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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Assunção: Maria “completou” sua existência em Deus

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria.

“Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada...” (Lc 1,48)

 

O dogma da Assunção de Maria abre para toda a humanidade uma mesma experiência pascal, atravessando, com Jesus, a morte. Maria aparece como a primeira cristã completa, pois a vemos em Jesus e por Jesus como primeira dos ressuscitados.

A Assunção deve ser entendida como plenificação de Maria em Deus; ela é “assumida” plenamente por Aquele de quem tudo procede e tudo retorna. Durante sua vida, Maria já estava realizando esta plenitude e já deixava transparecê-la através de diferentes “sins”, em diversas circunstâncias; mas, ainda não tinha chegado à sua meta; e a meta supõe sempre um caminho, o fruto passa por longo processo de maturação na árvore, a pedra preciosa cristaliza-se lentamente nas profundezas da rocha.

Maria morreu totalmente em Deus e, com sua morte, culminou sua peregrinação: ela se entregou em Deus e Ele a recebeu, no caminho e meta pascal de Jesus Cristo, toda a trajetória de sua vida, a fim de plenifica-la. Por isso, o que ressuscita é a “pessoa inteira” de Maria, tudo o que ela foi, tudo o que ela realizou. Não sobe ao “céu” a “alma separada do corpo” ou dos homens e mulheres da história, senão toda sua pessoa, com aqueles que assumem seu mesmo caminho. Assim, a Assunção é uma vitória solidária: nela, todos já vislumbramos o lampejo da eternidade.

Inspirados(as) naquela que “desapareceu” em Deus, somos chamados a antecipar a “assunção” durante nossa peregrinação terrestre, prolongando o modo de ser e viver de Maria, tão bem expresso no canto do “Magnificat”. Só seremos “assumidos” por Deus se formos capazes, como Maria, de “descer” ao chão de nossa humanidade, pessoal e coletiva, vivendo o compromisso com os mais pobres e excluídos.

Crer na Assunção de Maria implica crer na exaltação dos pequeninos e humilhados, dos pobres esquecidos, dos injustiçados sem voz, dos sofredores sem vez, dos abandonados sem proteção, dos misericordiosos descartados, dos mansos violentados...

Das “coisas” de Deus (como de tantas coisas humanas…) só podemos falar com linguagem simbólica que, mais que definir e fixar, evoca e provoca nosso olhar numa determinada direção; são como um vitral que nos conta algo da luz que brilha detrás dele. 

Podemos trazer algumas “imagens” que ajudam a nos aproximar de Maria, na festa de sua Assunção.

Se a todos nos agrada terminar as coisas que começamos, podemos pensar que com Deus acontece o mesmo, ou seja, não deixa pela metade a obra começada.

Quando alguém inicia uma construção de grande envergadura, normalmente constrói uma maquete do que será a obra e a expõe em um lugar visível para que todos possam ver como vai ser o final e, assim, desculpar os possíveis incômodos e transtornos que a construção vai trazer consigo. Ao olhá-la, contempla-se e imagina-se a obra já terminada. A festa da Assunção de Maria nos coloca diante de uma “maquete” que nos mostra a plenitude da obra de Deus na mulher que não colocou nenhuma resistência à sua ação: “Faça-se em mim...”, disse Maria, a mulher da Nova Criação, acolhendo nela a presença do mesmo Espírito que “pairava sobre as águas” (Gn 1,2) na manhã da primeira criação.

Em Maria vemos a “obra de Deus” terminada; ela não frustrou Seus planos, mas os realizou plenamente.

Podemos, também, buscar outra imagem (agora bíblica) para ilustrar o dogma da Assunção. Quando Moisés, no deserto, não sabia como convencer seu povo cansado, cético e desmotivado para entrar na terra da promessa, teve uma ideia genial: enviou exploradores a Canaã que voltaram carregados com gigantescos cachos de uvas doces, frescas e apetitosas. “Entramos no país ao qual nos enviaste; é uma terra que mana leite e mel; aqui tendes os seus frutos” (Num 13,27).

