quarta-feira, 12 de maio de 2021

ASCENSÃO: quando céus e terra se tocam

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana), como sugestão para rezar e preparar-se, pessoal e comunitariamente, para a solenidade da Ascensão do Senhor, com base no Evangelho. 

“...o Senhor foi levado ao céu, e sentou-se à direita de Deus” (Mc 16,19) 

O Mistério que estamos festejando neste domingo é o mesmo que celebramos cada dia deste tempo de Páscoa ou que celebraremos em Pentecostes: a certeza de que nosso Deus é um Deus Vivo e um Deus de Vida, que não permite que a morte tenha a última palavra e que se empenha para que nós sejamos, junto a Ele, doadores de vida.

Já se passaram 40 dias desde que celebramos a Páscoa, o acontecimento inspirador e alegre da Ressurreição de Jesus. Talvez seja um bom momento para tomarmos o pulso de como temos vivenciado este tempo pascal. Também a nós, como seguidores(as), a liturgia nos apresentou Jesus Vivo e Ressuscitado durante quarenta dias: Ele nos falou de paz, de esperança, de fortaleza, do imenso amor com que nos ama, do sentido de sua morte e de sua paixão... Conhecendo em profundidade nossos medos e debilidades, nos prometeu com insistência que sempre permanecerá entre nós através do alento e da força do seu Espírito, da “Ruah” criativa e transformadora.

Na Ascensão, Jesus não nos abandona, pois realizou uma comunhão definitiva com a humanidade, garantindo a ela um destino de plenitude. Ele subiu ao céu para abrir-nos o caminho, mas agora é o Espírito aquele que nos move e nos conduz ao Pai. Cabe a nós esforçar-nos em fazer o nosso êxodo, sob a ação do mesmo Espírito e confiantes na fidelidade de Deus.

Depois destes 40 dias de preparação é tempo de nos mover, de sair, de pôr-nos a caminho. É preciso colocar em prática tudo o que foi escutado e experimentado. É tempo de “expulsar demônios, de curar enfermos, de falar linguagens novas...”. Cada um de nós pode dar nome a esses “demônios” que somos chamados a expulsar, às enfermidades que devemos curar ou à linguagem de devemos praticar com insistência.

Agora, através do seu Espírito, o Senhor nos coloca em movimento com um envio apaixonante: que a Boa Notícia, aquela que nós já temos recebido, chegue ao mundo inteiro.

Ao mistério da Ascensão corresponde ao mistério da Kénosis (esvaziamento) do Verbo; Ele que se despojou de sua glória e majestade e se fez homem, agora é elevado aos céus e com Ele toda a humanidade redimida e divinizada. Em Cristo, a humanidade inteira já se encontra envolvida por Deus; em Cristo, céus e terra se encontram.

A Ascensão nos revela que a terra termina no céu, o tempo na eternidade, o ser humano termina em Deus. Mas o céu, a esperança, o horizonte, estão já presentes em nosso hoje, dando sentido. O futuro sonhado e esperado é a alegria do presente. O céu não pode esperar!

Frequentemente, a festa da Ascensão é explicada utilizando a mentalidade grega que distingue e separa “céu” e “terra”, que vê estas duas realidades como espaços contrapostos e, de certa forma, separados por um imenso abismo. Como consequência, neste domingo faríamos memória da grande “desconexão”: Jesus Ressuscitado ascende ao céu, abandona a terra e a nós, seus discípulos, sua comunidade; deixa-nos tristes e órfãos.

No entanto, a chave está aqui: “tudo está entrelaçado, inter-conectado, inter-dependente...”

A cosmologia bíblica não é dualista. Céu e terra não são duas realidades separadas, opostas, desconectadas, senão que existe entre elas uma permanente inter-relação; são realidades inter-conectadas. “Céu” (Deus e seus anjos) e terra estão em permanente relação. E tanto os humanos como os animais, as plantas, os planetas, experimentam sempre o “toque” e a “influência do céu”. Assim se expressam os Salmos, os Profetas, os Sábios... Para o pensamento bíblico há salvação ali onde céus e terra se tocam.

Os primeiros cristãos contemplavam a ressurreição de Jesus como o início da reconciliação entre o céu e a terra. Jesus “sobe ao céu” para que se realize sua “conexão” definitiva com a terra; Jesus sobe ao céu para que o céu venha à terra. Essa foi a oração que Ele ensinou àqueles que o seguiam: “Venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”.

O que dizemos da terra, o que a ciência da ecologia nos mostra cada vez com mais evidência é que tudo está inter-conectado, todas as manifestações de vida estão inter-relacionadas. Assim, com muito mais razão, é preciso dizer de uma maneira muito especial nesta celebração da Ascenção: Jesus sobe para “conectar” tudo. Esta é a “ecologia do Espírito do Ressuscitado”: o céu na terra e a terra no céu.

Esta é a ecologia integral: a ressurreição transformou absolutamente tudo, uniu tudo. Uma estupenda beleza nasceu e nós estamos integrados neste cenário.

Na Bíblia, céu e terra querem exprimir, espacialmente, a totalidade da Criação de Deus; por isso Deus é Senhor do céu e da terra.

