domingo, 7 de janeiro de 2024

Onde está o ‘novo’ do Ano Novo?

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade da Santa Mãe de Deus, em que se celebra também a chegada do Ano Novo e o Dia Mundial da Paz. Desejamos a todos uma inspirada "travessia" em direção ao Novo Tempo: dom do "Senhor dos tempos".

“Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido” (lc 2,20)

“Começar de novo...”, diz o refrão de uma conhecida música; pois é exatamente o dom de re-começar, sempre, que nos caracteriza como humanos.

Hoje começamos um Novo Ano. Mas, o que pode ser para nós algo realmente novo? Quem fará nascer em nós uma alegria nova? Quem ativará em nós novos sonhos? Quem ensinará a sermos mais humanos? O decisivo é estar mais atentos ao melhor que se desperta em nós e viver sintonizados com a eternidade de Deus.

Esta união com Deus faz com que o tempo seja pleno. Também para nós o tempo pode ser de plenitude na medida em que vivemos unidos a Deus e nos abrimos aos irmãos pelo amor. Pois o amor é o que faz com que o tempo deixe de ser enfadonho e caduco e se abra a uma plenitude que se renova cada dia.

Neste início de um Novo Ano, somos impelidos a caminhar para algo novo: novo tempo, novas relações, novos desafios, novas experiências...

Não é este o momento de permanecermos imóveis só porque o caminho está obscuro e inexplorado. O que deve impulsionar a vida cristã atual é a espiritualidade da criação, da iniciativa, do momento presente...

Nossa experiência nos diz que todo começo põe em marcha novos recursos, novas atitudes, abre novas possibilidades, amplia nossas expectativas...

Quando celebramos um “Ano Novo”, celebramos precisamente isso, que é “novo”. Somos presenteados com uma nova oportunidade preciosa para superar intrigas, inaugurar tempos de acolhida e perdão, olhar para a frente, despojar-nos de tudo aquilo que não nos faz mais humanos e, se somos cristãos, mais evangélicos, tolerantes e compassivos. Viver em chave de “possibilidade”, “oportunidade” ou “novidade” nos afastam de afirmações estéreis como estas: “sempre foi feito assim”, “eu te disse que não ia funcionar”, não se poderia esperar outra coisa desta pessoa...” Certamente que isso não nos conduz pelo caminho da humildade, de sentir-nos companheiros de caminho, irmãos em missão e, sobretudo, homens e mulheres enraizados na esperança.

A lógica da nossa sociedade de consumo reprime nossa criatividade, nos faz retroceder em nossa humanidade e nos impede de aproximar de toda experiência mais profunda. Marcados por tradições e hábitos caducos, dialogamos com o possível, o já esperado, o já testado, o “sempre fizemos assim”... Por isso, sentimos o desejo do retorno à espontaneidade e de aventurarmos na descoberta de um mundo diferente, ainda que assustador e incerto.  “A princípio, estranha-se. Depois, entranha-se” (Fernando Pessoa).

Porque acreditamos no “novo” é preciso nos afastar de uma ingenuidade alienada, de uma visão pouco perspicaz, de um senso comum que não confia na bondade do ser humano...; caso contrário, nos tornaremos incapazes de ler este “novo tempo” e de oferecer uma proposta criativa, a partir de nossa opção e maneira de viver. Talvez estejamos ainda muito marcados por um clima de ódio e de suspeita, de divisões nos relacionamentos, de identidades pouco éticas, de narcisismos institucional ou pessoal, de incapacidade para alegrar-nos com quem se alegra, de relações doentias que aumentam as distâncias e a frieza diante de quem pensa, sente e ama de maneira diferente.

Tais atitudes insanas escondem algo que é mais triste: a falta de propostas à luz do Evangelho, de liderança humanizadora, de criatividade mobilizadora dos nossos melhores recursos... Quando isso não acontece, mergulhamos na segurança do “costumeiro”, confundimos poder com autoridade, acreditamos estar em posse do monopólio da verdade, provocamos confusão de funções...; tudo isso nos enreda na mediocridade da vida e mata a criatividade.

Sem dúvida, o “Ano Novo” não chega simplesmente pela mudança de alguns dígitos, nem por arrancar uma página do calendário. Talvez o “tempo novo” já esteja começando naquelas pessoas que não negociam valores inegociáveis, não se compactuam para manter uma estrutura social injusta, não se envolvem em “redes sociais” carregadas de “fake News” e mensagens preconceituosos, não fomentam guetos nazifascistas, não estimulam conflitos, mas se abrem à riqueza da pluralidade, respeitam e acolhem o bom que vem dos diferentes, alimentam uma presença que se revela inspiradora, focada na mensagem da Boa Notícia.

Dizer “evangelho” é dizer “terra de oportunidades”, o lugar a visão teológica que nos faz amar e compreender que todos “somos”. Bendito “tempo novo” que nos faz recordar tudo isto!

A sabedoria deste Novo Ano vai, progressivamente, ativando uma luz que nos indica, de novo, que o caminho é de Deus e que Ele nos convida a nos deslocar, a entrar em sintonia com seus sinais surpreendentes, a colocar-nos em caminho como os pastores em direção à Gruta, onde um Menino os espera; ali, ficam assombrados pela Vida que se visibiliza nas margens, abrindo um horizonte de sentido para todos.

Para iniciar este Novo Ano, nada melhor que ativar a atitude contemplativa dos pastores na Gruta em Belém: “viram o Menino”. E isso fez toda a diferença. Tudo se tornou “novo”; voltaram para o cotidiano do pastoreio carregando uma presença na memória. O sentimento de gratidão aflorou: “voltaram glorificando e louvando a Deus”.

Quem contempla a realidade com os olhos simples dos pastores, não faltarão ocasiões para reconhecer a criatividade de Deus em ação, a inovação do Espírito movendo corações, criando cenários novos, mais humanos, com mais profundidade, mais do Reino...

A experiência de colocar-nos a caminho, a abertura ao mistério, o fato de estarmos conectados, despertos e abertos à passagem de Deus, permite que Sua Graça desbloqueie as nossas amarras interiores e nos mobilize a uma presença diferenciada, no deserto da vida.

Por isso, o sentimento dominante que precisa ser ativado neste momento de transição é a da gratidão.

Sabemos que a gratidão autêntica constitui uma unidade íntima com a vida, flui com ela. Nasce e se apoia na compreensão de que, para além dos juízos que nossa mente possa fazer, tudo é graça.

A gratidão, como força que esvazia nosso ego, nos faz tomar distância de nossos pequenos interesses e nos abre à compreensão profunda de que, em último termo, tudo é dom, tudo é dado, tudo é Graça.

 

Texto bíblico: Lucas 2,16-21

Na oração:

Esperança, indignação, coragem. Preciosas atitudes para este novo tempo em que temos o privilégio de viver.

- Você se atreveria assumir tais atitudes?

- Você se arriscaria, por um novo começo?

