quarta-feira, 26 de julho de 2023
No “chão da vida” está escondido nosso verdadeiro tesouro
quinta-feira, 20 de julho de 2023
A Paciência que nos Faz Criativos
Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 16º. Domingo do Tempo Comum (Ano A).
“Deixai crescer um e outro até a colheita!” (Mt 13,29)
A impressão que temos é que a paciência deixou de ser a virtude
de nosso tempo; parece estar ameaçada de extinção. Aumenta a ansiedade que não
espera, a angústia de não ter ainda o que se busca e a inquietude que parece
não ter fim. Vivemos o tempo do imediatismo, da instantaneidade e da urgência.
A pressa é a marca do nosso ritmo de vida e, por isso, nossas
ações, decisões e a construção de nós mesmos são tão efêmeras e sem raízes. O
impaciente se afoga em sua instabilidade, atropela tudo e rompe a harmonia, a
beleza e a relação com os outros.
No entanto, a paciência é a atitude que faz vir à tona um conjunto
de qualidades que nos fazem crescer como pessoas: saber esperar o ritmo das
coisas e pessoas, tolerar o novo e diferente, aprender a conviver com aquilo
que nos é próprio e respeitar o dos demais, firmeza na adversidade, levar
adiante nossas próprias convicções, deixar-nos tocar pela crítica construtiva,
olhar a realidade com uma visão mais ampla, crer naquilo que podemos chegar a
ser, guardar no coração aquilo que ainda não está resolvido, não atropelar as
pretensões dos outros, entrar em harmonia com a natureza, sonhar com uma
realidade nova, trabalhar e confiar, respeitar o tempo de maturação das
pessoas...
A paciência
não é um controle absoluto de tudo, senão impedir que a urgência das coisas nos
arraste para o turbilhão de pressas que nos impede respirar, pensar, decidir e
agir com criatividade.
Em
hebraico, a expressão “ser paciente”, significa “ter grandes narinas”. Isso quer dizer: respirar profundamente. De fato,
ser paciente é ter uma respiração larga,
uma respiração profunda.
Observemos
a maneira como respiramos, quando estamos impacientes; a respiração se torna
curta quando estamos ansiosos. Ativar em nós a paciência é entrar no
fluxo do ritmo tranquilo da respiração.
Ser paciente
é voltar sobre nossos próprios pés, enraizar-nos, aterrissar, estar aí, não nos
deixar arrastar pela emoção. Após ter expirado profundamente, alguém é capaz de
escutar o outro, é capaz de ser paciente.
A paciência é tecida na espera, mas também é
uma virtude que se ativa no esforço constante, muitas vezes rotineiro e pouco heroico.
A paciência abre a possibilidade do novo futuro, mantém acesa a busca e
movimenta valores como a perseverança, o discernimento, a confiança, a
resistência, a contemplação...
Segundo o evangelho deste domingo, o mistério escondido numa semente e as potencialidades presentes no ser humano merecem de todos nós o
sagrado respeito pelo ritmo de crescimento, suscitando em nós uma atitude de
admiração e encantamento.
A sementeira já foi realizada com
êxito, as forças de Deus continuam agindo, mesmo ocultas e desenvolvendo-se de
uma forma silenciosa. Ainda não chegou a colheita,
mas, com certeza ela virá. Enquanto isso, convém esperar pacientes e
tranquilos e confiar na ação providente de Deus. O ativismo, a pressa e a
inquietação não nos farão atingir os objetivos que almejamos; não são as
pessoas que realizam o Reino de Deus por suas forças; o Reino chega pela força de Deus e vai crescendo silenciosamente, “por
si só”, sem que se perceba a sua expansão.
As três pequenas e inspiradas
parábolas deste domingo nos falam de espera paciente, de respeito aos ritmos e
processos, de confiança no dinamismo da vida... Jesus, em diferentes
intervenções, faz referência a todo o processo agrícola, desde o plantio da
semente até a colheita dos frutos. Semear, cuidar do crescimento, colher... tem
seu ritmo próprio, o ritmo da natureza.
As três parábolas têm uma
mensagem comum. Nas três, o Reino de Deus se compara com algo pequeno e, ao
mesmo tempo, carregado de vida, que cresce e se manifesta pouco a pouco, a
partir de dentro, sem ruídos nem aparências. Não se impõe como uma superestrutura
na qual vivemos ou temos, mas que perpassa e transforma tudo, como uma força
silenciosa, mas potente, que vem da natureza, não de nós mesmos.
Infelizmente, estamos perdendo o ritmo da natureza
e queremos que tudo aconteça com a mesma rapidez quando nos comunicamos através
dos meios eletrônicos. Temos “entranhas de impaciência”. Desistimos facilmente
diante da falta de frutos ou as más ervas que crescem no campo da vida;
queremos que as coisas sejam como imaginamos que devem ser; queremos plantar
hoje e encher os celeiros amanhã. É preciso voltar a aprender com a mãe
natureza.
Um olhar repousado e paciente supõe
capacidade contemplativa e vida interior, aprender a diminuir a velocidade de
nossas vidas, ações e pensamentos, e preparar-nos para a serenidade e para a
espera criativa.