Tudo, então, chegará à plena reconciliação: o céu terá baixado à terra e a terra terá sido elevada até o céu. E então será a plenitude: “Deus será tudo em todas as coisas” (1Cor. 15,28)

A tradição nos lembra que o Espírito Santo é o mesmo na terra e no céu, que o Amor é o mesmo, na terra e no céu. Todas os atributos divinos que podemos viver no espaço-tempo são nossa realidade celeste.

Ao celebrar a Ascenção, sentimos aqui na terra como o céu se conecta com uma experiência universal, comum a todo ser humano: nosso profundo desejo de comunhão.

E, assim, muitas outras expressões humanas, sobretudo através da arte, nos convidam a olhar o céu não como algo etéreo, separado de nossa realidade, mas como algo que habita em cada um de nós. O “céu” se encontra naquelas situações e relações que fazem o ser humano apaixonar-se pela vida. Onde predominam o ódio e o desprezo pela vida, ali se encontra o “inferno”. Quantas “expressões infernais” destroem o impulso para o encontro neste nosso contexto social, político, econômico...!

Como vemos, o “céu” nos mobiliza e nos interpela, nos conduz àqueles lugares, pessoas e situações nas quais experimentamos o profundo desejo de nos unir com a humanidade; também a humanidade mais frágil e necessitada de comunhão. E aí, nesse desejo de construir o céu na terra e de encontrar-nos uns com outros, encontramos o Ressuscitado, falando-nos com paixão, ternura e amor.

O movimento desencadeado por Aquele que Vive é um movimento que reúne para ativar a vida, para restaurar vínculos rompidos, para libertar das ataduras que escravizam...

Jesus “subiu” ao céu porque “desceu” às profundezas da terra. E assim também nos mostrou o caminho. Não podemos subir ao céu se não estivermos dispostos a descer com Cristo ao nosso “húmus”, às nossas sombras, à condição terrena, ao inconsciente, à nossa fraqueza humana.

Nós “subimos” a Deus quando “descemos” à nossa humanidade. Este é o caminho da liberdade, este é o caminho do amor e da humildade, da mansidão e da misericórdia; é o caminho de Jesus também para nós.

A vida cristã não é “subida” para fora da realidade, mas “descida” para o mais profundo da mesma.

Entramos no movimento da Ascensão quando amamos, servimos, cuidamos...; nós nos elevamos quando lutamos por uma causa, investimos a vida num projeto em favor da vida.

Texto bíblico: Mc 16,15-20

Na oração:  

A festa da Ascensão nos ensina o caminho através do qual descemos a uma dimensão mais profunda, chegando à corrente subterrânea por onde flui a vida; aqui experimentamos a unidade de nosso ser; o impulso para a comunhão, o lugar da transcendência, onde nossa transformação realmente acontece.

Para nos realizar e desenvolver toda a nossa potencialidade, busquemos, na oração, cavar mais profundamente, até atingir as raízes de nosso ser, o núcleo original de nossa personalidade. É no mais íntimo de nós que rezamos ao Senhor. É no mais profundo de nossa interioridade que escutamos o Senhor.

Deixemo-nos invadir pela luz e pela vida d’Aquele que “armou sua tenda entre nós”.


José de Nazaré: sombra do Pai celeste na terra

Texto 3 da série elaborada pelo pe. Adroaldo Palaoro, sj sobre a vida e missão de São José que poderá ser usada como subsídio para melhor viver o ano de São José (2021) decretado pelo Papa Francisco na Carta Apostólica "Patris Corde". 

“O escritor polaco Jan Dobraczyński, no seu livro A Sombra do Pai, narrou a vida de São José em forma de romance. Com a sugestiva imagem da sombra, apresenta a figura de José, que é, para Jesus, a sombra na terra do Pai celeste: guarda-O, protege-O, segue os seus passos sem nunca se afastar d’Ele” (Papa Francisco – Patris Corde)

 

O saber estar “à sombra” para não fazer sombra a outros, o escutar e discernir a vontade divina, a preocupação pelo bem-estar dos demais, o silêncio contemplativo e radical que lhe permitia aprofundar na realidade, a prontidão na “obediência à fé” e a disponibilidade sem fissuras à graça, são as qualidades com as quais José entrou em sintonia com Deus, dando sua contribuição decisiva ao mistério da salvação. Por isso, ele se revela como inspirador a todos nós.

José, foi aquele que se abriu ao Deus surpreendente e deixou-se conduzir por Ele. Dele não se diz muito nos evangelhos, mas o que ali se diz nos revela uma presença surpreendente, capaz de ver mais além do cotidiano e estabelecido. Presença que aponta para uma outra presença, a de Jesus.

Seria um equívoco considerar José uma espécie de marionete nas mãos de Deus, que lhe atropelara a liberdade. A catequese evangélica tem como ponto de partida a convicção de ser possível o ser humano "escutar e praticar" a vontade de Deus, mesmo quando lhe é pedido algo, à primeira vista, superior à capacidade de suportar. José não dá mostras de agir a contragosto, acuado, pressionado ou duvidoso. Age com a liberdade de quem sabe o que faz, colocando-se à inteira disposição de Deus, com total generosidade. Ele conhecia as bases em que se construía sua relação com Deus, donde sua disposição para radicalizar a vivência da fé.

Segundo a revelação bíblica, Deus se deixa “transparecer” na Criação e na humanidade. Em tudo, encontramos “marcas” de sua presença e de sua ação. Todos os bens e graças “descem do alto”, como o sol desce com seus raios. Em todas as coisas aparece a sabedoria, a palavra, o dom de Deus; em todas as pessoas transparece a bondade, o cuidado, a compaixão do Deus Pai/Mãe.