- Que riscos concretos você se sente chamado a assumir?

Um abençoado Ano Novo feito de promessas, de caminhos... de ternura infantil.

Feliz Ano Ano! Feliz 2024

Prezados leitores e prezadas leitoras,

Depois de um tempo sem as postagens semanais dos textos de reflexão do Evangelho da liturgia dominical escritos pelo Pe. Adroaldo Palaoro, SJ estamos de volta!
Um ano efetivamente novo é resultado de novos olhares, novas perspectivas e novas atitudes. Que tenhamos sabedoria e força para construir o novo.
Desejamos a todas as pessoas de boa vontade um ano fecundo e cheio de bênçãos de vida!

 

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

O difícil caminho do “eu” ao “nós”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 23º. Domingo do Tempo Comum (Ano A).


“Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles” (Mt 18,20)

O evangelho deste domingo faz parte do chamado “discurso comunitário”, onde Mateus recolhe os ensinamentos de Jesus a respeito das “relações oblativas” que devem reinar em sua comunidade.

De fato, em seu ministério público, Jesus não só se revela como o “fundamento” da comunidade dos seus discípulos, mas ativa aqueles “atributos” que são essenciais para alimentar os vínculos entre aqueles(as) que o seguem: “tornar-se como criança”, “não ser pedra de tropeço para os pequenos”, “cuidado com a ovelha que se perde”, “a vivência do perdão”, “a correção fraterna”, “a oração em comum”...

Profundo conhecedor da condição humana, Jesus tinha plena consciência que o ser humano é frágil, limitado, e que nenhuma comunidade subsiste sem uma contínua atitude de abertura e de acolhida do “outro”.

Sabemos por experiência que a presença do outro (“alter” em latim) sempre nos “altera”.

O ser humano é incapaz de amadurecer em solidão. Desde nosso nascimento, viemos ao mundo em um estado de fragilidade que faria morrer muitos animais; por isso, precisamos uns dos outros. Fomos concebidos dentro de uma matriz de relações e vivemos sempre em um mundo densamente povoado de surpreendentes presenças humanas, que são imprescindíveis para chegarmos a ser “pessoas”.

As relações interpessoais são fundamentais em nossa vida. Portanto, somos chamados a acolher os outros, reconhecer sua dignidade, sentir-nos responsáveis por eles, assumir a alteridade como princípio e lugar de crescimento e de formação pessoal...

O Evangelho de hoje aponta para esta realidade: nós nos constituímos como “humanos” pelas nossas relações; em outras palavras, só nas relações com os outros podemos crescer em humanidade.

Estamos sempre em contato com o “outro”. E o outro é pessoa. O outro revela certa magia, ao mesmo tempo sedutor e enigmático. O outro é plural, apresenta múltiplos rostos; é diferente, inédito...

Só seremos nós mesmos quando alguém nos descobre, nos acolhe, nos aceita... respeita nossa verdadeira identidade. O outro é a realidade que nos permite tomar consciência de nós mesmos.

Essa identidade se revela por meio das relações: ninguém cresce sozinho, precisamos dos outros; precisamos viver relações sadias e maduras com os outros (família, amigos, trabalho, grupos, comunidades...).

Nesse sentido, uma pessoa encontra somente sua realização na interação com o ambiente que a cerca.

O ser humano está comprometido com os outros; por sua própria natureza, ele se torna pessoa humana somente em interação com os outros; ele possui impulsos naturais que o levam em direção ao convívio, à cooperação, à comunhão...; ele é reserva de humanidade e compromete-se com a dignidade humana.

O ser humano é um ser constitutivamente aberto, essencialmente em referência a outras pessoas: estabelece com os outros uma interação, entrelaça-se com eles, e forma um nós: a comunidade.

Mas, o “discurso comunitário” em Mateus nos adverte que não podemos partir de uma comunidade de “perfeitos”, mas de uma “comunidade de irmãos” que reconhecem suas limitações, fragilidades... e necessitam do apoio mútuo para superar as dificuldades e reforçar os laços internos.

“Em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu...” Esta expressão fora dita, anteriormente a Pedro (cf. Mt 16,19), como presença de unidade e comunhão da comunidade. Agora Mateus expõe que a graça (e o dever) de perdoar é concedido a toda a comunidade, a cada membro. Ninguém fica excluído da busca de diálogo ou de soluções diante de um conflito. É de todos a responsabilidade da marcha comunitária e do bem comum. A todos lhes é exigido uma maturidade que vai sendo alcançada, pouco a pouco. Para isso, a correção fraterna e o acompanhamento mútuo se fazem indispensáveis.

A comunidade é a última instância de nossas relações com Deus e com os demais. O Evangelho de hoje insiste que é preciso esgotar todos os recursos para ajudar o outro a sair de seu erro. Qualquer pessoa que, sem saber, vai pelo caminho equivocado, agradeceria se alguém lhe indicasse, com amor, seu erro e lhe mostrasse o verdadeiro caminho. Se ao fazer hoje a correção fraterna, damos por suposto que o outro tem má vontade, será impossível que ele aceite a retificação. A partir dessa perspectiva estamos dando por suposto que nós somos bons e o outro é mau.

A correção fraterna é um sinal de grandeza e delicado amor; começa com a correção a sós; caso não tenha resultado, chamar outros dois ou três e, se for preciso, recorrer à comunidade.

Numa comunidade cristã todos devemos ser acolhidos com nossas limitações e capacidades, com nossos erros e acertos; a comunidade cristã, se é comunidade e se é cristã, não é espaço de acusação e julgamento quando nos equivocamos; nela somos absolvidos quando somos culpados, somos buscados quando nos perdemos, somos perdoados quando erramos.

A correção fraterna não é condenar, ou castigar, ou expulsar, mas des-velar as limitações, sem ódio, sem espírito de crítica, de vingança, sem rancor. O objeto da correção fraterna não é dizer que eu tenho razão e que o outro está equivocado e, por isso, é mal. O objeto da correção não é sancionar para servir de lição. O objeto da correção fraterna é “ganhar” o irmão.

É no horizonte do amor que a correção fraterna acontece e não no horizonte da lei. O amor e a caridade são muito superiores a uma justiça entendida a partir de uma mera aplicação da lei corretiva.

É muito difícil cumprir hoje esse encargo da correção fraterna porque ela está pensada para uma comunidade, e o que hoje mais falta é precisamente o sentido de “comunidade”.

O sentido da relação, sadia e amorosa, com os outros é um dom de Deus, que nos foi dado a todos.

Deus nos fez amor para o mútuo encontro, para a doação, para a comunhão...

Fomos criados “à imagem e semelhança” do Deus Trindade, comunhão de Pessoas (Pai-Filho-Espírito Santo). Como criaturas, fomos atingidos pela marca trinitária de Deus. Quanto mais unidos somos, por causa do amor que circula entre nós, mais nos parecemos com o Deus Trindade. “Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu Amor em nós é perfeito” (1Jo. 4,12).

