sexta-feira, 3 de abril de 2026

Ressuscitados(as), habitamos casas de portas e janelas abertas

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor (2026).

 

“As mulheres correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos” (Mt 28,8)

 

Ainda não é dia, mas amanhece um tempo novo, ressoam como ditas para nós as palavras de Isaías: “Algo novo está brotando, não o notais?” (Is 43,18-19). É tempo de esperança.

noite é o tempo do mistério e da promessa, é o lugar da espera e da realização, o espaço do desejo e do encontro, da invocação e da revelação, do sofrimento e da paixão, do silêncio e da oração, da vida e da morte, do Natal e da Páscoa...

A experiência da Ressurreição nos faz “passar” pela noite e perceber no seu interior os segredos ali escondidos, as surpresas que nos são reservadas. É a experiência da presença da “noite” no ritmo da vida: noite que causa medo, provoca arrepios, impede a visão, paralisa... 

A partir da experiência pascal, noite pode espantar, mas também pode ser chance para ver melhor; a morte pode ser ameaçadora, mas ela ensina a viver; o sepulcro vazio pode causar dúvida, mas ele aponta para a ressurreição; o infinito pode suscitar inquietação, mas consegue impulsionar para o além, até acender no coração uma chama persistente: a esperança.

Após a morte e o sepultamento de Jesus, os discípulos se refugiam em uma casa; anoitece em Jerusalém e também em seus corações. Ninguém os pode consolar de sua tristeza e desolação. Pouco a pouco, o medo vai se apoderando de todos; a única coisa que lhes dá certa segurança é “fechar as portas”. Estão reunidos, escondidos, polarizados na frustração, concentrados na perda dolorosa, desconfiados de tudo e de todos. 

Na comunidade reina um vazio que ninguém pode preencher; também eles estão mergulhados na morte, literalmente vivendo numa “casa sepultura”: sem futuro, sem sonhos...

Os discípulos têm a sensação de estarem sufocados, como numa prisão, na qual a inquietude, a insegurança, a confusão, o vazio, a ansiedade e a tristeza são inevitáveis. 

O evangelista Mateus descreve a transformação que acontece nas mulheres que foram ao sepulcro, de madrugada: sentem uma intensa alegria quando Jesus, cheio de vida, se faz presente diante delas. O Ressuscitado está de novo no centro de sua comunidade de seguidores; eles sentem Seu alento criador. Tudo começa de novo. Tal presença os liberta do medo e da dúvida, os faz escancarar as portas e dar início ao processo de evangelização. 

O Ressuscitado se aproxima como Presença viva que dá Vida: deixa-se ver, fala, interpela, corrige, anima, comunica paz e alegria. Em uma palavra, presenteia seu Espírito.

Outra vez Jesus re-cria a comunidade que, depois da Paixão, estava desintegrada; as mulheres e os discípulos experimentam novamente o chamado e o envio, para serem testemunhas e cúmplices do Espírito; vivem a certeza existencial de que o Crucificado é o Ressuscitado, que a morte foi vencida, que Deus é o Senhor da Vida. Impulsionados pela força do Espírito, seguirão colaborando, ao longo dos séculos, no mesmo projeto salvador que o Pai confiou a Jesus.

Para isso, descobrem que é preciso escancarar portas e janelas das casas para anunciar a grande novidade: há “sinais” de Ressurreição perpassando todas as experiências humanas.

A imagem pascal é a da “porta da liberdade”, que possibilita uma vida sempre expansiva.

A Vida verdadeira implica saída de nossos espaços, muitas vezes atrofiados e de curto horizonte: por isso, precisamos de portas e janelas, nossa casa interior precisa de saída. Não podemos, não devemos permanecer fechados, pois isso atrofia nossas possibilidades de vida, sobretudo se estamos reclusos no egocentrismo.

Equivocadamente distraídos por alguma complacência ou comodidade interna, nem sempre caímos na conta de que vivemos fechados; não percebemos o perigo letal da asfixia existencial; não sentimos as amarras da dependência ou os vícios que a vontade fragilizada já não consegue romper. 

Nesse sentido, podemos entender a imagem pascal da “porta” enquanto espaço aberto que permite a vida fluir. Porque vida é, antes de mais nada, espaçosa, amplitude ilimitada que tudo abarca e que se expressa em infinidade de formas, todas elas habitadas pela mesma e única Vida.

