sábado, 12 de julho de 2025

O samaritano que nos habita

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 15º. Domingo do Tempo Comum (Ano C).

“Aproximou-se dele e fez curativos, derramando óleo e vinho nas feridas” (Lc 10,34)

 

Toda parábola apresenta-se como uma narrativa breve, de uma beleza especial, fácil de ser guardada na memória dos ouvintes, que podem continuar ruminando seu significado. Normalmente, quem a narra, não faz aplicações concretas, nem apresenta uma “lição de moral”; pelo contrário, deixa aberto o caminho para a criatividade daqueles que a escutam, para que tirem suas conclusões pessoais.

A parábola do “bom samaritano” é inspiradora para a construção de uma nova cultura comunitária, inclusiva e solidária. Nesta narrativa, além do legista curioso, há uma série de personagens e suas atitudes: um homem, os bandidos, um sacerdote e um levita, um samaritano, um dono de hospedaria, tudo determinado por um caminho de “descida” que esconde armadilhas para pessoas que seguem sozinhas pela vida.

A parábola de Jesus des-cobre, re-vela e des-vela uma doença que, no fundo, são os nossos estilos de vida, onde já não há mais lugar para o humano, não há lugar para o encontro, não há lugar para o transcendente, não há lugar para uma vida interior rica... Mesmo no campo religioso, tudo é cronometrado, tudo é apressado. Carecemos de uma vida mais intensa de relações, de proximidade, de abertura ao diferente.

Muitas vezes estamos fisicamente próximos uns dos outros e, ao mesmo tempo, completamente ausentes, frios, insensíveis; outras vezes encontramo-nos e só esbarramos uns nos outros; somos ilhas e não uma comunidade compassiva. O desafio é restabelecer os vínculos humanos de proximidade e de acolhida, do outro, sobretudo aquele que é diferente e que está estendido à beira da estrada da vida.

Na sua essência, o ser humano é um “ser de relações”, está comprometido com os outros; por sua própria natureza, ele se torna pessoa humana somente em interação com os outros; ele possui impulsos naturais que o levam em direção ao convívio, à cooperação, à comunhão...; ele é reserva de humanidade, de compaixão, de bondade... que se expressa numa vida comprometida com a dignidade humana.

Vive-se continuamente em contato com o “outro”. E o outro é pessoa; o outro revela certa magia, ao mesmo tempo sedutor e enigmático; o outro é plural, apresenta múltiplos rostos; é diferente, inédito...

O relato da parábola deste domingo apresenta um doutor da lei, ou seja, um personagem considerado “justo” no imaginário da época, que faz a Jesus a única pergunta verdadeiramente importante: “Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?”  Lucas utiliza um termo preciso, “herdar”: trata-se de um bem que não é merecido, mas, como a herança, só pode ser recebido.

Jesus, como bom pedagogo, não responde diretamente à pergunta, mas convida o próprio interlocutor a encontrar a resposta. E, de fato, o doutor da lei é perfeitamente capaz de fazê-lo, unindo dois textos da Torá: a vida é herdada quando se ama a Deus e o próximo.

Diante da nova pergunta – “E quem é o meu próximo?” – Jesus responde apresentando uma cena da vida bem conhecida. A estrada entre Jerusalém e Jericó era um lugar muito perigoso para quem se aventurava sozinho, e não raramente, caia em ciladas e emboscadas, colocando-se em risco a própria vida.

O primeiro personagem da parábola não possui características particulares; ele é um “homem”; nenhum esclarecimento sobre linhagem, filiação religiosa ou moralidade. A única característica sobre a qual Jesus insiste é que este homem foi vítima de violência e que morrerá se não encontrar ajuda.

Em seguida, Jesus apresenta dois personagens que, por acaso, se deparam com o infeliz. E aqui o texto deixa claro a identidade deles: são pessoas respeitáveis, religiosas, um sacerdote e um levita; ambos têm a mesma reação: passam adiante. A filiação religiosa e a capacidade de viver a fraternidade não coincidem.

Por fim, entra em cena um personagem que não tem nada de atraente, ele é um samaritano, pertencente a um povo desprezado pelos judeus porque se corromperam unindo-se a outros povos e às suas tradições, negando a fé dos seus pais.

A parábola do samaritano pode ser iluminada por aquela exortação/súplica de Jesus: “eu quero a misericórdia e não sacrifícios” (Mt 12,7) e que aponta para dois modos de conceber e viver a religião (a relação com Deus e com o outro); uma, vivida com o coração voltado para os miseráveis (cor-miser) e a outra centrada no culto e nas leis. E recordemos que Jesus conta a parábola quando lhe é perguntado sobre o essencial para herdar a vida eterna. A urgência de atender alguém que jaz prostrado à beira do caminho não pode ser esvaziada por nenhuma desculpa possível, por mais “religiosa” que seja: o sacerdote e o levita não ficam justificados, porque não têm justificativas válidas aos olhos de Jesus. Ambos chegaram pontualmente ao Templo, mas estavam vazios, porque Aquele a quem buscavam jazia, agonizando, à beira do caminho.

A religião cristã não se define por seus dogmas, doutrinas, ritos, leis..., mas por se “fazer próxima” de quem

está à margem. Implica entrar no fluxo da “proximidade” de Deus, que rompe as distâncias e vem ao encontro de todo ser humano. Deus tem mais facilidade de se fazer próximo através das feridas, fracassos...

Se Jesus disse que quem passou ao largo foram um sacerdote e um levita, os profissionais da religião, o que na realidade está dizendo é que a religião, muitas vezes, desvia a atenção e o interesse das pessoas, fixando-se em normas, ritos, sacrifícios que não alimentam uma sensibilidade solidária para com aqueles que são vítimas e estão à beira das estradas; com isso, a prioridade da religião é justificada sobre qualquer outra coisa, mesmo que seja a vida ameaçada, a injustiça sofrida, a dor humana extrema.

Por isso, tantas vezes, o centro de atenção dos “encarregados” da religião está no culto sagrado, na adoração a Deus, que, na lógica deles, são práticas que devem estar acima daquilo que é meramente humano.

No entanto, para Jesus, a necessidade humana vem antes da observância religiosa; esta, só tem sentido quando é expressão de uma presença compassiva e quando mobiliza as pessoas a se aproximarem e se comprometerem com as vítimas, ou seja, os excluídos, os feridos e desamparados.

Toda parábola tem também uma ressonância em nosso interior e os seus personagens são nossos espelhos; neles, nos vemos. Na parábola do “bom samaritano”, somos todos os personagens ao mesmo tempo. Eles nos habitam. Somos todos caminhantes e no caminho nos encontramos com pessoas feridas, isoladas, abandonadas por pessoas, pelo sistema, pela religião... Com qual deles nos identificamos? Qual deles queremos ser de verdade, para além da nossa função e da nossa autoimagem?

No fundo só seremos samaritanos se nos tornamos próximos, irmãos, compassivos. Só seremos o que somos de verdade se acompanhamos o ferido. Pois, todos somos caminhantes e companheiros de caminho. Cada um vai por seu próprio caminho, é verdade e assim deve ser; mas todos os nossos caminhos, por mais diferentes que sejam, se cruzam um dia, a cada passo, em cada palmo de terra comum. A vida de todos é a mesma vida. O Espírito que nos habita e nos faz viver é o mesmo que atua em tudo e em todos.