Deus colocou em nossos corações impulsos naturais que nos levam em direção ao convívio, à cooperação, à acolhida, à solidariedade...

Deus é o ponto focal para enxergarmos o outro. Se há “eu” e se há “tu”, então a presença de Deus se revela.

A fraternidade, a vida em comum se mede pelo amor, por atos e gestos de doação, de perdão, por vivências de comunhão, por experi-ências de partilha do mesmo ser, da mesma vida, da entrega mútua...

O amor é olhar o outro com olhos tão limpos, bondosos, desinteres-sados, tão profundos, que só desejamos que o outro seja único e ori-ginal, na sua verdadeira identidade.

O autêntico seguimento de Jesus, portanto, significa que a qualidade da comunidade possibilita encontros cheios de graça.

As duas realidades – pessoa e comunidade – se condicionam e se complementam. “A pessoa faz a comunidade e a comunidade faz a pessoa”.

Texto bíblico: Mt 18,15-20

Na oração:

Não podemos esquecer que cada um de nós é um “outro” para os outros.

E poderíamos nos perguntar que espécie de “outro” temos sido para os outros.

- Ser “outro” é mandamento, é apelo à responsabilidade, à ajuda mútua, ao perdão re-construtor...

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Quando a Cruz deixa de ser “peso morto”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 22º. Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24) 

A paixão-morte de Jesus foi, para os primeiros cristãos, o ponto mais impactante de suas vidas. Seguramente, o primeiro núcleo dos evangelhos foi constituído pelo relato da paixão-morte de Jesus. Não nos deve estranhar que, ao relatar o restante de sua vida, se faça a partir dessa perspectiva.

Por isso, até quatro vezes Jesus anuncia sua paixão e morte no evangelho de Mateus. Não era preciso ser profeta para dar-se conta de que a vida d’Ele corria sério perigo. O que Ele dizia e o que fazia ia contra à religião oficial, e os encarregados de sua custódia tinham o poder suficiente para eliminar uma pessoa tão perigosa para seus interesses. Até seus familiares mais próximos quiseram impedi-lo, forçando-o a levá-lo para sua casa, porque havia escolhido um caminho de loucos.

Pedro se rebela só de imaginar Jesus Crucificado. Não quer vê-Lo fracassado; só quer seguir a Jesus vitorioso e triunfante. Também nossa sociedade, marcada pelo imediatismo, competitividade, busca de resultados e rejeição a todo tipo de fracasso, a presença da Cruz é um escândalo inaceitável.

De fato, nela mesma, a Cruz não tem sentido. Se a Cruz é de tal modo exaltada, fazendo com que a vida e a ação de Jesus fiquem reduzidas a ela, então acontece que ela se torna angustiante e aflitiva, incapaz de motivar ao seguimento ou de acender a esperança.

Jesus não morre na cruz para buscar o sofrimento, mas por ser consequente até o fim com sua mensagem: o amor incondicional do Deus da vida. Ele não fugiu, não contemporizou, não deixou de anunciar e testemunhar, embora isso o levasse a ser crucificado.

Nesse sentido, a Cruz de Jesus não permanece confinada em si mesma; ela se insere no interior da paixão dolorosa do mundo e seu sentido mais profundo reside em sua solidariedade para com todos os crucificados da história.

Com a Cruz “descemos” com Jesus até à cruz da humanidade.

A solidariedade com os pobres, a fidelidade à vida evangélica, nos fazem descer aos porões das contradições sociais e políticas, às realidades inóspitas, aos terrenos contaminados e difíceis, às periferias insalubres das quais todos fogem e onde os excluídos deste mundo lutam por sobreviver. Ali nos encontramos com o Crucificado, identificado com os crucificados da história.

Como diz Jon Sobrino, não podemos crer no Crucificado de um modo coerente se não estamos dispostos a fazer descer da Cruz aqueles que estão dependurados nela.

A cruz e a morte só são dignas quando são consequência da luta contra a “cruz” e a “morte” impostas às pessoas e quando expressam solidariedade com os crucificados. Aqui há espaço de transformação.

A cruz se ilumina quando requer o abraço de uma situação inevitável. Se a enfermidade não tem cura, se a morte de um ser querido nos arrebata, se uma catástrofe natural nos deixa impotentes, se a denúncia profética de uma injustiça acarreta perseguições etc., crescemos quando abraçamos essa cruz e a superamos espiritualmente.

A Cruz liberta quando não termina nela mesma, mas na ressurreição. Enquanto a carregamos é leve se ela aponta para um horizonte de esperança. “Vinde a mim, vós todos que estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos darei descanso... Porque meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11, 28-30).

Mas, para carregar a Cruz como Jesus, é preciso passar por um processo de esvaziamento de nosso “falso eu” que, continuamente, busca seus interesses, alimenta vaidades, quer ser o centro das atenções, sem nenhuma sensibilidade solidária com os sofredores e vítimas de uma sociedade que violenta e exclui.

O chamado de Jesus a “renunciar a si mesmo” é um convite ao descentramento, a não viver girando obsessivamente sobre o próprio eu.  Os místicos falam com frequência da “morte do próprio eu”, e da felicidade que brota do interior quando a pessoa se deixa possuir pelo amor de Deus.

Há uma forma de viver agarrada ao próprio eu, que é fonte permanente de sofrimento. Muitas vezes, o que mais sofrimento gera na pessoa é precisamente esse modo de viver apegado a ela mesma, buscando cegamente e acima de tudo o próprio êxito, a boa imagem, a aprovação e a estima dos demais. Esse cultivo equivocado do ego inflado se converte em fonte de preocupação e sofrimento.

Inconscientemente, a pessoa pode alimentar falsamente seu “ego” e inclusive agigantando-o de forma desproporcional, organizando todo seu entorno a partir dele: minha pátria, meu partido, minha igreja, minha ideologia; o ego vai então ficando cada vez mais seduzido e mais exposto a toda sorte de problemas.

A atitude mais saudável está em tomar consciência de que a origem de tanto sofrimento inútil está no indivíduo mesmo, nesse coração cheio de egoísmo, de apegos, de invejas, de falsas ilusões, de sede de poder, de ressentimento, de vazio interior... Da mesma forma que a dor física é um sinal de alerta que avisa que algo funciona mal no organismo, existe todo um conjunto de sofrimentos que revelam modos equivocados de viver: apegos, servidões, contradições e incoerências que impedem um desenvolvimento sadio da pessoa.

Este sofrimento não é uma cruz que devemos carregar, mas uma carga que devemos “soltar”, se quisermos viver com o espírito de entrega de Jesus

No que se refere à experiência específica de seguimento, deveríamos retomar o sentido da mensagem de Jesus referente ao “negar-se a si mesmo” para poder viver. “A negação de si” enquanto negação daquilo que nega a vida. “Negar-se a si mesmo” é deixar de identificar-nos com a tirania das mensagens de nossos pequenos “eus”, que se refletem em nossa própria linguagem.

