sábado, 23 de janeiro de 2016

As credenciais de JESUS e de seus seguidores

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana -CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 3º Domingo do Tempo Comum - Ano C.


“Jesus voltou para a Galiléia com a força do Espírito...” (Lucas 4,14)


Depois do prólogo, saltando os relatos da infância, do batismo e das tentações, o texto evangélico que a liturgia nos propõe para este domingo nos situa no começo da chamada “atividade pública” de Jesus, com a proclamação daquilo que constitui seu “discurso programático”. Lucas quer apresentar Jesus como o “Ungido” de Deus, cuja missão consiste em ser “boa notícia” para todos.

Antes de começar a narrar o ministério público de Jesus, Lucas quer deixar muito claro a seus leitores qual é a paixão que impulsiona o Profeta da Galileia e qual é a meta de toda sua atuação. Os cristãos deverão saber em que direção o Espírito de Deus move a Jesus, pois segui-lo é precisamente caminhar com Ele na mesma direção.

Em Lucas 4,14 começa propriamente a vida pública de Jesus com este relato da pregação na sinagoga de seu povoado, depois de uma breve introdução geral na qual fala de seus ensinamentos nas sinagogas da Galileia. Ao aplicar-se a si mesmo o texto de Isaías, Jesus está declarando sua condição de “Ungido”.

Ele voltou à Galileia conduzido pelo Espírito.

Aqui está a chave. Só o Espírito pode nos capacitar para cumprir a missão que temos como seres humanos. Tanto no AT como no NT, ungir era capacitar alguém para uma missão. Paulo nos diz isso com uma claridade meridiana: se todos nós bebemos de um mesmo Espírito, seremos capazes de superar o individualismo, e entraremos na dinâmica de pertença a um mesmo corpo.


A primeira coisa que chama a atenção é a apresentação que Lucas faz de Jesus como alguém que é movido “pela força do Espírito”. Nem sempre somos conscientes das “forças” que nos movem em nosso viver cotidiano, tampouco das motivações reais que nos impulsionam a tomar certas decisões. Dois dinamismos atuam em nosso interior: um, de impulso para algo maior, para o serviço, para ser presença inspiradora; outro, de atrofia, de acomodação e medo. Qual das duas “forças” alimentamos em nosso interior?

Jesus chamava a atenção pela claridade de suas motivações e a coerência com as mesmas: é o homem íntegro e fiel, lúcido e transparente. Deixa-se conduzir pelo Espírito no mais profundo de si mesmo; deixa que Deus viva nele; deixa Deus ser Deus nele.


Lucas descreve com todo detalhe o que faz Jesus na sinagoga de seu povo: põe-se de pé, recebe o livro sagrado, busca uma passagem de Isaías, lê o texto, fecha o livro, o devolve e se senta. Todos hão de escutar com atenção as palavras escolhidas por Jesus pois elas explicitam a missão à qual Ele se sente enviado por Deus. Ele começa a gritar uma mensagem nova e diferente, surpreendente e provocativa.

Estas são as credenciais de Jesus, aquelas que identificam sua personalidade e sua missão.

E serão também estas as credenciais que nos identificam como seus seguidores. Surpreendentemente, o texto não fala de organizar uma religião mais perfeita, de implantar um culto mais digno ou de apresentar novas leis, mas de comunicar libertação, esperança, luz e graça aos mais pobres e excluídos. É curioso que os traços distintivos de sua missão não fazem referência à sua relação com Deus; todos fazem referência à relação com as pessoas mais necessitadas e marginalizadas: os pobres, os cativos, os cegos.

Sua única preocupação é a missão de “anunciar o Evangelho”. Jesus não veio anunciar desgraças, castigos, nem impor medo através de uma religião moralista e legalista. Jesus veio anunciar “boas notícias”: uma vida digna e de esperança aos pobres; a liberdade àqueles que carecem dela; a vista àqueles que não podem ver. Jesus não faz proselitismo e nem nos convoca para seguir uma determinada religião, uma doutrina... mas para sermos presenças humanizadoras e libertadoras.