Só respiraremos se nos deixarmos inspirar, alentar, levar pelo espírito universal da luz e da compaixão, o espírito do consolo e da esperança. E só então poderemos romper nossos próprios isolamentos, sanar nossas próprias solidões e feridas, exercitar nossa solitude sanadora, nosso ser solidário.

Em chave de interioridade, o encontro com o “samaritano” desperta o nosso ser samaritano; é preciso deixar que ele transite pelas dimensões feridas de nossa existência. Há muitas situações prostradas em nosso “eu interior”: feridas, fracassos, traumas, crises, sentimentos feridos... que não foram acolhidos e nem inte-grados. Nosso ser samaritano, portador do óleo de vida, vai ungindo e aliviando nossos feridos, acolhendo-os na hospedagem de nossa existência.

Quem ativa seu ser samaritano e transita pelos caminhos da exclusão interior, também sentirá despertar uma sensibilidade solidária para com aqueles que estão prostrados à margem da vida.

Texto bíblico: Evangelho segundo Lucas 10,25-37 

Na oração:

- Como reajo frente à surpresa e aos imprevistos da vida? Em quê situações passo ao largo, e por quê?

- Em que sou parecido ao sacerdote e ao levita?

- Que traços do bom samaritano os outros poderão descobrir em meu comportamento? Em quê projetos solidários estou colaborando atualmente?

- Tenho muitas tarefas a realizar, demasiados compromissos que não deixam espaço à gratuidade nem à surpresa inesperada e incontrolável?

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Itinerância comprometida com a vida e a paz

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 14º. Domingo do Tempo Comum (Ano C).

“Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘a paz esteja nesta casa!’” (Lc 10,5)

 

No Evangelho deste domingo Lucas recolhe um importante discurso missionário de Jesus, dirigido não mais aos Doze, mas a outro grupo numeroso de discípulos, o qual envia para que colabore com Ele em seu projeto de instauração do Reinado do Pai. As palavras de Jesus constituem uma espécie de carta fundacional onde seus seguidores devem alimentar sua missão evangelizadora.

Jesus “designou discípulos” e não “escolheu”. Designar é nomear para uma função; “desígnio” = intenção, propósito, vontade. Designar 72 discípulos significa que Jesus já os tinha no próprio coração; não foi uma escolha aleatória. Ele designa as pessoas que conviveram com Ele e se deixaram impactar pelo seu modo original de ser e agir.

Jesus envia seus discípulos de “dois em dois”; por que esta insistência em fazer o caminho ao menos junto a outro? Para os judeus, a opinião de um só não tinha nenhum valor em um juízo, e os missionários são, sobretudo, testemunhas. Também, porque a mensagem deve ser proclamada sempre em comunidade.

É preciso ir “de dois a dois”, ou seja, dispostos a caminhar com outros, a comportar-se como cúmplices e companheiros, a negociar metas e compartilhar itinerários, convencidos de que o individualismo já cadu-cou; ajudam-se um ao outro, se sustentam e se apoiam mutuamente.

É importante destacar que há um dado constante em todos os relatos de envio: a casa, como lugar preferencial para os discípulos missionários. E isso não é estranho. É certo que Jesus ensinou nas sinagogas; no entanto, Ele preferia muito mais ensinar a campo aberto, indo pelos caminhos, atravessando vilas e povoados, aproveitando as travessias do Lago de Genesaré... Mas, sobretudo, Ele ia aonde homens e mulheres realizavam suas atividades comuns, no simples contexto do trabalho cotidiano e, de maneira privilegiada, nas casas, começando, desde logo, pela sua própria casa. A casa acaba sendo o espaço alternativo que se adequava melhor à atuação do Mestre, enquanto sua pregação acontecia na itinerância.

A Boa Notícia de Jesus deve ser comunicada com respeito total, a partir de uma atitude amistosa e fraterna, contagiando a paz. É um erro pretender impô-la a partir de uma pretensa superioridade, de ameaça ou de ressentimento. É ante evangélico tratar sem amor as pessoas só porque não aceitam a mensagem. Mas, como vão aceitá-la se não se sentem compreendidas por aqueles que se apresentam em nome de Jesus?

Em primeiro lugar, Jesus convida seus discípulos e a nós a viver em atitude de saída, de encontro com o outro. Ele não funda uma religião onde as pessoas se fecham no ritualismo, no culto, na doutrina, vivendo uma auto-referência e um narcisismo doentio. Jesus move aqueles que o seguem a saírem de si mesmos para se deixarem contagiar pelos outros. Aqueles que vivem fechados em si mesmos não sabem escutar o clamor e os gemidos dos outros e acabam se tornando insensíveis e incapazes de viver uma presença solidária.

Jesus convida a romper distâncias e suspeitas para viver uma proximidade acolhedora com o outro; é preciso viver em situação de saída para que entre o diferente, a novidade, o surpreendente... Citando o poeta Rilke, o ser humano deve viver em situação de despedida.

Infelizmente temos esquecido que “ser cristão” é “seguir” Jesus Cristo: mover-nos, dar passos, caminhar, construir nossa vida seguindo suas pegadas. Nossa vivência cristã, muitas vezes, se restringe a uma fé teórica e inoperante ou se fecha numa prática religiosa rotineira e vazia; não transforma nossa vida em seguimento de Jesus.

Seguir Jesus Cristo é aderir a Ele incondicionalmente, é “entrar” no seu caminho, recriá-lo a cada momento e percorrê-lo até o fim. Seguir é deixar-nos “con-figurar”, isto é, movimento pelo qual nossa vida vai sendo modelada pelo modo de ser e viver de Jesus.

Jesus não nos chama para seguir uma religião, uma doutrina, nem fazer proselitismo... Ele desencadeia um movimento de vida e nos convoca a segui-Lo, ou seja, identificar-nos com Ele e com a causa do Reino.

O horizonte do chamado e do envio não é outro que o compromisso em favor da vida e das pessoas, frente àquelas forças que tendem a travar e danificar a mesma vida. A partir desta perspectiva, a “missão” pode reencontrar seu verdadeiro sentido. Enviados(as) em favor da Vida, seus(suas) seguidores(as) sabem muito bem qual é o encargo que Jesus lhes confia. Nunca O viram governando a ninguém; sempre O conheceram curando feridas, aliviando o sofrimento, regenerando vidas, destravando os medos, contagiando confiança em Deus. O que Jesus sempre quis foi “discípulos/as” que lhe “seguissem”, ou seja, que vivessem como Ele viveu: dedicados a curar enfermidades, aliviar sofrimentos, acolher as pessoas mais perdidas e extraviadas, pacificar as relações. Assim nasceu o “movimento de Jesus”.

É preciso sair dos limites conhecidos; sair de nossas seguranças para adentrar-nos no terreno do incerto; sair dos espaços onde nos sentimos fortes para arriscar-nos a transitar por lugares onde somos frágeis; sair do inquestionável para enfrentarmos o novo...

É decisivo estar dispostos a abrir espaços em nossa história a novas pessoas e situações, novos encontros, novas experiências... Porque sempre há algo diferente e inesperado que pode nos enriquecer...

A vida está cheia de possibilidades e surpresas; inumeráveis caminhos que podemos percorrer; pessoas instigantes que aparecem em nossas vidas; desafios, encontros, aprendizagens, motivos para celebrar, lições que aprendemos e nos fazem um pouco mais lúcidos, mais humanos e mais simples...

