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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Nada pode destruir nosso ser essencial

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum (Ano A).


“Não tenhais medo!” (Mt 10,31)

 

O apelo “não tenhais medo!”, que aparece com insistência no evangelho deste domingo, está situada no contexto da missão. Jesus acaba de dizer a seus seguidores que serão perseguidos, encarcerados, inclusive serão mortos. No entanto, está claro que a advertência pode ser aplicada a todas as situações de medo paralisante que podemos encontrar na vida. 

Provavelmente, o medo é o que mais trava os cristãos no seguimento fiel de Jesus Cristo. O medo do vazio existencial, da noite escura da vida; o medo do futuro, do desconhecido, do não saber...; as pessoas têm medo do que pode descobrir se escuta seu coração, medo de seus próprios “infernos interiores” ou de sua beleza interior, que lhe está oculta; têm medo do novo, como se “conservar o passado” garante automaticamente a fidelidade ao Evangelho; têm medo de assumir as tensões e os conflitos que brotam do seguimento de Jesus: calam-se quando deveriam falar, inibem-se quando deveriam denunciar.

Há um medo instintivo que é produto da evolução humana. Este é imprescindível para garantir a sobrevivência de qualquer ser vivo. Seu objetivo é defender a vida, seja fugindo, seja liberando energia para enfrentar as ameaças. Este medo é natural e seria inútil lutar contra ele. Sabemos que o medo é um sentimento que brota no ser humano quando ele, diante de certas situações externas, interpreta como perigosas para sua sobrevivência. O medo é o resultado da evolução humana e, portanto, positivo. 

Mas, como seres humanos, podemos ser presas fáceis de um medo introjetado, ilusório, que nos impedem ativar nossas possibilidades de verdadeira humanidade. Este é o que nos trai e provoca transtornos constantes porque nos paralisa e nos atormenta. Com tais condicionamentos, não é estranho que a mente veja perigos por todos os lugares, instalando-nos no medo de maneira habitual, alimentando a ansiedade e trancando-nos em um cárcere interno que nos oprime cada vez mais. 

O pior é quando o medo é utilizado por aqueles que pretendem submeter o outro; ele é o sentimento fúnebre mais eficaz para dominar pessoas, grupos e nações. Todas as autoridades, civis e religiosas, utilizaram-no sempre para conseguir a submissão e a obediência de seus súditos. Não só é explorado por empresas que se dedicam a vender todo tipo de seguros, mas também pelas religiões que exploram seus seguidores, oferecendo-lhes seguranças absolutas, prêmios eternos, depois de ter-lhes infundido o medo irracional.

Também na Igreja atual há infidelidades e fragilidades, mas há sobretudo medo de correr riscos. Estamos vivendo tempos sem audácia para renovar criativamente a vivência da fé cristã.

O anúncio da Boa Notícia do Reino exige uma boa dose de coragem e ousadia; no entanto, infelizmente, o medo teve e continua tendo uma influência nefasta; muitos dirigentes religiosos caem na armadilha de potenciar esse medo e apelam para o legalismo, o moralismo, o ritualismo estéril, a ameaça...  A causa de não se atreverem a atualizar doutrinas, ritos e normas morais, é o medo de perder o controle absoluto (poder de consciência). 

As expressões religiosas de inspiração cristã continuam alimentando a falsa imagem de um Deus que é todo-poderoso, juiz universal, ameaçador..., e essa imagem está a serviço de seus interesses e poder.

Quão distante estamos do Deus Pai/Mãe de infinita misericórdia e amor, revelado por Jesus. Por isso mesmo, temos de confiar totalmente n’Ele, porque nada pode mudar seu amor e seu compromisso com seus filhos e filhas. A causa de Deus é a causa do ser humano. Não nos enganemos; colocar-nos no caminho do seguimento de Jesus é situar-nos no compromisso com as pessoas. Deus não está, com seu capricho, manejando sua criação a partir de fora e ameaçando a todos. Ele está implicado nela entranhavelmente; faz de toda a Criação sua morada. Sua vontade é imutável. 

Este medo artificial e “religioso”, em lugar de ajudar a nos defender, nos aniquila. Este medo é o contrário da fé-confiança. Se Jesus nos convida a não ter medo, não é porque nos promete um caminho de rosas. Não se trata de confiar que não acontecerá nada desagradável, ou que, se algo mau acontecer, alguém nos livrará disso. Trata-se de uma segurança que permanece intacta em meio às dificuldades e limitações, sabendo que os contratempos não podem anular o que somos de verdade. Deus não é a garantia de que tudo irá bem, mas a segurança de que Ele estará aí em qualquer situação. Quando exigimos de Deus que nos liberte de nossas limitações, estamos demonstrando que não amamos o que Deus fez.

 não é uma apólice de seguro, nem um tranquilizador, mas um desafio. A  não tira o véu do mistério, mas ensina a olhar através dele com admiração e esperança.

A verdadeira compreensão da fé prepara a mente e o coração para os riscos da vida cotidiana, sob o olhar amoroso de Deus. As pessoas se libertam do medo à medida que se fazem merecedoras da vida.

 é, na prática, a capacidade de viver num mundo de dúvida e insegurança, mas com uma promessa de verdade. fé não suprime a condição humana, a visão limitada, a mente vacilante, o coração indeciso..., mas dá ânimo e coragem de caminhar onde o chão não está firme, de ver onde o céu não está claro, de zarpar quando o mar está agitado; ela se manifesta como o poder de despertar em meio ao desânimo, de amar em meio à indiferença, de sorrir em meio à falta de compreensão.

confiança não surge de um voluntarismo a toda prova, mas de uma experiência profunda do que Deus é em nós“A finitude, quando é acolhida na verdade, não empobrece o ser humano, mas abre-o ao reconhecimento do rosto de Deus e do outro. Aliás, precisamente porque experimenta os limites – a vulnerabilidade, a dor, o insucesso –, ele pode reconhecer como inviolável a sua dignidade e a dos outros. E, na mesma experiência dos limites, continua capaz de intuir uma fraternidade maior do que ele próprio e de reconhecer a injustiça como escândalo” (Papa Leão XIV, MH n. 122)

Acolher nossas limitações e fragilidades e descobrir nossa verdadeira riqueza é o único caminho que nos faz chegar à total confiança. A confiança significa sair de nós mesmos e descobrir que nosso fundamento não depende de nós. O fato de que nosso ser não dependa de nós mesmos, não significa uma perda, mas um ganho, porque dependemos d’Aquele que é muito mais seguro que nós mesmos. Nosso passado é Deus mesmo, nosso futuro é também Deus; nosso presente está nas mãos de Deus e não temos nada a temer.

Só a ânsia de buscar seguranças e de controlar nosso próprio ser é o que nos faz entrar nesse beco sem saída que é a perturbação, o mal-estar, a insegurança, em uma palavra, o medo.

Falar de uma verdadeira confiança em Deus é nos situar em um terreno diferente porque nos obriga a quebrar as falsas imagens que temos d’Ele.

