Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho do 3º Domingo da Páscoa (Ano C - 2025).
“Logo
que pisaram a terra, viram brasas acesas, com peixe em cima, e pão”
(Jo 21,9)
O
relato da última aparição de Jesus ressuscitado aos seus
discípulos tem uma cena belíssima. Novamente juntos, na praia e
entre redes, como no começo; novamente diante de um trabalho
cansativo e ineficaz, como tantas vezes; novamente a dureza de cada
dia, em um cotidiano sem Jesus, como antigamente.
No
relato deste domingo, a comunidade eclesial é representada por sete
discípulos (Pedro, Tomé, Natanael, Tiago, João e mais dois
discípulos anônimos). No pensamento semítico, sete
é o número simbólico da plenitude. Nos sete discípulos está
representada a plenitude do novo Povo de Deus, a Igreja.
Mas,
dos sete discípulos só cinco são nominados. Como no Evangelho de
João, tudo é simbolicamente elaborado, também esse detalhe tem seu
significado.
Podemos
dizer que, nessa comunidade dos sete, nem todos encontraram a sua
identidade. Estão em busca de um nome. Tudo ainda está aberto. Os
discípulos anônimos também representam aqueles que mais tarde
crerão em Cristo e farão parte da nova comunidade do Reino.
Os
relatos das Aparições
nos Evangelhos nos põem em contato com a situação de uma longa
série de pes-soas desoladas.
O
“golpe”
da Sexta-feira Santa não pôde ser bem interpretado, de imediato,
por aquele grupo de pescadores e que tinha convivido com Jesus. Todos
“fizeram
mudança” em
tempo de desolação. As esperanças se perderam, a bondade de Deus
parecia se esconder para sempre, a lembrança de Jesus fora reduzida
a um cadáver a respeitar, e, quem sabe, uma bonita história a
esquecer.
O
vazio, o abandono, a solidão, a escuridão da noite, a rotina do
trabalho corriqueiro domina a paisagem do relato da Aparição do
Ressuscitado junto ao mar de Tiberíades. O que mudou na
cotidianidade pós-pascal da comunidade? Aparentemente, tudo voltou à
normalidade da vida corriqueira.
No
entanto, a presença e o reconhecimento do Senhor dão ao trabalho
profissional da pescaria uma nova dimensão. Não se trata mais de
uma simples pescaria. Pescaria
e pescadores
tornam-se imagem da
plenitude da vida e da unidade da missão.
Pedro
e João
representam qualidades humanas que precisam ser integradas na vida de
cada um e nas comunidades: ação
e contemplação,
liderança e
amabilidade.
No
retorno à praia, depois da abundante pesca, encontram algumas
brasas,
que recordam aquela fogueira em torno à qual, alguns dias antes, o
velho pescador Pedro jurou não conhecer Jesus, negando-o três
vezes. Agora, junto ao fogo irmão, Jesus lava com misericórdia a
fraqueza de Pedro, transformando para sempre seu barro frágil em
pedra fiel. A fidelidade e
o amor de Jesus, sua graça sempre pronta, o humaniza de novo,
reconstruindo sua vida e reativando em Pedro a liderança para o
serviço. Sem ironia, sem indiretas, sem pagamento de dívidas
atrasadas. Por pura graça, gratuitamente.
O
Pedro que emerge das cinzas, atravessado pelo fogo terapêutico do
amigo Jesus, é um Pedro corajoso, decidido, mas também muito mais
amoroso, capaz de superar preconceitos antigos. Jesus percebe que por
debaixo das cinzas da negação e da traição de Pedro está
escondida a nobreza de um homem que precisa ser ativada.
O
mundo e o contexto social e religioso no qual vivemos não é o mesmo
dos primeiros discípulos. No entanto, se a vida cristã tem alguma
coisa a dizer ao mundo atual, não pode se fixar nos velhos moldes de
uma religião fria, arcaica, centrada no ritualismo e no legalismo,
entupida de cinzas e carente de brasas vitais. A essência do
cristianismo está na identificação com o Crucificado-Ressuscitado;
somos seguidores(as) de uma Pessoa que pôs abaixo uma religião
tóxica, que alimentava medo, culpa e angústia.
O
que os cristãos precisam claramente, neste momento de desânimo e de
abatimento, não é de resignação medrosa, mas de vida
e
vitalidade.
Precisam
da ardente fé para empreender novos caminhos, com entusiasmo
renovado e sem temor.
A
vida cristã não morrerá se ativarmos as brasas das
bem-aventuranças em nosso interior. Esse é o fogo que nunca se
apaga, deixado por Jesus. Segui-lo significa viver no calor de sua
intimidade, de sua amizade.