“Sede itinerantes”: este é o apelo que brota do modo de viver que Jesus elegeu quando se dedicou a proclamar sua Boa Notícia e aliviar o sofrimento humano. Ele não tinha templo, não tinha casa, não tinha onde reclinar a cabeça... Este desapego de todo tipo de segurança é a atitude básica e fundamental que todo(a) discípulo(a) deve adotar. O anúncio não pode ser realizado em lugares fechados ou sentados numa cátedra. Seguir Jesus exige uma dinâmica continuada. Nada pode ser comunicado a partir de uma cômoda instalação pessoal. A disponibilidade e a mobilidade são exigência básicas da mensagem de Jesus.

Mesmo que, com frequência, esqueçamos desse apelo de Jesus, a essência da Igreja está marcada pela mística do envio. Por isso, é perigoso concebê-la como uma instituição fundada para cuidar e proteger uma religião. Ela não foi fundada para preservar ritos arcaicos, doutrinas estéreis, normas vazias... Ela é um “corpo” para a missão; responde melhor ao desejo original de Jesus quando a Igreja é imagem de um movimento profético que caminha pela história, segundo a lógica do envio: saindo de si mesma, comprometendo-se com os outros, levando ao mundo a boa notícia de Deus. “A Igreja não está aí para si mesma, mas para a humanidade” (Bento XVI).

Por isso, é tão perigosa a tentação de viver na retaguarda, centrados em nossos próprios interesses, nosso passado, nossas conquistas doutrinais, nossas práticas e costumes “religiosos”. Pior ainda é quando fazemos isso petrificando nossa relação com o mundo.

Que é uma Igreja rígida, paralisada, fechada em si mesma, sem profetas de Jesus e sem portadores da Boa Notícia da vida e da paz.

Texto bíblico: Evangelho segundo Lucas 10,1-12.17-20

Na oração:

Diante de Jesus, que “passa e chama” a todos, responda: como você vive, hoje, sua missão no trabalho, no seu ambiente, na sua comunidade? Que sentido você quer dar à sua própria vida?... em quê gastar suas forças, capacidades? Como viver, no seu cotidiano, sua vocação de discípulo(a)-missionário(a)?

- Sua comunidade cristã está mais próxima do “movimento de Jesus” ou vive “formatada” pelo peso de uma religião fechada, desencarnada e descompromissada?

sábado, 28 de junho de 2025

São Pedro e São Paulo: duas revelações, dois personagens originais

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ (Centro de Espiritualidade Inaciana), como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos.


“E vós, quem dizeis que eu sou? (Mt 16,15)

 

A liturgia deste domingo nos situa diante de duas revelações feitas a dois grandes e marcantes personagens que deram uma contribuição decisiva para a identidade da nova comunidade inaugurada por Jesus: uma revelação dirigida a Pedro e outra a Paulo. Mas, as duas revelações são profundamente inseparáveis, pois se referem a duas dimensões significativas na vida e na consciência da Igreja, como comunidade seguidora de Jesus.

Uma dimensão centrada na experiência e missão de Paulo, que recebeu o encargo de expandir a Boa Nova do Evangelho para além das fronteiras judaicas; outra, centrada na liderança e ministério de Pedro, que recebeu de Jesus a missão de servir e cuidar dos seguidores e seguidoras d’Ele.

As duas revelações (a Pedro e a Paulo) abrem um espaço e um caminho de universalidade “não excludente”, de maneira que podem vincular-se e enriquecer-se entre si, embora, posteriormente, algumas comunidades tenham dado primazia a Pedro e outras tenham insistido mais no personagem Paulo. Mas os dois devem ser considerados na sua relação e identificação com Jesus Cristo.

De fato, a Igreja como instituição foi sendo formada ao longo do tempo, inspirando-se nos carismas de Pedro e Paulo. Eles não são os “fundadores” da Igreja; esta nasce da Páscoa, da fé no Senhor ressuscitado; a Igreja nasce a partir do mandato missional dirigido a todos: “ide e anunciai”; a Igreja nasce do lava-pés: “vós deveis lavar os pés uns aos outros”; a Igreja nasce quando se deixa conduzir pelo Espírito de Jesus; a Igreja nasce como sacramento de Cristo, porque, após sua Ascenção, continua presente na história através dos seus seguidores.

A Igreja não nasce como uma “sociedade anônima”, mas como um “movimento de vida”, desencadeado por Jesus. Somos todos a grande assembleia daqueles que creem n’Ele: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Por isso, a fé torna bem-aventurada a vida. Ditoso Pedro, ditoso Paulo, ditosos e bem-aventurados somos todos nós. Se não somos felizes, se não vivemos na serenidade e na alegria, talvez não tenhamos chegado ainda a crer profundamente no Senhor.

Uma Igreja, uma comunidade onde predominam intransigências, legalismos, tensões e tristezas, está longe de ser a comunidade dos seguidores que se encheram de alegria ao verem o Senhor (Jo 20,20). O mesmo Jesus que disse a Pedro – “feliz és tu” – também continua dizendo o mesmo a cada um de nós.

A fé não é um peso que alimenta culpa, mas uma libertação, um prazer profundo e um horizonte de sentido.

Nem sempre podemos estar contentes, mas sempre podemos viver na paz do Senhor.

Nas leituras bíblicas indicadas para esta festa, a revelação de Paulo aparece como fundamento e princípio da missão cristã junto a outros povos e fora do ambiente judaico. Conforme a tradição paulina, a Igreja se fundamenta na grande abertura missionária, prolongando a missão do próprio Jesus que foi alargando as fronteiras geográficas, religiosas, culturais. Assim, houve na Igreja primitiva, uma grande revelação paulina, vinculada à abertura do Evangelho de Jesus para além-fronteiras.

Por sua vez, a revelação petrina, fundada não só na Páscoa, mas na vida história de Jesus, aparece em Mateus como princípio e justificação da abertura também universal da Igreja judeu-cristã. Nesse contexto, a Igreja de Mateus refletiu sobre o sentido do nome Cefas/Pedro/Pedra/Rocha, dado a Simão.

O evangelista Mateus, ao referir-se à identidade de Pedro, deixa transparecer um jogo de palavras: petros-petra. Quando Jesus diz: Tu és “petros”, Ele está afirmando que Simão, em si mesmo, é simplesmente uma pedra, um pedregulho, um cascalho que não tem consistência. Mas Simão recebeu uma revelação especial de Deus, de tal forma que por ela, ele se transforma em alguém diferente, em mediador e garantidor da “Petra” /Rocha firme da fé, fundamento seguro da Igreja de Jesus.

Mateus vincula a palavra masculina Petros com Petra, no feminino, que significa rocha ou fundamento firme, palavra que o próprio Paulo relacionou a Cristo, desde os tempos antigos (1Cor 10,4).

A Rocha não é a pessoa de Pedro, mas a fé de Pedro. Sobre esta Rocha-fé de Pedro, Jesus edifica sua comunidade. Do mesmo modo, Jesus continua construindo sua comunidade sobre a rocha-fé de todos os seus seguidores e seguidoras.

Nesse sentido, a afirmação de Jesus a Pedro - “Tu és ‘petros’ e sobre esta ‘petra’ edificarei minha igreja” – tem uma ressonância no interior de cada seguidor(a) d’Ele. Há, em todos nós, uma solidez, uma nobreza interior, uma identidade iluminada pela identidade do próprio Jesus.

