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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Nada pode destruir nosso ser essencial

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum (Ano A).


“Não tenhais medo!” (Mt 10,31)

 

O apelo “não tenhais medo!”, que aparece com insistência no evangelho deste domingo, está situada no contexto da missão. Jesus acaba de dizer a seus seguidores que serão perseguidos, encarcerados, inclusive serão mortos. No entanto, está claro que a advertência pode ser aplicada a todas as situações de medo paralisante que podemos encontrar na vida. 

Provavelmente, o medo é o que mais trava os cristãos no seguimento fiel de Jesus Cristo. O medo do vazio existencial, da noite escura da vida; o medo do futuro, do desconhecido, do não saber...; as pessoas têm medo do que pode descobrir se escuta seu coração, medo de seus próprios “infernos interiores” ou de sua beleza interior, que lhe está oculta; têm medo do novo, como se “conservar o passado” garante automaticamente a fidelidade ao Evangelho; têm medo de assumir as tensões e os conflitos que brotam do seguimento de Jesus: calam-se quando deveriam falar, inibem-se quando deveriam denunciar.

Há um medo instintivo que é produto da evolução humana. Este é imprescindível para garantir a sobrevivência de qualquer ser vivo. Seu objetivo é defender a vida, seja fugindo, seja liberando energia para enfrentar as ameaças. Este medo é natural e seria inútil lutar contra ele. Sabemos que o medo é um sentimento que brota no ser humano quando ele, diante de certas situações externas, interpreta como perigosas para sua sobrevivência. O medo é o resultado da evolução humana e, portanto, positivo. 

Mas, como seres humanos, podemos ser presas fáceis de um medo introjetado, ilusório, que nos impedem ativar nossas possibilidades de verdadeira humanidade. Este é o que nos trai e provoca transtornos constantes porque nos paralisa e nos atormenta. Com tais condicionamentos, não é estranho que a mente veja perigos por todos os lugares, instalando-nos no medo de maneira habitual, alimentando a ansiedade e trancando-nos em um cárcere interno que nos oprime cada vez mais. 

O pior é quando o medo é utilizado por aqueles que pretendem submeter o outro; ele é o sentimento fúnebre mais eficaz para dominar pessoas, grupos e nações. Todas as autoridades, civis e religiosas, utilizaram-no sempre para conseguir a submissão e a obediência de seus súditos. Não só é explorado por empresas que se dedicam a vender todo tipo de seguros, mas também pelas religiões que exploram seus seguidores, oferecendo-lhes seguranças absolutas, prêmios eternos, depois de ter-lhes infundido o medo irracional.

Também na Igreja atual há infidelidades e fragilidades, mas há sobretudo medo de correr riscos. Estamos vivendo tempos sem audácia para renovar criativamente a vivência da fé cristã.

O anúncio da Boa Notícia do Reino exige uma boa dose de coragem e ousadia; no entanto, infelizmente, o medo teve e continua tendo uma influência nefasta; muitos dirigentes religiosos caem na armadilha de potenciar esse medo e apelam para o legalismo, o moralismo, o ritualismo estéril, a ameaça...  A causa de não se atreverem a atualizar doutrinas, ritos e normas morais, é o medo de perder o controle absoluto (poder de consciência). 

As expressões religiosas de inspiração cristã continuam alimentando a falsa imagem de um Deus que é todo-poderoso, juiz universal, ameaçador..., e essa imagem está a serviço de seus interesses e poder.

Quão distante estamos do Deus Pai/Mãe de infinita misericórdia e amor, revelado por Jesus. Por isso mesmo, temos de confiar totalmente n’Ele, porque nada pode mudar seu amor e seu compromisso com seus filhos e filhas. A causa de Deus é a causa do ser humano. Não nos enganemos; colocar-nos no caminho do seguimento de Jesus é situar-nos no compromisso com as pessoas. Deus não está, com seu capricho, manejando sua criação a partir de fora e ameaçando a todos. Ele está implicado nela entranhavelmente; faz de toda a Criação sua morada. Sua vontade é imutável. 

Este medo artificial e “religioso”, em lugar de ajudar a nos defender, nos aniquila. Este medo é o contrário da fé-confiança. Se Jesus nos convida a não ter medo, não é porque nos promete um caminho de rosas. Não se trata de confiar que não acontecerá nada desagradável, ou que, se algo mau acontecer, alguém nos livrará disso. Trata-se de uma segurança que permanece intacta em meio às dificuldades e limitações, sabendo que os contratempos não podem anular o que somos de verdade. Deus não é a garantia de que tudo irá bem, mas a segurança de que Ele estará aí em qualquer situação. Quando exigimos de Deus que nos liberte de nossas limitações, estamos demonstrando que não amamos o que Deus fez.

 não é uma apólice de seguro, nem um tranquilizador, mas um desafio. A  não tira o véu do mistério, mas ensina a olhar através dele com admiração e esperança.

A verdadeira compreensão da fé prepara a mente e o coração para os riscos da vida cotidiana, sob o olhar amoroso de Deus. As pessoas se libertam do medo à medida que se fazem merecedoras da vida.