Se
o cristianismo sofre um esvaziamento no momento presente, talvez seja
porque se rende com muita facilidade diante do perigo de extinção,
sem se dar conta do que significa “manter
as brasas e avivar o fogo”.
Onde deveria reinar a ousadia
reina a resignação e a passividade; onde deveria estar presente o
ardor, a criatividade, encontra-se a frieza, a indiferença, a
petrificação da vida. A tentação consiste em fazer da
sobrevivência a máxima aspiração, em vez de viver a vida
plenamente, com toda profundidade e o entusiasmo que essa vocação
cristã exige.
Foi
isso que o Ressuscitado fez ao encontrar-se com os seus amigos e
amigas: reacendeu as brasas do amor, da compaixão, da amizade, da
missão, do sonho do Reino...
A
“vida
ressuscitada”,
mais que prudência, conformidade ou conservadorismo que pretendem
preservar as coisas do passado em lugar de sua sabedoria, requer
audácia,
precisa de membros adultos que resistam ao envelhecimento da vida e
de jovens que resistam ao envelhecimento da alma.
Somos
já “seres
ressuscitados” e
esta certeza não justifica uma vida ancorada numa maneira
tradicional de “pescar”. A capacidade de lançar as redes do
outro lado do barco revela criatividade, ousadia e desejo de sair do
túmulo do tradicional e da normose (normalidade doentia). A
capacidade de arriscar é a virtude que faz a ponte entre a vida
cristã atual e o novo que está para vir.
É
preciso passar das “cinzas” dos conflitos, ódios,
intolerâncias... às brasas da praia do mar da Galiléia: brasas de
vida, de amor, de encontro, de partilha, de amizade, de missão.
Ali,
as brasas são fogo, calor, alimento, eucaristia, páscoa, paz,
comunidade...
A
comunidade cristã é novamente reconstruída pelo Ressuscitado em
torno às brasas, e não em torno às leis frias, aos ritos vazios,
às devoções estéreis...
Estamos
vivendo tempos de profundas mudanças,
mas também emocionante e santo, para a Igreja.
Existem
poderosas brasas debaixo das cinzas. O único que temos de fazer
para avivar a chama é acolher o momento
e vivê-lo com intensidade até suas últimas consequências.
Se
não se pode agregar carvão ao fogo, então é preciso enterrar as
brasas, levá-las a novos lugares para que possam arder de novo. Como
manter o fogo
neste momento? Agregar carvão e proteger as brasas são,
simplesmente, diferentes partes do mesmo processo chamado vida
em Deus, crescimento no compromisso, na espiritualidade, na
santidade: “em
sabedoria, idade e graça”.
No
interior do Brasil, onde o fogão a lenha é ainda comum, as pessoas
têm o hábito de enterrar, à noite, as brasas entre as cinzas, e
assim manter vivo o fogo
até a manhã seguinte.
Em
lugar de limpar completamente o fogão, conservam-se as brasas
incandescentes debaixo de camadas de cinza para poder acender o fogo
rapidamente no dia seguinte. A preocupação principal é, pois, não
deixar que o fogo
do dia anterior se apague completamente ao final da jornada. Pelo
contrário, as brasas
escondidas debaixo da cinza durante a longa e escura noite ficam bem
protegidas para que o fogo
possa voltar de novo à vida, com as primeiras luzes da manhã.
O
velho fogo não morre, mas conserva o seu calor, a fim de estar
preparado para acender o novo fogo. A
verdadeira questão é se permanece ainda suficiente fogo
debaixo das cinzas de nossa vida para suscitar a energia necessária
a fim de tornar nossa vivência cristã mais autêntica e
comprometida. O encontro com o Ressuscitado é confirmação da
missão recebida: “Tu
me amas? Apascenta...”
Texto
bíblico:
Evangelho segundo
João
21,1-14
Na
oração:
Todos
e cada um de nós, que vivemos hoje o seguimento do Ressuscitado,
somos portadores do novo
fogo. Cada um de nós
é transparência de Sua Vida.
-
Para vislumbrar o amanhã, o que temos de fazer é olhar para nós
mesmos e nos perguntar: “brota
uma energia profunda no meu coração? Percebe-se nele o desejo de um
compromisso com o Evangelho? Aí há lugar para a audácia, a
coragem, o fogo novo...? Ou se apagou o antigo fogo? É a vida agora
simplesmente questão de suportar os dias e agir por inércia ou ela
é lugar da criatividade, do calor humano, da energia inspiradora?
Permanecem
algumas brasas sob as cinzas da minha vida cristã?”