terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Ano Novo: o “novo” que nos habita

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade da Santa Mãe de Deus, em que se celebra também a chegada do Ano Novo e o Dia Mundial da Paz.

 

“Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido” (Lc 2,20)

 


No início deste Novo Ano busquemos inspiração no relato do evangelho de Lucas sobre os pastores dos arredores de Belém, pastores que buscam, encontram e constroem a paz. Relato que quer abrir nossos olhos, despertar nossa esperança, suscitar nosso compromisso e abrir um novo horizonte de sentido na nossa vida. 

Muitas vezes costumamos cair neste erro: considerar o ano civil como um “ciclo”, como um tempo circular que volta sempre, sem mudança, repetindo-se mecanicamente.

Esta sensação de circularidade imprime monotonia e rotina à nossa vida e não corresponde ao que procla-mamos como cristãos; continuamente celebramos o Deus da surpresa, o Deus da novidade, Aquele que vai sempre à frente, que não se repete, Aquele que sustenta e impulsiona nossa história (pessoal, comunitária, mundial, eclesial...), que nos interpela e nos compromete na construção do Reino, até que Jesus (o centro de nossa vida) seja realmente “tudo em todos”.

Foi assim que os pastores, ao se deslocarem para a gruta de Belém, se depararam com a surpreendente novidade de Deus: a salvação se fez visível na margem, na periferia da vida. No rosto de uma criança recém-nascida se revelou a ternura acolhedora de Deus. O “novo” brotou do chão despojado da vida e não dos palácios, dos templos.

 

Neste primeiro dia do Ano vamos reler o relato dos pastores com a liberdade com a qual foi escrito por Lucas. É de noite. Alguns pastores velam seus rebanhos dos perigos. São pobres, marginalizados da socieda-de e do sistema religioso. Desejam a paz, a paz da justiça ou a justiça na paz. Não querem a paz do império romano, de seu poder violento. Tampouco podem esperar que algum “messias” (rei ou sacerdote) traga a paz. Que podiam eles esperar de Deus, pois são considerados como gente de duvidosa moralidade e ritual-mente impura e, portanto, excluída dos benefícios divinos do templo, gente privada do perdão e da paz divina que a religião promete? Que podem esperar do “Deus altíssimo”, invocado pelos poderosos e a quem os sacerdotes do templo imolam os cordeiros de seus rebanhos? Que podem esperar do Deus manipulado pelos mestres da lei que os exclui, por serem ignorantes e inferiores? Por acaso existe outro Deus?

E, de repente, sentem que, na noite da desesperança, uma luz os envolve e uma voz os consola. E se põem a caminho, guiados pelo coração e pela luz.

E na gruta, onde costumam guardar seus rebanhos, a luz de seus olhos se encontra com a glória da vida e do universo, encarnada no sinal mais humilde e luminoso: um recém-nascido. Nas ruínas do velho mundo quebrado, do mundo desgarrado, se acende a luz da justiça que garante a paz verdadeira, a luz da paz que gera a justiça. Nas profundezas do universo e de cada ser humano se acende e brota sem cessar um mundo novo, onde as honras não fascinam, as riquezas são compartilhadas, os poderes se rendem, um mundo onde a justiça e a paz se encontram. 

 

“Já não há mais um Deus altíssimo”, poderiam ter dito aqueles simples pastores. Não existe o Deus dos reis com seus exércitos, tronos e palácios, nem o Deus das religiões com suas doutrinas, cleros e templos. Deus é o Ser fontal de tudo quanto existe. É a Luz originária da qual tudo nasce e vive desde sempre. É a luz da energia que tudo atrai e tudo impulsiona. É a Paz na justiça, a paz ativa, terna e subversiva, que cria e re-cria tudo incessantemente, de transformação em transformação. É o Amor universal que atrai tudo e tudo impulsiona para o “novo céu e a nova terra”.

É preciso ter um coração de um humilde pastor para compreender o “mistério” da Gruta de Belém. O Deus de Jesus não é o Deus que já tem tudo preparado, atado e bem atado; não é o Deus da inércia ou da rotina, mas o Deus que faz tudo novo e, por isso, nos move à renovação permanente e nunca à acomodação. É o Deus sempre criativo que suscita o “novo” e o “surpreendente”, que não “ata” as coisas nem amarra a Criação; por isso, nos convida a sermos co-criadores e colaboradores com Ele na criação contínua através do trabalho e da ação humana. É o Deus da surpresa e da liberdade; uma liberdade humana que conduz a situações imprevisíveis. 

 

Naquela noite de Natal, numa Gruta despojada de qualquer tecnologia, aconteceu uma conexão muito especial, a melhor conexão jamais inventada. Deus, rompe as distâncias, faz-se “humano” e se põe em contato com a humanidade, sem mensagens nem mensageiros. É certo que fora anunciado pelos profetas, mas fazia muitos anos e não havia nenhum sinal extraordinário de que fosse acontecer naquele momento.

Mas, esta é a surpresa: Ele vem em pessoa, rompe as distâncias entre o céu e a terra, entre sua divindade e nossa humanidade; naquela luminosa noite, Deus, em Jesus, nascido da Virgem Maria, se faz um de nós, “um entre tantos” e nos faz partícipes de sua vida. O Verbo se humaniza para nos divinizar”; e assim recebemos a filiação divina e nos tornamos filhos e filhas de Deus.

 

O Deus do “novo” vem dar sentido e inspiração ao Novo Ano que se inicia. É Ele que desperta nossa imaginação, reacende nossos desejos e alimenta nosso espírito de busca.

Imaginação, inspiração, originalidade, criatividade... são o sal da vida e o sopro do Espírito; é o que faz sair luz das sombras e ordem da confusão; é o início de tudo.

Tudo o que é novo começa por uma inspiração e o que não é novo é apenas repetição do que já foi.

criação é privilégio do Criador. Participar de alguma maneira humilde, simples, mínima, na emoção suprema da criação primeira é o prazer mais íntimo que o ser humano pode ter sobre a terra. A criatividade e a inspiração são a faísca do divino no coração do ser humano. 

É a expressão da inspiração que, tal como vento, não se sabe de onde vem e nem para onde vai.

