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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Compaixão e partilha: verdadeiro sentido do seguimento de Jesus

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 18º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Jesus viu uma grande multidão e encheu-se de compaixão...”; “dai-lhes vós mesmos de comer!”


 

No evangelho deste domingo, Jesus é apresentado como compaixão, saúde alimento. Mas, tudo nasce da compaixão, ou seja, a comoção diante do sofrimento dos outros, que se traduz em ajuda eficaz. Não se trata de ter uma “piedade” passageira, nem de um mero movimento voluntarista, mas de um sentimento muito mais profundo que nasce da sintonia com a situação dos outros: quando calamos o “zunzum” dos pensamentos e o vai-vém dos sentimentos, emerge a “quietude” que somos e aparece a “essência” do nosso ser, que se mostra como Amor e Compaixão.

compaixão não é um atributo que apresenta uma solução mágica e simples aos problemas, mas sim amplia nossa visão da realidade e enraíza nossas decisões e nosso compromisso com a justiça. Pois a compaixão é algo mais que uma reação diante do sofrimento alheio: ela impulsiona à abertura e permite nos colocar no lugar ou na perspectiva do outro, hábito saudável no campo das relações humanas. 

Este foi o sentimento que balizou e deu a tônica no exercício da atividade de Jesus: a compaixão.

compaixão, que tomou conta do seu coração, era fruto do corajoso deslocamento para a margem, para a necessidade do outro. Os Evangelhos destacam os profundos sentimentos de humanidade, compaixão, empatia, ternura e solidariedademisericordiosa de Jesus. Porque amou e foi amado, o coração d’Ele experimentou a alegria e a tristeza, a felicidade e a saudade, a ternura e o sofrimento...

Assim era o Seu coração: feito com as fibras da fortaleza e da coragem, entrelaçadas com as fibras da compaixão e da ternura. Através de seus sentimentos Jesus revelou o rosto humano e misericordioso do Pai. 

A compaixão e a partilha são a chave de toda identificação com Jesus. É preciso sempre insistir nisto, porque é o tema central de todo o evangelho; no entanto, a maioria dos cristãos esquece essa realidade e se fecha em ritualismos estéreis, mortificações e penitências sem sentido, em devoções pessoais que não a move a viver numa atitude de abertura aos dramas dos outros.

Em vez de unir as forças para eliminar em sua raiz a fome no mundo, só vem à mente fechar-se no próprio “bem-estar egoísta”, levantando barreiras cada vez mais degradantes e desumanizadoras. Em nome de que Deus despede-se as pessoas para que afundem em sua miséria? Onde estão os seguidores e seguidoras de Jesus? Por que a compaixão está cada vez mais ausente dos ambientes ditos cristãos?... 

Por isso, o ponto focal do relato deste domingo está nas palavras de Jesus: “dai-lhes vós mesmos de comer!” Provocados por Ele, os discípulos se dão conta do problema e pensam na lógica “comercial”. Como tantas vezes dizemos ou pensamos, também eles disseram entre si: “o problema é deles, que resolvam!” 

Jesus, no entanto, rompe com toda lógica egóica e lhes propõe uma solução muito mais ousada.

Os discípulos lhe informam que “só temos aqui cinco pães e dois peixes”. Não importa. O pouco basta quando há partilha com generosidade. 

Jesus mobilizou seus discípulos para que fossem mediadores efetivos frente à fome do povo. É como se Ele dissesse a eles: “mobilizem e despertem as pessoas para que coloquem em comum os pães e peixes que trouxeram e eu os abençoarei! Que ninguém coma sozinho, pois o alimento é dom do Pai para todos! Vivei em contínua partilha se quiserem ser meus discípulos!”

Ele continua pedindo a seus seguidores para que se ofereçam a serem agentes da solidariedade, oferecendo o que são e tudo (o pouco) que tem. Então, a ração de três pessoas (cinco pães e dois peixes), se converte no incentivo para que todos tragam de sua pobreza e todo o povo de Deus possa ser alimentado, que é o que simboliza os “doze cestos”. 

 “Quanto o pobre acredita no pobre, já poderemos cantar: Liberdade!” (canto salvadorenho).

A fome é um problema demasiadamente sério para vivermos despreocupados e deixar que cada um procure resolver sua situação. Não é o momento de nos separar, mas de unir nossas forças e ativar a criatividade para partilhar entre todos o pouco que cada um traz, sem excluir ninguém.

A cena do evangelho deste domingo não deveria continuar sendo chamado “multiplicação dos pães”, e sim, “partilha, divisão, distribuição dos pães”. O que aconteceu não foi um “milagre”, como o entendemos normalmente. Em nenhum dos relatos se diz que os pães e os peixe se “multiplicaram”. 

É preciso ter em conta que, naquele tempo, quando as pessoas partiam em viagem, não podiam se reabastecer pelo caminho; por isso, iam provisionadas de alimento para não passarem fome. Os apóstolos tinham “cinco pães e dois peixes”, o necessário para passar o dia. O encontro com Jesus e seu apelo – “dai-lhes vós mesmos de comer” - impulsionou a todos para que colocassem em comum o que tinham levado; aqui estamos diante de um exemplo de resposta à generosidade que Jesus pregava. Esse é o verdadeiro “milagre”: a partilha solidária. E onde há partilha não há mais fome.

Onde há partilha, aí também se visibiliza a “bênção” de Deus, pois tudo procede d’Ele, tudo é dom para todos. Uma das experiências mais plenificantes de Israel é a de reconhecer que a benção de Deus lhe concede vida, fecundidade, proteção. Dizer “bênção” é dizer presente, dom gratuito. A raiz hebraica do verbo “bendizer” significa poder de fertilidade ou de crescimento (cf. Deut. 28,1-14).

A benção é o termo que condensa a riqueza e a originalidade da tradição na qual Jesus aprendeu a orar.

Ao dizer, “bendito seja Deus, Senhor do Universo...”, Jesus reconhece o Pai como origem de tudo o que existe, reconhece o mundo como um dom que deve ser acolhido e reconhece os outros como irmãos com os quais procura participar do único banquete da vida.

“Bendizer significa revelar a última identidade das coisas, sua profunda interioridade, que consiste em fazer entrar em relação com o Criador” (Carmine di Sante). Os objetos, a atividade, o trabalho, as relações... podem se tornar opacos e ser ocasião de desencontro; mas a benção faz com que a realidade se torne translúcida: ilumina nossa visão e a faz chegar até Deus, que é sua origem.

Abençoar é também o verbo central da Eucaristia e a medula de nossa vida. Quando dizemos “eucaristia” estamos recolhendo toda a herança de benção, de louvor e de agradecimento transbordante que percorre todo o Antigo Testamento e se revela de maneira plena em Jesus.

A eucaristia, que nasceu nesse contexto de benção, é para nós a ocasião de converter em benção nossa vida inteira, de trazer até ela todo o peso de nosso agradecimento, tudo o que em nós e em toda a Criação é chamado a se converter em canção, em “um hino à sua gloriosa generosidade” (Ef 1,14).

Portanto, a mensagem do evangelho deste domingo é muito profunda. Cada vez que partilhamos o pão, partilhamos a vida e Deus, que é Vida-Amor, se faz presente. Não há outra maneira de nos identificar com Deus e de mover os outros a se aproximarem d’Ele. A Eucaristia é memória desta atitude de Jesus que se parte e se reparte. Ao partir-se e repartir-se, fez presente o Deus que é dom total. O pão que verdadeiramente alimenta não é o pão que comemos, mas o pão que se doa.