A pregunta de Jesus – “e vós, quem dizeis que eu sou?” – desvela o “eu sou” de Pedro, de Paulo e de cada um de nós. Na realidade, “nossa identidade está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3).

Nosso coração se encontra diante da revelação do “eu original”, porque está enraizada na própria identidade de Jesus Cristo.

É na vivência do seguimento de Jesus que “descobrimos a nós mesmos”. Começamos a descobrir o nosso ser (único, original, sagrado...) quando “mergulhamos” no misterioso relacionamento com Ele e quando permitimos que o “mistério experimentado” se torne fonte de nossa identidade. Mais ainda, saberemos melhor “quem somos nós”, esquecendo-nos e esvaziando-nos de nós mesmos, aceitando perder-nos, deixando que o amor nos liberte de nosso pequeno e limitado “ego”.

No Evangelho deste domingo descobrimos uma peculiar sintonia entre nosso “eu profundo” e a experiência de encontro com Jesus Cristo. É como se uma misteriosa atração nos levasse a descobrir a nossa nova identidade. O encontro e a contemplação d’Ele é também revelação do nosso “eu” verdadeiro, “escondido com Cristo em Deus” , ou seja, revelação da verdade do nosso “eu”, onde descobrimos os traços de nossa própria fisionomia.

Assim, “Petros” é o que em nós é fragilidade, incoerência, vulnerabilidade, limitação... “Petra”, ao contrário, é o que é sólido, firme, consistente, sobre o qual fundamentamos a vida.  “Carregamos um tesouro em vaso de barro” (2Cor. 4,7). Como cristãos somos a integração de “petros” e “petra”.

Nossa própria interioridade é a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que temos, para encontrar segurança e caminhar na vida superando as dificuldades e os inevitáveis golpes na luta pela vida. O “eu profundo” constitui-se como um centro sólido, consistente e estável de nosso ser, radicalmente diferente das experiências fluidas que o atravessam. Existem camadas sólidas da experiência do “eu” que devem contrapor-se às experiências passageiras de sentimentos vazios, desejos periféricos, sonhos sem paixão.

Somos ainda, em grande parte, uma “terra desconhecida” para nós mesmos, e a viagem de descoberta é como a viagem imaginária a uma nova terra, estranha e bela, que nos prende aos seus encantos e à novidade de suas mil maravilhas. Percebemos, depois, com surpresa e alegria, que a bela terra nova a que chegamos sem saber é nosso próprio país natal esquecido, subestimado e abandonado.

A redescoberta de nós mesmos é a maior e, sem dúvida, a mais gratificante aventura de nossa vida.

Redescobrindo a nós mesmos, vamos encontrar o nosso lugar e missão na história. Quanto mais conhecemos o nosso verdadeiro ser, melhor será o valor de nossa vida para os outros.



Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 16,13-19

 

Na oração:

O que em você é “petros” e o que é “petra”?

- Deixe que a verdadeira identidade de Jesus des-vele sua verdadeira identidade, ou seja, seu “eu” original é livre, criativo, transparente, iluminado... 

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Retornar a Jesus

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 12º. Domingo do Tempo Comum (Ano C).

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Lc 9,20)

 

As primeiras comunidades cristãs conservaram a recordação deste episódio evangélico como um relato de importância vital para os seguidores de Jesus. Sua intuição foi certeira: sabiam que a comunidade de Jesus deveria escutar permanentemente a pergunta que um dia Jesus fizera a seus discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” A resposta a esta pergunta não cabe numa fórmula ou numa definição da identidade de Jesus.

Mas, o fato de fazer esta pergunta instigante mantém acesa a chama do seguimento e identificação com Ele.

De fato, se nas comunidades cristãs deixamos apagar nossa fé em Jesus, esvaziamos nossa identidade cristã. Não somos chamados a “seguir uma religião” (com seus ritos, doutrinas, normas...), mas uma Pessoa; isso tem implicações sérias na nossa vocação cristã, ou seja, prolongar o modo de ser e agir do próprio Jesus.

Quando nos distanciamos d’Ele através de “práticas religiosas” estéreis e vazias de compromisso, não conseguiremos viver com audácia criadora a missão que o próprio Jesus nos confiou; não nos atreveremos a seguir os Seus passos; o Evangelho irá se converter em letra morta; nada novo e verdadeiro nascerá entre nós; não teremos a força para construir um mundo mais humano; a comunhão da Igreja se partirá, a nossa esperança apagar-se-á; não nos atreveremos a enfrentar o momento atual, abertos à novidade do Seu Espírito; seguiremos adormecidos na nossa religião burguesa e nos asfixiaremos em nossa mediocridade.

Se não retornarmos a Jesus com mais verdade e fidelidade, a desorientação irá nos paralisando, nosso anúncio da Boa Notícia continuará perdendo credibilidade, nossas orações serão palavras vazias, crescerão as divisões, apagar-se-á o diálogo e aumentará a intolerância...

Jesus é a chave, o fundamento e a fonte de tudo o que somos, dizemos e fazemos.

Segundo o Evangelho deste domingo, ao longo do percurso de sua vida pública, Jesus revelou-se como uma “presença instigante”, ou seja, com suas “perguntas” ajudou cada pessoa a des-velar e aprofundar sua vivência no seguimento, a descrever seus “estados de ânimo”, a vislumbrar o sentido daquilo que estavam buscando...

A originalidade da presença de Jesus não consistia em comunicar uma doutrina, uma teologia, uma moral... nem oferecer “respostas prontas”, mas em ser “pro-vocador” das grandes questões existenciais e desafiadoras, dirigidas a cada um, possibilitando-o acesso às reservas interiores de criatividade e imaginação.

Mais ainda: a presença “pro-vocativa” de Jesus reacendeu nos seus discípulos este atributo tão humano, que é a capacidade de questionar-se para buscar um sentido para a própria existência.

Hoje, as mesmas perguntas feitas pelo próprio Jesus colocam o seu seguidor em contínua busca, sintetizada na expressão “buscar e encontrar a Vontade de Deus”. São perguntas que o abrem para o futuro, para o novo, para uma decisão...

A pergunta de Jesus – que Lucas apresenta em um contexto de oração – é uma pergunta expansiva e nos afeta a todos nós, seguidores(as) d’Ele: É uma pergunta onde não valem respostas secas (“um profeta”) nem respostas aprendidas (teologicamente corretas), porque remetem à vivência pessoal e única de cada um.

Identificar-se com Jesus tem um preço: significa viver a fidelidade a uma causa, a do Reino, até o fim, contando com o risco de perseguição, de rejeição e de cruz.

Uma leitura superficial do evangelho de hoje pode dar a impressão de que o cristianismo é a religião que preconiza o sofrimento, a renúncia, a negação de si mesmo, o esvaziamento da própria identidade. O sofrimento foi de tal modo exaltado que levou muita gente a viver na passividade e resignação, esvaziando o sentido do seguimento e bloqueando a esperança. De fato, existem sofrimentos que são vazios, sem sentido, insensatos..., pois fecham a pessoa em si mesma, na sua aflição e angústia; não apontam para o futuro, para a vida.

Como consequência, a Cruz ocupou o primeiro lugar e tudo passou a girar em torno a ela.

Mas, Jesus não buscou a dor nem negou a vida. Ele não veio complicar a vida com mais leis, ritos, doutrinas..., alimentando culpa e sofrimento naqueles que o seguem.