Por nossa conta não podemos fazer muito, apenas nos preparar, estar atentos, observar o horizonte, esperar a oportunidade. Mas quando a inspiração surge é preciso lançar-nos. Quem hesita diante da oportunidade perde a vida, que é feita de oportunidades. É preciso aprender a reconhecê-la, acolhê-la com imediata alegria e vontade decidida. “Cada um deve inventar sua vida”.

vida só tem sentido quando se torna “história”, isto é, quando não se limita a repetir o passado, senão que gera algo novo a partir de uma origem. Todo ser humano experimenta, de alguma maneira, impulsos para a superação de si”; sua vida está orientada para algo definitivo, pleno... e ele vai construindo-se a si mesmo até converter-se em alguém único e irrepetível. A maneira de fazer isso não pode ser forçada, mas consiste em aceitar o que já se tem e, partindo daí, dar uma direção nova à sua história.

 

Somos impulsionados, continuamente, a romper com a vida formal e convencional, a vida ordenada com normas claras e recompensas seguras, o exercício de virtudes pessoais...  e caminhar para uma vida mais audaz e incerta, de horizontes amplos, de exigências que nos impulsionam a “começar de novo”, de signifi-cado mais universal; despertar a motivação e a intenção daquilo que vivemos e fazemos: por quê? para quem?... Temos um coração maior que o mundo e desejos que nos fazem ter asas de águia.

O ser humano é, em sua essência, mudança, movimento, dinamismo, energia... Deus não nos deu um espírito de timidez, de medo, de fuga, de acomodação..., mas de audácia, de criatividade, de luta, de participação... Quando alguém não vive a vida a fundo, só lhe resta a rotina da vida e o vazio vital.

 


Texto bíblico:  Evangelho segundo Lucas 2,16-21

 

Na oração: 

Não percebemos precisamos de um coração novo? Não sentimos a necessidade de sacudir nossa apatia e auto-engano? Como despertar o melhor que há em cada um de nós? Como reavivar a atitude humilde e transparente dos simples pastores que “glorificavam e louvavam a Deus” depois de terem encontrado o Menino na Gruta?

- Qual é o “novo” que Deus quer realizar em nós e conosco, em nossos ambientes, neste ano que começa?

- É preciso nos aproximar da Gruta de Belém “com todo acatamento e reverência possível” e, se fazemos isso de boa vontade e de bom coração teremos o privilégio de nos sentir envolvidos pela rede do amor misericordioso de Deus.

Se conseguirmos que o ano de 2026 seja “novo” com a eterna novidade da bondade, então também teremos um ano feliz.

Um inspirado 2026!


sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A inspiradora Família de Nazaré

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho da Festa litúrgica da Sagrada Família de Jesus, Maria e José.


“Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito!” (Mt 2,13)

 

O relato evangélico indicado para a festa da Sagrada Família é como o espelho de nossa história violenta, que avança sobre cadáveres de crianças sacrificadas, de inocentes fugitivos, de homens e mulheres errantes, perseguidos, em busca de uma pátria. Nossa história do “falso natal” avança sobre o Natal verdadeiro que continua acontecendo nos caminhos dos fugitivos e dos clandestinos deste mundo.

O alarme diante da notícia do nascimento do “rei dos judeus” encaixa perfeitamente no contexto de mentiras e complôs, de terrores e furores dos últimos anos do rei Herodes.

Jesus, já na sua infância, se fez presente no lugar onde se encontravam aqueles que não tinham “lugar”, os “deslocados”, os socialmente rejeitados e que serão, mais tarde, a razão de seu amor e do seu cuidado. Porque fez a experiência da exclusão (exílio) é que Jesus irá desencadear, com sua vida e missão, um movimento de inclusão.

perseguição e o exílio logo no início de sua vida revelam o realismo da Encarnação. Ao entrar na nossa história, o Filho de Deus esvaziou-se de sua glória e assumiu nossa condição humana, com todas as consequências: pobreza e impotência, perseguições e ameaças de morte por parte dos poderosos de turno.

Jesus nasceu num mundo hostil. Ele foi perseguido pelos “donos do poder” desde o início de sua vida.

O não reconhecimento d’Ele por Herodes e por Jerusalém antecipa sua rejeição, sua condenação e sua morte na Cidade Santa, no lugar onde Ele encontrará a maior hostilidade.

O paralelismo entre Jesus e Moisés, de um lado, e entre Herodes e Faraó, de outro, é claro.

Há também um paralelismo entre Jesus e o povo de Israel: Jesus revive na sua própria história a travessia do seu povo, chamado por Deus do Egito. “Do Egito chamei meu filho” (Os. 11,1).

Nessa escola de perseguição cresceu o Messias, compartilhando assim a sorte dos hebreus oprimidos no Egito; crescendo nela pode entender e interpretar nossa história por dentro. Entre fugitivos e perseguidos, cresceu Jesus, nas fronteiras da desumanização; ali vai sendo gestada a história da nova humanidade.

Se a história da Encarnação começa lá “embaixo”, na periferia, quer dizer que a fé em Deus implica prestar atenção e voltar a cabeça em direção aos “últimos”, aos que vivem “deslocados”. É por esse caminho que podemos chegar à descoberta e à experiência de Deus; é também por este caminho que podemos chegar ao conhecimento de nós mesmos e nos fazermos mais “humanos” e “solidários”. No momento em que o Verbo de Deus assume um rosto, todo ser humano chega à plenitude de sua realização: entra em comunhão com o Infinito e recebe uma dignidade infinita.

O relato do exílio interpela a nossa liberdade e a nossa fé. Jesus continua batendo à porta e pedindo hospitalidade na ponta dos pés. São rostos desfigurados pela fome e pobreza, rostos aterrorizados pela violência diária, rostos angustiados de menores carentes, rostos humilhados e ofendidos na sua dignidade... Podemos fechar-Lhe a porta e condená-Lo ao exílio, que é uma atitude gravíssima na relação com Deus. 

Aqui se condena uma criança. Se não entendermos essa lição, nada mais conseguiremos entender. Nesta nossa ignorância e insensibilidade a respeito do presente divino que é a Criança de Belém, estão as raízes de nossas maiores desgraças, injustiças, violências... 

E Deus não pode abençoar uma sociedade que não sabe valorizar e proteger suas crianças...

O Evangelho de hoje termina com três indicações geográficas, que são como que a espinha dorsal da narrativa. Antes de tudo, o anjo diz a José que deve retornar à terra de Israel: é a pátria mais genérica de Jesus e da revelação bíblica. Depois José é advertido em sonho para ficar no território da Galileia.