“A idolatria começa com um gesto de impaciência” (Onaknin). Na
parábola do trigo e joio a impaciência dos empregados
leva-os a querer ter o controle do campo, onde fora semeada boa semente. A paciência,
pelo contrário, está na entranha mesma da Vontade de Deus, que quer que cada
coisa se desenvolva em liberdade, com seu tempo e seu espaço, sem que ninguém
se sinta ameaçado. A paciência é mão estendida para Deus e para o outro,
enquanto a impaciência é um punho que ameaça e arrebata.
O “apressado”, coloca-se em estado de
revolta contra o que ainda está inacabado, sufocando seu amadurecer e impedindo
o ritmo normal de desenvolvimento.
A “pressa” tende a mostrar-se raivosa
e impor-se, cega, à realidade. Prisioneiro de suas limitações, o impaciente julga absurda toda demora e
mostra-se incapaz de ter interesse por tudo o que o cerca. Impaciente e irado,
caracteriza-se pela intolerância que é destruidora.
A paciência, por sua vez, nos dispõe a olhar ao
nosso redor e sermos surpreendidos por tanta beleza; ela nos possibilita aguardar e deixar-nos “tocar”
por algo surpreendente.
Cada um de nós recebeu milhões de boas sementes ao longo de nossa vida. Também
nos foram oferecidos todos os nutrientes que precisamos para crescer em meio às
más ervas, misturadas em nossa realidade interior. Será que somos conscientes
de que germinar e dar frutos, fermentar e mudar nosso ambiente, é um processo
lento que requer nossa colaboração? Como vivemos os tempos nos quais parece que
estamos debaixo da terra, no escuro, para poder sair e dar frutos?
É preciso, sobretudo, escutar nosso terreno interior com mais profundidade. Ali há um
rico “celeiro” e reservas dos melhores recursos que devem ser mobilizados para
o nosso crescimento e maturidade.
A
espiritualidade inaciana nos revela que a paciência é uma
ferramenta imprescindível no processo de decisão, uma luz que indica o próximo
passo no longo caminho de construção de nós mesmos. O hábito permanente do discernimento
pode tornar revolucionários os pequenos gestos de cada dia.
Pois a
paciência implica aprender a parar nas encruzilhadas dos caminhos para eleger o
melhor.
A paciência faz a vida; ela mobiliza nossos recursos mais nobres, desperta a criatividade e nos impulsiona a investir nossas melhores energias naquilo que é essencial e que dá sentido ao nosso caminhar.
Texto bíblico: Mt 13,24-43
Na oração: Devemos deixar transparecer a paciência do Criador e trazer em nós a
marca do tempo, dominando a pressa, purificando-a pela mística da atenção a tudo e todos que compõem o
nosso cotidiano. Como simples peregrinos
que somos, sempre a caminho, haveremos de suportar, pacientes, o adiamento. Em
clima de festa sentiremos a vida
em sua lenta e promissora evolução.
- Seu ritmo cotidiano é iluminado
pela paciência do Criador, que trabalha em tudo e em todos ou ele tem a marca
da pressa, da ansiedade, da impaciência?...
sexta-feira, 14 de julho de 2023
Deus é “semente fecunda” em nosso interior
Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 15º. Domingo do Tempo Comum (Ano A).
“O semeador saiu para semear” (Mt 13,3)
O ser humano é
surpreendente, inesperado, imprevisível... é pulsação original, é interpelação
inquietante; é existência peregrina, é identidade dinâmica...; é uma mina de
significados e riquezas.
Com inesgotável potencialidade, ele re-cria a natureza e tem a
possibilidade de inventar a sua própria vida. Onde há ser humano há espírito
inteligente, impulso de liberdade e manifestação de tenacidade.
Tratar com
o ser humano é tratar com o imponderável, o misterioso... Ele é seduzido pela
liberdade que lhe apresenta horizontes novos e lhe abre mares desafiantes. Ele
é “espaço à
vida aberta”, “vida que se expande”. Com seu pensamento e
seu sonho, ele habita as estrelas e rompe todos os espaços.
Essa capacidade é o que nós
chamamos transcendência, isto é,
“transcende, rompe, vai para além
daquilo que é dado”.
Numa palavra, o
ser humano é um projeto infinito; tem sentido de transcendência,
projeta-se em muitas
direções.
O ser humano é mais do que parece
ser. Há nele algo maior que o leva a ser mais verdadeiro, mais justo, mais
criativo, mais arrojado, mais responsável... “Desejando e elegendo aquilo que mais nos conduz...” (Santo Inácio).
Jesus
expressa toda essa originalidade e riqueza do ser humano através da parábola do
camponês que, com suas mãos abertas, espalha as “sementes” em
diferentes terrenos.
A parábola
começa afirmando: “Saiu
o semeador a semear”.
Ele faz isso com uma confiança surpreendente. Semeia de maneira abundante. A
semente cai em todas as partes, inclusive ali onde parece difícil que ela possa
germinar.
De fato, na semente
encontra-se presente uma grande força de
crescimento... A força da vida,
contida no interior da semente, envelhecerá e se extinguirá se não houver quem
confie nela, e arrisque a sua terra, seu tempo e seu trabalho.
