terça-feira, 9 de junho de 2020

CORPUS CHRISTI: “Deus se faz Corpo em nossos corpos”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho da  Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi).


“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo. 6,56)

O cristianismo foi muitas vezes compreendido como uma religião do “espírito” contra a “carne”, uma religião do desprezo do corpo e inimiga de tudo o que se refere à dimensão corporal. Se isso é verdade, vai totalmente contra à primeira inspiração de Jesus e da Igreja, que proclamaram e continuam proclamando uma religião do “corpo”, ou seja, do Deus Encarnado na história (na carne) dos homens e mulheres.
É isso que nos revela a festa de “Corpus Christi”;. é a festa que recolhe todas as festas cristãs e as condensa na “carne” do Corpo de Jesus, com sua riqueza de sentidos e significados.
“Tocar a carne de Cristo” implica tocar e acolher nossa própria “carne”, ou seja, o corpo como lugar onde Deus faz sua morada. Assim vamos buscando compreender o que é a Encarnação.
O próprio Deus se fez corpo, no corpo de uma mulher: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.
A Encarnação foi o caminho que a Trindade escolheu para se aproximar da humanidade e fazer história conosco. Nosso corpo humano, feito de barro – vaso frágil e quebradiço – tornou-se o lugar privilegiado da chegada e da revelação do amor trinitário.
“Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós?” (1Cor, 6,19)
O nosso corpo é o “templo” santo e santificado, onde Deus Trino faz sua morada.
O corpo é presença e linguagem - tudo nele fala: fala o rosto, falam os olhos, falam os movimentos e as posturas, falam os gestos, acompanhando, reforçando e expressando a intenção íntima.
Celebrar “Corpus Christi” é “cristificar” nossos corpos.

Cresce cada vez mais a consciência de que não “temos um corpo” que nos aprisiona, mas que somos a corporeidade, esse sistema complexo de matéria e energia, fonte de sensações, de expansão, de prazer...
O corpo é a primeira condição de possibilidade de nosso “ser no mundo”, único modo disponível para relacionar-nos com a natureza, com os outros e com o que nos transcende. Em definitiva, único modo de ser, e de sermos humanos.
Somos corpo que vibra e pulsa, que necessita do abraço e do olhar de outros corpos, do calor de outras peles. E ali encontramos Deus, pois Ele quis fazer-se corpo e sangue, para acariciar com nossos braços, para olhar com os nossos olhos, para respirar com os nossos pulmões, para amar com nossos corações, para fazer ardentes nossas entranhas compassivas... Aqui, nas transformações do corpo, Ele se faz presente.
Diante do Corpo de Cristo, nosso corpo se plenifica na comunhão com outros corpos, com Deus e com o corpo da natureza. Em Jesus, Deus se revelou encarnado na história e, por sua atuação, morte e ressurreição, deixou transparecer que fez do universo seu Corpo. A presença real de Jesus, no pão e vinho da Eucaristia, nos desperta a reconhecê-Lo presente no coração do Cosmos e da História.
Nosso humilde corpo é parte da Criação inteira e nosso bem-estar faz sorrir a natureza.

O evangelho deste domingo nos revela que a união ativa do(a) discípulo(a) com Jesus expressa-se, agora, mediante a metáfora do “comer” e do “beber”. A adesão a Jesus é adesão de amor.
Jesus quis permanecer entre nós de modo diferente. Não aceitou ser peça de museu, nem fonte de estudos eruditos. Quis permanecer vivo. Escolheu a forma convivial da refeição. É em comunidade que se celebra sua memória. O pão do cotidiano, o vinho da festa; o pão do alimento, o vinho da entrega radical.
O pão e o vinho, comido e bebido, se transformam em nós; o corpo de Cristo e seu sangue nos transformam n’Ele. Pelo pão e vinho, vivemos e nos alegramos. Pelo corpo e sangue de Jesus, Ele vive em nós e nos alegra. Comer do seu corpo e beber do seu sangue significa “ingerir” e fazer nossa, sua mentalidade, suas preferências, suas opções, seu estilo de vida, sua original maneira de viver, de pensar e de atuar...
Alimentar-nos d’Ele é voltar ao mais puro, ao mais simples e mais autêntico de seu Evangelho; interiorizar suas atitudes mais básicas e essenciais; acender em nós o impulso de viver como Ele; despertar nossa consciência de discípulos(as) e seguidores(as) para fazer d’Ele o centro de nossa vida.