Precisamos nos libertar, nos desatar, sair; precisamos de uma porta! Precisamos sair de nossos túmulos!

Bendita porta de saída!

O próprio Jesus já tinha afirmado antes: “Eu sou a Porta”. E é verdade, porque Jesus, “ressuscitado dentre os mortos”, abriu um espaço no hermético ventre da morte. Com seu próprio corpo e sua vida, Jesus se transformou em Porta da Vidaverdadeira e com a força do seu Espírito Ele nos liberta, nos desata para sair dos espaços atrofiados e passar para a vida ampla do amor, para a vida com os outros.

Uma porta aberta.  Somos impactados pela luz que vem de fora e pelo ar vivificante. Nós ouvimos sua voz. Ele se dirige a cada um(a) e à sua voz nos colocamos em marcha. O oxigênio que aí respiramos é o Sopro do próprio Deus.

Jesus é uma Porta grande e aberta que favorece a circulação com toda a liberdade. Entrar por essa Porta é o mesmo que “aproximar-nos d’Ele”, “escutar sua voz”, “identificar-nos com Ele”. 

Em Jesus, todo(a) seguidor(a) pode alcançar a verdadeira liberdade; “poderá entrar e sair”, terá liberdade de movimento. 

As portas abertas, por sua vez, permitem ampliar nosso horizonte. Através delas purifica-se o ar denso e irrespirável do nosso interior, que geramos quando nos fechados em nós mesmos. Elas nos abrem à comunhão com a natureza, com os outros, com a realidade que nos cerca. Elas nos humanizam, pois servem para nos revelar aos outros quem somos, que eles fazem parte de nossa casa e que, abertas, indicam que eles podem entrar e sair livremente em nossas vidas. 

Como seguidores(as) de Jesus, habitando em casas construídas sobre a rocha do Evangelho, deveríamos nos preocupar mais com as portas e janelas e menos com os espelhos. Outros rostos precisamos descobrir: rostos feridos, excluídos, carentes de proximidade e abraço.

Muitas vezes, as portas nos protegem da diversidade, blindam nossa individualidade e parecem itens indispensáveis à sobrevivência. Assim, somos prisioneiros de nossa estreita visão de mundo e fazemos de nossa casa uma couraça que enclausura.  Melhor a viagem que nos faz vulneráveis do que a segurança que nos rouba o horizonte. Melhor enfrentar o impacto do diferente e usufruir da liberdade do que inventar portas seguras que nos fazem cativos e solitários dentro de nossas próprias casas. 

Quando estamos atravessando graves crises, como aquela vivida pelos discípulos, depois da paixão e morte de Jesus, é reconfortante entrar na profundidade de nosso ser e deixar ressoar estas palavras: “alegrai-vos!”

É a experiência do encontro com o Ressuscitado que nos pacifica, mesmo em situações de crises, fracassos, horizontes sem saída..., quando o medo e a angústia se manifestam com mais força.

A serenidade é uma vivência profunda, íntima, salutar... De repente, alcançamos uma paz inspiradora, uma paz que ninguém pode nos comunicar; uma alegria serena que pacifica nosso interior. 

Basta permanecer nessa paz, na nossa morada interior.

Através das mulheres, os discípulos receberam novamente a missão de Jesus. Elas se converteram em mensageiras da boa notícia; elas assumiram o protagonismo e relançaram o projeto do Reino a partir de sua grande intuição: na Galileia começou a história e ali deverá ser reiniciada. 

Seguir as pegadas do Galileu confirma que Ele vai adiante guiando os seus seguidores e seguidoras. Percorrer seus passos garante à sua comunidade a experiência de contar com Ele: “Ele irá à vossa frente, na Galileia; lá vós o vereis. É o que tenho a dizer-vos” (Mt 28,7).


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Textos bíblicos: Evangelho segundo Mateus 28,1-10

 

Na oração:

- Que abramos as portas e as janelas da nossa vida, para que todos possam ver o quanto de vida há dentro dela, para que vejam quem somos, como vivemos..., de maneira que possamos oferecer e compartilhar espaço de perdão, de acolhida sem preconceitos, de amor oblativo...; é preciso afastar a pedra do dogmatismo, do legalismo, do ritualismo... que nos mantém sufocados ou respirando o ar fétido dos túmulos. 

- Que sonhemos também com uma Igreja que rompa os túmulos do conservadorismo, do legalismo, da apatia, e se abra à desafiante situação de nosso mundo, “vivendo em saída” para “tocar” os chagados e lhes oferecer o dom da unção e do consolo.