José, na sua vocação paterna, torna-se “diá-fano” de Deus Pai (deixa transparecer a imagem paterna/ materna de Deus). Através do seu modo de ser e de agir, carregado de silêncio inspirador, José, não só revela uma profunda sintonia com Aquele que o chamou a assumir a vocação paterna, mas deixou “fluir”, no cotidiano e na simplicidade de sua vida, os atributos d’Aquele que o conduzia. O coração de José passa a pulsar em acorde com o coração de Deus Pai: a Paternidade divina flui na paternidade humana.

Deus Pai encontrou liberdade para ativar e tornar visível em José as características próprias de um pai:

“Não se nasce pai, torna-se tal... E não se torna pai, apenas porque se colocou no mundo um filho, mas porque se cuida responsavelmente dele. Sempre que alguém assume a responsabilidade pela vida de outrem, em certo sentido exercita a paternidade a seu respeito” (Papa Francisco, Patris Corde)

Porque estava presente a Deus, José fez-se presente nos momentos decisivos da Família de Nazaré, bem como fez-se presente na vida das pessoas. Uma presença que faz a diferença: presença solidária, marcada pela atenção, prontidão e sensibilidade, próprias de um pai que acompanha com ternura.

Sua presença não era presença anônima, mas comprometida; presença que é “música calada” nos lugares cotidianos e escondidos, que sabe enternecer-se e escutar as inquietações que procedem desses lugares. Uma presença que descobre o próximo no próximo, que sabe resgatar a solidariedade na vida cotidiana; uma presença que se manifesta na ausência de recompensa ou de interesse próprio.

Mas, há algo que podemos trazer à luz da vida de José em Nazaré: que na lentidão do dia-a-dia, da monotonia e do lar, Deus preparava o caminho. Pouco a pouco, a fogo brando. Em meio à rotina de uma vida simples, José foi fazendo-se perguntas, esperando as respostas, ouvindo o que seu coração lhe dizia e discernindo o que Deus queria dele. Ano após ano, em um pequeno lugar, detrás de uma vida que nada tinha de diferente das outras vidas.

Como homem, José precisou passar pelo processo do amadurecimento lento, lançando mão de todos os recursos que encontrou em seu próprio interior e ao seu redor.

Cozinhar a fogo lento é bem difícil neste mundo de pressas e imediatismos. E hoje, mais do que nunca, se fazem necessários os “tempos de Nazaré”, esses tempos de aparente rotina nos quais se alimentam os sonhos, onde se forjam as vontades, se domam as impaciências, se aclaram os caminhos, se discerne a Voz, se dissipam as névoas do caminho...  Em definitiva, esse tempo onde nosso canto e o de Deus se afinam juntos para formar uma única melodia e fazê-la soar no mundo.

José, em Nazaré, continua sendo luminoso e inspirador para todos nós, num momento em que as transformações são rápidas e exigem de nós maturidade, aprendizado, diálogo, novas expressões de fé...

A família de Nazaré evoca o dia-a-dia da nossa paternidade/maternidade, onde os acontecimentos extraordinários são pouquíssimos. Chega um momento em que a vida cristã parece muito rotineira. Nazaré alimenta e prolonga a paternidade de Deus no cotidiano e comum da vida. Nazaré é a escola na qual aprendemos a descobrir a presença de Deus na vida “tal como ela é”, no trabalho das pessoas e nos rostos daqueles que estão ao nosso lado. No lugar onde nos cabe viver é onde o Senhor nos ama e nos convida a descobri-Lo.

Mas Nazaré é também um alerta contra a rotina. Cada dia é preciso enraizar mais ainda nossa vocação paterna/materna no coração compassivo de Deus Pai/Mãe. Por isso Nazaré é o lugar da perseverança, da fidelidade, de dizer cada dia um novo “sim” ao Senhor. No cotidiano há momentos favoráveis e momentos de crise. Mas o cotidiano é a oportunidade para ampliar o olhar para a frente. Nazaré pode ser um lugar de esperança, de onde se pode vislumbrar um futuro melhor.

Nazaré evoca também a comunhão dentro da diversidade. Num pequeno povoado as pessoas são tão diferentes como numa cidade grande, mas a vulnerabilidade delas nos faz despertar a consciência da necessidade que temos uns dos outros. Numa comunidade pequena os problemas de um afetam os outros. Suas fragilidades se fazem fortes quando se apoiam mutuamente; suas solidões que se unem criam comunhão. Vivamos em nossas comunidades a grandeza de sermos plenamente humanos!

A presença silenciosa, original e mobilizadora de José des-vela e ativa também em nós uma presença inspiradora, ou seja, descentrar-nos para estar sintonizados com a realidade e suas carências. Tal atitude nos mobiliza a encontrar outras vidas, outras histórias, outras situações; escutar relatos que trazem luz para nossa própria vida; ver a partir de um horizonte mais amplo, que ajuda a relativizar nossas pretensões absolutas e a compreender um pouco mais o valor daquilo que acontece ao nosso redor; escutar de tal maneira que aquilo que ouvimos penetre na nossa própria vida; implicar-nos afetivamente, relacionar-nos com pessoas, não com etiquetas e títulos; acolher na própria vida outras vidas; histórias  que afetam nossas entranhas e permanecem na memória e no coração.