Confiar em Deus é confiar em nosso próprio ser, na vida, naquilo que somos de verdade. Não se trata de confiar em um Ser que está fora de nós e que pode nos dar, a partir de fora, aquilo que tanto desejamos. Trata-se de descobrir que Deus é o fundamento de nosso próprio ser e que podemos estar tão seguros de nós mesmos como Deus está seguro de si. Por maior que seja o motivo para temer, sempre será maior o motivo para confiar. Se cremos que Deus habita em tudo e em todos, então surgirá em nós um sentimento de total segurança, de total confiança em nós, naquilo que somos e naquilo que nós significamos para Deus.

Jesus nos convida a não ter medo de nada nem de ninguém: nem das coisas, nem de Deus, nem sequer de nós mesmos. Como seguidores(as) somos chamados(as) a superar o medo covarde, permanente, irracional, os sofrimentos imaginários, sombrios que nos tornam infelizes e nos fazem experimentar provações falsas e ilusórias. O compromisso com a proposta de Jesus sela o amor, que abole o medo da vida.


Porque é que o medo tantas vezes nos paralisa?

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 10,26-33

 

Na oração: 

Devemos estar sempre mais convencidos de que a experiência de Deus, tal como Jesus no-la oferece e comunica, infunde uma paz inconfundível em nosso coração, cheio de inquietações, medos e inseguranças. Esta paz é sempre o melhor sinal de que temos escutado, desde as profundezas de nosso ser, seu chamado: “Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais”.

- Dê nomes aos medos que estão paralisando sua vida.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Criados para serem habitados

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho do 6º Domingo do Tempo Pascal (Ano C - 2025).


“...e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo 14,23)

Nestes últimos domingos do Tempo Pascal estamos tendo acesso a trechos do discurso de despedida de Jesus, relatado por S. João. E cada domingo apresenta uma boa dose de profundidade. Hoje o ensinamento de Jesus revela, de uma maneira muito gráfica, que Deus não está e nem pode estar fora de nós, fora da criação. É um Deus conosco, ou melhor, em nós. Deus habita em tudo e em todos.

O evangelho deste domingo ativa nossa sensibilidade mais profunda, fazendo-nos entrar em sintonia com Deus e com a realidade que nos cerca. “Deus habita e age diretamente no coração” e nos conduz com delicadeza, com carinho e com liberdade, preparando-nos para grandes experiências vitais. E nosso coração aberto, atento, sintonizado com a presença íntima de Deus, dispõe-se, coopera e responde à Graça divina, empenhando-se por encontrar “o que tanto busca e deseja”.

Essa é a experiência mística da vida: “sentir Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus”. Fazemos a experiência da intimidade, da presença, da comunhão, da proximidade de Deus em nossa própria vida; vivemos embriagados(as) de Vida, vivemos como um peixe no oceano de Deus, dizendo um profundo sim às ondas, ao vento, ao sol, à existência...; sentimo-nos cativados(as), envolvidos(as), amados(as), sintonizados(as), habitados(as) por Deus de tal maneira que nossos olhos, gestos, nossas atitudes, palavras, nosso coração, nossa existência transbordam Deus; percebemo-nos envolvidos(as) pela “onda” de Deus e sintonizamo-nos com o Seu coração. Tal experiência é incomunicável; ninguém pode vivê-la por nós.

“Todo ser humano foi criado para ser habitado” (Ir. Roger de Taizé). Trata-se de uma expressão surpreendente, uma frase que, de imediato, descreve algo que parece impossível. No entanto, se pensarmos bem, é o que ocorre com toda maternidade. O filho habita na mãe. Também Jesus um dia falou a Nicodemos que é preciso “nascer de novo” e a surpresa dele foi tal que exclamou: “por acaso, pode um homem entrar de novo no ventre de sua mãe?”. Para Jesus, “nascer de novo” só é possível por obra do Espírito,  conver-tendo-nos em nova criatura. Igualmente, poderíamos dizer que “sermos habitados” só é possível por obra do Espírito; é Ele que torna presente e real o próprio Deus em nossas vidas. Por isso S. Paulo afirma que somos “templos de Deus” ou “templos do Espírito”.

Quando alguém ama e é amado torna-se uma pessoa habitada pelo amado. Como se recebe a uma pessoa no próprio interior? Através do amor. Pelo amor, o amado se torna presente no mais íntimo do outro, habita no mais profundo dele mesmo. Se isto pode ser uma rica experiência antropológica, pode igualmente ser, e com mais razão, uma experiência teologal. Deus se faz o constitutivo mais íntimo de nossa personalidade quando lhe abrimos nosso coração, entrando no fluxo de Sua Vida. E então é possível dizer com toda verdade: “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”.

Cristo vive em nós: isso é exatamente “sermos habitados”. Vive em nós quando acolhemos sua Palavra e nos deixamos guiar por seu Espírito. E então acontece uma maravilha: nós nos sentimos cada vez mais nós mesmos, ao sentir-nos cada vez mais cheios de Deus. Porque Deus, ao habitar-nos, não anula nossa identidade; pelo contrário, nos constitui. É o constitutivo mais íntimo de nossa pessoa. 

De forma que o  crescimento em humanidade e o estar habitado pela Trindade são diretamente proporcio-nais, já que crescem na mesma direção.

Disse o Mestre Eckhart: “Deus me é mais próximo que eu mesmo o sou de mim mesmo; meu ser depende de que Deus esteja perto de mim e presente em mim. E quanto mais sei disso, mais feliz sou”. Muitas vezes nem nos damos conta disso. A Trindade não nos invade, não se impõe, não nos anula. Simplesmente se torna habitante, presença, inspiração. 

Quando sentimos que somos habitados por Deus ? Como é possível sentir isso? Quando sentimos a neces-sidade de algo mais; quando o cansaço não se converte em derrota, mas em parte do caminho; quando nossa imaginação é a porta aberta à criatividade; quando nosso interior está povoado pelos nomes de tantas pessoas as quais amamos e sentimos que são companheiras nesta viagem que é a vida, sempre presentes de muitas maneiras, mesmo quando já não estão ou podem estar longe; quando sentimos estremecer nossas entranhas ao perceber a dor do outro, mesmo que não o conheçamos e o sentimos próximo; quando deseja-mos que o futuro seja melhor, e compreendemos que nós somos também responsáveis para torná-lo possí-vel; quando temos a intuição profunda de que há limitações e fragilidades  na nossa vida porque somos criaturas; quando o sofrimento, a injustiça e a violência nos afetam, mas encontramos a força para enfrentá-los e seguir adiante; quando temos afã de conhecer mais: o mundo, o ser humano, a criação; quando nos atrevemos a perdoar e pedir perdão: descobrimos que algo, muito dentro, começa a ser curado; quando a alegria e o humor nos invadem e sentimos que não é preciso fazer drama diante daquilo que acontece; quando a beleza nos faz sentir assombro; quando, por um instante, sabemos, sem nenhuma dúvida, que estamos vinculados a outros; quando choramos por amor... Em todas essas faíscas de humanidade estão os reflexos do Espírito que se move em nós e que nos traz, a seu modo, o pulsar de Deus.

Por isso, nossa oração implica em fazer um percurso interior, nossa morada de Deus. No dom da oração, “o coração absorve Deus, e Deus absorve o coração, e os dois se fazem um” (S. João Crisóstomo).