Enfim, de modo mais específico, ele vai morar “numa cidade chamada Nazaré”.

Nazaré está no traçado do retorno-êxodo de Jesus do Egito.

Com a terra de Israel Jesus revive a experiência do Êxodo; com a Galileia dos gentios Jesus abre a salvação aos mais pobres e excluídos; mas, em Nazaré Ele encontra o ambiente favorável à sua humanização. Um povoado insignificante que se torna o ponto de partida do caminho de Jesus, uma vida oculta e corriqueira que é celebrada pelos profetas.

Podemos dizer que Nazaré é, em certo sentido, a mística do cotidiano”, das horas, dos meses, dos anos escondidos, da vida tranquila, provinciana, não-escrita, de Jesus.

Essa atenção à simplicidade do cotidiano, à natureza da Galileia, à mensagem que Deus esconde no interior das pessoas, nas coisas, nas horas…, é uma constante na pregação de Jesus. Nazaré é o sinal da epifania de Deus nas pequenas coisas, é o sinal da palavra divina escondida nas vestes humildes da vida simples e familiar, é o sinal da presença graciosa de Deus em nossas casas.

Às vezes, as imagens da Sagrada Família nos fazem entendê-la de uma maneira fria, solene e distante. No entanto, não devemos esquecer que Jesus teve uma família e nela viveu muitas das experiências que nós vivemos nas nossas: alegrias e tristezas, dramas e conquistas, perdas e encontros...

família continua sendo o espaço humanizador privilegiado para o desenvolvimento de cada pessoa, não só durante os anos da infância e da juventude, mas durante todas as etapas de nossa vida.

O ser humano só pode crescer em humanidade através de suas relações sadias com os outros. A família é a atmosfera insubstituível e o lugar de referência para que essas relações profundamente humanas sejam amadurecidas. Seja como casal, como filho, como irmão, como pai ou mãe, como avós..., em cada uma dessas situações a qualidade da relação os fará aproximar da plenitude humana, quando todo encontro com o outro é vivido para destravar e ativar suas ricas possibilidades e sua capacidade de amar. 

O espaço familiar des-vela o humano que em todos habita.

Inspirada no lar em Nazaré, cada família se transforma num espaço privilegiado para viver as experiências mais básicas da fé cristã: a confiança num Deus Bom, amigo do ser humano; a atração por um estilo de vida cristificado; a descoberta do projeto de Deus de construir um mundo mais digno, justo e amável para todos; ambiente inspirador para o despertar da criatividade e do espírito de busca; a internalização dos valores do evangelho, etc... 

Num lar onde se vive o seguimento de Jesus com fé simples, mas com grande paixão, cresce uma família sempre acolhedora, sensível ao sofrimento dos mais necessitados, que aprende a partilhar e a comprometer-se por um mundo mais humano. Uma família que não se encerra só nos seus interesses, mas que vive aberta à família humana.

experiência e vivência familiar, portanto, vem responder a uma demanda própria deste momento pós-moderno e se revela capaz de restituir ao ser humano de hoje a espessura de humanidade e os valores que lhe são próprios. O clima familiar não só mobiliza a pessoa em sua integralidade (corporal, afetivo, cognitiva, volitiva...), mas a acompanha para um sentido sapiencialda vida e que a faz saboreá-la como descoberta, como oportunidade, como dom.

A espiritualidade familiar, centralizada em cada um de seus membros, visa mobilizá-los em todas as suas dimensões, promove distensão, paz e alegria, propõe um caminho de plena humanização, forma para a abertura aos outros e para a doação por amor, impele, em suma, a criar as condições para que todos atinjam a maturidade e se realizem como seres humanos.

Oração da Sagrada Família - Departamento Arquidiocesano para a Pastoral  Familiar


Texto bíblico:  Evangelho segundo Mateus 2,13-15.19-23

 

Na oração:  

Contemplar seu espaço familiar: é ambiente instigante, provocativo, inspirador... onde todos se sentem livres para expressar sua identidade e originalidade? Ali educa-se para viver uma consciência moral responsável, sadia, coerente com a fé cristã? Ou favorece um estilo de vida superficial, consumista, sem metas nem ideais, sem critérios e valores evangélicos?

Em quê dimensões você sente que sua família pode e deve crescer mais, tendo como referência a Família de Nazaré?

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Re-descobrir o NATAL em meio ao “natal”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ como sugestão para rezar o Evangelho da noite do Natal. Desejamos a todos(as) uma santa e criativa celebração natalina; que a experiência de "descida" à Gruta de Belém inspire uma maneira original de ser e de estar no mundo.


“Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura” (Lc 2,12)

 

Há mais de um mês que somos continuamente bombardeados pela publicidade, oferecendo um “natal” esvaziado, centrado no consumo, no impacto das luzes que nos cegam, nas insistentes ofertas que nos ensurdecem... A impressão que temos é que tudo no Natal é publicidade, consumismo, materialismo... 

Há uma pergunta que todos os anos nos incomoda, quando observamos pelas ruas os preparativos que anunciam a proximidade do Natal: o que existe ainda de verdadeiro no fundo desta festa tão esvaziada por interesses consumistas e por nossa própria mediocridade? Não há algo mais nobre e profundo que os interesses do mundo não conseguem afogar? 

Continuamente ouvimos falar da superficialidade da festa natalina, da perda de seu caráter familiar, da vergonhosa manipulação dos símbolos religiosos e de tantos excessos e despropósitos que deterioram hoje o sentido do verdadeiro Natal.

Mas, o problema é mais profundo. Como pode celebrar o mistério de um “Deus feito homem” uma humanidade que vive praticamente de costas para Deus e que destrói, de tantas maneiras, a dignidade do ser humano? Como pode celebrar “a humanização de Deus” uma sociedade marcada por uma desumana indiferença, onde os grandes sonhos e causas mobilizadoras estão esvaziados?

Para muitas pessoas não faz diferença crer ou não crer, ouvir que “Deus morreu” ou que “Deus nasceu”. Sua vida continua funcionando como sempre. Não parecem necessitar mais de Deus.

A realidade contemporânea está nos empurrando para esta grave situação: já faz algum tempo que se falou da “morte de Deus”; hoje, fala-se da “morte do ser humano”; faz alguns anos que foi proclamado o “desaparecimento de Deus”; hoje, anuncia-se “o desaparecimento do ser humano”. Não será que a morte de Deus arrasta consigo, de maneira inevitável, a morte do ser humano?

