a interioridade humana” (Rovira Belloso) e nele vemos como Jesus promove o retorno ao interior; o mistério da transfiguração nos des-vela e nos move a ultrapassar nossas “falsas imagens” e encontrar-nos com a luz que nos habita. Podemos “entrar” em nós mesmos porque em nós está a dimensão de eternidade, de transparência, de divino.

Transparente é um modo de ser; a transparência faz referência à luz, à vida interior, ao conhecimento próprio, ao desejo de deixar-se ver, à pureza de intenção, à simplicidade e ao deixar-se conduzir pelo mesmo Espírito de Jesus.

A experiência orante no alto do “Tabor” é o meio privilegiado para voltarmos a mergulhar continuamente nessa Luz de onde procedemos. Entramos na corrente universal, até a Vida de Deus. Orar é deixar-nos conduzir até às profundidades trinitárias onde Deus nos forma e nos configura à sua imagem. Não devemos ficar surpreendidos se, interiormente, sentirmos uma plenitude de alegria e de superabundância.

A oração ajuda a evangelizar até as profundidades do nosso ser. Ela é o caminho interior do Tabor que nos faz chegar até nosso próprio “eu original”, aquele lugar santo, intocável, onde reside não só o lado mais positivo de nós mesmos, mas o próprio Deus. Este é o nível da graça, da gratuidade, da abundância, onde mergulhamos no silêncio, à escuta de todo o nosso ser.

Se a nossa oração for um autêntico face-a-face com Deus, ela deverá fazer emergir à nossa consciência as profundidades desconhecidas do nosso ser. Deus libera em nós as melhores possibilidades, recursos originais, riquezas, capacidades, intuições... e nos faz descobrir em nós, nossa verdade mais verdadeira de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis...

Assim, a divina pedagogia evoca a verdade do ser humano, comporta uma pro-vocação, uma proposta que o move a potencializar ao máximo seus recursos internos, revelando aquilo que ele é capaz...

Deixar-se “iluminar” pela Luz do Tabor significa uma autêntica experiência e que tem efeitos explosivos: é novidade que surpreende e às vezes assusta, cria novas expectativas e solicitações, traz clareza e mobilização, pede a mudança dos costumes e dos velhos estilos de vida, leva adiante o equilíbrio da pessoa em direção a horizontes imprevisíveis, abre uma nova fase de vida...

Situados no alto do nosso Tabor atingiremos experiências imprevistas e surpreendentes, ou reconheceremos, através do murmúrio dos ventos, “vozes novas” que nos incitam a peregrinar para as regiões desconhecidas do nosso próprio interior. Só assim, poderemos vislumbrar o outro lado e tocar as raízes mais profundas que darão sentido e consistência ao nosso viver.

A subida ao Tabor nos potencia, libera energias e recursos escondidos, torna-nos criativos, coloca-nos em movimento, tirando-nos de nossa acomodação...

“Subir” o Tabor é deixar-nos conduzir pela presença do Espírito de Jesus, para “descer” com mais vigor e ânimo ao vale do cotidiano e ao compromisso na prática do bem e da justiça.

Tabor significa sair de nosso pequeno e limitado mundo cotidiano, de nossa visão estreita das coisas, da vida corriqueira do vale...; significa alargar nossa visão da realidade, abrir novos horizontes...

Por isso, a transfiguração no Tabor implica ter “mais portas e janelas” em nossa vida interior.

O Monte Tabor nos oferece janelas que permitem ampliar nossa visão. Através delas purifica-se o ar denso, pouco respirável que geramos quando fechados em nós mesmos. As janelas nos situam em comunhão com a natureza e com a humanidade. Elas revelam aos outros algo original que é só nosso; elas apontam para a porta que se abre, para que os outros se aproximem e entrem em nossa vida.

O mergulho em nós mesmos, para além de nós mesmos, realiza a metamorfose que nos devolve à vida transfigurados pelo amor que nos habita e plenifica.

Texto bíblico: Lc. 9,28-36

Na oração:  

Para realizar-se e desenvolver toda a sua potencialidade, busque, na oração, cavar mais profun-damente, até atingir as raízes de seu ser, o núcleo original de sua personalidade. É no mais profundo de sua interioridade que você escutará o Senhor. Deixe-se invadir pela luz e pela vida d’Aquele que armou sua tenda entre nós”.

- Só há um caminho para ter acesso ao Tabor: procure entrar em seu espaço interior; investigue e examine suas raízes nos recantos mais profundos de seu coração; sinta-se convidado(a) a despojar-se de suas medidas de segurança, a desnudar-se de todos os personagens e máscaras.