Ao participarmos da mesma Vida de Deus, daquela que o mesmo Jesus participava, experimentamos a completa unidade com Jesus e com Deus. É uma experiência de unidade e identificação tão viva que nada nem ninguém poderá arrancá-la de nós. É uma comunhão de ser absoluta entre Deus e nós. Por isso, quando amamos, é o mesmo Deus quem ama. O Amor-Deus se manifesta em nós como se manifestou em Jesus.

O ritmo frenético e estressante do contexto atual, e, sobretudo, o culto à novidade, ao efêmero, ao superficial, impedem recuperar a dimensão da interioridade em nossa vida diária. Isso também nos impede perceber e sentir a presença divina que se move em nosso “eu profundo”.

Nesse sentido, a oração cristã facilita perceber as ressonâncias interiores do “toque” presencial de Deus, no mais profundo de nós mesmos, pois o santuário da presença de Deus está nesse espaço de intimidade entre a criatura e o Criador. Ele se comunica conosco através dos sentimentos elevados, dos desejos nobres, dos apelos inspiradores...

Deus quer suscitar vibrações novas em nossas vidas e sua Presença instigante desperta em nós o grande desejo de entrar em sintonia com Seu coração. Abrir os olhos e os ouvidos à Presença e à ação de Deus nos faz ficar atônitos, fascinados e sensíveis à Sua voz que cada dia ressoa em nosso interior.

Talvez seja preciso colocar outro ritmo em nossa existência, que nos permita estar atentos e à escuta das surpresas que Deus tem reservado a cada um de nós. A nós corresponde nos mobilizar e estar atentos aos movimentos do Seu Espírito e dos acontecimentos.

Podemos então afirmar que a busca de Deus e o encontro com Ele, a partir de Sua iniciativa, coincidem com a busca e o encontro de nós mesmos, de modo que buscar a Deus é buscar-nos a nós mesmos, na nossa própria interioridade. Afinal, caminhamos dentro de Deus; dentro d’Ele nos movemos, somos e existimos.

Quando quisermos saber onde está Deus só precisamos olhar-nos por dentro e ver se estamos habitados por Ele. Quando quisermos saber onde está o céu, não miremos para cima; basta que miremos nosso coração. Esse é o céu de Deus e, oxalá, seja também nosso céu.


Texto bíblico:  Evangelho segundo João 14,23-29

Na oração: 

O amor torna Deus presente em nós até o ponto de que Jesus e o Pai com o Espírito “morem em nós”, habitem em nós, nos convertam em sua casa, em seu céu.

- Todo cristão é testemunha de uma presença contemplada e ouvida no silêncio da oração. Deixe-se levar como se estivesse num rio, observando-se com um olhar interior, escutando, sentindo...

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Ressurreição: das cinzas às brasas na praia do mar de Tiberíades

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho do 3º Domingo da Páscoa (Ano C - 2025).

 “Logo que pisaram a terra, viram brasas acesas, com peixe em cima, e pão” (Jo 21,9)

O relato da última aparição de Jesus ressuscitado aos seus discípulos tem uma cena belíssima. Novamente juntos, na praia e entre redes, como no começo; novamente diante de um trabalho cansativo e ineficaz, como tantas vezes; novamente a dureza de cada dia, em um cotidiano sem Jesus, como antigamente.

No relato deste domingo, a comunidade eclesial é representada por sete discípulos (Pedro, Tomé, Natanael, Tiago, João e mais dois discípulos anônimos). No pensamento semítico, sete é o número simbólico da plenitude. Nos sete discípulos está representada a plenitude do novo Povo de Deus, a Igreja.

Mas, dos sete discípulos só cinco são nominados. Como no Evangelho de João, tudo é simbolicamente elaborado, também esse detalhe tem seu significado.

Podemos dizer que, nessa comunidade dos sete, nem todos encontraram a sua identidade. Estão em busca de um nome. Tudo ainda está aberto. Os discípulos anônimos também representam aqueles que mais tarde crerão em Cristo e farão parte da nova comunidade do Reino.

Os relatos das Aparições nos Evangelhos nos põem em contato com a situação de uma longa série de pes-soas desoladas. O “golpe” da Sexta-feira Santa não pôde ser bem interpretado, de imediato, por aquele grupo de pescadores e que tinha convivido com Jesus. Todos “fizeram mudança” em tempo de desolação. As esperanças se perderam, a bondade de Deus parecia se esconder para sempre, a lembrança de Jesus fora reduzida a um cadáver a respeitar, e, quem sabe, uma bonita história a esquecer.

O vazio, o abandono, a solidão, a escuridão da noite, a rotina do trabalho corriqueiro domina a paisagem do relato da Aparição do Ressuscitado junto ao mar de Tiberíades. O que mudou na cotidianidade pós-pascal da comunidade? Aparentemente, tudo voltou à normalidade da vida corriqueira.

No entanto, a presença e o reconhecimento do Senhor dão ao trabalho profissional da pescaria uma nova dimensão. Não se trata mais de uma simples pescaria. Pescaria e pescadores tornam-se imagem da plenitude da vida e da unidade da missão.

Pedro e João representam qualidades humanas que precisam ser integradas na vida de cada um e nas comunidades: ação e contemplação, liderança e amabilidade.

No retorno à praia, depois da abundante pesca, encontram algumas brasas, que recordam aquela fogueira em torno à qual, alguns dias antes, o velho pescador Pedro jurou não conhecer Jesus, negando-o três vezes. Agora, junto ao fogo irmão, Jesus lava com misericórdia a fraqueza de Pedro, transformando para sempre seu barro frágil em pedra fiel. A fidelidade e o amor de Jesus, sua graça sempre pronta, o humaniza de novo, reconstruindo sua vida e reativando em Pedro a liderança para o serviço. Sem ironia, sem indiretas, sem pagamento de dívidas atrasadas. Por pura graça, gratuitamente.

O Pedro que emerge das cinzas, atravessado pelo fogo terapêutico do amigo Jesus, é um Pedro corajoso, decidido, mas também muito mais amoroso, capaz de superar preconceitos antigos. Jesus percebe que por debaixo das cinzas da negação e da traição de Pedro está escondida a nobreza de um homem que precisa ser ativada.

O mundo e o contexto social e religioso no qual vivemos não é o mesmo dos primeiros discípulos. No entanto, se a vida cristã tem alguma coisa a dizer ao mundo atual, não pode se fixar nos velhos moldes de uma religião fria, arcaica, centrada no ritualismo e no legalismo, entupida de cinzas e carente de brasas vitais. A essência do cristianismo está na identificação com o Crucificado-Ressuscitado; somos seguidores(as) de uma Pessoa que pôs abaixo uma religião tóxica, que alimentava medo, culpa e angústia.

O que os cristãos precisam claramente, neste momento de desânimo e de abatimento, não é de resignação medrosa, mas de vida e vitalidade. Precisam da ardente fé para empreender novos caminhos, com entusiasmo renovado e sem temor.

A vida cristã não morrerá se ativarmos as brasas das bem-aventuranças em nosso interior. Esse é o fogo que nunca se apaga, deixado por Jesus. Segui-lo significa viver no calor de sua intimidade, de sua amizade.