No entanto, para quem tem um coração contemplativo, percebe que junto a tantos luminosos sinais, há outros mais discretos, que ninguém anuncia: relatos que falam daquela noite em Belém, de uma Boa Notícia, de um Deus que nasce nas entranhas da terra, que é acolhido por humildes pastores...

Nesta Noite Santa, a esperança que foi sendo alimentada durante séculos, rompe o céu e se derrama numa gruta de uma aldeia insignificante com o nome de poesia: Belém.

Nesta Noite Santa, o rebento de um tronco já seco germina para a vida do Universo, abrindo um novo tempo e uma nova Criação, onde não haverá pranto nem lágrimas.

Nos olhos fechados de um recém-nascido, deitado em um presépio, se revela e se faz visível toda a ternura de Deus, toda a espera de muitos séculos, todos os sonhos de muitas gerações. 

Nesta Noite Santa, Deus se faz um de nós, passando a transitar, como um             “clandestino”, por entre os mais excluídos e revelando que todos somos incrivelmente amados e com capacidade ilimitada de amar.

Nesta Noite Santa, o silêncio se faz gesto radical de entrega, amor transbordante, humanidade plenificada. Na presença repousante de uma criança, encontra-se toda a humanidade que sonha um mundo diferente, de paz, de justiça e de concórdia.

A festa de Natal nos conecta com a essência de nossa própria humanidade. O que se celebra é um Deus-menino, que está chorando entre animais, e que não mete medo nem julga ninguém. É bom que os cristãos voltem a esta imagem; ela representa o “puer aeternus”: o eterno menino que, no fundo, nunca deixamos de ser.

Ter o “eterno Menino” diante dos olhos desperta em nós renovação da esperança, o retorno à inocência perdida, o surgimento de novas possibilidades de vida que correm em direção ao futuro.

Imaginamos “outro Natal possível”, mais próximo do Menino Jesus, nascido humildemente em um presépio, onde, em lugar de “dar presentes”, nos “faremos presentes” junto aos famintos, necessitados e excluídos, abriremos corações e portas à chegada salvadora do Deus que se humaniza. A solidariedade e a ternura abrirão passagem frente ao individualismo, ao egoísmo e ao consumismo.

Imaginamos um Natal onde aproveitaremos para fazer uma viagem ao interior de nosso coração, ali onde habita o Deus da Vida que dá fundamento à nossa verdadeira identidade.

Imaginamos um Natal simples, solidário, alegre... sem luxos, onde abriremos espaços em nosso interior para que ali encontrem hospedagem todas as pessoas que sofrem e que são as preferidas de Deus Pai e Mãe.

Desejamos ardentemente que Deus nasça de novo entre nós, que brote com Luz nova em nossas vidas, que abra caminho em meio aos nossos conflitos e contradições.

Para encontrar-nos com esse Deus não é preciso ir muito longe. Basta nos aproximar silenciosamente de nós mesmos; basta “descer” em nossa gruta interior, em nossos desejos mais profundos.

Deus sempre é surpreendente e novo; é assim que Ele, como um anônimo, se aproxima de nós, onde estamos, para fazer de nosso eu profundo sua Gruta, onde a Vida se revela. O Deus “inacessível” se fez humano e sua proximidade misteriosa nos envolve. Em cada um de nós pode nascer Deus.

Caminhemos até Belém! Vamos todos fazer este caminho em direção ao “Deus clandestino”, para que as águas do Natal possam empapar nossas vidas e despertar em nós o assombro, a acolhida, o olhar contemplativo... diante do Menino que não fala, mas revela tudo de Deus. Basta “ser gruta” para Ele.

 

“Eu vos anuncio uma grande alegria... nasceu para vós um Salvador”. Quem está preparado para escutar e acolher esta surpreendente notícia? Somente os pastores, a profissão mais desprezada e marginalizada daquele tempo. A Salvação é anunciada em primeiro lugar aos oprimidos, aos que não são contados, aos excluídos. Os demais estão descansando, adormecidos, acomodados; não precisam de nenhuma salvação.

Deus sempre é Boa Notícia. Deus deixa transparecer seu rosto salvífico no rosto de um recém-nascido. Atualizando este mistério, podemos assim afirmar: Deus está vindo sempre em nossa direção, para nos comunicar vida plena. Os pastores saem correndo. Não é fácil encontrá-Lo. Alguma pista? Um menino, enrolado em faixas e deitado entre palhas, num coxo de animais. Seus pais não dizem nenhuma palavra. O que poderiam dizer? Deus decide enviar sua Palavra e nos envia um recém-nascido que não sabe falar.

Tudo o que nos torna mais humanos deve ser incorporado a esta Festa: o encontro familiar, a refeição, os abraços, a memória celebrativa...; tudo pode nos ajudar a descobrir o que somos na nossa essência humana e manifestar isso com muita alegria. A festa adquirirá sentido para todos os momentos em que soubermos unir o humano e o divino. Se formos capazes de ir mais além da superficialidade, poderemos nos encontrar celebrando a única realidade que interessa: a Vida que está em nós e espera ser ativada. 

Deus continua nascendo entre nós se O deixamos transparecer em nossas atitudes diante dos outros, em nossa entrega e sensibilidade oblativa. Deus está onde nós O descobrimos e nos fazemos presentes. Deus está onde há amor, compaixão, vida partilhada, acolhida...; ali onde um ser humano é capaz de superar seu egoísmo e viver descentrado; ali onde há compreensão, perdão, abertura ao diferente...; ali está Deus, “assim novamente encarnado” (Santo Inácio de Loyola).


O Natal subversivo de Jesus de Nazaré – Portal do CEBI

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Lucas 2,1-14

 

Na oração:

O mais importante acontece no silêncio, acontece no centro de sua própria vida e o convida a olhar para além das aparências. Viver um Natal inspirado implica fazer uma viagem ao interior de seu coração, ali onde habita o Deus da Vida que dá fundamento à sua verdadeira identidade.

Continua sendo Natal em cada história, em cada terra, em cada vida que se abre ao Mistério, em cada verbo que se faz eco das palavras de justiça e de paz, em cada gesto que se soma na mobilização dos direitos de todos, dos direitos da Terra, dos direitos da vida.

Um Natal com sabor de Evangelho fará toda a diferença em sua vida!

