sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Transfiguração: o que viram em Jesus é o que todos somos

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 2º Domingo do tempo da Quaresma (2026).

“E foi transfigurado diante deles” (Mt 17,2)

 

O relato da Transfiguração em Mateus começa por um dado significativo: “Seis dias depois...”

Inevitavelmente, o leitor se pergunta o que tinha ocorrido de tão importante seis dias antes e se encontra com o primeiro anúncio da paixão.

Mateus compõe seu evangelho tendo como horizonte a nova Criação. O relato da Transfiguração “acontece” seis dias depois. Estamos no sétimo dia. A criação não se conclui na “desfiguração” (morte), mas na Transfiguração (ressurreição).

O sexto dia precede o sábado no calendário judaico. É a véspera do Shabbath no qual se celebra o final da Criação, o descanso de Deus por ter completado sua obra. É o dia da comunhão universal, dia da integração festiva de todas as criaturas, dia do repouso como prolongamento do repouso do Criador.

Mas o “sexto dia” é o que nos ocupa hoje, e nesse dia, que precede o Shabbath, acontece algo no monte.

Neste sexto dia de nossa vida, quando reconhecemos que há algo inacabado em nós e ao nosso redor, na maneira de viver e conviver, somos convidados a “subir” o monte, em companhia de outros.

Subir e tomar distância da agitação diária; subir para ter outra perspectiva da vida, acolher a experiência que nos é oferecida.

Montanha nos faz perceber (a partir do alto) certos aspectos do vale que passam desapercebidos.

Permanecer no vale, sem ter momentos de Montanha, é fechar-nos, cair na rotina, não perceber novos horizontes, não alargar a cabeça e o coração, não ampliar a visão das coisas, da realidade, da história...

Nosso compromisso no vale deve ser fruto do discernimento acolhido na Montanha; esta, nos devolve ao vale com outra visão, outro dinamismo; a Montanha ilumina, dá sentido e sabor à nossa vida no vale.

vale é o lugar do compromisso, do trabalho, da construção..., mas iluminado pela experiência da Montanha. Todo gesto no vale tem plenitude, tem ressonâncias... a partir da Montanha.

Montanha também nos revela que Deus continua “trabalhando” no vale da vida e nos impulsionando a “trabalhar” com Ele na mesma direção.

Como seguidores(as) de Jesus, devemos saber criar, em nossas vidas, espaço e momentos de Montanha (plenitude, silêncio, interioridade, escuta, discernimento); isso possibilita uma prática eficaz, um compromisso duradouro, uma decisão enraizada, uma presença transformadora nos “vale da vida”.

Subir à Montanha nos possibilita ler os horizontes e perceber se estamos caminhando na direção certa; isso implica tomar distância do ritmo diário, descobrir novos caminhos e novas decisões...

É na montanha que temos mais sensibilidade para escutar a voz do Senhor: “este(a) é o(a) meu(minha) filho(a) amado(a). A experiência do amor incondicional de Deus derruba grossos muros, arranca nossas máscaras, revela-nos quanto valemos aos Seus olhos e dá-nos uma nova liberdade para sermos nós mesmos.

Na Montanha somos olhados por Ele em profundidade e esse olhar revela nossa verdade mais original, nossa identidade mais profunda.

Trata-se de um olhar de aceitação, de amor, que nos faz descobrir o quanto valemos, que nos chama à vida, que nos livra do mundo de sombras, medos e inseguranças, que nos faz descobrir o gosto de viver sem máscaras, como alguém respirando ar puro.

Rostos resplandecentes, luz, vestes luminosas: a partir da Luz, a partir de Deus, todas as realidades humanas são vistas de maneira diferente, contemplativa. 

Cedo ou tarde, todos corremos o risco de nos instalarmos na vida, buscando o refúgio cômodo que nos permita viver tranquilos, sem sobressaltos ou preocupações, renunciando a qualquer outra aspiração.

A humanidade de Jesus deixa transparecer a proximidade de Deus. O Pai se revela presente na humanidade de Jesus. Por isso, seu rosto era luminoso como o sol. “Eu sou a luz”

Jesus era totalmente luz porque Deus o inundava; esse é o ponto de partida para Ele e para nós. Não devemos esperar nenhuma transfiguração, mas descobrir nosso ser não desfigurado. Já somos “transfigurados”, e não sabíamos. Não temos de caminhar para uma meta fantástica que nos prometem, mas descobrir já, em cada um de nós, o mais sublime dom, o próprio Deus. Somos transfigurados porque somos habitados por uma Presença, sempre providente e cuidadosa.

Sabemos, por experiência, que há um modo de “instalar-nos” que pode ser falsamente reforçado com “tons cristãos”. É a eterna tentação de Pedro que nos espreita sempre: “construir tendas no alto da montanha”. Ou seja, buscar na religião um bem-estar interior, fechando-nos em práticas “piegas”, ritos estéreis, devoções vazias..., fugindo da responsabilidade de construir uma convivência mais humana, um compromisso solidário e uma atuação em favor da transformação da realidade, tão injusta e tão desumana. É preciso também “transfigurar” nossa vivência religiosa e “descer” da montanha para prolongar o modo de ser e viver de Jesus junto aos marginalizados e excluídos.

A mensagem de Jesus é clara. Uma experiência religiosa não é verdadeiramente cristã se nos isola dos irmãos, se nos instala comodamente na vida e nos afasta do serviço aos mais necessitados.

Essa transfiguração interna se revela também na transfiguração das nossas atividades cotidianas mais comuns e nos encontros com os outros.

Como seres humanos, fazemos muitas coisas que os animais fazem, mas fazemo-las de maneira diferente e com sentidos mais profundas: comemos, mas nossa refeição torna-se encontro, festa, celebração; transfiguramos o alimento. Trabalhamos, mas como uma intenção nobre, com uma inspiração que transcende o próprio trabalho. Convivemos, mas, vamos além da proteção grupal: transfiguramos as relações, os encontros, os diferentes laços humanos. Nossa sexualidade não é mera genitalidade, mas afeto e amor; transfiguramos a dimensão afetiva humana. Viver humanamente é transfigurar a existência.

A transfiguração é uma vivência luminosa, um ver a vida a partir da perspectiva de Deus. Na vida temos de ter um pouco mais de lucidez e de sensatez para olhar em profundidade, para transfigurar as realidades cotidianas: uma experiência de elevação, de sentimentos “oceânicos”, de uma consolação intensa... 