Se o cristianismo sofre um esvaziamento no momento presente, talvez seja porque se rende com muita facilidade diante do perigo de extinção, sem se dar conta do que significa “manter as brasas e avivar o fogo”. Onde deveria reinar a ousadia reina a resignação e a passividade; onde deveria estar presente o ardor, a criatividade, encontra-se a frieza, a indiferença, a petrificação da vida. A tentação consiste em fazer da sobrevivência a máxima aspiração, em vez de viver a vida plenamente, com toda profundidade e o entusiasmo que essa vocação cristã exige.

Foi isso que o Ressuscitado fez ao encontrar-se com os seus amigos e amigas: reacendeu as brasas do amor, da compaixão, da amizade, da missão, do sonho do Reino...

A “vida ressuscitada”, mais que prudência, conformidade ou conservadorismo que pretendem preservar as coisas do passado em lugar de sua sabedoria, requer audácia, precisa de membros adultos que resistam ao envelhecimento da vida e de jovens que resistam ao envelhecimento da alma.

Somos já “seres ressuscitados” e esta certeza não justifica uma vida ancorada numa maneira tradicional de “pescar”. A capacidade de lançar as redes do outro lado do barco revela criatividade, ousadia e desejo de sair do túmulo do tradicional e da normose (normalidade doentia). A capacidade de arriscar é a virtude que faz a ponte entre a vida cristã atual e o novo que está para vir.

É preciso passar das “cinzas” dos conflitos, ódios, intolerâncias... às brasas da praia do mar da Galiléia: brasas de vida, de amor, de encontro, de partilha, de amizade, de missão.

Ali, as brasas são fogo, calor, alimento, eucaristia, páscoa, paz, comunidade...

A comunidade cristã é novamente reconstruída pelo Ressuscitado em torno às brasas, e não em torno às leis frias, aos ritos vazios, às devoções estéreis...

Estamos vivendo tempos de profundas mudanças, mas também emocionante e santo, para a Igreja.

Existem poderosas brasas debaixo das cinzas. O único que temos de fazer para avivar a chama é acolher o momento e vivê-lo com intensidade até suas últimas consequências.

Se não se pode agregar carvão ao fogo, então é preciso enterrar as brasas, levá-las a novos lugares para que possam arder de novo. Como manter o fogo neste momento? Agregar carvão e proteger as brasas são, simplesmente, diferentes partes do mesmo processo chamado vida em Deus, crescimento no compromisso, na espiritualidade, na santidade: “em sabedoria, idade e graça”.

No interior do Brasil, onde o fogão a lenha é ainda comum, as pessoas têm o hábito de enterrar, à noite, as brasas entre as cinzas, e assim manter vivo o fogo até a manhã seguinte.

Em lugar de limpar completamente o fogão, conservam-se as brasas incandescentes debaixo de camadas de cinza para poder acender o fogo rapidamente no dia seguinte. A preocupação principal é, pois, não deixar que o fogo do dia anterior se apague completamente ao final da jornada. Pelo contrário, as brasas escondidas debaixo da cinza durante a longa e escura noite ficam bem protegidas para que o fogo possa voltar de novo à vida, com as primeiras luzes da manhã.

O velho fogo não morre, mas conserva o seu calor, a fim de estar preparado para acender o novo fogo. A verdadeira questão é se permanece ainda suficiente fogo debaixo das cinzas de nossa vida para suscitar a energia necessária a fim de tornar nossa vivência cristã mais autêntica e comprometida. O encontro com o Ressuscitado é confirmação da missão recebida: “Tu me amas? Apascenta...”

Texto bíblico: Evangelho segundo João 21,1-14

Na oração:

Todos e cada um de nós, que vivemos hoje o seguimento do Ressuscitado, somos portadores do novo fogo. Cada um de nós é transparência de Sua Vida.

- Para vislumbrar o amanhã, o que temos de fazer é olhar para nós mesmos e nos perguntar: “brota uma energia profunda no meu coração? Percebe-se nele o desejo de um compromisso com o Evangelho? Aí há lugar para a audácia, a coragem, o fogo novo...? Ou se apagou o antigo fogo? É a vida agora simplesmente questão de suportar os dias e agir por inércia ou ela é lugar da criatividade, do calor humano, da energia inspiradora? Permanecem algumas brasas sob as cinzas da minha vida cristã?”

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Ano Novo: a esperança desperta nosso “ser peregrino”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade da Santa Mãe de Deus, em que se celebra também a chegada do Ano Novo e o Dia Mundial da Paz.

 “Agora chegou o momento de um novo Jubileu, em que se abre novamente, de par em par, a Porta Santa para oferecer a experiência viva do amor de Deus, que desperta no coração a esperança segura da salvação em Cristo” (Bula Papa Francisco, n. 6)

Com a Bula “Spes non confundit” (“a esperança não decepciona” – Rom 5,5), o Papa Francisco proclamou o Jubileu ordinário do ano 2025. Com o tema “Peregrinos de esperança”, a intenção do Papa é reacender a esperança em todo o povo cristão, tendo presente o contexto social e religioso marcado pela “desesperança”, carência de projetos e de sonhos, falta de sentido...

Que é o Jubileu da esperança? O texto bíblico do Levítico 25 nos ajuda a compreender o que significa “jubileu” para o povo de Israel. A cada 50 anos os hebreus ouviam o alegre som do “jobel” (corneta de chifre de carneiro) que ecoava nas montanhas e nos vales, convocando a todos (“jobil”) para celebrar um ano jubilar. Neste tempo devia-se recuperar a boa relação com Deus, com o próximo e com toda a Criação, fundada na gratuidade. Era um ano do perdão, ou seja, os pobres ficavam livres de suas dívidas, os escravos tornavam-se livres, os camponeses recuperavam suas terras... Cheios de júbilo, podiam respirar, podiam viver, podiam reacender uma nova esperança; era o jubileu.

Neste Novo Ano que se inicia, o Jubileu vem nos recordar que somos “peregrinos de esperança”; é da nossa essência humana. A vida é constituída de contínuas “travessias” em direção a um horizonte inspirador. Somos seres em trânsito, rumo ao novo. Itinerantes. Temos “fome e sede de estradas”. O próprio caminhar desvenda mais caminhos, desperta uma inspirada esperança.

O ser humano é Terra que anda” (Atahualpa Yupanqui). O caminho está dentro de nós. Sem caminho nos sentimos perdidos, confusos, sem rumo, sem bússola e sem estrelas para orientar as noites de nossa existência.

Mais do que ser-de-caminho, o ser humano é ser-caminho: caminho da vida, caminho da verdade, caminho da justiça, caminho do coração, caminho do amor, caminho da ciência, caminho da ética, caminho da solidariedade. Cada pessoa tem a responsabilidade de ser caminho para os outros.

Caminho escancarado à passagem da humanidade peregrina. Caminho acolhedor; caminho aberto e solidário; caminho ecumênico; caminho plural; caminho sedutor. Esta é a grande esperança que dignifia toda a humanidade.