 é, na prática, a capacidade de viver num mundo de dúvida e insegurança, mas com uma promessa de verdade. fé não suprime a condição humana, a visão limitada, a mente vacilante, o coração indeciso..., mas dá ânimo e coragem de caminhar onde o chão não está firme, de ver onde o céu não está claro, de zarpar quando o mar está agitado; ela se manifesta como o poder de despertar em meio ao desânimo, de amar em meio à indiferença, de sorrir em meio à falta de compreensão.

confiança não surge de um voluntarismo a toda prova, mas de uma experiência profunda do que Deus é em nós“A finitude, quando é acolhida na verdade, não empobrece o ser humano, mas abre-o ao reconhecimento do rosto de Deus e do outro. Aliás, precisamente porque experimenta os limites – a vulnerabilidade, a dor, o insucesso –, ele pode reconhecer como inviolável a sua dignidade e a dos outros. E, na mesma experiência dos limites, continua capaz de intuir uma fraternidade maior do que ele próprio e de reconhecer a injustiça como escândalo” (Papa Leão XIV, MH n. 122)

Acolher nossas limitações e fragilidades e descobrir nossa verdadeira riqueza é o único caminho que nos faz chegar à total confiança. A confiança significa sair de nós mesmos e descobrir que nosso fundamento não depende de nós. O fato de que nosso ser não dependa de nós mesmos, não significa uma perda, mas um ganho, porque dependemos d’Aquele que é muito mais seguro que nós mesmos. Nosso passado é Deus mesmo, nosso futuro é também Deus; nosso presente está nas mãos de Deus e não temos nada a temer.

Só a ânsia de buscar seguranças e de controlar nosso próprio ser é o que nos faz entrar nesse beco sem saída que é a perturbação, o mal-estar, a insegurança, em uma palavra, o medo.

Falar de uma verdadeira confiança em Deus é nos situar em um terreno diferente porque nos obriga a quebrar as falsas imagens que temos d’Ele.

Confiar em Deus é confiar em nosso próprio ser, na vida, naquilo que somos de verdade. Não se trata de confiar em um Ser que está fora de nós e que pode nos dar, a partir de fora, aquilo que tanto desejamos. Trata-se de descobrir que Deus é o fundamento de nosso próprio ser e que podemos estar tão seguros de nós mesmos como Deus está seguro de si. Por maior que seja o motivo para temer, sempre será maior o motivo para confiar. Se cremos que Deus habita em tudo e em todos, então surgirá em nós um sentimento de total segurança, de total confiança em nós, naquilo que somos e naquilo que nós significamos para Deus.

Jesus nos convida a não ter medo de nada nem de ninguém: nem das coisas, nem de Deus, nem sequer de nós mesmos. Como seguidores(as) somos chamados(as) a superar o medo covarde, permanente, irracional, os sofrimentos imaginários, sombrios que nos tornam infelizes e nos fazem experimentar provações falsas e ilusórias. O compromisso com a proposta de Jesus sela o amor, que abole o medo da vida.


Porque é que o medo tantas vezes nos paralisa?

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 10,26-33

 

Na oração: 

Devemos estar sempre mais convencidos de que a experiência de Deus, tal como Jesus no-la oferece e comunica, infunde uma paz inconfundível em nosso coração, cheio de inquietações, medos e inseguranças. Esta paz é sempre o melhor sinal de que temos escutado, desde as profundezas de nosso ser, seu chamado: “Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais”.

- Dê nomes aos medos que estão paralisando sua vida.

sábado, 27 de outubro de 2018

Tecendo Olhares

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 30º Domingo do Tempo Comum (Ano B).

“Mestre, que eu veja”!’” (Mc 10,51)

Continuamos fazendo caminho com Jesus, rumo a Jerusalém. Estamos na última cena, antes de entrar na “cidade santa”, onde acontecerão os mistérios centrais da nossa fé: Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.
Detenhamo-nos em alguns detalhes que o evangelista Marcos deixa transparecer no evangelho deste domingo, para uma maior assimilação do modo de ser e agir de Jesus.
O cego Bartimeu é o símbolo da marginalização: está fora do caminho, jogado na sarjeta, sem poder se locomover, percebendo como os outros vão passando por ele, dependendo deles, de suas esmolas e de seus cuidados, porque não podia fazer outra coisa. Trata-se de um homem na beira do caminho, que vive às custas da bondade ou da maldade dos outros e, na maioria das vezes, à mercê da indiferença de todos; um homem sem ofício nem benefício e sem serviços sociais que o sustentassem ou o acompanhassem; um ser humano de quem ninguém queria se aproximar porque era tido também como impuro; um cego sem companhia, sem possibilidade de ser amado, habitando na solidão física e psíquica, com o agravante de sentir-se julgado e culpado, sem possibilidade de defesa, porque a sentença já era pública.
A situação de Bartimeu já estava determinada, ou seja, a exclusão; ele aparece aqui como alguém consciente de sua situação desesperada, de seus limites e de que sozinho não poderia superá-los. Mas não fica resignado com sua situação; este é o ponto de partida. Daí o grito por compaixão, quando percebe que Jesus passa por perto.
Como cego, não tem outro meio de chamar a atenção de Jesus senão gritando. Muitas pessoas próximas se irritam e o mandam calar a boca, mas ele o chama mais alto ainda. Ele investe toda sua força nessa oportunidade única e vai até Jesus, expressando assim sua alegria em encontrá-lo e em receber a sua ajuda.