Talvez isso já tenha ocorrido alguma vez quando escutamos uma música, vimos a bondade de uma pessoa, a fidelidade silenciosa no trabalho, a leitura de um salmo ou uma poesia, a contemplação da natureza, etc... Tantas vezes vemos as mesmas realidades cotidianas e, num belo dia, de maneira surpreendente, tais realidade provocam um impacto profundo em nós e, assim, caímos na conta de aspectos e valores aos quais não éramos conscientes. Muitas vezes, quando nos encontramos com determinadas pessoas, “não vemos nada”, não transluzem nada; outras vezes, encontramos uma pessoa simples, humilde, que transmite luz, bondade, proximidade... São vivências transfiguradas.


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Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 17,1-9

 

Na oração:

A voz do céu, a voz que ressoa no interior de cada um é de amor: “este(a) é meu(minha) filho(a) amado(a)”. Deus se compraz em seu Filho e em nós, que também somos seus filhos(as). O melhor que pode nos acontecer é que nos sintamos queridos(as), amados(as) e acolhidos(as) por Deus.

- A oração faz emergir à consciência uma nova imagem de nós mesmos e indica com o dedo uma área da nossa personalidade que necessita ser transfigurada com criatividade; ela promove um desenvolvimento criativo, eliminando a distância entre a imagem real e as falsas imagens que habitam o nosso interior.

- Através do encontro com o Senhor, no silêncio da montanha, a oração revela quem somos realmente, e amplia nossa vida para além de nossas pequenas fronteiras. Com efeito, orar é aproximar-nos da “verdade que nos faz livres”; livres para sermos “nós mesmos”, chegar a ser aquilo para o qual somos chamados a ser.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Deserto, chave para abrir a porta da casa de nosso “eu verdadeiro”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 1º Domingo do tempo da Quaresma (2026).

“O Espírito conduziu Jesus ao deserto...” (Mt 4,1)

 

O primeiro domingo da Quaresma nos desloca até o “deserto das tentações”; ali Jesus se deparou com as grandes “forças que desumanizam”: “pão do ego”, “poder auto-centrado”, “vaidade estéril”.

Jesus foi conduzido ao deserto imediatamente depois do seu batismo, com a palavra do Pai ressoando em seu coração: “Tu és meu filho amado...”; mas agora, no deserto, vai escutar outras palavras que “tentam” convencê-lo para que não ponha o centro de sua vida nesse amor, mas no poder, na vida fácil, na fama, nas posses... O relato das tentações resume simbolicamente outros momentos da vida de Jesus nos quais esteve submetido à alternativa entre “a maneira de pensar de Deus” ou “a maneira humana”. 

Conduzido pela força do Espírito, Ele viveu uma integração a partir de seu coração e não se deixou levar pelas aparências enganosas.

Sua vocação à messianidade ficou clara no batismo; daí em diante, buscou os melhores meios para viver sua missão. No seu discernimento, Jesus sentiu que o poder, a riqueza, o prestígio, não eram “meios” para realizar a Vontade do Pai; pelo contrário, inspirado pelo Espírito, elegeu o caminho do esvaziamento de si, da pobreza e do compromisso solidário com os mais pobres e excluídos. Sua missão como Messias devia começar nas periferias, junto aos abandonados pelo poder religioso e civil da época.

deserto, na tradição bíblica, é um lugar ambivalente: por um lado, é o cenário das maiores dificuldades, onde o ser humano, sem seguranças às quais apegar, se sente submetido às provas mais duras; por outro, no entanto, aparece como o espaço no qual se goza de uma especial intimidade com Deus: “Levá-la-ei ao deserto e lhe falarei ao coração”, diz Oséias (2,14). 

Sem dúvida, não é casual que ambos significados apareçam unidos. 

Mas existe outro “deserto” não buscado e, por isso, com frequência, mais desconcertante e mais difícil de assimilar. Entram aí todas aquelas situações e circunstâncias que a vida nos apresenta, geralmente em forma de crise ou fracasso, nas quais somos convidados a viver um despojamento, um esvaziamento daquilo com o qual tínhamos nos identificado. Trata-se de uma experiência de “deserto” porque também acontece uma quebra das falsas seguranças, nas quais fundamentávamos a vida e, assim, nos encontramos diante daquilo que que se revela como o mais vulnerável e obscuro de nossa existência.

Trata-se de um momento tão difícil como privilegiado. Difícil, inclusive doloroso, porque nos sentimos sacudidos. Este deserto inesperado se caracteriza pela aridez, pela secura, pelo sem-sentido e pela desesperança. A obscuridade parece invadir o espaço que antes nos parecia luminoso e o desconcerto ameaça introduzir-nos numa espiral de vazio.

E, no entanto, é então quando acontece o milagre. Leonard Cohen afirma: “Há uma greta, uma greta em tudo. Por aí é onde entra a luz”. Deus tem mais facilidade de entrar em nossa vida pelas fendas dos fracassos, das feridas, das crises... Esvaziados de nosso ego inflado e inflamados pela força divina, começamos a re-escrever nossa história a partir de novas bases, mais humanas, mais inspiradoras... Este é o processo de conversão a que somos chamados a viver: sair dos “lugares estritos” e entrarmos no movimento de plenitude e sentido.

No relato das tentações de Jesus destacam-se os impulsos mais fortes do ego. É facilmente compreensível: nossa primeira e permanente tentação é a de nos identificar com o ego e viver para ele.

É um engano que conduz à confusão e ao sofrimento, porque implicae esquecer-nos de nossa verdadeira identidade e reduzir-nos a “algo” que nos escraviza. O ego, alimenta necessidades e medos, obscurece nossa visão e nos faz ver a realidade a partir de uma reduzida lente contaminada. Prisioneiro de uma insatisfação constante, o ego dedica toda sua vida a acumular, a ser o centro das atenções, a alimentar vaidade e buscar prestígio: esse é o único modo de sentir-se vivo.

tempo quaresmal nos sacode e nos desnuda, porque desmascara nossas falsas seguranças, centradas na riqueza, no poder, na vaidade.  Inspirados pelo “discernimento” de Jesus no deserto, somos também movidos a buscar nossas raízes mais profundas. Quando esse percurso é vivido de maneira intensa, o Espírito nos conduzirá ao fundo estável e sereno, nos conduzirá à “casa”, à nossa verdadeira identidade, à 

“Terra prometida”, onde há fartura de nutrientes. É preciso retornar à nossa “casa interior” para esvaziá-la de todo desejo de poder, de vaidade, de prestígio e de ridículos ídolos; somente Deus é Senhor de nossa vida.

