quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Deixar o Advento desvelar nosso “eu verdadeiro”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana), como sugestão para rezar o Evangelho do 3º  Domingo do Tempo do Advento (Ano B).

“Quem és, afinal? Temos que levar uma resposta para aqueles que nos enviaram. O que dizes de ti mesmo? (Jo 1,22)

 

Vivemos um tempo de múltiplas imagens e estímulos, de novas versões e mudanças radicais, de diversidade de comunidades, religiões e línguas, de quebras de paradigmas em todos os campos da humanidade, de profundas transformações sociais, de rompimento de fronteiras... Este contexto de pluralidade faz com que todos se perguntem sobre sua identidade: “quem sou eu? quem somos nós?”

O ser humano está sempre em busca de sua identidade; não lhe basta existir, ele quer saber quem é, para se compreender e encontrar o sentido de sua própria existência.

Como cristãos que somos, não estamos protegidos dos ventos do momento em que vivemos; quem não se define, morre. Por isso, somos desafiados a falar de nossa identidade e adentrar-nos nas profundezas da nossa vida, para apresentar, num contexto global e totalmente mudado, qual é o nosso “rosto” hoje.

Frente às nossas falsas imagens e mentiras, frente às mascaras que nos escondem, frente às convenções sem alma, frente aos silêncios cúmplices, frente à impossível busca da perfeição, frente à negação das nossas próprias capacidades..., o tempo do Advento nos inspira a despojar-nos de capas ridículas que nos cobrem, para deixar aflorar nossa verdade desnuda, nosso “eu original”. É preciso atrever-nos a ser nós mesmos, a partir do mais interior e nobre. Há um grito que se eleva das profundezas existenciais: Viva!

O evangelho deste domingo quer ser um convite a “desvelar nossa identidade”, descobrindo o que é mais original em nós, lançando-nos a superar aquilo que talvez nos impeça manifestar o que somos e expressar aos outros a riqueza que trazemos dentro de nós...

Sabemos que o ser humano age de acordo com a visão que tem de si mesmo. A percepção íntima da própria identidade é o supremo motivo e explicação das opções e mudanças importantes na vida pessoal.

João Batista tem consciência de sua identidade profunda e por isso proclama: “eu sou a voz que grita no deserto”. Ao mesmo tempo, deixa transparecer uma íntima sintonia entre sua identidade e sua missão; ou melhor, sua identidade se visibiliza na missão de “aplainar o caminho do Senhor”.

Minha identidade determina o meu comportamento. “O que eu sou determina o que eu faço”. O “quem sou eu?” é a base do “que faço eu?”  Todo ser age de acordo com sua própria auto-imagem.

O agir se segue ao ser. Assim, conhecendo a mim mesmo acabo conhecendo o segredo de minhas ações e, fazendo emergir o que é mais nobre em mim, posso dirigir o curso dos meus atos, tornando-os mais oblativos e des-centrados.

“Eu sou as minhas ações”, porque o que “eu sou” é o que positiva e visivelmente aparece em minhas ações. Quanto mais sou eu mesmo mais amplo é o alcance de minhas atitudes e mais transcendente o sentido de minhas opções.

Portanto, da identidade, assumida e vivida, é que brota a missão.

A identidade faz parte da missão, está em função dela, a inspira, a anima e é por ela configurada.

Com isso fica claro que a Identidade e Missão são inseparáveis, assim como a unidade insuperável entre ser e agir. Não é suficiente continuar adiante com a missão se não o fazemos como João Batista: abrasado com o amor de Deus, deixa transparecer sua verdadeira identidade na missão de ser o “precursor” do Messias.

Ter uma missão sem uma identidade que a inspire é cair no ativismo, na tarefismo, na ação insensata, ou seja, sem sentido, sem motivação e sem horizonte (para quê? para quem?).

Por outro lado, uma identidade que não se expressa na missão é vazia, é carente de humanidade e se fecha num intimismo alienante. Portanto, a identidade já é missão e a missão é revelação da identidade.

A identidade nos dá um rosto, centra-se tanto no ser como no fazer.

Toda pessoa é um mistério para si mesma e para os outros. E quanto mais rica for sua vida, mais profundo o mistério. Mas é no coração que está a fonte, a origem e o mistério do ser humano.

O coração é a expressão da pessoa em sua interioridade e totalidade.

É no coração que se origina a necessidade de comunicação, de relacionamento e de comunhão.

É preciso ter a coragem de mergulhar até o mais profundo de si mesmo, em busca dessa luz infinita que emerge de dentro, quando se tira tudo o que é máscara e revestimento. O “eu original” é livre, criativo, transparente, iluminado... Ele escolhe os melhores caminhos que levam à plena realização de si e à transcendência.

Se a maneira pela qual nos conhecemos determina a maneira pela qual nos comportamos, quanto mais nós nos conhecemos e a tudo o que existe dentro de nós, melhor poderemos orientar nossa vida e dirigir conscientemente nossas opções.

Somos ainda, em grande parte, uma “terra desconhecida” para nós mesmos, e a viagem de descoberta é como a viagem imaginária a uma nova terra, estranha e bela, que desperta assombro frente aos seus encantos e à novidade de suas mil maravilhas. Perceberemos, depois, com surpresa e alegria, que a bela terra nova a que chegamos sem saber é nosso próprio país natal esquecido, subestimado e abandonado. A redescoberta de nós mesmos é a maior e sem dúvida a mais gratificante aventura de nossa vida.

Redescobrindo a nós mesmos, vamos encontrar o nosso lugar na história. Quanto melhor conhecemos o nosso verdadeiro ser, melhor será o valor de nossa vida para os outros.

De onde minha identidade ganha seus contornos originais? No mistério da alteridade, no encontro com o outro que me provoca a ser. A alteridade está no centro da construção da identidade, porque esta não se acha totalmente dada (como a existência), mas está para ser construída.

A identidade de João Batista é realçada pela alteridade do Messias que “está no meio de vós...; e eu não mereço desamarrar a correia de suas sandálias”.

