quarta-feira, 20 de março de 2024

Domingo de Ramos

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o relato da "Entrada de Jesus em Jerusalém" - Domingo de Ramos.

Humanizar nossa Jerusalém através de relações mais amorosas

Depois de um longo percurso quaresmal chegamos às portas das celebrações centrais da nossa vida cristã: Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.

Nas celebrações da Semana Santa, muitas vezes corremos o risco de nos deter no secundário e esquecer o essencial. E o mais essencial é que as diversas celebrações (procissões, via sacra, liturgias...) nos aproximem e nos façam crescer na identificação com o protagonista principal: Jesus de Nazaré.

Por isso, precisamos voltar constantemente ao Evangelho para compreender o mais essencial sobre Jesus. Recuperemos, como diz o Papa Francisco, o frescor original do Evangelho.

E a primeira coisa que o Evangelho nos diz é que Jesus foi um buscador de alternativas.

Ele não foi conivente e nem compactuou com a estrutura social-política-religiosa de seu tempo, que era profundamente desumanizadora. Sonhou novas possibilidades de vida e novas relações entre as pessoas. Por isso, ao anunciar o Reino, transgrediu a situação vigente e, a partir das periferias, foi despertando uma alentadora esperança nos corações dos mais pobres e excluídos, vítimas de um mundo fechado.

Jesus sempre sonhou com uma “nova humanidade”.

A Campanha da Fraternidade deste ano (“Vós sois todos irmãos”) constata esta realidade: há profundas divisões e conflitos em nossa sociedade, rompendo as relações fraternas e acentuando mais ainda os diferentes distanciamentos que estavam escondidos, mas que agora vieram à tona com mais força. A Paixão de Jesus continua na paixão dos excluídos, das vítimas e de todos os rejeitados de nossos ambientes.

A vida de Jesus foi uma grande subida em direção a Jerusalém; e nesta subida, segundo os relatos evangélicos, Ele desconcertou a todos. Evidentemente, desconcertou as pessoas mais religiosas e observantes da religião judaica: fariseus, escribas, sacerdotes, anciãos...

Ele desencadeou na história da humanidade um “modo de viver” que quebrou toda estrutura petrificada, sobretudo religiosa, constituindo um “movimento” ousado que colocava o ser humano no centro.

Este movimento, desencadeado na Galileia, chega agora às portas da “cidade santa”, Jerusalém. Aquele homem que movia multidões por todo o país, por sua pregação e milagres, não é um revolucionário violento. E, no entanto, nem por isso deixou de ser provocativo, transgressor e perigoso. E tudo em nome da vida.

Jesus participava do sonho de todo o povo de Israel que via em Jerusalém a cidade da promessa de paz e plenitude futura, lugar para onde deviam vir em procissão todos os povos da terra. A tradição profética havia anunciado uma “subida” dos povos, que viriam a Jerusalém para iniciar um caminho de comunhão, de justiça e adorar a Deus no Templo, que estaria aberto para todos. Toda a cidade se converteria num grande Templo, lugar onde se cumpriria a esperança dos povos.

Jesus, presença de vida nos povoados, vilas e campos, quis também levar vida a uma cidade que carregava forças de morte em seu interior. Ele quis pôr o coração de Deus no coração da grande cidade; desejava re-criar, no coração da capital, o ícone da nova Jerusalém, a cidade cheia de humanidade e comunhão, o lugar da justiça e fraternidade...

Jesus entra na grande cidade de Jerusalém montado num jumentinho, sinal da humildade e da simplicidade; sinal da pobreza evangélica, que são os verdadeiros sinais de sua messianidade. E morrerá desnudo em uma cruz, em meio às chacotas e burlas de todos.

Não basta pregar a pobreza; é preciso descer ao mundo dos pobres. Não basta falar dos pobres; é preciso fazer-se pobres com os pobres, partilhando a mesma pobreza. É preciso menos sapatos lustrados e mais pés cheirando a pó dos caminhos. Deus não necessita de Ferraris e Mercedes; a Deus lhe basta um jumentinho.

As nossas cidades também estão se revelando, cada vez com mais intensidade, como espaço de grandes rupturas e violências, lugar de exclusão e isolamento, visibilização de uma desumanização trágica.

Também os muros estão voltando à moda. Há em todo ser humano uma tendência a cercar-se de muros, a encastelar-se, a criar uma rede de proteção. Os muros, no interior das cidades, são muito concretos: muros sociais, religiosos, políticos, culturais... Com tantos muros é impossível estabelecer relações de fraternidade e reconciliação.

O gesto profético de Jesus de “entrar em Jerusalém” nos convida a contemplar nossas cidades e nos desafia ser presença evangélica, portadora de vida nos nossos grandes centros urbanos.

Por causa de seu tipo de vida e de sua espiritualidade, o(a) seguidor(a) de Jesus desenvolve uma relação específica com o espaço urbano. Para ele(ela), a cidade é também o espaço para a busca e o encontro de Deus. Podemos falar de um “típico modo de proceder cristão” em sua referência ao espaço urbano.

A cidade é uma realidade humana que pode e deve ser iluminada pelo Evangelho, sustentada pela graça, animada pela esperança da vinda do Reino. É necessário aprender a ler a cidade com os olhos caridosos, pacientes, misericordiosos, amigos, fecundos, cordiais...

É preciso reconhecer o bem profundo que habita o coração de tantas pessoas da cidade; é necessário perceber e sentir a força da ação do Espírito em cada canto da cidade e em cada rosto anônimo que encontramos.

Deus constrói a cidade perene, a cidade sem muralhas, a cidade da plenitude e da amizade, a cidade da fraternidade na qual todos se reconheçam como irmãos e irmãs sob um único Nome e sob um único Céu. Deus é o grande arquiteto; é Ele quem constrói, para a humanidade, a imensa cidade na qual todos se reconhecem fraternos, próximos, ternos...

Como seguidores(as) de Jesus, é preciso voltar a pôr o coração de Deus no coração da grande cidade”, para renová-la a partir de dentro.

Faz-se necessário uma opção por adentrar e viver imersos, com todas as consequências, no interior dos grandes centros urbanos, em seu coração, para aí descobrir o verdadeiro coração de Deus, que pulsa ao ritmo dos despossuídos, dos excluídos, dos sofredores e dos sedentos por uma vida mais digna.

Nosso zelo e amor pelo Evangelho e pela semente do Reino que nele está contida, deve favorecer o advento de uma “Nova Jerusalém”; é preciso cuidar o coração do “ser humano urbano”, esvaziá-lo, limpá-lo, aquecê-lo, transformá-lo em humilde receptáculo, para que o Espírito do Senhor possa pousar-se e habitar nele como num ninho acolhedor, transmitindo-lhe vida, luz, calor, paz, ternura...

Uma das tarefas prioritárias do cristão de hoje é ajudar as comunidades cristãs a criar espaços fraternos de silêncio, de oração, pulmões que impedirão a asfixia de nossas grandes cidades;

* encontrar lugares de silêncio pacificador” na vida pública;

* nossas instituições devem ser escolas do silêncio habitado”.