O tempo quaresmal põe às claras aquelas atitudes que afogam a possibilidade de viver o seguimento de Jesus com mais inspiração; tal vivência desmascara um modo de viver acomodado aos critérios do mundo que

petrifica nosso coração: deixar-nos prender pelas garras do consumismo, concretizado nos “afetos desordenados” ou apegos aos bens, poder, auto-imagem, lugares, pessoas, títulos..., que esvaziam a vida e nos deslocam do essencial.

Diante das carências existenciais, surge a tentação de buscar compensações, que exigem investimento afetivo, nos tiram do foco e nos fazem cair em estado de letargia e acomodação. Todas essas compensações têm algo em comum: elas nos fazem adormecer e, desse modo, abortam a novidade que poderia brotar em nós e atrofiam a esperança, pois nos prende ao mais imediato (fixação afetiva).

É preciso ter os olhos abertos para além das preocupações cotidianas e poder entrar em sintonia com a presença d’Aquele que vem sempre ao nosso encontro. O maior inimigo de nossa existência é a dispersão, ou seja, investir afetivamente nas coisas cotidianas mais imediatas e esvaziar o horizonte de sentido de nossa vida. Para investir afetivamente no seguimento de Jesus, é preciso alargar espaço em nossas moradas internas, re-ordenar os afetos, expandir o coração.

Assim, a contemplação de Jesus no deserto nos move à liberdade e se manifesta como um chamado a uma vida mais simples, partilhada, apaixonada, natural, livre, transcendente, intensa, comprometida...

Como seguidores(as) de Jesus, todos nós também temos a experiência do que significa a tentação do poder. Em um mundo onde as relações se estabelecem através da força, da dominação, de uma maneira de exercer o poder, onde o forte se impõe sobre o fraco, o rico sobre o pobre, o que possui informação sobre o ignorante..., o fruto do discernimento de Jesus nos introduz na nova ordem de relações que devem caracterizar o Reino: nele a vinculação fundamental é a da irmandade no serviço mútuo.

A partir do deserto, a prática de Jesus vai desestabilizar todos os padrões e modelos mundanos de poder, desqualificando qualquer manifestação de domínio de uns sobre os outros: inaugura-se um estilo novo no qual o “desenho circular” desloca e dá por superado o “modelo hierárquico”. Sua maneira de se relacionar com as pessoas marginalizadas e excluídas vai pôr em marcha um movimento de inclusão onde, uma casa acolhedora e uma mesa partilhada com os menos favorecidos, invalidam qualquer pretensão de poder, de prestígio, de situar-se acima dos outros, devolvendo a todos a dignidade perdida.

À luz do tema da Campanha da Fraternidade (Fraternidade e moradia), podemos dizer que, no Projeto-Reino de Jesus, a casa-lar ocupa o centro, pois ela convida, convoca e abre espaço na vida de seus moradores, possibilitando a sociabilidade, a partilha, a vivência de valores inter-pessoais, de humanização.

Nela e com ela aprendemos a acolher o outro como dom; aprendemos a nos doar, a partilhar, a receber, a escutar e a falar, a contemplar o outro em sua singularidade. 

casa é também o lugar onde acolhemos as alegrias e as tristezas do outro, os êxitos e os fracassos... Ela é o lugar do suporte das relações, espaço que garante o sustento que alimenta o corpo, o emocional, o psíquico, o espiritual e o social. Esse lugar humano é revelador de cultura, de aprendizado e base para a vivência dos valores individuais e coletivos. Lugar fecundo, onde o imprevisível pode acontecer.

O deserto e a terra árida vão alegrar-se, a estepe exultará e dará flores»  (Is 35,1)

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 4,1-11

 

Na oração: 

No silêncio de seu deserto, entre em diálogo profundo com Aquele que faz morada em seu interior.

- Você é convidado(a) a adentrar-se no território sagrado, chamado “deserto do encontro”. Tão rico é esse lugar que sua espiritualidade, vista como manancial da vida, não exclui nenhum momento: situações tristes, felizes, momentos de sofrimento, de luta, de vitória...

- Nesse espaço, onde o Eterno quer habitar, é que você encontrará o bálsamo e o alívio para sua existência psíquica e espiritual. Nessa fonte sagrada, o sofrimento pode ser compartilhado, a tristeza transformada em alegria, as trevas em luz, o desejo em realidade, a esperança pode ser reacendida...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Quaresma: retornar à própria casa

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho da Quarta-feira de Cinzas (2026), que inicia o Tempo Litúrgico da Quaresma. Desejamos uma profunda "travessia quaresmal" a todos.

“Tu, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai que está no escondido” (Mt 6,6

 

A Quaresma chega de novo, sempre nos chamando a acolher a Boa Notícia a partir de dentro, a partir da conversão do coração. Embora “sejamos pó e ao pó retornaremos”, o que é mais autêntico em nós se revela no serviço e no amor, como Aquele que afirmou ser o caminho, a vida e a verdade.

Estamos iniciando mais um percurso quaresmal, centrados na pessoa de Jesus Cristo, crescendo na identificação com Ele e dando uma feição nova ao seguimento. 

Sabemos que a Quaresma é um caminho de discernimento e mudança. Os meios que ela oferece para esta transformação espiritual são as chamadas “práticas quaresmais”: jejum, oração e esmola. O jejum nos ajuda a recuperar a liberdade frente às desordens de todo tipo, adotando um estilo de vida mais simples; a oração faz com que todo o nosso ser se volte para Deus e nos deixemos conduzir por Ele; a esmola nos arranca de nossa comodidade e ativa em nós as atitudes de compaixão, solidariedade e cuidado, fazendo-nos passar da indiferença à responsabilidade diante dos outros, sobretudo dos mais pobres e excluídos.

“Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas” (Mário Quintana). Para podermos viver o tempo quaresmal com mais intensidade e inspiração, vamos entrar em sintonia com a Igreja no Brasil que nos propõe a Campanha da Fraternidade como mediação para despertar nossa sensibilidade diante de situações desumanizantes em nossa realidade. Com o tema: “fraternidade e moradia”, e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), a CF quer trazer à tona o drama da falta de moradia que afeta grande parcela de nosso povo.

O que é “estar em casa” para nós hoje, num mundo estranho e em constante mudança? O que significa “casa” para nós atualmente? Que tipo de sentimento está conectado a ela? Onde nos “sentimos em casa”?

O drama da falta de moradia para todos é sintoma do caos presente no interior de cada um. O problema da moradia não é só uma realidade externa; existe uma crise de moradia muito mais grave que a falta de casas: é a escassez de pessoas interiormente acolhedoras e disponíveis para seus irmãos.

Uma das metáforas bíblicas mais adequadas para entender nosso momento atual é aquela que fala do “regresso à casa”.Embora existam demasiados ruídos, fugas, competições, vivências superficiais nesta sociedade incerta e estressada e que parecem afogar a pessoa, não é difícil perceber um anseio interno que se expande e que pode ser resumida nesta expressão: “desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa!”

Com frequência, as pessoas se acomodam em sobreviver, não investem seus recursos internos numa causa mobilizadora e acabam atrofiando o sentido de suas vidas. E, no entanto, se elas prestarem um mínimo de atenção à voz interior, sentirão o brotar do desejo de uma vida mais plena, ativarão a escuta do Mestre interior que, com frequência, sussurra: “retorna à tua casa!”

O ser humano aspira viver em sua casa interior e, por mais distante que esteja da mesma, o sentimento mais forte é o da saudade.  Na vida de cada pessoa acontece uma transformação radical quando ela é capaz de experimentar, em si mesma, esse “lugar” interior, referido com a imagem da “casa”. Um lugar de silêncio, em meio a qualquer agitação das ondas; de calma, em meio a qualquer tempestade; de luz, em meio a qualquer obscuridade; de alegria serena em meio a qualquer mal-estar ou angústia... 

Esse é o lugar onde a pessoa se reconhece a si mesma: ali ela sente o seu ser, para além daquilo que ela faz. E só ali é possível o “descanso”, no sentido mais profundo dessa palavra. E é justamente desse lugar onde brota o convite que se repete: “retorna à tua interioridade!”

“O ser humano só está em casa no mistério de Deus” (Clemenz Schmeing). Só quando ele experimenta o “mistério de Deus” que está presente nele é que poderá verdadeiramente se “sentir em casa”. Ele só pode permanecer nele mesmo porque se sente habitado pelo próprio Deus que o sustenta e lhe fala ao coração. 

Trata-se da “tenda interior” na qual o próprio Deus faz sua morada nele; ali, é plenamente ele mesmo, verdadeiramente em casa. Ele precisa apenas olhar para dentro e transitar pelos espaços interiores. Descobrirá, então, que o céu está nele e ali, no céu interior, está a verdadeira “terra prometida” que ninguém pode roubar ou destruir.

No contexto social pós-moderno as pessoas relatam que perderam não somente seu lar exterior, mas também o interior. Elas se percebem sem o sentimento de acolhida e proteção; elas já não sabem mais quem são; perderam seu vínculo de pertença, além de não mais saberem o que as sustenta; não sabem mais onde poderão encontrar segurança e acolhimento.

Diante da “cultura líquida” e “deslocada” na qual vivemos, é urgente gerar espaços e tempos que facilitem reabrir as vias da interioridade, possibilitar o retorno à “morada interior”, onde é gestada a própria identidade e as opções mais sólidas. Espaço e tempo no qual podemos entrar em contato com algo que a plenifica e a expande. 

Nesse sentido, a vivência da Quaresma revela-se como uma excelente oportunidade para “voltar à casa interior”. Pacificados em nossa “casa interior”, brotará em nós uma sensibilidade solidária para lutar em favor de uma moradia digna para todos.

Neste mundo disperso e distraído, a vivência quaresmal pode dar referências e amparo; no percurso que fará, cada um vivenciará sua casa interior; entrará em contato com algo nobre no coração que pode estar encoberto por feridas, traumas, fracassos, sentimentos negativos...; ativará o anseio pelas raízes, a partir das quais poderá viver com mais inspiração e criatividade.

Quem habita em si mesmo, quem está desperto para aquilo que é mais nobre e que cuida dos seus movimentos interiores (inspirações, intuições, desejos...), construirá uma casa que será convidativa para que outros se aproximem, se sintam acolhidos, protegidos, amados... 

No evangelho indicado para esta Quarta-feira de Cinzas, Jesus nos convida a retirar-nos para o nosso “quarto”; é aí o nosso deserto: trata-se de um lugar íntimo, sagrado, onde nenhum estranho tem acesso, todo impregnado de solitude e silêncio. É o lugar sagrado da nossa casa. Esse “quarto interior” é habitado por uma Presença providente e compassiva; só quem tem acesso ao seu “eu” mais profundo descobrirá que ele é “morada” do Senhor e que quer estabelecer um diálogo amoroso com ele.

Em grego, o termo “quarto” (“tameión”) significa também celeiro, local onde se guardam as provisões.

Por isso “quarto” quer dizer também lugar onde estão guardados os alimentos, o sustento de cada dia, as energias, a criatividade, os sonhos, as intuições... É o lugar dos nutrientes indispensáveis para a vida.

Jesus insiste no caráter secreto desse lugar, de onde podemos escapar dos olhares alheios. É decisivo que a nossa única preocupação seja a de nos colocar apenas diante o olhar de Deus; o que conta é rezar com o coração: trata-se de reservar aí um espaço destinado exclusivamente a Deus.

Quando fazemos a experiência desse retorno à nossa “morada interna”, descobrimos que esse é o tesouro escondido, tão próximo, tão íntimo, capaz de transformar a nossa vida, nosso modo de proceder, de nos relacionar e de nos comprometer.


Paróquias da região divulgam horários das celebrações da Quarta-feira de  Cinzas


Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 6,1-6.16-18

 

Na oração:

- Quê mediações você vai ativar durante a Quaresma para ajudar a esvaziar sua “casa interior” e abrir espaço para a atuação livre de Deus?

- Como você se sente em sua casa interior? Precisa abri-la, arejá-la, modificá-la, iluminá-la... É espaço de acolhida, de gratuidade, de serviço...? Ou há falsos senhores que a habitam, travando o fluir de sua vida?

