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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Perguntas que despertam a vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 21º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15)

 

Responder à pergunta – “quem é Jesus Cristo?”  não é uma questão acadêmica ou dogmática que cabe aos teólogos resolver. Na história da Igreja sempre surgiram polêmicas em torno à “identidade” de Jesus, ou ao menos enquanto à formulação das afirmações sobre Ele. E a tentação sempre foi a de encerrar numa fórmula dogmática a identidade de Jesus Cristo. Infelizmente existem aqueles que acreditam ter tudo resolvido e bem atado a respeito de Deus, da Trindade, de Jesus Cristo, tocando as raias do fanatismo.

Jesus continua sendo uma pergunta aberta e mobilizadora para o todo ser humano que se encontra com Ele em todos os tempos. Também para nós, que afirmamos ser seus seguidores.

Diferentes respostas foram surgindo ao longo da história, muitas delas limitadas e pobres.

Para os antepassados que o precederam, Jesus deveria ser o Messias que lhes devolveria a liberdade política e o esplendor como povo, até que o transformaram num blasfemo. Para outros, foi um personagem histórico a mais, talvez o mais importante que outros porque fundou a religião majoritária em nosso mundo. Os discípulos o consideravam como Mestre e, até a sua morte, não entenderam quem era realmente este carpinteiro que, sem dúvida, mudou o rumo da história. Para os cristãos, e acolhendo a formulação elaborada pelos teólogos dos primeiros séculos, Ele é Deus encarnado, humano e divino ao mesmo tempo; o Homem que deixava transparecer Deus; o Deus que nos ensinou a ser verdadeiramente humanos.

pergunta dirigida aos discípulos é profundamente existencial, onde cada um procura respondê-la com a própria vida, prolongando o modo de ser e viver do próprio Jesus. A pergunta não se reduz simplesmente a isto – “Quem é Jesus para mim?”, mas, “que implicações a pessoa de Jesus tem em minha vida?”, “altera alguma coisa?”, “Ele tem algum significado para os tempos atuais?”, ou “Ele tem se tornado um personagem estranho e irrelevante na sociedade e na Igreja?”

Embora tenhamos dificuldade para saber com precisão “quem é Jesus”, ou como nos relacionamos com Ele, não podemos ocultar seu impacto na vida de uma infinidade de pessoas através dos tempos. Cada cultu-ra realçou algum aspecto da personalidade d’Ele, mas tal é sua profundidade e radicalidade que é capaz de continuar fascinando-nos e seduzindo-nos. Continua nos provocando e nos inquietando a sua liberdade, o seu modo de amar, de investir a sua vida em favor da vida, de alimentar esperança em um mundo cada vez mais fragmentado. Seu chamado continua ressoando em nossos ouvidos com a mesma urgência de sempre.

De fato, só quando nos aproximamos dos Evangelhos é que temos a chance de conhecer um pouco mais profundamente a identidade de Jesus e o que Ele realizava.: curava, se aproximava de toda pessoa, perdoava, acolhia... Esta era a “chave” de sua vida e com ela abria as portas da vida para muitas pessoas, sobretudo aquelas que estavam “trancadas”, vítimas de estruturas religiosas e sociais que desumanizavam. 

Perguntar pela identidade de Jesus é também des-velar nossa própria identidade, porque n’Ele nossa humanidade se revela. Na verdade, trata-se de nos deixar perguntar por Ele e a partir d’Ele estamos continuamente respondendo “quem somos nós”, “quem é o ser humano” ... 

Em Jesus Cristo não só se manifesta quem é realmente Deus, mas também se demonstra quem é realmente o ser humano. Ele nos ensina que a essência do ser humano encontra-se em suas raízes mais profundas, onde habita Deus.

Se denominamos “Deus” à raiz de nossa vida, sermos fiéis a nós mesmos significa viver a partir d’Ele, que habita o profundo de nosso ser. Crer começa a ser algo tão vital e habitual, como respirar. 

Abrir-nos a Deus é abrir-nos à dimensão de profundidade, à própria raiz, é cair na conta de que nossa vida está sendo criada e nos está sendo dada agora. Isto permite viver a unidade “Deus-ser humano” e acabar com todo dualismo e espaços separados. 

Ser pessoa de fé é ser pessoa em plenitude, alguém que não esquece nenhuma das dimensões de si mesma, e que vive “a partir de dentro”, a partir da Fonte da vida, a partir d’Aquele de quem procede.

Pedro, ao personificar o ato de fé cristão em Jesus - “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” -, recebe também o “dom das chaves”: chave do serviço oblativo, do compromisso solidário, da vida doada...

Não se trata do “poder das chaves”, como normalmente foi interpretada a afirmação de Jesus: “Eu te darei as chaves do Reino dos céus”.

“Ter poder”: esta expressão ecoa forte no coração humano. O poder deslumbra, ofusca e pode facilmente se tornar o centro da identidade de uma pessoa. O poder é objeto de desejo de extraordinária magnitude e fascínio para o ser humano. Seu brilho encanta e seduz; sua proposta é extremamente atraente; para muitos, ele é a suprema ambição. Não há ser humano que não tenha sido tentado pelo canto desta sereia. 

O coração humano sofre ao ver-se dominado por este desejo de poder que intoxica suas aspirações mais profundas de comunhão e solidariedade. A vida se torna uma arena de disputas. Talvez não exista relação mais ambivalente que aquela existente entre a pessoa e o poder. Os relacionamentos são balizados, tanto no espaço institucional como nos encontros interpessoais, pela disputa do poder; o exercício do poder se expressa nas atitudes de dominar, manipular, subjugar e definir tudo segundo os próprios interesses.

A perversidade do coração humano encontra no exercício do poder o campo mais propício para a revelação de suas mazelas, autoritarismos, vaidades... Em nome do poder gera-se a morte, a divisão, a solidão. 

O texto do evangelho continua dizendo: “edificarei minha igreja...”. Essa promessa, que é o centro do evangelho de Mateus, está construída sobre esta contradição: a) Jesus diz a Simão “tu és ‘petros’”: um homem chamado simplesmente de “pedra”, sem consistência, pedregulho; b) mas, em virtude da revelação que recebeu e testemunhou dizendo: ‘tu és o Cristo, o Filho de Deus’, Jesus afirma: sobre esta “Petra”, a Rocha, fundamento firme, sobre a qual será edificada sua igreja.

Dentro da tradição católica, costuma-se dizer que as duas palavras – “petros” e “Petra” -  são equivalentes, pois provém de um mesmo termo original aramaico (“cefas”); mas, no grego, elas conservam os matizes significativos, pois realçam as duas dimensões presentes em Pedro e em todo ser humano: somos seres frágeis, vulneráveis, inconstantes e incoerentes; no entanto, no interior de cada um de nós há uma nobreza, uma consistência, uma rocha... sobre os quais fundamentamos nossa vida: valores, sonhos, recursos, inspirações, criatividade ...

É ao Pedro/Petra que Jesus confia as chaves do Reino. A partir de Pedro, a entrega das “chaves” se estende a todos nós, seus seguidores. Assim como disse a Pedro, Jesus continua dizendo a cada um de nós:

“Em tuas mãos eu entrego minhas chaves; chaves para abrir as portas fechadas do teu coração, e as portas dos corações duros e insensíveis; chaves para te mostrar todos os tesouros escondidos nas arcas, baús, de teu interior, e poder tirar dali as coisas boas e nobres.