A alteridade é fator constitutivo da identidade. O outro não é o inimigo, o intruso, mas facilitador de minha identidade. O outro é exatamente aquele que, justo por sua alteridade, chama-me, convoca-me e assim me faz sair do enclausuramento em mim mesmo. Aqui se revela o dinamismo mobilizador presente no próprio nome

Cada um de nós tem um nome, que é próprio, não comum. É de uma pessoa. Ele expressa o nosso ser, indica uma missão a realizar, uma vocação, um apelo a responder.. Somos chamados. É isso que significa ter um nome. É preciso crescer na consciência de que o próprio nome tem uma história e manifesta uma identidade única, irrepetível, original. O nome próprio está relacionado com nossa realidade pessoal, responsável, criativa e livre.

Na Bíblia, o nome é algo dinâmico, é um programa. A troca de nome implica uma missão que deve ser realizada pela pessoa (Gn 17,5; Jo 1,42).

Um nome novo: uma aventura que começa; uma história a ser construída. Nosso nome secreto Deus o conhece. Ter recebido um nome de Deus significa tomar um lugar na história, uma missão a cumprir.


Texto bíblico:   Jo 1,6-8.19.28

Na oração:  

Diante da presença de Deus, procure estar aberto ao contato com a própria realidade interior, para que venha à superfície aquilo que o sustenta e dignifica o seu viver.

- Dirija seu olhar para o que é mais íntimo em você, onde nascem sentimentos e valores, desejos e atitudes... onde você é convidado a se alegrar com os rastros da Graça. 

- Qual é a verdade original presente no seu nome?

- Quê você acredita ser o mais autêntico em sua maneira de ser e viver?

Caminho aberto a outros caminhos

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana), como sugestão para rezar o Evangelho do 2º  Domingo do Tempo do Advento (Ano B).


“Começo da boa notícia de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1)

Ao longo deste novo ano litúrgico, nós cristãos seremos inspirados pelo evangelista Marcos a viver, de modo sempre criativo e novo, o seguimento de Jesus. Seu Evangelho dá a arrancada inicial com este título: “Começo da boa notícia de Jesus...” Estas palavras nos permitem vislumbrar o que encontraremos em todo o relato de Marcos. O “começo” é um título que abrange e orienta tudo: o livro inteiro de Marcos deve ser ouvido como “boa notícia” sobre Jesus Cristo; boa notícia que desconcerta, que alimenta esperança e que abre um novo sentido para a nossa existência.

Com Jesus “começa algo novo”. É a primeira coisa que Marcos quer deixar clara. Todo o anterior pertence ao passado. Jesus é o começo de um caminho novo e de um tempo inconfundível. No relato, Jesus dirá que “o tempo se cumpriu”. Com Ele chega a boa notícia de Deus.

Isto é o que experimentaram os primeiros cristãos. Quem se encontra vitalmente com Jesus e mergulha um pouco em Seu mistério sabe que começa uma vida nova, algo que nunca havia experimentado anteriormente. Uma sensação de libertação, alegria, segurança e desaparecimento dos medos. Em Jesus, ele se encontra com “a salvação de Deus”.

Causa-nos assombro este início tão solene do evangelho de Marcos, que formula um apelo concreto, como se fosse a condição única para continuar com a leitura: “preparai o caminho do Senhor, aplainai suas veredas”. Esta Palavra, sempre oportuna, nos é presenteada neste tempo de Advento e nos recorda que, para acolher o Senhor, é preciso sair dos lugares estreitos, das posições fechadas, das ideias fixas..., e “fazer estrada” com o Deus Peregrino. Aqui está a verdadeira identidade dos seguidores de Jesus: os “adeptos do caminho” At 9,2 – assim eram conhecidos os primeiros cristãos.

O(a) seguidor(a) de Jesus é aquele(a) que descobre que não pode deixar de caminhar. Seguro(a) daquilo que lhe falta, percebe que cada lugar por onde passa é ainda provisório e que a demanda continua. E esse impulso interior, que é o seu desejo, o(a) faz ir além, atravessar fronteiras e “perder” seus lugares que davam a sensação de segurança. “O místico não habita em parte alguma, ele é habitado” (Michel de Certeau).

“Fazer caminho” não significa apenas deslocamento geográfico. As travessias nunca são apenas exteriores. Não é simplesmente na cartografia do mundo que o ser humano anda. Isso significa não perceber a profundeza do seu ser; “deslocar-se”, querendo ou não, implica uma mudança de posição, uma expansão do próprio olhar, uma abertura ao novo, uma alteração do ângulo habitual, uma adaptação a realidades, tempos e linguagens, um encontro com o diferente, um diálogo tenso ou deslumbrado, que deixa necessariamente impressões muito profundas.

A experiência do caminho é a experiência de fronteira e do espaço aberto que o ser humano precisa para ser ele próprio. Nesse sentido, a viagem é uma etapa fundamental da descoberta e da construção de si mesmo e do mundo. É a sua “alma” que perambula, descobre cada detalhe do mundo e olha tudo de novo como da primeira vez. A travessia é uma espécie de propulsor desse olhar novo e contemplativo. Por isso, é capaz de introduzir na sua vida e nos seus planos, na sua organização, elementos sempre inéditos que podem facilitar aquela transformação radical que, em vocabulário cristão, chamamos “conversão”.

A conversão supõe movimento e implica itinerância, capacidade para sair do espaço conhecido e atrever-se a pisar onde ainda não há confirmação de solo seguro. Conversão e movimento, porque o imperativo está no plural - “preparai!” -,  convidando-nos a encontrar com outros para realizar a missão à qual somos enviados; assim, nos convertemos em rastreadores da melhor senda, aquela que possibilita o cruzamento com outros caminhos, o encontro e o diálogo.

 

Estamos decididos a percorrer os caminhos novos que a novidade de Deus nos apresenta?

Ou nos entrincheiramos em estruturas caducas que perderam a capacidade de resposta?

