Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 16º Domingo do Tempo Comum (Ano A).
“O reino dos céus é como uma semente...; é como o fermento que uma mulher mistura na farinha”
Sabemos por experiência que as imagens e parábolas (mais que as ideias) são as que nos movem em todos os níveis, despertando e renovando a vida.
Assim, da passividade de ler e refletir, somos convidados a ser cada vez mais ativos, imaginando e rezando, através dasimagens e parábolas; elas nos convidam a ir além delas mesmas para encontrarmos com nosso Deus. As imagens, símbolos e parábolas são a melhor linguagem para recolher, de alguma maneira, esta experiência, que transborda sobre os nossos conceitos e repercute nas dimensões mais profundas de nossa intimidade. Elas põem em movimento outras dimensões de nosso ser (além do entendimento), igualmente importantes para que a experiência da oração nos conduza a uma interioridade maior.
O uso de imagens e parábolas foi muito frequente na Bíblia. O próprio Jesus se revelou um grande artista na construção de parábolas. Através delas, Ele nos ajuda a “ver” no centro da realidade “o que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração humano não percebeu” (1Cor 2,9), ou seja, a realidade impensável do Reino de Deus no meio de nós, emergindo como dom.
Jesus, profundo conhecedor do ser humano, insiste muito no uso das imagens e parábolas como ativadoras da imaginação. Na realidade, grande parte dos relatos evangélicos nos coloca diante de cenas, imagens e realidades, despertando nosso potencial imaginativo e envolvendo-nos ativamente no “mistério”.
Em nossa imaginação se esconde uma fonte, rica e não aproveitada, de vida e de força.
O uso da imaginação, longe de ser uma fuga da realidade, nos ajuda a mergulhar com maior profundidade na realidade presente, para captá-la melhor e abordá-la com vigor renovado.
Para Jung a linguagem do interior é visual e não verbal. Por isso, as imagens, símbolos e parábolas são o meio para expressar emoções e significados que não podemos articular. Elas nos ajudam a continuar adquirindo novas experiências, a conservá-las e a comunicá-las.
Jung denomina “imaginação ativa” ao processo de “trabalhar” com as imagens e parábolas, para conseguir uma maior abertura a seu significado. Através dos diferentes tipos de imaginação ativa há uma aproximação ao eu mais profundo, onde habita Deus; chegar ao nosso “eu interior” é também encontrar-nos com Deus como fonte e centro de nosso ser.
Ser seguidor(a) de Jesus é isto; é entrar na dinâmica da semente e do fermento, tomar consciência de que somos pequenos e frágeis, mas também de que Deus pôs em nosso interior uma energia e uma vitalidade surpreendentes, puro dom do seu Espírito. E esta força é aquela que nos transforma e vai transformando a realidade que nos cerca, aquela que vai fazendo presente o Reino, por obra do mesmo Espírito, não por nossas conquistas ou voluntarismos. Na escuridão da terra a semente se prepara, se concentra, se entrega..., para a explosão de vida; no escondimento da massa de trigo o fermento revela-se como força de crescimento.
Quando Jesus apresenta seu ensinamento através de parábolas não pretende oferecer enigmas difíceis de resolver nem mensagens ocultas que é preciso desvelar. Ele busca oferecer esperança e sentido àqueles que sentem suas vidas destruídas, se sentem cansados e marginalizados. Com uma linguagem instigante e simples, Jesus fala da ação amorosa e do Pai na história das pessoas que, a partir de suas vivências cotidianas, o sentem como uma presença próxima e providente, cheia de ternura e cuidado: algumas sementes, um pouco de fermento, um tesouro escondido... São imagens que falam de confiança numa vida diferente, que mostram um Deus que é misericórdia, paciência e perdão e que só quer salvar seus filhos e filhas.
Além disso, suas parábolas são um convite a comprometer-se com a mudança, tanto interna quanto externa, a estar atentos aos sinais que indicam o caminho, a sustentar-se com paciência ativa nos processos que transformam, como o fermento, a semente...