Chaves para perdoar ofensas, tirar medos e culpabilidades, para andares de cabeça erguida, sem o peso que te faz ficar encurvado. Chaves para que ninguém encontre as portas de teu caminho fechadas, mesmo que seja noite escura.

Chaves para desatar leis injustas, mandatos frios, editos e normas de senhores, chefes e prepotentes.

Chaves para libertar os que sentem que tem as portas fechadas e a vida bloqueada e formatada.

A ti te entrego as chaves; chave da vida, para que vivas tu e todos os que te cercam.

Chaves para poder abrir o que os outros fecharam – fronteiras, igrejas, religiões...,

A ti entrego as chaves: em tuas mãos ponho a Criação inteira, também meu Reino, meus sonhos e minha confiança e Palavra de Pai. Vou te constituir como porteiro de esperanças e projetos para que te sintas livre e responsável”.


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Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 16,13-20

 

Na oração:

Desça ao mais profundo do seu coração, lugar da morada do divino, onde se encontram as reservas de bondade, amor, justiça, compaixão... e que são a “rocha” de sustentação de sua vida.

- Com as “chaves da Palavra” destrave as portas da memória, da imaginação, da inteligência, dos afetos... e deixe a vida fluir, ousada e criativa.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Grandeza e força da sensibilidade

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 11º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas porque estavam cansadas e abatidas...” (Mt 9,36)

 

O ser humano se revela pela sua sensibilidade; cada pessoa é o que é sua sensibilidade; e cada um faz o que lhe dita sua sensibilidade.

Fazemos aquelas coisas às quais somos sensíveis e deixamos de fazer tudo aquilo a que somos insensíveis.

Mais ainda, a sensibilidade tem tanta força na vida, que acaba modificando até as convicções mais firmes e, em geral, a maneira de pensar. As situações mais importantes da vida, principalmente quando se trata de sofrimento, de bem-estar ou desfrute da vida, só podem ser administradas adequadamente com base na sensibilidade e não com base na lógica da razão.

Por isso, segundo o filósofo Lévinas “a ética é uma nova sensibilidade para com os outros”. Para ele, o “rosto” não é a simples face física, mas a expressão da humanidade e da vulnerabilidade do outro, que nos interpela e nos convoca à responsabilidade.

Aquele que é sensível diante da dignidade, dos direitos ou da dor de outra pessoa, se comportará de maneira correta com quem estiver diante dele. Do mesmo modo, aquele que é insensível diante das situações humanas com as quais se depara na vida, por muitas que sejam as ideias morais que tenha armazenado em sua cabeça, será um indigno, um indiferente diante da dor alheia, um violento.

Nesse sentido, a sensibilidade é o motor da vida e da conduta humana.

Com relação a Jesus, quando os Evangelhos tratam da sensibilidade d’Ele, utilizam o verbo grego “splagchnizomai”, referindo-se a uma emoção extrema, experimentada em determinadas situações de sofrimento, enfermidade ou exclusão.

Este verbo faz referência aos órgãos internos, às entranhas do ser humano, consideradas como a sede dos sentimentos; significa literalmente “sentir uma comoção das próprias entranhas”. Traduzimos este verbo por “ter compaixão”.

Portanto, quando os Evangelhos utilizam esse verbo, para fazer referência às relações ou comportamentos de Jesus, na realidade, o que falam é algo que diz respeito à sensibilidade oblativa d’Ele.

É importante perceber que a sensibilidade de Jesus é mencionada nos evangelhos somente quando se trata de situações de sofrimento dos outros. Jesus reagia visceralmente diante daquele pobre povo que desfalecia de fome, de exclusão e de miséria; Jesus não suportava ver pessoas passando necessidade, não aguentava a dor dos outros; sua sensibilidade não tolerava isso. 

Uma sensibilidade cristificada não se mantém quieta diante da dor e da desgraça do outro. Ao contrário, quando alguém é insensível diante de determinada situação, dizemos que permanece “indiferente” ao que ali acontece. Existe, portanto, uma equivalência clara entre insensibilidade e indiferença.

E a indiferença é tão desumanizadora quanto a violência, ou seja, a indiferença diante do sofrimento provoca tanto ou mais danos que a violência.

Sem dúvida, quem melhor se deu conta da gravidade violenta da indiferença foi Jesus, através de diferentes parábolas (o rico epulão e o pobre Lázaro – Lc 16, 19-31; o bom samaritano – Lc 10, 25-37; o juízo final – Mt 25, 31-46...). A prática da compaixão para com os empobrecidos e a crítica àqueles que geram o empobrecimento foram a causa principal da condenação de Jesus à morte e à execução na cruz.

Portanto, a sensibilidade humana diante do sofrimento ou da felicidade das pessoas não é um critério que se baseia em um princípio religioso. A sensibilidade não tem como fundamento nenhum dogma sagrado, nenhuma norma revelada nem lei sobrenatural alguma.

Por isso, pode-se dizer que se trata de um princípio ético universal, que transcende todas as culturas e religiões, de maneira que, precisamente por isso, está presente onde há humanidade.

sensibilidade é comum a todos e é prévia a toda afirmação religiosa.

Com uma “sensibilidade à flor da pele” a atuação missão de Jesus foi muito mais terapêutica que “moral” ou “religiosa”. Não é que Ele não se preocupasse com o pecado, mas, para Ele, o pecado que mais se opõe a Deus é precisamente causar sofrimento ao outro ou tolerá-lo com atitude indiferente.

Por isso, sua sensibilidade oblativa abria espaço para que prontamente se aproximassem d’Ele todo tipo de pessoas desvalidas e excluídas. O profeta da misericórdia de Deus atraía, sobretudo, aqueles que viviam afundados na miséria, os despossuídos de tudo, os que não tinham o necessário para viver. Todos tinham um traço comum: viviam em um estado de miséria do qual já não podiam escapar. Não tinham ninguém que os defendesse; eram a “massa sobrante” daquela sociedade. Vidas sem futuro.

Para Jesus, aquela miséria e sofrimento que condena as multidões à fome, à enfermidade e ao pranto não tem sua origem em Deus. Pelo contrário, toda aquela situação desumanizadora é um escândalo para Ele. Deus quer ver a todos saciados, felizes. Aqueles a quem ninguém se interessa, Deus, sim, revela sua paternidade acolhedora. Aqueles que sobram entre os homens tem um lugar privilegiado em Seu coração. Aqueles que não tem ninguém que os defenda, tem a Deus como pai/mãe providente.  Todo mundo deve saber e sentir que são os filhos e filhas prediletos de Deus.

Por isso, Jesus atuava movido pela compaixão do Pai. A compaixão é o modo de ser de Deus, sua forma de olhar o mundo, o que o move a torná-lo mais humano e habitável. A compaixão é o atributo primeiro e a atitude fundamental de Deus, exemplo de sensibilidade diante do sofrimento e da opressão. 

Os olhos de Jesus viram muita dor, miséria, violência..., e suas entranhas se comoveram. Viu o seu povo despojado da terra, dos direitos mais elementares... Jesus viu e se compadeceu; compadeceu-se e indignou-se; indignou-se e se comprometeu na transformação daquela realidade dolente; comprometeu-se porque seus olhos viram mais a fundo, mais além e sentiu que outro mundo é possível.

Na raiz de sua atividade terapêutica e inspirando toda sua atuação junto aos enfermos esteve sempre seu amor compassivo.Jesus se aproximou dos que sofriam, aliviou sua dor, tocou os leprosos, libertou os possuídos por espíritos malignos, os resgatou da marginalização e os devolveu à convivência. 