Caminhar é sair do centro, das seguranças, da acomodação... e ir em busca das surpresas, das novas descobertas; implica arriscar, ter ousadia, não ter medo de fazer a travessia para o outro lado. Somos passageiros, um Caminho aberto à vida de Deus que permanece, caminho que anuncia e prepara a Vida. Por isso precisamos, mais do que nunca, da figura do profeta; autênticos profetas que, sem medo e partindo de sua experiência de Deus, nos ajudem a encontrar o verdadeiro caminho; pessoas que por sua dedicação e experiência pessoal possam lançar alguma luz nesse emaranhado de caminhos que se entrecruzam e que a imensa maioria são sendas perdidas que não levam a lugar nenhum.

A humanidade deveria ser caminho de vida, jamais caminho de morte.

Caminhantes somos, todos no mesmo percurso, no mesmo vôo, no mesmo barco.

Mas temos esquecido nossa condição de nômades do tempo e da vida, peregrinos de Deus, pensando que podemos construir, com a ajuda do mesmo Deus, uma casa permanente sobre o mundo, um “tabernáculo” perpétuo onde repousar, seja na forma “sacral” (nossas seguranças religiosas), seja na forma secular (nossos sistemas econômicos-sociais). Mas, as condições dos tempos e, de um modo especial, a experiência mesma do evangelho, nos fizeram descobrir que somos nômades do tempo e peregrinos de Deus, para além de todas as formas e estruturas que fomos criando ao longo da história.

Ser nômade do tempo significa caminhar (voar, navegar), leves de equipagem e por itinerários que ainda não foram percorridos por ninguém, não como aves migratórias que vão e voltam por rotas pré-fixadas na mesma evolução do tempo, pelas estações e pelos ventos da terra. Somente nós, seres humanos, somos verdadeiros nômades da criação, pois para continuar existindo precisamos abrir, por terra, mar e ar (ou seja, por nós mesmos, no interior de nossa humanidade), os caminhos que ainda não existem, pois nós mesmos os traçamos.

Caminhantes somos, e assim o tempo do Advento nos leva para fora dos pequenos lugares de refúgio que fomos edificando (nossas torres de Babel) para amar, viver e morrer no descampado, como Jesus, enquanto buscamos e esperamos a cidade futura. Assim, caminhamos com Ele, sabendo que nem o olho viu e nem o ouvido ouviu o que poderemos olhar e escutar se continuamos caminhando com Jesus.

Neste Advento, não somos simples espectadores, mas, sim, criadores de futuro, ou seja, de nós mesmos, em Deus. Unidos por uma esperança compartilhada, queremos ser pessoas de Advento, sabendo que nossa história não está escrita nem fixada ainda, mas que nós mesmos vamos traçando-a, enquanto Deus percorre seu caminho em nós e por nós. Como cristãos cremos que nossa vida não está escrita, mas que precisamos escrevê-la, nós em Deus e com Deus. Por isso “somos advento”; vivemos em “estado de advento”.

Texto bíblico: Mc 1,1-8

Na oração:

- Orar é entrar na Tenda do Senhor, que é o próprio coração: peregrinação interior, mobilidade...

- Deus “passa” e nos coloca em movimento; a oração é “fazer estrada com Deus”, caminhar na mesma direção, entrar no ritmo d’Ele, deixando-nos “ser conduzidos”.

- Para onde você sente que Deus vai lhe conduzindo? Há alguma coisa que o aprisiona? 

- Recordar medos, entraves, obstáculos... que limitam sua vida interior, impedindo-o(a) fazer-se peregrino(a)

- Quê eventos inesperados no caminho transformaram sua vida? O quê realmente causou impacto? Era algo planejado? Em quê aspectos da vida você pode “sair” dos terrenos conhecidos? Você já se arriscou alguma vez?

ADVENTO: “sentir o tempo”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana), como sugestão para rezar o Evangelho do 1º  Domingo do Tempo do Advento (Ano B).

“Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento” (Mc 13,33) 

Com o Advento, iniciamos mais um novo “tempo litúrgico”. Qual o sentido dos tempos litúrgicos?

Podemos representá-los graficamente, visualizando um círculo onde começamos com o Advento, percorremos os “tempos” da vida de Jesus, com suas celebrações mais importantes, e o “tempo comum”, que culmina com a festa de Cristo Rei.

Acaso não é assim o grande círculo da vida? Tempos para gestar a vida, para trazê-la à luz, para alimentá-la e cuidá-la, “tempos comuns” para descobrir a inspiração do viver cotidiano, buscando o sentido de tudo o que fazemos e o que acontece ao nosso redor; às vezes, estes tempos são áridos e cinzentos, outras vezes, iluminantes e coloridos; tempos com a marca da solidão e da perda e tempos de primavera em que a vida brota de novo... Podemos dizer que nós, como num espelho, nos vemos no tempo litúrgico, para compreender e inspirar nossa vida a partir de “Jesus” e da “comunidade cristã”.

Vivemos hoje tempos conturbados, tensos...; partilhamos um momento de grande inquietação social, de aridez espiritual, de drama sanitário, de distúrbios existenciais, de profundos dilemas morais...

No entanto, resistimos! Em meio às sombras, perplexidades, contradições, provocações e promessas, que constituem o atual momento histórico, queremos expressar a fé no futuro da nossa vida.

Ainda que soframos ventos contrários e as nuvens se adensem no horizonte, sabemos e confessamos com o profeta Jeremias, e pela graça do Espírito, que “há esperança de um futuro” (31,17).

Para cada momento histórico sempre foi válido o alerta de Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso”.

A liturgia deste primeiro domingo de Advento se atreve a proclamar de novo sua esperança, como uma grande trombeta, que não chama para a morte, mas para a vida.

A esperança é um princípio vital, expresso na sábia constatação de que “enquanto há vida, há esperança”. Mesmo diante de desafios quase intransponíveis, consideramos possível ser de outro modo, inventamos e reinventamos opções, criamos novas saídas... e, sem cessar, sonhamos com o “mais” e o “melhor”. A esperança cristã destrói os “germes de resignação” da sociedade moderna e combate a “atrofia espiritual” dos satisfeitos. Por isso, a esperança cristã tem os pés plantados no “hoje” da nossa história, inspirando o esforço de transformação deste mundo marcado por muitos sinais de morte.