A missão de Jesus é a de aliviar o sofrimento humano; o sofrimento dos inocentes é a primeira preocupação d’Ele: não suportava ver as pessoas sendo exploradas e marginalizadas; não aguentava a dor dos outros, porque sua sensibilidade não tolerava isso. Jesus “desce” em direção a tudo o que desumaniza as pessoas: os traumas, as experiências de rejeição e exclusão, as feridas existenciais, a falta de perspectiva frente ao futuro, o peso do legalismo e moralismo, a força de uma religião que oprime e reforça os sentimentos de culpa, as instituições que atrofiam o desejo de viver...

Enfim, tudo aquilo que prejudica as pessoas, provoca miséria, tira a dignidade do homem  e da mulher.

Lucas destaca que “todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos n’Ele”.

E ao “fixar os olhos n’Ele” os ouvintes são movidos a ampliar o olhar e voltar-se para aqueles que são vítimas do sistema social e religioso de seu tempo.

As pessoas percebem n’Ele um novo Mestre, cujo ensinamento desperta o assombro e a admiração.


Vamos, na oração, considerar algumas expressões do Evangelho de Lucas e que revelam a essência de uma vida que se deixa impactar pelo modo de ser e viver de Jesus:

- “Ungidos pelo Espírito”:  todos somos marcados, assinalados pela unção no Espírito. Carregamos a “marca” do Espírito: Espírito que não está sobre nós, mas dentro de cada um de nós; Espírito que nos habita e que nos conduz para fora de nós mesmos, em direção ao compromisso com os outros.

- “Enviados para anunciar o Evangelho”, ou seja, ser boa notícia para os outros através de nossa presença alegre e solidária. Não somos enviados para anunciar más notícias e desgraças, nem para alimentar culpabilidades nos outros, impondo falsos moralismos e legalismos que bloqueiam a vida das pessoas.

Somos enviados a anunciar aos tristes a alegria de Deus, aos pobres a esperança de um mundo mais humano, justo e fraterno, aos excluídos o amor de Deus, aos que nada contam aos olhos dos homens que eles são importantes para Deus.

- “Enviados a anunciar a liberdade aos oprimidos”: anunciar que Deus nos quer a todos livres; ser presença libertadora de tudo o que desumaniza o ser humano: pobreza e miséria, ignorância e violência, opressão religiosa, preconceitos, exploração...

- “Enviados a ativar a visão aos cegos” para que vejam as maravilhas que acontecem ao seu redor, para ver o rosto de Deus no rosto de cada irmão, para encantar-se com a beleza e grandeza da Criação, para contemplar a presença do Criador em tudo e em todos...

- “Enviados a proclamar o ano da Graça do Senhor”: a plenitude humana que Jesus começou a realizar se expressa como festa jubilar: ano de graça, tempo de júbilo que, conforme à tradição de Israel, se torna celebração de fraternidade, perdão das dívidas, libertação dos escravos, partilha das terras...

Neste “Ano jubilar da Misericórdia” somos convocados a ser presença reconciliadora em meio aos conflitos, a indicar para os desanimados a esperança da salvação, a viver como filhos de Deus e como irmãos, a viver a presença de Deus neles...


Texto bíblico: Lucas 1,1-4; 4,14-21


Na oração:

“Hoje se cumpre essa escritura em ti”. Esse mesmo Espírito que atuou em Jesus, está atuando sempre em ti. Deus dá o Espírito sem medida. Se não descobres e não experimentas isto, nenhuma vida espiritual será possível. O Espírito te levará ao amor. O amor se manifestará em atitudes, que sempre beneficiarão os outros. A força do ego nos separa. A força do Espírito nos identifica.

Conecta com essa energia divina que já está em ti, e a espiritualidade será o que há de mais espontâneo e natural de tua vida.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Um convidado que “dá o que falar”

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana -CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 2º Domingo do TEmpo Comum - Ano C.