 

Uma inspirada Páscoa a todos!

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Sábado Santo: um frio sepulcro nos interpela

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do Sábado Santo no Tríduo Pascal (2026).

 

“A partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa” (Jo 19,27)

 

O Sábado Santo é o dia do grande silêncio: “Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio porque o Rei dorme; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus adormeceu segundo a carne” (de uma antiga homilia de Sábado Santo). É o silêncio sepulcral. Jesus morreu e foi sepultado. Os seus amigos provaram o fel amargo da desilusão. Os evangelhos afirmam que todos os discípulos o traíram; deixaram tudo para o seguir, confiaram-lhe as suas vidas e, afinal, o messianismo de Jesus reduziu-se a um sepulcro frio, escuro e silencioso, como todos os túmulos da terra.

Em todo caminho espiritual é preciso passar pela “noite”, pela “ausência”, pelo “silêncio”, para amadurecer. É inevitável experimentar, durante algum tempo, alguma forma desconcertante de sentir a presença-ausência de Deus.

A terrível “noite escura” do Sábado Santo corresponde a um incontestável estágio espiritual, como dura, mas inevitável “passagem” (Páscoa) para a Luz do Domingo.

Só atravessando o silêncio, a “Noite Amarga” se transforma em “Noite Amável”.

Um silêncio entendido como outra forma de presença de Deus.

silêncio de Deus deve ser respeitado, pois a Deus lhe dói a morte de seus filhos e filhas; o Pai não estará fazendo lutopor seu Filho e por suas criaturas?

* Não será que o silêncio do Sábado Santo supõe o direito de Deus se calar?

* Quê Deus não tem direito de guardar silêncio?

* Quem somos nós para exigir de Deus que nos esteja falando continuamente?

Se não oramos a partir desse silêncio, é porque ainda não mergulhamos no mistério do Amor compassivo.

Muitas vezes negamos a Deus o que de mais humano há em nós: o poder fazer comunidade compassiva e solidária, compartilhando a dor e o luto.

O Pai está de luto; toda a natureza está de luto; em silêncio, ela acolhe a semente do Corpo do Verbo, na esperança de germinar Vida plena. A Terra, mais uma vez, oferece casa e abrigo ao Corpo do Crucificado. Aquele que morrera “fora dos muros da cidade” encontra moradia no seio da mãe-terra.

Sábado Santo, portanto, não é o mutismo de Deus, mas seu Silêncio, ou seja, a ação oculta de Deus estendida no tempo, quer na vida, quer na morte; Deus nos fala em sua mudez. 

silêncio do Senhor nos move a procurar, a escutar, a enxergar... O silêncio do sepulcro nos interpela.

Iluminados pelo dom da fé, sabemos que, depois do silêncio, renasce a Palavra. O que parecia o fim, na realidade aquele silêncio era o mesmo que precedeu a Palavra criadora: “Faça-se luz”. E do “caos da escuridão” surgiu a luminosidade do “cosmos”.

O silêncio de Deus é fecundo. É no tempo silencioso que a semente se torna fruto e o ser humano se torna pessoa. O silêncio permite transformar a morte em vida. Aquele túmulo, afinal, era uma fonte pujante de vida e de alegria. Aquele lugar, aparentemente escuro e vazio, veria uma luz que o mundo inteiro não pode conter. Por isso, para nós, as experiências do silêncio de Deus serão sempre um convite à fé e à esperança.

Não há razão para o medo, pois o silêncio esconde a vida e a consolação de Deus.

O enfoque dia sabático está no fato de que é preciso esperar no silêncio e na calma. Às vezes queremos passar da morte à vida sem espaços de esperas.

Sabemos que a vida da Igreja, como também a nossa vida pessoal, é feita de longos sábados santos, nos quais nem a dor da Paixão nem o consolo da festa Pascal marcam significativamente nossos dias e nossas noites, mas simplesmente a dura e paciente espera, na fé mais despojada, de um Senhor, que se faz esperar tanto que parece que já não vai chegar mais.

É o Sábado Santo de um credo pascal que sabe que amanhã florescerá a messe. Submergido no sepulcro do Senhor, espera-se simplesmente.

Ao sentir a própria incapacidade de levar adiante a exigência do Evangelho, cada um(a) se apresenta no sepulcro do Senhor de onde pode irromper a força transformadora da manhã da Ressurreição.