- Extraia de dentro de si uma resposta profunda, um sentido novo, uma esperança ousada...

- Construa sua vida de acordo com esta descoberta.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Deserto, escola para ordenar os afetos

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho do 1º  Domingo da Quaresma (2022).

“Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito” (Lc 4,1) 

O primeiro domingo da Quaresma sempre apresenta o relato das tentações de Jesus no deserto, que ajuda a desvelar o sentido de sua missão, seu caminho, seu destino. É relevante o fato de que se vincule a ida de Jesus ao deserto após o batismo, sendo conduzido pelo Espírito.

O deslocamento de Jesus ao deserto está em profunda sintonia com a experiência vivida pelo povo judeu.

Foi no deserto que Israel aprendeu a descobrir e a confiar em Deus. Longe da segurança do Egito, emergiu o que havia no fundo do seu coração. Os profetas cantaram o tempo do deserto como tempo das obras maravilhosas de Deus. Foi no deserto que o povo de Israel sentiu profundamente sua pequenez e total dependência de Deus.

Não existiam caminhos prontos. Era preciso discutir, planejar, rezar, lutar e sonhar para fortalecer a caminhada. No fundo, o Êxodo foi um profundo tempo de discernimento coletivo, que desembocou numa radical opção pela liberdade, porque um povo só é livre quando pode decidir o rumo de seu caminhar:

Deserto: lugar da Aliança, escola da intimidade com o Senhor; expressão que, mais do que um determinado lugar, indica uma experiência forte de Deus.

Jesus, como todos os profetas, antes de assumir sua missão, foi conduzido pelo Espírito ao deserto. Frequentemente Ele recorria a esta experiência em meio à sua vida ativa: afastava-se para lugares solitários, confrontava a sua missão com a Vontade do Pai.

Todos os personagens bíblicos, todos os(as) santos(as) passaram pela experiência de deserto: peregrinação interior, confronto com a própria vida, comunhão com o Senhor, descoberta da própria missão...

        “Eu o(a) levarei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração” (Os. 2,16).

Segundo os evangelhos, as tentações experimentadas por Jesus no deserto não são propriamente de ordem moral. Não se trata de uma eleição entre o bem e o mal. São tentações que apresentam maneiras falsas de entender e viver sua missão. O tempo do deserto foi, para Jesus, um tempo de discernimento sobre os melhores “meios” para viver seu messianismo. As tentações não diziam respeito ao “ser Messias” de Jesus; isto estava claro e fora confirmado pela experiência do seu batismo: “Tu és o meu filho amado”.

As tentações de Jesus aconteceram no campo das mediações: entre pensar em seu próprio interesse ou deixar-se conduzir pela vontade do Pai; entre impor seu poder como Messias ou colocar-se a serviço daqueles que mais precisam; entre buscar a própria glória e prestígio ou manifestar a compaixão de Deus para com aqueles que sofrem; entre evitar riscos para fugir da perseguição ou entregar-se fielmente à sua missão, confiando somente no Pai.

De fato, os meios apresentados pelo “tentador”, humanamente falando, são os meios mais eficazes que ninguém poderia imaginar: possibilidade de transformar as pedras em pão, o prestígio indiscutível de quem salta do alto do templo, sustentado pelos anjos e, para culminar, todo o mundo a seus pés.

Quem resiste a um homem com tais meios?

Todos seriam atraídos porque, em definitiva, teria entre suas mãos o poder total e o domínio absoluto.

Eis aqui a intuição e a genial proposta do tentador: salvar e libertar toda a humanidade, mas mediante o poder, o prestígio e a dominação. O tentador não pretende que Jesus se afaste de seu fim, senão que procure atingir esse fim, usando os meios que são exatamente o oposto da solidariedade.

Para a Liturgia, parece ser de uma evidência fundamental que a pedagogia quaresmal devesse começar por des-velar (tirar o véu) a desordem na afetividade. No caminho da vivência cristã, percebemos uma “aderência afetiva” (fixação afetiva) a coisas, posses, pessoas, ideias, cargos, poder, prestígio, status, ídolos, dependências.... que somada a outras, passa a constituir uma estrutura de “maus afetos” (“afetos desordenados”), esvaziando ou atrofiando o seguimento de Jesus

A Quaresma, nesse sentido, apresenta-se como uma pedagogia para aprender a ordenar nossos afetos”, libertar-nos dos afetos desordenados e assim percorrer o caminho do desejo mais profundo: estratégia centrada em Deus, leve e cheia de graça, uma aventura...