A mais importante cerimônia de nosso culto cristão está estruturada como uma refeição. O fato do nosso seguimento de Jesus desembocar numa refeição, não nos deve estranhar. O verdadeiramente importante é que nessa refeição todo aquele que tenha algo a trazer, colabora, e o que não tem nada, se sinta acolhido fraternalmente.

A referência à eucaristia pode nos oferecer uma chave importante sobre o nosso modo de celebrá-la: não tanto como o “santo sacrifício da Missa”, mas como momento festivo e prazeroso de encontro e partilha, de onde brota a compaixão ativa.

Multiplicação dos pães e peixes: 637 imagens, fotos e ilustrações stock  livres de direitos | Shutterstock

 

Texto bíblico:  Evangelho segundo Mateus 14,13-21

 

Na oração:

O mais nobre e o mais original que há em todo ser humano não é o que ele sabe ou o que tem, mas a qualidade de sua sensibilidade, que se expressa naquilo com o qual se sintoniza.

Na vivência cristã, ter uma sensibilidade com os mais excluídos e sofredores é o verdadeiramente extraordinário, fora do normal, cha-mativo... E a Eucaristia é celebração primordial para o despertar desta sensibilidade solidária.

- “Dai-lhes vós mesmos de comer!”: como este apelo de Jesus ressoa em seu coração diante do drama da fome, da violência e da concentração dos dons nas mãos de poucos?

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Comer e beber é fácil... assimilar uma Vida é desafiante

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi).

 

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna...” (Jo 6,54)

 

Na festa de Corpus Christi há um grande perigo de alimentar a devoção à presença real de Jesus na Eucaristia desvinculada da realidade de sua Encarnação, ou seja, esquecer que Ele se “fez corpo”, viveu intensamente seu ser corporal e comprometeu-se com os corpos desfigurados e sofredores dos outros, recriando-os e impulsionando-os a uma vida mais plena.

“Corpus Christi” é festa do Corpo de Jesus e de todos os corpos. Festa do pão e do vinho, frutos da terra e da comunhão de todos os seres. A Terra é um grande organismo vivente; o universo, com suas estrelas e galáxias é um imenso corpo. Da mesma forma, cada átomo é um corpo no qual se movimenta o universo do imensamente pequeno.

Graças a este corpo que somos, a este “continente” que nos contém, podemos vincular-nos e estabelecer relações sadias com os outros, com Deus e com o grande corpo da Criação. Nossa maneira de nos relacionar está configurada por ele porque não há experiência de amor, e por isso não há experiência de Deus e dos outros, que não ocorra em nosso corpo.

Nos mistérios da Encarnação (“Deus se faz Corpo”) e da Ressurreição de Jesus (Corpo plenificado), o corpo se tornou espelho da divindade. Assim, o corpo humano começou a ocupar um lugar central.

Parece que não sabemos lidar muito bem com esse estranho e (des)conhecido que são os nossos “corpos”. Do corpo temos tido suspeitas e o temos olhado com desconfiança, maltratado e submetido a penitências e mortificações sem sentido, considerado como “fonte” do pecado.

É preciso estabelecer o diálogo com o corpo. Não se trata apenas de uma reconciliação amistosa, mas de uma descoberta radical. Ignoramos nosso corpo, apesar de tê-lo tão próximo; é preciso dar-nos conta das riquezas que tem, o muito que sabe, a importância do que tem a nos dizer, a necessidade de seu apoio e a sabedoria de sua amizade. 

Aqui está nosso melhor amigo, fielmente junto a nós, e nem sempre o percebemos.

corporeidade penetra toda a nossa auto-realização como seres humanos. O corpo não é simplesmente “organismo vivo” ou mera “exterioridade” ou mero “instrumento do espírito”. O corpo não é o túmulo da alma, mas o templo do Espírito, o lugar onde o “Verbo se fez carne”.

corpo é de importância máxima para a experiência que temos de nós mesmos e para a comunicação com Deus, com os outros e com a natureza.

A consciência do respeito e do valor ao corpo é necessária para a maturidade afetiva. A desvalorização do corpo, por outro lado, resulta na mutilação da expressividade, da comunicação de sentimentos e prejudica a maturidade afetiva-social-espiritual. 

Uma relação negativa com a corporeidade equivale a uma relação negativa consigo mesmo, com os outros e até mesmo com Deus. Não aceitar o corpo é atentar contra a vida.

Jesus, na sua vida oculta e pública, não anuncia uma verdade abstrata, separada da vida, uma lei puramente social, um princípio religioso... Ao contrário, Ele “é corpo”, isto é, vida expansiva, sentida, compartilhada. 

Os Evangelhos nos situam Jesus no nível da corporalidade próxima: é Ele que sabe olhar, tocar, sustentar, acariciar... A Luz que nutre sua Encarnação nos permite ver com maior profundidade nossa humanidade, no espelho da corporalidade d’Ele. Essa é a luz que des-vela nossos rincões mais íntimos para deixar aflorar nossa verdadeira identidade, carregada de corpo. Deixando-nos contemplar, descobrimos Sua presença e Sua provocação em cada uma de nossas células. Corpo “cristificado”.

Quando viemos ao mundo, a primeira coisa que experimentamos foi que alguém estendeu suas mãos para receber este “corpo único e precioso” que nos acompanhará toda nossa vida. Alguém nos tocou ao começar a existência e, também, seremos tocados pela última vez algum dia. 

Recebemos um corpo para permanecer nele enquanto dure nossa viagem e para estabelecer com ele “contatos humanizadores”, transmitir com nossa pele, e com todos os nossos sentidos, o afeto, o calor e a presença que precisamos para expandir esta ânsia de amor que nos habita.

Há textos do evangelho que nos convidam ao compromisso; outros à interioridade. O Evangelho de hoje nos convida a perguntar sobre o sentido de nossa corporalidade: “o que escapou de nossas mãos?”

As palavras de Jesus destacam seu caráter fundamental e indispensável: “Minha carde é verdadeira comida e meu sangue é verdadeira bebida”. Se os seus seguidores e seguidoras não se alimentam d’Ele, poderão fazer e dizer muitas coisas, mas “não tereis vida em vós”. Para ter vida dentro de nós, precisamos nos alimentar da vida de Jesus, nutrir-nos de seu alento vital, interiorizar suas atitudes e seus critérios de vida. Este é o segredo e a força da Eucaristia. Só conhecem isso aqueles que comungam com Ele e se alimentam de sua paixão pelo Pai e de seu amor a seus filhos.

A linguagem de Jesus é de grande força expressiva. A quem sabe alimentar-se d’Ele, encontra-se com esta promessa: “Esse habita em mim e eu nele”. Quem se nutre da eucaristia experimenta que sua relação com Jesus não é algo externo. Jesus não é modelo de vida que imitamos a partir de fora. Alimenta nossa vida a partir de dentro.

Esta experiencia de “habitar” e deixar que Jesus “habite” em nós pode transformar nossa fé na raiz. Esse intercâmbio mútuo, esta comunhão estreita, difícil de expressar com palavras, constitui a verdadeira relação do discípulo com Jesus. Isto significa identificação com Ele, sustentados por sua força vital.

vida que Jesus transmite aos seus discípulos na eucaristia é a que Ele mesmo recebe do Pai, que é Fonte inesgotável de vida plena. Uma vida que não se extingue com nossa morte biológica. Por isso, Jesus se atreve a fazer esta promessa aos seus: “Aquele que come deste pão viverá para sempre”.