Mas o olhar de Jesus não se fixou somente na fragilidade e no sofrimento humanos. Surpreendentemente, depois de dizer que “as multidões estavam cansadas e abatidas”, Ele afirma que já chegou o tempo da colheita. Como é possível essa mudança de linguagem? Para Jesus, a colheita está aí, à vista. 

Esta afirmação supõe um segundo olhar, mais profundo que o anterior. Seus olhos não se fixaram no abandono e na miséria, mas perceberam, no meio da multidão, valores que crescem em circunstâncias nada favoráveis, uma maturidade de trigo preparado para a colheita. Esse olhar é muito mais lúcido. Atravessa a exterioridade das aparências, dos julgamentos dominantes que desqualificam o povo simples, e descobre os verdadeiros valores, a obra do Pai, o Reino que chega a todos que o buscam com tanta paixão. 

Se as multidões procuram Jesus é porque dentro delas está vivo o Reino, porque não se deixam derrotar pelas situações mais hostis e desesperadoras.

Na encíclica “Magnífica Humanitas” o Papa Leão XIV afirma:

“Cuidemos das relações! Numa época que tende a acelerar e a fragmentar, a carne humana continua a pedir para ser cuidada e reconhecida por mãos capazes de ternura, por mentes atentas e por palavras bondosas. A cultura digital multiplica as conexões e oferece novas possibilidades de encontro; no entanto, o coração humano conserva uma necessidade inalienável de proximidade. Convido a preservar os lugares e os momentos em que a presença física continua a ser decisiva: a mesa partilhada, a comunidade cristã que se reúne, a visita a quem está só, o serviço aos pobres. São sinais de uma humanidade que continua a acreditar que cada corpo é templo do Espírito e casa de Deus, e é precisamente esta aliança entre glória e fragilidade que se torna o critério para avaliar os modelos antropológicos propostos pela cultura atual” (MH n. 239).


Jesus e a Ovelha Perdida: Mensagem de Esperança | TikTok

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 9,36-10,8

 

Na oração: 

É preciso “cristificar nossa sensibilidade” para prolongarmos o ministério terapêutico de Jesus.

No calor da compaixão ativada brota o chamado de Jesus e a resposta dos seus(suas) seguidores(as). Sem compaixão, a resposta ao chamado se esvazia, o serviço se burocratiza, o seguimento vira lei.  

- Sua vivência cristã é expressão do “projeto humanizador” de Jesus ou se restringe a cumprir “ritos reli-giosos” estéreis, sem impacto na transformação da realidade injusta?

sexta-feira, 5 de junho de 2026

O chamado que nos faz retornar à nossa morada interior

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 10º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus...” (Mt 9,10)

 

Jesus realizou sua missão na itinerância, fugindo de lugares fechados e controlados; em seus deslocamentos, revelou-se aberto aos encontros surpreendentes que apareciam. Seu olhar contemplativo captava o melhor que estava escondido no interior de cada pessoa, não importava quem fosse.

Assim aconteceu com Mateus, sentado junto a uma banca, fazendo o trabalho mais odiado pelos judeus: cobrador de impostos. Todos viam nele o inimigo por excelência, pois além de ser um colaborador do império romano, aproveitava de sua função para explorar os mais fracos. 

Jesus, no entanto, olhou para o interior desse homem e viu nele um futuro apóstolo; Ele era tão imprevisível em seus movimentos de aproximação, tão resolvido, tão direto que acabou provocando espanto naqueles que o rodeavam; de modo certeiro e sem preâmbulos dirigiu-se ao homem sentado e lhe disse: “Segue-me”. O outro, impactado pelo olhar e pelo chamado de Jesus, prontamente se levantou, deixou tudo para trás e o seguiu.

Quando alguém nos convida a segui-lo, normalmente quer nos levar a algum lugar que conhece, que nos quer mostrar, que pode ser interessante para nós... No entanto, Jesus revela-se mais imprevisível ainda e, na cena seguinte, nos encontramos com a surpresa de que Ele levou Mateus à sua própria casa, sentou-se à sua mesa com publicanos e pecadores, ou seja, os conhecidos de Mateus, pessoas com quem se relacionava. Mateus devia estar atônito, sem dizer palavras; com que palavras convidaria Jesus à sua mesa? Agora é Jesus que segue Mateus: vai à sua casa e participa de uma refeição. 

Seguir Jesus significa aceitar ser seguido por Ele em seu próprio ambiente, seu espaço mais pessoal e cotidiano. A possibilidade de escutar esse “segue-me”, pessoal e intransferível, continua tendo ressonâncias em todos nós, transtornando nosso modo habitual de viver, deslocando-nos de nossas atrofias, colocando-nos em movimento, abrindo possibilidades de novos encontros...

Jesus continua se deslocando, nos busca, nos olha e nos diz: “segue-me!”. Coloca-nos em marcha na direção que nos indica e, aos poucos, nos damos conta de que nos leva justamente para o centro de nós mesmos: a casa interior. Ali se realiza o verdadeiro encontro, porque é sua própria morada. Ali é o lugar da nossa verdadeira identidade, o celeiro de nossos dons e recursos, a sede de nossas decisões vitais, o ambiente de nossas inspirações, sentimentos elevados e desejos mais nobres. O verdadeiro seguimento tem raízes no coração, porque se trata de identificação com Alguém que des-vela (tira o véu) nossa nobreza original.

Segundo o relato deste domingo, Jesus não só se dirigiu à casa de Mateus, mas sentou-se à mesa com ele, compartilhando uma refeição. Sabemos que a refeição não se reduz a uma ingestão de alimentos; é, sobretudo, ambiente privilegiado para reforçar amizade, reconstruir laços... espaço de intimidade e de acolhida.

É urgente, por isso, recuperar o lugar e o sentido da mesa. Da mesa autêntica, daquela onde há lugar para todos e a palavra flui livremente. Porque a tentação, talvez a maior do nosso tempo, é de só nos sentarmos em mesas à medida da nossa mesquinhez, onde os lugares estão contados e o assunto para a conversa está pré-definido. 

Bastou Jesus sentar-se à mesa para provocar inquietações nas autoridades religiosas. Robert Karris afirma que “Jesus foi morto por causa da forma como comia”. Foi porque decidiu sentar-se na mesma mesa com os pecadores e os rejeitados, os cobradores de impostos e as mulheres de má vida, que as autoridades religiosas da época se empenharam em reduzi-lo ao silêncio. 

Ao instaurar aquilo que os especialistas chamam “comunhão de mesa” com aqueles que estavam excluídos de todas as mesas, Jesus quebrou os esquemas de pureza e impureza que organizavam a sociedade religiosa daquele tempo. Sentou-se à mesa com quem não devia, partilhou o pão e fez circular a palavra com quem estava condenado às migalhas e ao silêncio, e isso foi-lhe fatal. “Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?”

Nós, mais de 2000 anos depois, somos filhos e filhas da sociedade mais “sentada” e “acomodada” da história. São muitos aqueles que, todos os dias, passam longas horas à mesa: mesa do trabalho, da escola, do “fast-food”, dos negócios escusos..., enfim, mesas da morte. Nunca se viveu tanto à mesa. E, contudo, com uma ironia quase cruel, esta exponencial multiplicação das mesas acaba desembocando nesta triste situação: sentamo-nos junto às mesas onde só há lugar para um. O lugar do encontro, da partilha, da conversa, tornou-se ícone do indivíduo absorto no seu trabalho, separado do mundo e dos outros, com os olhos numa tela fria. A escrivaninha matou a mesa e nós nos acostumamos bem com esta ideia. 