Quando a semente é
enterrada na terra, ela já conhece o seu caminho;
ela avança passo a passo, seja durante as horas em que as circunstâncias lhe
são mais favoráveis, porque é de dia e existe luz e calor em
abundância, seja porque é de noite, e o ambiente para seu crescimento já não é
tão propício.
Escondida ali, debaixo da terra,
envolvida pelo absoluto silêncio, a semente
germina e vai crescendo. O talo, a espiga e os frutos conduzem toda a
vitalidade da minúscula semente até a maturidade da planta. E cada árvore vive
intensamente o tempo que lhe cabe viver, o tempo suficiente para produzir
frutos em abundância.
Ao terminar
o relato da parábola do semeador, Jesus faz este apelo: “Quem tem
ouvidos, ouça!”.
Ele nos pede que prestemos muita atenção à parábola. Mas, em que deve estar
focada nossa atenção: no semeador? na semente? nos diferentes terrenos?
Tradicionalmente,
nós cristãos nos fixamos quase exclusivamente nos “terremos” onde
cai a semente, para revisar qual é nossa atitude ao escutar o Evangelho. No
entanto, é importante dirigir nossa atenção ao semeador e a seu modo
de semear.
Para nós que crescemos em um
contexto religioso desde a infância, a leitura literal desta parábola
condicionou nossa visão da realidade em dois aspectos determinantes: o dualismo
e o moralismo.
Em tal leitura aparecia a imagem do
Deus semeador como um alguém separado e, portanto, distante.
Essa crença de separação, não só
alimentava um dualismo religioso – Deus frente ao mundo – de nefastas
consequências, mas que era a fonte de outras ideias igualmente perigosas em
suas consequências: o pecado, a culpa, a alienação, o infantilismo religioso...
Com frequência, o dualismo
religioso era acompanhado de moralismo. Se a semente não dava fruto numa pessoa
devia-se simplesmente à sua própria maldade, já que não havia preparado
adequadamente seu “terreno”. Assim se fazia presente a culpa em quem acreditava
ser um terreno improdutivo ou caía-se no farisaísmo, passando a vida limitando-se
somente a cumprir normas e leis.
A verdadeira “semente” é o que há de Deus em nós.
“O
semeador saiu”.
Para semear nos campos, na terra, é preciso sair de casa. Deus é, ao mesmo
tempo, “semeador e semente”. Ele “desce”, faz um Êxodo, um
deslocamento em direção à humanidade, onde encontra diferentes terrenos.
Em nossa terra interior já está
semeada a presença de Deus; é como a semente enterrada que permanece
fértil debaixo da terra desértica pela seca prolongada, e o olhar de Deus é
como a chuva que ao cair desperta a vida presente na semente. Também gerará
novidades em nós, convertendo-nos em vidas germinais.
Deus
se derrama em todos e por todos da mesma maneira, não como produto elaborado,
mas como semente, que cada deve acolher e deixar-se fecundar por ela,
para poder frutificar. O decisivo é tomar consciência do divino que nos habita e viver em harmonia com essa realidade. O
fruto seria uma nova maneira de nos relacionar com Deus, conosco mesmo, com os
outros e com as criaturas.
A semente é o mesmo Deus-Vida
germinando em cada um de nós; sua presença é sempre fecunda.
Deus habita em suas criaturas e se
manifesta em todas elas como algo tão íntimo que se constitui como semente de
tudo o que é. Não devemos dar a entender que nós os cristãos somos os
privilegiados que temos recebido a semente (Escritura). Deus se derrama em
todos e por todos da mesma maneira (a mão-aberta).
Somente
aquele que se deixa semear experimenta o sabor da seiva da vida de Deus
entrando por suas raízes, percorrendo seu ser inteiro, fazendo-o crescer e
dando os frutos de que nosso povo precisa. Aquele que não se deixa semear vive
de ilusões e fantasias que envenenam sua existência.
Entrar no
fluxo da ação do Semeador divino é preciso sair de nossos espaços seguros, de
nossas ideias e convicções atrofiadas, de nossos próprios esquemas fechados e
abrir-nos aos diferentes terrenos.
Semear é
uma tarefa nobre na vida: semear trigo, trabalho, cultura, educação, semear
ética, valores, esperança, respeito, dignidade, sentido da vida...
Ao mesmo
tempo que nobre, semear é uma tarefa de grande responsabilidade. Pais, mestres,
escolas, universidades, meios de comunicação, igrejas, etc., todos temos a
nobre e bela tarefa de semear.
Ao nos convidar a ter raízes profundas, o Evangelho de hoje está afirmando algo muito importante: nesta terra, nesta realidade social, cultural, eclesial e política, já está semeado o Reino, já está viva e ativa a presença do Deus fiel que cria futuro. Nós nos alimentamos desta Presença na medida em que nos deixamos semear nela.
Texto bíblico: Mt 13,1-23
Na
oração:
Durante nossa vida
somos convidados a nos deixar cultivar, a sermos arados e regados pela presença
de Deus que é capaz de transformar e extrair o melhor fruto de cada um de nós.