“Também Jesus e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento” (João 2,2)



A festa está profundamente enraizada no coração do ser humano; ela proporciona o diferente, o novo, o exuberante, o utópico; revela o “homo ludicus” que brinca, canta, dança, transborda emoções, reúne companheiros em comunidade e celebra a vida.

A festa é ruptura com a monotonia e com a rotina da vida; é um momento no qual se deixa levar pela vida em vez de “carregá-la” nas costas como um fardo. É a própria vida, despojada do peso do cotidiano e vivida em plenitude; a festa é um “sim à vida” porque significa mergulhar na profundidade da existência, assumindo o que há de prazeroso, de positivo e de belo, para expressá-lo com alegria.

A festa é celebração comunitária de experiências e acontecimentos da vida. As circunstâncias podem ser variadas (casamentos, nascimentos, padroeiros, conquistas, colheitas, aniversários, datas importantes...), mas o essencial permanece: uma afirmação da vida, da amizade, da comunhão, e uma espécie de juízo de valor sobre nosso mundo e sobre nossa existência.

Ao valorizar determinados acontecimentos, a festa constrói a comunidade a partir de suas raízes e de sua história em vista do futuro; ela torna público o horizonte social dos participantes. Fazendo a festa, a comunidade descobre que foi a festa que a fez. Ela sim, re-cria a comunidade, re-criando os participantes.

Festejar não é ocultar as tensões, os conflitos... Mas, ao contrário, é um meio de assumi-los e superá-los.



Nas bodas de Caná, a novidade está numa nova forma de presença de Jesus, que não se encontra interessado, em princípio, por fazer coisas, por resolver problemas, senão para traçar uma presença como convidado. Ele não está aí para “arrumar” as coisas, mas para escutar e compartilhar um momento festivo. Ele se encontra presente de maneira gratuita, num gesto de solidariedade que transcende e supera toda atividade.

Segundo o evangelista João, a primeira intervenção pública de Jesus, o Enviado de Deus, não tem nada de “religioso”. Não acontece num lugar sagrado (sinagoga ou templo). Jesus inaugura a Sua atividade profética "salvando" uma festa de casamento que podia ter terminado muito mal. Trata-se do "primeiro sinal", onde nos é oferecida a chave para entender toda a Sua atuação e o sentido profundo da Sua missão salvadora. Convida-nos a que descubramos o Seu significado mais profundo.

"Havia um casamento na Galileia". Assim começa este relato em que nos é dito algo inesperado e surpreendente. Este gesto de Jesus ajuda-nos a captar a orientação de toda a Sua vida e o conteúdo fundamental do Seu projeto do Reino de Deus. Enquanto os dirigentes religiosos e os mestres da lei se preocupam com a religião, Jesus dedica-se a fazer mais humana e leve a vida das pessoas.



Os evangelhos apresentam Jesus concentrado, não na religião mas na vida. Viver o “estilo de vida” de Jesus não é só para pessoas religiosas e piedosas. É também para quem ficou decepcionado com a religião, mas sente necessidade de viver de forma mais digna e ditosa. Por quê? Porque Jesus contagia a fé num Deus festeiro, que não complica nossa vida, mas nos move a confiar n’Ele, que com Ele podemos viver com alegria pois Ele nos atrai para uma vida mais generosa, movida por um amor solidário.

A espiritualidade de Jesus não é a espiritualidade do sacrifício, do pecado e da culpa, da busca da perfeição, mas é a espiritualidade da felicidade e da alegria para as pessoas. Com sua presença, participando das bodas, das refeições festivas e dos banquetes, Jesus anunciava e indicava um outro mundo diferente, onde partilha-se a vida, a convivência, a alegria, abrindo espaço à participação de todos, sobretudo daqueles que eram excluídos da religião. É a alegria contagiante do Evangelho.