Pelo contrário, a mesa verdadeira é o móvel que tende a tornar-se perigoso, sobretudo para as nossas certezas. É ali que o encontro com o outro, com o diferente, pode “dinamitar” o castelo de ideias e preconceitos que construímos à nossa volta. Não dá para furtar-nos ao diálogo, ao genuíno trocar de olhares e de palavras, e isso é uma experiência radical de humanização. Sabemos de onde viemos quando nos sentamos àquela mesa, mas ignoramos ainda aonde iremos quando nos levantarmos dali.

O modo livre de Jesus agir desperta olhares julgadores por parte dos fariseus. Ele percebe a maldade em seus corações e afirma: “quero misericórdia e não sacrifício”.

A frase lapidar de Jesus, repetida e retomada de Oséias, é espantosa síntese de virada e de maturidade de quem o segue. Em Jesus, este é o sentimento básico que nos move em direção aos impuros, aos pecadores, aos fora-da-lei, à multidão dos excluídos...

Entrar no movimento da misericórdia humaniza e cristifica essencialmente a pessoa, porque a miseri-córdia constitui “a estrutura fundamental do humano e do cristão”.

A espiritualidade da misericórdia contém em si a gratuidade do relacionamento, a dimensão desinteres-sada da doação.  O misericordioso torna-se um ser realmente livre, e isso lhe proporciona profunda alegria interior. É a partir da misericórdia que ele é capaz de amar os inimigos, de fazer o bem aos que o odeiam, de bendizer os que amaldiçoam, de oferecer a outra face, de emprestar sem esperar recompensa... misericórdia recebida e experimentada é a base da atitude compassiva, não como ato ocasional mas como estilo de vida evangélico. Torna-se o fundamento e a perene inspiração de uma existência de partilha e solidariedade.

Toda a essência do Evangelho está aqui, nesta insondável confiança na possibilidade de mudança de cada um de nós, quando nos deixamos que o chamado de Jesus desperte o “aprendiz de discípulo” que nos habita; quando esse “gen” se ativa em nós, o resto vem por acréscimo: troca de lugar e de senhor, mudança de valores, sensibilidade solidária, misericórdia acolhedora, horizonte de sentido aberto... Saímos de uma vida acomodada, autocentrada, e entramos no percurso itinerante de Jesus: vida oblativa, comprometida...


21 de Setembro: Evangelho do Dia - Mt 9,9-13 - Rádio Rainha da Paz

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 9,9-13

 

Na oração:

Deixe que o chamado de Jesus desperte o(a) aprendiz de discípulo(a) que você carrega em seu interior.

- Prepare a mesa para um momento de intimidade com Aquele que não olha o exterior de sua vida, e sim para o que é mais humano e divino, escondido nos recantos de sua casa interior.

- Como seguidores(as) de Jesus e impulsionados(as) pelo seu Espírito, nós não temos mais mesas fixas; somos chamados a sair de nossas “mesas” para participar de todas as mesas.

- Reacender o “chamado fundante” é permitir ser arrancado da mesa do imobilismo e da acomodação, para peregrinar, criativamente, por entre as desafiantes e surpreendentes mesas da vida. 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A Voz que transforma vidas

  Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho do 4º Domingo da Páscoa (Ano A - 2026).

“... e as ovelhas escutam a sua voz” (Jo 10,3)

 

Somos seres em permanente comunicação. Comunicamo-nos com nossos gestos, com nossa postura corporal, com nosso olhar, com nossa roupa, com nossa expressão facial, com nosso silêncio e, sobretudo, com nossa voz: uma voz que, por sua vez, comunica com seu volume, com seu timbre, com sua força ou com seus balbucios ou titubeios... Tudo em nós é permanente comunicação.

“...porque conhecem a sua voz”. Já somos mais de oito bilhões de pessoas que compartilhamos este planeta. Não há duas vozes iguais. A voz nos dá identidade, faz parte da nossa genética, do nosso ser, como a cor dos olhos, nosso jeito de andar, nossa impressão digital ou nossa caligrafia.

Através da voz nos reconhecemos e nos identificamos. A mãe reconhece a voz do seu filho muito antes que ele possa emitir qualquer som articulado. Pela voz, tanto como pelo olhar, mostramos a “alma”, canalizamos e refletimos nossas alegrias, nossas conquistas e nossos fracassos e tristezas: “posso notar pela tua voz”. Todos nós já experimentamos isso alguma vez: há vozes que nos enchem de ânimo e vida, e outras, pelo contrário, nos causam pequenas ou grandes mortes. Há vozes que gostaríamos de escutar com mais frequência e as guardamos como um tesouro em nossas lembranças; outras, no entanto, que gostaríamos de apagá-las para sempre da nossa memória.

Como cristãos, somos seguidores e seguidoras de uma Pessoa, Jesus Cristo, o verdadeiro Pastor. Quando Ele é o centro de nossas vidas, a identificação com Ele vai assumindo feições sempre novas e inspiradoras.

Suz Voz inconfundível passa a ter um timbre diferente em nosso interior: voz que nos eleva, que comunica vida, que rompe nossos medos, que nos faz sair de nosso “redil” estreito e nos impulsiona a sermos presenças comprometidas com a vida.

É preciso discernir para reconhecer a Voz do Pastor entre tantas vozes que ressoam ao nosso redor todos os dias; é preciso distingui-la e interpretá-la como sua saudação vivificadora, como fonte de vida, de futuro, de projeto e de esperança; é preciso permitir que essa Voz gere vida, que pulse em nosso interior e que se derrame no mundo como uma voz construtiva, uma voz de “Boa Nova”.

Mesmo no interior das comunidades cristãs surgem “vozes” que estão muito distantes da Voz original do Pastor; são vozes egóicas, auto-centradas, que apelam para o medo, o poder, o julgamento... São os “mercenários da fé” que não estão a serviço das “ovelhas”, mas de seus interesses.

Para discernir os pastores dos mercenários, a última frase do evangelho de hoje nos oferece uma pista interessante: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10b). O que quer dizer que cada vez que escutamos uma palavra que liberta, que salva, que reconforta, que dá esperança e vida, devemos seguir a voz de quem a profere. Trata-se de uma voz que prolonga a Voz do Pastor da Vida.

Mas quando ouvimos uma voz que julga, condena e exclui, há fortes indícios de que estamos na presença de um mercenário, de um falso pastor, de um ladrão ou de um salteador. Esse último não está a serviço das ovelhas; ele se serve delas para se convencer de seu poder e do seu prestígio pessoal.

Neste tempo pascal celebramos Jesus como “pastor da liberdade”: sua voz nos arranca dos nossos estreitos lugares, das atitudes petrificadas, das visões limitadas..., e nos conduz para a vida livre. Certamente não somos “ovelhas” em sentido literal, mas pessoas. E Jesus, bom pastor, abre a porta da Vida e nos permite sair para o espaço amplo da Liberdade e da Páscoa. Este Pastor, desprovido de poder, revela sua autoridade na força de sua Voz, no assobio amoroso de sua melodia, no conhecimento pessoal de cada ovelha. A única forma de fazer com que a porta se abra e de conduzir as ovelhas à liberdade é chamá-las de um modo pessoal, com a palavra da vida e do amor. Este é o Jesus que liberta, que conduz as ovelhas para as pastagens da vida, para o campo aberto do amor compartilhado.