Por isso a vocação cristã é tão simples: deixar-nos fecundar por esta presença,
deixar-nos fazer por ela e permitir que ela frutifique em nós.
- Sinta-se como a
própria Terra que, na sua evolução, chegou ao estágio de sentimento, de
compreensão, de vontade, de responsabilidade, de veneração, carregando em seu
ventre a presença d’Aquele que é, ao mesmo tempo, Semeador e semente.
sábado, 8 de julho de 2023
A gratidão dá “sabor e calor” à vida
Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 14º. Domingo do Tempo Comum (Ano A).
“Dou-te graças, Pai, Senhor do céu e da terra!” (Mt 11,25)
Sabemos, através dos evangelhos, que Jesus foi sempre um homem de oração, de intimidade profunda com o Pai, nos silêncios da noite, nas montanhas, nos desertos... Nenhum evangelista nos relata o conteúdo da oração nestes momentos de solitude (solidão habitada).
No Evangelho deste domingo, Mateus “pega Jesus em flagra” e nos revela não só o modo como Jesus vivia sua relação com o Pai, mas o conteúdo desta intimidade, através de palavras carregadas de gratidão, de assombro, de admiração...; trata-se de um louvor, um canto à vida.
Estes versículos deixam transparecer um estado de exultação que não nasce de nenhum estímulo exterior concreto. Nada do que precede justifica o canto que segue. Brota, sem dúvida, de um estado permanente, cheio de agradecimento assombrado, que vai mais além de um sentimento momentâneo. É um estado de gratidão que emerge do seu coração comovido, que nem a traição e o fechamento de cidades como Corazim e Betsaida são capazes de fazer sombras.
Mateus reúne aqui vários ditos, que parecem expressar atitudes e sentimentos característicos do Mestre de Nazaré. E, nesses sentimentos, deixa transparecer sua verdade mais profunda: a gratidão, a intimidade com o Pai, a proximidade bondosa para com aqueles que estão suportando fardos desumanos, o convite a permanecer na mansidão e na humildade, o oferecimento de uma mensagem que é descanso...
A gratidão parece brotar aos borbotões das entranhas mesmas de Jesus. Isso não é estranho se temos em conta que, junto com a compaixão, a gratuidade constitui a coluna vertebral de toda sua mensagem. E é impossível experimentar gratuidade sem que surja a gratidão.
Quando tomamos consciência de que tudo é Graça, para além de todas as expressões superficiais, brota um agradecimento espontâneo, permanente e profundo.
Mas isso requer uma condição: experimentar-nos em sintonia com a corrente da Vida que procede do Pai, na qual reconhecemos nossa verdadeira identidade. De fato, ao reconhecer-nos no fluxo da Vida, em meio a tudo o que acontece, descobrimos que a gratidão é outro dos nomes de nossa identidade profunda. Na medida em que cresce a compreensão de nós mesmos, reconhecemos que, vista a partir do plano espiritual, a gratidão não é simplesmente uma ação ou qualidade – algo que podemos viver com maior ou menor intensidade -, mas outro nome de nosso ser original: “somos gratidão”, é da nossa essência mais nobre. Por isso, ao vivê-la conscientemente, experimentamos comunhão, unificação e plenitude: estamos vivendo o que somos.
A gratidão é, ao mesmo tempo, um sentimento e uma atitude admiravelmente terapêuticos, capaz de sustentar o nosso “tônus vital”. Por um lado, nos afasta do funcionamento da queixa; por outro, constitui o melhor antídoto frente ao desalento ou o desânimo.
Na medida em que a exercitamos, ela vai nos transformando interiormente e enriquecendo nosso modo de viver a relação com os outros. Em certo sentido, poder-se-ia dizer que ela expande o nossopróprio coração, favorece a alegria de viver e facilita poderosamente a convivência.
Por pouco que a observemos, poderemos advertir que a gratidão genuína não depende tanto daquilo que nos acontece, quanto do modo como recebemos aquilo que acontece. Se damos graças unicamente quando nos ocorre algo que consideramos “agradável”, não temos saído ainda de nosso egocentrismo.
A gratidão autêntica é profundamente unida com a vida, flui com ela. Nasce e se apoia na compreensão de que, para além dos juízos que nossa mente possa fazer, no fundo, tudo é graça. A gratidão está intimamente relacionada com a capacidade de “ver”. Por isso, quando sabemos ver, a gratidão aflora sem obstáculos.
Pelo contrário, se permanecemos aferrados às nossas expectativas – “a vida deve responder ao meu próprio querer, interesse e desejo” -, a frustração inevitável trará consigo a resistência e o sofrimento, o enfado, a queixa e o vitimismo.
A gratidão, como força que nos “des-egocentra”, nos faz tomar distância de nossos pequenos interesses e nos abre à compreensão profunda de que, em último termo, tudo é dom, tudo é dado, tudo é graça... Somos seres agraciados, “cheios de graça”.
Como o amor, como a alegria, a gratidão é uma arte. E, enquanto tal, precisa ser exercitada em um treinamento cotidiano, no qual, conscientemente, damos graças por tudo.