Para Jesus, Deus se manifesta em todos os acontecimentos que nos impulsionam a viver mais plenamente. Deus não quer que renunciemos nada do que é verdadeiramente humano. Ele quer que vivamos o divino no que é cotidiano e normal. A ideia do sofrimento e da renúncia como exigência divina é anti-evangélica.



A cena das bodas de Caná da Galileia não se limita simplesmente à ausência de vinho. O assunto é outro: o relato tem que ser entendido na perspectiva do Reino, na dinâmica do tempo messiânico. O texto indica que havia aí, em um lugar da casa, seis talhas de pedra vazias. O texto enfatiza que estavam vazias. São vasos destinados a conter a água da purificação, ritual dos crentes judeus. Porém estão vazias, secas. Este símbolo indica que o modelo religioso que Jesus encontrou está ressecado, vazio.





A mensagem para nós hoje é muito simples, mas demolidor. Nem ritos, nem abluções, podem nos purificar. Só quando saborearmos o vinho-amor da festa e da partilha, ficaremos todos limpos e purificados. Só quando descobrirmos o Deus presente dentro de nós e nas nossas realidades mais cotidianas, seremos capazes de viver a imensa alegria que nasce da profunda unidade com Ele.

Geralmente nos contentamos com as seis talhas de pedra para as purificações, preocupados com os ritos e as normas religiosas; esquecemos que o melhor vinho ainda não foi servido, pois está escondido no mais profundo de nós mesmos.



Na visão dos primeiros cristãos, que acabavam de se separar do judaísmo, a lei judaica, antes de ajudar, acabou dificultando a relação de Deus com seu povo. Por isso para eles era uma lei vazia, sem sentido, que somente gerava carga e não possibilidade de liberdade e de alegria. As talhas de pedra, destinadas à purificação, eram um símbolo que dominava a lei antiga. Esse modelo de lei criava com Deus uma relação difícil e frágil, mediada por ritos frios e carentes de sentido.

Com a presença de Jesus, a ritualidade, o legalismo, a norma fria e vazia, se transformam em vinho, símbolo da alegria, do júbilo messiânico, da festa da chegada do tempo novo do Reino de Deus.

A atitude de Jesus, sem nenhum tipo de imposição, vai revelando uma nova imagem e um novo conceito de Deus. Deus deixou de ser esse ser estranho e distante, que atemoriza o ser humano com o peso da doutrina e das leis, mas que revela sua face misericordiosa, ou seja, o Deus que caminha com seu povo.

Temos de eliminar, em nossa vida pessoal comunitária, com os sistemas religiosos desumanizantes, para conseguir entrar na dinâmica libertadora, inclusiva e festiva que Jesus inaugurou.



Texto bíblico:  João 2,1-11



Na oração:  
“Festeje a fé que torna Deus luz e garantia para os nossos caminhos; festeje a esperança que transporta os seres ao novo do amanhã; festeje o amor  que os torna fonte de crescimento e união.

Ao festejar o mistério que o carrega e atrai, será capaz de transformar o dever em prazer, a dor em dinamismo de renovação e a convivência em promessa que se há de revelar graça onipresente.

Enxergue em tudo a dádiva e repouse do cansaço; celebre a festa em clima de gratidão e nunca deixará de ser motivado para um novo entusiasmo, recompensado também em ritmo de morte-ressurreição”. (F. Cláudio V.B.)

sábado, 9 de janeiro de 2016

Batismo: “operação saída”

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana -CEI), como sugestão para rezar o Evangelho da solenidade litúrgica do Batismo do Senhor. 

“E, enquanto rezava, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre Jesus...” (Lucas 3,21-22)



Terminado o ciclo natalino, somos convidados a fazer o caminho com Jesus durante sua vida pública. Liturgicamente, este longo percurso contemplativo é conhecido como “Tempo Comum” (este ano seguiremos o Evangelista Lucas), tempo de intimidade e de identificação com Aquele que é nossa referência e inspiração na nossa maturidade cristã.

Ao inaugurar a vida pública de Jesus, o Batismo significa o alvorecer dos novos tempos, o novo início para toda a humanidade, a Nova Criação: “O Espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gen. 1,2).