Se em nossa vida não deixamos transparecer a atitude de Jesus, a celebração da eucaristia continuará sendo “magia barata” para tranquilizar nossa consciência. É preciso descobrir Jesus em todo aquele que espera algo de nós, em todo aquele a quem podemos ajudar a ser ele mesmo, sabendo que essa é a única maneira de abrir espaço para que Ele venha “habitar” em nós.

Quem come deste Pão, entrega-se ao dinamismo da Vida, comprometendo-se com a luta contra as forças da morte: egoísmo, violência, indiferença, omissão, ódio, intolerância desonestidade na gerência dos bens, descuido nas relações afetivas, isolamento no medo, destruição da Casa-Comum...

O decisivo é ter “fome” e “sede” d’Aquele que se faz pão e vinho. Abrir-nos à sua verdade para que nos marque com seu Espírito de criatividade, de inspiração, de compaixão... e potencie o melhor que há em nós; é deixá-lo que ilumine e transforme as dimensões mais obscuras de nossa vida que estão ainda por evangelizar, fazendo-nos mais humanos e mais evangélicos.

Um “Corpus Christi” celebrado sem escutar a voz dos pobres, vítimas inocentes de nossas estruturas injustas, será, provavelmente, só um rito que não significa nada; pior ainda, uma gravíssima profanação da vontade de Deus expressa na Encarnação de seu Filho, que veio a este mundo, essencialmente para salvá-lo. Devemos, pois, discernir o verdadeiro sentido de nossas adorações, exposições do santíssimo e procissões eucarísticas: se elas nos conduzem a uma identificação com Jesus de Nazaré e se estamos  verdadeiramente dispostos a fazer “memória d’Ele”, ou seja, fazer de nossa vida um “alimento salutar”, até desaparecer em favor dos outros. 


Maçã Em Bom Estado a Olhar Para O Seu Reflexo No Espelho ...

Texto bíblico: Evangelho segundo João 6,51-58

 

Na oração:

Sinta todo o seu corpo como um templo.

E neste templo acolha o Sopro.

Procure saboreá-lo internamente. E deixe atuar em você

a força da inspiração e da expiração para que todo o seu corpo seja iluminado e plenificado. Deixe vir a Luz e que ela penetre nas partes mais dolorosas do seu ser. Sinta que você é um corpo de argila e, também, um corpo de diamante. Simplesmente respire na presença d’Aquele que É.

terça-feira, 17 de junho de 2025

“Saciou de bens os famintos…”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi).

“Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, elevou os olhos para o céu, abençoou-os, partiu-os e os deu aos discípulos para distribuí-los à multidão” (Lc 9,16)

 

Celebramos o “Corpo de Cristo”, uma das celebrações mais ricas que nos faz pensar em seu conteúdo e simbolismo... Mas, como celebrar este “Corpo de Cristo” no meio de tantos outros corpos dilacerados, explorados, odiados, famintos...?

Temos muito o que pensar e rezar diante dos corpos, tanto diante do Corpo de Cristo, como diante dos corpos que passam fome, que são explorados, que sofrem... Não esqueçamos isto: Corpo de Cristo...  comunhão, outro, fome, pão... partilha... celebração, amor, corpos...

Jesus Cristo nos fascina por ter a coragem de ser diferente em sua época, por ser Ele mesmo e estar profundamente integrado com seu corpo, colocando-o a serviço e crescimento do outro... do outro corpo.

Jesus, na vivência de sua corporalidade, destravou e dignificou os corpos dos outros: diante dos corpos doentes... curou; diante do corpo pecador... amou, perdoou, abençoou, encorajou; diante dos corpos esfomeados: alimentou, multiplicou os pães; diante do corpo sem vida: “ jovem, levanta-te!” vida nova; diante dos corpos que exploram/roubam: protestou, rejeitou, não façam da casa  de meu Pai um covil de ladrões; ai de vós, fariseus hipócritas, que se preocupam demais com as aparências dos “corpos”... e não vêem o interior.

Os Evangelhos nos recordam que foi no gesto do partir e repartir o pão que Jesus deixou transparecer o verdadeiro sentido do seu Corpo:  vida que se doa para aliviar todo “sofrimento humano” (curas), para proporcionar a “refeição partilhada” (ceias e multiplicação dos pães) e para ativar “novas relações humanas” (sermão da montanha).

Contemplar as cenas evangélicas é atualizar em nós estas três preocupações centrais da vida de Jesus. Aqui se conecta a essência de Sua vida com a nossa vida de seguidores(as).

Para Ele, no banquete da vida não basta dar e receber generosamente, mas acolher com gratuidade todo aquele que não pode oferecer nada em troca. A honra não se fundamenta mais no poder e no prestígio, mas na bondade, humildade e hospitalidade. A nova comunidade do Reino é esse banquete no qual todos tem lugar, seja qual for sua origem, crença, situação pessoal; ali todos se sentem convidados, sem merecimentos exclusivos nem dignidades adquiridas.

A “mística da mesa” não só nos recorda o modo original de Jesus agir, senão que é um chamado à comunidade cristã para que seja comunidade inclusiva e aberta, onde as diferenças são respeitadas, os espaços de igualdade são construídos, onde o Deus gratuito e cheio de amor e perdão é proclamado. Nela não haverá estrangeiros nem imigrantes, não haverá primeiros nem últimos, não haverá resquícios de gênero nem poderes que excluem.

Se não nos assentamos à mesa com o outro, estamos perdendo a possibilidade de saborear os alimentos humanizadores: encontro, alegria, partilha, hospitalidade, festa, vida... Tudo aquilo que acontece na alegria, tudo aquilo que é distribuído com vida, com sentido e sentimento, alimenta algo em nós, ou alguém fora de nós.  Multiplica-se, triplica-se os cestos de pão.

Na mesa e na partilha do pão “cristificamos” e “sacralizamos” os frutos da terra e do trabalho humano. Por isso, os alimentos fornecidos pela natureza e dela extraídos pelo trabalho do ser humano, vêm carregados de tão rico simbolismo: quando postos à mesa significam a mãe natureza dadivosa e boa, criada por Deus e o trabalho do ser humano, que na mesa vem se alimentar para continuar a viver.

A relação de alteridade à mesa tem o poder de reconstruir laços quebrados, perdidos em nosso passado (mesa, lugar da memória); ela tem a força de reavivar os sentimentos soterrados pelos afazeres diários. A presença provocante do encontro com o outro, desperta em nós o “dinamismo conspiratório”, ou seja, respiramos juntos o mesmo ar, compartilhamos o mesmo sonho, a mesma missão...Um caminho “mistagógico”, que é pura acolhida do Mistério revelado na mística da mesa.

Esse caminho é busca, encontro e acolhida.

Jesus, durante sua vida pública, desencadeou um “movimento de vida” e vida em plenitude. E este “movimento humanizador” se visibilizou, sobretudo, junto às mesas da refeição e na partilha do pão.