O desejo de poder, de possuir, de ser o centro (ego inflado) confunde nossa vida. E já não se trata mais de uma lição moral sobre o vício ou a virtude, mas do impacto psicológico e espiritual que se dá em nós pelo fato de nos sentirmos apegados a algo ou a alguém, com a consequente perda de liberdade e o perigo da dependência que esse apego causa. O apego às coisas e às pessoas impede-nos de mover com facilidade. Perdemos o “fluxo” da vida, o impulso do movimento, a suavidade do “deslizar pela existência”.

          “Diga-me o tamanho dos seus apegos, e eu lhe direi o tamanho do seu sofrimento”.

É necessário introduzir um princípio “ordenador” em nossa vida, que inspire todo o nosso ser e o nosso agir, até que a “afeição” se converta em identificação existencial com Jesus Cristo.

Esse novo objeto deve ter uma repercussão decisiva na configuração da vida. Isto é, somos chamados a modificar profundamente o mundo de valores, pensamentos, condutas...

É necessário, ao iniciar o percurso quaresmal, detectar os condicionamentos afetivos (amarras) que de fato limitam a nossa liberdade, bloqueando-nos diante da proposta de vida que Jesus nos apresenta.

O que está em jogo no “deserto quaresmal” é chegar a conhecer-se profundamente, encontrando a raiz do próprio ser nos afetos desordenados.

Esse conhecimento interior, profundo, é condição indispensável para poder dispor de si, em maturidade de liberdade. Sem ordenar os afetos o ser humano não é verdadeiramente livre. A “desordem” nos afetos produz em sua liberdade uma essencial falsificação: faz tomar como absolutos o que são coisas relativas.

Só ordenando os afetos a pessoa se situa diante de Deus, reconhecendo-O como Absoluto.

afetos organizados negativamente por acúmulo de “experiências negativas”. Para atingi-los, a pedagogia quaresmal coloca “cargas afetivas opostas” (pessoa de Jesus, sua missão, o Reino, ...)

Sabemos que não se pode suprimir (matar) os afetos; o que se pode fazer é mudar a orientação (“ordenar”) dos afetos, ou seja, re-orientar as “aderências afetivas” de certos objetos ou pessoas para um horizonte de sentido: amor a Jesus Cristo e a seu Reino.

Nesse sentido, nossa quaresma torna-se um “estar com Jesus” no deserto, para, como Ele, dar a Deus o lugar central de nossa vida.

A quaresma é um tempo em que damos maior liberdade a Deus para agir em nós; é abrir espaço, alargar o coração para a ação de Deus. É tempo de re-construção de nós mesmos (conversão), de retomada da opção fundamental por Deus e pelo seu Reino (maior serviço, mais compaixão, mais solidariedade...).

Nossos “apegos” se assemelham às construções à beira do rio que nos fixam num determinado lugar que nos parece confortável, desejável e seguro. Mas, se assim agirmos, afastamo-nos da correnteza da vida e não vai fluir em nós nem crescimento e nem progresso rumo à liberdade dos filhos de Deus.

A experiência de deserto passa a ser “tempo e lugar” de decisão, de orientação decisiva da vida, de enraizamento de nossos valores, de consciência maior da nossa identidade pessoal e da nossa missão... O mestre do deserto é o silêncio; o deserto tem valor porque revela o silêncio, e o silêncio tem valor porque nos revela Deus e a nós mesmos.

O deserto é o grande auditório para ouvir Deus; “solidão” cheia de presença. Ainda que sozinhos, sentimo-nos solidários, em comunhão com todos. O decisivo é “deixar-nos conduzir” pelo Espírito. Aqui não há engano.

Texto bíblicoLc 4,1-13

Na oração:

Temos muitas atitudes, posses, ideias, cargos, posições, bens... que consideramos ser Vontade de Deus; na realidade é tudo “projeção” de nossos medos, de nossa insegurança...

O desafio permanente é este: examinar as “coisas” que estão ocupando por completo nossa existência e “tomando conta de nós” a ponto de bloquear o fluxo da graça e da vida.

- Quais “tentações” estão travando sua vida, impedindo-o de seguir a Jesus mais livremente?

- Rezar suas “pulsões desordenadas” que atrofiam sua sintonia com Deus e sua abertura aos outros.

quarta-feira, 2 de março de 2022

Retiro Quaresmal 2022

O que é o Retiro Quaresmal?

Uma proposta simples de oração no dia-a-dia, buscando Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus. O roteiro oferece uma forma especial de fazer o retiro em casa, no tempo da Quaresma, visando uma boa preparação para a Páscoa do Senhor. 

O material (textos e orientações) produzido pelo Pe. Luís Renato Carvalho de Oliveira, SJ estão disponíveis no link: https://ignatiana.blog/rq2022-0/


Outro subsídio disponível são os vídeos com os roteiros semanais do Retiro Quaresmal 2022,  gravados pelo Pe. Adroaldo Palaoro, SJ.