A espiritualidade urbana deve nos possibilitar “paradas” com a finalidade de olhar em profundidade e “ler” tudo à luz da Palavra de Deus. A cidade é o lugar por excelência do discernimento, porque é o espaço de decisão onde se constrói o futuro comum. Lugar da política, da cultura, da educação, da saúde...  onde se forjam as mudanças, a capacidade de criar novos modos de existir, de romper com as estruturas que desumanizam e buscar o diferente, o novo, o desconhecido...

Para oração:

+ Leia atentamente o Evangelho indicado para a procissão de ramos; prepare-se para fazer uma contemplação: Mc 11,1-10

+ Com a imaginação recrie o cenário evangélico: a cidade de Jerusalém, o grande Templo, a diversidade de pessoas... Com a chegada de Jesus, montado em um burrinho e uma grande multidão, faça-se presente, procurando olhar as pessoas, escutar o que elas dizem, observar o que elas fazem...

+ Faça um colóquio com Jesus, expressando sua admiração pela atitude ousada e corajosa dele. Fale com Ele sobre sua presença na cidade onde mora: desejo de ser presença inspiradora, profética, de compromisso com a construção de relações humanizadoras...

+ Traga à “memória” o que é mais desumano na sua cidade: como você reage diante disso? passivo? suporta? denuncia? atua?...

+ Procure descobrir “sinais do Reino de Deus” no meio do ritmo frenético de sua cidade.

+ Traga à mente nomes de pessoas corajosas e criativas que contagiam e fazem crescer a esperança na sua cidade.

sexta-feira, 15 de março de 2024

Desata a Vida de Deus que já Está em Ti!

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 5º  Domingo da Quaresma (2024).

 “Quem se apega à sua vida, perde-a” (Jo 12, 25)

O percurso quaresmal está chegando ao seu cume; aproxima-se o desenlace final de uma vida entregue em favor da vida. Jesus sente o clima pesado de rejeição por parte das autoridades religiosas. Estamos no cap. 12 do quarto evangelho. Depois da unção em Betânia e da entrada triunfal em Jerusalém, e como resposta aos gregos que queriam vê-lo, João põe na boca de Jesus um pequeno discurso que não responde nem aos gregos, nem a Felipe e André. Mais uma vez Jesus fala da Vida, da sua vida; Ele tem plena consciência que não viveu em vão: viveu des-centrado, investiu suas melhores energias vitais em favor de uma causa, sua vida deixou transparecer um profundo sentido.

Compreendemos melhor o evangelho deste domingo se o situamos no contexto da última viagem de Jesus a Jerusalém: nesta viagem se entrelaçam a vida e a morte com muita força.

E, ao chegar a Jerusalém, proclama de novo o triunfo da vida, como fizera durante sua itinerância pela Galileia. Ele nos revela esta verdade, nem sempre muito clara para nós: embora pareça que a vida se decompõe como o grão de trigo, na realidade, o que acontece é uma eclosão de sua fecundidade. Embora pareça que amar os outros e entregar a vida, dia após dia, é uma perda, na realidade é o maior ganho, porque nossa limitada vida se transforma numa vida plena, intensa, com sentido (eterna). Embora pareça que pôr-se a serviço do Reino é perder a liberdade, na realidade significa investir o melhor que há em nós, potencializando nossos recursos para investir numa causa mobilizadora, que é a causa do mesmo Jesus. Embora estejamos tão perturbados como Jesus, desejando que nos livre de qualquer processo que conduza ao sofrimento e à cruz, há um horizonte de glorificação e plenitude. Onde nos situamos neste confronto entre a vida e a morte?

A vida e a morte não são inimigas que se destroem; elas são amigas, irmãs inseparáveis.

Morre-se ao longo da vida. Este é o caminho normal de morrer.

A vida é o lento amadurecer da morte. Morre-se na vida, durante a vida, na medida em que a morte é fruto maduro das opções de toda a vida. As decisões fazem e farão a nossa morte. A morte nos ronda e nós rondamos a morte. “Começamos a morrer no dia em que nascemos”.

A experiência cristã nos revela o caminho de uma morte preparada ao longo da vida, porque a entende em relação com a vida e a vida em relação com a morte. Vida sem morte é irresponsável; viver sem morrer é viver menos. Tira a seriedade da vida.

Só assumida em liberdade e ativamente, a morte se humaniza. Na fé, cristianiza-se.

A consciência de nosso próprio fim nos leva a pensar num sentido para a existência, para que não termine no vazio e no absurdo. Podemos afirmar, então, que “a morte está na vida”.

Entre os valores humanos fundamentais está o sentido.

A questão do “sentido da vida” ou a “vida com sentido” é fundamental na existência humana.

- Por que vivemos? Para que vivemos? Quanto vale uma vida e o que vale na vida?

- Quem quer ficar ancorado? Quem não aspira preencher a própria vida de relatos, encontros, paixões,

gestos, lições, projetos, ideias e sentimentos?

Qual o sentido da vida? Pergunta inquietante e parece que todos são por ela assombrados de vez em quando: “vale a pena viver?”

Ninguém tem uma razão pela qual viver se não tem ao mesmo tempo uma razão pela qual morrer.

O ser humano tem necessidade de uma causa, de canalizar todas as suas forças, seus desejos, energias, impulsos vitais e recursos internos e externos em direção a um objetivo no qual acredita apaixonadamente. E a ele dedicar-se com tudo que é e possui. Com intensa paixão.

Sabemos que, para viver uma vida verdadeiramente humana, precisamos de sentido. Segundo Nietzsche, “aquele que tem um porquê pelo qual viver pode tolerar praticamente qualquer como”.

Para Victor Frankl, fazemos a experiência do “sentido da vida” quando respondemos aos questionamentos da situação concreta em que vivemos, permitindo-nos a nós mesmos confiar em um “sentido último” que podemos chamar ou não de Deus.

Ao perder o sentido de sua origem e do seu fim, o ser humano perde o sentido da própria vida.

Portanto, o sentido da vida é algo que experimentamos visceralmente, sem que saibamos explicar ou justificar. Não é algo que se constrói, mas algo que nos ocorre de forma inesperada e não preparada, como uma brisa suave que nos atinge, sem que saibamos de onde vem nem para onde vai; é uma intensificação da vontade de viver a ponto de nos dar coragem para morrer por aquela causa que dá à vida o seu sentido.

É uma transformação de nossa visão de nós mesmos e do mundo, na qual as coisas se integram como uma melodia; isso nos faz sentir reconciliados com o universo ao nosso redor, possuídos por um sentimento oceânico, sensação inefável de eternidade e infinitude, de comunhão com algo que nos transcende, envolve e embala, como se fosse um útero materno de dimensões cósmicas.

Por trás do ritmo acelerado e estressante dos nossos tempos, esconde-se um enfraquecimento do sentido da existência. A crise pós-moderna que vivemos revela este traço sinistro: as pessoas não percebem mais razões e causas pelas quais se entregar, pelas quais dar a vida. E assim não encontram igualmente motiva-ções para viver intensamente. Segundo S. Inácio, uma pessoa vale pela causa à qual se entrega.

Muitas vezes, nossas fomes viscerais, nossos desejos que nos devoram as entranhas, nossos sonhos que nos inquietam... não encontram canais amplos para jorrar. E então se atrofiam, permanecendo reféns de uma triste mediocridade. “E a mediocridade não tem lugar na cosmovisão de Inácio” (Pe. Kolvenbach).