Jesus entendia e celebrava as refeições como sinal da presença do Deus Pai providente, que alimenta e cuida de todos os seus filhos e filhas; mas deviam ser refeições abertas aos pobres, sem distinções de pureza-impureza. Jesus comia e bebia em meio a um mundo injusto, para iniciar um caminho de revelação do Deus do Reino, partilhando o pão e o vinho com os necessitados, na alegria e na solidariedade.

Por isso, sua religião não era a do jejum, mas celebração de bodas e comunhão de mesa (refeição compartilhada). Fariseus e batistas antigos (e muitos cristãos de hoje) entendiam o jejum como rito de mortificação, uma renúncia centrada em si mesmo e esvaziada de qualquer relação com os outros. Jejuar por sacrifício para assim ter “méritos” diante de Deus. No seu horizonte, o outro não está presente; jejum auto-centrado é tortura inútil.

No relato da “multiplicação dos pães”, segundo o evangelista Lucas, a cena acontece em um “lugar deserto”, afastado da vida cotidiana organizada segundo o pensamento da sinagoga e a lógica dominadora do império. Sair do centro, ou ser deslocado do centro, pode ser uma vantagem à hora de perceber o que Deus realiza em nossas situações concretas.

Jesus é ponto de confluência de todas aquelas fomes, dispersões e diferenças. É o povo pobre das pequenas aldeias que está sofrendo grandes injustiças e muita pobreza.

De alguma maneira, este “fora” evoca a saída do povo judeu do Egito ao deserto, onde se encontrou com Deus numa experiência que o fará passar de multidão dispersa de escravos a um povo unido e livre.

O povo tomou distância com relação ao seu mundo rotineiro e agora se encontra com Jesus, que encarna a novidade de Deus ao alcance da mão. Também pode ser o “fora” de todos os excluídos da história que se encontram com Jesus, tornando realidade o sonho do Reino: o mundo da igualdade e da comunhão.

Longe do templo e das autoridades judaicas, seguido por uma multidão, Jesus sinaliza para uma Páscoa centrada na pessoa dele, aberta a um processo de partilha, comunhão e retorno de vida abundante para todos. O congraçamento de Israel, durante a festa da Páscoa, no Templo, é substituído pelo congraçamento em torno a Jesus, no lugar onde Ele estiver, com a multidão que o segue.

Enquanto a Páscoa no Templo favorecia os controladores dele, a Páscoa em torno a Jesus favorece e engrandece a todos. Também a centralidade do pão é trocada pela centralidade do próprio Jesus.

Ele dá graças por cinco pães e dois peixinhos diante de cinco mil pessoas famintas. É a gratidão sobre o pouco que faz o muito. É pouco, mas é dom de Deus, e o dom pode-se multiplicar, pois a graça partilhada tem alcance ilimitado.

Na Páscoa do Êxodo, as pessoas comeram às pressas, em pé, pães sem fermento, cordeiro assado e ervas amargas, cingidas, para viajar imediatamente (Ex. 12,8-11). Na nova Páscoa, elas comem organizadas em grupos, sentadas na relva, tranquilamente, sem pressa, pães e peixes, o tanto quanto necessitam para ficarem saciadas, e ainda sobra abundantemente, para o futuro.

A abundância de alimento é graça de Deus, mas é igualmente empenho de cada pessoa e de todas juntas.

A partilha acontece quando há corresponsabilidade efetivamente solidária que leva a colocar, em comum, tudo o que cada um tem. Mas não termina aí: a Páscoa do pão sinaliza para a Páscoa da vida que se faz pão e do pão que permanece sempre.



Texto bíblico: Evangelho segundo Lucas 9,11-17

 

Na oração:

Qual é o pão que você busca?

- Como e de que maneira você se torna “pão” para os demais? O pão que você oferece aos outros alimenta o desejo de construir o Reino ou é somente um “pão que engorda e deixa acomodado”?

- Quem é “pão” para você, que alimenta e desperta o impulso para servir os outros?

- Quais são os “cinco pães e dois peixes” que você pode disponibilizar para alimentar a tantos?

- Sua participação na eucaristia implica passagem do “partir do pão” para o ser “pão partido e partilhado”?

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Segunda-feira da Semana Santa - A ceia de Betânia

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho da segunda-feira da Semana Santa (2025).

 “Maria ungiu os pés de Jesus”

Estamos entrando na Semana Santa, a semana da Páscoa de Jesus, da sua passagem deste mundo para o Pai (Jo 13,1). A liturgia de hoje coloca diante de nós o início do capítulo 12 do evangelho de João, que faz a ligação entre o Livro dos Sinais (cc 1-11) e o Livro da Glorificação (cc.13-21).

Somos convidados a entrar na casa em Betânia: casa de encontro, da comunidade de amor e coração de humanidade:

- Com Jesus Mestre, para nos tornar mais humanos e próximos;

- Com Marta, para professar a fé e a servir na diaconia;

- Com Lázaro, para passar da morte à vida e caminhar na liberdade do Espírito;

- Com Maria, para quebrar os frascos e derramar o perfume da escuta e do amor.

Assim é a vida: amizade, gratidão, refeição, perfume que invade tudo...

Betânia é “casa dos pobres” (Beth-anawim): nela, em primeiro lugar, habitam nossas pobrezas pessoais e comunitárias, nossa pequenez abençoada e nossa fragilidade iluminada; mas, também é lugar onde se fazem visíveis as pobrezas de nosso mundo, da humanidade e da Criação inteira, que afetam nosso estilo de viver, de nos relacionar, de nos confrontar em nosso seguimento de Jesus.

A casa deve ser escola de encontro e fraternidade. A comunicação (comum união) se celebra entre suas paredes que, em seguida, se expande para além de seus limites, despertando uma sensibilidade solidária.

A casa prepara para a vida, pois é ali que os fundamentos de uma personalidade vão se solidificando.

A casa é mais do que uma realidade física, feita de quatro paredes, portas, janelas e telhados.

Casa é uma experiência existencial primitiva, ligada ao que há de mais precioso na vida humana, que é a relação afetiva entre aqueles que a habitam e com aqueles que nela são acolhidos.

A casa nos ajuda a fincar raízes neste mundo e em nós mesmos; ela nos fixa no solo e nos fornece orientação; ela é o lugar seguro que nos possibilita repouso e revigoramento afetivo, bem-estar e proteção...; ela nos oferece um espaço estabilizador e nutridor, suscitando vigor e saúde integral.

Negar casa a alguém é negar-lhe o útero que protege e acolhe, é tirar-lhe a segurança necessária para viver, é fazê-lo um errante sem pátria e sem rumo. Perder a casa é se perder-se a si mesmo.

A casa é também o lugar da nova comunidade inaugurada por Jesus; é a casa do Pai (Jo 14,2).

Para Jesus, ser “humano” é ser casa aberta e acolhedora. Tal atitude pede “mais portas e janelas e menos espelhos”. No espelho nós nos vemos; e o que vemos não é o que somos, mas o que aparentamos ser. Desta percepção não saímos. O horizonte perceptivo é mínimo. O espelho é incapaz de revelar a verdade de nosso ser e de ampliar nosso mundo afetivo e social.

As portas e janelas, pelo contrário, ampliam nosso horizonte. Através delas renova-se o ar denso e irrespirável do interior da casa que geramos fechados em nós mesmos. As portas e janelas nos situam em comunhão com a natureza e com a sociedade, sem a qual não existe relação humana. Elas servem para apontar aos outros que eles fazem parte de nossa vida e que, abertas, indicam que podem entrar em nossas vidas.