É ela que introduz na sociedade a sede de justiça e o compromisso de humanização.

Aquele que vive com esperança se sente impulsionado a fazer o que espera.

Nesse sentido, o futuro esperado se converte em projeto de ação e compromisso.

Ao adentrarmos, mais uma vez, no tempo do Advento, sentimos ressoar, no mais íntimo, a voz do Mestre da Galileia, que nos convida a estar vigilantes e atentos, a viver despertos...

E temos muitas frentes abertas: superar o medo que nos paralisa, renovar a esperança no sentido da vida, avançar com a comunidade para uma nova Igreja em saída, ser as mãos de Jesus no mundo para curar, consolar, repartir o pão... Tempo para despertar e cuidar da “casa” que foi confiada à nossa responsabilidade.

A “vigilância”, de que fala o evangelho, é o outro nome para a atitude de “atenção”.

Para Simone Weil “a atenção é uma prece”, pois ela nos mobiliza para uma aliança com o “hoje” da vida; se não formos prudentes e generosos para manter os olhos bem abertos sobre o presente, perderemos a possibilidade do encontro com o surpreendente. Viver tem a marca da simplicidade, que precisamos redescobrir, despojando-nos de todas as cataratas existenciais que bloqueiam a visão, para deixar-nos conduzir pelo fluir contemplativo. Estamos muitas vezes alienados da vida, separados dela por uma muralha de discursos, de ideias vazias, de esperanças confusas...  Com o olhar contemplativo, podemos perfurar esse muro e deixar-nos impactar pelo novo que se revela do outro lado.

Somos seres “desejantes”. O instigante tempo do Advento ativa em nós os desejos mais nobres e oblativos, nos fazem ultrapassar a barreira do imediato e entrar no movimento que nos impulsiona a ir além, a entrar em sintonia com Aquele que vem e, ao mesmo tempo, já está presente. Desejar o encontro com “Aquele que vem” nos sensibiliza a perceber presente “Aquele que é”.

Por isso, o evangelho de hoje nos apresenta uma imagem sugestiva, que reúne no desejo duas atitudes importantes: o tempo da espera e o permanecer em vigília, ambas vivido no “estar despertos”.

A espera e a vigília da vinda plena do Senhor não nos afastam da realidade presente. Pelo contrário, faz-nos encarnar mais lucidamente nela.

Nesse novo tempo litúrgico, a comunidade cristã permanece à escuta dos passos de Deus, em nosso mundo, em nossa vida. Porque o novo, não vem de fora, mas o sentimos e o tocamos por dentro.

Aquele que espera o encontro com o Senhor começa a ler a história como história redentora; descobre os momentos de inovação; é capaz de ver as libertações sendo gestadas no silêncio; conecta com as promessas ainda abertas e pendentes: a nova aliança, o novo povo, o novo êxodo, o Messias...

A atitude de vigília nos faz descobrir os sinais da chegada do Reino no tempo: não nos contentamos com o tempo vazio, “normótico” e sempre igual a si mesmo; descobrimos o tempo de salvação no qual há revelação e realização do novo, da justiça e da graça.

Os “esperantes” cristãos precisam aprender a “ressignificar” o tempo, pois o tempo de Deus e do Reino é o tempo da decisão em favor da vida (kairós). O reino tem seu tempo e seu ritmo. Não é questão de pressas, não é questão de datas e lugares, não é questão de cálculos. Tentar acelerar sua vinda seria como esticar o talo da planta para que cresça mais rápido. O importante é ter a paciência de quem sabe que a semente do Reino está semeada em nossa história e ninguém poderá deter seu desenvolvimento.

Nesta tremenda e instigante história, da qual fazemos parte, precisamos nos situar bem. Não só com a cabeça, pois aí já temos as coisas mais ou menos claras, mas com nossa sensibilidade, com compaixão, com nossos modos de falar e de olhar, com aquilo que deixamos que toque e afete às nossas vidas. Trata-se da sabedoria de “sentir o tempo”.

Diante do tempo dramático que vivemos, nossa tentação é querer saltá-lo, fugindo de suas exigências.

Advento vem ser, então, um tempo para voltarmos para o interior em meio à agitação, olhar para dentro e deixar-nos perguntar: presto atenção à história que todos vivemos, às suas dores e à sua beleza? Reconheço seus poderes (augustos, herodes, quirinos) e a vida vulnerável de Deus iluminando-se nela, apesar de tudo?

Somos iniciados a “sentir o tempo” de um modo novo, a fazer-nos amigos dele, a nomear e acompanhar o tempo que nos toca viver, a habitar com intensidade todas as etapas de nossa existência. Cada momento esconde sua pérola, e é muito emocionante poder chegar a descobri-la. Precisamos recuperar a força do “hoje” de Deus fazendo “memória” dos grandes personagens do passado:  Isaías, Jeremias, Elias, João Batista, Isabel, Maria de Nazaré, José... Eles continuam falando, continuam desvelando sinais de vida plena na história presente. Só uma sensibilidade marcada pelo tempo do Advento é capaz de entrar em sintonia com as surpre-sas de Deus; e a história é o rumor dos Seus passos.


Texto bíblico:  Mc 13,33-37

Na oração:

Caminhamos para Deus quanto mais nos adentramos no profundo de nós mesmos e da realidade. O maior enraizamento no tempo que nos toca viver desperta maior sensibilidade para sermos surpreendidos pelo novo que brota nos lugares menos esperados; é precisamente ali onde a vida renasce e amadurece.

- Como você se situa diante deste “tempo pandêmico”? Desespero? Medo? Desejo de saltá-lo?...

- Qual é o “novo” que você vislumbra no meio deste tempo? Você percebe algum sentido nele? Para onde ele aponta? É revelador de algo diferente?...


CRISTO REI: o defensor dos últimos e excluídos

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana), como sugestão para rezar o Evangelho da  Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo


“Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes”- Mt 25,40

A festa de Cristo Rei culmina o ano litúrgico, e é hora de nos sentar para “julgar” (melhor, para “discernir”), o sentido e a marcha da nossa vida, a partir da consciência de humanidade que carregamos dentro de nós.