Surge então a “normose” que mina as forças, atrofia os sonhos e mata a criatividade. E o pior de tudo: anestesia a paixão. Se não há paixão naquilo que fazemos, tudo vira rotina cansativa, não há empenho e nem compromisso possível.

Viver a fundo” é não passar pela superfície da vida, é não perder a capacidade de amar, de vibrar, de buscar... Aqueles que são movidos pela paixão apostam que o ser humano tem potencial criador e foi feito para voar alto, para tentar, mil e uma vezes, alcançar cumes distantes.

Inspirados pelo evangelho deste domingo, somos convidados a tomar consciência de como estamos gerenciando esta dinâmica: viver para nós mesmos (ego) ou entregar a vida (oblação).

Enquanto o ego for o centro, doar soa estranho; ele só se preocupa consigo, conquista, executa, quer ser o melhor (“se outros perdem, eu ganho”) e é obeso por natureza (ego inflado); devorador.

Se alguém quer me servir, siga-me...”. “Diakonos” significa servir, mas por amor. É no serviço e no seguimento de Jesus que as potencialidades de vida são ativadas.

Jesus convida a segui-lo no caminho que acaba de traçar, ou seja, doar a vida a serviço da vida. Seguir Jesus é entrar na esfera do divino, é deixar-nos conduzir pelo Espírito. Nossa vida só se reveste de pleno sentido quando se põe a serviço da Vida maior. Participando da morte de Jesus, podemos também fazer de nossa morte um ato de decisão, de entrega, de oblação.

Texto bíblico: Evangelho segundo João 12,20-33

Na oração:

Examine, à luz do coração misericordioso do Pai, o percurso quaresmal vivido; des-velar estas três dinâmicas: a da gratidão, a do perdão e a da compaixão.

Em que medida elas se fizeram presente ao longo deste tempo litúrgico.

- São três atitudes que mobilizam o “melhor” que há em cada pessoa; três dinamismos que dão sentido à própria existência e abrem horizontes inspiradores; três forças que revelam a essência da vida cristã: identificação com Aquele que as viveu em plenitude.

terça-feira, 5 de março de 2024

Quaresma, tempo para ativar a luz interior

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 4º  Domingo da Quaresma (2024).

“Quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus” (Jo 3,21) 

Avança o tempo quaresmal e, neste quarto domingo, nos encontramos com um discurso de Jesus, essencial para compreender seu percurso até a Páscoa. Este texto faz parte do profundo diálogo que Ele manteve com Nicodemos. Este era um rico fariseu, mestre em Israel e membro do Sinédrio, mas com uma concepção do judaísmo mais aberta e com o convencimento de que Jesus era um enviado do Deus de Israel.

Nicodemos foi encontrar-se com Jesus de noite; não queria ser visto pois não lhe convinha. Sua boa reputação como mestre fariseu poderia vir abaixo se as pessoas descobrissem que ele foi ao encontro de Jesus, aquele que, com sua presença, havia provocado agitação na cidade de Jerusalém.

Na realidade, a noite não só era o cenário que o envolvia; Nicodemos precisava de luz diante da obscuridade que o habitava. Suas dúvidas sobre quem era Jesus iam crescendo na medida que este realizava sinais em meio ao povo.

O evangelho deste domingo poderia ter vários títulos, todos eles interessantes: aqueles que buscam na noite da vida; os cristãos anônimos noturnos; diálogo noturnos que falam de grandes amanheceres...

De fato, nesse encontro entre Nicodemos e Jesus fala-se de “grandes amanheceres”. É possível que Nicodemos visse algo estranho e interessante em Jesus e procurasse cooptá-lo para seu grupo.

E, no entanto, Jesus inverte totalmente a situação e lhe faz grandes anúncios.

Talvez, se não tivesse sido de noite, Nicodemos não teria se colocado em caminho. Ele é nosso espelho; o que acontece com ele, também se faz presente em todos nós.

Assustam-nos as dúvidas, as interrogações, as dificuldades que encontramos para entender o que acontece ao nosso redor e em nosso próprio interior. Mas, bendita noite que nos inquieta e nos tira de nossa anestésica comodidade! Bendita noite que nos move a nos perguntar os “porquês” e os “comos” e põe em questão nossa vida! Bendita noite que nos faz buscadores de sentido!

Por isso, o mestre busca o Mestre, o homem busca o Homem. E este lhe fala de “nascer de novo”, de nascer do Espírito. “Como pode ser isto?” E Jesus re-situa Nicodemos em seu caminho de fé.

Jesus, conhecedor de nossa humanidade, confirma a Nicodemos a existência da noite, a sua e a do mundo. Fala-lhe de obscuridades, da cegueira que nos leva, às vezes, a amar mais as trevas que a luz, do mal que provoca infelicidade.

Com suas palavras e ações, Jesus colocou em questão as verdades mais profundas de Nicodemos, aquelas certezas que o haviam configurado, aqueles pilares sobre os quais havia assentado, até então, sua vida e seu ensinamento da Lei.

Jesus reaviva sua memória para que Nicodemos não fique aí: “Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”. Jesus lhe oferece palavras de vida, que lhe recordam a possibilidade de eleger o bem, de agir na verdade, de caminhar para a luz.

E assim, no meio da noite, Nicodemos recupera a luz. Porque Jesus é a Luz; o Amor é a luz.

Foi a Ele de noite, e n’Ele encontrou a luz.

Uma luz tão intensa que o tirou de sua obscuridade, transformando sua vida; e, na morte de Jesus, será o próprio Nicodemos quem abraçará o corpo do crucificado para envolvê-lo em lençóis e perfumes.

O mestre dando testemunho público de seu amor ao Mestre; o homem fazendo-nos fixar nosso olhar no Homem, levantado na Cruz, para que n’Ele encontremos a Luz.

Quaresma é um tempo privilegiado para “descer” em nossas noites e responder estas perguntas: por que fugimos tanto de nós mesmos e de Deus? Por que preferimos viver iludidos, sem buscar a luz presente no nosso próprio interior? Porque costumamos praticar essa mentira com muita frequência: pensamos de um modo, mas em nossa maneira de viver não atuamos como pensamos, senão que buscamos manter as aparências, para que os outros tenham boa imagem de nós?

Jesus desmascara nossas mentiras existênciais; é preciso escutar suas palavras: “Quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus”.

O símbolo da luz está muito presente na Bíblia (e na vida). A luz é o princípio da criação da vida (Gn 1,3). O povo que vivia nas trevas, viu uma grande luz (Mt 4,16). Eu sou a Luz do mundo (Jo 8,12; 9,5).

A primeira ação e palavra de Deus no relato da Criação é precisamente dar existência à Luz, a Luz que é a

consciência e a capacidade de compreender, de dar sentido à realidade criada. Deus separa a Luz das trevas e o evangelho de hoje nos recorda que viver na Luz nos encaminha para a verdade do que somos.