 Algo parecido faz a Igreja quando nos apresenta a Assunção de Maria. É como se dissesse: “Olhai as primícias da nova humanidade; Maria é fruto já maduro da Terra para a qual nos dirigimos! Bem-aventurados somos nós por termos recebido a boa notícia do campo onde finca suas raízes a Árvore da Vida que produz fruto semelhante. Compartilhai em voz alta esse segredo, esse sabor do vinho que enche a todos de alegria”.

A existência já glorificada de Maria e sua alegria são as mediações de que dispomos para proclamar: “É uma terra que corre leite e mel. Vale a pena caminhar em sua direção para conhecê-la”!

A partir de sua plenitude em Deus, Maria nos abençoa e nos motiva a viver em estado de peregrinação, com sentido e inspiração. Essa realidade já estava presente na sua visita à sua prima Isabel quando, cheia de alegria, deixa o seu coração transbordar através do canto do Magnificat.

O mistério da Visitação, indicado para a festa da Assunção, nos revela que Maria é a mulher que “sabe olhar” em profundidade, que deixa aflorar uma intensa “admiração”, que se alegra em seu coração, que ativa uma gratidão transbordante e vive em contínua disponibilidade: estes são os componentes da benção. 

De Maria aprendemos a sabedoria do bendizer sempre e a todos. Ela é sempre uma benção para todo(a) aquele(a) que dela se aproxima.

Maria é a mulher plena e, por isso mesmo, em seu “ser mulher” deixa Deus transparecer; ela experimenta Deus no mais profundo de si mesma e vai deixando-se viver – deixando-se fazer – a partir d’Ele. Nela descobrimos a admirável unidade humana-divina: todo o autenticamente humano é já divino e o divino é entranhavelmente humano. Esta é a unidade que nós cristãos reconhecemos e celebramos na encarnação de Jesus: “O Verbo se fez carne”. Deus é humanidade, carne, matéria...

Certamente, a Maria dos Evangelhos nada tem a ver com a imagem que muitas vezes foi apresentada como mulher passiva, silenciosa, submissa, uma imagem que, ao invés de refletir a personalidade de Maria de Nazaré, parecia ser um modelo fixo que se apresentava aos homens como mulher ideal e às mulheres para sua imitação. Como nenhum modelo é “neutro”, este também tinha a clara funcionalidade social numa cultura autoritária, machista, repressiva e patriarcalista.

O que os evangelhos nos oferecem é bem diferente. Na Anunciação, Maria aparece tomando uma decisão pessoal, numa cultura na qual a mulher era totalmente submissa. Na Visitação, encontramos uma mulher de iniciativa e com vontade própria, decidida e empreendedora. É a mulher do caminho e do serviço. Em Caná, ela é a que impulsiona Jesus para sua missão (adiantando inclusive “sua hora”). Junto à Cruz, é a mulher inteira, atravessada pela dor, mas “de pé”, profundamente humana, profundamente fiel. No Cenáculo, é a mulher “líder”, congregando os discípulos e discípulas.

Em resumo, em diferentes momentos da liturgia, Maria é apresentada a nós como uma mulher livre, contemplativa, espiritual, forte, pressurosa, com vontade e fibra, “transgressora” ...; é a mulher que ama, a mulher santa, em comunhão com Deus e cheia do Espírito. E esta é a revelação do evangelho: em todos os momentos e situações, ela deixa “transparecer” em sua vida o verdadeiro rosto misericordioso de Deus; em todos os cenários Maria nos revela que já vivia em permanente “assunção”, pois sentia-se “assumida” por Deus em todos os momentos e circunstâncias.

Nela buscamos inspiração para fazer de nossa vida uma contínua “assunção” em Deus.


ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA – 2020 – OFS SP

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Lucas 1,39-56

 

Na oração:

Esse é o motivo último da confiança e da alegria: que Deus nos olha, e nos olha com bondade. Assim canta Maria: “... o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva”. Ao se sentir “olhada” carinhosamente por Deus, Maria se revela como a mulher dos “olhos gran-des”, ou seja, é a mulher que “põe seus olhos” na realidade e nas pessoas. 

Seu hino deixa transparecer nela um júbilo profundo, nascido das profundezas de sua pessoa; hino que expressa bem a vontade oblativa de Maria, como mulher de alegria e de confiança.