Pelo contrário, a missão primeira de Jesus foi a de aliviar toda dor humana. Por isso, suas inumeráveis curas relatadas nos evangelhos. Suas palavras não foram uma exaltação do sofrimento, senão que expressaram uma grande sabedoria: elas buscaram “despertar” as pessoas para que pudessem viver mais intensamente e perceber a melhor atitude frente à vida; elas condensaram o significado de uma vida vivida por Jesus na fidelidade ao Pai que deseja que todos vivam intensamente.

Aqui encontramos o sentido da verdadeira “renúncia”, anunciada e vivida pelo próprio Jesus. Medíocre é a pessoa que, presa ao seu “ego”, não ousa, não arrisca, pois perdeu a capacidade de criar e inovar.

No fundo, “renunciar a nós mesmos” se revela como a grande possibilidade de salvar nosso próprio ser.

A renúncia do próprio “ego” – a virtude da abnegação – é um caminho de libertação, que nega para afirmar, que abandona para acolher, que faz percorrer um caminho de um “ego ensimesmado” a um “eu verdadeiro” e aberto a tudo.

A afirmação – “quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la” – não é um exagero e nem um desprezo pela vida. Fazer com que tudo gire em torno ao nosso falso “eu” é dar importância em nós ao que menos vale. Não deixaremos de ser egoístas se mantivermos o apego ao “ego”. Na medida em que colocamos como objetivo último salvar nosso “ego”, viveremos como egoístas e, portanto, nos perderemos como pessoa.

“Perder a vida” (o grego original não diz “bios”, nem “zoos”, mas “psyché” – “eu psicológico”) significa não se reduzir ao “eu superficial” ou “ego”. Trata-se de negar a “ilusão do eu”, para acessar à Vida, que é nossa verdadeira identidade. Porque só quando deixamos de nos identificar com o “ego”, tomamos consciência da Vida que somos. Essa é a Vida de que fala o evangelho, a mesma Vida que Jesus viveu, com a qual Ele mesmo estava identificado (“eu sou a Vida”) e que buscou despertar nos seus seguidores.

Todos nós carregamos capacidades ainda adormecidas, potencialidades quase divinas que, em alguns momentos privilegiados, descobrimos em nosso interior. E, no entanto, ao mesmo tempo, estremecemos com nossa fraqueza, com nossa incapacidade, com nossos receios, diante dessas mesmas possibilidades.

Deixar-nos determinar pelo “ego atrofiado” implica cair num con-formismo doentio e na mediocridade tranquila e temerosa; ou seja, medo de ir além de nós mesmos, para além de nossas capacidades. Quem tem medo afunda-se no mar escuro e revolto da vida.

“Renunciar a nós mesmos” – “perder a nossa vida”, desvela um dinamismo ou força de morte em nosso interior, marcado pelo medo de ir além de nós mesmos; trata-se do medo de nossa própria grandeza, o medo da nossa missão, medo da vastidão dos nossos sonhos... Por não termos horizontes, nós nos limitamos ao nosso modo habitual e fechado de viver; acomodamo-nos e não fazemos a travessia; não fazemos as coisas com paixão e com criatividade.

Há uma obesidade espiritual, a do próprio “ego”, que provém de nossa “gula” existencial, ou seja, alimentar-nos dos restos de vaidade, soberba, auto-centramento... A configuração com Jesus Cristo exige uma terapia de emagrecimento espiritual, que se realiza através do esvaziamento interior, da abnegação, da renúncia de querer ser o centro de tudo...

Para isso é preciso “renunciar a tudo” para sermos pessoas plenificadas, no amor e na partilha. “Renunciar a tudo” para que outros possam viver, para que todos possam compartilhar fraternalmente tudo.


 

Texto bíblico: Evangelho segundo Lucas 9,18-24

 

Na oração:

Jesus faz duas perguntas comprometedoras aos discípulos: “Quem diz o povo que eu sou?” – “E vós, quem dizeis que eu sou?”

- Agora, inverta o sentido da pergunta: “Senhor, que pensas de mim como pessoa, como cristão(ã)”?

- “Em que situações minha vida tem semelhanças com a tua Vida?”

- “Onde minha vida se distancia de tua Vida, revelando-se achatada, estéril, vazia, sem compromisso?”

terça-feira, 17 de junho de 2025

“Saciou de bens os famintos…”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi).

“Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, elevou os olhos para o céu, abençoou-os, partiu-os e os deu aos discípulos para distribuí-los à multidão” (Lc 9,16)

 

Celebramos o “Corpo de Cristo”, uma das celebrações mais ricas que nos faz pensar em seu conteúdo e simbolismo... Mas, como celebrar este “Corpo de Cristo” no meio de tantos outros corpos dilacerados, explorados, odiados, famintos...?

Temos muito o que pensar e rezar diante dos corpos, tanto diante do Corpo de Cristo, como diante dos corpos que passam fome, que são explorados, que sofrem... Não esqueçamos isto: Corpo de Cristo...  comunhão, outro, fome, pão... partilha... celebração, amor, corpos...

Jesus Cristo nos fascina por ter a coragem de ser diferente em sua época, por ser Ele mesmo e estar profundamente integrado com seu corpo, colocando-o a serviço e crescimento do outro... do outro corpo.

Jesus, na vivência de sua corporalidade, destravou e dignificou os corpos dos outros: diante dos corpos doentes... curou; diante do corpo pecador... amou, perdoou, abençoou, encorajou; diante dos corpos esfomeados: alimentou, multiplicou os pães; diante do corpo sem vida: “ jovem, levanta-te!” vida nova; diante dos corpos que exploram/roubam: protestou, rejeitou, não façam da casa  de meu Pai um covil de ladrões; ai de vós, fariseus hipócritas, que se preocupam demais com as aparências dos “corpos”... e não vêem o interior.

Os Evangelhos nos recordam que foi no gesto do partir e repartir o pão que Jesus deixou transparecer o verdadeiro sentido do seu Corpo:  vida que se doa para aliviar todo “sofrimento humano” (curas), para proporcionar a “refeição partilhada” (ceias e multiplicação dos pães) e para ativar “novas relações humanas” (sermão da montanha).

Contemplar as cenas evangélicas é atualizar em nós estas três preocupações centrais da vida de Jesus. Aqui se conecta a essência de Sua vida com a nossa vida de seguidores(as).

Para Ele, no banquete da vida não basta dar e receber generosamente, mas acolher com gratuidade todo aquele que não pode oferecer nada em troca. A honra não se fundamenta mais no poder e no prestígio, mas na bondade, humildade e hospitalidade. A nova comunidade do Reino é esse banquete no qual todos tem lugar, seja qual for sua origem, crença, situação pessoal; ali todos se sentem convidados, sem merecimentos exclusivos nem dignidades adquiridas.

A “mística da mesa” não só nos recorda o modo original de Jesus agir, senão que é um chamado à comunidade cristã para que seja comunidade inclusiva e aberta, onde as diferenças são respeitadas, os espaços de igualdade são construídos, onde o Deus gratuito e cheio de amor e perdão é proclamado. Nela não haverá estrangeiros nem imigrantes, não haverá primeiros nem últimos, não haverá resquícios de gênero nem poderes que excluem.