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Quem tem a lei na mão, carrega pedras no coração!

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho do 6º Domingo do Tempo Comum - Ano A.

“Ouvistes o que foi dito; eu, porém, vos digo”

 

Continuamos tendo acesso a trechos do Sermão da Montanha. O texto deste domingo apresenta um tema complicado. Como harmonizar a pregação e a prática de Jesus com a Lei, que para os judeus era sagrada e definitiva? Ir mais além daquilo que está estabelecido pela lei é o problema radical que afeta todas as dimensões da vida; acaba-se dando valor absoluto ao que já está prescrito e não se abre à novidade do Espírito. É preciso ir sempre mais além daquilo que está delimitado pela lei.

Em meio às tensões que a comunidade de Mateus vivia, na qual se encontravam discípulos procedentes do judaísmo que exigiam o cumprimento da lei judaica e aqueles que provinham do paganismo que pediam a “ruptura” legalista vivida por Jesus, o evangelista busca um equilíbrio, nem sempre fácil. Assim é que podemos entender a afirmação favorável aos judeus-cristãos segundo a qual Jesus não veio abolir a lei, mas dar-lhe pleno cumprimento”.

Certamente foi muito difícil para um judeu aceitar que a Lei não era absoluta. Jesus foi contundente nisto. Abriu uma nova maneira de nos relacionar com Deus. O Deus todo-poderoso, que está nos céus, que ordena e manda, dá passagem do Deus “Ágape” que se identifica com cada um de nós e nos convida a descobri-Lo nos outros. A atitude de Jesus serve de inspiração para os discípulos do Reino, que têm a obrigação de respeitar a Lei e os Profetas, porém procurando atingir-lhe o espírito, sem apegar-se exageradamente à sua letra. Essa postura lhes proporciona uma atitude criativa diante da Lei, sem o risco de descambar para o fanatismo, a intransigência, a rigidez...

Jesus não foi contra a Lei, porém viveu para além da Lei. Quis nos dizer que toda lei é sempre curta, que sempre temos que ir mais além da pura formulação, até descobrir o espírito. A vontade de Deus está mais além de qualquer formulação, por isso temos que superá-las todas.

Jesus passou de um cumprimento externo das leis a uma descoberta das exigências de seu próprio ser. Esta é a reviravolta que Ele provocou e que ainda estamos longe de viver a partir do espírito das leis. Continuamos dependentes daquilo que está mandado exteriormente e não descobrimos o que somos.

Se fôssemos capazes de descer até o mais profundo do nosso ser e compreendê-lo no essencial, descobriríamos ali a vontade de Deus; ali, sem dizer palavras, Ele está nos dizendo o que deseja e espera de nós, o que é bom e o que é mau para todos nós. A vontade de Deus não é algo acrescentado ao nosso próprio ser, não nos vem de fora. Está sempre aí, mas não somos capazes de percebê-la. Esta é a razão pela qual tantos homens e mulheres foram capazes de descer até a “marca” de seu ser e descobrir o que Deus espera de todo ser humano; é preciso lançar mão daquilo que muitos já nos disseram e descobrir o que Deus é e o que somos cada um de nós. Aquilo que os outros descobriram e nos contaram pode nos ajudar a descobri-lo em nós.

Para além dessas amostras de “instável equilíbrio” com o qual Mateus tenta manter a paz em sua própria comunidade, o relato deste domingo deve ser considerado a partir do horizonte das bem-aventuranças; sem esse contexto, podemos ter a impressão de que Jesus foi um legalista, preocupado com a menor das leis. Assim, as bem-aventuranças iluminam e dão sentido às leis; na vivência das bem-aventuranças não se pode descuidar da menor lei. As bem-aventuranças não são leis que se impõem de fora, mas emanam de dentro, pois já estão presentes no coração de todas as pessoas. Quem vive o espírito das bem-aventuranças torna-se sensível à menor lei.

Quem se deixa determinar pela lei sempre busca uma maneira de burlá-la; quem se deixa conduzir pelas bem-aventuranças se sensibiliza diante da menor falta.

As leis, sem o espírito das bem-aventuranças, não abrem à vida, mas fecham a pessoa no legalismo.

Os fariseus e escribas se preocupavam em observar rigorosamente as leis, mas descuidavam do amor e da justiça. Jesus se esforçou por incutir nos corações dos seus seguidores outro talante e outro espírito: “se vossa justiça não for maior que a justiça dos escribas e fariseus, vós não entrareis no reino de Deus”Eles cumpriam a lei escrupulosamente, mas só externamente, e isso não os fazia melhores, mas mesquinhos.

Os “fariseus” e os “escribas” eram os típicos representantes de uma espiritualidade legalista, distante da realidade humana. Eles não percebiam que, observando detalhadamente todas as leis, não estavam pensando em Deus, mas, sim, neles mesmos. No fundo, não tinham necessidade de Deus. Acreditavam que, cumprindo perfeitamente todos os mandamentos por suas próprias forças, tinham o direito de exigir de Deus uma recompensa. Estavam menos interessados no encontro com Deus do que no cumprimento minucioso da lei. O que mais lhes interessava era o cumprimento das normas e ideais que se impunham a si mesmos.

De tanto se fixarem sobre as leis, esqueciam o que Deus realmente deseja do ser humano, tornavam-se frios, insensíveis... e assumiam o papel de juiz para julgar o comportamento dos outros.

Escribas e fariseus de ontem e de hoje! É o que mais encontramos em nossas comunidades: pessoas e ministros com a “lei” na mão e pedras no coração.

Sabemos que Deus comunica sua Vontade na intimidade do nosso coração. Em cada um de nós está a “marca” da presença de Deus. Essa presença é sua “vontade”, porque a única coisa que Ele quer de cada um de nós é que sejamos nós mesmos, ou seja, que cheguemos ao máximo de nossas possibilidades.

Quando buscamos a Vontade do Pai com a mesma paixão com que Jesus a buscava, vamos sempre mais além do que dizem as leis. Para caminhar na direção de um mundo mais humano que Deus quer para todos, o importante não é contar com pessoas observantes de leis, mas com homens e mulheres que se pareçam com Ele, movidos pela compaixão, pela bondade, pela fome e sede de justiça...