- Faça memória das experiências de “assunção” em sua vida: o que mudou? quê movimentos vitais surgiram?

- Deixe emergir das profundezas de seu coração um canto de profunda gratidão por tudo aquilo que Deus já realizou, realiza e ainda realizará em sua vida.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Ano Novo: o “novo” que nos habita

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade da Santa Mãe de Deus, em que se celebra também a chegada do Ano Novo e o Dia Mundial da Paz.

 

“Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido” (Lc 2,20)

 


No início deste Novo Ano busquemos inspiração no relato do evangelho de Lucas sobre os pastores dos arredores de Belém, pastores que buscam, encontram e constroem a paz. Relato que quer abrir nossos olhos, despertar nossa esperança, suscitar nosso compromisso e abrir um novo horizonte de sentido na nossa vida. 

Muitas vezes costumamos cair neste erro: considerar o ano civil como um “ciclo”, como um tempo circular que volta sempre, sem mudança, repetindo-se mecanicamente.

Esta sensação de circularidade imprime monotonia e rotina à nossa vida e não corresponde ao que procla-mamos como cristãos; continuamente celebramos o Deus da surpresa, o Deus da novidade, Aquele que vai sempre à frente, que não se repete, Aquele que sustenta e impulsiona nossa história (pessoal, comunitária, mundial, eclesial...), que nos interpela e nos compromete na construção do Reino, até que Jesus (o centro de nossa vida) seja realmente “tudo em todos”.

Foi assim que os pastores, ao se deslocarem para a gruta de Belém, se depararam com a surpreendente novidade de Deus: a salvação se fez visível na margem, na periferia da vida. No rosto de uma criança recém-nascida se revelou a ternura acolhedora de Deus. O “novo” brotou do chão despojado da vida e não dos palácios, dos templos.

 

Neste primeiro dia do Ano vamos reler o relato dos pastores com a liberdade com a qual foi escrito por Lucas. É de noite. Alguns pastores velam seus rebanhos dos perigos. São pobres, marginalizados da socieda-de e do sistema religioso. Desejam a paz, a paz da justiça ou a justiça na paz. Não querem a paz do império romano, de seu poder violento. Tampouco podem esperar que algum “messias” (rei ou sacerdote) traga a paz. Que podiam eles esperar de Deus, pois são considerados como gente de duvidosa moralidade e ritual-mente impura e, portanto, excluída dos benefícios divinos do templo, gente privada do perdão e da paz divina que a religião promete? Que podem esperar do “Deus altíssimo”, invocado pelos poderosos e a quem os sacerdotes do templo imolam os cordeiros de seus rebanhos? Que podem esperar do Deus manipulado pelos mestres da lei que os exclui, por serem ignorantes e inferiores? Por acaso existe outro Deus?

E, de repente, sentem que, na noite da desesperança, uma luz os envolve e uma voz os consola. E se põem a caminho, guiados pelo coração e pela luz.

E na gruta, onde costumam guardar seus rebanhos, a luz de seus olhos se encontra com a glória da vida e do universo, encarnada no sinal mais humilde e luminoso: um recém-nascido. Nas ruínas do velho mundo quebrado, do mundo desgarrado, se acende a luz da justiça que garante a paz verdadeira, a luz da paz que gera a justiça. Nas profundezas do universo e de cada ser humano se acende e brota sem cessar um mundo novo, onde as honras não fascinam, as riquezas são compartilhadas, os poderes se rendem, um mundo onde a justiça e a paz se encontram. 

 

“Já não há mais um Deus altíssimo”, poderiam ter dito aqueles simples pastores. Não existe o Deus dos reis com seus exércitos, tronos e palácios, nem o Deus das religiões com suas doutrinas, cleros e templos. Deus é o Ser fontal de tudo quanto existe. É a Luz originária da qual tudo nasce e vive desde sempre. É a luz da energia que tudo atrai e tudo impulsiona. É a Paz na justiça, a paz ativa, terna e subversiva, que cria e re-cria tudo incessantemente, de transformação em transformação. É o Amor universal que atrai tudo e tudo impulsiona para o “novo céu e a nova terra”.