O evangelho deste domingo, de discernimento e salvação, é a parábola do “juízo final”, onde Jesus se revela plenamente identificado com todo ser humano, sobretudo com aqueles que são vítimas de estruturas de morte, violência e exclusão.

A parábola do “juízo universal” não pretende nos oferecer uma visão antecipada de um imaginado “final do mundo”, como alguns fundamentalistas nos querem fazer crer. Trata-se de uma parábola e, portanto, não cabe aqui uma leitura literalista; ela nos fala do nosso “modo de proceder”, aqui e agora, inspirado no modo de ser e de agir de Jesus. Em outros termos, os textos sobre o juízo final não pretendem transladar o leitor ao espetáculo do futuro. Foram escritos para despertar nossa responsabilidade no presente, para promover o melhor que há em nós e afastar tudo o que nos desumaniza.

Na parábola, fala-se de seis situações de necessidades básicas. Não são casos irreais. São situações que acontecem em todos os povos e em todos os tempos. Em toda parte, há famintos e sedentos, há imigrantes e desnudos, enfermos e encarcerados.

Em cada pessoa que sofre, Jesus vem ao nosso encontro, nos olha, nos interroga e nos inspira a prolongar a Sua atuação em favor dos excluídos. Nada nos aproxima mais d’Ele que aprender a olhar detidamente com compaixão o rosto dos que sofrem e ativar nossa sensibilidade solidária, que se visibiliza em ações concretas. Em nenhum outro lugar poderemos reconhecer com mais verdade o rosto de Jesus.

Portanto, o relato deste domingo fala muito mais do presente que do futuro; ele ajuda a nos examinar, ou seja, a situar-nos no horizonte da identificação com Jesus e sua relação com os mais pobres e excluídos. Trata-se de um exercício de discernimento, para verificar qual “espírito” está nos movendo e para onde nos impulsiona: “espírito” de compaixão, solidariedade, compromisso...? ou “espírito” de auto-centramento, de preconceito, de indiferença...? O exame aqui não é para alimentar um auto-controle obsessivo, ou auto-vigilância medrosa, nem auto-policiamento que atrofia. É preciso nos situar diante d’Aquele que é nossa referência última (Jesus Cristo) para ativar em nós uma sensibilidade que quebra toda distância e nos impulsiona a deslocar junto àqueles que são os “des-locados” do mundo, vítimas de estruturas sociais de morte.

Toda a cena do juízo final se concentra em um diálogo longo entre o juiz, o “Filho do Homem”, e dois grupos de pessoas: aqueles que aliviaram o sofrimento dos mais necessitados e aquele que, insensíveis, negaram-lhes ajuda.

Ao longo dos séculos, os cristãos viram neste diálogo fascinante “a melhor recapitulação do Evangelho”, “o elogio absoluto do amor solidário” ou “a advertência mais grave contra aqueles que vivem refugiados falsamente na religião”. O decisivo diante de Deus não são as “práticas religiosas” que alienam, mas os gestos humanos de ajuda aos necessitados. Tais ações podem brotar do coração de uma pessoa que crê em Deus ou do coração de um ateu que atua em favor daqueles que sofrem.

Aqueles que ajudaram os necessitados que foram encontrando em seu caminho não o fizeram por motivos religiosos. Não pensaram em Deus nem em Jesus Cristo. Simplesmente buscaram aliviar um pouco o sofrimento que há no mundo. Agora, convidados por Jesus, entram no Reino de Deus como “benditos do Pai”.

O critério decisivo, segundo Jesus, não passa pela religião, como talvez o leitor do evangelho esperaria encontrar, ou como o fizeram crer, muitas vezes, quando se dizia que a “pessoa religiosa se salvará”. Deste modo, a religião se convertia em salvo-conduto para a “vida eterna” e a pessoa “religiosa” costumava adotar uma postura auto-satisfeita e não isenta de um certo sentimento de superioridade.

No entanto, a mensagem de Jesus é completamente clara neste ponto: o critério de salvação não é religioso, mas ético; não tem a ver com crenças mentais, mas com entranhas compassivas. A religião verdadeira é aquela que é mediação para ajudar a viver hoje o que Jesus viveu no seu tempo. Afinal, somos seguidores(as) de uma Pessoa e não de uma religião, doutrina, rito...

Só quem tem um coração compassivo é capaz de viver a ajuda e o serviço a partir da gratuidade. Não faz isso para conseguir algo em troca, nem sequer apresenta uma motivação religiosa: “Senhor, quando foi que te vimos...?” De igual modo, aqueles que, a partir de uma opção religiosa esvaziada de compromisso, procuram querer agradar o Senhor, são repreendidos com dureza por não tê-Lo reconhecido na pessoa dos mais necessitados.

Para Jesus, uma humanidade constituída por nações, instituições ou pessoas comprometidas em alimentar aos famintos, vestir aos desnudos, acolher aos imigrantes, atender aos enfermos e visitar aos presos, é o melhor reflexo do coração de Deus e a melhor concretização de seu Reino.

Cada grupo se dirige para o lugar que eles mesmos escolheram. Uns reagiram com compaixão diante dos necessitados; outros viveram indiferentes diante de seus sofrimentos. O que vai decidir sua sorte não é sua religião nem sua piedade. Simplesmente, uns viveram movidos pela compaixão, outros não.

A parábola deste domingo, portanto, em um primeiro nível de leitura, contém uma mensagem revolucionária e subversiva para o mundo religioso: ela vem nos dizer que existe um caminho para nos encontrar com Deus que não passa pelo Templo. O verdadeiro “templo” é o outro, sobretudo os carentes e marginalizados. Esta é, sem dúvida, uma das maiores novidades de Jesus.

O “castigo” ou a “vida eterna” (plena) não é obra de um “deus exterior”, mas o resultado de uma determinada maneira de viver, fechada na ignorância de quem somos ou, pelo contrário, lúcida e desperta.