 

Um inspirado Natal a todos!

sábado, 20 de dezembro de 2025

São José de Nazaré, sua disponibilidade nos inspira!

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 4º Domingo do Tempo do Advento (Ano A).

“Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado, e aceitou sua esposa” (v. 24)

 

Advento nos oferece uma excelente oportunidade para nos aproximar dos verdadeiros protagonistas da história:homens e mulheres de todos os tempos, pessoas pouco ou quase nada conhecidas que, com sua passagem humilde por esta terra, com sua presença despojada, sua espiritualidade do serviço, sua confiança no Deus providente, nos inspiram e nos conduzem a viver o verdadeiro progresso humano e espiritual.

Os Evangelhos narram a história vivida e contada por protagonistas de “segunda fila”, ocultos nos relatos históricos “oficiais” e que só narram as façanhas dos poderosos, com suas ambições, seus privilégios e a opressão que exercem sobre os povos.

O tempo do Advento nos faz entrar em sintonia com São José e seu assombro diante daqueles momentos tão desconcertantes que ele viveu. E, nele, podemos todos nos reconhecer. Quem não experimentou em seu interior a insatisfação cheia de resistências frente às mudanças que fizeram cair o que fora planificado com toda expectativa. A mudança de planos, seguida de dúvidas, nos alteram, nos dividem por dentro, nos deixam na obscuridade. E é na resposta confiada onde aparece o caminho que nos faz crescer de verdade como pessoas.

A figura de S. José nos permite retornar à essência dos Evangelhos. “A boa notícia do Evangelho consiste em mostrar como, apesar da arrogância e da violência dos governantes terrenos, Deus sempre encontra um caminho para cumprir seu plano de salvação” (Papa Francisco, Patris Corde, 5).

É preciso, portanto, re-orientar nosso olhar: primeiro para ler a história a partir dos últimos, dos pequenos e descartados; e, segundo, para desejar profundamente permanecer entre os que estão “à margem”. É por ali que Deus “entra” na história; é ali que surge o broto de um novo tempo e de uma nova esperança.

O testemunho de José vem, além disso, reafirmar a convicção de que nos mais humildes repousa o melhor e mais belo da humanidade. Das periferias, dos “menos-valorizados” ..., surgem valores e experiências que nos fazem progredir a todos, nos propõem perguntas e apontam para novos horizontes...

O evangelista Mateus inseriu o personagem José, "o esposo de Maria" (Mt 1,16), no início de sua catequese, e o descreveu como modelo de quem adere ao discipulado do Reino, proclamado e vivido por Jesus de Nazaré. O leitor-ouvinte de sua catequese, ao longo da narração, deve se dispor a assumir atitudes idênticas às de José na relação com o querer divino, inspirando-se nesse discípulo ideal.

O texto evangélico de hoje afirma claramente o conflito vivido por José. Ele viveu a experiência de uma verdadeira “noite escura”, do “silêncio de Deus”. Mais uma vez é Deus quem toma a iniciativa.

José era um pobre noivo, pertencente a uma nação oprimida e a uma categoria social esquecida, mas con-servava límpidos os olhos do espírito, prontos para perceber e acolher a presença surpreendente de Deus em  sua vida. Na narração de Mateus, o anjo comunicou ao confuso José o mistério que estava acontecendo com sua esposa Maria. Por essa revelação do anjo, José foi atingido como que por um raio, foi tomado de surpresa: sua noite, seu silêncio, seu sono, sua rotina diária foram quebrados por uma novidade absoluta.

O que José recebeu no sonho foi o chamado a uma existência marcada por constantes “deslocamentos”, pois, a mulher que entrou em sua vida e vai entrar em sua casa, Maria, levava em suas entranhas Aquele que para muitos será uma presença provocativa, uma ameaça ao poder estabelecido, um transgressor das leis e normas religiosas... A vida inteira de José, o justo, vai ficar desestabilizada a partir deste momento porque foi convidado a aproximar-se do mistério surpreendente do Deus feito homem. 

Exteriormente, o mundo permanecia como estava, aparentemente nada mudou; mas, ao associar-se ao destino do “Deus que se humaniza”, também José se revelará como presença surpresa, marcada pelo cuidado, pelo silêncio e pela prontidão ao chamado de Deus.

José de Nazaré é o ícone da maior parte dos homens da humanidade que, a partir do silêncio e do anonimato, transitam pelo caminho do trabalho e da família, ambas primitivas vocações dadas no Genesis, no momento da Criação. Na era da imagem em que vivemos, na qual é mais importante “aparecer” que “ser”, a figura de São José é contra-cultural e ilumina milhares de seres humanos, para que sejam pessoas com dignidade e não massa amorfa de consumidores e excluídos, presos nas redes sociais e caminhando em direção ao abismo da solidão e do sem-sentido.

A essência da figura de São José continua sendo seu amor comprometido e kenótico (esvaziamento); não se pode assumir tanto amor sem um esvaziamento e um desmonte do egoísmo e da vaidade. S. José é a imagem daqueles que estão continuamente abertos à Graça transformadora e, portanto, plenamente humanos, em sintonia com a humanidade nova dos construtores do Reino; aqueles que sabem que não são ilhas perdidas de boas intenções, mas que sentem sua pertença a uma História e a um Povo; aqueles que sabem que, para além do êxito ou fracassos pessoais, visibilidade ou invisibilidade midiática, contribuem com suas vidas a um plano maior, a do amor de Deus.

No evangelho de Mateus, a personalidade de José está marcada por uma atitude eloquente de silêncio e discernimento.Um silêncio que não era um vazio, mas um espaço rico na alma, para escutar continuamente, em seu interior, a voz de Deus e o clamor dos demais. Seu silêncio também era habitado por incertezas e sofrimentos, momentos de solidão, de conflito interior, de escuta...

Como discípulos autênticos do Reino entramos em sintonia com o querer e o desejar de Deus nas situações onde nos falta clareza e parece nos encontrar num impasse. São muitas as circunstâncias em que, como José, devemos trilhar o caminho da justiça confrontado com decisões dramáticas a serem tomadas.

O discípulo do Reino, em hipótese alguma, age por impulso, tampouco movido por razões arbitrárias. Antes, nos momentos difíceis, quando deve tomar decisões importantes, valoriza o discernimento como tempo de ponderar tudo diante de Deus, com o desejo de ouvir sua voz, como José na escuta do anjo do Senhor. A voz divina faz-se ouvir de muitas maneiras, de modo especial, nas palavras das pessoas carregadas de sabedoria espiritual e experientes na arte de discernir o desejo de Deus no emaranhado de vozes e apelos em que o ser humano se vê enredado. Nas encruzilhadas difíceis da vida, vale a pena escutá-las!