É preciso ter um coração de um humilde pastor para compreender o “mistério” da Gruta de Belém. O Deus de Jesus não é o Deus que já tem tudo preparado, atado e bem atado; não é o Deus da inércia ou da rotina, mas o Deus que faz tudo novo e, por isso, nos move à renovação permanente e nunca à acomodação. É o Deus sempre criativo que suscita o “novo” e o “surpreendente”, que não “ata” as coisas nem amarra a Criação; por isso, nos convida a sermos co-criadores e colaboradores com Ele na criação contínua através do trabalho e da ação humana. É o Deus da surpresa e da liberdade; uma liberdade humana que conduz a situações imprevisíveis. 

 

Naquela noite de Natal, numa Gruta despojada de qualquer tecnologia, aconteceu uma conexão muito especial, a melhor conexão jamais inventada. Deus, rompe as distâncias, faz-se “humano” e se põe em contato com a humanidade, sem mensagens nem mensageiros. É certo que fora anunciado pelos profetas, mas fazia muitos anos e não havia nenhum sinal extraordinário de que fosse acontecer naquele momento.

Mas, esta é a surpresa: Ele vem em pessoa, rompe as distâncias entre o céu e a terra, entre sua divindade e nossa humanidade; naquela luminosa noite, Deus, em Jesus, nascido da Virgem Maria, se faz um de nós, “um entre tantos” e nos faz partícipes de sua vida. O Verbo se humaniza para nos divinizar”; e assim recebemos a filiação divina e nos tornamos filhos e filhas de Deus.

 

O Deus do “novo” vem dar sentido e inspiração ao Novo Ano que se inicia. É Ele que desperta nossa imaginação, reacende nossos desejos e alimenta nosso espírito de busca.

Imaginação, inspiração, originalidade, criatividade... são o sal da vida e o sopro do Espírito; é o que faz sair luz das sombras e ordem da confusão; é o início de tudo.

Tudo o que é novo começa por uma inspiração e o que não é novo é apenas repetição do que já foi.

criação é privilégio do Criador. Participar de alguma maneira humilde, simples, mínima, na emoção suprema da criação primeira é o prazer mais íntimo que o ser humano pode ter sobre a terra. A criatividade e a inspiração são a faísca do divino no coração do ser humano. 

É a expressão da inspiração que, tal como vento, não se sabe de onde vem e nem para onde vai.

Por nossa conta não podemos fazer muito, apenas nos preparar, estar atentos, observar o horizonte, esperar a oportunidade. Mas quando a inspiração surge é preciso lançar-nos. Quem hesita diante da oportunidade perde a vida, que é feita de oportunidades. É preciso aprender a reconhecê-la, acolhê-la com imediata alegria e vontade decidida. “Cada um deve inventar sua vida”.

vida só tem sentido quando se torna “história”, isto é, quando não se limita a repetir o passado, senão que gera algo novo a partir de uma origem. Todo ser humano experimenta, de alguma maneira, impulsos para a superação de si”; sua vida está orientada para algo definitivo, pleno... e ele vai construindo-se a si mesmo até converter-se em alguém único e irrepetível. A maneira de fazer isso não pode ser forçada, mas consiste em aceitar o que já se tem e, partindo daí, dar uma direção nova à sua história.

 

Somos impulsionados, continuamente, a romper com a vida formal e convencional, a vida ordenada com normas claras e recompensas seguras, o exercício de virtudes pessoais...  e caminhar para uma vida mais audaz e incerta, de horizontes amplos, de exigências que nos impulsionam a “começar de novo”, de signifi-cado mais universal; despertar a motivação e a intenção daquilo que vivemos e fazemos: por quê? para quem?... Temos um coração maior que o mundo e desejos que nos fazem ter asas de águia.

O ser humano é, em sua essência, mudança, movimento, dinamismo, energia... Deus não nos deu um espírito de timidez, de medo, de fuga, de acomodação..., mas de audácia, de criatividade, de luta, de participação... Quando alguém não vive a vida a fundo, só lhe resta a rotina da vida e o vazio vital.