Se não nos assentamos à mesa com o outro, estamos perdendo a possibilidade de saborear os alimentos humanizadores: encontro, alegria, partilha, hospitalidade, festa, vida... Tudo aquilo que acontece na alegria, tudo aquilo que é distribuído com vida, com sentido e sentimento, alimenta algo em nós, ou alguém fora de nós.  Multiplica-se, triplica-se os cestos de pão.

Na mesa e na partilha do pão “cristificamos” e “sacralizamos” os frutos da terra e do trabalho humano. Por isso, os alimentos fornecidos pela natureza e dela extraídos pelo trabalho do ser humano, vêm carregados de tão rico simbolismo: quando postos à mesa significam a mãe natureza dadivosa e boa, criada por Deus e o trabalho do ser humano, que na mesa vem se alimentar para continuar a viver.

A relação de alteridade à mesa tem o poder de reconstruir laços quebrados, perdidos em nosso passado (mesa, lugar da memória); ela tem a força de reavivar os sentimentos soterrados pelos afazeres diários. A presença provocante do encontro com o outro, desperta em nós o “dinamismo conspiratório”, ou seja, respiramos juntos o mesmo ar, compartilhamos o mesmo sonho, a mesma missão...Um caminho “mistagógico”, que é pura acolhida do Mistério revelado na mística da mesa.

Esse caminho é busca, encontro e acolhida.

Jesus, durante sua vida pública, desencadeou um “movimento de vida” e vida em plenitude. E este “movimento humanizador” se visibilizou, sobretudo, junto às mesas da refeição e na partilha do pão.

Jesus entendia e celebrava as refeições como sinal da presença do Deus Pai providente, que alimenta e cuida de todos os seus filhos e filhas; mas deviam ser refeições abertas aos pobres, sem distinções de pureza-impureza. Jesus comia e bebia em meio a um mundo injusto, para iniciar um caminho de revelação do Deus do Reino, partilhando o pão e o vinho com os necessitados, na alegria e na solidariedade.

Por isso, sua religião não era a do jejum, mas celebração de bodas e comunhão de mesa (refeição compartilhada). Fariseus e batistas antigos (e muitos cristãos de hoje) entendiam o jejum como rito de mortificação, uma renúncia centrada em si mesmo e esvaziada de qualquer relação com os outros. Jejuar por sacrifício para assim ter “méritos” diante de Deus. No seu horizonte, o outro não está presente; jejum auto-centrado é tortura inútil.

No relato da “multiplicação dos pães”, segundo o evangelista Lucas, a cena acontece em um “lugar deserto”, afastado da vida cotidiana organizada segundo o pensamento da sinagoga e a lógica dominadora do império. Sair do centro, ou ser deslocado do centro, pode ser uma vantagem à hora de perceber o que Deus realiza em nossas situações concretas.

Jesus é ponto de confluência de todas aquelas fomes, dispersões e diferenças. É o povo pobre das pequenas aldeias que está sofrendo grandes injustiças e muita pobreza.

De alguma maneira, este “fora” evoca a saída do povo judeu do Egito ao deserto, onde se encontrou com Deus numa experiência que o fará passar de multidão dispersa de escravos a um povo unido e livre.

O povo tomou distância com relação ao seu mundo rotineiro e agora se encontra com Jesus, que encarna a novidade de Deus ao alcance da mão. Também pode ser o “fora” de todos os excluídos da história que se encontram com Jesus, tornando realidade o sonho do Reino: o mundo da igualdade e da comunhão.

Longe do templo e das autoridades judaicas, seguido por uma multidão, Jesus sinaliza para uma Páscoa centrada na pessoa dele, aberta a um processo de partilha, comunhão e retorno de vida abundante para todos. O congraçamento de Israel, durante a festa da Páscoa, no Templo, é substituído pelo congraçamento em torno a Jesus, no lugar onde Ele estiver, com a multidão que o segue.

Enquanto a Páscoa no Templo favorecia os controladores dele, a Páscoa em torno a Jesus favorece e engrandece a todos. Também a centralidade do pão é trocada pela centralidade do próprio Jesus.

Ele dá graças por cinco pães e dois peixinhos diante de cinco mil pessoas famintas. É a gratidão sobre o pouco que faz o muito. É pouco, mas é dom de Deus, e o dom pode-se multiplicar, pois a graça partilhada tem alcance ilimitado.

Na Páscoa do Êxodo, as pessoas comeram às pressas, em pé, pães sem fermento, cordeiro assado e ervas amargas, cingidas, para viajar imediatamente (Ex. 12,8-11). Na nova Páscoa, elas comem organizadas em grupos, sentadas na relva, tranquilamente, sem pressa, pães e peixes, o tanto quanto necessitam para ficarem saciadas, e ainda sobra abundantemente, para o futuro.

A abundância de alimento é graça de Deus, mas é igualmente empenho de cada pessoa e de todas juntas.

A partilha acontece quando há corresponsabilidade efetivamente solidária que leva a colocar, em comum, tudo o que cada um tem. Mas não termina aí: a Páscoa do pão sinaliza para a Páscoa da vida que se faz pão e do pão que permanece sempre.



Texto bíblico: Evangelho segundo Lucas 9,11-17

 

Na oração:

Qual é o pão que você busca?

- Como e de que maneira você se torna “pão” para os demais? O pão que você oferece aos outros alimenta o desejo de construir o Reino ou é somente um “pão que engorda e deixa acomodado”?

- Quem é “pão” para você, que alimenta e desperta o impulso para servir os outros?

- Quais são os “cinco pães e dois peixes” que você pode disponibilizar para alimentar a tantos?

- Sua participação na eucaristia implica passagem do “partir do pão” para o ser “pão partido e partilhado”?

sábado, 14 de junho de 2025

Trindade: Pai, Palavra e Vento

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho da solenidade da Santíssima Trindade.

“Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade” (Jo 16,13)

 

Todos nós já experimentamos, muitas vezes, a impossibilidade de comunicar algo muito profundo que sentimos ou vivemos; temos consciência de que não conseguimos nos fazer entender, porque não encontramos as palavras apropriadas para expressar nossos sentimentos mais nobres, nossos desejos mais oblativos, nossas inspirações mais elevadas. As palavras sempre são pobres e limitadas, pois não conseguem abarcar e expressar nossa realidade mais profunda

As palavras são, de fato, o comunicador menos eficaz. São mais sujeitas a erros de interpretação e compreensão. E por que isso ocorre? Devido ao que as palavras são; elas são meramente expressões orais: ruídos que representam sentimentos, pensamentos e experiências; as palavras são símbolos, não são a verdade, a coisa real. As palavras podem nos ajudar a “entender” algo, mas é a experiência que nos permite “saber”, no sentido de saborear.

Algo semelhante ocorre com o Evangelho deste domingo, festa da Santíssima Trindade. O que Jesus tinha a dizer para seus discípulos, o que gostaria de lhes comunicar, excedia a capacidade de compreensão deles. Foi preciso que eles vivessem um processo no qual o Espírito, lentamente, os conduziu à verdade plena, completa. O verbo que João usa - conduzirá à plena verdade – evoca o colocar-se em movimento, dirigir-se para... Não se trata de compreender algo racionalmente, mas de situar-se de outro modo diante do Mistério de Deus, numa atitude de abertura e acolhida.

Ao longo dos séculos, os teólogos realizaram um grande esforço por aproximar-se do mistério de Deus, formulando com diferentes construções conceituais as relações que vinculam e diferenciam as três Pessoas divinas no seio da Trindade. Esforço louvável, sem dúvida, nascido do amor e do desejo de Deus.