O evangelista Mateus aponta outro detalhe: “José, era justo...”. Esta expressão na linguagem bíblica é qualificativo de uma pessoa honrada, que se abre à Presença do Deus Amor sem colocar resistência, que busca fazer o bem e retificar o que está torto. É o “anawin” na linguagem bíblica (o pobre de Javé). Como a Virgem Maria, também S. José é o “pobre do Senhor” e pode cantar o “Magnificat”. José é “justo” porque não sucumbiu à tentanção do poder, do prestígio social, da febre obsessiva de tudo possuir. 

Como homem “justo”, José acolheu Maria sem impor condições prévias. Um gesto inspirador para este nosso mundo onde a violência psicológica, verbal e física sobre a mulher é patente.

Acolhendo Maria numa situação de pessoa “suspeitosa e indefesa”, José nos convida a acolher os outros, sem exclusões, tal como são, com preferência pelos mais fracos. Cada necessitado, pobre, sofredor, estrangeiro, prisioneiro, enfer-mo, é “o Menino” que José protege e cuida. Neste sentido, sua figura evoca a multidão de pessoas “justas” cuja conduta, em todos os rincões do mundo, é germen de vida e sinal de esperança.


Saiba como montar a Coroa do Advento « Diocese São José dos Campos


Texto bíblico:  Evangelho segundo Mateus 1,18-24

 

Na oração: 

espiritualidade do Advento pede de nós uma docilidade à audição da Voz que nos habita; é também o sussurro que vem da realidade e das coisas, carregada da Presença d’Aquele que desperta o nosso ser para o assombro, para a maravilha e para o milagre.

Diante do “Mistério” que nos envolve e nos escapa, brota do mais profundo do nosso ser, o grito cheio de surpresa. 

Eis a plenitude da vida: mergulhar naquela Presença benfazeja que nos enche de sentido, de alegria, e nos surpreende a cada momento, nos invade e nos conduz a caminhos novos.

- Fazer memória das “surpresas” de Deus que despertaram um novo “movimento” em sua vida.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Tempo de Advento: o despertar dos sentidos

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 3º Domingo do Tempo do Advento (Ano A).

“Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo...” (Mt 11,4)

 

Hoje precisamos ativar uma nova sensibilidade contemplativa para perceber a misteriosa ação de Deus em nosso mundo, marcado pela injustiça, pela violência, pela cultura da indiferença, do preconceito e da intolerância. Encontrar Deus numa realidade de profunda desumanização foi e será sempre um desafio.

Jesus, movido por uma sensibilidade oblativa, manda dizer a João Batista e a nós para que abramos nossos sentidos à realidade, ao novo. Não nos diz, como em outras ocasiões, “recordem”, “façam memória”, “pensem”, “reflitam”, “ponderem” ..., mas, sim, “olhem”, “escutem”, “abram bem os sentidos, percebam a realidade de outra maneira, tirem de suas vidas as formatações que lhes travam o olhar e entopem os ouvidos, sacudam para fora de vocês a escuridão e o frio do inverno que os tem congelados, percebam os brotos, o germinal que rompe as cascas endurecidas e os terrenos petrificados que lhes querem silenciar; descubram o novo que Deus realiza em cada momento”.

Jesus revela uma sensibilidade diferente. Em seu coração arde a certeza de que a criatividade de Deus não pode ser bloqueada e, portanto, é preciso estar sempre atento, acordado, olhando a realidade com olhos contemplativos, porque a qualquer momento pode brotar algo inesperado e surpreendente. A fidelidade de Deus é como uma semente que permanece aberta à vida debaixo da terra completamente seca e desolada. Basta uma chuva para que brotem as folhas verdes e pintem de esperança a paisagem sem vida.

É preciso estar olhando sempre o horizonte da história para ver se aparece um ponto pequeno, insignificante, que balança e cresce ao aproximar-se como novidade salvadora. É preciso estar olhando sempre o silêncio dos corações para ver se Deus faz surgir algo novo, uma intuição pequena que cruze o firmamento interior como uma estrela fugaz, algum sonho que abra a vida a novas possibilidades.

Advento revela-se como um itinerário espiritual que vai nos transformando desde a “cegueira” e “surdez”, que pode levar-nos à perdição e morte, até a possibilidade de ver Deus presente em tudo, sem exclusão nenhuma, trabalhando sem descanso, para que possamos contemplá-lo em tudounindo-nos a Ele e à Sua atividade que tudo recria.

Nossa sensibilidade, cada vez mais petrificada pelo excesso de imagens e sons, tem  maior dificuldade em perceber os detalhes mais finos da vida. Assim, esta mesma vida vai se banalizando, de tal maneira que vemos mortes, miséria e violência sem nos alterarmos, sem distinguirmos se é uma notícia ou um filme a mais que compete pela audiência, alimentando as atrocidades mais explícitas.

Por outro lado, a contemplação das “margens da dor e da injustiça” nos faz mergulhar no Mistério profundo de Deus. A experiência cristã nas margens da história é “mistério e contradição”, superabundância e sequidão, mística e vazio... Por isso é necessário reacender a “mistagogia do olhar” para poder compreender, ou ao menos vislumbrar, a “faísca de luz” que reluz nos contextos de exclusão.

“Tudo é segundo a dor com que se olha” (Benedetti). Ver a vida a partir da tela de um computador, ou auscultar os lamentos a partir de um celular, ou experimentar a vida a partir de um belo “power point” carregado de música emotiva e imagens impactantes, não nos capacita para “ver o novo nas margens da história”. João Batista pede um sinal porque teme por sua vida e quer deixar uma boa herança para seus seguidores. Envia uma delegação e Jesus lhes responde citando Isaías: “os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” 

Jesus não veio impor nada, nem complicar a vida com mais leis e ritos, mas estabelecer um movimento de vida centrado no serviço e no cuidado. Sua atividade de não-violência, seu ministério terapêutico, seu anúncio da Boa Notícia, sua liberdade diante da lei e das tradições religiosas, escandalizou a todos.