Jesus é aquele que ouve, para e chama justamente aquele cego cujo grito perturbava e incomodava a “tranquilidade” da multidão que o seguia. Ele interrompe bruscamente a sua caminhada apressada para Jerusalém. Os dois ainda não se conheciam, mas era forte, em ambos, o desejo de se encontrar.
O cego levanta-se de um pulo, deixa de lado seu manto, sem hesitar: sua proteção, sua segurança, seu teto..., e entra na luz do olhar de Jesus. Sai de seu fechamento (o manto era considerado um prolongamento da pessoa); desfaz-se do que lhe trazia segurança e recupera sua dignidade: “pôs-se de pé”.
Ao lhe perguntar - “o que queres que eu te faça?” -, Jesus está ativando o protagonismo no outro, estabelecendo um diálogo de tu a tu, sem intermediários, oferecendo-lhe a possibilidade de afirmar-se diante de alguém, de ter uma palavra que é escutada (não só um grito que se instala como música de fundo para os transeuntes indiferentes), de expressar os desejos de seu coração, de “empalavrar” suas aspirações e esperanças. O espaço de diálogo experimentado devolve ao cego a confiança, conecta com suas forças resilientes, lhe confere autonomia e o mobiliza a entrar no caminho de Jesus.

A capa que antes acompanhava o cego e o protegia, agora é abandonada. Fica lá, na beira da estrada, marcando o lugar da mudança. A imagem que ela representa é coisa do passado. A capa continua lá no mesmo lugar, mas Bartimeu, agora tomado pelo olhar de Jesus, é homem do caminho, discípulo, seguidor. Ao chamado de Jesus, reage dando um salto. Salta para um novo olhar, salta ainda mais para um novo ser. Salta da vida sem graça, limitada a pedinte da margem do caminho, para a graça da vida de caminheiro solidário rumo à transformação.
Bartimeu viveu a experiência de uma profunda “travessia”: antes, cego e sentado à beira da estrada pedindo esmola; agora, com a visão recuperada, pode fazer a sua escolha: “...e seguia Jesus pelo caminho”. Esta frase expressa mobilidade e proximidade. Depois da experiência do encontro com Jesus, Bartimeu passou da imobilidade ao movimento, da exclusão à inclusão, do afastamento à proximidade...
Para ele, a obscuridade se tornou luz; a marginalidade se tornou estrada; o estranho se tornou familiar; a liberdade se tornou gratidão; a exclusão se tornou seguimento...

Ao “fixar seu olhar” em cada um(a) de nós, chamando-nos pelo nome, seremos movidos(as) a fazer eleições mais radicais e integrais pelo Reino, segundo o modo de ser, de viver e de fazer do próprio Jesus.
“Chamado-resposta” implica, pois, uma troca comprometedora de olhares. O olhar transparente e livre de Jesus ressuscita o nosso olhar tímido e estreito e nos capacita a olhar amplos horizontes: seu povo, seu mundo dividido e excluído... Seu olhar nos predispõe a encontrar motivações saudáveis e maduras que nos permitam olhar e viver no contexto atual plural com amor, com entusiasmo e criatividade.

Precisamos suplicar como o cego do relato de Marcos: Mestre, que eu veja!”, para poder reconhecer e agradecer, descobrir portas onde antes víamos muros. Hoje somos afetados por muitas cegueiras: não vemos aqueles que economicamente não são contados, e há milhões de pessoas consideradas invisíveis.
Estamos ameaçados pela cegueira da segurança, da intolerância, do preconceito..., e aqueles que são diferentes nos parecem estranhos. As telas frias dos aparelhos eletrônicos tiram o brilho e o calor de nosso olhar e petrificam o nosso coração. Vivemos cegos pela pressa e pelo auto-centramento; e as rupturas humanas, as divisões e o ódio, embotam nossos sentidos e nos cegam a respeito de nossa unidade essencial.
É preciso deixar que o Evangelho e os outros vão nos tirando as vendas, vão nos curando a visão, vão nos despertando para que possamos chegar a ser homens e mulheres de olhos grandes, que contemplam a vida em sua profundidade e em sua vulnerabilidade, e também em suas infinitas possibilidades.

Sabemos que toda a realidade nos entra pelas janelas de nossos olhos. Cultivar a espiritualidade em nossa vida cotidiana tem a ver com aprender a olhar de outra maneira, e aprender a observar sem qualificar, sem medir, sem emitir juízo, simplesmente, recebendo o que existe, deixando-o ser, dando-lhe espaço.
Uma visão sadia, é aquela que sabe ver o outro no melhor de si mesmo, em seu mistério único, em sua originalidade, em todo seu potencial latente ainda por acontecer; e que sabe também aceitar suas arestas, sua parte de sombra, sem rejeitar nada. Um olhar que descobre uma sensibilidade por debaixo da aparente aspereza, que reconhece a benção que se oculta por detrás da ferida. Um olhar amável e incondicional que oferece o espaço para que os nós existenciais comecem a se desatar e a vida possa fluir.
Que possamos olhar através dos outros e ativar dentro de nós aquela bem-aventurança: “Ditosos vossos olhos porque vêem” (Mt 13,16).
A oração é o ambiente natural para mobilizar-nos, expandir nosso olhar e preparar-nos para o grande salto da vida: um novo projeto, um novo compromisso, uma nova missão....