Como seguidores(as) de Jesus, habitando em casas construídas sobre a rocha do Evangelho, deveríamos nos preocupar mais com as portas e janelas e menos com os ornamentos dos espaços interiores. É preciso descobrir outros rostos e de maneira especial, rostos feridos, machucados e necessitados de abraço.

É da nossa condição humana buscar um espaço, um lugar hospitaleiro e acolhedor, o lugar onde nos situamos no mundo e onde podemos ser encontrados.

São muitos os lugares por onde transitamos, mas o mais importante deles é a nossa casa.

É preciso que você saiba acolher o outro. Existe uma crise de moradia muito mais grave que

a falta de casas: é a escassez de pessoas interiormente disponíveis para seus irmãos.”

O ícone da “casa em Betânia” revela-se instigante diante do processo destrutivo da “Casa Comum”;

Somos terra e esta é nossa casa, nossa irmã e nossa mãe”. Assim começa o Papa Francisco sua encíclica “Laudato si’”. No fundo desta encíclica, pulsa esta intenção: aspiramos nos salvar juntos, porque tudo nos afeta a todos no único mundo que temos.

A Terra, nossa casa ameaçada por processos de aquecimento e ruptura dos equilíbrios da vida em comum, se converte cada vez mais em um imenso depósito de lixo.

Frente a uma realidade que apresenta múltiplos aspectos, todos intimamente relacionados, o Papa Francisco propõe uma grande virada no discurso ecológico, passando da ecologia ambienta à “ecologia integral”.

Somos, pois, “Casa Comum”, conectados numa vasta rede de relações no qual vivem, convivem e interagem, muitas outras pessoas e criaturas, muitas delas sobrevivendo em condições de grande penúria, escassez e violência. Cuidar da casa comum supõe, portanto, cuidar da maneira como somos “casa”, como influímos nas vidas de outras pessoas, como contribuímos para que se sintam acolhidas e acompanhadas em seu meio. É descobrir aí um desafio que vai muito mais além do mero cuidado de algo externo: cuidamos de nós mesmos, de nossa humanidade e da rede de relações que nos mantém vivos.

Nosso mundo está interrelacionado, fazemos parte da única terra, vivemos dentro de ecossistemas, atmosfera, vegetação, animais e seres humanos; fazemos parte dessa vasta rede vital, mas não podemos destruí-la sem afetar a todos; qualquer mudança repercute em todo o cosmos.

Um passo a mais damos quando reconhecemos a Natureza, nosso planeta, como “casa comum”. Sentimo-nos implicados com ela ao reconhecê-la como nosso habitat necessário, habitat por sua vez compartilhado com outros seres humanos; podemos assim nos posicionar de maneira criativa, reconhecendo a necessidade de não a deteriorar ainda mais e de conservá-la, e inclusive melhorá-la, para as gerações futuras.

Na unção em Betânia, Maria pode ser considerada como um ícone da nova sensibilidade que o evangelho

nos oferece. Ela está dotada de uma sensibilidade muito superior à dos discípulos, tanto para perceber o que acontece como para expressar seus sentimentos com admirável fineza e liberdade.

Os dirigentes judeus andavam buscando uma ocasião para matar Jesus. Maria, certamente havia escutado os rumores que chegavam da vizinha Jerusalém e que circulavam em voz baixa entre as pessoas do povo. Ela sintonizou com este momento dramático. Sua criatividade feminina encontrou no perfume um símbolo para expressar com grande delicadeza o que esse momento transbordava seu coração. Maria investiu num gesto gratuito e desmedido, expressão de um amor exagerado.

O excesso de seu gesto sintoniza perfeitamente com o amor sem medida de Jesus, mas ultrapassa a limitada capacidade de compreensão dos presentes à mesa, sobretudo Judas Iscariotes.

Os perfumes e os aromas estiveram muito presentes na vida de Jesus, em seus momentos de dor e prazer. O perfume revela e oculta ao mesmo tempo, aviva o desejo, a abertura à surpresa de uma presença. Jesus os recebeu agradecido, e sua própria vida tomou o símbolo do frasco, precioso e caro, que se quebra para poder derramar-se em favor de muitos.

Quando a Vida nos unge, estamos potencialmente equipados para anunciar a boa nova, a luz, a cura, o cuidado... Ações que nos plenificam.

Texto bíblico: Evangelho segundo João 12,1-11

Na oração:

A casa “imprime caráter” ou nós imprimimos caráter à casa? Tudo vai depender como se encontra a “casa interior”, o próprio coração.

Nesse sentido a casa torna-se Templo do Espírito pois ela nos ajuda a fazer contato com nossas “moradas interiores”: lugar de intimidade com Deus, espaço de contemplação, ambiente de discernimento e construção de decisões.

- É do “interior habitado por uma Presença” que brota o impulso para a saída de si e viver a “cultura do encontro”.

- Seja “casa cristificada” onde a mão estendida se revela como gesto contínuo, sinal visível de um coração compassivo e acolhedor; quebre o “frasco” do perfume mais original, presente em seu interior, para perfumar os ambientes fétidos de mentiras, ódio, intolerância, preconceito...

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Há Vida Nesta Vida?

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 28º. Domingo do Tempo Comum (Ano B).

“Bom Mestre, o que devo fazer para herdar a vida eterna?”

Uma pergunta fundamental que brota de nossa interioridade: como chegar a viver uma vida que tenha o sabor de “eternidade”, ou seja, para além das limitações do tempo, da fragilidade e da caducidade das relações humanas; em outras palavras, uma vida plena, livre, profunda, transbordante... Todos desejamos dar um sentido à nossa vida, vivê-la com intensidade e com inspiração. Não nos satisfaz a explicação de que viveremos essa vida “na eternidade”: não poderemos começar a vivê-la já agora, em meio às carências, desafios, perdas, fracassos, crises... que vão se fazendo presentes em nossa existência cotidiana?

Aqui não se trata uma aspiração a mais; é o desejo de toda pessoa conseguir uma existência digna e feliz. Quem deseja uma vida vazia? Preenchê-la parece ser a meta, mas a questão é: de quê. Alguns mais, outros menos, mas todos aspiram uma vida plena, intensa, completa...

O “quê” da questão surge quando alguém descobre sua mochila vital transbordante de objetos, riquezas, ansiedades, pressas e vivências que, enganosamente, se mostram valiosos, mas que na realidade não o são. E quão cheia parece estar essa vida! E quão vazia a pessoa podem se sentir! Essa é a “síndrome existencial” onde o acumular embota os sentidos, atrofia o interior e não deixa lugar para o que é verdadeiramente importante. Uma vida cheia? Cheia de quê? De Vida!

Aqueles que seguiram Jesus de perto fizeram a experiência de estar junto de alguém que vivia intensamente, sem colocar sua segurança na posse de bens ou no apego às pessoas, títulos, prestígio, poder... Seu único tesouro era a confiança em seu Pai, e seu projeto, como Mestre, era ensinar as pessoas a viverem a partir da liberdade e da alegria de servir, sem se deixar determinar pelo apego e preocupação em possuir e acumular.