Podemos eleger entre viver a partir da força da Luz, que nos move a fazer o bem, a realizar ações inspiradas pelo Deus-Amor, a co-criar uma nova humanidade..., ou viver a partir da tirania das trevas que nos enreda na obscuridade das armadilhas, justificações e a supremacia de nossos egos. Caminho complexo, de avanços e retrocessos, mas se nos situamos sob a influência da Luz poderemos avançar sem perder o horizonte da Vida eterna, eternizando a nossa vida, como plenitude do que já somos, mas ainda não plenamente.

Costumamos empregar o símbolo da luz nos momentos mais importantes da vida: as mães “dão à luz”. Quando alguém morre, pedimos a Deus Pai que lhe “conceda a luz eterna”. Em situações difíceis não vemos a luz, a saída. Às vezes, nos encontramos com pessoas que “não tem luz” ou nós mesmos somos carentes de luz por fraqueza, cansaços, falta de sentido etc.

Como cristãos, nos aproximamos d’Aquele que é a Luz, para que Ele ilumine nossa vida e nós transmitamos, reflitamos um pouco de Sua luz. Como cristãos, somos como João Batista: não somos a luz, Cristo é a luz.

A vida nos convoca a ser luz: como pais e mães de família que iluminam a vida de seus filhos; como companheiros e amigos que se iluminam mutuamente; uma comunidade religiosa deve deixar transparecer a luz presente em cada membro; a responsabilidade de um educador, de um mestre é grande à hora de iluminar, de ensinar mais com seu testemunho que com sua ciência; os psicólogos, os médicos iluminam também a vida, os problemas das pessoas; os presbíteros, os catequistas tem a responsabilidade de transmitir a luz de Cristo. A luz cristã está presente nos corações compassivos e misericordiosos.

A chama não precisa fazer um “esforço” para iluminar. Na nossa essência, já somos luz, carregamos a chama da luz divina; o que se requer de nós é não bloqueá-la. Isso implica atitudes de autenticidade e de transparência; “andar na verdade”.

Assim como a chama ilumina por si mesma, a luz brota em nós quando vivemos de uma maneira oblativa, sendo canais transparentes pelos quais ela flui. A nós, como a chama, basta ser o que somos e viver em coerência com isso. Então, crescerá em nós uma atitude de esvaziamento do ego e de liberdade interior: deixaremos que a Vida flua, sendo presenças iluminantes em cada recanto e em cada situação de nosso cotidiano. Sejamos transparência da luz divina!

Texto bíblico: Evangelho segundo João 3,14-21

Na oração:

Verificar, diante de Deus, se a experiência quaresmal está despertando em seu interior a faísca da luz divina, que o(a) tornará lúcido(a) para dar uma direção oblativa à sua vida; ao mesmo tempo, confirme se esta luz se revela como inspiração para viver o espírito solidário e o compromisso com aqueles que estão perdidos no mundo das trevas e da exclusão.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Jesus, o Homem das “Grandes Viradas”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 3º  Domingo da Quaresma (2024).

“...espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas” (Jo 2,15)

O simbólico ataque frontal ao Templo foi determinante para Jesus ser considerado como um subversivo e um blasfemo pelo sistema religioso e político de seu tempo. Os quatro evangelhos fazem referência a esse fato, o que mostra como indubitável e decisivo.

Jesus foi um profeta que viveu de tal maneira que quando começou a atuar e falar em público, entrou em conflito com os responsáveis da religião e os mais estritos observantes.

Jesus oferecia uma visão diferente daquela visão oficial do Templo; Ele olhava o mundo a partir de baixo, um olhar rente ao chão capaz de provocar uma reviravolta em tudo o que existe; Ele não se submeteu aos ditames das hierarquias políticas e religiosas de seu tempo.

Jesus foi o profeta da liberdade. Cumpriu perfeitamente a profecia de Isaías de proclamar a liberdade aos cativos da lei religiosa, e a liberdade aos oprimidos pelo sistema. Pensou e atuou completamente independente, à margem da mentalidade oficial imposta pela religião estabelecida e pela política do império. 

Ao “virar as mesas e espalhar as moedas”, Jesus estava atacando diretamente o tributo ao Templo e, com ele, ao sistema econômico religioso dominante. O Templo era, para Jesus, uma empresa que explorava economicamente o povo. De fato, o culto proporcionava enormes riquezas à cidade e aos comerciantes, sustentava a nobreza sacerdotal, o clero e os empregados. A ação de Jesus atingiu, portanto, um ponto nevrálgico: o sistema econômico e ideológico que o Templo representava em Israel.

O Templo era “casa do mercado”, e ali o “deus” era o dinheiro. Ao chamar a Deus “meu Pai”, Jesus não o identifica com o sistema religioso do Templo. A relação com Deus não é “religiosa”, mas familiar, está no âmbito da casa familiar. A relação se dessacraliza e se familiariza. Na “casa do Pai” já não pode haver comércio nem exploração, sendo casa-família que acolhe a quem necessite amor, intimidade, confiança, afeto.

Jesus derrubou as mesas dos cambistas e jogou as moedas ao chão, para dizer que a vida não se faz de moedas, mas de intercambio direto de vida. Jesus está supondo aqui que pode haver um mundo sem bancos, um mundo de encontros pessoais... Um mundo onde o valor supremo é o corpo e a palavra...

Jesus, na sua vida pública, nos revelou que Deus não é propriedade de nenhuma religião ou sacerdócio e que ninguém pode reduzi-Lo a uma verdade única, porque Ele revela seu rosto naqueles que vivem no amor mútuo e na entrega da própria vida. Ao mesmo tempo, Jesus denunciou o “deus” manipulado pelos representantes religiosos e que justificavam os seus poderes sobre as consciências das pessoas.

A espiritualidade de Jesus planta suas raízes fora do Templo, em um território “profano”; é, pois, uma espiritualidade laica. Jesus de Nazaré se retira ao deserto para orar e a outros lugares não oficiais, e não é membro da comunidade dos essênios. Sente profundamente sua religação com o Pai, dialoga com Ele, se alimenta interiormente dessa relação íntima, mas retorna ao mundo, à história na qual se encarnou.

Os fariseus e sacerdotes, por sua vez, queriam um Deus e um céu que não se contaminassem com os deserdados desta terra; queriam um Templo como lugar de pureza e de perfeição, legitimado por uma ordem que se constrói sobre o sofrimento e a exclusão. Eles não queriam um Templo que fosse a casa dos impuros, dos abatidos e excluídos, dos encurvados e oprimidos, dos leprosos, cegos e coxos...

O Templo, como não pode ser o lar dos filhos e filhas afligidos da casa de Israel, será destruído.

O lugar da Presença que alimentava as esperanças de Israel se converteu em cova de bandidos; o Templo passou a ser gerido pelos traficantes da dor, aqueles que fazem sofrer em nome de Deus.

Tal denúncia desestabilizou o sistema religioso sobre o qual a instituição sacerdotal se sustentava.

Esta foi a principal fonte de conflitos de Jesus com os fariseus e sacerdotes que, em nome de Deus, exerciam o poder e a dominação sobre as pessoas e sobre o mais íntimo que há em cada um: sua consciência e sua liberdade para tomar decisões na vida e expressar sua fé em Deus. 