O “inferno” não é um lugar ao qual Deus nos condena, mas uma situação onde nós mesmos nos “fechamos”. É o que na Bíblia se chama “o endurecimento do coração”, que se opõe à bondade e se petrifica na maldade. Não é Deus que nos envia ao inferno, mas o endurecimento do coração que nos fecha e nos isola.

Precisamente por isto, para ler corretamente o texto do juízo final, é preciso começar por destruir a imagem de um Deus vingador que castiga com as penas do inferno. É fundamental salientar que, em Jesus Cristo, Deus se revela com um amor extremo, incondicional e sem medida.

Muitos textos dos evangelhos contradizem a representação de um Deus que sanciona com pensas eternas.

A justiça vingativa ou vindicativa, que se poderia qualificar também como punitiva ou repressiva, responde o mal com o mal; sanciona o mal com um mal equivalente; tal justiça acrescenta o mal ao mal.

Mas, esta justiça não é a de Deus; esta justiça aparece transformada pela justiça restauradora, pela graça de um amor incondicional, sempre oferecido, que abre um futuro sempre novo.

Esta é a lógica da justiça divina restauradora e re-criadora. Visto assim, o último juízo é, verdadeiramente, uma Boa Notícia para todos “os benditos do Pai” e “os herdeiros do Reino”.

 

Texto bíblico:  Mt 25, 31-46

Na oração:

A experiência cristã entende a compaixão como hábito do coração; por isso, ela deixa de ser “ocasional”  e passa a ser um “estilo de vida”,  fundado no modo de viver  de Jesus Cristo; significa deixar-se afetar pelo “mundo do sofrimento e da injustiça e não ficar indiferente”.

- Seu modo de viver o Seguimento de Jesus tem a marca da compaixão ou se restringe a “práticas religiosas tóxicas”, auto-centradas na mera observância de leis, ritos, doutrinas...?

- Rezar as “obras de misericórdia”, presentes no evangelho deste domingo.

TALENTOS: nosso “ser essencial”

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana), como sugestão para rezar o Evangelho do 33º  Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“A um deu cinco talentos, a outro dois, a outro um; a cada um de acordo com a sua capacidade” 

Neste 33º. Dom. do Tempo Comum, a liturgia nos propõe uma parábola não só complexa, mas difícil de incorporar à nossa habitual interpretação das parábolas dos evangelhos. A história relata um episódio que um homem rico, ao sair em viagem, reparte seus bens entre seus servos com a intenção de que os façam render para que, no seu retorno, possa ver incrementado seu patrimônio. No seu regresso, premia àqueles que tiveram êxito no negócio e castiga duramente aquele que, por medo, enterrou o dinheiro recebido e não gerou lucros para o seu patrão.

Geralmente, ao interpretar ingenuamente a parábola, consideramos que este homem rico está representando a Deus e que os servos representam as diferentes respostas diante dos “talentos” recebidos do mesmo Deus. No entanto, a partir desta compreensão, torna-se difícil entender como Jesus pode apresentar o Deus do Reino atuando de forma tão dura e sem misericórdia com quem não fez crescer o “talento”. O modo com que frequentemente resolvemos a dificuldade é responsabilizar o servo que enterrou seu “talento”. Consideramos que este servo agiu com negligência e covardia e, portanto, mereceu ser castigado.

Sempre corremos o risco de uma interpretação literal e moralista da parábola. Isso dá margem a alimentar uma falsa imagem de Deus. Mas, o Deus de Jesus não atua a partir do critério de prêmio e castigo. A atitude do senhor da parábola não pode ser exemplo do modo de agir de Deus. Jesus nunca acreditou nem nos apresentou a Deus como o senhor desta parábola, que funciona por interesses e rentabilidade. O Deus de Jesus, nosso Deus, é bondade, acolhida, compaixão e misericórdia. Tampouco o Deus de Jesus é um senhor duro e rancoroso, que recolhe onde não semeia, que arranca até o último centavo e que ameaça jogar o ser humano na “geena”, onde haverá choro e ranger de dentes.

Não, Jesus não quer que rendamos lucros para o patrão egoísta e austero, que causa pavor no terceiro servo da parábola. Deus não é austero nem egoísta. Deus é “dom” que se oferece, se compartilha... A presença de Deus nos inspira para que sejamos e ativemos a vida, pelo prazer de ser e de partilhar... E pelo prazer de partilhar com os outros o que temos recebido.

Por isso, a parábola dos talentos é muito mais um protesto contra uma estrutura social e religiosa centrada na cultura do prêmio/castigo, inclusão/exclusão, competente/incompetente...

Pensemos na parábola do filho pródigo, que é tratado pelo Pai de uma maneira completamente diferente. Tirar o pouco que tem daquele que tem menos para dá-lo ao que tem mais, tomado ao “pé da letra”, seria impróprio do Deus de Jesus. Através da parábola, Jesus denuncia o “deus da religião”, manipulado pelos encarregados do Templo (sacerdotes, escribas, fariseus...) para exercer o poder religioso sobre as consciências das pessoas e, assim, mantê-las sob seu controle.

Em “chave de interioridade”, alimentamos em nós a imagem de um “deus” que é fruto de nossas projeções, muitas vezes carregadas de feridas, traumas, medos, auto-exigências, busca da perfeição... Uns projetam a imagem do “deus do mérito”, que recompensa aqueles que se esforçam em “multiplicar talentos”; é a imagem do “deus” dos dois primeiros servos. Numa cultura na qual tudo se valoriza pelos resultados, é muito difícil compreender isto. Em um ambiente social onde ninguém se move a não ser por um pagamento, onde tudo o que é feito deve trazer algum benefício, é quase impossível compreender a gratuidade que o evangelho nos pede. Se buscamos prêmios é que não entendemos nada do evangelho.

Outros projetam a imagem do “deus do medo”, duro, intransigente, que cobra até o último centavo, que castiga... É o “deus” do terceiro servo.

Estas falsas imagens de Deus, no entanto, causam danos e afetam a vida em todas as suas dimensões (pessoal, familiar, social, espiritual). Por detrás destas imagens se encontram crenças religiosas às quais chamamos crenças tóxicas.