 É nesse contexto que alguém, de maneira inesperada, interrompe o caminho de Jesus, ajoelha-se diante d’Ele, chama-o de “Bom Mestre” e manifesta uma pergunta existencial, presente em todo ser humano: “que devo fazer para herdar a vida eterna? Chamou Jesus de “Bom Mestre”, não tanto como um reconhecimento de sua bondade, mas porque intuía nele uma autoridade capaz de orientar-lhe à hora de conseguir essa vida que tanto buscava. Mas Jesus, sem maiores explicações, remeteu-o à vivência dos mandamentos. Quando o homem lhe respondeu que os havia guardado desde sua juventude, Jesus fixou nele seu olhar com amor, acentuando a comunicação pessoal com alguém que andava buscando a Deus.

Jesus intui que o homem que está prostrado diante de si é bom, religioso e pratica os mandamentos; ele tem uma consistência humana; por isso, Jesus quer ajudá-lo a ir mais além da simples observância dos preceitos. A vivência dos mandamentos é necessária, mas não basta. Realizar o que está previsto pode ser até fácil e cômodo, mas não há muito mérito nisso; é preciso ser criativo e descobrir caminhos novos, e não apenas cumprir leis e preceitos. Para Jesus, não basta ser apenas cumpridores de normas, por mais recomendáveis e santas que sejam. A cada um Ele diz o que ainda “falta”.

Jesus não se fixa na situação atual daquele homem, preocupado em acumular riquezas, mas vislumbra nele uma outra possibilidade de vida e que estaria esperando em seu interior para nascer, para iluminá-lo nesse novo percurso existencial ao qual o “Bom Mestre” o convida a empreender. Para “herdar a vida eterna” é preciso investir os próprios recursos internos numa vida descentrada, oblativa, comprometida e que se expressa na partilha dos bens com os mais necessitados.

Jesus revela um olhar profundo capaz de vislumbrar o melhor que está presente naquele homem que veio correndo ao seu encontro, esperando uma ocasião para se expressar. Seu olhar contemplativo não permanece na superficialidade da pessoa, nas suas limitações e apegos.

Jesus viu, em profundidade, que o rico corria o risco de sufocar os desejos de liberdade, justiça e fraternidade presentes no mais íntimo do seu ser.

No diálogo com ele, Jesus o ajuda a discernir. Propõe-lhe que olhe o seu interior, à luz do amor com o qual Ele mesmo, olhando-o, o ama; é com esta luz do amor que o homem deve verificar a que seu coração está apegado verdadeiramente. Ele deve descobrir que seu bem maior não é acrescentar outros atos religiosos, talvez mais difíceis, mas, pelo contrário, esvaziar-se de si mesmo, vender o que ocupa sou coração para ampliar espaço para Deus. Esta é a chave que o abre à vida e que se encontra justamente na atitude de deixar, soltar, abandonar, desapegar-se, descentrar-se, partilhar... Viver esta vida com sabor de eternidade está longe de acumular, reter, colocar a segurança nos bens...

É uma indicação preciosa também para todos nós. Onde investimos o melhor de nós mesmos? Qual é o “tesouro” que nos seduz? Para onde estão orientados nossos “afetos”?

A “pressa” do homem do relato deste domingo, que veio correndo ao encontro de Jesus, parece que expressa uma falsa inquietude, uma má consciência, a necessidade de perfeição, de ser maior ou o melhor que os outros. Em todo caso, ele não está preocupado com a situação dos outros, mas com sua própria situação, com sua vida futura. Que importa a ele a situação dos camponeses, dos sem-teto, dos doentes... ou dos excluídos com os quais Jesus mais se preocupa?

Jesus o desafia a romper com seu mundo fechado, com seu modo legalista de viver... O desafio consiste em ir além da prática dos mandamentos, radicalizando-a. Como? Vivendo a solidariedade com os pobres e o desapego, numa experiência real da centralidade de Deus em sua vida, sem resquícios de idolatria. E, além disso, dar o passo do discipulado do Reino, no seguimento de Jesus.

Tal desafio deixa o homem contristado. O apego aos bens torna árido o seu coração, fecha-o no egoísmo, impede que ele se abra na direção de Deus e dos irmãos.

O “homem rico” do evangelho de hoje é o nosso espelho: nele nos vemos; nele Jesus nos desafia a sair de nossa acomodação, a romper nossa prática rotineira das leis, do apego aos bens, prestígio, poder... (falsos ídolos que nos desumanizam).

Jesus “olhou aquele homem com amor” e viu em seu interior ricas possibilidades, impulsos para algo maior, o desejo do “mais” ... Ele também dirige o seu “olhar” para cada um de nós e capta a grandeza e a nobreza presentes no nosso coração. Somos seres de travessia, de largos horizontes... Somos, por natureza, expansivos, em contínuos deslocamentos nos projetos, nos relacionamentos, na maneira de viver...

Nós nos humanizamos à medida que nos deixamos mover pelos sonhos, projetos, desejos profundos...

Ao mesmo tempo, Jesus, com seu olhar, “lê”, no mais escondido de nosso interior, os mais diferentes medos e apegos que minam a força e a coragem do seguimento.

Carregamos em nosso coração um “gérmen de vida” que busca desenvolver-se e chegar à plenitude.

S. Inácio nos diz que “Deus pôs grandes desejos em nosso coração”. O desejo é desejo de vida. O desejo não é a posse, mas a expectativa. Como explica S. Agostinho, o desejo escava no nosso interior uma capacidade maior de receber.

Quem se julga saciado ou pouco interessado em aceitar um esvaziamento de si, apaga dentro dele este desejo que tem sabor de eternidade e embarca numa vida medíocre e sem criatividade.

Texto bíblico: Evangelho segundo Marcos 10,17-30

Na oração:

Diante de Jesus, que desafia a todos a “fazer estrada com Ele”, deixar ressoar estas perguntas: “há vida na minha maneira de viver atualmente? Há algum “afeto desordenado” que atrofia as potencialidades presentes em meu interior? Quem é o “senhor” que move meu coração? A quê me dedico a investir os melhores recursos que recebi como dons? O mundo dos pobres e excluídos desperta uma sensibilidade solidária em mim, ou permaneço “indiferente” frente a esta cultura do consumismo e do esbanjamento?...”

sábado, 5 de outubro de 2024

Matrimônio: “amor originante” que se eterniza

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 27º. Domingo do Tempo Comum (Ano B).

“Desde o início da Criação, Deus os criou homem e mulher” (Mc 10,6) 

Os fariseus apresentam a Jesus uma pergunta para pô-lo à prova. Desta vez não é uma questão sem importância, mas uma situação que alimenta muito sofrimento às mulheres da Galileia e é motivo de acaloradas discussões entre os seguidores de diferentes escolas rabínicas: “É lícito o marido separar-se de sua mulher?”.

Não se trata do divórcio moderno que conhecemos hoje, mas da situação em que vivia a mulher judia dentro do casamento, controlado absolutamente pelo homem. Segundo a Lei de Moisés, o marido podia romper o contrato matrimonial e expulsar sua esposa de casa. A mulher, pelo contrário, submetida em tudo ao homem, não podia fazer o mesmo.

A resposta de Jesus surpreende a todos. Não entra nas discussões dos rabinos. Convida a descobrir o projeto original de Deus, que está acima de leis e normas. Esta lei “machista”, em concreto, se impôs no povo judeu pela dureza do coração dos homens, que controlavam as mulheres e as submetiam à sua vontade.