O conflito de Jesus foi o conflito com o poder, mas o poder levado até sua raiz última: o “poder religioso”. Por isso, Jesus compreendeu que, para mudar o comportamento dos dirigentes do Templo, a primeira coisa a fazer era desmontar o “ídolo” que legitimava o poder autoritário daqueles que oprimiam o povo indefeso. No fundo, o que preocupava Jesus era o problema de “Deus”; e Deus não era como os dirigentes imaginavam e que estava de acordo com seus critérios e sua posição social.

Jesus desmontou o “seu deus” e atirou por terra “seus podres poderes”. Ainda hoje, de acordo com o Deus

em quem se crê, justifica-se o poder daqueles que socialmente aparecem como seus representantes.

De fato, o “poder religioso” é o mais nefasto e desumanizador.

Aquele “dia de entrada no Templo” foi uma autêntica manifestação de desafio; Jesus transgrediu ousadamente ao “expulsar os vendedores e cambistas” instalados no Templo. E essa foi a “sua hora”: desmascarar a manipulação e extorsão com as quais o poder religioso exercia sobre o povo oprimido.

Quando os chefes religiosos perguntam a Jesus com que autoridade desafia o poder estabelecido, Ele respon-de: “Destruí este Templo e em três dias o reedificarei”. E o evangelista acrescenta: “Ele se referia à própria pessoa”.

O lugar do verdadeiro culto é a Pessoa mesma de Jesus; culto que se expressa na identificação e no seguimento d’Aquele que se revelou radicalmente livre perante todas as instituições religiosas.

O templo e a lei devem ficar submetidos e devem estar a serviço do ser humano; portanto, este não pode ser objeto de nenhuma manipulação.

Jesus diz que o autêntico templo de Deus é cada pessoa e que esse templo não há quem o destrua. Ele revela que o ser humano é o grande valor querido por Deus, e que o sábado, a lei e o Templo são meios para facilitar a humanização; e a vida humana está revestida de sacralidade e não os altares, os templos e os costumes antigos.

Em outro relato (Jo 4, 23) Jesus afirmara que o Pai não é adorado em nenhum templo, mas em “espírito e em verdade”. Ali onde há “espírito”, ali onde há “verdade”, ali está Deus. Este mundo não precisa de templos, mas “espírito e verdade”. O ruído das ruas é também “eco de Deus” como o silêncio dos mosteiros. Pretender expulsar Deus de nossa realidade é pretender o impossível. São nossos olhos que estão cegos e que não consegue ver a Deus presente nela.

A grande tragédia é que aqueles que se consideram pessoas de fé tampouco O veem, ou melhor, não querem ver a presença de Deus em tantos lugares “profanos”. Aqueles que se consideram “religiosos” parece que só querem ver a Deus em determinados espaços, em seus templos e em seus ritualismos.

Mas Deus se revela presente em tantas pessoas pobres, necessitadas, nas realidades profanas nas quais há amor, embora talvez não haja ritos ou manifestações piedosas. Muitas vezes, os ritos religiosos não modificam nossas condutas, mas, o efeito que produzem é tranquilizar nossas consciências.

Chega-se ao extremo de harmonizar tanta fidelidade religiosa com tanta infidelidade ética ou simplesmente com tanta desumanização.

Texto bíblico: Evangelho segundo João 2,13-25

Na oração:

Há um tipo de “templo” que está caindo também hoje. Que faremos? Chorar sua queda? Contemplá-lo indiferentes? Ajudar a derrubá-lo? Se não começamos a destruir nossos “templos sagrados” não faremos o caminho do Reino.

A ação profética de Jesus nos obriga a revisar nossa visão de “templo”. Todo ser humano é “templo de Deus”.  O tema da CF deste ano – “Fraternidade e amizade social” - deve despertar em nós uma nova sensibilidade para alargar nosso círculo de amizade e nos aproximar daqueles que são “os amigos do Rei Eterno”, ou seja, os pobres e excluídos.

- Você consegue discernir a presença de Deus nas realidades “mundanas”: na vida concreta, no ambiente familiar e de trabalho, no protesto dos excluídos, na sensibilidade ecológica de muitos, nas buscas sinceras de muitas pessoas, nas diferentes expressões de amor daqueles que são considerados “ateus” ...?

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Uma subida desconcertante que nos transfigura

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 2º  Domingo da Quaresma (2024).

“Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte sobre uma alta montanha” (Mc 9,2)

 

Os bons montanhistas sabem que, para chegar ao cume, é necessário muito esforço e sacrifício. Subir vai contra à nossa natureza humana; a gravidade nos arrasta para a comodidade de uma poltrona.

A subida requer programar o caminho, buscar uma rota acessível, usar calçado e uma roupa adequada, exige uma preparação física, levar só o essencial; é imprescindível ter bons companheiros de aventura para reativar o ânimo, ajudar-se mutuamente diante dos perigos dos precipícios, dos escorregões, do mau tempo.

Mas, quando chegam no alto, não sentem mais as bolhas, os cansaços e os arranhões; o ar é como um frio punhal que enche seus pulmões, a luz é sua vestimenta, as nuvens são sua almofada, o céu é tão azul como nunca sonharam, e todos os problemas do seu pequeno mundo que ficaram para trás se tornam insignificantes como formigas. Nas alturas sentem-se mais eles mesmos, como se sua alma pudesse voar.

E assim também aconteceu com Jesus e seus amigos Pedro, Tiago e João: Ele subiu o monte Tabor, para que, a partir do mais alto pudesse revelar sua verdadeira identidade, cheia de Luz e de Paz. O carpinteiro se revela como Panto-crator, custodiado por Moisés e Elias.

A compreensão do relato de Marcos nos revela que a realidade “transfigurada” de Jesus é uma realidade compartilhada: todos somos seres transfigurados.

Transfiguração: tempo de interioridade, desejo de contemplar-nos a partir de nosso “eu profundo”, “lugar” dos nossos recursos mais nobres, dos dinamismos de vida, da criatividade, da intuição e dos sonhos, das forças que nos impulsionam a viver em contínuas buscas...

Todo ser humano possui dentro de si uma profundidade que é o seu mistério íntimo e pessoal; trata-se do “eu original”, aquele lugar santo, intocável, onde reside o que é mais nobre em cada pessoa, que só uma experiência de transfiguração é capaz de des-velar.

É aqui, onde a pessoa encontra a sua identidade pessoal; trata-se do coração, da dimensão mais verdadeira de si, da sede das decisões vitais, lugar das riquezas pessoais, onde ela vive o melhor de si mesma, onde se encontram os dinamismos do seu crescimento, de onde partem as suas aspirações e desejos fundamentais, onde percebe as dimensões do Absoluto e do Infinito da sua vida.

Uma das características do mundo pós-moderno é a transformação, a evolução, a mudança. O Evangelho deste segundo domingo da Quaresma nos revela que é possível “transfigurar-nos” se formos capazes de descobrir a Presença transformadora de Jesus em nós no caminho que nos cabe viver, na subida ao monte (Sinai, Hermón ou Tabor), símbolo do divino. É a subida da consciência, do conhecimento interior, dos sentimentos elevados, dos desejos mais nobres... que brotam do mais profundo de nós mesmos.