Peregrinar” e “esperançar”: fundamentos de nossa vida; duas dimensões humanas indissoluvelmente unidas, pois uma não existe sem a outra; duas atitudes que revelam a verdadeira identidade do ser humano. Quando os pés se movem, a esperança se acende; por outro lado, ninguém caminha se não é alimentado pelo fogo da esperança; é a esperança que mobiliza nossos melhores recursos, mobiliza nossos pés e nos faz peregrinos(as). Enquanto avançamos no caminho, importa colher e acolher o que a esperança oferece. Expandimos a esperança que ilumina a mente e o coração do nosso ser caminhante.

Todo ser humano é aventureiro por essência; com ardor, ele anseia por uma causa última pela qual viver, um valor supremo que unifique a multiplicidade caótica de suas vivências e experiências, um projeto que mereça sua entrega radical. Para dar sentido à sua vida e realizar-se como pessoa, o ser humano necessita da autotranscedência, isto é, viver para além de si mesmo, de seus impulsos, caprichos, desejos...

Ele carrega dentro de si a sede do infinito, a criatividade, a capacidade de romper fronteiras, os sonhos, a luz... Portador de uma força que o arrasta para algo maior que ele, não se limita ao próprio mundo; traz uma aspiração profunda de ser pleno, de realização, de busca do “mais”...

Nesse sentido, o Jubileu vem ao encontro desse nosso desejo profundo e se apresenta como uma mediação para ajudar-nos nessa longa travessia em direção à nossa própria identidade expansiva, deixando nosso estreito território e nos enveredando pelas terras desconhecidas do nosso “eu profundo”.

Somos ainda, em grande parte, uma “terra desconhecida” para nós mesmos, e a viagem de descoberta é como a viagem imaginária a uma nova terra, estranha e bela, que desperta assombro frente aos seus encantos e à novidade de suas mil maravilhas. Perceberemos, depois, com surpresa e alegria, que a bela terra nova a que chegamos sem saber é nosso próprio país natal esquecido, subestimado e abandonado. A redescoberta de nós mesmos é a maior e sem dúvida a mais gratificante aventura de nossa vida. Redescobrindo a nós mesmos, vamos encontrar o nosso lugar na história e a nossa missão no mundo.

O Jubileu da esperança nos convida a fazer estrada”, numa viagem em busca do mundo interior, sede dos desejos, daquilo que é importante e essencial, o nosso modo de projetar o futuro, as nossas decisões...

Foi essa a experiência vivida pelos pastores, que os arrancou do seu cotidiano e os fez caminhar em direção à Gruta de Belém; nas suas vidas, muitas vezes rotineira e sem expressão, uma Criança se fez presente e a alegria tomou conta do coração deles. E, repentinamente, sentem que, na noite da desesperança, uma luz os envolve, uma voz os consola, uma esperança floresce. A plenitude chegou para eles, e quando ela chega não se esgota num instante, senão que permanece ao longo de toda a vida. Eles se puseram a caminho, na direção do lugar onde o coração e a luz os guiaram. Num despojado presépio, a luz de seus olhos se encontrou com a glória da vida e do universo, encarnada no sinal mais humilde e luminoso: um recém-nascido.

Os pastores encontraram Aquele que é a “Luz da esperança”, e tudo se transfigurou para eles, pois Deus se revela em tudo. Com eles, também nós podemos nos colocar a caminho, olhar mais para dentro de nós mesmos, sentir o sofrimento dos excluídos, contemplar a harmonia do amanhecer e do entardecer de toda a natureza vivente, e reconhecer no fundo de tudo a paz que nos sustenta e nos relança em direção a um futuro carregado de esperança.

Neste mundo da violência globalizada, da economia que gera “massa sobrante”, da política planetária submetida aos poderes financeiros, da juventude condenada ao desespero, dos equilíbrios da natureza rompidos, neste mundo que parece ter perdido o juízo e caminha desesperadamente para o suicídio, neste mundo onde só cabe a resignação ou o conformismo doentio, ainda continua sendo possível ver a Luz e experimentar, como os pastores, que ter “esperança é ser capaz de ver a luz apesar da obscuridade” (Desmond Tutu).

Caminhamos juntos, acompanhados por Aquele que é o Caminho: “Emanuel, Deus conosco”! Quem caminha quer ser mais. Seu horizonte é o seu sonho, o seu ideal. Aceita o desafio de caminhar com os pés no chão e o coração na eternidade.

O Ano Novo nos abre as portas para uma vastidão de possibilidades, sonhos, desejos.... No início de cada ano civil nos é oferecida uma nova oportunidade, uma possibilidade aberta para investir o melhor de nós mesmos nos 365 dias que temos pela frente; assim, deveríamos viver o começo de cada ano, que se oferece a todos como novidade, oportunidade, novo começo...

Caminhar é preciso. O seu caminho tem coração? O Ano Novo mora dentro de você.

Textos bíblicos: Evangelho segundo Lucas 2,16-21

Na oração:

- Orar é entrar na Tenda do Senhor, que é o próprio coração: peregrinação interior, mobilidade...

- Deus “passa” e nos coloca em movimento; a oração é “fazer estrada com Deus”, caminhar na mesma direção, entrar no ritmo d’Ele, deixando-nos “ser conduzidos”.

- Para onde você sente que Deus vai lhe conduzindo? Há alguma coisa que o aprisiona?

- Recordar medos, entraves, obstáculos... que limitam sua vida interior, impedindo-o(a) fazer-se peregrino(a)

- Quê eventos inesperados no caminho transformaram sua vida? O que realmente causou impacto? Era algo planejado? Em que aspectos da vida você pode “sair” dos terrenos conhecidos? Você já se arriscou alguma vez?

- Neste Novo Ano que se inicia, você vislumbra caminhos inspiradores? Quê esperanças você alimenta no seu coração? Nele há lugar para a surpresa, para o inédito?

Um inspirado Ano Jubilar a todos.

Pe. Adroaldo Palaoro sj


quinta-feira, 18 de julho de 2024

Descanso, um espaço aberto ao discernimento

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 16º. Domingo do Tempo Comum (Ano B).

“Vinde sozinhos para um lugar deserto, e descansai um pouco” (Mc 6,31)

 

A vida, toda vida, tem sua dose de cansaço. Também Jesus experimentou isso: “Fatigado da caminhada, sentou-se junto ao poço” (Jo 4,6).

De que estava habitado o cansaço de Jesus? Marcos nos conta que eram muitos que chegavam e saiam, e não lhes sobrava tempo nem para comer. É um cansaço perpassado de rostos, que tem a ver com a vida que se gasta e se põe a fadigar por outros: “Levavam a eles todos os enfermos e endemoniados” (Mc 1,32).

De fato, de acordo com o evangelho deste domingo, as jornadas de Jesus se revelavam esgotadoras: muitos enfermos eram levados até Ele para que os tocasse e os curasse; muitas pessoas se aproximavam para escutá-lo; era muito exigido em todos os lugares por onde passava; os conflitos desgastantes com os fariseus...

Jesus sentia os cansaços e as pressões, mas, ao mesmo tempo, sabia fazer “paradas” para recuperar as forças, para retomar o contato com o sentido de sua vida e de sua missão, para ser Ele mesmo.