As ovelhas atendem à sua voz porque a conhecem. Uma frase com profundas ressonâncias bíblicas. Ouvir a voz do Senhor é conhecer e realizar sua vontade. Sua voz é libertadora. Ele as chama pelo seu nome, porque para Ele não existe massa; cada uma tem nome próprio; cada ser humano é único e irrepetível; cada uma é importante para Deus e para o mundo.

Este Pastor, a quem lhe abrem a porta, é alguém que, com sua voz, vai traçando uma rota de vida. Depois de ter chamado as ovelhas e tê-las tirado do aprisco, caminha à frente, sabe aonde vai. Abre um caminho de humanidade.

A Igreja está carente de “bons pastores”, homens e mulheres como Jesus que nos ajudem a sair do aprisco onde nos encontramos fechados, controlados e manipulados, para assim buscar e celebrar a liberdade, com 

Ele (Jesus) e com todos os homens e mulheres da terra. Este aprisco pode ser um tipo de Igreja fechada em si mesma, em seu dogmatismo, em seus ritos estéreis, em sua doutrina fria, que não escuta os clamores que surgem da realidade tão desumanizada. Uma Igreja assim torna-se incapaz de impulsionar seus fiéis para que saiam, respirem um novo ar, deixem-se afetar pelos desafios e provocações do mundo. É preciso que venha alguém para despertar e conduzir as “ovelhas” ao campo da vida, para que caminhem, para que amem, para que vivam em liberdade.

Todos nós, como seguidores(as) do verdadeiro Pastor, podemos e devemos ser “pastores(as)” e “porta de liberdade” para os outros, pastores(as) que os ajudem a encontrar o caminho e os acompanhem.

No caminho do Seguimento percebemos que há portas que já se abriram e que nos permitem transitar pelos caminhos da vida; há portas que devem manter-se fechadas, para deixar para trás estilos auto-centrados que nos afastam de Jesus e dos outros; por fim, há outras portas que devem se abrir, para que um novo ar renove nosso interior e nos encha de fé, esperança e amor.

“Abrir portas” é abrir-nos às novas possibilidades, ao futuro, ao encontro, à vida expansiva... Sabemos, por experiência, como é a alegria que nos acompanha quando nos abrem uma porta, cruzamos o umbral e nos chega o abraço, a acolhida e nos é oferecido o dom de uma amizade.

A vida é um êxodo permanente. Podemos afirmar que esse é o dilema da Igreja através dos séculos: ou fechar-se atrás dos muros do poder e autossuficiência, ou abrir-se missionáriamente. Os melhores e mais criativos seguidores de Jesus, ao longo dos séculos, foram aqueles que se lançaram abertamente ao exterior, para servir, para acolher os desafios da realidade, para assumir uma atitude de serviço e cuidado, para se colocar no lugar dos últimos, das vítimas da história.

Tivemos grandes eventos na Igreja (Vaticano II, Medellin e Puebla...) que foram grandes “portas” e que lançaram as bases para uma abertura e diálogo com a sociedade atual. Infelizmente, continuam as tentativas por fechar portas e janelas numa atitude defensiva e medrosa. Mas, a esperança por uma Igreja pobre para os pobres continua se revelando como voz e apelo a um deslocamento contínuo para as “periferias existenciais”, convidando-nos a um novo êxodo.

A vivência pascal nos torna mais sensíveis e capazes de escutar os acontecimentos, alimentando uma atenção contemplativa frente à realidade que nos cerca, respondendo a seus apelos e tomando decisões maduras e evangélicas.

 

Texto bíblico: Evangelho segundo João 10,1-10

 

Na oração:

Seguir o Bom Pastor e ouvir a sua voz é deixar-se configurar” por Ele, é movimento pelo qual cada um vai sendo modelado à imagem d’Ele.

- A Voz do Bom Pastor modela identidades únicas e originais; deixe ressoar em seu coração esta Voz, para que ela se visibilize nos seus gestos e no seu cuidado em favor da vida.

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Itinerância comprometida com a vida e a paz

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 14º. Domingo do Tempo Comum (Ano C).

“Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘a paz esteja nesta casa!’” (Lc 10,5)

 

No Evangelho deste domingo Lucas recolhe um importante discurso missionário de Jesus, dirigido não mais aos Doze, mas a outro grupo numeroso de discípulos, o qual envia para que colabore com Ele em seu projeto de instauração do Reinado do Pai. As palavras de Jesus constituem uma espécie de carta fundacional onde seus seguidores devem alimentar sua missão evangelizadora.

Jesus “designou discípulos” e não “escolheu”. Designar é nomear para uma função; “desígnio” = intenção, propósito, vontade. Designar 72 discípulos significa que Jesus já os tinha no próprio coração; não foi uma escolha aleatória. Ele designa as pessoas que conviveram com Ele e se deixaram impactar pelo seu modo original de ser e agir.

Jesus envia seus discípulos de “dois em dois”; por que esta insistência em fazer o caminho ao menos junto a outro? Para os judeus, a opinião de um só não tinha nenhum valor em um juízo, e os missionários são, sobretudo, testemunhas. Também, porque a mensagem deve ser proclamada sempre em comunidade.

É preciso ir “de dois a dois”, ou seja, dispostos a caminhar com outros, a comportar-se como cúmplices e companheiros, a negociar metas e compartilhar itinerários, convencidos de que o individualismo já cadu-cou; ajudam-se um ao outro, se sustentam e se apoiam mutuamente.

É importante destacar que há um dado constante em todos os relatos de envio: a casa, como lugar preferencial para os discípulos missionários. E isso não é estranho. É certo que Jesus ensinou nas sinagogas; no entanto, Ele preferia muito mais ensinar a campo aberto, indo pelos caminhos, atravessando vilas e povoados, aproveitando as travessias do Lago de Genesaré... Mas, sobretudo, Ele ia aonde homens e mulheres realizavam suas atividades comuns, no simples contexto do trabalho cotidiano e, de maneira privilegiada, nas casas, começando, desde logo, pela sua própria casa. A casa acaba sendo o espaço alternativo que se adequava melhor à atuação do Mestre, enquanto sua pregação acontecia na itinerância.

A Boa Notícia de Jesus deve ser comunicada com respeito total, a partir de uma atitude amistosa e fraterna, contagiando a paz. É um erro pretender impô-la a partir de uma pretensa superioridade, de ameaça ou de ressentimento. É ante evangélico tratar sem amor as pessoas só porque não aceitam a mensagem. Mas, como vão aceitá-la se não se sentem compreendidas por aqueles que se apresentam em nome de Jesus?

Em primeiro lugar, Jesus convida seus discípulos e a nós a viver em atitude de saída, de encontro com o outro. Ele não funda uma religião onde as pessoas se fecham no ritualismo, no culto, na doutrina, vivendo uma auto-referência e um narcisismo doentio. Jesus move aqueles que o seguem a saírem de si mesmos para se deixarem contagiar pelos outros. Aqueles que vivem fechados em si mesmos não sabem escutar o clamor e os gemidos dos outros e acabam se tornando insensíveis e incapazes de viver uma presença solidária.

Jesus convida a romper distâncias e suspeitas para viver uma proximidade acolhedora com o outro; é preciso viver em situação de saída para que entre o diferente, a novidade, o surpreendente... Citando o poeta Rilke, o ser humano deve viver em situação de despedida.