No entanto, eles abandonaram o estilo de Jesus, pensaram que com a razão poderiam ter acesso à intimidade de Deus; esqueceram a centralidade da experiência d’Ele e elaboraram alguns conceitos que passaram longe do mistério inesgotável da Comunidade Divina.

De fato, de Deus só conhecemos o que Ele mesmo revelou de si mesmo. Por isso, o ponto de partida deve ser sempre Jesus, porque o eixo fundamental de quem o segue é crer n’Ele como visibilidade de Deus, sem pôr em dúvida sua humanidade. Deus se dá a conhecer a nós em Jesus e se comunica conosco através de Jesus; portanto, crer n’Ele é crer que, não só seus ditos, mas toda sua vida é “Palavra de Deus”. Ele é a presença visível da comunhão Trinitária. Jesus não fala muito de Deus; simplesmente nos oferece sua experiência de Filho.

E Jesus é bem claro: O Pai vive n’Ele e Ele no Pai; e a Trindade vive também em nós. Somos moradas da Santíssima Trindade. Pertencemos ao mistério de Deus. E Deus pertence ao mistério de cada ser humano.

A Trindade habita em nós e nós habitamos nela. Não estamos vazios; podemos estar sozinhos, mas não vazios. Pode acontecer que não estejamos em nossa casa, mas continuamos habitados; pode ser que não tenhamos com quem falar, mas sempre tem os Três com quem dialogar todo dia. Pode ser que ninguém nos conheça, mas sempre há em nós uma Presença que nos conhece profundamente.

Esta experiência de “habitar” na Trindade e deixar que a Trindade nos “habite” pode transformar a raiz de nossa existência. Quanta nobreza! Esse intercambio mútuo, esta comunhão estreita, difícil de expressar com palavras, constitui a verdadeira relação do(a) discípulo(a) de Jesus com a Trindade. Aqui está a essência da nossa verdadeira identidade: somos sustentados(as) pela força e pela providência trinitária.

É preciso também ter presente que o dogma da Santíssima Trindade se revela muito distante para a linguagem de hoje e a razão não nos ajuda a viver este Mistério. No entanto, se formos além da sua formulação dogmática, poderemos descobrir a raiz evangélica que nela se esconde, ou seja, é em Jesus que descobrimos que Deus é para nós “Abbá, Verbo e Ruah” (Pai, Palavra e Vento).

Contemplando a Jesus vemos, pois, que Deus é o Pai Providente que sempre nos ampara, a Palavra que nos guia pela vida e o Vento que nos ajuda a caminhar. Deus se comunica conosco (Palavra), atua em nós (Espírito) e é nosso Pai (Abbá). E isto significa que Deus não é um ser “misterioso” e insondável, mas um Semeador que espalha a semente da Palavra continuamente e nos consola em nossa peregrinação pela vida.

De fato, quando escutamos Jesus falar de Deus, ou quando Deus nos fala de si mesmo através de Jesus, ficamos assombrados, porque não menciona nenhuma das qualidades maravilhosas que sempre lhe atribuímos, mas nos fala de Abbá, o Pai que sai, a cada entardecer, a esperar pela volta do seu filho perdido.

Jesus chama Deus de “Abbá” e o experimenta como um mistério de bondade; revela como uma Presença bondosa que abençoa a vida e atrai seus filhos e filhas a lutar contra tudo o que causa dano ao ser humano. Para Jesus, esse mistério último da realidade que chamamos “Deus” é uma Presença próxima e amistosa que está abrindo caminho no mundo para construir, conosco e junto a nós, uma vida mais humana.

 

Quando vemos Jesus dedicar sua vida a ensinar e a aliviar o sofrimento humano sem descanso, ou o vemos rodeado de multidões que lhe seguem fascinados, ou escutamos seus critérios poderosos de vida, ou o vemos capaz de levar sua fidelidade à missão até as últimas consequências... cremos que n’Ele “sopra” um vento irresistível, o “Vento de Deus”; é o mesmo Espírito (a Ruah de Deus) que impulsiona a humanidade e que atua em cada um de nós.

Jesus atua sempre impulsionado pelo “Espírito” de Deus; este é o amor do Pai que o envia a anunciar aos pobres a Boa Notícia de seu projeto salvador. É o alento de Deus que o move a curar a vida. É sua força salvadora que se manifesta em toda sua trajetória profética.

Este Espírito não se apagará no mundo quando Jesus se ausentar. Ele mesmo promete enviá-lo a seus discípulos. A força do Espírito os fará testemunhas de Jesus, Filho de Deus, e colaboradores do projeto salvador do Pai. Assim, como cristãos, vivemos na prática o mistério da Trindade.

Por fim, Jesus se experimenta a si mesmo como “Filho Amado” de Deus, nascido para impulsionar na terra o projeto humanizador do Pai e para levá-lo à sua plenitude definitiva, inclusive acima da morte. Por isso, busca em todo momento o que o Pai deseja. Sua fidelidade a Ele o conduz a buscar sempre o bem de seus filhos e filhas. Sua paixão por Deus se traduz em compaixão por todos aqueles que sofrem.

Em sintonia com o Pai, a existência inteira de Jesus consiste em curar a vida e aliviar o sofrimento, defender as vítimas e reclamar para elas justiça, semear gestos de bondade e oferecer a todos a misericórdia e o perdão gratuito de Deus: a salvação que vem do Pai.

Assim, somos um “mistério trinitário”; somos o mistério do Pai que nos gera; somos o mistério do Filho que nos revela a nós mesmos; somos o mistério do Espírito Santo que nos faz amadurecer em primavera de graça. Cada uma das Pessoas tem sua maneira original de agir em nós; cada uma tem sua própria obra em nós; cada uma tem seu próprio momento em nossas vidas. E nós somos fruto das três Pessoas.



Texto bíblico: Evangelho segundo João 16,12-15

 

Na oração:

- Como traduzir hoje, através da arte, a imagem clássica da Trindade representando um ancião, sentado junto a outro varão mais jovem, uma pombinha no centro e uma multidão de anjinhos ao redor?

- Como traduzimos e vivemos a experiência de Jesus que nos convida a chamar “Abbá” Àquele que nos deu a vida e nos envia a comunicá-la aos outros? Como encarnamos suas palavras, seus gestos, suas prioridades para nos identificar cada vez mais com Ele?

- Como nos conectamos continuamente com o Paráclito que nos foi dado? Com que outras imagens e símbolos o expressaríamos hoje?


sexta-feira, 6 de junho de 2025

Somos argila, mas portadores do “Sopro vital”

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho da solenidade de Pentecostes.

“...mostrou-lhes as mãos e o lado; ...soprou sobre eles” (Jo 20,20.22) 

Chegamos à Páscoa do Espírito, o grande protagonista discreto que costuma passar despercebido; chegamos ao recomeço de uma nova história, de um presente criativo e de um futuro diferente. Chegamos, depois de cinquenta dias de encontros ressuscitadores, à possibilidade de “fazer novas todas as coisas”; recebemos Aquele que nos faz estremecer de esperança, que desperta grandes desejos e se revela como Alento vital.

Esta festa se enraíza na tradição judaica da Celebração das colheitas, quando eram oferecidos os primeiros frutos da terra, cinquenta dias depois da Páscoa; uma festa de agradecimento e fecundidade.