A fé da comunidade cristã vê no batismo de Jesus uma ação definitiva de Deus em favor da humanidade.

À luz deste acontecimento “fontal”, situado no início da vida pública de Jesus, deve ser visto tudo o que vai ser relatado em continuação nos Evangelhos. Com o batismo de Jesus, começa uma nova era na história do mundo, na história da intervenção salvífica de Deus em favor da humanidade.

A “abertura dos céus” que se rasgam significa a abertura de novas relações entre Deus e a humanidade,       o início de um novo diálogo de Deus com o ser humano, um novo tempo de graça, de novos dons dados      por Deus a todos. Jesus é o lugar do novo, definitivo e pleno encontro de Deus com os homens, dos homens com Deus  e dos homens entre si.

“Jesus sai das águas elevando consigo o mundo que estava submerso, e vê rasgarem-se e abrirem-se os céus que Adão fechara para si e sua posteridade” (S. Gregório Nazianzeno).



Segundo os estudiosos da Cristologia, em Jesus, a tomada de consciência de quem era Ele e qual era sua missão,  foi um processo de contínuo discernimento que não terminou nunca. O relato do batismo está nos falando de um passo a mais, ainda que decisivo, nessa tomada de consciência.

Nesse sentido, o Batismo de Jesus é um acontecimento fundamentalmente vocacional. É muito provável que Jesus, já adulto, vivesse com uma inquietação em seu coração, conectado com seu desejo profundo, e uma pergunta estivesse ressoando com força no seu ser mais íntimo; essa mesma pergunta com a qual cada um precisa conectar, em algum momento da vida, e que faz brotar as decisões mais cruciais:

                 “Quem sou? Para quê nasci? Quê sentido quero que minha existência tenha?...”



Depois de ter passado trinta anos de sua vida no anonimato em Nazaré, dedicado aos trabalhos cotidianos e simples de uma vida campesina, Jesus decidiu um dia deixar para trás suas pequenas seguranças e pôr-se a caminho em direção ao sul, junto ao rio Jordão, onde João estava batizando. Despediu-se dos seus e se lançou a uma aventura da qual não regressaria mais. Tomou uma decisão que se revelou central para sua vida e para a nossa.

Para Jesus, a experiência vivida no Jordão, funda sua vocação, ou seja, a partir de então compreende quem é Ele para Deus: o Filho Amado. Com essa consciência, configura todo seu ser e aposta plenamente por seu projeto de vida. Então, Ele experimenta a presença de Deus de um modo claro e contundente. Nesse momento, confirma-se tudo o que sentiu e viveu em toda sua vida em Nazaré: a profunda sintonia com Deus, experimentado como um Pai amoroso e próximo.

Agora Jesus sente que o Pai o chama a mudar o estilo de vida escondido. Ele está atento aos “sinais dos tempos” e sabe discernir nesses sinais a Vontade do Pai que o chama a mudar de caminho, a deixar sua terra, a lançar-se numa aventura. Começa uma vida itinerante, missionária, despojado de tudo.

A novidade de Jesus não cabia mais nos estreitos espaços de Nazaré, nem nos moldes da sinagoga e da religião oficial. Ele começou a buscar e transitar por outros espaços alternativos onde ativar a vida expansiva do Reino.

Jesus não se move preso à estrutura da sinagoga, mas está aberto à surpresa e ao dinamismo do Reino, que irrompe como graça no centro da vida mesma, surpreendendo a cotidianidade. Jesus vive sintonizado no Espírito, que se revela em meio aos tempos humanos como sua dimensão mais profunda e definitiva.



Jesus não foi um extraterrestre que, por ser de natureza divina, estava dispensado da trajetória que todo ser humano tem de percorrer para alcançar sua plenitude. Geralmente não levamos a sério essa experiência humana de Jesus. Mas os primeiros cristãos tomaram muito a sério a humanidade de Jesus.