Acesse o Youtube de Edições Loyola, semanalmente, e utilize esse subsídio para ajudar você a vivenciar o seu Retiro Quaresmal.

Acesse o link: https://www.youtube.com/playlist?list=PL62MB2LMQEV50q9SC_MyhhGHkobK91srJ

Quaresma, escola de vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho da Quarta-feira de Cinzas, que inicia o Tempo Litúrgico da Quaresma.

“Fala com sabedoria, ensina com amor” (Prov 31,26)

 

Mais uma vez somos convidados a viver a Quaresma como uma escola de vida. Nestes dias, ao entrar no deserto da aprendizagem, teremos a oportunidade de experimentar um novo modo de compreender a vida: ativar os recursos, dons, capacidades… e integrar os limites, fragilidades, crises…

Ensinados por Deus, a Quaresma poderá ser uma escola inspiradora para o resto de nossas vidas.

Com a cerimônia da “imposição das Cinzas”, toda a Igreja dá início ao percurso Quaresmal. Neste tempo litúrgico, inspirados pelo tema da CF2022, teremos a oportunidade de experimentar um modo diferente de viver, de nos deixar conduzir pelo Espírito, o Grande Mestre que “nos ensina com amor”. É preciso alargar o espaço no coração e na mente para acolher as “coisas novas” que Deus quer nos ensinar.

Em sintonia com toda as comunidades cristãs, somos chamados a viver o “tempo quaresmal” sempre de maneira nova e inspiradora. O centro de nossa vida é Jesus Cristo, sua pessoa, seu ensinamento, o mistério de sua morte e de sua ressurreição. O caminho do seu seguimento é sempre rico e surpreendente.

Muitas vezes, corremos o risco de viver o tempo litúrgico como uma celebração rotineira, algo já conhecido.

Somos todos alunos na escola do seguimento de Jesus, constituindo a grande comunidade de aprendizes.

Como alunos da “escola quaresmal” viveremos, em primeiro lugar, um deslocamento interno, mobilizando as nossas riquezas, despertando nossos desejos e reacendendo o impulso para uma identificação maior com o Mestre de Nazaré; em segundo lugar, viveremos uma travessia externa para alimentar um compromisso solidário e sermos presenças que fazem a diferença na grande escola da vida.

Tendo como inspiração o lema da Campanha da Fraternidade deste ano, “fala com sabedoria, ensina com amor”, seremos movidos a desatar todas as ricas possibilidades e recursos que querem se expressar e que se encontram no mais profundo de nossa interioridade.

Nesse sentido, a vivência quaresmal é uma verdadeira “escola de vida”, cujo aprendizado nos leva ao centro do nosso ser, para enraizar nossa vida no coração da Trindade, dele saborear a seiva da “divina sabedoria” e deixar-nos plenificar pela graça transbordante de Deus.

A pedagogia da interioridade apresenta-se como uma proposta sempre atual, que favorece a redescoberta do mundo interior, ou seja, tudo o que se refere à dimensão do coração, das intenções profundas, das decisões que partem das raízes internas. O coração de cada um é habitado de sonhos de vida, de futuro, de projetos; ele é a sede das decisões vitais, o lugar das riquezas pessoais, onde se encontram os dinamismos do crescimento, de onde partem as aspirações e desejos fundamentais.

A pedagogia da interioridade, portanto, possibilita viver a “sabedoria do coração”.

O Evangelho da 4ª. feira de Cinzas fala das “práticas quaresmais” da oração, esmola e jejum, onde nossas relações são iluminadas e questionadas pelo modo de viver e de proceder de Jesus.

Tais “práticas” não são uma carga pesada sobre nossas costas, mais uma autêntica experiência de saída de nossa “ignorância existencial” para poder viver com mais sentido e inspiração.

Na escola da oração nos situamos diante do olhar compassivo do Senhor para poder nos conhecer mais em profundidade e colocar nossa vida em sintonia com o que Ele deseja para cada um de nós.

Na escola do jejum temos a oportunidade para aprender a integrá-lo, não como sacrifício vazio, mas por inspiração amorosa, ou seja, deixar o Senhor nos ensinar a jejuar de tudo aquilo que atrofia nossa vida: pré-juizos, intolerância, egoísmo, soberba, mentiras, ignorâncias...

Por fim, a escola da esmola revela-se como chamado a nos des-centrar, a fazer da nossa vida uma contínua saída em direção aos outros, sobretudo os mais pobres e excluídos. O exercício da “esmola” libera os braços para acolher, alarga o coração para ser mais compassivo, movimenta os pés para uma maior prontidão no serviço, desperta uma presença inspiradora junto àqueles que estão abatidos e desolados.