Assim compreendido, poderíamos dizer que a existência inteira de uma pessoa sábia é vivida entre duas palavras: “agradecido” e “sim”. Por tudo o que aconteceu, agradecido(a)!; diante de tudo o que virá, sim!
Ao entrarmos em sintonia com o coração “manso e humilde” de Jesus temos a oportunidade de recuperar algo que a cultura pós-moderna apagou de nossa consciência: a capacidade de admiração, a possibilidade do assombro diante de tantas realidades, simples, mas divinizadas, que nos passam desapercebidas. Custa-nos muito maravilhar-nos porque não despertamos a capacidade de assombro e de valorizar tudo o que desfru-tamos, desde o cosmos até pequenos prazeres diários como tomar um café em boa companhia.
Nosso contexto social não facilita um contínuo louvor, um “canto à vida”. Basta repassar o olhar sobre diferentes realidades – político-econômico-religioso-cultural-ecológico – para nos dar conta da dificuldade objetiva de sairmos dos trilhos das lamentações e queixas. Esquecemos muitas coisas porque não as valorizamos até que nos faltem: saúde, convivência, trabalho, possibilidade de ajudar os outros, a capacidade de superação das adversidades, a própria vida em si mesma como um campo maravilhoso no qual podemos nos esforçar para deixar transparecer as melhores potencialidades de nosso ser...
“Dar graças”, “agradecer”, “louvar” ... é também uma questão de memória. Por isso o Papa Francisco fala com frequência de “memória agradecida”.
Só a “memória agradecida” está em condições de nos ajudar a entender o sentido, a profundidade e a verdade dos acontecimentos, das pessoas, da realidade que nos envolve..., pois temos de adotar determinada perspectiva e certo grau de isenção no julgamento, a fim de decifrar seu significado. Ela nos distancia estrategicamente dos acontecimentos para poder captar outro sentido, escondido neles. Eles passam a serem vistos sob nova luz para serem ressignificados.
Só a “memória redentora” mobiliza nossos melhores recursos, ativa os sentimentos oblativos e é fonte de vida espiritual pois continua alimentando ressonâncias no cotidiano.
Re-cordar (visitar de novo com o coração) os benefícios concedidos por Deus nutrem nosso presente com Sua Santidade e nos desperta para um futuro novo.
Por isso, a “memória agradecida” é o húmus natural de onde brota a gratidão.
Ao “fazer memória” dos dons e bens recebidos, brota naturalmente em nosso interior, o desejo de dar uma resposta generosa e radical ao Deus que é Fonte de tudo. E é Ele mesmo quem, ao criar-nos gratuitamente no amor, nos ensina a “sermos gratuitos e gratos”; só a generosidade gratuita do coração de Deus é capaz de reconfigurar mentes e corações, encorajando atitudes oblativas em nós.
É a gratidão que ativa em nós o ânimo e a generosidade diante do futuro de nossa missão.
Com isso, a esperança e o entusiasmo por viver vem habitar nosso interior. Trata-se de um momento tão fortalecedor e jubiloso que estremecemos reverentes diante do que vivemos e diante do que virá.
Este é o processo vital que se torna um “estilo de vida”, pois, motiva a busca, desperta o interesse, faz olhar para frente, cria disposição para a construção de respostas novas, desperta o desejo de crescer, amplia os horizontes...
Texto bíblico: Mt 11,25-30
Na oração: Em sintonia com o coração de Jesus, cheio(a) de gratidão, sinta-se convidado(a) a uma leitura orante de todos os sinais do Amor de Deus manifestados ao longo da história da sua vida, bem como trazer à sua memória todos os bens recebidos ao longo deste tempo. Ponderar com muito afeto tudo o que o Senhor fez por você, por meio de muitas pessoas, da sua história passada e presente; como Ele o(a) cumulou de seus próprios dons e, além disso, continua cumulando-o(a).
- Marcado(a) pela experiência da oração, deixe emergir a fina percepção de que tudo é dom de Deus, tudo é Graça, tudo é dado “de graça”. Crie um clima de contínua ação de graças.
quarta-feira, 28 de junho de 2023
Como integrar “Pedro e Paulo” em nossas vidas?
Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos (Ano A - 2023).
“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15)
Neste
domingo, a liturgia nos convida a “fazer memória” de S. Pedro e S. Paulo,
dois personagens instigantes, inspiradores e motivadores para todos nós
cristãos, seguidores(as) d’Aquele que continuamente nos desafia com sua
pergunta: “E vós, quem dizeis eu sou?”
Não se
trata de dar uma resposta teológica, mas de reforçar nossa adesão e
identificação à pessoa de Jesus Cristo. Por isso, cada um responde de maneira
diferente, porque não há um seguimento igual para todos.
Foi assim
que, Pedro e Paulo, com suas personalidades tão distintas, deixaram-se impactar
pela pergunta de Jesus e souberam responder com a vida; por isso, eles são
referências para nós.
Há
perguntas inofensivas, fáceis de responder e que não nos comprometem. O
problema está quando nos fazem perguntas nas quais nos sentimos implicados.