Ele possuía uma lucidez que proporcionava uma visão profunda das coisas, no clima de uma paz sempre buscada. Para Jesus, o descanso, entre outras coisas, era um momento de restauração e reabilitação pessoal que lhe permitia mergulhar de novo na sua missão com maior criatividade.

Talvez, por isto, nunca perdia o norte, sempre estava preparado, pronto, disposto a investir o melhor de si e a responder na direção adequada.

De que estão feitos nossos cansaços?

Todo esforço precisa seu descanso, toda atividade pede uma parada.

Não há tensão que não exija um relaxamento, nem atividade continuada que não peça um repouso reparador. Os cansaços acabam nos revelando que, em nossa vida ativa, estamos amputando certas dimensões do humano. Assim, o descanso, em seu sentido nobre, impede que nos convertamos em meros trabalhadores estressados; ele nos arranca de nossa existência maquinal.

É sintomático o fato de recorrermos frequentemente ao uso da linguagem da máquina para expressar o que buscamos com o descanso: “desconectar”, “tirar da tomada”, “recarregar a bateria”, “recuperar a energia”, “reabastecer o motor” ... Sutilmente, expressamos deste modo como nos percebemos em nossa realidade cotidiana e até que ponto estamos suportando níveis intoleráveis de saturação, de ativismo, de stress...

Descansar tornou-se uma necessidade do planeta. A terra, nós e todos os seres vivos precisamos da pausa que revigora, do repouso que nos faz criativos.

Prazer, vitalidade e criatividade dependem dessas pausas que estamos negligenciando. Devemos buscar, em cada circunstância, fazer do descanso uma ocasião de subversão de valores, de questionamento de nossa prática cotidiana, de enraizamento de nossa missão... enfim, de vivê-lo à maneira de Jesus Cristo.

O descanso nos conserva humanos; ele nos ajuda a recuperar um ritmo de vida mais humanizante, ou seja, recuperar a capacidade de estabelecer relações gratuitas com outras pessoas, com a natureza e seus ritmos, com o Criador... Não basta simplesmente poder folgar; ter acesso ao verdadeiro descanso é recuperar o sentido da gratuidade das nossas atividades e que melhoram a vida e a convivência.

O descanso pode ser um bom tempo para retomar a vida com mais liberdade e para realizar atividades mais humanizantes. Nesse sentido, o objetivo principal do descanso é recuperar nosso lugar e nossa condição de homens e mulheres, afastando de nós o endeusamento e as fantasias de onipotência.

No descanso, voltamos a pisar a terra (húmus – humildade) para recuperar uma relação desinteressada e sadia com os outros, com o mundo e com Deus.

A vida tem necessidade de “con-sideração”, “avaliação”, “fundamentação” ... Do contrário, ela perde densidade e, sobretudo, desperdiça sua própria beleza.

Por mais descansos que tenhamos, há cansaços que só se aliviam através do encontro consigo mesmo, e há descansos que só se conseguem quando nos reconciliamos com o que somos e vivemos.

Precisamos de “paradas”, mas paradas com argumento interior. Elas devem ser algo assim como um retorno contemplativo, uma “re-flexão” em direção à raiz de nossas motivações.

O descanso permite sintonias profundas conosco mesmo e com a profundidade das circunstâncias habituais que fazem parte do nosso cenário cotidiano.

Ele desperta uma predisposição pessoal que pode ser decisiva para redescobrir o valor e o sentido do cotidiano no qual voltamos a mergulhar. O descanso inspira, nos faz criativos, porque toca as profundezas de nós mesmos e das atividades rotineiras.

Nesse sentido, o descanso se assemelha muito a uma certa ressurreição; não é um simples reabastecimento, mas uma regeneração na qual se recompõe a interioridade, o espírito criativo, a disposição de coração...

“Vinde sozinhos para um lugar deserto...” O descanso não é uma “des-conexão”, senão uma “conexão” com aquilo que é o impulso fundamental de nossa vida cotidiana. O descanso nos possibilita afastar do rotineiro e nos faz caminhar ao deserto interior, onde podemos dirigir um olhar contemplativo sobre a vida cotidiana. Nele nos desprendemos do presente e de sua urgência tirana.

No deserto nos personalizamos, resgatamos nossa identidade; nele temos a chance de ver a realidade sem instrumentalizá-la, gratuitamente. E só no gratuito é que descansamos.

Deste modo, o descanso também pode se constituir como um “tempo” privilegiado para uma intimidade com o Senhor, um espaço em nossa existência para estar gratuitamente com Ele, para saborear sua presença em nossa vida, para alegrar-nos com sua ação providente e cuidadosa.

“Tempo sagrado” para dirigir nosso olhar para o Pai, para compreender, a partir d’Ele, o sentido das coisas e da história. “Tempo” para Deus, para mergulharmos no mistério que pulsa no profundo da vida e render-nos diante d’Ele, para descalçarmos diante do sagrado e contemplar.

A mística inaciana tem muito a nos revelar sobre esta atividade tão divina e tão humana: o descanso.

“Viver descansadamente” (S. Inácio), é encontrar um descanso, uma paz interior, uma quietude, uma consolação, uma satisfação na vida e nas atividades, e que tem sua raiz na comunhão com Deus que trabalha e descansa. A vida do “contemplativo na ação” é uma vida ativa vivida “descansadamente”, ou seja, na presença de Deus, com o coração centrado n’Ele, fazendo somente Sua Vontade...

Viver uma vida ativa descansadamente é viver com os pés na terra e contemplando as “coisas do alto”.

Como homem pragmático, Inácio de Loyola mandou construir casas de descanso para os jesuítas, pois sabia, por experiência, que uma atividade forte pede relaxamento. Ele compreendeu que os ambientes tensos e atividades estressantes não são desejáveis nem para a vida espiritual, nem para o trabalho, e recomenda “recreação” e “relaxamento” na atividade, seja corporal ou espiritual.


Texto bíblico: Evangelho segundo Marcos 6,30-34

Na oração:

Também na vida espiritual, necessitamos de pausa para um encontro profundo conosco e com Deus, e assim poder retomar a vida com mais dinamismo. A pausa é que dá sentido e inspiração à caminhada.

- Na perspectiva do discernimento, devemos, depois de cada descanso, nos perguntar:

“o que ele nos trouxe de novidade? Ajudou a nos dignificar como pessoas? Melhorou a relação com os outros? facilitou ao outro sentir-se bem? quê possibilidades novas nos apresentou?”

“Descansar é uma arte. Viver descansadamente, uma arte ainda mais delicada” (J.A. Guerreiro)

- Seu descanso: É tempo de humanização ou mais um stress na sua agenda?

domingo, 7 de janeiro de 2024

Epifania: não perca a “estrela” de sua vida!

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho da celebração da Epifania do Senhor (Dia de Santos Reis).

“Nós vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”(Mt 2,2)

Epifania significa “manifestação”. No sentido original significa a primeira luz que aparece no horizonte, antes de sair o sol. Essa luz foi tomada como símbolo da iluminação espiritual em muitas religiões; por isso, a luz vem sempre do Oriente. Toda manifestação de Deus tem a marca da universalidade. Na relação com Deus estão excluídos os privilégios e exclusivismos. “Fora da Igreja há salvação!”