Assim, o jejum, a oração e a esmola criam um clima favorável para nos “deixar educar por Deus”, para que nos tornemos mais humanos. “Educação divinizada” que se expande em múltiplas direções: consigo mesmo, com Deus, com os outros e com a natureza.

A vivência quaresmal revela-se, portanto, como um processo educativo, e isso acontece, em primeiro lugar, no mais profundo de cada um de nós, onde o verdadeiro Mestre faz do nosso coração sua “sala de aula”.

Como percurso espiritual, a Quaresma nos proporciona “sentir e a saborear” o modo como Deus se deixa encontrar pelo ser humano, como Ele “conduz” cada pessoa, sua maneira original de entrar em diálogo com cada um... Essa relação “Deus – ser humano” se revela como longo processo de aprendizagem, onde Deus é o verdadeiro “pedagogo”.

“Ser educado por Deus”: o princípio da divina pedagogia perpassa todo o percurso da Quaresma.

Santo Inácio, que se deixou educar por Deus, afirma que Ele o tratava “da mesma maneira que um professor trata um aluno, ensinando-o” (Aut. 27)

A “divina pedagogia” possibilita “e-ducar”, no sentido de “e-ducere”: trazer para fora ou extrair o melhor e mais humano presente nas profundezas de cada um, a verdade e a essência de cada pessoa, para que consiga ter uma visão ampla de si mesma e realizar-se da melhor maneira possível, ativando seus recursos e potencialidades.

Na escola quaresmal, nossa atitude primeira é a de dar o maior e mais amplo espaço possível ao Mestre interior, deixando-nos conduzir por Ele em todas as circunstâncias, em todo tempo e situações da vida.

Tudo isso confirma que Deus é “o” Pedagogo. Ele nos conhece como ninguém e como ninguém sabe fazer emergir tudo aquilo que Ele colocou em nós como criatividade, imaginação, intuição, desejos...

A experiência de Deus como “o” Pedagogo não é uma experiência à margem daquilo que é a experiência da vida cotidiana. Experiência, conhecer por experiência, fazer experiência... A própria vida é uma grande experiência. E cada experiência pode ser uma experiência de Deus, um deixar-se “transbordar” e “surpreender” por Ele, de Quem provém toda iniciativa.

De fato, a experiência é a sabedoria da vida. Santo Inácio resume essa intuição numa frase: “encontrar Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus”.

Texto bíblico: Mt 6,1-6.16-18

Na oração:

Deus, divino pedagogo, vem ao nosso encontro e arranca nossa vida dos limites estreitos e atrofiados, expandindo-a em direção a horizontes inspiradores;

- Quais as dimensões de sua vida que precisam se expandir, para viver com inspiração seu compromisso cristão?

- Nesse tempo quaresmal, você sente que sua vida necessita um novo salto de qualidade? Em que direção?... Qual é o seu estado de ânimo ao iniciar o percurso da Quaresma?

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Um juiz enrustido em nosso interior

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 8º. Domingo do Tempo Comum (Ano C). 

“Por que vês tu o cisco no olho do teu irmão, e não percebes a trave que há no teu próprio olho?”

O evangelho deste domingo nos situa no mesmo cenário onde Jesus havia proclamado as bem-aventuranças. O Mestre da Galileia está ensinando a um amplo grupo de seguidores(as), buscando despertar neles(as) a radicalidade que o Reino de Deus pede, a partir de uma vida que se sabe sustentada pelas mãos providentes de Deus e aberta à bondade, ao encontro e à solidariedade.

O ensinamento de Jesus tinha começado um pouco antes com uma afirmação taxativa: “Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados” (Lc 6,37). Depois da proclamação das bem-aventuranças e os “ais” contra aqueles que buscavam honras, riqueza e poder, Jesus vai proferindo uma série de afirmações que orientam o seu discipulado e revelam um “modo de ser e proceder” original e humano. Ele também adverte das armadilhas nas quais se pode cair quando alguém se apresenta como “juiz” que quer ser a referência para corrigir as limitações dos outros, afastando-se do bom caminho.

No discurso, encadeiam-se uma série de sentenças que alertam contra quem vive autorreferenciado e considera que só ele tem a verdade.

* Por quê somos tão rígidos, tão duros, tão insensíveis, tão julgadores...?

* O que nos faz ficar petrificados por dentro? Que forças internas nos mobilizam a ser o centro?

* Por que temos medo do desconhecido, daquele que pensa e sente de maneira diferente?