Se todas as parábolas de Jesus deixam transparecer, como pano de fundo, o verdadeiro rosto de Deus, na parábola do joio e do trigo Ele nos revela um modo original do seu Pai agir, em contraste com o nosso modo mesquinho habitual de proceder. O modo de agir de Deus é um chamado desconcertante que diz respeito a todos e que, ao mesmo tempo, nos faz ver que, provavelmente, o “trigo” e o “joio” estão presentes e crescem juntos no interior de cada um de nós.
“Deixai-os crescer juntos até a colheita!” Quão difícil é respeitar o “tempo”; normalmente falta-nos paciência e respeito ao ritmo de cada pessoa. Deixar crescer junto é um chamado a confiar pacientemente em que tudo está envolvido pela presença providente de Deus que, a seu devido tempo, fará brilhar a verdade, a bondade e a justiça.
Quantas vezes cremos que estamos semeando boa semente, em nosso ambiente, em nossas famílias e comunidades e, inclusive, em nós mesmos. No entanto, que descobrimos que está crescendo de maneira sorrateira e sem nosso consentimento? Por mais sinceros e justos que sejamos, aos poucos vamos tomando consciência da presença das “ervas daninhas” da mentira, da intolerância, da mesquinhez... que acabam abafando as boas sementes que nos habitam e que querem se expandir (a compaixão, o amor, a bondade...)
Também as imagens da pequenina semente de mostarda e do fermento misturado na massa são inspiradoras e apontam para as dimensões mais profundas em nossa vida. Ser fermento na massa não é ser a “cereja do bolo”; a semente, quando mergulhada no chão escuro da terra, desaparece, e não a vemos mais até que se transforme em árvore. O fermento desaparece na massa. E a “massa” é a nossa realidade existencial, atravessada por forças divinas misturadas com as fragilidades humanas; somos argila que carrega o “Sopro do Espírito”. Somos chamados a descer em nossa “massa”, a deixar que a semente da Palavra se misture e seja amassada nela, até “desaparecer” ..., para fermentar tudo a partir de dentro.
Os ouvintes de Jesus sabiam que o fermento fica “escondido”, mas não permanece inativo. De maneira silenciosa e oculta vai fermentando e fazendo crescer a massa do pão. Assim está Deus atuando a partir do interior da vida. Ele não se impõe a partir de fora, mas nos transforma a partir de dentro; não domina com seu poder, mas nos atrai com seu amor para o bem; não força a liberdade de ninguém, mas se mistura com nossa condição humana para tornar mais ditosa nossa vida.
Assim também devemos nós agir se quisermos abrir caminhos para o Reinado do Pai.
O fermento é pouco em comparação com a grande quantidade de farinha de trigo, mas ele fermenta tudo. Muitas vezes, o Reino de Deus não é visível nem perceptível, ele é uma instância interior que não podemos segurar em nossas mãos. Mesmo assim, podemos saber que Deus nos envolve completamente e cabe a nós permitir que o fermento do Espírito divino atravesse em todas as dimensões da nossa existência humana.
Então, tudo se transformará em pão que nutre, nosso espírito dará fruto, não só para nós mesmos, mas para os outros. Nossa vida não mais será determinada por medos, mas pela presença providente de Deus.
E todo nosso ser se tornará poroso, permeável à ação do Pai. Assim, nós daremos sabor à vida e a beleza divina transparecerá no nosso modo de ser e viver; seremos mais verdadeiros e felizes.

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 13,24-43
Na oração:
Na intimidade com o Senhor, vamos aprendendo a viver a fé de maneira humilde, sem fazer muito ruído nem dando grandes espetáculos. Já não cultivaremos desejos de poder e prestígio; não gastaremos nossas forças em grandes operações de auto-imagem. Buscaremos o essencial; caminharemos na verdade de Jesus.
- Seguindo seus passos, buscaremos viver como a semente ou como o fermento de vida sadia que se dilui humildemente para dar sabor evangélico e fazer crescer os dinamismos de vida, em nós mesmos e nos outros.
- Contagiaremos em nosso entorno o estilo de vida de Jesus e irradiaremos a força inspiradora e transformadora de seu Evangelho. Passaremos a vida fazendo o bem, como Ele.
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