Diz o texto de Marcos que Pedro, Tiago e João acompanharam Jesus. Que foi que viram? Algo tão natural como cair na conta, em um momento concreto da existência, de uma faísca, uma sensação que vai mais além dos sinais superficiais: a percepção da presença do divino em si mesmos e a fonte da qual experimentaram um antes e um depois. Poderíamos chamar isso de experiência fundante, prazerosa, plenificante, quase nunca espetacular, mas que deixa uma profunda ressonância interior. Nessa situação, pode surgir uma expressão tão humana como a de Pedro: “é bom ficarmos aqui”.

Aqui, a pessoa experimenta algo essencial em sua vida: sente-se como filho(a) amado(a). Já paramos para pensar o que realmente significa ser “filho/a amado/a”?

Deus conhece nossas necessidades, nossos desejos, nos oferece a oportunidade de re-nascer, de transfigurar-nos. Em todo momento nos comunica sua Vida, a única. Somos portadores do divino. No mais íntimo de nosso ser ouvimos sua voz: “Escutai o que Ele diz!”. Uma voz que mobiliza o há de melhor em nós. É preciso distingui-la daquelas vozes que nos atordoam, confundem ou violentam, das palavras falsas, vazias, carregadas de promessas e mentiras que, lamentavelmente, são pronunciadas sem pudor.

Somos vida transfigurada na qual todos estamos implicados.

Diante de um contexto mundial tão obscuro faz-se urgente despertar em nós os atributos mais humanos e divinos para sermos pessoas de luz, pessoas que, através dos estilos de vida sintonizados com a natureza, brilham com luz própria. Somos, na essência, “seres translúcidos”, que deixam passar a Luz divina presente em nós. A Luz existe desde o princípio e a nós cabe sermos testemunhas dessa Luz e, portanto, seres que deveríamos transluzir essa Luz eterna em nosso agir cotidiano.

Seres translúcidos existiram e existem sempre; mesmo no escondimento, são tantos e tantas que deixaram e deixam passar a Luz em suas vidas e que deixam marcas impagáveis em nós.

De fato, “ser translúcido” é nossa essência pois fomos criados por Amor, que é Luz, embora tantas vezes podemos ficar opacos quando impera em nosso interior o egocentrismo, o ódio, a intolerância, o medo, que nos atormenta e nos bloqueia.

Seguramente que não podemos ser translúcidos sempre e em todo momento; assim como o sol, um astro que brilha sempre, mas só chega a nós algumas horas do dia.

Mas, podemos ser translúcidos a maior parte do tempo, levar a Luz que brilha desde toda a eternidade e fazê-la brilhar na obscuridade que nos rodeia.  Sejamos translúcidos, mostremos a Luz!

A Transfiguração não é algo externo, uma mudança de disfarces como no carnaval, mas é um abrir-se à realidade cotidiana e cair na conta de que a vida e a história estão cheias de sentido, de vida.

A realidade é uma linguagem que nos fala de algo mais que a mera materialidade.

Há pessoas que, no ambiente em que se encontram, transfiguram a vida e os problemas, criando um clima de paz e serenidade na vida familiar, comunitária, eclesial, laboral, etc...

Há pessoas que transfiguram a guerra em paz, o pecado em graça, o ódio em respeito e amor, a enfermidade em fonte de reflexão e aceitação da própria finitude, o desespero em esperança...

Isso acontece também no campo da arte, da estética: no fundo, é uma transfiguração do ferro, da madeira, da pedra, da linguagem, dos sons e nos transportam a um “mais além”.

Um entardecer, um encontro, uma oração, podem transfigurar nosso ser, nossa existência para a verdade, a bondade ou a beleza.

Quando participamos de uma celebração de exéquias, evocando a morte dos seres queridos, somos transportados, transfigurados e isso nos leva a outras realidades de esperança, casa do Pai etc.

O mundo de hoje pede pessoas capazes de transformar, de transfigurar, de proclamar uma Palavra de verdade, de bondade, de estética, de ideais, valores, caminhos...

Viver é transfigurar a existência, transcendê-la. A experiência, o encontro com Cristo transformam, transfiguram nossa vida e a enchem de paz, de luz, de sentido.

Texto bíblico: Evangelho segundo Marcos 9,2-10

Na oração:

Transfigura tua existência, eis a questão!

Desapega-te de teus problemas, suba, mesmo que te custe. Busque companheiros que te ajudem a situar-te a partir de uma perspectiva de pássaro, onde o ar seja mais puro e a Luz mais clara. Encontra teu Tabor, onde possas sentir a presença do Amor mais puro, onde possas descansar, onde possas descobrir tua verdadeira identidade e o que é essencial para tua vida. Desapega-te do celular, esquece tua agenda, silencia tantos toques. Abandona tua pesada bagagem de preocupações e coisas que não precisas. É teu Tabor.

De tempos em tempos é preciso subir teu Tabor, mesmo que custe desprender-te do passado e do pesado.

- Você é uma pessoa que transfigura um nascimento na família, um sofrimento, que transforma o trabalho, a convivência? Está aberto(a) à transfiguração da grande noite da vida?

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

O deserto desmascara nossas tendências egóicas

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 1º  Domingo da Quaresma (2024).

“O Espírito levou Jesus para o deserto” (Mc 1,12)

 

O 1º. domingo da Quaresma nos conduz ao deserto; ali, na profunda solidão e silêncio, Jesus teve uma experiência fundante, que marcou profundamente sua vida, rompendo com a vida cotidiana anterior, em Nazaré. Enfrentou o que todos nós enfrentamos continuamente: todos nascemos e somos movidos por uma forte tendência a buscar poder, prestígio, riqueza; esta semente vai crescendo e se expandindo por todos os meios possíveis. Prestemos atenção naqueles que fazem da busca do poder, da riqueza e da vaidade, o centro de suas vidas, para ver os efeitos devastadores deste veneno, presente dentro de nós e no nosso contexto social. São as chamadas “tendências egóicas” que rompem toda possibilidade de viver a fraternidade e a acolhida do diferente.

Quando nos deixamos determinar pelo poder, para ter parte no “banquete de morte” dos poderosos, podemos chegar a nos ajoelhar diante deles e “adorá-los”.

Diante desta perene tentação, Jesus, no deserto, vem nos diz: o amor e o serviço são duas atitudes que ativam e elevam a vida.

Quando queremos tirar os obstáculos de nosso caminho para tornar nossa vida mais fácil, procuramos transformar “as pedras em pães” com o que temos à mão: ameaças, extorsão, mentiras, ódios...

Jesus vem nos diz: “que a Palavra sustente tua vida!”

Quando nos sentimos tentados a manipular Deus a nosso favor, queremos negociar e “comprá-lo” com nossos ritos e observâncias, acreditando que Ele está em dívida conosco.

Jesus vem nos convidar a viver como filhos e filhas, sem tentar a Deus.

Para facilitar o esvaziamento dos “impulsos egóicos” e re-ordenar a vida, a liturgia nos convida a buscar inspiração junto a Jesus, durante sua estadia no deserto.

Ali, Jesus “vivia entre as feras e os anjos o serviam”; o texto grego e latino diz “animais selvagens”. Podemos entender a maneira como Jesus se situou na vida, em meio às “forças” que condicionam o ser humano, umas boas (Espírito, anjos), outras más (“demônios”, “feras”).