O Pentecostes cristão, no entanto, vem nos recordar que a humanidade não está abandonada por Deus, mas que o Espírito do Vivente está presente em nosso mundo e nas profundezas do coração humano; é Ele que sempre nos acode, com seu alento e consolo; é Ele que vem em auxílio de nossa fragilidade (Rm 8,26).

Na realidade, este dia festivo desperta a consciência de que somos “seres habitados” pelo Espírito, o Espírito do Senhor em nós. Às vezes, nem conseguimos percebê-lo, porque estamos envolvidos pela superficialidade da vida. Mas, em outras ocasiões sentimos de verdade que Ele está aí, no mais profundo de nosso ser. Ele sacode nossas entranhas diante da dor dos inocentes, e nos enternece com as coisas mais simples. Ele é presença e proximidade; se deixarmos guiar por Ele, não nos sentiremos sozinhos. Quando o esquecemos, Ele continua aí, sempre, paciente, esperando. Está dentro de nós sem nos anular, sem violentar. É companhia e refúgio, fortaleza e mistério, brisa e vento impetuoso.

Podemos, então, afirmar que o Espírito Santo faz parte de nós mesmos e não tem de vir de nenhuma parte. Está em nós, constitui nossa essência, antes mesmo que nós começássemos a existir. Ele é o fundamento de nosso ser e a causa de todas as nossas possibilidades de ser, enquanto humanos habitados. Nada podemos ser nem fazer sem Ele, mas tampouco podemos estar privados de sua presença em nenhum momento.

No início da Bíblia encontramos uma imagem muito bela e real do mistério da vida. Assim é descrita a criação do ser humano: O Senhor Deus modelou o homem do barro da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida, e ele tornou-se um ser vivente” (Gn 2,7).

O ser humano é barro; em qualquer momento pode desmoronar-se. Como caminhar com pés de barro? Como olhar a vida com olhos de barro? Como amar com coração de barro? No entanto, este barro vive! Em seu interior há um “sopro” que o faz viver; é o “sopro” de Deus, seu Espírito vivificador.

No relato do evangelho deste domingo, o Ressuscitado também “sopra” sobre sua comunidade, prolongando o Sopro original do Criador. A imagem de “soprar sobre eles” contém uma riqueza profunda: significa compartilhar o que é mais “vital” de uma pessoa, sua própria “respiração”, seu mesmo espírito, todo seu dinamismo; trata-se de uma imagem que faz sentir a respiração comum que se compartilha com Ele e com todos os seres vivos.

As angústias mais radicais do ser humano são reunidas e transformadas pelo sopro do Espírito: um sopro vital que possibilita a vitória da esperança contra o desespero, da comunhão contra a solidão, da vida contra a morte. A voz sopra onde quer, a Palavra vem do alto, o Espírito chega impetuoso rompendo o silêncio da morte. O Vento traz a vida, mas não se sabe de onde vem e nem para onde vai.

O Espírito é sopro, hálito, vento que gera vida, que move, impulsiona e sopra onde quer. De onde vem e para onde vai não é fácil dizer. É um Vento leve, refrescante, novo, penetrante, inovador; um sopro sutil, interior, profundo; um sopro que não pode ser detido, sufocado.

Homens e mulheres do Vento somos todos nós, quando nos deixamos mover de acordo com os movimentos do coração de Deus e da paixão pela humanidade. Movidos pelo Vento, pelo Espírito de Deus, acreditamos e construímos mediações libertadoras que promovem, incentivam e enobrecem o espírito humano. Preferimos a proximidade à distância, o dinamismo à inércia, a criatividade à normose.

O Espírito é o sopro que vivifica, anima, restaura e congrega. Pela linguagem do amor, acende a luz da paixão e permite desenvolver os dons da alegria, do entusiasmo, da compaixão, do cuidado, da esperança e da fé inabalável. Tais atitudes construtivas não são obra nossa, mas dom e fruto, isto é, algo de agradável, de fascinante, de belo, de alegre, de espontâneo, de saboroso como um fruto.

Elas nascem da árvore do Espírito. Nós as vivemos, mas é o Espírito que as desperta em nós, pois elas estão presentes como “reservas de humanidade” em cada um de nós.

Como “filhos e filhas do Vento” basta deixar-nos envolver, escutar o Sopro daquela voz que habita a dimensão mais profunda da vida e que se aninha nas cavidades mais secretas de nossa existência.

Assim, com a Revelação aprendemos que o ser humano é um “todo” e que o corpo humano está unido à terra e ao céu; é argila que vive do sopro vital de Deus. Tanto o sopro vital como a terra são do Senhor; entre si estão indissoluvelmente unidos e numa constante tensão. Somos “argila” habitada pela “Ruah” de Deus; somos corpo “animado” (com ânima), atravessado pelo Alento divino.

O Espírito necessita do corpo para expressar-se e o corpo sem o Sopro não poderia transcender-se. O passo mais decisivo nesta integração o encontramos na Encarnação de Jesus Cristo. Numa religião da Encarnação, como o cristianismo, é natural dar toda a sua importância ao corpo e às suas atitudes. O corpo não é o túmulo da alma, mas o templo do Espírito, o lugar onde o “Verbo se fez carne”. Por meio da Encarnação e por meio da Ressurreição de Jesus, a carne se converteu em espelho da divindade, atravessada pelo Sopro vital. Assim, o corpo humano começou a ocupar um lugar central.

Por isso, o Evangelho deste domingo também nos recorda algo sumamente importante: o Espírito brota do lado aberto e das mãos feridas do Ressuscitado; portanto, não é alheia à violência, à injustiça e ao sofrimento.

É a partir das marcas das feridas que o Espírito se derrama como bálsamo, como alento, como resistência, como energia..., para atravessar os “infernos humanos”, enfrentá-los com ousadia, denunciá-los e buscar coletivamente eliminá-los. O Espírito aparece sempre como “resistência”, atravessando e curando todas as feridas atuais: ódios, intolerâncias, preconceitos, mentiras, violências...

Por isso, celebrar Pentecostes nos incomoda e nos desinstala; a paz que o Espírito nos oferece não é tranquilizadora de consciência, mas uma provocação profunda para sairmos de nossos esconderijos e trabalhar em favor de uma vida esperançada e da reconciliação entre todos. Receber o Espírito nos move sempre à missão e esta não se sustenta com nossas próprias forças, mas que é recebida e alentada como uma brasa inextinguível que nos move sempre à gratidão e à gratuidade.

Texto bíblico: Evangelho segundo Joao 20,19-23

Na oração:

Sinta todo o seu corpo como um templo. E neste templo acolha o Sopro.

- Procure saboreá-lo internamente. E deixe atuar em você a força da inspiração e da expiração para que todo o seu

corpo seja iluminado e plenificado. Deixe vir a Luz e que ela penetre nas partes mais dolorosas do seu ser.

- Sinta que você é um corpo de argila e, também, um corpo de diamante.

- Simplesmente respire na presença d’Aquele que É.

- Com a argila de sua existência, aquecida pelo calor do Espírito de Deus, você pode transformá-la em material de uma nova experiência de vida. Não se trata de sufocar a vida, mas de torná-la leve e luminosa, mantendo límpida a sua fonte, livrando-a da camada de sentimentos doentios.

- Suplique com força: “Vem, Espírito Santo! Vem libertar-me do medo, da mediocridade e da falta de fé em tua força criadora!”