Disto se trata: aprender dos outros; recarregar nossa própria história de um horizonte diferente, no qual cabem outras possibilidades e outras responsabilidades; descobrir uma perspectiva mais ampla que ajuda a formular melhor o sentido de nossa própria vida.

Em José descobrimos a verdadeira vocação de todo ser humano. Ser como José não é uma simples meta a alcançar, pois partimos da mesma realidade da qual ele partiu. O que estamos celebrando, neste “ano de São José”, nos indica o ponto de partida de nossa trajetória humana, não o ponto de chegada.

Textos bíblicos:  Lc 2,21-40; Lc 15,11-32; Lc 10,25-37

Na oração:

Considerar como tudo o que você é e possui provém de Deus Pai, se origina e se enraiza n’Ele.

Considerar, como deve, de sua parte, amar as pessoas de tal maneira que se faça transparente, para que através de você os outros possam conhecer quem é Deus.

- Você é chamado a deixar “transparecer” a imagem de Deus Pai, através da sua bondade, justiça, serviço...


terça-feira, 11 de maio de 2021

As surpresas mobilizadoras de Deus

Texto 2 da série elaborada pelo pe. Adroaldo Palaoro, sj sobre a vida e missão de São José que poderá ser usada como subsídio para melhor viver o ano de São José (2021) decretado pelo Papa Francisco na Carta Apostólica "Patris Corde". 

 “A vontade de Deus, a sua história e o seu projeto passam também através da angústia de José. Assim ele ensina-nos que ter fé em Deus inclui também acreditar que Ele pode intervir inclusive através dos nossos medos, das nossas fragilidades, da nossa fraqueza. E ensina-nos que, no meio das tempestades da vida, não devemos ter medo de deixar a Deus o timão da nossa barca. Por vezes queremos controlar tudo, mas o olhar d’Ele vê sempre mais longe” (Papa Francisco, “Patris Corde”)

 

Nossa vida deveria ter mais ingredientes de surpresa que de rotina. Sem surpresa não há vida, e uma “vida com sentido” deve ter este elemento de surpresa, de poder des-velar aqueles sinais de esperança que dão luz e calor a tudo o que somos e fazemos. É preciso estar atento à surpresa, rastreando o horizonte a partir da esperança do coração. Ao mesmo tempo, é preciso ter um coração preparado para acolher esta surpresa. Ela pode passar desapercebida, se estivermos imersos na rotina cansativa de nossos dias.

Muitos de nós, provavelmente, em um momento ou outro de nossa vida, já vivemos uma experiência de explosão de assombro e surpresa diante de nossa própria existência. Num determinado momento, tudo parecia enfadonho e rotineiro e, de repente, tudo é percebido como extraordinário e maravilhoso.

É como se alguém se visse afetado de um repentino ataque de assombro, que suscita humildade e agradecimento diante do milagre da vida.

É como se despertasse para ver a realidade com novos olhos, como se visse pela primeira vez coisas que estiveram aí desde sempre. Emerge uma profunda reverência diante do “Mistério”, incompreensível, mas mobilizador. E diante do “mistério”, a atitude adequada é a contemplação silenciosa, como fazem as mães, em longas horas de silêncio, cheias de assombro, diante da fragilidade de um novo ser humano.

Não é difícil imaginar o assombro de José de Nazaré, que surpreso descobre que a “vida é mais que vida”, que há sempre algo maior que o ultrapassa no emaranhado cotidiano de sua história. Uma aprendizagem vivida ao longo da vida, marcada por momentos de serenidade e paz, mas também de obscuridade e dúvida.

Os textos evangélicos afirmam claramente o conflito vivido por José. Ele viveu a experiência de uma verdadeira “noite escura”, do “silêncio de Deus”. Mais uma vez é Deus quem toma a iniciativa.

José era um pobre noivo, pertencente a uma nação oprimida e a uma categoria social esquecida, mas conservava límpidos os olhos do espírito, prontos para perceber e acolher a presença surpreendente de Deus em  sua vida. Na narração de Mateus, o anjo comunica ao confuso José o mistério que está acontecendo com sua esposa Maria. Por essa revelação do anjo, José é atingido como que por um raio, é tomado de surpresa. A sua noite, o seu silêncio, o seu sono, a sua rotina diária são quebrados por uma novidade absoluta.

O que José recebe no sonho é o chamado a uma existência marcada por constantes “deslocamentos”, pois, a mulher que entrou em sua vida e vai entrar em sua casa, Maria, leva em suas entranhas Aquele que para muitos será uma presença provocativa, uma ameaça ao poder estabelecido, um transgressor das leis e normas religiosas... A vida inteira de José, o justo, vai ficar desestabilizada a partir deste momento porque foi convidado a aproximar-se do mistério surpreendente do Deus feito homem.

Exteriormente, o mundo permanece como estava, aparentemente nada mudou; mas, ao associar-se ao destino do “Deus que se humaniza”, também José se revelará como presença surpresa, marcada pelo cuidado, pelo silêncio e pela prontidão ao chamado de Deus.

É preciso "nos deixar surpreender por Deus" constantemente.

Deus espera que nos deixemos “surpreender por seu amor, que acolhamos as suas surpresas”.