Infelizmente temos esquecido que “ser cristão” é “seguir” Jesus Cristo: mover-nos, dar passos, caminhar, construir nossa vida seguindo suas pegadas. Nossa vivência cristã, muitas vezes, se restringe a uma fé teórica e inoperante ou se fecha numa prática religiosa rotineira e vazia; não transforma nossa vida em seguimento de Jesus.

Seguir Jesus Cristo é aderir a Ele incondicionalmente, é “entrar” no seu caminho, recriá-lo a cada momento e percorrê-lo até o fim. Seguir é deixar-nos con-figurar”, isto é, movimento pelo qual nossa vida vai sendo modelada pelo modo de ser e viver de Jesus.

Jesus não nos chama para seguir uma religião, uma doutrina, nem fazer proselitismo... Ele desencadeia um movimento de vida e nos convoca a segui-Lo, ou seja, identificar-nos com Ele e com a causa do Reino.

O horizonte do chamado e do envio não é outro que o compromisso em favor da vida e das pessoas, frente àquelas forças que tendem a travar e danificar a mesma vida. A partir desta perspectiva, a “missão” pode reencontrar seu verdadeiro sentido. Enviados(as) em favor da Vida, seus(suas) seguidores(as) sabem muito bem qual é o encargo que Jesus lhes confia. Nunca O viram governando a ninguém; sempre O conheceram curando feridas, aliviando o sofrimento, regenerando vidas, destravando os medos, contagiando confiança em Deus. O que Jesus sempre quis foi “discípulos/as” que lhe “seguissem”, ou seja, que vivessem como Ele viveu: dedicados a curar enfermidades, aliviar sofrimentos, acolher as pessoas mais perdidas e extraviadas, pacificar as relações. Assim nasceu o “movimento de Jesus”.

É preciso sair dos limites conhecidos; sair de nossas seguranças para adentrar-nos no terreno do incerto; sair dos espaços onde nos sentimos fortes para arriscar-nos a transitar por lugares onde somos frágeis; sair do inquestionável para enfrentarmos o novo...

É decisivo estar dispostos a abrir espaços em nossa história a novas pessoas e situações, novos encontros, novas experiências... Porque sempre há algo diferente e inesperado que pode nos enriquecer...

A vida está cheia de possibilidades e surpresas; inumeráveis caminhos que podemos percorrer; pessoas instigantes que aparecem em nossas vidas; desafios, encontros, aprendizagens, motivos para celebrar, lições que aprendemos e nos fazem um pouco mais lúcidos, mais humanos e mais simples...

“Sede itinerantes”: este é o apelo que brota do modo de viver que Jesus elegeu quando se dedicou a proclamar sua Boa Notícia e aliviar o sofrimento humano. Ele não tinha templo, não tinha casa, não tinha onde reclinar a cabeça... Este desapego de todo tipo de segurança é a atitude básica e fundamental que todo(a) discípulo(a) deve adotar. O anúncio não pode ser realizado em lugares fechados ou sentados numa cátedra. Seguir Jesus exige uma dinâmica continuada. Nada pode ser comunicado a partir de uma cômoda instalação pessoal. A disponibilidade e a mobilidade são exigência básicas da mensagem de Jesus.

Mesmo que, com frequência, esqueçamos desse apelo de Jesus, a essência da Igreja está marcada pela mística do envio. Por isso, é perigoso concebê-la como uma instituição fundada para cuidar e proteger uma religião. Ela não foi fundada para preservar ritos arcaicos, doutrinas estéreis, normas vazias... Ela é um “corpo” para a missão; responde melhor ao desejo original de Jesus quando a Igreja é imagem de um movimento profético que caminha pela história, segundo a lógica do envio: saindo de si mesma, comprometendo-se com os outros, levando ao mundo a boa notícia de Deus. “A Igreja não está aí para si mesma, mas para a humanidade” (Bento XVI).

Por isso, é tão perigosa a tentação de viver na retaguarda, centrados em nossos próprios interesses, nosso passado, nossas conquistas doutrinais, nossas práticas e costumes “religiosos”. Pior ainda é quando fazemos isso petrificando nossa relação com o mundo.

Que é uma Igreja rígida, paralisada, fechada em si mesma, sem profetas de Jesus e sem portadores da Boa Notícia da vida e da paz.

Texto bíblico: Evangelho segundo Lucas 10,1-12.17-20

Na oração:

Diante de Jesus, que “passa e chama” a todos, responda: como você vive, hoje, sua missão no trabalho, no seu ambiente, na sua comunidade? Que sentido você quer dar à sua própria vida?... em quê gastar suas forças, capacidades? Como viver, no seu cotidiano, sua vocação de discípulo(a)-missionário(a)?

- Sua comunidade cristã está mais próxima do “movimento de Jesus” ou vive “formatada” pelo peso de uma religião fechada, desencarnada e descompromissada?

sábado, 5 de outubro de 2024

Matrimônio: “amor originante” que se eterniza

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 27º. Domingo do Tempo Comum (Ano B).

“Desde o início da Criação, Deus os criou homem e mulher” (Mc 10,6) 

Os fariseus apresentam a Jesus uma pergunta para pô-lo à prova. Desta vez não é uma questão sem importância, mas uma situação que alimenta muito sofrimento às mulheres da Galileia e é motivo de acaloradas discussões entre os seguidores de diferentes escolas rabínicas: “É lícito o marido separar-se de sua mulher?”.

Não se trata do divórcio moderno que conhecemos hoje, mas da situação em que vivia a mulher judia dentro do casamento, controlado absolutamente pelo homem. Segundo a Lei de Moisés, o marido podia romper o contrato matrimonial e expulsar sua esposa de casa. A mulher, pelo contrário, submetida em tudo ao homem, não podia fazer o mesmo.

A resposta de Jesus surpreende a todos. Não entra nas discussões dos rabinos. Convida a descobrir o projeto original de Deus, que está acima de leis e normas. Esta lei “machista”, em concreto, se impôs no povo judeu pela dureza do coração dos homens, que controlavam as mulheres e as submetiam à sua vontade.

Jesus aprofunda no mistério do ser humano a partir de sua origem, quando Deus “os criou homem e mulher”. Os dois foram criados em igualdade. Deus não criou o homem com poder sobre a mulher. Não criou a mulher submetida ao homem. Entre homens e mulheres não deve haver dominação por parte de ninguém.

A partir desta visão do ser humano, já presente na origem, Jesus oferece uma visão do matrimônio que vai mais além de tudo o que foi estabelecido pela Lei. Mulheres e homens se unirão para “serem uma só carne” e iniciar uma vida compartilhada na mútua entrega, sem imposição nem submissão.

Este projeto matrimonial é para Jesus a suprema expressão do amor humano. O homem não tem direito algum para controlar a mulher como se fosse seu dono. A mulher não deve aceitar viver submetida ao homem. É Deus mesmo que os atrai a viver unidos por um amor livre e gratuito. Jesus conclui de maneira clara: “O que Deus uniu, o homem não separe”.

Com esta posição, Jesus está destruindo na raiz o fundamento do patriarcado e do machismo, sob todas as suas formas de controle, submissão e imposição do homem sobre a mulher. Não só no matrimônio, mas em qualquer instituição, civil ou religiosa.