 


Texto bíblico:  Evangelho segundo Lucas 2,16-21

 

Na oração: 

Não percebemos precisamos de um coração novo? Não sentimos a necessidade de sacudir nossa apatia e auto-engano? Como despertar o melhor que há em cada um de nós? Como reavivar a atitude humilde e transparente dos simples pastores que “glorificavam e louvavam a Deus” depois de terem encontrado o Menino na Gruta?

- Qual é o “novo” que Deus quer realizar em nós e conosco, em nossos ambientes, neste ano que começa?

- É preciso nos aproximar da Gruta de Belém “com todo acatamento e reverência possível” e, se fazemos isso de boa vontade e de bom coração teremos o privilégio de nos sentir envolvidos pela rede do amor misericordioso de Deus.

Se conseguirmos que o ano de 2026 seja “novo” com a eterna novidade da bondade, então também teremos um ano feliz.

Um inspirado 2026!


sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A inspiradora Família de Nazaré

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho da Festa litúrgica da Sagrada Família de Jesus, Maria e José.


“Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito!” (Mt 2,13)

 

O relato evangélico indicado para a festa da Sagrada Família é como o espelho de nossa história violenta, que avança sobre cadáveres de crianças sacrificadas, de inocentes fugitivos, de homens e mulheres errantes, perseguidos, em busca de uma pátria. Nossa história do “falso natal” avança sobre o Natal verdadeiro que continua acontecendo nos caminhos dos fugitivos e dos clandestinos deste mundo.

O alarme diante da notícia do nascimento do “rei dos judeus” encaixa perfeitamente no contexto de mentiras e complôs, de terrores e furores dos últimos anos do rei Herodes.

Jesus, já na sua infância, se fez presente no lugar onde se encontravam aqueles que não tinham “lugar”, os “deslocados”, os socialmente rejeitados e que serão, mais tarde, a razão de seu amor e do seu cuidado. Porque fez a experiência da exclusão (exílio) é que Jesus irá desencadear, com sua vida e missão, um movimento de inclusão.

perseguição e o exílio logo no início de sua vida revelam o realismo da Encarnação. Ao entrar na nossa história, o Filho de Deus esvaziou-se de sua glória e assumiu nossa condição humana, com todas as consequências: pobreza e impotência, perseguições e ameaças de morte por parte dos poderosos de turno.

Jesus nasceu num mundo hostil. Ele foi perseguido pelos “donos do poder” desde o início de sua vida.

O não reconhecimento d’Ele por Herodes e por Jerusalém antecipa sua rejeição, sua condenação e sua morte na Cidade Santa, no lugar onde Ele encontrará a maior hostilidade.

O paralelismo entre Jesus e Moisés, de um lado, e entre Herodes e Faraó, de outro, é claro.

Há também um paralelismo entre Jesus e o povo de Israel: Jesus revive na sua própria história a travessia do seu povo, chamado por Deus do Egito. “Do Egito chamei meu filho” (Os. 11,1).

Nessa escola de perseguição cresceu o Messias, compartilhando assim a sorte dos hebreus oprimidos no Egito; crescendo nela pode entender e interpretar nossa história por dentro. Entre fugitivos e perseguidos, cresceu Jesus, nas fronteiras da desumanização; ali vai sendo gestada a história da nova humanidade.

Se a história da Encarnação começa lá “embaixo”, na periferia, quer dizer que a fé em Deus implica prestar atenção e voltar a cabeça em direção aos “últimos”, aos que vivem “deslocados”. É por esse caminho que podemos chegar à descoberta e à experiência de Deus; é também por este caminho que podemos chegar ao conhecimento de nós mesmos e nos fazermos mais “humanos” e “solidários”. No momento em que o Verbo de Deus assume um rosto, todo ser humano chega à plenitude de sua realização: entra em comunhão com o Infinito e recebe uma dignidade infinita.

O relato do exílio interpela a nossa liberdade e a nossa fé. Jesus continua batendo à porta e pedindo hospitalidade na ponta dos pés. São rostos desfigurados pela fome e pobreza, rostos aterrorizados pela violência diária, rostos angustiados de menores carentes, rostos humilhados e ofendidos na sua dignidade... Podemos fechar-Lhe a porta e condená-Lo ao exílio, que é uma atitude gravíssima na relação com Deus. 