É decisivo estar dispostos a abrir espaços em nossa história a novas pessoas e situações, novas vivências, novas experiências... Porque sempre há algo diferente e inesperado que pode nos enriquecer.

A vida está cheia de possibilidades e surpresas; inumeráveis caminhos que podemos percorrer; pessoas instigantes que aparecem em nossas vidas; desafios, encontros, aprendizagens, motivos para celebrar, lições que aprendemos e nos fazem um pouco mais lúcidos, mais humanos e mais simples...

Em José nos inspiramos para viver também uma presença inspiradora em nossa existência cotidiana.

Mergulhados naquilo que é margem, na superfície das coisas, na rotina estressante…. acabamos por perder de vista o essencial, isto é, a adesão a Deus e ao seu plano de amor, de verdade, de justiça.

Aprendamos de José a abrir nosso interior e deixar-nos surpreender por Deus.  Quem se deixa conduzir e vive a esperança sabe que, "mesmo em meio às dificuldades, Deus atua e nos surpreende".

Mas como viver essa atitude na nossa vida cotidiana, em cada coisa que fazemos?

Deixar-nos surpreender por Deus não implica uma atitude passiva, onde esperamos que tudo caia do céu.

Deixar-nos surpreender por Deus no singelo, nas coisas simples da vida. Muitas vezes nós perdemos a

capacidade de ver a sua ação nas pequenas coisas e ficamos esperando grandes sinais, grandes milagres. Cada instante é uma chance para perceber esse amor que Ele tem por nós. Se nós vivemos cada momento ordinário de forma extraordinária, certamente perceberemos a Sua ação e seremos surpreendidos.

Pensemos agora na quantidade de ocasiões que temos em apenas um dia para sermos surpreendidos por Ele: um encontro com alguém, um gesto de bondade, uma palavra que alguém nos dá, uma paisagem que vemos, enfim, infinitos momentos em que Deus nos fala, busca nos surpreender. Mas, por não prestarmos atenção, por estarmos dispersos em tantas preocupações, por não fazermos silêncio em nosso interior, acabamos não percebendo.

 E fazer este percurso vital é abrir-nos às surpresas do Deus Surpreendente.

O encontro com a pessoa de São José pede de nós uma docilidade à audição da Voz que nos habita; é o sussurro que vem da realidade e das coisas, carregada da Presença d’Aquele que desperta o nosso ser para o assombro, para a maravilha e para o milagre.

Diante do “Mistério” que nos envolve e nos escapa, brota do mais profundo do nosso ser, o grito cheio de surpresa. O Mistério irrompe como voz que convida a escutar mais e mais a mensagem que vem de todos os lados, como apelo sedutor para nos mover mais e mais na direção do coração de cada coisa. Ele pertence a uma dimensão humana à qual todos têm acesso, quando vivem em profundidade e conseguem penetrar nos níveis mais profundos da vida.

A vida cristã é, por sua própria natureza, uma surpresa que quebra a solidão da pessoa abandonada a si mesma, aos seus desertos desolados, fechada em suas rotinas e esquemas...

Faz-se necessário recuperar o sentido da surpresa, recordar que a visão bíblica da história dirige-se para uma meta surpreendente: encontrar novamente a capacidade de maravilhar-se. É preciso recobrar o sentido da expectativa, da novidade, da coragem.

Com essa atitude frente às surpresas de Deus, podemos dar sabor à nossa vida, muitas vezes modesta e simples como a de José. Pois é no traçado das horas e dos dias que Deus prepara sempre a sua novidade, a sua surpresa, o seu dom.

Não devemos jamais cair na resignação, mas permanecer em vigília, na expectativa; também nós devemos ser uma surpresa para os outros, com nosso gesto de amor imprevisto, com nossa palavra que reanima, com nossa visita que consola, com nossa atenção para com todos os que levam uma vida obscura e monótona.

Eis a plenitude da vida: mergulhar naquela Presença benfazeja que nos enche de sentido, de alegria, e nos surpreende a cada momento, nos invade e nos conduz a caminhos novos.

Textos bíblicos:  Mt 2,13-23;  Lc 1,26-38;  Lc 1,39-56

Na oração: 

Durante a contemplação devemos deter-nos particularmente na figura de José. Ele teve seus pensamentos próprios, suas preocupações e suas provações, suas perguntas dilacerantes e suas dúvidas angustiantes.

Mas, Deus nunca deixa de atuar no meio das nossas noites, dúvidas, provações. Ele conhece nossos pensamentos e temores. E, no momento certo, nos liberta de  nossos medos e nos dá a conhecer sua Vontade.

- Fazer memória das “surpresas” de Deus que despertaram um novo “movimento” em sua vida.


segunda-feira, 10 de maio de 2021

O silêncio do "homem justo"

Texto 1 da série elaborada pelo pe. Adroaldo Palaoro, sj sobre a vida e missão de São José que poderá ser usada como subsídio para melhor viver o ano de São José (2021) decretado pelo Papa Francisco na Carta Apostólica "Patris Corde".