O Sábado Santo é um dia sem liturgia, em silêncio, não passa nada, não sucede nada, recorda a solidão do sepulcro, a tristeza das mulheres e dos discípulos, a desilusão diante do fracasso. 

“O Rei dorme”, comenta uma antiga homilia sobre o Sábado Santo. O povo canta o “Shabat mater”, acompanha a Virgem dolorosa, espera com ela, em silêncio, a aurora pascal.

Da escuridão da morte do Filho de Deus brota a Luz de uma esperança nova: a luz da Ressurreição reflete-se no rosto de Maria. Nossa amizade e devoção a Maria da esperança, a transparência feminina do Espírito, nos mantém no ritmo da espera.

Segundo S. Inácio, no percurso dos Exercícios Espirituais a Paixão termina na casa de Nossa Senhora (EE. 208). É em sua casa que se abrirá também a semana da Ressurreição.

Santo Inácio segue aqui uma tradição de sua época, onde se aceitava como fato revelado que a primeira aparição do Ressuscitado foi à Virgem Maria (EE. 299).

A Escritura não nos apresenta nenhum relato de aparição a Maria. Mas, segundo Inácio, mesmo que a Escritura não o diga, essa aparição é evidente. Talvez a mesma Escritura tenha dado por suposto, já que o caso de Maria é diferente: aqui Jesus não teve que educar a fé de sua mãe. Ele a encontrou em atitude de espera permanente. Sua fé tinha sido firme e por isso a tradição situa o início da vida da Igreja em torno a Maria, e Maria como aquela que congrega e apoia a fé conturbada dos discípulos. 

Porque ela soube estar com o Crucificado, pode ver o Ressuscitado.

Junto a Maria, é preciso considerar o Sábado Santo como um tempo de luto e pranto: depois da dor intensa da Sexta-feira Santa dá-se lugar a uma dor silenciosa, contida, como a terra que vai se empapando até suas entranhas com a água caída torrencialmente sobre a superfície.

O que aconteceu na superfície da terra na Sexta-feira Santa, acontece nas profundezas da morte no Sábado Santo, para que no Domingo da Ressurreição sejam resgatados ambos os acontecimentos.

É preciso saber acolher este silêncio surdo, que marca a passagem entre duas experiências intensas: a Sexta-feira de dor e o Domingo de Ressurreição.

No sepulcro, Jesus se faz solidário com toda a morte humana. E é preciso esperar com Ele. É preciso esperar em nossos projetos e sonhos, na libertação dos povos, em uma nova humanidade.

Em nossas vidas teremos muitas sextas-feiras santas de dor e dias de Páscoa, mas, teremos muito mais sábados de espera.

O ser humano que espera não tem certeza, não fica seguro, não está satisfeito. Mas a esperança tem fundamento; não é uma ilusão e nem uma utopia; não é um sonho impossível e nem uma lembrança irrecuperável; não é só futuro, mas permanece, disfarçadamente, presente; não é uma morada, mas um sentimento sempre inédito. A esperança evita tropeçar no fracasso, no desânimo, na apatia e no silencioso desespero. Ela se acende à noite, vence na impotência; começa na limitação; é ousada na fragilidade.

esperança é caminho e meta, posse e dom, destino e encontro, antecipação e cumprimento, expectativa e busca, risco e proteção, nó e liberdade.  A esperança é certa, mas não dá “garantias”.

Arrancados ao silêncio dos nossos túmulos, também nós podemos gritar como Maria Madalena no primeiro dia de Páscoa: “Vi o Senhor!” Este grito, que nos enche de esperança, rasgará todo o silêncio, e ecoará por toda a eternidade.

A força da esperança está oculta precisamente na sua impotência. A Cruz permanece em seu lugar, mas o sepulcro fica vazio para sempre! É Ressurreição: vida plena antecipada.


REFLEXÃO SÁBADO SANTO – SÁBADO DE ALELUIA VIGÍLIA PASCAL (in resurrectione  Domini) – CET

 

Texto bíblico: Evangelho segundo João 19,25-27

 

Oração: 

Contemplar Maria em sua “segunda Anunciação”; na “primeira Anunciação” deu-se o início da vida de Jesus. Agora, essa Vida se revela a ela como Vida definitiva.

Que Maria eduque nossa confiança; que ela nos encha de esperança!