Aquele que não mata, cumpre a Lei, mas se não arranca de seu coração a agressividade para com seu irmão, não se parece com Deus. Aquele que não comete adultério, cumpre a Lei, mas se deseja egoisticamente a esposa de seu irmão, não se assemelha a Deus. Nestas pessoas reina a Lei, mas não Deus; são observantes, mas não sabem amar; vivem corretamente, mas não construirão um mundo mais humano.

Temos de escutar bem as palavras de Jesus: “Não vim abolir a Lei e os Profetas, mas dar-lhe pleno comprimento”. Não veio a lançar por terra o patrimônio legal e religioso do Primeiro Testamento. Veio para “dar plenitude”, alargar o horizonte do comportamento humano, libertar a vida dos perigos do legalismo.

Nosso cristianismo será mais humano e evangélico quando aprendermos a viver as leis, normas, preceitos e tradições como Jesus os vivia: buscando esse mundo mais justo e fraterno que o Pai tanto deseja.

Cumprir só a Lei evita o castigo. Isso não é boa-notícia.

amor nos faz humanos e essa é sua verdadeira recompensa. O amor não é um meio para alcançar um prêmio. É o caminho e a meta de todos os caminhos.

As leis, normas religiosas são “andadores” que impedem uma queda; podemos precisar deles por um bom tempo. Mas o dia que aprendemos a andar, eles serão um grande estorvo. E se um dia pretendemos correr, será impossível. Quando chegarmos a um conhecimento profundo de nosso próprio ser não precisaremos de apoios externos para caminhar para a verdadeira meta. “Ama e faze o que quiseres” (Santo Agostinho) ou “Quem ama cumpriu toda a Lei” (São Paulo).


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Textos bíblico: Evangelho segundo Mateus 5,17-37

 

Na oração:

O rigorismo e a rigidez, em suas diferentes manifestações, nos perpassam por dentro e se infiltram em nossas atividades e relações. Caímos no legalismo e no moralismo que nos petrificam e nos fazem insensíveis diante das fragilidades dos outros. 

- Como passar do coração de pedra para a morada da fonte de água viva?

- Como reencontrar, no seu cotidiano, a fluidez que o habita e que o faz receptivo e flexível como uma “esponja”, onde a água do Espírito de vida entra “doce, leve e suavemente” (EE. 235)?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Sal e luz: sabor e cor à vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho do 5º Domingo do Tempo Comum - Ano A.

“Vós sois o sal da terra; vós sois a luz do mundo”

 

Estamos no início do Sermão da Montanha, onde Jesus nos ensina e nos proporciona belas imagens, parábolas e histórias; elas só permanecem no coração e na mente quando são consideradas através da imaginação e não meramente explicadas como uma lição.

A proclamação das Bem-aventuranças desemboca nesta constatação: quando as vivemos, nós nos tornamos, naturalmente, “sal da terra e luz do mundo”. Trata-se de duas imagens profundamente eloquentes, que tem a ver com dois de nossos sentidos e que apontam para algo que todos aspiramos: o sabor e a luz.

As imagens não precisam de explicação nem de comentário. Explicam-se por si mesmas. Exigem, isso sim, uma resposta vital do leitor ou ouvinte. Quando nos deixamos interpelar por elas, descobriremos uma nova dimensão da existência à qual somos convidados. Podemos aceitar o desafio ou rejeitá-lo. As imagens nos colocam frente uma alternativa: ou continuar como estávamos em nosso modo de ser e viver, ou aceitar a nova maneira de assumir a vida que elas nos sugerem.

Embora o sal e a luz não tenham nada em comum, há um aspecto no qual coincidem. Nenhuma das duas é proveitosa em si mesma. O sal sozinho não serve para a saúde, só é útil quando acompanha os alimentos. A luz não é para ser vista; ela possibilita ter uma visão clara das coisas.

sal e a luz têm duas formas diferentes de realizar sua ação: o sal remete a uma ação invisível; no entanto, próprio da luz é brilhar. De acordo com o texto, as formas de presença, significadas pela luz e pelo sal, não se eliminam; as duas são inseparáveis. Sal e luz são elementos expansivos; a importância não está neles mesmos, mas na relação com a realidade onde se fazem presentes: o sal realça o sabor dos alimentos; a luz revela a realidade escondida na escuridão.

O sal atua no anonimato. Se um alimento tem a quantidade precisa, passa desapercebido, ninguém se lembra do sal. Quando a um alimento lhe falta sal ou tem demasiado, então nos lembramos dele. Não se pode comê-lo diretamente. Se não há comida, o sal é simplesmente veneno. O que importa não é o sal, mas a comida temperada com sal. Quando a comida tem excesso de sal se faz intragável. A dose tem que estar bem calculada.

O significado é tão simples como profundo: o sal serve para que os alimentos realçam seu sabor; a luz serve para que se possa ver o que já existe. Ambos têm uma só função: servir para que outras coisas sejam válidas, para que sejam o que são. Ser sal e luz é ressaltar e potenciar tudo o que é positivo na vida humana.

“Vós sois a luz do mundo”: não é uma expressão de futuro, mas de uma realidade que já é presente.

Um pouco antes, Mateus nos havia dito que Jesus era “a luz que brilhou na Galileia” (4,16). Agora, Jesus afirma que é luz todo aquele que encarna o espírito das bem-aventuranças. Ou seja, somos luz, como Jesus, na medida em que, esvaziando-nos de nosso eu, permitimos simplesmente que a luz “passe” através de nós sem encontrar obstáculo. 

O texto do evangelho de hoje constitui uma clara afirmação de que a missão dos discípulos no mundo faz parte de sua própria identidade. Neles aparecem os traços fundamentais que caracterizam esta missão. “Vós sois” diz Jesus e não “vós deveis ser”, ou “tendes que se transformar em...”

Os discípulos “são”, querendo ou não, pela força do chamado que lhes foi dirigido. “Sois”: este tempo verbal no presente refere-se a uma identidade marcada pelo modo de ser e de agir de Jesus. Quem o segue, afetado pelo seu chamado, fica plenamente transformado em sal da terra e luz do mundo. 

Na brisa calma do monte, Jesus evoca uma imagem cálida e pede que imaginemos uma pequenina chama. É de uma lamparina que ilumina uma casa. Vemos uma chama dançante que expande sua luz.