Há
perguntas que parecem ser de pesquisas; e há perguntas que nos des-velam por
dentro. Há perguntas secundárias sobre as quais podemos dizer qualquer coisa. E
há perguntas
essenciais que nos movem a falar de nós mesmos. E essas perguntas doem
porque são perguntas que desnudam o fundo de nosso coração. São perguntas que
nos implicam naquilo que somos realmente.
O perguntar é ousado, instigante; perguntar contém desafio, provocação;
leva dose de irreverência.
“Perguntar é mergulhar no abismo” (Exupèry). As perguntas têm uma força que não
encontramos nas
respostas. Enquanto perguntamos por alguém, palpita em nós um impulso, um
interesse que não se apaga enquanto não sacia nossa curiosidade.
A pergunta é movimento; é a pergunta que faz emergir a novidade,
pois ela ativa a busca por uma resposta criativa. Mais ainda, perguntar
põe em crise certas convicções, ideias fechadas, modos arcaicos de viver...e
nos mantém em busca permanente.
É neste nível que surge a pergunta de Jesus aos
discípulos, na região de Cesareia de Filipe.
Ele não pergunta aos seus discípulos sobre o que pensam a
respeito do Sermão da Montanha ou sobre sua atuação curativa juntos aos doentes
da Galileia. Para seguir Jesus, o decisivo é a adesão à sua Pessoa. Por isso
quer saber o que eles pensam e sentem, depois de um tempo de convivência com
Ele.
Jesus
propõe a pergunta fundamental, “e vós, quem dizeis que eu sou?”;
uma pergunta exigindo que eles se examinem a sério, que tomem consciência do
que pretendem, que explicitem as reais motivações que os levam a segui-lo.
Responder à pergunta “Quem sou eu para vocês?” é fazê-los comprometer com um
novo estilo de vida, é assumir o novo caminho com Ele, é arriscar-se numa
aventura.
A pergunta
é desafiadora, e não simples curiosidade e inquietação, e se dirige a todos.
Cada um tem de dar sua resposta. Ela exige uma tomada de posição, um ato de fé.
Pedro e
Paulo responderam com suas vidas a pergunta
feita por Jesus; por isso, eles não são somente duas colunas que sustentam a
grande comunidade cristã; eles representam as duas dimensões
essenciais para o dinamismo da Igreja. A liturgia intuiu que é preciso integrar
as identidades destes dois personagens. Não se pode privilegiar um em
detrimento do outro.
Nos Evangelhos, Pedro
é o pescador que, impactado pela presença e pelo convite de Jesus, vai
entrando, aos poucos, em sintonia com Ele. Um encontro que vai crescendo em
adesão à proposta do Reino; um caminho de seguimento que tem seus momentos de
obscuridade e de crise, sobretudo ao ver o fracasso do Mestre condenado pelas
autoridades religiosas e políticas.
Pedro é o protótipo do cristão que vai se convertendo,
abrindo-se à presença desconcertante de Deus na conduta histórica de Jesus. Em
Pentecostes, Pedro fala em nome dos primeiros discípulos, cuja fé vem a ser
normativa para todas as gerações que se sucedem na história da igreja. Ele confessa o artigo central e original da
fé cristã: “Jesus
Cristo é o Filho de Deus vivo”. E se a Igreja se mantém firme nessa confissão, nada nem
ninguém a destruirá.
Entre
os discípulos de Jesus, Pedro foi sem dúvida o mais atirado, o mais impulsivo,
com o perigo que isso implica. Era o líder do grupo, o primeiro a falar em
qualquer circunstância, sem medo de repreender Jesus quando este anuncia sua
paixão, sem medo de levar uma reprimenda quando Jesus quer lavar os pés ou
quando anuncia que todos o trairão. O fato de ser tão lançado o situa também no
lugar mais perigoso, o da negação de Jesus. Mas, ele mesmo termina confessando depois
da ressurreição: “Tu sabes tudo, tu sabes que te amo”. Não é
novidade que Jesus o visse como o líder natural do grupo depois de sua morte e
ressurreição.
Paulo,
por sua vez, é o homem universal. Alcançado e convertido pela presença do
Ressuscitado, ele abriu a Igreja ao mundo grego e romano, superando os moldes da
religião judaica. Com sua itinerância, rompeu as fronteiras geográficas,
culturais e religiosas, pois, para ele, o Evangelho de Jesus é anúncio de
salvação para todos os povos. O que muitos não conhecem é a revelação que Deus
lhe fez e que ele tanto insiste em suas cartas: que a boa notícia de Jesus não
era só para os judeus, mas também para toda a humanidade.
A expansão da Igreja primitiva é humanamente inconcebível
sem a figura de Paulo. Percorreu milhares de quilômetros e se expôs a todo tipo
de perigos para levar o anúncio de Jesus “até os confins da terra”.
Em chave de interioridade podemos
afirmar que Pedro e Paulo são também dimensões de nosso ser. “Pedro”
representa a solidez interior, a certeza, a convicção, os valores... Viver a
“dimensão Pedro” é cuidar dos fundamentos de nossa vida, a rocha sobre a qual
construímos a maneira de viver o seguimento de Jesus.