Aqui se condena uma criança. Se não entendermos essa lição, nada mais conseguiremos entender. Nesta nossa ignorância e insensibilidade a respeito do presente divino que é a Criança de Belém, estão as raízes de nossas maiores desgraças, injustiças, violências... 

E Deus não pode abençoar uma sociedade que não sabe valorizar e proteger suas crianças...

O Evangelho de hoje termina com três indicações geográficas, que são como que a espinha dorsal da narrativa. Antes de tudo, o anjo diz a José que deve retornar à terra de Israel: é a pátria mais genérica de Jesus e da revelação bíblica. Depois José é advertido em sonho para ficar no território da Galileia.

Enfim, de modo mais específico, ele vai morar “numa cidade chamada Nazaré”.

Nazaré está no traçado do retorno-êxodo de Jesus do Egito.

Com a terra de Israel Jesus revive a experiência do Êxodo; com a Galileia dos gentios Jesus abre a salvação aos mais pobres e excluídos; mas, em Nazaré Ele encontra o ambiente favorável à sua humanização. Um povoado insignificante que se torna o ponto de partida do caminho de Jesus, uma vida oculta e corriqueira que é celebrada pelos profetas.

Podemos dizer que Nazaré é, em certo sentido, a mística do cotidiano”, das horas, dos meses, dos anos escondidos, da vida tranquila, provinciana, não-escrita, de Jesus.

Essa atenção à simplicidade do cotidiano, à natureza da Galileia, à mensagem que Deus esconde no interior das pessoas, nas coisas, nas horas…, é uma constante na pregação de Jesus. Nazaré é o sinal da epifania de Deus nas pequenas coisas, é o sinal da palavra divina escondida nas vestes humildes da vida simples e familiar, é o sinal da presença graciosa de Deus em nossas casas.

Às vezes, as imagens da Sagrada Família nos fazem entendê-la de uma maneira fria, solene e distante. No entanto, não devemos esquecer que Jesus teve uma família e nela viveu muitas das experiências que nós vivemos nas nossas: alegrias e tristezas, dramas e conquistas, perdas e encontros...

família continua sendo o espaço humanizador privilegiado para o desenvolvimento de cada pessoa, não só durante os anos da infância e da juventude, mas durante todas as etapas de nossa vida.

O ser humano só pode crescer em humanidade através de suas relações sadias com os outros. A família é a atmosfera insubstituível e o lugar de referência para que essas relações profundamente humanas sejam amadurecidas. Seja como casal, como filho, como irmão, como pai ou mãe, como avós..., em cada uma dessas situações a qualidade da relação os fará aproximar da plenitude humana, quando todo encontro com o outro é vivido para destravar e ativar suas ricas possibilidades e sua capacidade de amar. 

O espaço familiar des-vela o humano que em todos habita.

Inspirada no lar em Nazaré, cada família se transforma num espaço privilegiado para viver as experiências mais básicas da fé cristã: a confiança num Deus Bom, amigo do ser humano; a atração por um estilo de vida cristificado; a descoberta do projeto de Deus de construir um mundo mais digno, justo e amável para todos; ambiente inspirador para o despertar da criatividade e do espírito de busca; a internalização dos valores do evangelho, etc... 

Num lar onde se vive o seguimento de Jesus com fé simples, mas com grande paixão, cresce uma família sempre acolhedora, sensível ao sofrimento dos mais necessitados, que aprende a partilhar e a comprometer-se por um mundo mais humano. Uma família que não se encerra só nos seus interesses, mas que vive aberta à família humana.

experiência e vivência familiar, portanto, vem responder a uma demanda própria deste momento pós-moderno e se revela capaz de restituir ao ser humano de hoje a espessura de humanidade e os valores que lhe são próprios. O clima familiar não só mobiliza a pessoa em sua integralidade (corporal, afetivo, cognitiva, volitiva...), mas a acompanha para um sentido sapiencialda vida e que a faz saboreá-la como descoberta, como oportunidade, como dom.

A espiritualidade familiar, centralizada em cada um de seus membros, visa mobilizá-los em todas as suas dimensões, promove distensão, paz e alegria, propõe um caminho de plena humanização, forma para a abertura aos outros e para a doação por amor, impele, em suma, a criar as condições para que todos atinjam a maturidade e se realizem como seres humanos.