Todos nós, em um momento ou outro de nossa vida, sentimos o chamado a reorientar nosso caminho. Tivemos que tomar a decisão de deixar para trás os espaços e as pessoas conhecidas que formavam nosso entorno vital. Aventuramo-nos a estabelecer novas relações, novas práticas, novas formas de comunicação com nosso entorno, novas formas de pensar a mesma realidade. Caminhamos para o desconhecido, confiados na promessa e na fidelidade de Deus. Por Ele e n’Ele, saímos a descobrir novos horizontes.



Ver a Jesus dirigir-se para o desconhecido, confiado somente na proximidade de seu Pai Deus, nos anima a empreender também um caminho novo cada dia, com a confiança de que Deus nos acompanhará e repetirá de novo o que o mesmo Jesus escutou no Jordão: “Tu és meu (minha) filho(a) amado(a), em ti ponho o meu benquerer”. E essa foi nossa entrada na fila da humanidade, em virtude da fé de nossos pais.

Fomos acolhidos junto a outros, constituindo a grande comunidade dos seguidores de Jesus, reconhecidos como filhos e filhas do mesmo Pai, irmãos e irmãs de todos.



Viver nossa vocação batismal implica viver em contínua “operação saída”. Demasiados costumes conservados podem ser um forte herança, mas não deixam de ser um peso para quem precisa olhar longe e olhar bem. O discernimento implica investigar quê novos lugares nos quer conduzir o Espírito.

Levamos anos em que, em lugar de ir, voltamos. Temos medo frente às “novas saídas”. Há uma prefe-rência por permanecer no seguro, no conhecido, no de sempre. Buscamos as mais sofisticadas razões para “não sair”, para manter nossos “centros” e situar-nos naqueles espaços que nos dão segurança e nos permitem realizar nossos próprios sonhos e não tanto os de nosso Deus.

Quando a vida cristã não se põe em movimento de saída, ela se mundaniza e se asfixia. A Exortação do Papa Francisco nos convida a “sair”, em atitude de “intimidade itinerante”: “quando se toma gosto do ar puro do Espírito Santo, que nos liberta de estar centrados em nós mesmos, escondidos em uma aparência religiosa vazia de Deus” (EG, 97).



Tanto mais intensa será nossa vivência batismal quanto mais nos leve para “fora” de nosso próprio centro, de nosso próprio mundo e de nosso modo habitual  e fechado de viver.

Nessa “saída de si” encontramos o termômetro de toda vida espiritual: “Sair de si” é olhar a própria vida de outro ângulo, de outra perspectiva... para encontrar um “sentido” maior que nos escapa.

A “saída de si” é humanizante e humanizadora, porque faz emergir tudo o que é humano em nós.

É ir mais além daquilo que nos é próximo, próprio ou afetivamente perto.

É ir aos “aforas” de nossa vida, de nosso mundo, de nossas coisas de sempre.



Assim, pois, tanto mais real e verdadeira será nossa resposta amorosa ao carinho de Deus quanto mais expansiva se faz nossa vida, deslocando-nos em direção às fronteiras de nossa vida pessoal e comunitária.

Algo teremos de suspeitar quando, no fundo, por mais propósitos que façamos, não saímos nunca do mesmo lugar. No Batismo comprometemos nossas certezas, nossos valores, nossa confiança básica, nossa fé. Esta atitude requer a maturidade de saber fazer a “travessia”, de romper com os muros das ideias fixas, atitudes fechadas, situações estreitas... De sedentários nos convertemos em nômades do “sentido”, buscadores de uma realidade totalizante que nos ultrapassa e que está sempre além.



Texto bíblico:  Lucas 3,15-16.21-22



Na oração:

Lucas nos diz expressamente: “e enquanto orava...” porque só a partir do interior pode-se descobrir o Espírito que nos invade. Se assim o fazemos e se damos uma oportunidade ao Espírito de Deus, descobriremos nossa própria vocação... e, quem sabe, veremos o Cristo em silêncio, do nosso lado.