O evangelho de hoje nos convida a retornar ao início da criação do ser humano, homem e mulher, chamados a viver a vocação da união mútua. O homem deve deixar seu pai e sua mãe, deve abandonar o sistema patriarcal e empreender um novo caminho, não já em solidão, mas na união maior imaginável: “se unirá à sua mulher e serão os dois uma só carne”. A identidade não é uma soma, mas a comunhão crescente que busca a unidade. Esta proposta original de Deus é vivida sempre entre os casais, de ontem e dos tempos atuais?

Hoje descobrimos, talvez com mais claridade que em outros tempos, o quão difícil para muitos casais manter a unidade amorosa, que no princípio de sua relação parecia ser tão forte.

São muitos os fatores dissonantes que impedem o “concerto amoroso”, são muitos os distanciamentos, as incompatibilidades, as divisões..., que esfriam o romance entre os casais. Hoje também, mais conhecedores da biologia e da psicologia humana, somos mais sensíveis e compreensivos para com aqueles que vivem profundos conflitos na relação matrimonial e, no entanto, sentem o chamado para a unidade.

A partitura que o Criador nos oferece de comunhão entre o homem e a mulher é belíssima, é “imagem e semelhança do mesmo Deus”, mas também é difícil interpretá-la como projeto de vida e de aliança sem volta atrás.

Jesus, na sua vida oculta e pública, encontrou uma realidade de muitos casais que não correspondia àquela desejada por seu Abbá Criador: “no princípio não foi assim!”. Ele que tem palavras de vida (transmissoras de vida), afirma taxativamente: “O que Deus uniu, o homem não separe”.

Estas palavras não são uma lei fria, mas uma promessa, uma realidade possível. O ser humano pode bloquear, com sua falta de fé e seu compromisso, o dom que lhe foi concedido. É preciso deixar o protagonismo para Deus na relação de casal.

Jesus convida a deixar-se unir por Deus, a descobrir aquela pessoa, na qual cada ser humano encontra sua “ajuda semelhante”. É preciso saber discernir que é “o que Deus uniu”. Bendizer aquilo que Deus “não uniu” é uma profanação. A beleza do Sacramento do Matrimônio está precisamente em deixar transparecer a benção de Deus diante daquele casal que Ele foi unindo através da aventura e do romance amoroso.

Ou seja, “serão uma só carne” quando realizam essa união ao longo da vida; tal realidade não se revela de forma automática ou mágica no instante de dizer “sim, quero”. Demora toda uma vida em realizá-la; às vezes não se consegue, o vínculo se interrompe ou se fragiliza. Requer, em alguns casos, sanação; em outros, refazer o caminho da vida.

O Evangelho de Jesus Cristo não é um código canônico, mas a Boa Nova da misericórdia. Deus nos ama também e, sobretudo, em nossas falhas e fracassos. A Igreja não é alfândega, mas casa paterna-materna onde há lugar para cada um com sua vida, carregada de recursos e de fragilidades.

Não se trata de pôr em discussão a visão cristã do matrimônio, mas de ser fiéis a esse Jesus que, ao mesmo tempo que defende o matrimônio, se faz presente a todo homem ou mulher, oferecendo-lhes sua compreensão e sua graça. Nunca se deixa determinar pela lei que julga e condena; mas, deixa transparecer um coração compassivo e acolhedor para com aqueles(as) que fracassaram em seu projeto de amor mútuo.

O próprio Jesus, que condena o adultério, se apresenta como defensor de uma mulher surpreendida em adultério, quando se encontra com ela cara a cara, cuja vida as autoridades religiosas queriam eliminar, Jesus, com sua atitude misericordiosa, longe de destruí-la, a perdoa e lhe oferece um novo futuro: “Nem eu te condeno. Vai e de agora em diante não peques mais”. Esta é a atitude mais humana e humanizadora: crítica exigente frente a uma sociedade que chama “amor” a qualquer coisa. E toda a compreensão do mundo diante de quem tem que viver situações de dor e de sofrimento, porque seu amor se rompeu ou fracassou.

Os fracassos matrimoniais não são sempre e nem fundamentalmente um problema jurídico que se possa resolver com determinadas leis. São problemas pessoais, emocionais, psíquicos, de raízes e consequências muito profundas, que as leis não podem nunca solucionar.

Temos de redescobrir atitudes mais próximas para com os casais rompidos, independentemente de soluções jurídicas, civis ou eclesiais. Como cristãos, não podemos fechar os olhos diante de um fato profundamente doloroso. Os(as) divorciados(as), geralmente, não se sentem compreendidos pela Igreja, nem pelas comunidades cristãs. A maioria só escuta a aplicação de leis e disciplinas que não conseguem entender. Abandonados(as) em seus problemas e sem a ajuda de que necessitam, não encontram na Igreja o lugar da acolhida.

É precisamente nestas circunstâncias quando deveríamos nos perguntar o que podemos fazer, como cristãos, para ajudar tantos homens e mulheres que vivem situações de profundas dores, provocadas por conflitos e incompatibilidades na vivência matrimonial. Não basta defender teoricamente a indissolubilidade matrimonial e impor mais pesos sobre os ombros dos casais católicos que não podem carregar.

Temos de nos perguntar: que ajudas as comunidades cristãs podem oferecer a tantas pessoas que fracassaram em seu matrimônio, devido a uma opção não amadurecida, a uma falta de conhecimento mais profundo do(a) parceiro(a), a uma deterioração em sua comunicação, a incompatibilidades psicológicas, ou simplesmente por uma atitude egoísta?

É injusto que, levados por um rigorismo e legalismo excessivo, marginalizemos e esqueçamos muitos homens e mulheres que se esforçaram por salvar seu matrimônio, e que já não tem mais forças para enfrentar sozinhos(as) seu futuro. Mais misericórdia e menos rigorismo!

Texto bíblico: Evangelho segundo Marcos 10,2-16

Na oração:

Fazer memória de muitas pessoas que sofrem por causa do fracasso matrimonial e que não encontram apoio na comunidade cristã.

- Qual sua atitude diante delas? Rigidez na aplicação de leis ou acolhida misericordiosa?

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

A vida é feita de tempo - 3º Domingo - Tempo Comum (B)

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 3º. Domingo do Tempo Comum (Ano B).


 “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo” (Mc 1,15)

O evangelho deste domingo é um texto de transição, pois fecha o prólogo (Mc 1,1-13) e abre a narração propriamente dita do evangelho. João Batista continua sendo pessoa de referência e servirá de contraponto histórico e teológico da história posterior. A prisão dele revela o ambiente de oposição e perseguição onde Jesus atuará, anunciando a Boa-Notícia.

Jesus foi para a Galileia”: o espaço geográfico (e teológico) de João Batista era o deserto com o rio Jordão. O espaço de Jesus, no entanto é a Galileia. Ele não se retira ao lugar da prova, nem se instala à margem da terra prometida; também não busca um lugar de missão junto aos átrios de Jerusalém, santuário nacional. Jesus se encontra vinculado à terra e às pessoas simples da Galileia, junto a um mar simbolicamente aberto às nações vizinhas. Ele se faz “margem” e começa seu ministério junto às margens.

O evangelista Marcos quer desligar a pregação de Jesus de toda conotação oficial: longe das autoridades religiosas, longe do templo e de tudo o que isso implicava. Galileia era região fronteiriça, terra da exclusão e da violência, habitada pelos mais pobres e sofredores.

Se algo chama a atenção em Jesus é sua paixão por um projeto de sentido que Ele denominou como Reino de Deus. Toda sua pessoa está mobilizada e polarizada por esse sonho, por essa utopia carregada de esperança ativa. Jesus é consciente de que com Ele começa uma história nova. A esperança se faz realidade. A consumação do mundo está começando.