“Negar-se a si mesmo” é um conselho sábio: significa negar o que na realidade “não somos”, despertar da ilusão e do engano, deixar de girar em torno de um suposto “eu” que não existe, para viver a unidade de todos e de tudo em Deus e agir assim de um modo coerente na vida.

Não somos um pequeno “ego” que cremos ser. Precisamos despertar dessa ilusão e entrar em contato com nosso verdadeiro Eu, nosso Ser e, a partir dele, olhar a vida, olhar nossa atividade e olhar os outros, a fim de viver em conformidade com quem somos em profundidade. É esse o modo de “ganhar a vida”.

Precisamos perceber que aquilo que para nosso ego é “perda” e perigo, para nosso Eu verdadeiro é ganho profundo e libertação. Ganhamos mais vida quando ela se esvazia de “ego” e se deixa conduzir pelo amor oblativo que procede d’Aquele que é pura fonte de Amor.

Texto bíblico: Mt 16, 21-27

Na oração:

Todos nós somos habitados por um conjunto de “eus”, alguns conscientes, outros inconscientes. São os “pequenos amores” ocultos (um eu orgulhoso, irado, triste, prepotente, avarento, luxurioso...) que habitam reprimidos nosso interior. São elementos de nossa própria sombra, aos quais deveremos prestar atenção se quisermos avançar rumo a uma pleni-tude humana e espiritual. Uma experiência espiritual profunda consiste em estar cada vez mais lúcidos com relação a eles e identificando-nos prazerosamente com nosso Eu verdadeiro.

- Quais são seus “amores” (afetos desordenados que exigem alto investimento) que fragilizam e atrofiam o seguimento de Jesus?

- Diante da presença inspiradora da Graça, dê “nomes” aos seus “falsos eus” para não se deixar determinar por eles. Ao mesmo tempo “dê nomes” às expressões do seu “eu” original, que plenificam e dão sentido à sua vida.

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Somos Petra/Rocha sobre a qual Construímos Nossa Vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 21º. Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Tu és pedra, e sobre esta rocha eu construirei minha Igreja” (Mt. 16,18)

O evangelho deste domingo nos situa num destes momentos em que Pedro, com sua habitual ousadia e rapidez, responde à pergunta que Jesus lhes dirige sobre sua identidade: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Diante da pronta confissão Jesus o chamou, em hebraico, “Kephas”.

O texto grego usa duas expressões: “petros” e “petra”. Simão é por si mesmo um “petros” (pedregulho, cascalho), mas, através de sua confissão messiânica, afirmando que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, ele realizou uma missão essencial no princípio da igreja; assim, o mesmo Jesus acolheu esta profissão de fé e lhe chamou bem-aventurado (“makarios”), acrescentando que sobre a rocha da confissão de Pedro (“petra”) edificará sua Igreja.

Por ter recebido uma revelação muito alta de Deus, o próprio Simão que em si mesmo é “petros” (pedra movediça, incapaz de ser alicerce) se converte, de maneira muito profunda, em Petra/rocha firme, revelando-se o alicerce da nova comunidade. O texto distingue e vincula assim duas palavras fundamentais: a) Pe-tros (Pedro masculino), pedra-cascalho do caminho; b) Petra (rocha, feminino), na qual se expressa a revelação do Pai (“não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”).

A realidade de Pedro está vinculada à sua história familiar, ao mundo conhecido ao qual pertence, à sua personalidade: é Simão (“petros”). No entanto, o olhar intenso e profundo de Jesus vai mais além, “perfura” essa realidade, descobrindo em Pedro a sua verdadeira identidade para o qual foi chamado a ser, ao se abrir à Graça: é “Petra” (Cefas). A missão para a qual foi chamado a ser, Pedro ainda não a conhece, mas é um dom que lhe foi dado já desde antes de nascer.

A acolhida de Jesus se expressa na palavra de verdade oferecida e não imposta, uma palavra que o leva a dialogar consigo mesmo e a aprofundar: “Tu és ‘petros’ e sobre esta ‘Petra’ construirei a minha Igreja”.

Pedro aparece, então, como o primeiro discípulo que manifesta sua fé pessoal em Jesus. E o evangelho faz um convite para que cada pessoa, cada seguidor(a), expresse para si mesmo qual é sua fé em Jesus.

Como consequência, essa mesma fé, que aflorou na primeira comunidade cristã, é a que emerge e se prolonga, ao longo dos séculos, em cada seguidor(a) de Jesus, com sua fortaleza (petra-rocha) e, ao mesmo tempo, com sua fragilidade (petros-pedra); sem dogmatismos nem doutrinas, mas com a modesta manifestação de alguém que se sente interpelado e animado pelo modo como Jesus viveu e pelos estímulos que Ele lhe deu para caminhar na direção da nova humanidade.

Por isso, continua sendo decisiva a pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que eu sou?” No entanto, não basta ter uma ideia clara sobre Ele ou um conceito teológico apurado, mas viver uma relação que se expressa como adesão a um estilo de vida cristificado.

O seguimento de Jesus não é questão de razão ou um profundo conhecimento da cristologia; é questão de sedução, de atração, de paixão... Só podemos responder à sua pergunta com o coração. Se a pessoa de Jesus – seu modo de ser e viver – não provoca um impacto afetivo em nosso interior, o seguimento vai se tornando estéril e sem maiores implicações na vida.

A pergunta sobre “quem é Jesus para nós” é fundamental para radicalizar nosso seguimento, e é fundamental para entendermos a nós mesmos; cada um precisa se situar de maneira única e original diante da mesma pergunta feita a todos. Em muitas ocasiões as perguntas nos ajudam a avançar mais que as nossas próprias respostas. As “perguntas existenciais” são provocativas e mobilizadoras pois sacodem nossas vidas e despertam os recursos mais nobres em carregamos em nossa interioridade.

Por isso, a pergunta por Jesus se volta a nós mesmos; perguntar por Jesus é perguntar por nós mesmos. Nesta rede de perguntas e respostas o que está em jogo não é tanto a identidade de Jesus, mas a nossa identidade de seguidores(as) seus(suas). No centro das perguntas que nos fazemos na vida vão surgindo respostas com as quais vamos configurando nossa existência, identificada com a vida de Jesus.

Mas hoje, talvez num gesto de ousadia e atrevimento, poderíamos inverter as perguntas. No Evangelho, é Jesus quem pergunta e nós respondemos; agora somos nós que fazemos as perguntas a Jesus. Se Ele está interessado em saber o que os outros pensam dele, também nós estamos interessados em saber o que ele pensa de nós:

“Senhor, que dizes, que pensas de mim?” “Senhor, que pensas e dizes de mim como batizado(a) e teu(tua) seguidor(a)? Sou realmente essa imagem do(a) homem/mulher novo(a) nascido(a) de tua Páscoa?” Senhor, que pensas e dizes de mim como: jovem? adulto? cristão/ã? trabalhador(a)...?”