Nossa própria interioridade é
a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que temos, para encontrar
segurança e caminhar no seguimento superando as dificuldades e os inevitáveis
golpes na luta pela vida. É no “eu mais profundo” que as forças
vitais se acham disponíveis para nos ajudar a crescer dia-a-dia, tornando-nos
aquilo para o qual fomos chamados a ser. Trata-se da dimensão mais verdadeira
de nós mesmos, a sede das decisões vitais, o lugar
das riquezas pessoais, do melhor que há em nós,
onde se encontram os dinamismos do nosso crescimento, de onde
partem as nossas aspirações e desejos fundamentais,
onde percebemos as dimensões do Absoluto e do Infinito da sua
vida.
“Paulo”, por sua vez, nos fala da força expansiva, da
saída de nós mesmos, de abertura às realidades diferentes. Das
raízes profundas brotam as respostas mais criativas e duradouras; a interioridade
desvelada ativa a solidariedade e o compromisso como acesso à realidade
para transformá-la, desencadeando um movimento de profundas mudanças.
Fundamentados sobre a rocha interior,
nossa vida se expande, nos tornamos mais abertos e sensíveis, capazes de
escutar os acontecimentos, alimentar uma atenção contemplativa frente à
realidade que nos cerca, respondendo a seus apelos e tomando decisões maduras e
evangélicas.
Viver a “dimensão Paulo” é abrir-nos à desafiante
realidade, entrando no fluxo da “Encarnação do Verbo no mundo” e sendo
presenças portadoras da Boa-Notícia do Evangelho.
Como harmonizar “Pedro e Paulo” em
nossa vida, para que nosso seguimento de Jesus tenha a marca da criatividade?
Inspirados por eles, nossa vida cristã se centra na identificação com Jesus; afinal, não somos seguidores de uma religião, doutrina, rito..., mas de uma pessoa. E essa identificação se expressa como resposta que damos à pergunta feita na região de Cesareia de Felipe: “e vós, quem dizeis que eu sou?”.
Texto bíblico: Mt 16,13-20
Na
oração:
Busque, na oração, cavar mais profundamente, até atingir a rocha de seu ser, o fundamento original e consistente de sua
personalidade.
- Quais são os valores perenes, as visões
ousadas, as experiências fundantes, as opções duradouras... que constituem a
rocha inabalável, sobre a qual construir sua vida? Como ser “presença paulina”
no seu contexto social, religioso, cultural...?
quarta-feira, 21 de junho de 2023
Medo ou confiança: quem determina nossa vida?
Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 12º. Domingo do Tempo Comum (Ano A).
“Não tenhais medo!” (Mt 10,31)
Uma das grandes
insistências de Jesus no Evangelho é, sem dúvida, esta: “não tenhais medo!”
Jesus sempre se
revelou um profundo conhecedor da condição humana; percebeu claramente que
muitas pessoas eram marcadas por tremendos medos, impedindo-as viver com
sentido e plenitude. Ele tinha plena consciência que os maiores medos eram
alimentados pela religião, centrada nas leis, nos ritos, nas doutrinas...
gerando sentimentos de culpa e angústia diante do futuro. Pior ainda, eram os
controladores da religião que manipulavam os medos, tendo o controle sobre as
pessoas e impondo a imagem de um Deus que ameaça e castiga. É o chamado “poder
de consciência” exercido pelas autoridades religiosas que tem feito e continua
fazendo tantos “estragos” nas consciências dos indivíduos.
Diante desta dura
realidade, Jesus sempre procurou despertar a esperança nas pessoas, alimentando
um clima de confiança no Pai e da busca de vida plena: “Vim para que todos
tenham vida e vida em plenitude”.
Medo e confiança são duas emoções fortes
presentes no desenvolvimento do ser humano; dependendo de como alimentamos uma
ou outra, assim será nossa vida: carregada de medo (atrofia, paralisia
existencial...) ou de confiança (criatividade, mobilização dos melhores recursos
internos, busca, inspiração...)
O medo é o oposto da
confiança. Os neurocientíficos confirmam que ambas as emoções usam as mesmas
redes neuronais. Isso quer dizer que, alimentar o medo, consciente ou
inconscientemente, significa solapar a possibilidade de confiar.
O medo nos incapacita para a confiança, que é a atitude humana
sobre a qual se assenta o dom da fé; o medo seca as fontes da
esperança, impedindo-nos viver com prazer e alegria.
Sabemos
que o medo é uma emoção importante que nos permite detectar as ameaças e
proteger-nos diante delas. Faz parte, portanto, de nosso equipamento biológico.
Seu
objetivo primeiro é defender-nos, seja fugindo, seja ativando energias para
enfrentar a ameaça.
O
problema surge quando a ameaça não é real, mas fabricada e alimentada por nossa
mente, como consequência de medos “herdados” através de gerações, de
experiências infantis mais ou menos traumáticas ou da ignorância de quem
realmente somos.
O medo é um câncer que
ameaça à fé, ao amor e à esperança de pessoas e instituições; ele corrói as
fibras humanas, asfixia talentos, esvazia a vida e mata a criatividade.
O medo encolhe o ser
humano, inibe a decisão e bloqueia os movimentos em direção ao “mais”.