Texto bíblicoMc 10,46-52

Na oração: Chegaremos algum dia a aprender, como Jesus, a olhar através dos olhos dos simples e pequenos deste mundo?
Quando nos abrimos a outros olhares, quando chegamos a poder olhar pelos olhos daqueles que estão em um lado da vida diferente do nosso, expande-se em nós a capacidade de perceber e agradecer a realidade.
Nosso modo de olhar depende do lugar onde pisamos: olhar burguês, olhar preconceituoso, olhar intolerante...
- Faça um pequeno exercício de “olhar a si mesmo” com o olhar do pobre, do excluído, daquele que pensa e sente diferente... Como você se sente?

sábado, 8 de setembro de 2018

Abrir os Sentidos para o Encontro

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 23º Domingo do Tempo Comum (Ano B).

“Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galiléia...(Mc 7,31)

Uma imagem constante no evangelho de Marcos: Jesus, portador da Vida, é um itinerante; rompe os espaços geográficos-culturais-religiosos e transita com muita liberdade pelo território pagão. Ali também encontravam-se os excluídos, aspirando viver relações mais humanizadoras.
Nesse deslocamento, algumas pessoas trazem um surdo-mudo a Jesus e pedem que lhe imponha a mão. O surdo-mudo poderia ir ao encontro d’Ele, mas não teria como expressar seu pedido.
Portanto, parece lógico, que alguém tivesse que atuar para conduzir o surdo-mudo até Jesus, para que fosse “tocado”; aqui aparece a força do contato.
Sabemos pouco da riqueza de nosso contato. O contato nos cura. É um caminho de comunicação maravilhoso. Na enfermidade, muitas pessoas não buscam mais que o contato. Um verdadeiro contato nos envia sempre para dentro. Não é somente o contato da pele, mas o que nos põe em marcha para nosso interior.
O contato nos faz despertar. Existe a idade da palavra, a do ouvido, a do olhar..., mas neste momento Jesus se detém na idade do contato. O caminho do contato é o da mais profunda comunhão.
A mão é fonte de contato, é canal de passagem da energia curativa.

O Mestre separa o surdo-mudo da multidão e lhe confere uma atenção especial, em um espaço protegido, onde pode estar a sós com o doente. É apenas nesse encontro entre os dois que a confiança necessária pode crescer para que aquele, cuja boca e ouvidos estão fechados, se abram.
O processo da cura do surdo-mudo é descrito aqui em cinco passos, onde Jesus abre a possibilidade para o encontro deste homem com os outros e para o encontro com o Pai: coloca os dedos nos ouvidos do surdo, toca a língua do mudo, eleva os olhos ao céu, suspira e ordena:  “Efatá” – “abre-te”.
Palavra dirigida ao coração do surdo-mudo. É como se dissesse: “abre-te à tua identidade! Destrava teu interior!” Depois de tantos passos através do não-verbal, vem a palavra. E o surdo-mudo desata sua língua e começa a falar.
Contrariamente aos outros milagres, Jesus realiza uma série de gestos que demonstravam proximidade e envolvimento: tocou o corpo do homem, olhou para o céu, exprimindo sua comunhão com o Pai, e suspirou como sinal de participação profunda no acontecimento. A cura deixa de ser um ritual puramente exterior, mas brota de um encontro, de um gesto que demonstra comunhão entre o doente e Jesus.
Jesus, com seus sentidos abertos e acolhedores, destrava os sentidos do pobre homem excluído e o capacita a integrar-se na convivência social; com os sentidos abertos, agora ele pode expressar a riqueza de sua interioridade. Uma vez libertado da atrofia dos sentidos, o homem se emancipou, recuperou sua autonomia e agora pode manifestar-se sem bloqueios; nada mais o limita.
Com todos os órgão e sentidos do seu corpo mobilizados, ele insere-se na comunidade que ouve a Deus e proclama que Ele é o único Senhor. Desaparecem as causas que lhe impediam optar com liberdade; a possibilidade de uma nova vida se abriu para ele.