“Senhor, Tu que pensas de mim como pessoa? Porque tu me deste a vida não para que a conserve atrofiada, mas para que me realize humanamente e chegue a ser uma pessoa livre, madura e comprometida. Tenho amadurecido no amor, chegando a ser essa pessoa que Tu esperas de mim?”

Talvez, de início, possamos sentir um pouco de medo da verdade que Ele dirá sobre nós. Mas, pensando bem, podemos concluir que Jesus pensa melhor sobre nós que nós sobre Ele. E se nos dá vergonha responder às suas perguntas, certamente que Jesus não sentirá vergonha alguma em responder às nossas.

Ao responder nossas perguntas, Jesus nos faz ter acesso àquilo que é o fundamento, a rocha sobre a qual construímos nossa vida. Assim como Ele respondeu, afirmando a verdadeira identidade de Pedro, podemos afirmar que “petros” é o que em nós é fragilidade, incoerência, vulnerabilidade, limitação... “Petra”, ao contrário, é o que é sólido, firme, consistente, sobre o qual fundamentamos a vida.  “Carregamos um tesouro em vaso de barro” (2Cor. 4,7). Como seres humanos vivemos a integração de “petros” e “petra”.

Nossa própria interioridade é a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que temos, para encontrar segurança e caminhar na vida superando as dificuldades e os inevitáveis resistências na vivência do seguimento de Jesus. O “eu profundo” constitui-se como um centro sólido, consistente e estável de nosso ser, radicalmente diferente das experiências fluidas que o atravessam. Existem camadas sólidas da experi-ência do “eu” que devem se contrapor às experiências passageiras de sentimentos vazios, desejos peri-féricos, sonhos sem paixão.

É no “eu mais profundo”  que as forças vitais se acham disponíveis para nos ajudar a crescer dia-a-dia, tornando-nos aquilo para o qual fomos chamados a ser. Trata-se da dimensão mais verdadeira de nós mesmos, a sede das decisões vitais, o lugar das riquezas pessoais, onde vivemos o melhor de nós mesmos, onde se encontram os dinamismos do nosso crescimento, de onde brotam as nossas aspirações e desejos fundamentais, onde percebemos as dimensões do Absoluto e do Infinito da nossa vida.

Vivemos um contexto social e cultural no qual se constata um modo de vida que não favorece o contato com a nossa rocha interior. Seduzidos por estímulos ambientais, envolvidos por apelos vindos de fora, cativados pela mídia, pelas inovações rápidas, magnetizados por ofertas alucinantes... nós nos esvaziamos, nos diluímos, perdemos a interioridade e... nos desumanizamos. Tudo se torna líquido:  o amor, as relações, os valores, a ética, as grandes causas... (cf. Bauman).

Diante desta “cultura líquida” é urgente gerar espaços que facilitem o acesso à rocha da interioridade, possibilitar o retorno à “base interior” onde é gestada a nossa identidade e as nossas opções mais firmes.

Somos um mistério no meio de mistérios, em um mundo de surpresas e de assombros.


Texto bíblico: Mt 16,13-20

Na oração:

Muitos caminhos conduzem à nossa própria interioridade. A oração é a chave de acesso; ela é esse silencioso exercício de deixar que Deus nos habite para que possamos abrir as portas do coração e janelas da mente àqueles que encontramos. Onde o Deus de Jesus tem liberdade de atuar, ali desaparece todo resquício do medo que desumaniza.

- Deixe que a “chave” da oração abra as portas do seu coração e mostre todos os seus tesouros escondidos nas arcas de seu interior. Permita que a “petra” de sua existência brote com leveza das profundezas de seu ser.

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Maria, mulher da “memória agradecida”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho da festa da Assunção de Nossa Senhora.

“A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Lc 1,46-47) 

Maria foi assunta ao céu porque desceu ao mais profundo de sua humanidade e da humanidade dos outros.

A Assunção nos revela que ela foi humana por excelência; toda sua humanidade foi atravessada pelo divino: nela não havia resquícios de ego inflado, de vaidade, de busca de prestígio e poder. Reconheceu-se como “humilde serva” porque desceu ao “húmus” de sua vida e aí deixou-se conduzir por Aquele que entra na história de cada um pelo lado da fragilidade, limitação, pobreza... Ela viveu a assunção em todos os momentos de sua vida, porque se sentia envolvida pela presença misericordiosa e providente de Deus.

Toda a vida de Maria foi “assumida” por Deus porque ela cuidou da vida, colocou sua vida a serviço a vida, ativou todos os seus recursos de vida... Vida aberta, comprometida, vida que se fez visita e se deixou visitar.

Maria “desapareceu” no divino porque mergulhou no humano. Sua humanidade foi plenificada.

Por isso, a Assunção é uma vitória solidária: nela, todos seremos “assumidos por Deus”. Esta é uma realidade que não acontecerá apenas no fim dos tempos; é realidade sempre atual: já vivemos em Deus, n’Ele nos movemos e existimos; Ele nos envolve continuamente com sua providência, misericórdia e cuidado. Vivemos, então, em contínuo “estado de assunção”.

 

Portanto, a Assunção de Maria diz respeito a todos nós; todos estamos implicados neste mistério; experimentamos a assunção através de dois movimentos:

No primeiro, vivemos a assunção quando descemos ao mais profundo de nossa humanidade, às raízes de nossa existência. Há muitos recursos, dons, potencialidades, desejos nobres, inspirações, beatitudes originais, presentes em nosso interior e que querem emergir, elevar-se... A assunção começa em nosso interior quando o “que há de divino em nós” se expande, plenificando e dando sentido à nossa existência. Deus assume tudo o que é humano em nós e ilumina, plenifica... Nada do que é humano lhe escapa; Ele nos eleva, nos faz planar sobre suas asas de águia, para ampliarmos nossos horizontes, nossa visão da realidade... Com sua Graça, desperta e ativa todos os nossos dinamismos e potencialidades internas.

Quem vive a assunção sonha alto, deseja grande, torna-se criativo e um eterno buscador. Sua vida torna-se oblativa, descentrada, é movimento de saída de si... A assunção o faz viver com os pés plantados no chão da vida e da história e, ao mesmo tempo, o faz transcender, romper fronteiras, ir além de si mesmo...

Quem não se deixa inspirar pelo mistério da assunção limita-se a uma vida “normótica”, repetitiva, mecânica, estreita, atrofiada... Perde o sabor da vida, trava sua criatividade e mata sua capacidade de sonhar.

O segundo movimento despertado pelo mistério da Assunção é este: a partir de uma interioridade expandida a pessoa se eleva na direção do outro, através do serviço solidário, da presença compassiva e do compromisso eficaz na transformação da história. A assunção move a pessoa a reforçar os laços, alimentar a comunhão, mobilizar a viver a cultura do encontro; a assunção faz romper fronteiras geográficas, sociais, culturais, religiosas... conclamando à vivência da fraternidade universal. Ela abarca a humanidade inteira.