Na Epifania, não estamos celebrando a data de um acontecimento, mas a realidade de quem é Deus e a imensa alegria de poder descobri-Lo presente em tudo e em todos.

Se o Senhor não se manifestasse, sua Encarnação não teria chegado à toda a humanidade. Pois bem, a manifestação de Deus em Jesus tem um alcance universal, está destinada a toda humanidade.

É interessante que a tradição tenha interpretado que os Três Magos procediam dos três continentes até então conhecidos: África, Ásia e Europa. O mago negro aparece sempre. No Reino de Jesus Cristo não há distinção de raça ou de origem, não há diferenças nacionais, nem sociais, nem raciais. Todos somos filhos do mesmo Pai. Jesus Cristo une todos os povos e todas as pessoas, sem perder a riqueza de sua diversidade. A tradição também relacionou os três reis com as três idades da vida do ser humano: a juventude, a idade madura e a velhice. Deste modo, todos podemos nos ver representados nos três magos que vão ao encontro do menino-Deus.

Mateus começa e termina seu evangelho dando a Jesus o título de “rei dos judeus”. Trata-se de um rei que nasce e morre rompendo todos os esquemas das realezas mundanas: nasce em uma gruta que acolhia animais e morre numa cruz. Em seu nascimento, os Magos vão em busca do “rei dos judeus”. Se estamos falando de um rei, compreende-se que eles o buscassem na cidade dos grandes palácios, ou seja, em Jerusalém. Equivocaram-se de caminho e de lugar, porque o rei que tinha nascido era tão diferente e tão novo que só podia nascer entre os pobres. O evangelista Mateus não se refere a nenhuma realeza que não seja a de Jesus. São as tradições populares posteriores que, usando muita imaginação, consideraram os Magos como “reis”. O evangelista só reconhece um rei, que é Jesus. Por isso os magos se prostram diante dele e o adoram.

Os Magos representam todos aqueles que vem dos confins da terra ao encontro do Menino, os estranhos ao povo judeu, os que não são da raça do recém-nascido, os afastados. Também para eles nasceu o filho de Maria. E também a eles deve chegar a boa notícia do Evangelho.

Os Magos representam também a humanidade inteira em busca de paz, verdade e justiça. Representam o desejo profundo do espírito humano, a marcha das religiões, da ciência e da razão humana ao encontro d’Aquele que se “humanizou” plenamente.

À luz do relato de Mateus podemos afirmar: o Reino de Deus não se limita aos contornos de uma religião. O amor, a entrega, a capacidade de sair de si e ir ao encontro do outro, a compaixão... são os melhores recursos e possibilidades presentes no interior de todo ser humano. O que celebramos hoje é a revelação de Deus a todos os homens e mulheres, não a submissão de todos à doutrina ou disciplina de uma determinada religião. Onde se encontra uma pessoa que cresce em humanidade, amando os outros, ali está se manifestando Deus; onde a compaixão, o cuidado e o serviço se revelam como atitudes gratuitas, ali Deus está revelando seu rosto. Não podemos entender a abertura aos pagãos como proposta para que se convertam à religião cristã. O importante é potencializar o que há de mais nobre e humano em cada pessoa, mesmo que não conheça Jesus.

Os Magos, discernindo os sinais da natureza, se depararam com o forte esplendor de uma “estrela”, e puseram-se a caminho. Talvez o relato dos Magos e a estrela tenha suas raízes na bonita tradição judaica que diz: quando uma criança nasce, “acende-se” uma estrela no céu. Por isso no céu há tantas estrelas. Quando nasce uma criança, acende-se uma luz, um mundo de possibilidades, um universo pessoal no espaço da comunidade humana.

Jesus Cristo como “estrela”, é guia da humanidade e por isso desce à terra. De fato, a estrela se deteve no presépio, onde estava Jesus. A estrela, portanto, é Jesus presente no cosmos; logo, o cosmos fala implicitamente de Cristo, embora sua linguagem não seja totalmente decifrável para o ser humano.

A Criação deixa transparecer os atributos do Criador: bondade, compaixão, verdade, justiça... Desperta também a expectativa, mais ainda, a esperança de que um dia este Deus se manifestará plenamente.

A partir de então, as verdadeiras estrelas da humanidade são as pessoas que nos mostram o novo caminho para o Deus encarnado.

Também hoje continuamos necessitados de estrelas que iluminem nossos caminhos e guiem nossos corações, porque a noite é escura, as certezas se debilitam ou se petrificam, os abusos de poder violentam, destroem e marginalizam, a esperança continua sendo um desafio para quem consentiu acreditar.

Essas estrelas são pessoas, gestos, conversações que iluminam nossa vida cotidiana e nos recordam a verdade salvadora que se encarna em Jesus. Mas também são acontecimentos, sinais dos tempos, mudanças que ajudam a crescer e a melhorar, porque guiam para esses lugares que nos fazem mais humanos, que nos ajudam a compreender que nem tudo está dito e nos recordam que Deus continua sendo surpresa e impulso, que sua salvação não é algo do passado ou de um futuro distante e enigmático, mas presente e atuante em cada geração e em cada pessoa.

Como Igreja e como cristãos temos de repensar muitas coisas, mas não a partir do poder (Herodes e Jerusalém), mas a partir da Luz. A revelação, a estrela, estão no fluxo da história da Igreja e da humanidade; precisamos procurar fazer nossa essa luz para que ilumine cada situação humana e eclesial.

A Boa Notícia de Jesus nos levanta, nos convida a caminhar com a certeza de que sempre haverá estrelas que alimentem nossa esperança, orientem nossos projetos, nos sustentem nos momentos vulneráveis, nos abram na obscuridade. Nem sempre é fácil pôr-se de pé, fugir das seguranças do poder e do êxito, começar de novo... Mas, aí está uma multidão de estrelas que continuarão comprometidas em acompanhar-nos em todos os nossos esforços.

Mais uma vez somos convidados(as) a ser “magos/as”, caminhantes e buscadores que sabem seguir a estrela sem medo a que nos leve a lugares desconhecidos, surpreendentes ou inesperados. Magos/as que presenteiem perdão, bondade e solidariedade sem esperar outra coisa em troca a não ser fraternidade e empatia. Magos(as), em definitiva, que coloquem a confiança naquilo que constrói e liberta, e abandonem tudo aquilo que é imposto, violento ou interesseiro. Não é um caminho fácil. Não basta escutar o chamado do coração; é preciso pôr-se em marcha, expor-se, correr riscos.

O gesto final dos magos é sublime. Não matam o menino, mas o adoram. Inclinam-se respeitosamente diante de sua dignidade; descobrem o divi-no no humano. Esta é a mensagem de sua adoração ao Filho de Deus encarnado no menino de Belém.

Texto bíblicoMateus 2,1-11

Na oração:

Como cristãos, devemos nos sentir capazes de acolher todas as expressões religiosas e culturais de todos os povos. Só nesse sentido se pode falar de “epifania”. Não se trata só de ir e levar aos outros o que temos. Trata-se de receber aquilo que os grandes “magos” dos povos também nos oferecem. Epifania não combina com preconceito, fundamentalismo, proselitismo...