Tradicionalmente, a festa de “Corpus Christi” acontece em meio a grandes pompas e suntuosas procissões. Belos tapetes são confeccionados nas ruas para que o cortejo, carregando o “Corpo de Cristo”, passe por ali. Este ano, por causa da situação pandêmica que estamos vivendo, as manifestações externas certamente não vão ocorrer. Talvez seria uma ocasião privilegiada para repensar e re-descobrir o verdadeiro sentido deste dia: fazer a experiência da “procissão interna”, deixando o “Corpo de Cristo” circular por nossos corpos, para que estes fiquem mais “cristificados”.
Todas as nossas demonstrações de veneração e respeito para com as “espécies consagradas do pão”, estão muito bem. Mas ajoelhar-nos diante do Santíssimo e continuar menosprezando ou ignorando o corpo dos

irmãos e irmãs, sobretudo dos mais sofredores e excluídos, é um escárnio.
A última coisa que poderia ter ocorrido a Jesus era pedir que os demais seres humanos se pusessem de joelhos diante d’Ele. Ele, sim, se ajoelhou diante de seus discípulos para lhes lavar os pés; e, ao terminar essa tarefa de escravos, lhes disse: “vós me chamais de Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque sou. Se eu, o Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,13). Essa lição parece que não despertou tanto impacto em nós. É mais cômodo transformar Jesus em “objeto” de adoração” que imitá-lo no serviço e na disponibilidade para com todas as pessoas. É uma ofensa prostrar-se diante do Corpo Eucarístico e distanciar-se de tantos corpos violentados que gritam: “eu quero respirar”.

O problema é que, com frequência, transformamos a Eucaristia num rito cultual, tornando-se uma pesada obrigação que, se pudéssemos, tiraríamos de cima de nossos ombros. Ela acabou se convertendo numa cerimônia rotineira, carente de convicção e compromisso, um ritual que tranquiliza as consciências, mas não modifica as atitudes. E, às vezes, se utiliza como ato de ostentação e pompa solene, que fomenta a adoração e a devoção, mas não transforma nem a Igreja, nem a sociedade.
A Eucaristia foi, para as primeiras comunidades cristãs, o ato mais subversivo imaginável. Os cristãos que a celebravam se sentiam comprometidos a viver o que o sacramento significava, conscientes de que recordavam o que Jesus tinha sido e comprometendo-se a viver como Ele viveu.
É preciso sacudir nossa rotina e mediocridade. Não podemos comungar com Cristo na intimidade de nosso coração sem comungar com os irmãos que sofrem. Não podemos compartilhar o pão eucarístico ignorando a fome de milhões de seres humanos, privados de pão e de justiça. É uma ofensa dar-nos a paz uns aos outros, sendo canais propagadores de ódio, de preconceito e intolerância. É um engano manifestar que estamos em comunhão junto à mesa quando, na realidade, somos mediadores da “cultura da indiferença”.

Corpus Christi é um chamado urgente para que nos prostremos diante do Cristo, humilde e caminhante, que passa continuamente diante de nós; passa vestido de mendigo, desempregado, enfermo, faminto, solitário, abandonado..., que nos convida a viver a Eucaristia, não como milagre nem como mistério, mas como lugar de encontro com os mais necessitados.
Está bem que passem procissões com o Pão Eucarístico por nossas ruas, com toda solenidade e pompa. Mas, que pensará Jesus ao passar diante das casas onde hoje falta o pão? Que pensará Jesus ao passar diante de crianças que tem fome? Que pensará Jesus ao passar diante de homens e mulheres que o acompanham com o estômago vazio, sendo Ele mesmo o “verdadeiro pão”? Quê pensará Jesus ao ser levado nos “andores” e carros alegóricos por pessoas que não conhecem a fome, enquanto à margem aplaudem os famintos?...


Texto bíblico:  Jo 6,51-58

Na oração:  
Nosso corpo é tocado pela encarnação de Jesus. E lembre-se de que Deus conhece nossa estrutura. Ele sabe de que barro somos feitos.
Reze sua humanidade, seu corpo de homem ou mulher. Leve para sua oração os desafios do cotidiano, os imprevistos da vida. Seja humano diante de Deus, deixe seu corpo falar a Deus.
Reze com seu corpo. E agradecido(a) bendiga sempre o Senhor.

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