Porque parte do chão da humanidade, a assunção nos humaniza e nos capacita a criar mediações humanizadoras. Não é possível crer na assunção da humanidade se nos deixamos levar pela cultura da aparência, do ódio, da intolerância, da violência...

Quem entra no fluxo desses dois movimentos da Assunção, sente despertar em si uma profunda gratidão; brota de seu coração e de seus lábios um novo “magníficat”, onde reconhece a ação criativa de Deus, em si mesmo, nos outros e na criação... Proclama que Deus fez, faz e fará maravilhas nele(a), por ele(a), através dele(a)... Vive com vibração e intensidade porque sente que tudo é Graça, de graça, envolvido pela graça...

Assim, celebrar a Assunção é entrar no fluxo da gratidão que Maria canta no seu “magnificat”.   É modo de ser e viver inspirado na vida de Maria; é preciso nos situar de “maneira mariana” diante de nossa história.

“O Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor”, é uma exclamação que Lucas põe nos lábios de Maria para fazê-la nossa e repeti-la com frequência. Quando algo ou alguém nos emociona, não podemos evitar expressar esse sentimento. O regozijo não é completo se não o compartilhamos. A experiência prazerosa de um Deus que é Misericórdia e Santo fez brotar os mais belos salmos e orações que nos foram legados, cheios de benção e assombro agradecido. A gratidão perpassa o Magnificat e é o sentimento mais nobre que brota das profundezas do coração do ser humano, ao se sentir cumulado de tantos dons.

Todos temos experiência que a nossa história carrega lembranças de fatos e de vivências negativas: crises, fracassos, rejeições, erros, pecados... Os desencontros, quebras e rupturas... costumam deixar feridas.

Tudo isso pesa na memória e continua influenciando negativamente no presente.

Com isso, ela se torna “memória mórbida, doentia”: depósito de rancores, ressentimentos, hostilidades...; ao se fixar no passado, a “memória mórbida” alimenta remorsos, sentimentos de culpa, desânimo, angústia..., embotando a vida, queimando energias, paralisando a pessoa e não abrindo futuro de sentido.

Pessoa doente na memória é doente no seu coração, na sua afetividade, nos seus sentimentos...

Se a memória não é “evangelizada”, ela continua remoendo aquilo que aconteceu, num desgaste muito grande de energia. Não há mudança e conversão se não houver mudança e conversão da memória.

Somente através da “memória redentora”, a pessoa é capaz de se colocar diante do passado, de modo livre e aberto, dando-lhe um novo significado.

A memória sadia não muda o passado, mas o “re-corda” (coloca de novo o coração) de modo novo e inspirador. A memória resgata referências, cura feridas, reconcilia-se com a vida e consigo mesma, com as próprias riquezas e fraquezas, com o próprio passado; ela tem sua função de lugar santo do louvor e da gratidão, pois ajuda a tomar consciência dos benefícios recebidos e possibilita ter acesso às recordações não neutras, mas aquelas que tem um significado para o presente. Ela é capaz de tirar proveito de todas as vivências pessoais (nada é descartado, tudo é integrado); abre possibilidade para rever a própria história e lê-la como História de Salvação.

Através da memória pacificada, nossa vida é iluminada, provocada, sacudida..., para que ela saia do “fatal ponto morto” e entre no movimento expansivo da Graça.

Ativar a atitude de assombro e gratidão diante do muito que recebemos, em lugar de viver centrados naquilo que nos falta, tem uma consequência enraizada em cada um de nós: saber-nos e sentir-nos abençoados nos motiva a compartilhar o que recebemos; quem é grato(a) deseja corresponder e o serviço gratuito é a melhor resposta ao amor de Deus, presente em mil formas e intensidades na nossa vida.

Abrir-nos ao assombro é uma genuína manifestação da humildade que esvazia toda pretensão de nosso ego inflado e prepotente. A humildade é também o melhor caminho para ativar a admiração frente às nossas próprias capacidades ainda adormecidas. Carecemos da “faísca” própria da experiência assombrosa de sentir-nos amados(as) por um Deus providente e cuidador.

Entremos no movimento vital da Assunção! Sejamos simplesmente humanos! Vivamos com sabedoria e intensidade, numa atitude de contínuo agradecimento! É isso que Deus deseja a todos os seus filhos e filhas.

Texto bíblico: Lc 1,39-56

Na oração:

Por que canta Maria? A resposta mais bela e mais óbvia está, talvez, num verso de São João da Cruz: “Todos os apaixonados cantam!”. Maria canta porque está apaixonada.

É muito importante notar que a oração mariana por excelência não coloca em cena ideias, mas fatos. O Senhor realiza maravilhas: nela, nos outros, em cada um de nós.

- Faça de sua oração um canto apaixonado: louve, agradeça, silencie...

sábado, 12 de agosto de 2023

Travessia existencial para a outra margem

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 19º. Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar...” (Mt 14,22).