Mas, a Galileia em si mesma não basta. A novidade do Evangelho se fundamenta na mensagem de Jesus: “cumpriu-se o tempo e chegou o reino de Deus; convertei-vos e crede no evangelho”. Esta é a afirmação-chave, que consta de duas frases paralelas duplas, cada uma com duas partes, unidas por um “e”. Como é usual em Marcos, a segunda serve para precisar o sentido da primeira: cumpriu-se o tempo “e” chega o reino (o reino define e dá sentido ao tempo); convertei-vos “e” crede no evangelho (a fé dá sentido à conversão).

O progresso temático é claro: passamos do Batista (deserto/rio) à Galileia, descobrindo ali a mensagem de Jesus, aberta a todas as pessoas. Ele não se fecha nas casas, sussurrando ao ouvido um segredo de iniciados; não se instala numa escola, oferecendo cursos longos de ensinamento especializado; não oferece sua palavra à beira do templo sagrado (aos puros), nem à margem do rio/deserto (aos especialistas da penitência). Dirige-se à Galileia, oferecendo seu evangelho a todos; faz isso com claridade (para que seja bem entendido), em voz alta (que o escutem), como arauto ou mensageiro de boas notícias que devem se estender pelos povoados. Por isso, anúncio e chamado estão profundamente unidos; com seu anúncio, Jesus desperta o que há de mais humano em cada um e o chama a entrar no fluxo da Sua nobre missão: “farei de vós pescadores do humano”.

Atento ao “tempo oportuno” Jesus pôs-se a proclamar a “boa notícia” da parte de Deus. Ele não espera, como João, que as pessoas venham ao seu encontro. Faz-se peregrino e dirige-se às pessoas, sobretudo aquelas que estavam à margem, excluídas e sem esperança. Cumpriu-se o “kairós”, ou seja, o tempo oportuno, carregado de sentido e de Presença; um tempo que se abre às surpresas de Deus e que mobiliza cada pessoa a viver de uma maneira diferenciada, rompendo com a vida rotineira e repetitiva.

A fé do povo de Israel sempre se deixou guiar pelo tempo de Deus, por suas intervenções salvíficas.

Esta fé é a que lhe conduz a uma visão histórica do tempo, enquanto se trata do “hoje eterno de Deus” apontando para a Terra Prometida, lugar do destino do povo. Descobre-se o tempo como momento no qual acontece algo qualitativamente novo e não explicável a partir do ritmo cíclico da natureza.

A atividade profética vai significar um passo decisivo na concepção do tempo dentro de Israel.

Os profetas anunciam um novo ato salvífico de Deus que está por chegar e que será decisivo para Israel.

A partir desse momento, o povo vai viver o tempo como expectativa e espera ansiosa de um momento definitivo em sua existência: a realização da Promessa.

E Jesus inicia sua missão pública entrando no fluxo dessa expectativa do povo.

O Filho do Homem vive na espera paciente de seu momento. Sua sabedoria consiste em saber aguardar que o tempo chega à sua colheita, sem cair na tentação de forçar sua maturação.

Nessa perspectiva, não podemos viver o tempo como se este fosse algo meramente plano e indiferente. O Senhor do tempo e da História se faz presente em nossos corações, através do seu Espírito de Amor. E o tempo se faz, simultaneamente, princípio e fim, Alfa e Ômega.

Cada dia e cada momento tem seu matiz, sua cor e sua novidade. Não é o mesmo a primavera que o inverno, ou o sábado que a segunda-feira.

Para Jesus, o tempo que se recebe em graça e que se converte em missão, é que dá sentido à sua vida neste mundo. Ele acolhe de seu Pai o “dom do tempo” e o encarna na história humana de maneira iluminadora. Receber este “dom do tempo” requer uma disposição nova por parte do ser humano.

O sentido do tempo é o grande desafio na condução da nossa vida.

Inconscientemente, muitas vezes resistimos a fazer uso adequado deste bem precioso e insubstituível; outras vezes, usamos o tempo de forma mais contra do que a favor de nossos desejos e objetivos.

Ao irromper no tempo histórico como presença viva de Deus-Amor, Jesus nos convoca a nada mais esperar: “O tempo já se completou”. O apelo de Jesus deve estar encaminhado a descobrir o que estamos fazendo com nosso tempo. Podemos estar desperdiçando ou perdendo aquilo que nos foi dado para vivermos com intensidade e inspiração. Os anos vão se passando e com eles as oportunidades de dar verdadeiro sentido à nossa vida.

Só quando a pessoa recupera o sentido do transcurso do tempo, estará preparada para bem viver.

Afinal, “não temos tempo, somos tempo”. Nós não temos o tempo; o tempo é o que somos, pois quando não somos, já não há tempo que valha a pena; o tempo torna-se “normótico”, pesado, insuportável...

“Somos tempo” e por maiores que sejam os avanços tecnológicos e de pensamento, isso não mudará. É o mais valioso que nós temos; é o maior presente que podemos fazer uns aos outros: nosso tempo.

O que define nossa cultura pós-moderna é o consumo do tempo. Se antes o ter deslocou o ser, agora o fazer está deslocando o ter como prioridade. Acumular ações, ter agenda cheia, ativismo... é o que está de moda. Estão sendo desenvolvidas as estratégias mais sofisticadas para que qualquer pessoa busque ocupar o tempo. Até o descanso foi despojado de sua gratuidade: os fins de semana e os tempos de férias são preenchidos com uma carga excessiva de atividade. “Os domingos estão precisando de feriados” (Bonder).

O tempo está tão medido e amordaçado que não há espaço para a duração, a gratuidade, a criatividade...

O pior, no entanto, não é ter feito do ativismo o “modus vivendi” por excelência, mas é o fato da pessoa estar perdendo a noção da temporalidade, ou seja, a perda do sentido da história.

O ritmo cronológico da vida acaba desembocando na tirania da imediatez. O “carpe diem”, está contribuindo para que o dom do tempo seja objeto de consumo e acabe, portanto, consumido, ou seja, gasto e extinto. Espera-se tudo do presente, e os dias se reduzem a uma soma de instantes sucessivos sem especial conexão. Ao dia de hoje não é necessário saber o que fizemos ontem e nem o que faremos amanhã.

Vivemos numa cultura onde preenchemos nosso tempo de “afazeres” para não nos deixarmos “fazer” pelo Espírito de Deus. “Perdemos” nosso tempo quando não nos conscientizamos, por alienação ou escapismo, de toda a densidade do momento como possibilidade e oportunidade de Vida.

Texto bíblico: Mc 1,14-20

Na oração:

O tempo da oração é o tempo de deixar-se afetar, cativar, entusiasmar..., pela pessoa, pela missão, pelo projeto de Jesus; é o tempo do amadurecimento e da concretização das opções e dos compromissos para segui-Lo pelos caminhos que Ele percorreu.

Mais que “preencher” o tempo, a atitude espiritualmente cristã de conversão é deixar-se “preencher” pela bondade de Deus no tempo; agora é o tempo de deixar-se conduzir, de encontrar-se...

Fé é criar, é deixar passar por nós a energia criadora-libertadora do Deus-providente, Senhor dos “tempos novos”.

Viver o tempo como oportunidade é arriscar-nos a ver o que cremos, a perceber a presença d’Aquele que se “faz tempo” e dá sentido pleno ao nosso tempo. É no tempo que expressamos o louvor, a ação de graças...