E Ele pergunta aos seus ouvintes: “onde deve ser colocada a lamparina: dentro de um alqueire ou no candeeiro?” O alqueire era um recipiente que se utilizava para medir a quantidade de grãos. Não tem nada a ver com a lamparina. É absurdo utilizar um alqueire para cobrir uma chama que ilumina uma casa escura. Se está acesa, é evidente que a luz deve ser visível e tornar visível as coisas. 

O tom das palavras que emprega revela uma grande preocupação por parte de Jesus: é como se quisesse nos alertar de que em nós há uma tendência inata à obscuridade, à penumbra, que corremos o risco de deixar na sombra o que deveria brilhar (nossos dons, nossos recursos...). 

Por isso, suas palavras estão cheias de amor, são fogo, são chama. Isso é o que nós, como seus seguidores devemos ser, e não presenças obscuras e, talvez, sem sol. Suas palavras são pronunciadas para despertar a luz vacilante e tímida de nosso interior, e assim expandi-la amplamente.

Somos portadores da “luz nova”; não extinguir essa luz que ilumina dentro. Abafar essa luz é menosprezar a vida da Graça, o tesouro que nos foi confiado no batismo.

Devemos guardá-la ciosamente, velar por ela, valorizá-la pela nossa colaboração, estimá-la e protegê-la, como a chama olímpica que nos levará à vitória.

Se voltamos ao início do relato da Criação, a primeira coisa que ouvimos é que Deus cria a luz; “faça-se a luz”:  esta é a primeira palavra que Ele pronuncia como potência criadora e que possibilita a vida. 

As trevas, as sombras, a obscuridade é não-ser e não-existir.  Nossa fonte original é Luz

O simbolismo da luz está muito presente em toda a Escritura, mas, de maneira especial, em dois momentos: a) na sua primeira carta, João define a Deus como Luz sem mistura de trevas; b) a afirmação de Paulo de que somos filhos da luz, a caminhar na luz, a desmascarar as trevas, a conectar com a Luz fontal, para que nossas obras sejam luz.

Através do apelo de Jesus, no evangelho deste domingo, somos convidados a aprender a gerir nossa luz e sabor/sabedoria, a viver em conexão com nossa verdadeira identidade, a gerar espaços de conhecimento daquilo que é essencial para que nós mesmos, nossas comunidades, nosso mundo, nossa casa comum, sejam reflexo do movimento profundo da fonte da Vida.

No último parágrafo do evangelho deste domingo, há um ensinamento esclarecedor: “...para que vejam as vossas boas obras e louvem o Pai que está nos céus”. A única maneira eficaz para transmitir a mensagem são as obras. Uma atitude verdadeiramente evangélica se transformará inevitavelmente em obras.

Evangelizar não é propor uma doutrina muito bem elaborada e convincente. As obras que os outros percebem devem desvelar as nossas atitudes internas. Quando elas são fruto só de uma programação externa, não ajudam os outros a encontrar seu próprio caminho. Só as obras que são reflexo de uma atitude vital autêntica, são canal por onde flui iluminação para os demais. O que existe em nosso interior, só pode chegar aos outros através das obras. Toda obra feita a partir do amor e da compaixão é luz.

Quando nos é pedido que sejamos luz, está nos dizendo algo decisivo para a vida espiritual, própria e dos outros. A luz brota sempre de uma fonte incandescente. Se o nosso coração não arde, não poderemos emitir luz. Mas se há brasas incandescentes, não poderemos deixar de emitir luz. Só se vivemos nossa humanidade, poderemos ajudar os demais a desenvolver a sua própria humanidade. 

Ser luz significa pôr toda nossa bagagem espiritual a serviço dos outros.

Sal da terra, luz do mundo - Artigo Cardeal Steiner | Arquidiocese de Manaus

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 5,13-16

 

 Na oração

“O amadurecimento da experiência e uma visão de fé mais profunda evidenciam a grande Luz que nos precede, acompanha e segue no percurso da vida”. 

- Deixa-te iluminar, leva a Luz nas suas pobres e frágeis mãos, iluminando os recantos do seu cotidiano.

- Deixa-te iluminar para seres presença que desperta o sabor da vida.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Bem-aventuranças: coração do Evangelho

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho do 4º Domingo do Tempo Comum - Ano A.

“Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5,12)

 

As Bem-aventuranças não são um tratado de moral nem um código de leis que se impõe de fora a cada um de nós; elas expressam simplesmente a experiência de Jesus, que vivia constantemente com os olhos bem abertos, captando a essência do ser humano. Todas e cada uma das bem-aventuranças são autobiográficas. Jesus viveu-as durante 30 anos, antes de proclamá-las. Elas são, portanto, a expressão do que constitui o centro mesmo da sua pessoa e da sua vida, dos seus sentimentos, atitudes; numa palavra, do seu mistério. Poderíamos dizer que as bem-aventuranças são o autorretratode Jesus: nelas, Ele deixa transparecer um coração pleno de vida, compassivo, solidário, pacífico, sensível à realidade...; nelas, Jesus não descreve sua felicidade particular, mas a oferta de uma vida plena e feliz a todo ser humano.

De fato, as bem-aventuranças correspondem àquilo que é mais nobre em cada ser humano; elas des-velam o mais profundo do ser humano, de toda ser humano, aquilo que coincide em toda pessoa: ser feliz, vida ditosa, prazerosa, viver a plenitude na relação pessoal. Todos coincidimos nessa busca. 

Jesus instigou seus ouvintes a expandirem sua capacidade de observar, interiorizar, descobrir e agir. Não queria pessoas tímidas, frágeis, submissas, mas pessoas inspiradas e livres para mudar o sentido da história, pessoal e coletiva.

Por mais que leiamos ou saboreemos, as bem-aventuranças sempre nos soam bem, tem sempre um sabor diferente; elas são casa que sempre nos acolhe, lugar no qual o Senhor sempre nos espera. Por isso, é um prazer escutá-las de novo neste domingo.

Fala-se de gente bem-aventurada, ditosa, sortuda. O vocábulo grego “makarios” significa justamente isso: alguém a quem a sorte lhe sorriu, que se encontrou com grande prêmio inesperado, que não sabia que tinha em sua casa um tesouro desconhecido. Por isso, ao comprovar sua sorte, se sente ditoso, agradecido, feliz, solidário.