O relato do evangelista Marcos também faz alusão aos tempos idílicos do Paraíso, onde a harmonia entre seres humanos e a natureza inteira era total. Recordemos que o tempo messiânico fora anunciado como uma etapa de convivência harmoniosa entre seres humanos, os animais, a natureza...

Além disso, as tentações acompanharam Jesus durante toda sua vida, como apontam claramente os Evangelhos. Isto quer dizer, obviamente, que o discernimento que Jesus teve de fazer sobre sua própria vida e sobre sua missão, não foi experiência de um dia ou de um momento.

O Jesus dos evangelhos é Aquele que busca, que reza, que discerne, que se vê na encruzilhada de optar entre várias possibilidades, que se retira ao deserto para descobrir qual é a Vontade do Pai, que elabora progressivamente seu projeto global e passa depois às opções concretas.

Tudo isso iluminado e orientado a partir de uma opção fundamental: a opção pela solidariedade com todos aqueles que em suas vidas só experimentaram a exclusão. E isto, mantendo-se fiel até o final, mesmo às custas de encontrar-se em situações de conflitos e perseguições, até culminar em sua morte na Cruz.

Jesus não sai fragilizado de seu deserto. Sai tão fortalecido que seu compromisso posterior, fruto de sua relação direta com o Abba, que transforma a história em um antes e um depois.

Portanto, quando nos perguntamos por que foi Jesus tão liberal naquilo que se refere às leis, normas e tradições religiosas, e porque foi tão radical a respeito da justiça, do amor e da proximidade junto aos pobres, doentes e excluídos, a resposta é clara. O segredo de tudo está na opção fundamental que Ele assumiu no batismo e a manteve durante suas tentações, ou seja, a opção pela solidariedade como meio e caminho para realizar sua missão.

O relato evangélico deste domingo termina nos dizendo que, após o batismo e o retiro no deserto, Jesus caminhava pela Galileia “proclamando a Boa Notícia de Deus” (Mc 1,14). Para Jesus, Deus é uma presença amistosa e próxima que faz viver e amar a vida intensamente. Jesus vive Deus como o melhor amigo do ser humano: um Deus “Amigo da vida”. O que contagia a todos é sua experiência de Deus como um “Mistério de bondade” que nos liberta de tanto peso e de tantas culpas, alimentadas por um legalismo e moralismo estéreis que acabam obscurecendo Seu rosto compassivo.

Quanta alegria se despertaria em muitos se pudessem ver em Jesus os traços do Deus da vida! Como se acenderia sua fé se pudesse captar com olhos novos o rosto de Deus encarnado em Jesus!

Muitos homens e mulheres de fé frágil, vacilante e quase apagada necessitam hoje escutar a notícia de um Deus bom e amigo: o Deus de Jesus Cristo, que só quer uma vida mais digna e feliz para todos.

Tudo aquilo que impede acolher a Deus como graça, libertação, perdão, alegria e força para crescer como seres humanos não leva dentro a “Boa Notícia de Deus” proclamada por Jesus.

Crer no Deus “amigo da vida” nos compromete a viver a “amizade social” como atitude oblativa.

Neste tempo quaresmal, a Campanha da Fraternidade nos motiva a viver a amizade social como um estilo de vida, fundado no modo de viver de Jesus. Viver como Jesus significa encontrar-se com “o mundo do sofrimento, da injustiça, da fome... e não ficar indiferente”. A fraternidade, que nasce da compaixão, nos leva a reconhecer no outro uma dignidade e uma capacidade criativa de superar sua situação.

A amizade social se enriquece quando se deixa pautar pelo diálogo fecundo, pela cultura do encontro, pela paciência e tolerância com o diferente, pela renúncia a instrumentalizar e descartar o outro simplesmente porque “vive, pensa, crê, sente e ama de maneira diferente”.

O(a) discípulo(a) missionário(a) não é aquele(a) que, por medo, se distancia do mundo, mas é aquele(a) que, movido(a) por uma radical paixão, desce ao coração da realidade em que se encontra, aí se encarna e aí revela os traços da velada presença do Inefável; o mundo já não é percebido como ameaça ou como objeto de conquista, mas como dom pelo qual Deus mesmo se faz encontrar. O mundo não é lugar da exploração e da depredação, mas é o lugar da receptividade, da oferenda e do encontro inspirador.

Isso pede de todos nós uma atitude de abertura e de deslocamento frente ao outro, o que implica colocar-nos em seu lugar, deixar-nos questionar e desinstalar por ele... Importa, pois, re-descobrir com urgência a

fraternidade como valor ético e como hábito permanente de vida.

Corremos o risco de viver em mundos-bolha; podemos construir nossa vida encapsulada em espaços feitos de hábito e segurança, convivendo com pessoas semelhantes a nós e dentro de situações estáveis. É difícil romper e sair do terreno conhecido, deixar o convencional. Tudo parece conspirar para que nos mantenhamos dentro dos limites politicamente corretos. Todos podemos terminar estabelecendo fronteiras vitais e sociais impermeáveis ao diferente. Se isso acontece, acabamos tendo perspectivas pequenas, visões atrofiadas e horizontes limitados, ignorando um mundo amplo, complexo e cheio de surpresas.

É urgente que nos deixemos “empurrar ao deserto” pelo mesmo Espírito de Jesus, para sermos mais fraternos e humanos. Vivamos com “sabor” a travessia quaresmal!

Texto bíblico: Evangelho segundo Marcos 1,12-15

Na oração:

O Espírito de Jesus continua nos conduzindo ao deserto para desintoxicar-nos de todo resquício de poder, vaidade, indiferença, ódio, preconceito...; de tempos em tempos, precisamos nos deslocar para o deserto, para o lugar de discernimento das diferentes vozes que nos movem por dentro: vozes de morte (egóicas) e vozes de Vida.

É na escuta atenta do Espírito que seremos capazes de tomar decisões oblativas, des-centradas, com sabor de Reino, e a dar passos em direção ao amor incondicional.

- O que prevalece e determina sua vida: as más tendências ou os sentimentos mais elevados, as vozes de morte ou as forças de vida?

- Que experiências de deserto sustentam sua vida?

Renascer das cinzas para uma fraternidade universal

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho da Quarta-feira de Cinzas (2024), que inicia o Tempo Litúrgico da Quaresma. Desejamos uma profunda "travessia quaresmal" a todos.

“Tu, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não vejam que tu estás jejuando, mas somente teu Pai” (Mt 6,17-18).

 

Começamos a Quaresma com o rito da “imposição das cinzas”. Há um risco de vivermos a travessia quaresmal contentando-nos com atos externos de penitência, renúncia, mortificações... sem referência à pessoa de Jesus Cristo e sem abertura aos outros. O silêncio do deserto nos ajuda a encontrar nosso centro, a partir de onde podemos acertar em nossas opões vitais, sem cair nas armadilhas do ego.

A Quaresma é um tempo privilegiado de discernimento e mudança; ela des-vela as grandes carências existenciais que nos afligem e nos desumanizam; ao mesmo tempo, ela nos faz ter acesso aos melhores recursos e dons, encontrados em nosso interior e que ainda não tiveram chances de se expressarem.