A experiência do encontro com Ele junto ao Jordão, des-vela nosso rosto, transforma nossa vida, abre caminhos e nos compromete com a causa do Reino.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Epifania: o Deus das portas abertas

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana -CEI), como sugestão para rezar o Evangelho da solenidade litúrgica da Epifania do Senhor. 


“Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe”. (Mateus 2,11)

 Em sua misericórdia, Deus sempre nos surpreende, sempre excede nossas estreitas expectativas, para abrir caminho a partir de nossas fragilidades. Só o amor misericordioso de Deus nos reconstrói por dentro, destrava nosso coração e nos move em direção a horizontes maiores de busca, responsabilidade e compromisso.
A força criativa da sua misericórdia põe em movimento os grandes dinamismos de nossa vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova nunca ativada.
E foi nas “fendas da humanidade” que o menino Jesus revelou o novo rosto misericordioso do Pai. A fragilidade de uma criança aponta o Deus presente e atuante nos meandros de nossa história, de nossas feridas, de nossos fracassos..., Aquele que não tem vergonha de se aproximar e de se misturar com a pobreza e a fragilidade dos seus filhos; o Deus misericordioso mergulha e santifica toda nossa existência. Ele se revela como um “Deus errante”, que corre ao encontro daqueles que estão em busca.

Nesta festa da Epifania, a imagem de Deus que nos transparece é a d’Aquele das portas sempre abertas.
Esta imagem se fez visível na Gruta de Belém, simples estábulo sem portas ou portões, que só servia para guardar as ovelhas e protegê-las da chuva e dos perigos. Por isso, carecia de portas.
Deus nasceu em um espaço sem portas.
Por isso, quando os Magos chegaram, não precisaram tocar a campainha, nem abrir a maçaneta e esperar que alguém, pela abertura da porta, lhes perguntasse: quem são? de onde vem? quê buscam?...
Simplesmente chegaram e entraram, porque tudo estava aberto.

É impressionante a descrição que Edith Stein faz, quando um dia, ainda antes de se converter ao cristianismo, entrou na catedral de Francfurt.
“Entramos por alguns minutos na catedral e, enquanto permanecíamos ali dentro num silêncio respeitoso, entrou uma mulher com a sacola de compras. Ajoelhou-se em um dos bancos. Permaneceu nessa postura o tempo suficiente para rezar uma breve oração. Aquilo era algo completamente novo para mim. Nas sinagogas e nas igrejas protestantes que eu havia visitado só se entra para os atos litúrgicos da comunidade. Mas aqui alguém pode entrar numa igreja vazia, durante as horas de trabalho de um dia qualquer da semana para manter uma conversação familiar. Jamais pude esquecer isto”.
A presença dos Magos em Belém foi um pouco como a visita de Edith Stein à catedral de Franckfurt. O mais maravilhoso de Deus é que as portas lhe causam repugnância. Ele as quer sempre abertas para que todo aquele que queira “vê-lo”, falar-lhe e adorá-lo, não precisa nem chamar, nem tocar a campainha, nem marcar visita com hora fixa. Deus está aberto sempre e a todos. Não faz distinção de pessoas.
O Menino Jesus não se fixou se um Mago era negro, o outro branco e o outro amarelo. Nem se assustou vendo o quão grande eram os camelos. Simplesmente os recebeu com um sorriso. Por isso, esse encontro é conhecido como festa da Epifania, da manifestação, da revelação do Deus de “portas abertas” ao mundo. Revelou-se como o Deus de todos e para todos.