Em cada um de nós o instinto do julgamento está enraizado profundamente. Podemos dizer que todos nascemos municiados de uma cadeira de juiz. Há muitos que cultivam ardorosamente esta profissão e encontram ocasiões abundantes para praticá-la, submetendo-se, inclusive, a um horário esgotador.

Como proliferam os “tribunais ambulantes e permanentes”!

Tal atitude julgadora nos petrifica em todo o nosso ser, deixando-nos estagnados: emoção congelada, relações congeladas, imagem de Deus congelada, visões congeladas...

Somos submetidos ao grande risco de ficarmos imobilizados, emparedados em nosso corpo, petrificados em nossos pensamentos, em nosso coração e em nosso espírito.

Podemos estar muito retraídos, auto-centrados, tensos... e isso nos impede viver com maior fluidez.

* Como passar do coração de pedra para a morada da fonte de água viva?

* Como libertar o nosso coração dos medos que nos levam a excluir e rejeitar os outros e fechar-nos numa fria rigidez?

* Como reencontrar, no nosso cotidiano, a fluidez que habita em nós?

No Evangelho deste domingo encontramos algumas expressões categóricas que nos movem a abandonar este ofício julgador, bastante perigoso e rompedor de relações. Há um apelo forte que nos convida a fazer em pedaços a cadeira de juiz que todos levamos presa às nossas costas.

No entanto, em muitos seguidores e seguidoras de Jesus vai amadurecendo, ao longo da vida, a convicção de que há coisas muito mais importantes a fazer do que se dedicar ao ofício de juízes.

É preciso “cristificar” nossa visão para que ela não se deixe determinar pelas aparências ou pelas limitações do outro, mas, consiga vê-lo em profundidade, percebendo o que há de mais humano e divino em seu interior. A sabedoria de Jesus recorda algo elementar: o outro é nosso espelho, pois o cisco que vemos em seu olho nos está falando de uma “trave” que há no nosso; é preciso estar sempre com os olhos e ouvidos bem abertos para nos deixar impactar pelos dons, recursos e potencialidades humanas presentes em cada um.

“Guia cego” é aquele que, centrado na lei, se situa acima do outro, exigindo dele qualquer tipo de “submissão”. Isso acontece porque tal “guia” carece de compreensão, fala a partir da fria lei e só busca alimentar e fortalecer seu próprio ego.

O guia autêntico, pelo contrário, considera-se a si mesmo como “acompanhante”, fala a partir de sua própria experiência e remete cada pessoa a si mesma, na certeza de que o único “guia” é sempre o “Guia interior”, ou “Mestre interior”, que se expressa em cada ser humano.

Assim, enquanto o “guia cego” acaba caindo no buraco, o acompanhante autêntico oferece luz e espaço amplo para que cada qual vá encontrando seu próprio caminho.

Jesus está sempre nos chamando à autenticidade, ou seja, Ele nos provoca a descer ao mais profundo de nosso próprio ser e descobrir ali o que está de acordo com o que na realidade somos. Por isso, Ele está sempre combatendo uma acomodação externa às normas e preceitos. A única Lei definitiva é a que está escrita em nosso interior e tem a marca do amor. É preciso descer ao coração e descobri-la, para que ela inspire nosso ser e nosso proceder.

Como cristãos temos copiado a atitude dos fariseus, dando mais valor ao cumprimento de normas que à busca interior das exigências de nosso verdadeiro ser. Esta é a causa de nosso fracasso na vida espiritual.

A originalidade do Evangelho está na aventura da descoberta do “mundo interior”, esse mundo desconhecido e surpreendente, que é o coração, onde acontece o mais importante e decisivo em cada pessoa. “O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração” (Lc 6,45).

É preciso ser discípulo(a) da “escola do coração” onde aprendemos a nos acolher como dom totalmente gratuito de Deus e a entregar-nos totalmente ao seu Reino.

No nosso contexto cultural, a imagem do coração perdeu muito de sua expressão, tornando-se muito banalizado: corações nas emoções, nos desenhos, talhados em árvores, nas taças e chaveiros; corações em canções, rompidos, roubados, feridos, apaixonados, pesados, leves; corações que sentem, e outros insensíveis. O coração parece como um depósito de sentimentos.

Por outro lado, vivemos também um contexto de muitos “corações de pedra”, intransigentes, cheios de ressentimentos e juízos implacáveis, corações fechados em jaulas de pré-juízos e de suspeitas, que acabam envenenando as relações e rompendo os laços humanos.