A intensidade do medo pode
anular a capacidade de reação das pessoas ou das instituições; ele impede o
discernimento e a busca da solução mais inteligente para os problemas; longe de
resolvê-los, pode agravá-los a médio e longo prazo.
O medo nos
acovarda e nos constrange, nos isola e nos obriga a viver na defensiva, em
permanente estado de alerta. O medo é paralisante; o medo nos impede ser nós
mesmos; o medo nos acovarda diante daqueles que não pensam como nós; o medo
impede afirmar nossa identidade de seguidores(as) de Jesus.
O medo
nos mimetiza como alguns insetos que, diante do perigo, mudam de cor para não
serem vistos e reconhecidos. O medo pode minar nossas esperanças, esvaziar a
capacidade de amar, atrofiar a força de nossas ideias... Enfim, o medo obscurece o
sentido e a direção da vida, tira o brilho tão próprio do amor, nos bloqueia e
nos enterra na acomodação mesquinha.
O medo não só é explorado
por empresas que se dedicam a todo tipo de seguros, mas também pelas religiões,
que exploram seus seguidores vendendo-lhes o “paraíso”, depois de ter-lhes
infundido um medo irracional ao sagrado. Somos bombardeados constantemente por uma “pastoral do medo”, que
continua tendo uma influência nefasta.
Geralmente, os controladores das
religiões tentam manipular a “divindade” para colocá-la a serviço de seus
interesses egoístas. O medo induzido é o instrumento mais eficaz para dominar
os outros. Historicamente, as autoridades religiosas utilizaram sempre desse expediente
para conseguir a docilidade de seus súditos.
Evangelicamente falando, o medo
é sinal de que ainda não entramos na dinâmica do Reino, no caminho de Jesus; o
medo nos faz refugiar numa fé alienante, que não arrisca nada, que não se
compromete com nada, que não vai mais além de nossa auto-realização narcisista,
fechados numa prática devocional estéril.
Os medos
não costumam apresentar-se de rosto descoberto; mascaram-se, porque são
sintomas de debilidade; tornam-se vergonhosos para nós. Eles se disfarçam para
se tornaram mais aceitáveis.
Existem muitos
medos escondidos por trás das atitudes tirânicas de rigidez, de legalismo, de
intransigência ou de intolerância. Recorremos a eles para ocultar-nos e
defender-nos contra o novo e o diferente.
O Papa Francisco
afirma que por detrás das atitudes intolerantes está o frio hálito do medo.
O medo empurra na
direção dos individualismos, dos fanatismos e das soluções que contemplam
simplesmente os próprios interesses.
O medo
enche de sombras o horizonte, tornando impossível uma decisão clarividente e
ordenada. O medo cega, agita a imaginação e precipita juízos e decisões,
criando impedimentos sérios para a vivência da fraternidade e para a coragem de
compreender a vida como doação de si para o bem dos outros.
Quem é capaz de
sentir compaixão, bondade, mansidão..., não se deixa afeta pelo medo e nunca
será fanático, nem intolerante, nem intransigente...
Frente a tais
medos-fantasmas, criados e alimentados por uma mente temerosa e ignorante, a
mensagem das pessoas sábias aparece marcada pela confiança. É o que
percebemos em Jesus de Nazaré, quem, de maneira constante, insiste: “Não tenhais medo”!
Confiai!
A confiança
brota da compreensão, da certeza de que aquilo que somos se encontra sempre a
salvo. Nas palavras do próprio Jesus: “podem matar o
corpo, mas não podem matar a alma”.
A confiança não
surge de um voluntarismo a toda prova, mas da experiência profunda de quem é
Deus para nós. Aceitar e acolher nossas limitações e descobrir nossas
verdadeiras possibilidades, é o único caminho para chegar à total confiança.
Confiar em Deus é
confiar em nosso próprio ser, na vida, naquilo que somos de verdade. Não se
trata de confiar em um ser que está fora de nós e que pode nos dar, a partir de
fora, aquilo que nós desejamos. Trata-se de descobrir que Deus é o fundamento
de nosso próprio ser e que podemos estar tão seguros de nós mesmos como Deus
está seguro de si.
Por maior que seja
o motivo para temer, sempre será maior o motivo para confiar. Confiar em Deus é
acolher nossa realidade, rica e pobre, iluminada pela Sua presença. Confiar em
Deus não é esperar sua intervenção a partir de fora para que retifique a criação.
É entrar na dinâmica da criação e não a violentar.
É deixar-nos conduzir pela energia da vida que sabe perfeitamente onde tem de nos levar. É deixar que a vida flua pelos canais que nosso Criador nos proporcionou: presença solidária, compaixão, amor, alegria, abertura ao novo, espírito de busca...
Texto bíblico: Mt 10,26-33
Na oração:
Redenção é libertação do
medo. É preciso olhar para o alto, encher os pulmões, erguer a cabeça, abrir o
sorriso, e dar boas-vindas à vida; é ativar a força do destemor e a alegria da
coragem.
É este o significado da redenção: a capacidade de ter confiança
em Deus e, como consequência, nas pessoas e em toda a criação, para trabalhar
em liberdade e viver com alegria.
- No dia a dia, você alimenta mais o
medo ou a confiança?