A mulher que entrou na Catedral de Franckfurt, seguramente que vinha ou ia às compras, porque entrou com sua sacola; não a deixou à porta da catedral, por respeito. Também com a sacola se pode falar com Deus. Não sabemos de que falaram, ela e Deus. Possivelmente de quão caras estão as coisas e que com certeza o dinheiro não ia dar para encher a sacola de compras. E Deus se sentiu lisonjeado com aquela visita. Os outros tinham entrado por simples curiosidade turística. E mesmo assim, alguns deles saíram diferentes, como a Edith, que ficou impressionada e tocada em sua alma por esta disponibilidade de Deus.
O Deus da Epifania não é o Deus das portas fechadas; tampouco o Deus a quem é preciso marcar visita previamente. É o Deus das portas sempre abertas a todos; é o Deus que sempre está disponível a receber-nos; é o Deus que nunca está ocupado para atender-nos; é o Deus sempre acolhedor de todos nós, levemos ouro, incenso e mirra, ou simplesmente levemos uma sacola de compras.
Por isso, todos os dias deveriam ser “Epifania”, Deus com as portas abertas de seu coração misericordioso, pronto a nos receber a todos e a nos aceitar como somos. Deus que a cada dia nos diz: “Passai por aqui, a porta está sempre aberta”.

É altamente significativo e simbólico que a abertura do Jubileu da Misericórdia tenha começado com o destravamento das portas das igrejas em todo o mundo.
Mais significativo ainda foi o gesto do papa Francisco de abrir a Porta Santa do Ano da Misericórdia em Bangui, na África, antes mesmo de fazê-lo em Roma, sede central do Cristianismo. 
O Santo Padre declarou Bangui a capital espiritual do mundo no dia 29 de novembro, dando  início ao Jubileu da Misericórdia a partir daquela cidade, marcada pela miséria e pela violência.
Como os Magos, também nós nos dirigimos primeiramente aos palácios de nossa sociedade do bem-estar e aos Herodes contemporâneos, até que nos damos conta de que ali não encontramos o que estamos buscando, que ali se anula e se anestesia a vida, essa vida de Deus que quer crescer em nós. Somente quando nossos olhos se abrirem, descobriremos assombrados que não há nada que não seja sua epifania, que não é que Deus não se manifeste, senão que nos faltam olhos para descobri-lo.
O Espírito que sopra desde a África, com a abertura da Porta Santa, nos abre então a porta para palmilhar a estrada deste Novo Ano rumo a um mundo marcado pela luz da Misericórdia.

Os Magos do Oriente são o símbolo de tantos homens e mulheres que, em qualquer parte do mundo, a partir de outras sendas e tradições espirituais, se perguntam, buscam e caminham. Uma lenda os apresenta como um rei jovem, outro ancião e outro negro, querendo significar que todos os âmbitos do ser humano se fazem patentes ao longo do caminho, até poder encontrar o Menino e adorá-lo.
Segundo esta lenda, os magos perdem a estrela justamente antes de chegar, e foram os pastores, as potên-cias do coração, aqueles que lhes ensinaram o caminho. O ouro do amor, o incenso de nossos desejos e a mirra de nossas dores e daquilo que cura as feridas são entregues Àquele que nos deu tudo primeiro.

Texto bíblico:  Mateus 2,1-12

Na oração:   
A obscuridade e as dúvidas pairam sobre nosso presente e nosso futuro. A situação social que vivemos é certamente muito confusa. Por isso buscamos uma luz, uma estrela para orientar-nos.
Precisamos de uma luz que dê sentido e orientação à nossa vida.
Uma vez que a Luz do Menino nos toca, já não podemos seguir pelo mesmo caminho; o caminho da epifania é agora o nosso caminho: descobrir o amor e manifestá-lo. Descobri-lo onde não esperávamos e levá-lo a outros por onde ainda não sabemos. Como cegos tocados por uma luz que nos indica os modos: em vulnerabilidade, em pobreza, em humildade, em alegria.
Ao celebrar a Epifania ou manifestação do Senhor devemos nos perguntar se vamos caminhando para onde essa luz nos leva, ou se permanecemos instalados no caminho. Somos portadores desta nova luz para que ela também chegue aos rincões do mundo e a todos os seres humanos. Quando todos se abrirem a ela, certamente se envolverão na construção de uma sociedade fraterna onde a justiça e a paz se abraçarão e permanecerá vivo o mistério do Natal.