“A felicidade de José não se situa na lógica do sacrifício de si mesmo, mas na lógica do dom de si mesmo. Naquele homem, nunca se nota frustração, mas apenas confiança. O seu silêncio persistente não inclui lamentações, mas sempre gestos concretos de confiança”

(Papa Francisco – Patris Corde) 

A única coisa que o Evangelho nos diz de José é que era um “homem justo”. Este adjetivo, de profundas raízes bíblicas, nos quer dizer que era reto, íntegro, autêntico, bom, etc..., tudo o que podemos encontrar de positivo em uma pessoa humana. O homem justo é aquele que, como Abraão, acolhe na fé o plano de Deus e com Ele colabora. José é “justo” porque adere ao misterioso desígnio de Deus, é justo porque se “ajusta” ao modo de agir de Deus, arrisca com Deus, embora os contornos do Seu Plano permaneçam obscuros e, em certos aspectos, incompreensíveis.

José se coloca, portanto, na linha das grandes figuras da história da salvação. Sua atitude é um exemplo de silenciosa dedicação ao Reino. É o homem de uma grande nobreza de coração que, no silêncio da fé, acolhe o mistério que não compreende. Ele também teve sua “anunciação”; também teve que dar seu “sim” a Deus no mistério do desconhecido.

O “justo” José viveu no dia-a-dia a fidelidade a Deus. Mateus repete três vezes que ele se levantou para fazer o que lhe fora revelado como Vontade de Deus. José soube acolher também, na obediência e no amor despojado, a missão que Deus lhe confiou.

José é o homem do silêncio; de fato, uma das coisas que mais chama a atenção é que ele não pronuncia palavra alguma em nenhum dos relatos evangélicos nos quais aparece. Diríamos que os relatos apresentam a figura de um homem silencioso. Sua existência está atravessada pelo silêncio. José é o homem que vive e atua no silêncio.

Mas entendamos bem. Este silêncio não se deve a que José fosse um homem de caráter introvertido, isolado, fechado sobre si. Pelo contrário, trata-se de um silêncio interior, intenso, grávido de conteúdo. Precisamente o que as cenas evangélicas mais destacam é que José escuta atentamente o que lhe é anunciado e ele responde instantaneamente, com gestos decididos. Poderíamos dizer que suas ações são suas palavras e suas palavras não pronunciadas se convertem em gestos eloquentes que manifestam a grandeza de sua alma.

Nos relatos de aparição de anjo, normalmente se dá um intercâmbio de palavras entre o mensageiro e a pessoa à qual é enviado. No caso de José, no entanto, nunca há diálogo. Nos três momentos em que o anjo do Senhor aparece a José dá-se o mesmo esquema: o anúncio da mensagem e a resposta decidida de José por meio da ação. José não pede explicações nem sinais confirmadores; obedece e pronto.

Quando recebe o anúncio de que Maria estava grávida por obra do Espírito Santo, imediatamente faz o que lhe havia dito o anjo do Senhor e toma consigo a sua mulher. No caso da fuga ao Egito, o anjo, além do mais, pede a José colocar-se a caminho: pede-lhe uma prontidão que o desenraiza de seu ambiente, que o desinstala de sua própria terra para viver no estrangeiro.

Quando o anjo lhe adverte da perseguição de Herodes, imediatamente se levanta, toma o menino e a sua mãe durante a noite e se retira ao Egito. O mesmo acontece quando o anjo do Senhor lhe diz que pode voltar a Israel porque tinham morrido aqueles que buscavam tirar a vida do menino.

Os textos destacam a atitude de disponibilidade obediente e prontidão confiada de José.

Seu silêncio não tem nada de ingênuo, não é o silencio daquele que nada sabe ou não quer complicar sua vida. José está, sim, ciente de que sua esposa está grávida; está ciente que o menino está em perigo e, por isso, o leva ao Egito; está ciente de que seu filho se perdeu e, por isso, busca-o. E como está ciente, tem medo. Não um medo que o paralisa, mas um medo inquietante, que o impulsiona a buscar soluções respeitosas para com sua esposa e lhe move a tomar decisões valentes, como a de emigrar em busca de um lugar onde refugiar-se. José se arrisca como resultado de uma reflexão, feita possível graças a um silêncio que escuta, valoriza e discerne.

A figura silenciosa de José des-vela e denuncia o “palavreado crônico” que nos esvazia. Ele nos mobiliza a viver o silêncio atento e que escuta. Quando calamos e fazemos silêncio começamos a escutar a nós mesmos e a Deus, que fala silenciosamente “em sonhos”.

Há uma diversidade de silêncios. Existe o silêncio dos mortos ou o silêncio daquele que não tem nada que dizer, porque sua vida está vazia. Existe o silêncio cheio de tristeza do desamparado, que sofre, chora e perdeu toda esperança. Existe o silêncio tenso que se estabelece quando duas pessoas que não se amam se

veem obrigadas a estar em um mesmo lugar. Existe o silêncio respeitoso diante de um enfermo ou diante de uma tragédia; existe o silêncio cheio de amor que brilha no olhar daqueles que se amam. E existe o silêncio daquele que escuta atentamente o que o(a) amado(a) tem a lhe dizer.

Sem dúvida, este último silêncio é o que melhor caracteriza a José de Nazaré. Os Evangelhos o apresentam como um homem sempre pronto a escutar a voz de Deus que fala através dos acontecimentos de sua vida e da vida daqueles que foram confiados aos seus cuidados.