O seguimento de Jesus consiste, sobretudo, em alcançar a experiência interior que Ele viveu, e deixar que nossa interioridade cristificada se manifeste. Fazer caminho com Ele nos ajuda a descobrir as enormes possibilidades em nossos próprios corações. O Coração divino que humaniza nosso coração, tornando-o aberto e sensível a tudo o que é humano; ao mesmo tempo, ativa em nós um coração que se faz solidário e comprometido a afastar de nossas relações tudo o que desumaniza: fechamentos, intolerâncias, julgamentos, preconceitos, ódios...

“Ter o coração nas mãos” nos capacita a olhar a realidade, compreender cada pessoa em sua situação e viver oblativamente, a partir da gratidão e da responsabilidade. Sentir o pulsar de nosso coração em sintonia com o Coração do Pai nos ajuda a recuperar o “humanismo” que estamos perdendo.

Humanizar nosso coração para humanizar as relações.

Por isso Jesus dava tanta importância ao coração: “a boca fala daquilo que está cheio o coração” (Lc 6,45); “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8).

Texto bíblicoLc 6,39-45

Na oração:

No silêncio da oração, desça até o mais profundo de seu coração, até chegar à corrente subterrânea de água viva; aqui você experimenta a unidade de seu ser; aqui é o lugar da transcendência, onde a transformação acontece.

A intimidade não é fechar-se em si mesmo, mas abertura máxima. A partir do centro do coração, abra-se ao coração da realidade.

- Você deixa “transparecer” seu coração na vivência cotidiana? Coração oxidado ou ativado pela Misericórdia?

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

“Princípio Misericórdia”: amor em excesso

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 7º. Domingo do Tempo Comum (Ano C). 

“Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36) 

O Evangelho deste domingo nos situa diante desta convicção: Deus é Misericórdia e nossa vocação cristã é viver misericordiosamente.

Em sua misericórdia, Deus sempre nos surpreende, sempre excede nossas estreitas expectativas, para abrir caminho a partir de nossas fragilidades. Só o amor misericordioso de Deus nos reconstrói por dentro, destrava nosso coração e nos move em direção a horizontes maiores de busca, responsabilidade e compromisso.

Duas razões que deveriam estar presentes em quem se diz cristão, algo tão natural no seguimento de Jesus Cristo: alegria pela experiência de que Deus nos ama com um coração misericordioso e misericórdia como conduta libertadora que nasce de tal experiência. Aqui nos encontramos envolvidos por uma mensagem que é essencial e decisiva no nosso “ser cristão”.

Ser misericordiosos e compassivos é a vocação à qual todos nós, seres humanos, fomos chamados, inclusive aqueles que ainda não experimentaram o dom da fé ou mesmo a esvaziaram. É o caminho para conseguir uma convivência leve, acolhedora e aberta. As Bem-aventuranças vão nesta direção, abrindo espaço para que o Amor misericordioso de Deus se transforme em motor da história.

Misericórdia. É a primeira, a última, a única verdade na Igreja, em todas as suas doutrinas, cânones e ritos. É o “atributo primeiro” de Deus proclamado por todas as religiões e que deve inspirar o modo de proceder de todo ser humano. E, - por que não dizer? -, também no campo da política ou da gestão da vida pública com todas as suas instituições, partidos, programas e conferências climáticas. Ai das políticas sem entranhas, sem alma, sem misericórdia!

A misericórdia é a luz e a chave de nossa vida, tão preciosa e frágil, de nosso pequeno planeta tão vulnerável, do universo imenso e interrelacionado e do qual fazemos parte.

Misericórdia, segundo sua etimologia, significa “entranha”, coração, ternura diante da fragilidade e miséria do outro. Por isso é um dos nomes mais belos de Deus; é o mesmo que dizer “coração da Vida” e de tudo quanto existe.

A força criativa da misericórdi de Deus põe em movimento os grandes dinamismos de nossa vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova nunca ativada.

Se recuperarmos as atitudes de misericórdia e compaixão, teremos entrado na vivência essencial do Evangelho. O decisivo é que a Igreja toda se deixe reger pelo “Princípio-Misericórdia”, sem ficar reduzida simplesmente a somar “obras de misericórdia”.

A misericórdia é para os audazes e criativos, capazes de revolucionar a existência com atitudes maduras de amor profético, alargando espaços onde imperam somente a doutrina, os esquemas rígidos e as retóricas de poder e de juízo daqueles que não se deixam conduzir pela força humanizadora da mesma Misericórdia.

À imagem do Deus de Misericórdia fomos criados, e somos seres capazes e necessitados de misericórdia. Uma faísca da misericórdia Deus está presente no interior de cada ser humano, pálido reflexo dessa “forma suprema de ternura” que é o Amor de Deus, que rompe as distâncias e se aproxima da realidade humana como Ternura amorosa. Ou seja, se Deus não se revelasse como “misericórdia”, não poderia ser amado pela pessoa humana como se ama o pai ou a mãe.