- “Fazer memória” das pessoas que foram “estrelas” inspiradoras em sua vida.

- Situações em que você foi “presença iluminante”, apontando horizontes de sentido para muitas pessoas.

Onde está o ‘novo’ do Ano Novo?

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade da Santa Mãe de Deus, em que se celebra também a chegada do Ano Novo e o Dia Mundial da Paz. Desejamos a todos uma inspirada "travessia" em direção ao Novo Tempo: dom do "Senhor dos tempos".

“Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido” (lc 2,20)

“Começar de novo...”, diz o refrão de uma conhecida música; pois é exatamente o dom de re-começar, sempre, que nos caracteriza como humanos.

Hoje começamos um Novo Ano. Mas, o que pode ser para nós algo realmente novo? Quem fará nascer em nós uma alegria nova? Quem ativará em nós novos sonhos? Quem ensinará a sermos mais humanos? O decisivo é estar mais atentos ao melhor que se desperta em nós e viver sintonizados com a eternidade de Deus.

Esta união com Deus faz com que o tempo seja pleno. Também para nós o tempo pode ser de plenitude na medida em que vivemos unidos a Deus e nos abrimos aos irmãos pelo amor. Pois o amor é o que faz com que o tempo deixe de ser enfadonho e caduco e se abra a uma plenitude que se renova cada dia.

Neste início de um Novo Ano, somos impelidos a caminhar para algo novo: novo tempo, novas relações, novos desafios, novas experiências...

Não é este o momento de permanecermos imóveis só porque o caminho está obscuro e inexplorado. O que deve impulsionar a vida cristã atual é a espiritualidade da criação, da iniciativa, do momento presente...

Nossa experiência nos diz que todo começo põe em marcha novos recursos, novas atitudes, abre novas possibilidades, amplia nossas expectativas...

Quando celebramos um “Ano Novo”, celebramos precisamente isso, que é “novo”. Somos presenteados com uma nova oportunidade preciosa para superar intrigas, inaugurar tempos de acolhida e perdão, olhar para a frente, despojar-nos de tudo aquilo que não nos faz mais humanos e, se somos cristãos, mais evangélicos, tolerantes e compassivos. Viver em chave de “possibilidade”, “oportunidade” ou “novidade” nos afastam de afirmações estéreis como estas: “sempre foi feito assim”, “eu te disse que não ia funcionar”, não se poderia esperar outra coisa desta pessoa...” Certamente que isso não nos conduz pelo caminho da humildade, de sentir-nos companheiros de caminho, irmãos em missão e, sobretudo, homens e mulheres enraizados na esperança.

A lógica da nossa sociedade de consumo reprime nossa criatividade, nos faz retroceder em nossa humanidade e nos impede de aproximar de toda experiência mais profunda. Marcados por tradições e hábitos caducos, dialogamos com o possível, o já esperado, o já testado, o “sempre fizemos assim”... Por isso, sentimos o desejo do retorno à espontaneidade e de aventurarmos na descoberta de um mundo diferente, ainda que assustador e incerto.  “A princípio, estranha-se. Depois, entranha-se” (Fernando Pessoa).

Porque acreditamos no “novo” é preciso nos afastar de uma ingenuidade alienada, de uma visão pouco perspicaz, de um senso comum que não confia na bondade do ser humano...; caso contrário, nos tornaremos incapazes de ler este “novo tempo” e de oferecer uma proposta criativa, a partir de nossa opção e maneira de viver. Talvez estejamos ainda muito marcados por um clima de ódio e de suspeita, de divisões nos relacionamentos, de identidades pouco éticas, de narcisismos institucional ou pessoal, de incapacidade para alegrar-nos com quem se alegra, de relações doentias que aumentam as distâncias e a frieza diante de quem pensa, sente e ama de maneira diferente.

Tais atitudes insanas escondem algo que é mais triste: a falta de propostas à luz do Evangelho, de liderança humanizadora, de criatividade mobilizadora dos nossos melhores recursos... Quando isso não acontece, mergulhamos na segurança do “costumeiro”, confundimos poder com autoridade, acreditamos estar em posse do monopólio da verdade, provocamos confusão de funções...; tudo isso nos enreda na mediocridade da vida e mata a criatividade.

Sem dúvida, o “Ano Novo” não chega simplesmente pela mudança de alguns dígitos, nem por arrancar uma página do calendário. Talvez o “tempo novo” já esteja começando naquelas pessoas que não negociam valores inegociáveis, não se compactuam para manter uma estrutura social injusta, não se envolvem em “redes sociais” carregadas de “fake News” e mensagens preconceituosos, não fomentam guetos nazifascistas, não estimulam conflitos, mas se abrem à riqueza da pluralidade, respeitam e acolhem o bom que vem dos diferentes, alimentam uma presença que se revela inspiradora, focada na mensagem da Boa Notícia.

Dizer “evangelho” é dizer “terra de oportunidades”, o lugar a visão teológica que nos faz amar e compreender que todos “somos”. Bendito “tempo novo” que nos faz recordar tudo isto!

A sabedoria deste Novo Ano vai, progressivamente, ativando uma luz que nos indica, de novo, que o caminho é de Deus e que Ele nos convida a nos deslocar, a entrar em sintonia com seus sinais surpreendentes, a colocar-nos em caminho como os pastores em direção à Gruta, onde um Menino os espera; ali, ficam assombrados pela Vida que se visibiliza nas margens, abrindo um horizonte de sentido para todos.

Para iniciar este Novo Ano, nada melhor que ativar a atitude contemplativa dos pastores na Gruta em Belém: “viram o Menino”. E isso fez toda a diferença. Tudo se tornou “novo”; voltaram para o cotidiano do pastoreio carregando uma presença na memória. O sentimento de gratidão aflorou: “voltaram glorificando e louvando a Deus”.

Quem contempla a realidade com os olhos simples dos pastores, não faltarão ocasiões para reconhecer a criatividade de Deus em ação, a inovação do Espírito movendo corações, criando cenários novos, mais humanos, com mais profundidade, mais do Reino...

A experiência de colocar-nos a caminho, a abertura ao mistério, o fato de estarmos conectados, despertos e abertos à passagem de Deus, permite que Sua Graça desbloqueie as nossas amarras interiores e nos mobilize a uma presença diferenciada, no deserto da vida.

Por isso, o sentimento dominante que precisa ser ativado neste momento de transição é a da gratidão.

Sabemos que a gratidão autêntica constitui uma unidade íntima com a vida, flui com ela. Nasce e se apoia na compreensão de que, para além dos juízos que nossa mente possa fazer, tudo é graça.

A gratidão, como força que esvazia nosso ego, nos faz tomar distância de nossos pequenos interesses e nos abre à compreensão profunda de que, em último termo, tudo é dom, tudo é dado, tudo é Graça.

 

Texto bíblico: Lucas 2,16-21

Na oração:

Esperança, indignação, coragem. Preciosas atitudes para este novo tempo em que temos o privilégio de viver.

- Você se atreveria assumir tais atitudes?

- Você se arriscaria, por um novo começo?

- Que riscos concretos você se sente chamado a assumir?

Um abençoado Ano Novo feito de promessas, de caminhos... de ternura infantil.