 

Carecemos do silêncio transformador neste nosso mundo. O ruído inunda as ruas, os lugares de trabalho, as casas e até os corações. O ruído atordoa, tem efeito devastador, provoca a revolta, agressividade e um estado de ânimo convulsionado. Com o barulho, o espírito humano se acomoda, se anestesia, se dopa. O funcionamento normal do cérebro fica debilitado. A pessoa não sente, não pensa, não tem serenidade para decidir. Todas as expressões de vida se atrofiam. A criatividade seca, os sonhos desaparecem e o ser humano torna-se incapaz de escutar a música harmoniosa de toda a Criação...

Num contexto de ruídos atrevidos, tanto na cidade como em nossos lugares de “repouso”, torna-se mais do que necessário uma “cultura do silêncio”, que permita re-descobrir o nosso próprio interior, escutar a voz dos anjos indicando os melhores caminhos a serem trilhados.

Tony de Mello nos diz: “O silêncio não é ausência de som, mas ausência de Ego”.

A carência do silêncio em nossa vida nos faz seres superficiais. Com efeito, a cultura pós-moderna decretou o fim do silêncio: vivemos imersos nos mais diferentes ruídos. E o silêncio, por sua vez, está se vingando de nós, criando vazio, superficialidade, palavras sem sentido, já não sabemos quem somos, para onde andamos e o que queremos...

É indispensável “fazer silêncio” para entrar em contato com a realidade, sobretudo para abrir espaço ao Outro dentro de nós, para acolhê-Lo, para ouví-Lo e entrar em sintonia com sua Vontade.

Nos murmúrios interiores do coração ali encontramos os sinais da presença viva de Deus.

Textos bíblicos para oração:  Mt 1,18-24; Mt 6,5-15; 1Rs 19, 9-15

Na oração: “Quando o silêncio fala, a vida se transforma”. A oração é o lugar para o silêncio como lugar de encontro.

- No percurso de sua vida, você tem reservado momentos de silêncio e preparar-se para acolher Aquele que, no silêncio pleno, vem fazer morada em seu interior.

2021: Ano de São José

Com a Carta Apostólica "Patris Corde" o Papa Francisco decretou 2021 como o "Ano de São José", comemorando os 150 anos da proclamação de São José como patrono da Igreja.


O Pe. Adroaldo Palaoro, sj orientou um retiro inspirado na pessoa e missão de São José. Para esse retiro, elaborou alguns textos para oração que disponibilizou para usarmos como subsídio neste ano de graça.

A sequência dos textos é a que segue:
  1. O silêncio do homem justo
  2. As surpresas mobilizadoras de Deus
  3. José de Nazaré sombra do Pai celeste na terra
  4. José de Nazaré pai na acolhida
  5. José de Nazaré homem de ternura e do cuidado
  6. José o Santo do cotidiano inspirador
  7. José na oficina de Nazaré
  8. José o homem do discernimento
Apresentaremos esses textos na sequência, começando pelo texto "O silêncio do homem justo"

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Amor que Vive “Fora de Si”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana), como sugestão para rezar o Evangelho do 6º  Domingo da Páscoa (Ano B) 2021.

“Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos” (Jo 15,13)

 

O evangelista João recolhe um longo discurso de despedida de Jesus, onde são apresentados, com uma intensidade especial, alguns traços fundamentais que seus seguidores hão de recordar e viver ao longo dos tempos, para serem fiéis à Sua pessoa e a Seu projeto.

Jesus não apresenta aos seus discípulos uma “constituição” com seus capítulos e artigos, nem algumas “regras”, e menos ainda alguns “estatutos”. Só diz assim: “este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei”. O mandamento que Ele vive, também deseja que seja vivido por seus seguidores e seguidoras. Nada mais. Aprender do Mestre e praticar, como Ele, a arte de amar!

Em qualquer época e situação, o decisivo para o cristianismo é não se afastar do amor fraterno.

Nesse sentido, o mandamento do amor não é lei que se impõe de fora para dentro; ele “emana” do interior de cada um, pois todo ser humano traz em si a marca do Criador, que é puro Amor. Por isso, manifestar plenamente esse amor que é Deus, nas relações com os outros, é a expressão da verdadeira identidade cristã.

Há uma diferença que é preciso aclarar. Deus não é um ser que ama: Ele é o amor, ou, em melhor tradução, “Deus consiste em estar amando”.

N’Ele, o Amor é sua essência, não uma qualidade como em nós: podemos amar ou deixar de amar. Se Deus deixasse de amar um só instante, deixaria de ser Deus. Ele manifesta seu amor a Jesus como manifesta a cada um de nós. Mas não faz isso como nós. Não podemos esperar de Deus “mostras pontuais de amor”, porque não pode deixar de demonstrar isso um só instante.

O Amor de Deus é o primeiro; Ele não nos ama como resposta ao que somos ou fazemos, mas por aquilo que Ele é. Deus ama a todos da mesma maneira, porque não pode amar mais a um que a outro.

Este é o manifesto supremo do amor cristão. Não somos servos de Deus, pois Ele não se impõe de cima para que lhe obedeçamos, mas nos chama e nos faz seus “amigos”.

Também não somos empregados de Deus, para triunfo e glória de sua empresa, pois não temos na vida outra tarefa nem outra finalidade que ser amigos.

Somos simplesmente amigos de Deus em Jesus, como diz o evangelho de João, o testamento do amado.

Amar é simplesmente “deixar-se amar”, como as mulheres da páscoa, como o discípulo amado, como todos os que amaram a Jesus e se deixaram amar por Ele e com Ele, sem outro exercício que o continuar amando.