Deus misericordioso nos educa e nos impulsiona a viver misericordiosamente. Sua misericórdia penetra até o mais profundo de nosso ser, individual e comunitário, para que pensemos, falemos, escutemos e atuemos misericordiosamente. “Oxalá vos sintais sempre misericordiados, para serdes, por sua vez, misericordiosos” (Papa Francisco).

No princípio era a Misericórdia. Por ela fomos criados. Foi um ato de Misericórdia que nos deu vida. A Misericórdia é sempre geradora de vida. A Misericórdia é o Amor que vai além da justiça, e vir à vida foi fruto de Amor em excesso, não um ato de justiça.

Fomos criados por um coração misericordioso, fomos feitos por mãos misericordiosas, pensados por uma mente misericordiosa. Vivemos imersos na Misericórdia.

Se Deus não fosse misericordioso, não teríamos jamais existido; e se essa Misericórdia existe desde o princípio do nosso viver, ela ainda agora é fonte de vida, graça da qual temos continuamente necessidade e que constantemente está agindo em nós para alimentar o impulso da reconciliação com tudo e todos.

A misericórdia constitui a resposta de Deus à indigência do ser humano: ela destrava a vida, potencializa o dinamismo do “mais” e o coloca em movimento em direção a um amplo horizonte de sentido.

O teólogo Jon Sobrino formulou a expressão “princípio-misericórdia”, porque a misericórdia foi a que moveu toda a ação de Deus no AT e de Jesus no NT.

Jesus realizou muitas coisas e em muitos lugares (ensinou, curou, denunciou, alimentou, dialogou, etc.), mas a misericórdia foi a que inspirou e moveu tudo em sua vida e ação. Sentiu profundamente o sofrimento das pessoas, preocupando-se sempre em aliviar sua dor. Mas é preciso destacar, no entanto, que Jesus não se limitou à esfera do privado, mas estendeu a misericórdia a dimensões coletivas e públicas: repartiu o alimento a uma multidão, interpelou os ricos, pregou às massas e as alentou, denunciou os abusos das autoridades religiosas e políticas, entrou em conflito com os manipuladores da religião do Templo... 

De acordo com o Evangelho deste domingo, só quem entra no fluxo do “princípio Misericórdia”, será capaz de amar até os inimigos, de quebrar o círculo de toda violência, de bem-dizer quem amaldiçoa e rezar pelos que caluniam. Assim, a misericórdia, recebida e experimentada, é a base da atitude compassiva, não como ato ocasional mas como estilo de vida evangélico. Torna-se o fundamento e a perene inspiração de uma existência de partilha e solidariedade.

“Ser humano” é, para Jesus, agir com misericórdia; do contrário, fica viciada na raiz a essência do humano, como acontece com aqueles que fazem da lei e da doutrina o centro de suas vidas, “passando do outro lado” da dor e da exclusão do outro.

A misericórdia, como estilo-de-vida cristã, é força oblativa que rompe distâncias e faz “morada no outro”.

Ela se constitui como uma “caridade-em-ação” perante o sofrimento alheio, numa atitude fundamental de solidariedade. É a ternura que se traduz em atos em favor da vida e não da morte.

Ela nos descentraliza e nos coloca no caminho do co-irmão, sobretudo daquele mais fragilizado e excluído.

É a misericórdia que desperta em nós uma nova sensibilidade a partir do outro, almejando com todas as forças aquilo que é o melhor para ele.

Trata-se de uma “escuta existencial” feita de profundo respeito pela alteridade do irmão. Não pretende que o outro se amolde à nossa maneira de ver ou sentir, mas deixa o outro ser profundamente ele mesmo.

Assim lançamos a base para um autêntico encontro fraterno, inspirando-nos na própria atitude de Jesus para com as pessoas. Abrimo-nos por dentro para captar o diferente do outro e acolhê-lo com o coração.

Texto bíblico: Lc 6,27-38

Na oração:

A experiência da oração implica escancarar as portas de nossa interioridade, abrindo passagem para que a Misericórdia divina transite com liberdade pelos recantos escondidos e sombrios, ativando e despertando dinamismos e recursos que ainda não tiveram oportunidade de se expressar.

- O atual contexto social-político-cultural-religioso revela sua terrível face desumanizadora, através da cultura do ódio, da intolerância, das mentiras... Como você, seguidor(a) de Jesus, tem reagido diante disso? Sua presença tem a marca da misericórdia ou da indiferença? Está a serviço da vida ou da morte?...