Estas crenças tóxicas podem gerar personalidades dependentes e submissas, neuróticas e ansiosas, medrosas e passivas, moralistas e perfeccionistas; ou talvez personalidades agressivas, dominantes, vingativas, controladoras. São o reflexo de uma imagem distorcida de Deus e “chegamos a nos parecer com o Deus que projetamos”. Esta distorção é o resultado, muitas vezes, de uma educação rigorosa e moralista, produto de uma espiritualidade dualista que coloca a perfeição como o ideal de todo cristão e o menosprezo de tudo o que não é “espiritual”. Estas crenças religiosas geram uma fé tóxica ou insana porque nos afastam do Deus de Jesus e podem favorecer a dependência religiosa e o abuso espiritual.

Também é insuficiente interpretar “talentos” como qualidades da pessoa. Esta interpretação é a mais comum e está sancionada em nossa linguagem. Quê significa “ter talento”? Também não é esta a verdadeira questão

da parábola. Em relação às qualidades pessoais, somos instigados a ativar todas as possibilidades, mas sempre pensando no bem de todos e não para acumular mais e “depenar” os menos capacitados, dando graças a Deus por sermos mais espertos que os outros.

Se permanecermos na ordem das qualidades pessoais, poderíamos concluir que Deus é injusto. A parábola não julga as qualidades, mas o uso que fazemos delas. Quer tenhamos mais ou quer tenhamos menos, o que nos é pedido é que coloquemos a serviço de nosso autêntico ser, a serviço de todos.

Na dimensão da essência, todos somos iguais. Se percebemos diferenças é que estamos valorizando o acidental. No essencial, todos temos o mesmo talento. As bem-aventuranças deixam isso muito claro: por mais carências que tenhamos, podemos alcançar a plenitude humana.

Como seres humanos temos algo essencial, e muita coisa que é acidental. O importante é a essência que nos constitui como seres humanos. Esse é o verdadeiro talento: o que há de mais humano em nós. Ter ou não ter (o acidental) não constitui a principal preocupação. Os talentos, de que fala a parábola, não podem fazer referência a realidades secundárias, mas às realidades que fazem cada pessoa ser mais humana. E já sabemos que ser mais humano significa ser capaz de amar mais. E amar quer dizer servir aos outros.

Os talentos são os bens essenciais que devemos descobrir, pois estão presentes em nosso interior. A parábola do tesouro escondido é a melhor pista. Somos um tesouro de valor incalculável. A primeira obrigação de um ser humano é descobrir essa realidade; devemos estar voltados para o nosso interior e poder ativar todas as nossas possibilidades. A “boa nova” é que todos coloquemos esse tesouro a serviço de todos. Nisso consiste o Reino anunciado por Jesus.

O grande “pecado” dos(as) seguidores(as) de Jesus é a de não arriscarem a segui-Lo de maneira criativa. O tesouro (os talentos verdadeiros da vida) não é algo que se mede em termos pecuniários. O valor do ser humano, seu talento, é a vida como tal, a capacidade de receber e partilhar amor. Neste sentido, “lucrar” é simplesmente ser, deixar-se amar, “lucrar” é simplesmente viver no amor. Não se trata de “lucrar” talentos em dinheiro, mas o talento mais profundo da vida, o “tesouro” que está presente nas profundezas de nossa existência, esperando a oportunidade para “render” mais compaixão, bondade, sensibilidade solidária...

Temos o grande talento, a Vida de Deus, que nos atravessa e se visibiliza no coração compassivo, nos olhos contemplativos, nos pés que quebram distâncias, nas mãos servidoras... Que vivamos sem medo: é isso que a parábola revela. Passar dos “talentos” ao Talento, e em especial ao Talento do Coração (talento do Reino), a serviço da humanidade.

Texto Bíblico: Mt 25,14-30

Na oração:

- Dar nomes aos medos que estão paralisando sua vida, impedindo-o de viver com mais ousadia e criatividade.

- Quem é o “Deus” em quem você crê? É o “deus da lei”, o “deus do mérito”, o “deus” que cobra até o último centavo... ou o “Deus de Jesus”: Pai e Mãe, fonte de misericórdia e compaixão?

- A fé e a confiança em Deus possibilitam ter acesso às suas riquezas interiores e expandi-las?

sábado, 7 de novembro de 2020

Não podemos viver de “luz emprestada”…

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana), como sugestão para rezar o Evangelho do 32º  Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Dai-nos um pouco de óleo, porque nossas lâmpadas estão se apagando” (Mt 25,8) 

As parábolas são relatos provocadores, que revelam o sentido da vida a partir de uma perspectiva diferente. Não são histórias edificantes, nem meditações piedosas, mas enigmas para pensar, decifrar e decidir o horizonte da vida. As parábolas não fecham a mensagem (não são dogmas, nem demonstrações), pois são sinais que cada um deve interpretar e resolver a partir de sua própria vida.

Frente às parábolas, uma pessoa pode rebelar-se, outra pode descobrir o lado oculto de sua vida... Por isso, são imagens interativas que não tem a solução dada de antemão.

É surpreendente a insistência com que Jesus fala da vigilância; são numerosas as parábolas que nos convidam a adotar uma atitude desperta e atenta frente à existência, para que esta tenha um sentido.

Interpretar a parábola deste domingo no sentido de que devemos estar preparados para o dia da morte, é falsificar o evangelho. A parábola não está centrada no fim, mas na inutilidade de uma espera que não é acompanhada de uma atitude de amor e de serviço. As lâmpadas devem estar sempre acesas, para ajudar a acolher as gratas surpresas da vida e poder participar da festa d’Aquele que continuamente vem ao nosso encontro. Se não queremos ser insensatos (sem sentido, sem direção), precisamos estar alertas, para entrar em sintonia com a realidade e viver a vida como deve ser vivida.

Nossa maior insensatez seria viver “sem horizonte”, sem desejos e sonhos, sem uma causa mobilizadora... Submergimos no presente sem outra perspectiva mais ampla; e assim afogamos nossa vocação de infinitos na vulgaridade de uma vida superficial e satisfeita. Se estamos adormecidos, é preciso despertar, porque, do contrário, perderemos a oportunidade de entrar na festa das núpcias.