Por isso, a mensagem mais profunda do evangelho de João vem expressar-se no amor fraterno, vivido na forma de amizade. Não é simplesmente amor ao inimigo, nem é tampouco amor esponsal. É amor de irmãos que se tornam amigos. Neste manifesto de amizade culmina o evangelho, entendido, por fim, como “escola de amor”..., porque só quem ama e é amado pode assumir em presteza a tarefa da vida, cumprindo assim o “mandamento do amor”; “amor ágape”, gratuito, oblativo, impulso que faz “sair de si mesmo”.

Esta revelação do amor fraterno/amistoso é o dom supremo de Jesus à sua nova comunidade; a identidade dela não está na organização burocrática, na doutrina, nos ritos... mas em deixar-se conduzir pelo “movimento de amor”. Toda comunidade que descobre esse amor sabe que não necessita autoridades externas, hierarquias sacrais, obediências cegas...

Aqui não há mais imposição de uns sobre outros, mas comunhão de amigos. Essa mesma comunhão é a autoridade, a presença do Espírito Santo. As mediações ministeriais são, portanto, secundárias. Podem mudar as formas de organização eclesial, as ações concretas da comunidade; mas permanece a verdade como liberdade, e a autoridade como amor mútuo que vincula os(as) seguidores(as) de Jesus.

Sem amor não é possível dar passos para um cristianismo mais aberto, cordial, alegre, simples e amável, onde possamos viver como “amigos” de Jesus. Não saberemos como ativar a alegria de viver; sem a dinâmica do seguimento amoroso, continuaremos cultivando uma religião triste, centrada no legalismo, no ritualismo estéril que alimenta culpas, ressentimentos, medos e um mal-estar constante.

Jesus não veio complicar a vida com uma sobrecarga de normas, leis, ritos, doutrinas...; veio recuperar o essencial: basta amar. Diz S. João da Cruz: “na tarde da vida seremos examinados no amor”.

A vivência radical do amor, que está disposto a perder tudo por aqueles que ama, é o que em definitiva ajuda a ativar a alegria, a fazê-la crescer e compartilhá-la sem recompensa alguma. Jesus fala aos discípulos dessa alegria precisamente quando sua vida se precipita em direção à entrega na paixão, não por um desencanto da vida, mas por amor apaixonado à existência que o Deus da vida nos presenteia. Só a paixão do amor faz coexistir, em um mesmo fogo que os funde em uma união indissolúvel, a dor e a alegria, o amor à vida e o risco de perdê-la, o amor aos amigos e a coragem de deixá-los, as perseguições dos inimigos e a audácia para morrer por eles.

Ser testemunhas e profetas da alegria constitui a essência dos seguidores e seguidoras de Jesus.

E “para viver a alegria, exercitar-se na alegria”. É preciso nos converter à alegria de Deus que é autêntica paixão pelo ser humano; é preciso contagiar a alegria do Evangelho; é preciso afastar obstáculos que travam a alegria de viver; é preciso remover a pedra de nossos sepulcros e viver como ressuscitados.

Como profetas da alegria, longe de fugir dos conflitos da vida, nós os enfrentamos e os integramos com sentido. Não temos mais fronteiras, não excluímos gênero, classe social, cor, língua, religião, não descartamos o aparentemente inútil. Por isso, nossa vida e nossa palavra querem ser anúncio e compromisso de concórdia e comunhão nos conflitos, unindo pontos, integrando diferenças, curando feridas. Devemos reforçar o testemunho de comunhão na diversidade para mostrar que é possível superar o medo às diferenças. Nossa vida alegre desmonta a hipocrisia, as ambições, a vaidade, o escândalo...

 

A presença do Ressuscitado deu à alegria um caráter existencial e não a faz depender nem do esforço pessoal nem de posse alguma de um bem temporal, mas do sentido global da pessoa.

Quem vive a partir da alegria, vive a partir do essencial e sabe discernir o autêntico das aparências e o útil do supérfluo. A alegria mantém alta a utopia e não se cansa em sua irradiação. Seguimos o conselho agostiniano: “A felicidade consiste em tomar com alegria o que a vida nos dá, e deixar com a mesma alegria o que ela nos tira”.

Quem é transparente e coerente transmite alegria em seu falar e em seu agir. Ser alegre não significa ser impassível, insensível diante da injustiça e da violência, diante da pobreza e da exclusão. As virtudes que acompanham a alegria fazem com que a pessoa alegre seja também compassiva e misericordiosa e trabalhe pela paz e pela justiça.

O profeta da alegria anuncia sempre mensagem de salvação, exercita a compaixão, suscita a esperança, se envolve na promoção da paz, da justiça, da solidariedade, da fraternidade...

Texto bíblico:  Jo 15,9-17

Na oração:

Entre em sintonia, “ajuste-se” ao modo de amar de Deus: amor descendente, amor sem fronteiras, oblativo, expansivo... e que se “revela mais em obras do que em palavras” (S. Inácio).

- Sinta-se envolvido(a) pelo Amor transbordante de Deus e, ao mesmo tempo, entre no fluxo desse Amor criativo, “descendo” à realidade cotidiana e ali deixando transparecer esse mesmo Amor, através dos encontros e do diálogo com os outros, sobretudo com aqueles que pensam, sentem e amam de maneira diferente.