As bem-aventuranças não descrevem um estado ideal, nem uma enumeração de prêmios recebidos por aquilo que fazemos, mas nos apresentam um horizonte alternativo. Elas são o “portal de entrada” do sermão da Montanha que nos convida a imaginar um mundo alternativo no qual a violência dê lugar à compaixão, as relações sejam justas e equitativas e todos possam ter acesso aos recursos disponíveis. Não é questão de alcançar alturas espirituais, mas de expandir a vida para tornar possível um mundo diferente, um mundo de acordo com o sonho do Reino de Deus, iniciado por Jesus.

As bem-aventuranças nos situam em um espaço alternativo, a partir de onde podemos ter uma nova perspectiva da realidade e de Deus. Este novo espaço é o que Jesus chamou Reino de Deus e as bem-aventuranças são centrais para imaginar esse lugar. As bem-aventuranças e o Reino de Deus estão de mãos dadas.

Jesus, ao proclamá-las, está nos convidando a re-criar os lugares que habitamos, está nos chamando a pensar e viver a partir de outros valores, com outras atitudes e práticas que, sem dúvida, não nos situarão nos centros de poder, mas nas margens, porque não se harmonizam com o que a maioria pensa. 

Ao escutá-las com atenção encontramos o “modo de proceder” e as atitudes sintonizadas com o coração de Deus. Portanto, quem quiser fazer parte da comunidade do Reino precisa não só valorizá-las e estimá-las, mas convertê-las em sinais de identidade cristã.

As bem-aventuranças nos movem a denunciar as guerras, a fome, o ódio, a intolerância e as injustiças de nosso mundo e a escutar os gritos dos pobres e da terra. As bem-aventuranças nos pedem que não nos deixemos determinar pela indiferença diante da dor de nosso mundo; elas nos despertam e nos fazem ver que já é hora de trabalhar em favor do bem comum das pessoas e do planeta terra. Frente o escândalo das guerras, da fome, do ódio e da mentira, as bem-aventuranças são para nós luz de esperança e sementes de uma vida nova.

Na formulação de cada bem-aventurança há duas partes: o que pede de todos nós e o que nos promete. Pede-nos: revestir-nos do modo de ser e viver de Jesus, levando uma vida centrada na partilha e na comunhão de bens, renunciando à violência, compadecendo-nos frente à dor dos outros, vivendo a autenticidade da entrega, da disponibilidade, sendo presença misericordiosa, justa, pacífica, etc... 

Promete-nos: nossa plenitude humana e divina, ou seja, o Reinado de Deus em nós.

Podemos também afirmar que cada bem-aventurança começa na “precariedade” e termina na “completude”: o vazio do ter se converte em plenitude do ser (5,3); pela sensibilidade solidária com os que padecem chega-se a ser consolado (5,4); pelo despojamento, os humildes se convertem na camada de húmus fértil que cobre a terra (5,5); o desejo de que haja justiça anuncia as primícias de uma humanidade nova (5,6); o descentramento de pôr o coração na miséria alheia se converte em capacidade para receber a misericórdia de Deus na própria miséria (5,7); a transparência do olhar que não julga nem compara, mas que acolhe incondicionalmente, se converte em percepção de que Deus está presente em toda situação (5,8); a preocupação pela paz faz partícipes de uma fraternidade sem fronteiras, nessa difícil tarefa de reconciliar os humanos (5,9); os que são fiéis a causas justas, para além dos modismos e dos interesses mesquinhos, são felizes porque tem o Absoluto dentro e fora de si mesmos, mesmo que sejam perseguidos porque se antecipam aos seus tempos, tal como aconteceu com os profetas e com o próprio Jesus (5,10-11).

Tudo isso são imagens da humanidade transfigurada a partir da humanidade desfigurada, a passagem entre o já e o ainda não. Nesse longo trajeto transcorre a existência de cada um e da humanidade inteira. Essa travessia, esta Páscoa, não se faz por outro caminho a não ser iluminando a realidade mesma na qual cada um se encontra.

No fundo, as bem-aventuranças são o caminho para descobrir a Deus em nós mesmos (nossa bondade e compaixão, nossa dimensão divina) e nos outros com quem Deus se identifica e se encarna (“foi a mim que fizestes”). Isso nos faz felizes porque encontramos o tesouro escondido: Deus em nós; somos “seres habitados” e nos parecemos com Deus em seus atributos (bondade, misericórdia, justiça...). Assim, nossa vida adquire um sentido transcendente, pleno...; nas bem-aventuranças encontramos razões para viver...

Infelizmente, a espiritualidade cristã se ocupou mais com o sofrimento do que com a alegria, se preocupou mais com mortificações, penitências, situações duras e penosas da vida do que com aquilo que nos proporciona felicidade, bem-estar e satisfação; alimentou uma religião da culpa, do medo, e se distanciou do prazer de viver, descentrado e aberto. 

E o que é a felicidade despertada pela vivência das bem-aventuranças? Trata-se de um estado de serenidade, como a capacidade de atravessar as perturbações cotidianas sem cair no desespero.

Felicidade como possibilidade de acalmar a consciência e repousar a mente muitas vezes atormentada.

Felicidade como vivência mansa, mas distante do imobilismo e da acomodação.

Nós cristãos, às vezes esquecemos que o Evangelho é uma resposta a esse desejo profundo de felicidade que habita o nosso coração. Às vezes não conseguimos ver em Cristo alguém que promete felicidade e que nos conduz até ela. Não acreditamos que as bem-aventuranças, antes que exigências morais, são anúncio de uma vida ditosa. Temos a tendência de pensar que a fé é algo que tem a ver exclusivamente com uma salvação futura e distante, e não com a felicidade concreta de cada dia.

O caminho desenhado nas bem-aventuranças pode nos fazer conhecer a felicidade vivida pelo próprio Jesus. Somente assim nossas pequenas alegrias alcançarão sua plenitude.


AMIGOS...São Anjos que nos ajudam a levantar , a caminhar ,quando já não  temos mais forças !

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 5,1-12

 

Na oração:

O melhor modo de fazer esta oração é seguir um dos “modos de orar” proposto por S. Inácio, ou seja: “Contemplar o significado de cada palavra das bem-aventuranças”.

- Reze as dimensões da vida que estão paralisadas, impedindo-lhe de viver a dinâmica das bem-aventuranças.

- Como ser presença visível das bem-aventuranças no seu cotidiano?