Portanto, ser “imprudentes” significa viver “dispersos”, “distraídos”... deixando apagar a lâmpada de nossa fé e de nossa esperança, e sem o azeite de reposição.

A lamparina que arde é a prática da mensagem de Jesus; o azeite que alimenta a chama, é o amor manifestado. Assim entendemos porque as jovens prudentes não podem compartilhar o azeite com as imprudentes. Não se trata de egoísmo; é impossível amar em nome de outra pessoa ou considerar como própria a entrega que o outro realizou. A lamparina não pode queimar com o azeite de outro; a chama não pode ser acesa com azeite comprado ou emprestado.

A parábola do Evangelho nos fala daqueles que não cultivam sua esperança hoje e pretendem viver do azeite das lâmpadas dos outros. E ninguém pode viver da fé do outro, nem da esperança do outro.

O sentido de toda uma vida não pode ser improvisado em um instante. Somente a partir da luz de Deus em nós, descoberta, reconhecida e ativada, poderemos viver antenados com o melhor que há em nosso interior (azeite) e com a realidade que nos envolve, cheia de surpresas.

Todos nós somos portadores de uma lâmpada e todos somos convidados à festa. Podemos inspirar-nos mutuamente a viver a partir de nossa verdade mais profunda, a partir da luz que nos habita; mas, no final, a falta ou não de azeite para a nossa lâmpada depende de cada um(a), de nossa responsabilidade, de nossa previsão, do cuidado delicado e agradecido diante de tudo o que foi recebido, da capacidade para sustentar a esperança nas noites escuras e, sobretudo, do amor e da alegria que alimentamos no desejo de nos encontrar, dia a dia, com o Noivo, seguros de que Ele sempre vem.

Só assim seremos luz verdadeira para os outros, iluminaremos – humildemente – as obscuridades que nos envolvem, e contagiaremos a alegria de sabermos que fomos convidados à festa.

O que permanece em nosso interior é o fulgor (luz) que vivemos (que brilha) por dentro, ao fazer memória da nossa vida, esse “eu profundo” que é mais “eu” que eu mesmo: “eu” original, iluminado, santo, intocável, faísca de luz que se volta para Aquele que é Fonte de toda luz.

O “ego” é como um planeta do sistema solar; não tem luz própria. Adquire sua luz emprestada e, portanto, vive no engano de que pode continuar sempre assim, no tempo e no espaço.

Por isso, o ego inflado com a luz que não é própria, busca, de maneira desenfreada, apoderar-se de tudo aquilo que lhe dá a ilusão de brilhar: poder, riqueza, vaidade... Falsas luzes que um dia se apagarão.

O “eu original”, no entanto, vai ao encontro da luz verdadeira, presente no próprio interior, e deixa-se iluminar por ela; é esta pequena chama que o conduz em direção Àquele que é a Luz, para entrar e participar do seu festim iluminado.

Por isso, nós somos, ao mesmo tempo, a lâmpada, o azeite e a luz. Ninguém pode nos emprestá-los, porque é nossa própria vida. Toda vida se move a partir de dentro.

Dentro de nós devemos descobrir a luz que iluminará nossos passos; essa chama, se é autêntica, não pode se ocultar, pois iluminará também a todos os outros. Uma luz que acende outras luzes.

Contemplai admirados essa luz que somos! E, mesmo nosso pequeno “ego” brilhará, atravessado por essa luz como o sereno pelo sol do amanhecer.

A parábola deste domingo, portanto, nos provoca a uma tomada de posição: “em qual dos dois grupos eu me encontro? Em qual deles desejo estar?” A narração usa as imagens das lâmpadas e do azeite como símbolos que marcam a diferença entre um grupo e outro.

Nossa vida, enraizada na Vida d’Aquele que é a Luz do mundo, é chamada a irradiar luz, a iluminar a realidade na qual habitamos, embora, muitas vezes, a noite escura nos envolve.

“Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14).

“Em que situação se encontra minha lâmpada? E minha reserva de azeite? De que modo colaboro para que o Noivo possa celebrar a festa? Como sou luz em meio a tantas noites de ódio e violência pelas quais nosso mundo atravessa?” Na realidade, de acordo com a parábola, todas as jovens carregavam suas lâmpadas; todas elas tinham sido convidadas à festa; todas alimentavam o mesmo desejo: aguardar a chegada do noivo. O fato de pertencer a um grupo ou a outro não se impõe a partir de fora. Cada uma das personagens da parábola, no fundo, foi livre e decidiu com sua atitude (previdente e sábia, ou imprudente e descuidada), em quê grupo situar-se.

Hoje em dia existem, nas igrejas e capelas, as velas para todos os gostos; existem aquelas eletrônicas, que são ativadas com uma moeda; e existem até aquelas que podem ser acesas a longa distância, pela internet. Mas, velas originais são aquelas que se consomem na nobre missão de iluminar. Simbolizam a travessia da própria existência: queima-se a cera como nós vamos nos queimando, diminuindo-nos com a passagem do tempo, as dificuldades e as alegrias de nossa travessia humana.

Quando acendemos a chama, é como se tomássemos consciência de que somos luz na medida em que vamos nos gastando em iluminar nosso entorno e chegar a ser cera derretida um dia, tarde ou cedo; passar de luz natural a reencontrar-nos com a Luz total da qual procedemos.

 

Texto bíblico: Mt 25,1-13

Na oração:

A esperança mantém sempre acesa a faísca de luz que todos carregamos dentro. É ela que nos faz cair na conta que somos “luz do mundo”, uma chama que nunca se apaga; somos “sarça ardente” para os outros, consumindo-nos constantemente, através da vida doada; somos uma lamparina humilde, brilhando na janela da nossa pobre casa, indicando aos outros o caminho da segurança e do aconchego.

- Como você deixa transparecer a luz no seu agir cotidiano? Qual é o azeite que brota do seu coração e que alimenta a luz de sua humilde lamparina?