Nessa nobre missão de ajudar os outros a “dar à luz” o melhor deles mesmos, Jesus foi um sábio “parteiro”: n’Ele podemos contemplar em quê consiste o saber servir de ajuda para que a vida possa emergir como dom.
Jesus se dedica ao surdo-mudo de forma carinhosa, como uma mãe. Ele toca a língua do mudo com sua saliva. Este é um gesto maternal. O surdo-mudo só consegue abrir seus ouvidos e sua língua, num ambiente marcado pela confiança e pelo amor maternal.
É sugestiva a imagem de ser “parteiro da vida”, ou seja, saber favorecer o nascimento de cada um, em sua verdade mais profunda, em todas as suas possibilidades. É colaborar com o Deus Pai/Mãe nessa bela missão, ajudando cada pessoa a ser o que pode e está chamada a ser.
“Ativar e expandir vida” foi a paixão que mobilizou todo o ministério de Jesus: seu desejo de que todos tivessem vida e vida em plenitude, sua capacidade de fazer emergir a vida atrofiada, centrou-se de um modo especial nos excluídos, marginalizados, enfermos, pessoas “oficialmente pecadoras”...; pois, assim Deus o havia revelado, assim sentia Ele seu coração entrar em sintonia com o coração do Pai, que põe mais amor onde há mais necessidade.
Poder “dar vida”, capacitar para que cada pessoa pudesse viver sua vida e sua verdadeira identidade foi, para Jesus, uma fonte profunda de fecundidade e de felicidade.

Assim como o surdo-mudo, também nós podemos viver dentro de bolhas, que nos atrofiam e impedem que cheguem até nós o rumor da vida dos demais, com seus problemas e suas alegrias; ou permanecer fe-

chados dentro de nossas pequenas fronteiras, com dificuldades para expressar o que sentimos e vivemos.
Enquanto permanecemos fechados, reduzidos a falsas identidades, geramos confusão e sofrimento. Acreditamos naquilo que não somos e esquecemos quem realmente somos. Tal fechamento evoca a imagem de uma jaula, feita à medida dos limites que nossa própria mente estabelece. Condenar-nos-emos a um sofrimento estéril e insolúvel, por um único motivo: confundimo-nos com algo que não somos.
“Efatá”: “abre-te”. O ser humano, mesmo sendo pura abertura e amplitude sem limites, tende a fechar-se. Talvez, porque isso lhe traz uma sensação de segurança, ao crer que mantém o controle sobre o pequeno espaço ao qual se reduziu.
Para começar, ele se fecha em seu próprio corpo, como se as fronteiras físicas do mesmo delimitassem também sua identidade; fecha-se em suas ideias atrofiadas, em sua religião burguesa, em seu legalismo e moralismo doentios, em suas intolerâncias e preconceitos...
Nesse contexto, a palavra de Jesus aparece como um convite firme a sair de qualquer identificação redutora: “abre-te”, “não te mantenhas fechado na crença de uma identidade isolada, que não pode ouvir nem contar a Beleza que realmente és”.
“Abre-te”, “não te feches em nada, não te reduzas a nenhum objeto, não te deixes aprisionar em nenhuma jaula, reconheça a abertura sem limites do “oceano” que constitui tua verdadeira natureza”. “Abre-te”…, “A que? À tua verdadeira identidade!”

O surdo-mudo necessitava abrir os ouvidos e a língua, mas todos nós temos necessidade de abrir alguma dimensão de nossa pessoa, ou talvez alguma capacidade adormecida ou bloqueada.
É provável que, normalmente, a abertura seja progressiva: à medida que consentimos abrir algo em nós, ser-nos-á mostrado o próximo passo a ser dado. Como nas “sete moradas” de S. Teresa D’Ávila, diferentes portas se sucedem, uma depois de outra; assim se revela ser nosso mundo interior. Cada porta aberta nos coloca diante de outra nova “porta”, que clama para ser também aberta.
E, no percurso interior, vamos tendo acesso a espaços cada vez mais originais e inspiradores, até chegar finalmente a nos reconhecer na Divina Morada, nossa verdadeira identidade, nosso “eu profundo”. Daí nasce a sabedoria, unindo corpo-mente-afetividade, coração.
Esse caminho conduz à descoberta de que somos Um com Aquele que nos habita e nos conecta com o universo, forjando nossa identidade de filhos(as), irmão e irmã de todos. Quando conectamos com esta realidade, toda nossa vida se equilibra e adquire sentido; esbarramos na Fonte.


Texto bíblico: Mc 7,31-37

Na oração:
No evangelho deste domingo, o autor transmite a palavra chave no próprio idioma de Jesus, o aramaico “Efatá”, “abre-te”.
É preciso deixar ressoar no próprio interior esta expressão; enquanto pronuncia, pergunte-se: “A quê ou em quê preciso abrir-me?”

- Quê portas de sua vida é preciso abrir? Capacidades adormecidas (amor, ternura, alegria, generosidade, solidariedade, liberdade...), defesas protetoras que se converteram em armadura oxidada (medo, indiferença, imagem idealizada, intolerância...), “manias” nas quais se instala, costumes e rotinas que o(a) mantém fecha-do(a) em uma bolha de tolerado conforto...

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

ANO NOVO: onde encontrar a novidade?

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do Primeiro Dia do Ano Novo.
Desejamos a todos um ano novo cheio de fé, amor, esperança e vontade de construir um mundo novo, mais justo e mais fraterno.

“Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido” (Lc 2,20)

A celebração do “Ano novo”, prática vivida em todas as culturas e religiões, parece responder a um desejo humano de “começar de novo”.
“O homem foi criado para que no mundo houvesse um começo”. Este pensamento de S. Agostinho deveria iluminar nossa vida ao longo deste novo ano que se inicia.
Desde que o ser humano surgiu da terra e sobre a terra, o mundo criado ganhou um “novo início”.
Nós o estamos reconstruindo incessantemente. “O ser humano é criado e é criativo”; pois é exatamente o dom de re-começar, sempre, que nos caracteriza como humanos.
Caminhamos hoje para algo novo; somos convocados pelo futuro a realizar projetos diferentes, possibilidades novas, “coisas” que nos acenam lá de longe e nos fazem uma proposta: “re-criem-nos”; coisas que surgem sob a forma de um desejo, de uma esperança... mas que sempre dependem de nós para se tornarem concretas. Elas exigem empenho, dedicação e criatividade.

Habita em nosso interior uma nostalgia de alguma coisa mais original, de um novo início e da tentativa de outros caminhos. Trata-se de uma aspiração de algo mais humilde e simples, que nasce do “húmus”, da terra que somos. É o desejo de sermos nós mesmos simplesmente, sinceramente, prazerosamente.
É a necessidade de viver re-começando, sempre.
A atitude do “recomeçar contínuo” revela-se como oportunidade para ativar outros recursos internos e colocar a vida em outro movimento, mais inspirado e criativo.
É inevitável que na existência humana se façam presentes a dor, o cansaço, a frustração, a repetição mecânica..., que ameaçam afogar as melhores expectativas. Frente a essa constatação, compreende-se a voz que brota das nossas entranhas e diz: “comecemos de novo”. A celebração do “ano novo”, neste sentido, significa a oferta de uma nova oportunidade à vida, para que ela tenha um novo sentido.
Somos impulsionados, continuamente, a romper com o formalismo e o convencional, a vida marcada pela ordem, normas claras e recompensas seguras... e caminhar para uma vida mais audaz e incerta, de horizontes amplos, de exigências que nos convidam a “começar de novo”, de significado mais universal.
Não caminhamos empurrados pelas costas, nem nossa vida é obra da inércia. Fomos feitos para o “mais”.

Ver a novidade em uma simples mudança de datas do calendário não passa de uma mera convenção. O 01 de janeiro não é mais “novo” que o 31 de dezembro. E, depois do rito de “passagem de ano”, tudo continuará sendo como era ontem, ou inclusive pior, porque, a ressaca da celebração será acompanhada pela frustração de comprovar que nada mudou.
É óbvio que a novidade não é “algo” que possamos encontrar “fora” para ser incorporada à nossa existência cotidiana. O máximo que podemos encontrar nesse nível são aparências de novidade que, satisfazendo por um momento nossa curiosidade, rapidamente nos farão voltar ao ritmo da rotina.
O “novo” está dentro de nós. Estamos no tempo para crescer na consciência de nosso verdadeiro ser e descobrir que estamos já na eternidade, que nosso verdadeiro ser não está no “kronos” mas no “kairós” (tempo de plenitude e de sentido). Nosso verdadeiro ser é constituído pelo divino que há em nós, e isso é eterno, é sempre novo. Somos já a plenitude e estamos no eterno.

Nesse sentido, novidade é sinônimo de viçoso, abertura, presença, vida; a vida sempre é nova, e vai acompanhada de atitudes e sentimentos de surpresa, admiração, louvor, gratidão, comunhão e plenitude.
         “E todos os que ouviram os pastores ficaram maravilhados com aquilo que contavam” (Lc 2,18).
Seria um crime transformar a vida num velódromo, dando voltas sempre em torno ao mesmo circuito de 365 dias, sem avançar nada.  
Vida expansiva, projetada para todas as direções e sintonizada com as surpresas, grandes e pequenas, que a plenificam e lhe dão um sentido de eternidade. “A vida é demasiado breve para ser mesquinha(Disraeli).
Tudo isto é o que, saibamos ou não, nosso coração aspira. Mas, habitualmente, o buscamos onde não pode encontrar-se. Os pastores, movidos por uma sensibilidade especial, foram capazes de encontrar onde ninguém pensaria encontrar:

Este ano será novo se aprendermos a crer na vida de maneira nova e mais confiada, se encontrarmos gestos novos e mais amáveis para conviver com os outros, se despertarmos em nosso coração uma compaixão nova para com aqueles que sofrem.
Quem sabe, o Evangelho de hoje nos possa inspirar para que, algum dia, aprendamos a viver cada momento como se fosse o último, ou melhor, o mais completo, o mais ditoso: a melhor oportunidade para uma presença inspiradora, para o abraço mais acolhedor, para a palavra melhor pronunciada ou o silêncio mais criativo, para o gesto solidário mais espontâneo... É como se cada momento fosse sagrado e eterno.
O cristão é aquele que, como os pastores de Belém, conserva límpido os seus olhos interiores, prontos para perceber a maravilha que está sendo germinada em sua vida. Movido por um olhar novo, ele acolhe a surpresa de Deus, passa a ser surpresa para os outros, com seu gesto de amor imprevisto, com sua palavra que reanima, com sua visita que consola, com sua atenção para com todos os que levam uma vida obscura e monótona.

“Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido”. Qual foi o novo e o surpreendente que encontraram: um recém-nascido deitado na manjedoura. Trata-se do “novo” despojado de ornamentos, de poder, de riquezas. Tiveram olhos e ouvidos abertos para se deixarem impactar pela imagem, humanamente simples; o encontro com o “Deus que se humanizou” possibilitou o retorno à eterna infância, escondida na própria interioridade.
Porque descobriram facilmente o Infinito, passaram a viver humildemente sua condição humana na paz, na alegria e na gratidão.

Texto bíblico: Lucas 2,16-21

Na oração: A partir do “olhar” admirado dos pastores, iniciar, ao longo deste ano, um processo minucioso de extirpação das “cataratas” do seu olhar interior: o olhar das lembranças negativas, das suspeitas, dos julgamentos, das comparações... e reacender o olhar contemplativo capaz de expressar a benevolência, a delicadeza, a acolhida, a cortesia, a serenidade, a modéstia, a afabilidade, a alegria simples de estar junto...
- Re-cor-dar todos os “olhares amorosos” que Deus foi depositando sobre você ao longo da vida.
- Coração e olhos espreitam na mesma direção. São os puros de coração os que verão a Deus (Mt. 5,8).

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Tornar-se você mesmo

Compartilhamos a descrição de um pequeno filme de curta metragem que, quase sem palavras, nos faz refletir sobre as influências que encontramos para nos tornar quem somos.


La Luna (A Lua) é um curta-metragem da Pixar Animation Studios, dirigido e escrito por Enrico Casarosa, foi exibido em 2012 nas sessões do filme Valente, antes que o longa começasse. La Luna teve uma merecida indicação ao Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação.

A sinopse oficial conta que “La luna” “é uma fábula eterna sobre um menino que está crescendo em circunstâncias muito especiais”. A projeção, com duração de pouco menos de cinco minutos, se passa ao longo de uma noite – a primeira vez que o garoto acompanha o pai e o avô no trabalho. O trio sai pelo mar a bordo de um bote de madeira.

“Uma grande surpresa aguarda o pequeno à medida que descobre qual é o singular trabalho de sua família”, continua o texto de divulgação. “Será que ele deve seguir o exemplo do pai e do avô? Será ele capaz de encontrar o próprio caminho em meio as opiniões conflitantes de sua família e de suas tradições já desgastadas pelo tempo?”

Assista até o fim. Isso é tudo que pode ser dito sobre este curta. Durante uma boa parte dele você fica se perguntando o que realmente está acontecendo – eles estão tentando roubar a lua?

A metáfora presente no curta é bem interessante, e mostra como as crianças imitam os trejeitos daqueles que amam e, ademais, indica com maestria que é necessário que os jovens encontrem seu próprio caminho quando surge um problema e nenhum dos seus heróis, pai e avô, conseguem resolvê-lo. Com a criatividade e a inocência própria de uma criança, ele abre seu caminho ao mesmo tempo em que descobre que legal mesmo é usar o boné virado para trás.

Fonte: A grande arte de ser feliz

segunda-feira, 24 de julho de 2017

31 dias com Santo Inácio de Loyola – Dia 24

Dia 24: Aplicação dos sentidos


Santo Inácio nos sugere que podemos orar sobre sentidos do mesmo modo que oramos sobre guardar os mandamentos (EE 247). Ele sugere que usemos nossos sentidos para começar a contemplar: ver as pessoas, ouvir o que elas dizem, observar o que elas fazem. Estes são os tradicionais usos dos sentidos.

A aplicação dos sentidos usada na contemplação inaciana é bem distinta e começa logo na Segunda Semana dos Exercícios Espirituais. A partir dele, contemplamos um evento da vida de Jesus por quatro horas a cada dia, começando na primeira hora, por volta da meia-noite. À tarde, sua memória está repleta de imagens, sua mente de significados e seu coração ocupado por afetos e sentimentos. A seguir passa-se para a quinta hora, aplicando os cincos sentidos sobre o evento que tenha sido contemplado (EE 121).

Inácio explica que é só olhar e sentir a infinita fragrância e saborear a doçura da divindade (EE 124). Mas não se abstraia demais: como abraçar ou senta-se embaixo de uma árvore que apareceu na cena do Evangelho. Você deve mesmo é aplicar seus sentidos na alma e nas virtudes das pessoas que você está contemplando: posso sentir o anseio do Jovem Rico (Mt 19,16-22)? Tomé tirou a sua mão quando Jesus a colocou no seu lado (Jo 20, 24-29)?

Com esta aplicação dos sentidos, a contemplação inaciana nunca será uma experiência de sair do corpo, mesmo no seu mais profundo. Nunca é apenas sobre você, porque é tudo sobre os espíritos envolvidos entre eles, você. 