Jesus aprofunda no mistério do ser humano a partir de sua origem, quando Deus “os criou homem e mulher”. Os dois foram criados em igualdade. Deus não criou o homem com poder sobre a mulher. Não criou a mulher submetida ao homem. Entre homens e mulheres não deve haver dominação por parte de ninguém.

A partir desta visão do ser humano, já presente na origem, Jesus oferece uma visão do matrimônio que vai mais além de tudo o que foi estabelecido pela Lei. Mulheres e homens se unirão para “serem uma só carne” e iniciar uma vida compartilhada na mútua entrega, sem imposição nem submissão.

Este projeto matrimonial é para Jesus a suprema expressão do amor humano. O homem não tem direito algum para controlar a mulher como se fosse seu dono. A mulher não deve aceitar viver submetida ao homem. É Deus mesmo que os atrai a viver unidos por um amor livre e gratuito. Jesus conclui de maneira clara: “O que Deus uniu, o homem não separe”.

Com esta posição, Jesus está destruindo na raiz o fundamento do patriarcado e do machismo, sob todas as suas formas de controle, submissão e imposição do homem sobre a mulher. Não só no matrimônio, mas em qualquer instituição, civil ou religiosa.

O evangelho de hoje nos convida a retornar ao início da criação do ser humano, homem e mulher, chamados a viver a vocação da união mútua. O homem deve deixar seu pai e sua mãe, deve abandonar o sistema patriarcal e empreender um novo caminho, não já em solidão, mas na união maior imaginável: “se unirá à sua mulher e serão os dois uma só carne”. A identidade não é uma soma, mas a comunhão crescente que busca a unidade. Esta proposta original de Deus é vivida sempre entre os casais, de ontem e dos tempos atuais?

Hoje descobrimos, talvez com mais claridade que em outros tempos, o quão difícil para muitos casais manter a unidade amorosa, que no princípio de sua relação parecia ser tão forte.

São muitos os fatores dissonantes que impedem o “concerto amoroso”, são muitos os distanciamentos, as incompatibilidades, as divisões..., que esfriam o romance entre os casais. Hoje também, mais conhecedores da biologia e da psicologia humana, somos mais sensíveis e compreensivos para com aqueles que vivem profundos conflitos na relação matrimonial e, no entanto, sentem o chamado para a unidade.

A partitura que o Criador nos oferece de comunhão entre o homem e a mulher é belíssima, é “imagem e semelhança do mesmo Deus”, mas também é difícil interpretá-la como projeto de vida e de aliança sem volta atrás.

Jesus, na sua vida oculta e pública, encontrou uma realidade de muitos casais que não correspondia àquela desejada por seu Abbá Criador: “no princípio não foi assim!”. Ele que tem palavras de vida (transmissoras de vida), afirma taxativamente: “O que Deus uniu, o homem não separe”.

Estas palavras não são uma lei fria, mas uma promessa, uma realidade possível. O ser humano pode bloquear, com sua falta de fé e seu compromisso, o dom que lhe foi concedido. É preciso deixar o protagonismo para Deus na relação de casal.

Jesus convida a deixar-se unir por Deus, a descobrir aquela pessoa, na qual cada ser humano encontra sua “ajuda semelhante”. É preciso saber discernir que é “o que Deus uniu”. Bendizer aquilo que Deus “não uniu” é uma profanação. A beleza do Sacramento do Matrimônio está precisamente em deixar transparecer a benção de Deus diante daquele casal que Ele foi unindo através da aventura e do romance amoroso.

Ou seja, “serão uma só carne” quando realizam essa união ao longo da vida; tal realidade não se revela de forma automática ou mágica no instante de dizer “sim, quero”. Demora toda uma vida em realizá-la; às vezes não se consegue, o vínculo se interrompe ou se fragiliza. Requer, em alguns casos, sanação; em outros, refazer o caminho da vida.

O Evangelho de Jesus Cristo não é um código canônico, mas a Boa Nova da misericórdia. Deus nos ama também e, sobretudo, em nossas falhas e fracassos. A Igreja não é alfândega, mas casa paterna-materna onde há lugar para cada um com sua vida, carregada de recursos e de fragilidades.

Não se trata de pôr em discussão a visão cristã do matrimônio, mas de ser fiéis a esse Jesus que, ao mesmo tempo que defende o matrimônio, se faz presente a todo homem ou mulher, oferecendo-lhes sua compreensão e sua graça. Nunca se deixa determinar pela lei que julga e condena; mas, deixa transparecer um coração compassivo e acolhedor para com aqueles(as) que fracassaram em seu projeto de amor mútuo.

O próprio Jesus, que condena o adultério, se apresenta como defensor de uma mulher surpreendida em adultério, quando se encontra com ela cara a cara, cuja vida as autoridades religiosas queriam eliminar, Jesus, com sua atitude misericordiosa, longe de destruí-la, a perdoa e lhe oferece um novo futuro: “Nem eu te condeno. Vai e de agora em diante não peques mais”. Esta é a atitude mais humana e humanizadora: crítica exigente frente a uma sociedade que chama “amor” a qualquer coisa. E toda a compreensão do mundo diante de quem tem que viver situações de dor e de sofrimento, porque seu amor se rompeu ou fracassou.

Os fracassos matrimoniais não são sempre e nem fundamentalmente um problema jurídico que se possa resolver com determinadas leis. São problemas pessoais, emocionais, psíquicos, de raízes e consequências muito profundas, que as leis não podem nunca solucionar.

Temos de redescobrir atitudes mais próximas para com os casais rompidos, independentemente de soluções jurídicas, civis ou eclesiais. Como cristãos, não podemos fechar os olhos diante de um fato profundamente doloroso. Os(as) divorciados(as), geralmente, não se sentem compreendidos pela Igreja, nem pelas comunidades cristãs. A maioria só escuta a aplicação de leis e disciplinas que não conseguem entender. Abandonados(as) em seus problemas e sem a ajuda de que necessitam, não encontram na Igreja o lugar da acolhida.

É precisamente nestas circunstâncias quando deveríamos nos perguntar o que podemos fazer, como cristãos, para ajudar tantos homens e mulheres que vivem situações de profundas dores, provocadas por conflitos e incompatibilidades na vivência matrimonial. Não basta defender teoricamente a indissolubilidade matrimonial e impor mais pesos sobre os ombros dos casais católicos que não podem carregar.

Temos de nos perguntar: que ajudas as comunidades cristãs podem oferecer a tantas pessoas que fracassaram em seu matrimônio, devido a uma opção não amadurecida, a uma falta de conhecimento mais profundo do(a) parceiro(a), a uma deterioração em sua comunicação, a incompatibilidades psicológicas, ou simplesmente por uma atitude egoísta?

É injusto que, levados por um rigorismo e legalismo excessivo, marginalizemos e esqueçamos muitos homens e mulheres que se esforçaram por salvar seu matrimônio, e que já não tem mais forças para enfrentar sozinhos(as) seu futuro. Mais misericórdia e menos rigorismo!

Texto bíblico: Evangelho segundo Marcos 10,2-16

Na oração:

Fazer memória de muitas pessoas que sofrem por causa do fracasso matrimonial e que não encontram apoio na comunidade cristã.

- Qual sua atitude diante delas? Rigidez na aplicação de leis ou acolhida misericordiosa?

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

De qual “pão” temos fome?

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 18º. Domingo do Tempo Comum (Ano B).

“Pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo” (Jo 6,33)

 

Com o evangelho de hoje iniciamos a reflexão sobre o Discurso do Pão da Vida, que se prolongará durante os próximos domingos. Depois da multiplicação dos pães, o povo foi atrás de Jesus; tinha visto o milagre, comeu com fartura e queria mais! Procurou o milagroso e não buscou o sinal e o apelo de Deus que nele se escondia. Quando o povo encontrou Jesus em Cafarnaum, teve com ele uma longa conversa, chamada “Discurso do Pão da Vida”, um conjunto de sete pequenos diálogos que explicam o significado da multiplicação dos pães como símbolo do novo Êxodo e da Ceia Eucarística.

O milagre da multiplicação dos pães provocou um sério mal-entendido. O povo viu o que aconteceu, mas não chegou a entendê-lo como um sinal de algo mais alto ou mais profundo. Buscou pão e vida, mas parou na superfície: a fartura de comida. No entender do povo, Jesus fez o que Moisés tinha feito no passado: deu alimento farto para todos no deserto.

Indo atrás de Jesus, eles queriam que o passado se repetisse. Mas Jesus pede que o povo dê um passo adiante. Além do trabalho pelo pão que perece, deve trabalhar também pelo alimento não perecível. Este novo alimento será dado pelo Filho do Homem; Ele traz a Vida que dura para sempre. Ele abre para todos um novo horizonte sobre o sentido da vida e sobre Deus.

No longo diálogo com a multidão, no outro lado do mar, João recolhe as palavras de Jesus e que sua comunidade considerava como as chaves do seguimento. Jesus não responde à pergunta: “como e quando chegaste aqui?”, mas responde às verdadeiras intenções das pessoas, trazendo o diálogo para o seu terreno. O que tem importância de verdade é o compromisso de entrega, de “fazer-se pão” para os outros. Tais palavras de Jesus põe em questão as religiões de todos os tempos, ou seja, o perigo de manipular Deus para colocá-lo a serviço e interesse próprios.

Segundo o evangelista João, a necessidade de “passar para a outra margem do mar” foi provocada porque a multidão faminta ficou saciada de pão, graças à ação de Jesus que lhe deu de comer, multiplicando os poucos pães e peixes que um menino levava consigo. Neste contexto, segundo o final do evangelho do domingo passado (Jo 16,15), as pessoas pretendiam proclamar Jesus como rei. O pão é um bom símbolo da riqueza e a realeza um instigante símbolo do poder. Estas são as “margens” nas quais a multidão e os discípulos queriam se instalar.

Infelizmente, estes também são nossos desejos ocultos: o poder e o dinheiro que, no fundo, são as duas caras da mesma moeda. Este é o “pão” venenoso que alimenta divisão, competição e ódio.

Compreende-se assim, o apelo de Jesus a passar para a outra margem, deixando de lado as solicitações do ter, para buscar o caminho do compartilhar. Em algumas determinadas circunstâncias é preciso dar alimento a quem está com fome; mas, ao mesmo tempo, é preciso ativar a liberdade e a autonomia para que ele possa buscar o pão e aprenda a partilhá-lo.

O Pão partido e preparado para ser comido é o sinal daquilo que foi Jesus em toda sua vida. O sinal não está no pão como “coisa” perecível, mas no fato de que Ele é partido e re-partido, ou seja, na disponibilidade na qual se encontra para poder se tornar alimento de todos. Jesus esteve sempre preparado para que todo aquele que dele se aproximasse pudesse assimilar Sua Vida, revestindo-se de seu modo de ser e fazer: ser tudo para todos. Deixou-se partir, fez-se alimento, deixou-se assimilar; embora essa atitude terá como consequência que fosse aniquilado pelos encarregados da religião.

O sinal de Jesus é pão partilhado. Não o alimento das purificações e dos ázimos rituais, que só os judeus piedosos podiam comer, mas o pão de cada dia, aludido no Pai-Nosso: a refeição que se oferece aos pobres e excluídos, se compartilha com os pecadores e se expande em forma universal.

Este é seu sinal: tudo que disse, tudo o que fez se condensa e se expressa na forma de alimento que sustenta e reforça os vínculos entre as pessoas.

O pão suscita e cria Corpo. Jesus não anuncia uma verdade abstrata, separada da vida, uma lei puramente social, um princípio religioso... Ao contrário, Jesus, Messias de Deus, é Corpo, isto é, Vida expandida, sentida, compartilhada. O Evangelho nos situa, desta forma, no nível da corporalidade próxima, acolhedora e compassiva. Aqui não há mais castas e nem exclusão.

Na Eucaristia se concentra toda a mensagem de Jesus, que é o Amor. O Amor é Deus manifestado no dom de si mesmo e que Jesus deixou transparecer durante sua vida. Isto somos nós: dom total, amor total, sem limites. Ao comer o pão e beber o vinho, estamos completando este sinal. Isso quer dizer que fazemos nossa Sua vida e nos comprometemos a nos identificar com aqueles que Jesus se identificou.

O pão que nos dá Vida não é o pão que comemos, mas o pão no qual nos convertemos quando vivemos de modo oblativo, ou seja, quando vivemos des-centrados, voltados para os famintos que suplicam o pão da amizade, da presença solidária e comprometida.

“Eu Sou” em João é a suprema manifestação da consciência de quem era Jesus. Cada um de nós deve descobrir o que verdadeiramente somos, como Jesus descobriu. Somos o mesmo que era Jesus.

“Quem vem a mim não terá mais fome, e quem crê em mim nunca mais terá mais sede”. Que significa “ir a Ele, crer n’Ele”. Aqui se encontra o núcleo do discurso. Não se trata de receber nada de Jesus, senão de descobrir que tudo o que Ele tinha, também nós temos. Temos um “celeiro” interior, dotados dos mais diversos pães: recursos, dons, sonhos ... O que Jesus quer dizer é que se os seres humanos descobrissem que se pode viver a partir de uma perspectiva diferente, que alcançar a plenitude humana significa descobrir o que Deus é em cada um, responderíamos como respondeu Jesus.

Jesus não nos convida a buscar a nossa própria perfeição, nem nos limitar a práticas piedosas egóicas e estéreis, mas a ativar a capacidade de vivermos descentrados, partilhando o que somos e temos.

Buscar nossa própria “perfeição” significa edificar nosso próprio pedestal, para colocar ali nosso “ego” que se alimenta do pão do poder, do prestígio, do consumismo, do preconceito e da intolerância.

 “Ser pão para os demais”, pelo contrário, significa esvaziamento das fomes egóicas para despertar fomes humanizadoras: pão da comunhão, da festa, do encontro. Só assim é possível alcançar a unidade e a plenitude de vida. A Páscoa do pão sinaliza para a Páscoa da vida que se faz pão e do pão que permanece para sempre.

Texto bíblico: Evangelho segundo João 6,24-35

Na oração:

Somos profundamente gratos quando temos pão sobre a mesa de nossas casas; no entanto, “nosso pão de cada dia” nos provoca: qual é o alimento que mais precisamos? Qual é o pão cotidiano nos faz falta? Com que saciamos nossa “fome” de cada dia? O pão vem de Deus ou mendigamos migalhas de coisas que não nos satisfazem?...

- Descubra na sua mesa o seu pão; na sua jornada, o seu chão; no seu cotidiano, o inesperado que vem, o outro em sua fome, em busca de mãos abertas que saibam partilhar.

- Com o pão nas mãos viva em contínua ação de graças.