Não podemos imaginar Jesus pregando a conversão pelos povoados e oferecendo penitência aos pecadores. Ele quebrou as distâncias, aproximou-se dos enfermos e dos sofredores de tal maneira que, poderíamos dizer, Jesus introduziu uma revolução religiosa de caráter curativo, uma religião terapêutica que não tinha precedentes na tradição judaica. Ele anunciou a salvação curando; isto foi tremendamente novo. 

Jesus revelou que o maior pecado é praticar a injustiça, causar sofrimento ou tolerar a exclusão, dando as costas aos preferidos de Deus. Para Ele, o pecado não é uma simples transgressão de leis, mas quebra de relação, indiferença diante dos excluídos ou daqueles que são vítimas de uma estrutura social e religiosa. O pecado revela seu rosto desumanizador encarnado naquelas pessoas que estão sofrendo, vítimas da dureza de coração de muitos e que estão sendo esquecidas por todos. Começou, então, a curar... 

Jesus curou não de maneira arbitrária ou por sensacionalismo, mas movido pela compaixão; revelou que os sofredores são os primeiros a experimentarem, em sua própria carne, o que é a bondade de Deus; os mais excluídos, os mais desesperançados, os mais quebrados, os que já não tem nem rosto humano..., são aqueles que devemos colocar no centro de nosso coração, porque são o centro do coração do Pai.

 

A grande revolução de Jesus, portanto, foi nos mostrar que Deus é de todos, que o encontro com Ele vai além dos templos magníficos, das vestimentas ostentosas, dos ritos sofisticados, dos sacerdotes que não “sentem o cheiro das ovelhas”. Os sábios, os entendidos, os moralistas e legalistas não eram os seus preferidos; mais ainda, se nos deixamos inspirar por aquilo que vemos em Jesus, percebemos que Seu coração sempre se inclinou para os marginalizados, os impuros, os excluídos, os enfermos... Poderíamos dizer que o Deus de Jesus não é “justo”, mas “compassivamente parcial” em favor dos mais necessitados.

Jesus viu o Pai criando a vida nova e inimaginável, soltando todas as amarras que, precisamente por razões religiosas e por má interpretação do sábado e de Deus, paralisavam e mantinham seus filhos na escravidão.

Esse é o dinamismo do Amor de Deus que se faz ternura e abraço acolhedor de todo ser humano.

Há um modo contemplativo de estar no mundo que nos capacita para perceber a Deus como Presença primeira e constitutiva da Realidade, pulsando em todas as coisas. Porque, em definitiva, o que nossos olhos querem ver, o que nossos ouvidos querem ouvir, é o Rosto-mais-além-dos-rostos que se manifesta através da realidade. 

Revelar a beleza de alguém é revelar o seu valor e dignidade, dedicando-lhe tempo, atenção e ternura.

Amar não é apenas fazer algo pelo outro, mas revelar ao outro sua própria originalidade, comunicando-lhe, assim, que ele é especial e digno de atenção.

Podemos expressar essa revelação por meio da nossa presença aberta e gentil, pela maneira como olhamos e escutamos uma pessoa, pelo modo como falamos com ela e cuidamos dela.

Os sentidos, cristificados, nos impulsionam em direção ao outro e nos fazem acreditar na beleza e dignidade escondidas na fragilidade da condição humana.

Mergulhar na realidade que nos cerca, por meio dos sentidos bem abertos e evangelizados, é deixar estremecer de vida divinaa fragilidade de nossa condição humana.

Uma comunidade de seguidores(as) Jesus não é só um lugar de iniciação à fé, nem só um espaço de celebração. Deve ser, de muitas maneiras, fonte de vida mais sadia, lugar de acolhida e casa para quem necessita de um lar.

Uma comunidade que segue o “Amigo da Vida” deve se constituir como “comunidade curadora”: mais próxima daqueles que sofrem, mais atenta aos doentes desassistidos, mais acolhedora daqueles que precisam ser escutados e consolados, mais presente nas situações dolorosas das pessoas...


Liturgia para o terceiro Domingo do Advento - Tua Rádio


Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 11,2-11

 

Na oração: 

Se alguém nos pergunta se somos seguidores do Messias Jesus: que obras em favor da vida podemos lhes mostrar? Que mensagem libertadora eles podem escutar de nós? 

- Quais são as marcas características que não podem faltar em uma comunidade de seguidores(as) de Jesus? 

- Sua comunidade cristã é “curadora” e “cuidadora”? É aberta à vida ou só se preocupa com ritualismos e moralismos? É “comunidade-em-saída” ou auto-centrada?

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Advento: novo tempo para escutar novas vozes

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 2º Domingo do Tempo do Advento (Ano A).

“É dele que falou o profeta Isaías: ‘Voz de quem clama no deserto...’” (Mt 3,3)

 

Segundo a revelação bíblica, o novo está na margem. João Batista e Jesus foram “homens de margem”.

João Batista, por tradição familiar, deveria ter sido sacerdote do Templo, mas ele constrói sua vida e sua missão no deserto e a partir do deserto.

templo é o espaço dos sacerdotes. O deserto é o lugar dos profetas. Os sacerdotes são os encarregados por manter firmes as estruturas religiosas e o cumprimento da lei. Os profetas têm a missão de despertar as consciências e anunciar a novidade de Deus; eles dificilmente se encaixam nas estruturas religiosas centradas na lei e no templo. O profeta é o homem da liberdade de espírito; é aquele que fala, tanto ao povo, como aos sacerdotes, fariseus e letrados, todos apegados ao templo.

As instituições religiosas e o poder político não querem profetas em suas fileiras, pois são homens que pensam, que anunciam, que denunciam a corrupção, que alimentam o ânimo no povo... As instituições querem funcionários que cumpram e transmitam as ordens que emanam do poder, que estejam preocupados com o funcionamento da estrutura religiosa: seus ritos, suas leis, sua doutrina.

O evangelho deste domingo nos apresenta um personagem curioso; veste-se de um modo que chama a atenção e recorda o profeta Elias. Cada um dos quatro evangelistas nos fala de João Batista, destacando aspectos diferentes segundo a finalidade de seu evangelho, porque o Batista teve uma multidão de seguidores e uma importância extraordinária em seu tempo.

O evangelista Mateus dá um salto cronológico, da infância de Jesus à aparição do Batista. E faz isso através da expressão: “por esse tempo apresentou-se João Batista no deserto...”. Tal expressão deixa transparecer a continuidade da História da salvação. Em seguida nos oferece alguns traços característicos para que possamos reconhecer João Batista como um profeta.