Veja um exemplo de contemplação: 
Eu estou de cócoras em um canto do Cenáculo. Sinto uma calorosa fragrância de pão assando. Nossa Senhora tomou a mão de São Pedro no seu colo, sentados perto de uma parede. O jovem João estava deitado com a cabeça no colo de Tomé, os dois estavam chorando. Ninguém dizia nada. Então todos ouviram um pequeno barulho. Todos pularam: Jesus está de pé lá, sorrindo. Ele diz: “Paz”. Sua voz é profundamente bonita. Ele acariciou o rosto de sua mãe. Pedro ficou ali em pé e Jesus colocou seu braço nos ombros de Pedro. Eles se olharam e alguma intimidade apareceu entre eles. Alguma coisa me consolou e fiquei surpreso como Jesus se aproxima de cada um, afetuosamente. De repente, quase não consigo respirar. Jesus está de pé na minha frente e diz: “Levante-se”. Eu senti a sua mão no meu rosto. Ele me fez olhar para ele, eu vi que ele me ama. Eu continuo olhando e vejo em êxtase: ele me pede para amá-lo. Ele quer que o ame. Isto pareceu acontecer num longo tempo.

Então um sino tocou e eu voltei ao meu quarto, contente de estar entre meus amigos.

Proposta: Faça a experiência de viver uma cena do Evangelho, de perceber os sentimentos, os olhares, os anseios das pessoas envolvidas na cena... Deixe-se tocar pela presença de Jesus, usando todos os seus sentidos.

Fonte: Adaptação livre do site Ignatian Spirituality

sexta-feira, 21 de julho de 2017

31 dias com Santo Inácio de Loyola – Dia 21

Dia 21: Prove e veja: Experimentando Deus com o sentido do Olfato


Pare e cheire as rosas: é um convite familiar. É um chamado para diminuir a velocidade e aproveitar a vida à medida em que a vivemos.
Existem muitas maneiras diferentes de fazer pausas na vida. Nós poderíamos sugerir: parar e olhar para o céu ou parar e ouvir o canto dos pássaros... Mas vamos considerar agora o sentido do Olfato, reconhecendo o poder do cheiro e de perfume em influenciar positivamente nossa vida diária.

Obviamente, há momentos em que o sentido do olfato parece mais uma maldição do que uma bênção. Uma fralda fedida, um lixo rançoso ou aquele perfume superforte em um elevador lotado pela manhã pode nos fazer desejar, temporariamente, que houvesse quatro sentidos em vez de cinco.

Mas o fato é que o sentido do olfato pode ser uma boa oportunidade para melhorar nossa qualidade de vida. Quando você considera o encanto das velas perfumadas e da aromaterapia, você vê o poder que um perfume agradável pode ter e com que frequência o usamos para melhorar nosso bem-estar.

O cheiro também está muito conectado com a memória, tanto que uma certa fragrância pode trazer de volta o passado em instantes. Anos atrás, lembro-me de estar na fila da Comunhão atrás de uma senhora que estava com um perfume igual ao último que a minha avó usava.  Embora tivessem passado anos desde a morte da minha avó, o cheiro me inundou com a súbita lembrança de sua presença. Foi um pequeno presente, como a graça, que vem do nada, mas é tão bem-vinda.

Mesmo que não seja traga memórias, uma fragrância convidativa pode mudar nossa experiência de um momento. Quando cheiramos algo que amamos, queremos saborear, o que implica pausar o que quer que estejamos fazendo, e inalar profundamente, saboreando a fragrância. Isso é diferente da nossa respiração na maior parte do tempo, que muitas vezes é superficial e rápida, principalmente quando estamos ocupados. Saborear o aroma de algo significa respirar intencionalmente, devagar. Isso significa preencher nossos pulmões de uma forma que nos centra e nos relaxa. Significa pausar em uma apreciação que é seu próprio tipo de oração.

Então, parar e cheirar rosas – ou um café fresco, ou uma floresta de pinheiros, ou as páginas de um livro novo – é algo realmente muito bom. É bom para o corpo; é bom para a nossa mente; é bom para nossas memórias. E, como lembrança da doçura da criação de Deus, é bom para a alma.

Proposta de ORAÇÃO:

Inicie: Centralize-se. Respire profundamente três vezes e procure se abrir a presença de Deus.

Agradeça: Agradeça a Deus pelo dom do olfato, pelas coisas do mundo criado que geram aromas convidativos e pelas lembranças do seu passado.

Reveja: Pense nos seus aromas favoritos. Faça uma lista deles se desejar. Pense nos momentos em que você os apreciou e pela alegria que eles lhe trouxeram.

Você já teve a experiência de cheirar algo e instantaneamente s lembrar de um lugar, uma pessoa ou uma experiência?  Como foi? Compartilhe a memória com Deus.

Pense em algumas de suas atividades favoritas. Qual o papel do cheiro em cada um deles? Imagine tomar um café no final da tarde sem sentir o cheiro... Comer um bolo de cenoura sem seu perfume... Ir a praia sem o cheiro do mar... Pense em como esses cheiros melhoram a experiência.

Olhe adiante: Amanhã, preste especial atenção aos cheiros que você encontra ao longo do seu dia. Quando terminar o dia, demore alguns minutos para revisá-los e perceber dos quais mais gostou.

EXPERIMENTE: 
Quando você sentir um cheiro que o agrade muito, tome um tempo para apreciá-lo. Respire profundamente e deixe seu corpo relaxar ao saborear o perfume. Pense na bondade e no amor de Deus enchendo você com cada respiração lenta e renovadora.

Fonte: Adaptação livre do site Ignatian Spirituality