Jesus, “homem do mar”. Os evangelhos o apresentam como carpinteiro/operário da construção. Mas tinha amigos pescadores e com eles aparece nos evangelhos passando, várias vezes, de um lado a outro, pelo mar da Galileia. Jesus não vive só no “terreno sólido”; Ele vive também “no terreno do mar”, sai dos limites conhecidos, aventura-se ao novo, abre-se ao diferente...
O evangelho deste domingo nos fala de uma realidade muito humana: somos seres de travessia e vivemos contínuos deslocamentos, desde o ventre materno. Saímos de lugares estreitos em direção a espaços mais amplos, até à travessia definitiva. Toda travessia tem um “para que” (um sentido); ela aponta para algo maior, inspirador. O perigo é deixar-nos determinar pelo medo, bloquear nosso espírito aventureiro e nos “acostumarmos” com a margem conhecida.
O relato sobre a travessia do mar em Mateus nos revela que há muitas tormentas e ameaças ao nosso redor. Em meio à tempestade levantam-se ondas de obscuridades sem sentido, de medos paralisantes, de dúvidas angustiantes... Sopram outros ventos tempestuosos que nos ameaçam, arrastando tantas seguranças que nos sustentaram, quebrando tantos salva-vidas aos quais nos agarrávamos...
Mas, em meio às tempestades urge não perder a calma, ter a coragem de “permanecer na barca” e não permitir que o ruído dos ventos nos vença, que os relâmpagos nos ceguem, que as ondas nos levem...
“Permanecer na barca” é a palavra-chave: permanecer firmes nos compromissos assumidos, nos passos que buscam abrir caminhos novos, ainda que seja arriscado; permanecer ancorados na fidelidade a Jesus e a seu Reino e consentir que os ventos levem todos os nossos velhos padrões mentais, ideias fixas e atitudes petrificadas, preconceitos e tudo o que já está caduco e que não nos impulsionam para a outra margem...; permanecer apenas com a pessoa de Jesus e seu sonho como o melhor legado que podemos oferecer aos nossos contemporâneos, sacudidos por tormentas que os afundam sem poderem vislumbrar um novo horizonte e um novo sentido para suas existências.
Na tempestade também é necessário “soltar amarras e içar velas”, ou seja, atrever-nos a “viver no Vento”. Aproveitar dos “ventos contrários” para transformá-los em “ventos favoráveis” que conduzam nossa vida para a “outra margem”. Soltar as amarras e âncoras de nossos apegos, de nosso consumismo, de nossa prepotência, afã de domínio, fundamentalismos, patriarcalismo, machismo... Precisamos perder o medo dos novos ventos e içar as velas das novas ideias, das visões arrojadas, dos projetos criativos, da riqueza da pluralidade de culturas, religiões, raças, deixar-nos mover pelo vento dos movimentos de libertação (povos em desenvolvimento, negros, indígenas, os sem-terra, os movimentos ecologistas, pacifistas, feministas...), enfim, acolher o vento que nos impulsiona em direção ao novo e diferente... 
A barca de nossa vida naufragará na estreita calma de mares mortos se não formos capazes de desatar os antigos nós de marinheiros que impedem içar as velas para receber os novos ventos da história. 
Durante a tormenta aprender a recordar que depois da tempestade vem a calma, para não perder assim o horizonte nem a esperança. Afinal, somos “seres de travessia”. 
Temos entranhas ardentes de voltar ao alto mar, a disposição de enfrentar tormentas, o desejo de descobrir terras desconhecidas, a exploração do novo, a paixão por um horizonte de sentido.
Tantos anos ancorados em portos seguros, com ritmos e horários pre-fixados, sem criatividade e sem intuição...; agora é tempo de nos perder no mar, com a proa voltada para a imensidade...
Este é o desafio: despojar-nos do medo, romper os limites e confiar no Sopro, sutil ou tormentoso, que continua nos conduzindo para onde não sabemos. Reconhecer o temor nos impulsiona fortemente a atravessá-lo, a abandonar desculpas esfarrapadas, a não nos deixar prender pelos custos previsíveis. Continuar quebrando nossas pobres seguranças, despojar-nos daquilo que nos alivia e sair, sem alforge, nem duas túnicas, sem sandálias...
A travessia traz e leva inovação. Deslocar-se, querendo ou não, implica uma mudança de posição, uma alteração do ângulo habitual, uma exposição ao diferente, um amadurecimento do próprio olhar, um reconhecimento de que alguma coisa nos falta, uma adaptação a realidades, tempos e linguagens, ou a descoberta de uma incapacidade para tal; um confronto indispensável, um diálogo tenso ou deslumbrado que nos deixa, necessariamente, com uma tarefa futura (Card. Tolentino).
O primeiro desejo de chegar à outra margem nasce de dentro, do coração, que sabe estar longe de seu centro e entende sua missão de busca e peregrinação interior, de colocar-se em movimento...
Sair da margem conhecida, “velha”, rotineira... para encontrar a nova margem: lugar de relação, de questionamento, de criatividade...
A outra margem: lugar provocador, incitador e que desperta curiosidade... É aqui que brotam as grandes experiências religiosas, as intuições, os projetos ousados, as ideais vitais.
Caminhar para a outra margem é sair do centro, da segurança, da acomodação... e ir em busca das surpresas, das novas descobertas; implica arriscar, ter ousadia, não ter medo de caminhar para os “confins da terra”, para regiões desconhecidas em seu próprio interior...
Os poetas, artistas, místicos... são aqueles que fazem a experiência da “outra margem”, vislumbram o outro lado, tocam as raízes mais profundas do próprio ser.
O seguidor de Jesus tampouco sabe o que há do outro lado. A ele, como aos demais, lhe custa ver claramente. No entanto, considera que a outra margem é talvez diferente, mas tão apaixonante como esta margem onde ele está; e então, decide animar-se a cruzar a vastidão do mar interior.
Em resumo: nessa experiência não se trata tanto de “chegar”,  mas de “ser levado”, pois nossos remos não servem para vencer a distância e a correnteza, e precisa do vento benfeitor que sopre, dirija, empurre e persevere, até a outra margem.
No nosso processo espiritual queremos desenvolver esta capacidade de ver quem nós somos e onde estamos, sem o temor de nos defrontarmos com respostas desagradáveis. 
Somente partindo da realidade de nós mesmos, que é sempre uma realidade rica e original, é que poderemos crescer como “peregrinos” em direção à nossa interioridade e em direção a um maior compromisso.
A percepção e o sentido da nossa própria identidade vão se ampliando quando surge uma capacidade de interessar-nos por realidades mais amplas e desafiantes...Novas ideias, novos mundos, novos sonhos e projetos... vão definindo nossa identidade pessoal.
Se uma pessoa não criar intensos interesses “fora dela mesma”, viverá alienada em sua existência, fechada no seu pequeno mundo. Se ela se expande passará, então, a participar de outras esferas significativas da vida, dedicando-se a uma grande quantidade de interesses e projetando-se ardorosamente para o futuro. Isso significa ser “habitante de fronteira”.

Texto bíblico: Mt 14,22-33 

Na oração: 
Diante de Deus, deixe seu coração responder:
 - Tenho medo de alguns “aspectos” de minha vida?
 - O que está me “amarrando”, impedindo-me atravessar para a outra margem?
 - Tenho consciência que em meu interior ainda existem “terras inexploradas”?
 - Que “meios” utilizo para chegar a esta “fronteira do coração”?

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Transfigurar nossa capacidade de escuta

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho da Festa da Transfiguração do Senhor  (Ano A).

“Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!” (Mt 17,5)

 

O apelo do Deus de Jesus a seu povo, a cada filho e filha é este: “escutar”. O maravilhoso “Shemá Israel”, que nossos irmãos judeus tanto repetem e veneram, esteve nos lábios de Jesus infinitas vezes ao longo de sua vida. Em seus lábios sim, como bom judeu que era, mas sobretudo em sua vida, como uma atitude.

De Jesus falamos mais de suas palavras e de seus feitos, o que Ele “fez e disse”.

Quando nos referimos ao seu “fazer”, nós nos fixamos em suas curas, em seus gestos eloquentes como multiplicar o pão para alimentar a multidão, no gesto de lavar os pés dos seus discípulos, de devolver vida e força às pessoas alquebradas por enfermidades etc.

E o que Ele “disse”, os textos canônicos e apócrifos conservam para serem rezados, estudados, repetidos diariamente em centenas de liturgias, nos corações orantes, nos estudiosos enamorados da Palavra...

De Jesus falamos muito pouco de sua escuta. Jesus é “Shemá” em sua mais pura essência. Embora pareça que tenha falado muito, sempre nos inspira uma etapa longa de sua vida, antes de seu batismo, na qual vivia uma vida normal, como todo bom judeu, cujo guia foi a fidelidade ao “Shemá”.