Há uma “carência radical” que nos afeta a todos e que, cada vez mais, assume um rosto assustador. Trata-se das profundas rupturas fraternas que se expressam numa cultura do ódio, da violência, da intolerância, do preconceito... Precisamos, neste tempo litúrgico especial, reforçar os nossos laços fraternos, reconstruir os vínculos quebrados e alimentar a comunhão entre os diferentes. A Quaresma pode ser um tempo de graça que ajuda a eliminar a “cultura da indiferença” de nossas vidas.

Para tornar a nossa vida mais fraterna, aberta e acolhedora, a Campanha da Fraternidade da Igreja no Brasil nos situa diante desta dura realidade que nos escandaliza.

Com o provocativo tema - “Fraternidade e amizade social” – e o lema – “Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23,8) - somos chamados a despertar nossa sensibilidade solidária frente a esta grave situação de divisão que nos envergonha. Não podemos continuar passivos e indiferentes frente a esta realidade tão desumana. Onde há divisões e conflitos é sinal de que o Evangelho não está sendo vivido de modo coerente pelos cristãos.

O caminho da Quaresma passa pelo coração. Como seguidores(as) de Jesus, somos chamados(as) a retornar a Deus de todo o coração”, a não nos contentar com uma vida medíocre, mas a crescer na amizade com o Senhor. E quando alimentamos a amizade com o Senhor também amadurecemos nossa amizade com os outros e, unidos fraternalmente, celebraremos a Páscoa, a plenitude da vida cristã.

Assim, em sintonia com o movimento humanizador de Jesus, a Quaresma se apresenta como um momento privilegiado para despertar os nossos recursos internos e ativar nosso espírito fraterno. Para isso, é preciso redescobrir o caminho do coração para viver um permanente processo de reconciliação e conversão.

O “Tempo Quaresmal” é uma excelente mediação para viver com mais sentido e inspiração. Ele nos abre a possibilidade de acessar nossa interioridade e destravar os impulsos relacionais que nos habitam: relação com Deus (oração), relação com os outros (esmola) e relação com as coisas (jejum).

Viver a cultura do encontro fraterno é ativar nossa própria capacidade de contemplação, de compaixão, de assombro, de escuta das mensagens e dos valores presentes no mundo à nossa volta. Ela nos mobiliza a viver uma relação sadia com todos; nosso centro se expande em direção aos outros e à criação, fazendo-nos viver uma conexão livre com toda a realidade, através da íntima solidariedade e do compromisso ativo.

O gesto de receber as cinzas sobre nossas cabeças tem o sentido de uma mobilização para começarmos a caminhar em direção ao “centro de nosso ser”, conscientes de que este caminho nos humaniza e nos diviniza ao mesmo tempo. A partir daí podemos sair ao encontro dos outros com outra profundidade, com um amor mais puro, com mais gratuidade e, com a força do Espírito, mais livres das redes egóicas.

Esta Quaresma pode ser um marco no nosso caminho, um caminho de Paixão que já estamos vivendo nestes momentos de profundas crises e rupturas sociais; quer ser também um caminho de Ressurreição e que não poderá ser uma experiência solitária; ou nos renascemos todos para uma nova humanidade ou este mundo será uma experiência falida.

Os grandes momentos de nossa vida (decisões, ano litúrgico...) pedem uma “parada”, um tempo de preparação. Há sempre o perigo da improvisação e do imediatismo; vivemos a cultura da pressa, buscando resultados rápidos. Sabemos que a vida tem seu ritmo, como a natureza tem suas estações. É hora de parar, quebrar o ritmo estressante, frear nossos pensamentos, sentimentos, afetos desordenados, sentidos..., esvaziar o nosso ego para nos deixar conduzir pelo mesmo Espírito de Jesus.

Existem aqueles que nunca freiam, que vivem sempre com pressa, indo de um lado a outro, de uma experiência a outra, de um momento a outro. A velocidade é a marca de nossos tempos. Mergulhados na rapidez, perdemos a memória, pois esquecemos rapidamente as vivências que nos marcaram.

Por isso, de tempos em tempos, é preciso parar, deter-nos, plantar os pés na terra firme, olhar ao redor e, também olhar para dentro. Perguntar o porquê da inércia ou da imediatez, perguntar pelas pessoas que fazem parte de nosso horizonte diário, pelas metas que guiam a nossa própria vida.

Para viver com mais intensidade o espírito quaresmal, a liturgia nos propõe três atitudes que nos descentram e nos fazem entrar no ritmo da radical gratuidade: a oração, o jejum e a esmola (caridade fraterna).

Uma vez no deserto com Jesus, devemos ativar a atitude de escuta daquela voz interior que se desperta diante da força da Palavra. A isso chamamos oração. Oramos quando dirigimos nosso olhar a Deus, ao mundo e a nós mesmos. Oramos com a Bíblia, com as notícias, com os desejos, com os medos... Oramos de mil formas diferentes...

E, se escutarmos profundamente com os sentidos ativos, brotarão gestos de atenção e sensibilidade diante de homens e mulheres que mais precisam de paz, pão e palavra. Chamamos isso de “esmola” (ou “caridade fraterna”), que significa porta aberta para viver a partilha e o encontro com todos, movidos pelo nosso olhar contemplativo e pelas nossas entranhas compassivas.

Depois da esmola e da oração, culminando a trilogia da “justiça” do evangelho de Mateus, vem o gesto da renúncia positiva, não por sadismo ou vitimismo, mas por elevação da interioridade pessoal e pela solidariedade humana. Este é o sentido do jejum da quaresma cristã: ao lembrar-nos de nossa precariedade, o jejum pode nos tornar sensíveis ao próprio mistério da vida que somos; é colocar em questão a razão de ser da vida. Para quê e para quem vivemos? Só para acumular e encher nossos “celeiros”...?

Se uma pessoa autossuficiente não aprende a renunciar, a jejuar, a contemplar Deus em tudo e amar os outros (para que eles se liberem, rompendo as cadeias, os muros da separação e o impulso egóico que mata) essa pessoa se destrói a si mesma, se torna enferma e perde o equilíbrio de sua vida mesma.

Sem um jejum como atitude de solidariedade, matamos os pobres e nos matamos a nós mesmos. Trata-se de um jejum não só dietético e medicinal, mas humano, espiritual e corporal no sentido mais profundo. Falamos de um jejum pessoal, que quebra nosso farisaísmo e nos conduz a uma autêntica solidariedade e maturação existencial.

Jesus, ao recuperar o sentido verdadeiro destas três práticas quaresmais, nos “revela” aquilo que os hipócritas escondem: o que a esmola, a oração e o jejum têm em comum é que precisam ser vividas no “escondimento”. O essencial da vida, que é o amor, sempre é discreto. O que não é essencial faz barulho, como a vaidade, o prestígio social, o querer despertar uma boa impressão nos outros...; tudo isso é pura hipocrisia. Quaresma pede humildade e sinceridade de coração.

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 6,1-6.16-18

Na oração: 

Para fazer uma “travessia quaresmal” é preciso uma inspirada preparação e uma mobilização de todo nosso ser.

- Como você se propõe a viver as “três práticas quaresmais: oração, jejum e esmola?

- O tema da CF deste ano (fraternidade e amizade social) tem ressonância em seu interior? Que gestos concretos você poderia assumir para romper com essa cultura do ódio e da indiferença que provoca tantas divisões?