“João usava uma roupa feita de pelos de camelo e um cinturão de couro em torno dos rins; alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre”.No tempo de Jesus o modo de vestir era expressão da identidade da pessoa com mais claridade que hoje; sua figura era já um reflexo do que será sua mensagem: desnuda e sem adornos, pura essência.

João Batista não foi um funcionário do Templo; foi profeta, homem audaz, valente, rigoroso, pouco convencional, que no deserto geográfico e pessoal evocava a escravidão do Egito, a liberdade, a austeridade, o caminho, as buscas... O deserto recordava a Palavra que fora dada ao povo no caminho, o maná, a água viva...

“No deserto”: a realidade nova anunciada, aparece fora das instituições e do templo, que seria o lugar mais lógico, sobretudo sabendo que João era filho de um sacerdote.  E isto é afirmado com toda intenção, ou seja, antes de falar do conteúdo da pregação de João, o relato deste domingo está nos dizendo que sua pregação tem muito pouco a ver com a religião oficial, que se havia afastado do verdadeiro Deus.

A conversão, a vida em sintonia com o Evangelho, não acontece no êxito, no centro da religião, no poder, mas no deserto da marginalidade, na pobreza, na austeridade. As periferias, a simplicidade, a austeridade são lugares de pregação e evangelização, não no “centro e nem no poder”.

João era um inconformista que não se encaixava em nada na maneira religiosa de viver das pessoas normais: nem comia, nem vestia, nem vivia, nem prestava culto a Deus como os outros.

“Muitos vinham ao encontro de João”. São propostas duas ofertas de salvação: a oficial, no templo de Jerusalém e a nova, no deserto. As pessoas se afastavam do templo e buscavam a salvação no deserto, junto ao profeta. A religião oficial havia se tornado inútil: em vez de salvar, escravizava. 

Mais tarde, o evangelista conduzirá toda essa multidão a Jesus, em quem encontrará a salvação definitiva.

João Batista grita pela conversão, para confiar e esperar no Senhor. Esperar não é um seguro de vida. A esperança não é ter segurança, mas confiança no futuro de Deus. Converter-se significa desviar o olhar dos centros de poder para a “margem” de João Batista e de Jesus.

Essa foi a missão de João. Apareceu no deserto não como um sacerdote que convida ao culto, mas como profeta que proclama a mudança, a conversão, a abertura à novidade de Quem está chegando. 

É uma voz que clama no deserto. Mas João é muito mais que uma palavra: é toda uma vida que se faz palavra. Ou melhor, é a palavra feita vida, revestida de vida. Ele é o homem que vai na frente na vida. 

Nos profetas fala a voz, mas sobretudo fala a vida.

O curioso em João está no fato de que é o profeta que não fala aos de “fora”, aos que não creem, aos pagãos, aos que estão longe. Pelo contrário, João é daqueles que fala aos “de dentro”, aos que se consideravam bons, aos que diziam que cumprem a lei, aos que atribuíam a si mesmos o título de “filhos de Abraão”.

É fácil ser profeta para os que estão fora, para os religiosamente marginalizados, para os que não creem. 

O difícil é ser profeta para os de dentro, para os de casa, para os que se dizem “filhos de Abraão”. O difícil é anunciar aos de cima a necessidade de mudança e deixar-se conduzir pelo Espírito que move a ir além da religião, a comprometer-se com as vítimas, muitas vezes da própria religião.

Também é difícil ser profeta dentro da própria Igreja; é difícil anunciar a mudança na Igreja; é difícil proclamar as transformações que o Espírito está pedindo à Igreja.

Parece que todos se sentem profetas frente ao Povo de Deus, desde que seja para manter as coisas como sempre foram. Quem se atreve a proclamar que é preciso uma Igreja diferente, mais evangélica, mais compassiva e samaritana, mais sensível e aberta às margens, mais comprometida com aqueles que se foram ou resistem entrar porque não veem nela a verdade que buscam e que precisam?

Quem se atreve hoje a ser profeta da mudança? Quem se atreve a denunciar uma estrutura religiosa pesada, carregada de legalismos e moralismos, correndo o risco de ser declarado “persona non grata” ou simplesmente “suspeita”, como foi o próprio João.

Neste tempo de Advento, a figura de João Batista vem nos dizer que a Igreja precisa de profetas dentro da própria Igreja. A Igreja precisa de profetas que escutem a voz de Deus nos “sinais dos tempos”; precisa de profetas que, em nome de Deus, falem da necessidade de mudança de mentalidade, de conversão profunda e de transformação da realidade, tão injusta e violenta.

O Papa Francisco nos indicou as mudanças de atitudes que precisamos; podemos indicar algumas de grande importância:

- Colocar Jesus no centro da Igreja: “Uma Igreja que não leva a Jesus é uma Igreja morta”.

- Não viver numa Igreja fechada e autorreferencial: “Uma Igreja que se fecha no passado trai sua própria identidade”.

- Atuar sempre movidos pela misericórdia de Deus para com todos os seus filhos; não cultivar “um cristianismo restauracionista e legalista que quer tudo claro e seguro”.

- Buscar uma Igreja pobre e dos pobres; ancorar nossa vida na esperança, não “em nossas regras, nossos comportamentos eclesiásticos, nossos clericalismos”.

Celebrar o Advento é construir a esperança comum. Sempre é tempo de esperança, mas Advento o é de maneira especial. A esperança abre os olhos, a desesperança os fecha. Podemos estar vivendo muito tempo sem perceber o que realmente está acontecendo ao nosso redor, as maravilhas, os pequenos milagres que nos envolvem na vida cotidiana, nas relações humanas, na história da salvação.

A esperança é a onda na qual podemos nos sintonizar com a essência do Evangelho.

Os símbolos do Advento: a segunda semana - Vatican News


Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 3,1-12

 

Na oração:

Ancorado no seu coração e no coração da realidade, que novas “vozes” você está captando? Para onde elas apontam? São vozes de vida? São vozes provocativas, ousadas...?

- Como viver em sua comunidade cristã a missão de ser profeta, prolongando a missão de João Batista?

- Em seu interior e na sua comunidade há lugar para o “novo”, uma nova esperança, uma transformação...?

- Em sua comunidade predomina a estrutura do templo (centralidade do sacerdote) ou a inspiração do deserto?