Jesus escutava seu Abba, sua realidade social e religiosa e continuou escutando. E porque escutou, se tornou um buscador; encontrou João no deserto e o escutou. Depois de um tempo, tomou uma decisão, deixou-se batizar e imediatamente foi conduzido pelo Espírito ao deserto para escutar.

O motor da atividade de Jesus foi a escuta da voz do Pai, dos textos revelados e do pulsar da vida.

Assim como aconteceu com Jesus, ativar a capacidade de escuta é a que nos possibilita a entrada no mistério. A escuta é como um sacramento que nos unge para a trajetória do seguimento de Jesus, para a travessia que nos faz sair das pequenas ou grandes atrofias: maneiras de pensar, opiniões petrificadas e inamovíveis sobre Deus e os outros, atitudes petrificadas, moralismos doentios, culpas mórbidas... para poder caminhar em direção à plenitude de vida, que é a meta. Tal plenitude não é um lugar físico, é um “estado interior” que nos ajuda a descobrir a direção e a felicidade. Na mentalidade judaica trata-se da “Terra prometida”.

Esta não consiste simplesmente em estarmos bem, mas em estarmos em comunhão com tudo, em descobrir que somos uno, que estamos conectados, que somos uns com os outros, que possivelmente passou por nossos pulmões o mesmo oxigênio que passou pelo resto da humanidade, que somos pó de estrelas...; logo, pertencemos ao infinito, ao cosmos e desfrutamos contemplando as estrelas. Somos família.

Escutar é perigoso, subverte; e é libertador, pois nos arranca da estabilidade e da acomodação. Quem escuta sai de si e se põe em movimento. Escutar é conectar com o pulsar de tudo e sentir que é preciso ser pessoa de travessia para outra margem, pessoa capaz de soltar para acolher, para abraçar e acompanhar.

A vida não é um mistério para aqueles que elegem caminhos seguros. Nossa vida começa a sentir o mistério quando escutamos e entramos em sintonia com a realidade e de sua mão nos deixamos introduzir em outro nível, o do “Shemá”, o da escuta da pulsação d’Aquele que é Presença providente e cuidadosa.

A festa da Transfiguração nos anima a que nos tornemos homens e mulheres de “Shemá”, de escuta. Deixar que o longo tempo que Jesus se dedicou a escutar nos contagie; deixar que este aspecto de nossa essência configure mais e mais nossa identidade como pessoas “escutadoras”.

A escuta mais profunda se realiza a partir da quietude e do silêncio interior. Como no lago sem ondas, em cuja superfície lisa se refletem as imagens, o ouvido interno capta o som de vida criada e criadora só quando os ruídos artificiais forem aquietados. É preciso afinar mais a capacidade de escuta interior para melhor sentir, discernir e optar.

Ao escutar Jesus nos sentiremos movidos a sair de nosso conformismo, romper com um estilo de vida egóico no qual estamos, talvez, confortavelmente instalados e começar a viver mais atentos à interpelação que nos chega a partir dos mais excluídos e desvalidos de nossa sociedade.

Saber escutar nos liberta do fechamento indiferente, do fanatismo e do conservadorismo que aprisiona a vida; liberta-nos também da surdez cúmplice dos ruídos alienadores que bloqueiam os clamores que provém da Terra machucada e dos irmãos violentados.

O “ouvido evangelizado” nos permite abrir ao diferente, à palavra e ao silêncio, à brisa e ao rugir da tormenta. Através do ouvido podemos saborear a beleza das melodias da natureza (água, vento, árvores, pássaros...) e da criação artística. Um ouvido atento que possa perceber o Silêncio, um silêncio carregado de Presença, e o Mistério que pode ser nomeado de diversos modos: Transcendência, Ser, Energia Puríssima, Alá, Deus, Ser, Presença...; Jesus de Nazaré o denominou “Abba”, como expressão de sua experiência de relação amorosa.

Saber escutar foi e continua sendo uma aprendizagem longa e difícil, que não termina nunca, e que vai nos conduzindo a um encontro com a Vida; portanto, a uma aprendizagem no caminho em direção ao amor.

É preciso aprender o ofício de “escutadores/as”; escuta descentrada que nos coloca no lugar da outra pessoa, escuta para ativar os dois ouvidos: um atento às necessidades dos outros, e o outro atento às nossas próprias ressonâncias interiores.

Por isso, é importante aprofundar no que significa fazer do ouvido um lugar para o encontro com o Ser, com a vida, com o Amor, porque isto supõe uma aprendizagem, requer arte e técnica, supõe transitar caminhos diferentes, cultivar um modo original de nos fazer presentes na realidade que nos envolve.

É preciso afinar cada vez mais nossos ouvidos para poder escutar a voz dos sem voz, daqueles que já não tem nem forças para gritar, daqueles que perderam a esperança de serem escutados, daqueles que ficaram exaustos, atirados nos caminhos que eles acreditavam serem de vida e na realidade se converteram em ratoeiras de morte. Escutar não só os sem voz, mas todas as vozes silenciadas pelo medo, opressão, exclusão, violência, machismos imperantes durante tantos séculos. Vozes de quem não lhes damos voz, porque não são dos nossos, porque nos parece que não tem nada a contribuir, ou porque suas vozes diferentes das nossas nos ameaçam em nossas “seguranças-inseguras”, porque nos deslocam e nos põem em dúvida, porque nos denunciam e desmascaram nossas mentiras pessoais, sociais, culturais e religiosas.

Nossos ouvidos estão muito condicionados pelo nosso lugar social, racial, geográfico, familiar, ideológico...

Escutar não é ouvir. Ouvir é um processo fisiológico, escutar é outra coisa. É um processo psicológico e espiritual que supõe a implicação de toda a nossa pessoa, requer atenção, interesse, motivação...

Saber escutar é uma arte e uma missão, uma aprendizagem no qual podemos nos exercitar.

A escuta é, em si mesma, terapêutica pela capacidade que tem de facilitar a chave de compreensão da realidade do outro e de nós mesmos.

Sem escuta profunda a vida se desumaniza e o ser humano se automatiza egoísticamente.


Texto bíblico: Mt 17,1-9

Na oração: Inimiga número um da escuta é a pressa e a ansiedade que ela costuma trazer consigo.

A oração, por si mesma, é uma rebeldia contra a pressa dominante: uma oração mesclada de silêncio profundo, de respeitosa contemplação, isto é, de verdadeira escuta.

- Tome consciência daquilo que obstrui os seus ouvidos e os torna “incapazes de prestar atenção” (Jer. 6,10).

- Tome consciência da superficialidade diante da voz da consciência e da incapacidade de escutar o outro, fazendo ressoar a sua voz no seu coração.

- Tome consciência de todas as mensagens negativas que transformaram, seduziram e enganaram  seus ouvidos, tornando-os  surdos às mensagens celestes, à Palavra da verdade e da vida.

- Tome consciência da hipersensibilidade auditiva que o faz reagir bruscamente frente à incompreensão ou o seduz diante das vozes de morte que alienam e matam a capacidade de discernir.