Oração da Sagrada Família - Departamento Arquidiocesano para a Pastoral  Familiar


Texto bíblico:  Evangelho segundo Mateus 2,13-15.19-23

 

Na oração:  

Contemplar seu espaço familiar: é ambiente instigante, provocativo, inspirador... onde todos se sentem livres para expressar sua identidade e originalidade? Ali educa-se para viver uma consciência moral responsável, sadia, coerente com a fé cristã? Ou favorece um estilo de vida superficial, consumista, sem metas nem ideais, sem critérios e valores evangélicos?

Em quê dimensões você sente que sua família pode e deve crescer mais, tendo como referência a Família de Nazaré?

sábado, 11 de outubro de 2025

O bom vinho da presença

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho da liturgia do dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.

“A mãe de Jesus estava presente” (Jo 2,1)

 

Celebramos, neste domingo, a festa da Padroeira do Brasil: Virgem Maria da Conceição Aparecida.

A liturgia da Igreja no Brasil nos propõe, para esta festa, o relato joanino do “casamento em Caná”, onde Maria “estava presente”: presença inspirada que fez a diferença; presença solidária, marcada pela atenção, prontidão e sensibilidade, próprias de uma mãe; presença expansiva que mobilizou os outros, assim como mobilizou seu Filho a antecipar sua “hora”.

A “boda em Caná” é o ícone evangélico que melhor revela a situação atual da Igreja e do cristianismo. Por todos os lados pede-se renovação e em muitos lugares surgem experiências ousadas e renovadoras. É o frescor de uma espiritualidade que abre passagem entre os caminhos quase desertos de uma religião em agonia. É o vinho novo que se faz presente para brindarmos o amor e celebrar a vida.

No entanto, insistimos em pôr vinho novo em odres velhos. Esse é o drama da Igreja: aferrada aos odres da doutrina e suas obsoletas estruturas, não sabe aproveitar nem desfrutar do vinho novo. Com frequência, não sabe o que fazer com este vinho novo e o desperdiça.

Precisamos de odres novos para este vinho espumante e gracioso, um vinho cheio de vida e de sabor, um vinho encorpado e robusto, um vinho com tanta força que vai rompendo sem piedade os odres desgastados e rachados. É o vinho novo que exige reformular a vida cristã e a Igreja.

Segundo o evangelista João, Jesus realizou “sinais” para dar a conhecer o mistério de sua pessoa e para convidar os seus seguidores e seguidoras a acolherem a força salvadora que Ele trazia consigo. 

Qual foi o primeiro “sinal”? O que primeiramente devemos encontrar em Jesus? 

O evangelista fala de uma “boda em Caná da Galileia”, uma pequena aldeia de montanha, a 15 km de Nazaré. No entanto, a cena tem um caráter claramente simbólico. Nem a esposa ou o esposo tem rosto: não falam, nem atuam. O mais importante é um “convidado” especial que se chama Jesus.

Na Galileia, as festas de casamento eram as mais esperadas e desejadas entre os camponeses. Durante vários dias, familiares e amigos acompanhavam os noivos, comendo e bebendo com eles, bailando danças de casamento e cantando canções de amor. 

O vinho era indispensável em um casamento. Para aquelas pessoas, o vinho era o símbolo mais expressivo do amor e da alegria. Já dizia a tradição judaica: “o vinho alegra o coração”. A noiva cantava para seu amado um lindo canto de amor: “Teus amores são melhores que o vinho”.

O início do relato joanino apresenta Jesus sendo apenas um convidado; como anônimo, Ele vem de fora, não pertence por si mesmo ao espaço do casamento. Ele e seus discípulos parecem formar um mundo à parte, estão como que de passagem. Logicamente, não se preocupam com as questões da organização da festa, ao menos no primeiro momento. Esta é a surpresa da cena: Jesus vem como por casualidade e, no entanto, logo atua como responsável verdadeiro diante das velhas e das novas “bodas” da terra. 

Neste contexto, tornam-se centrais as relações entre a mãe (que é sinal da humanidade anterior, ou seja, do judaísmo da lei, da esperança messiânica) e Jesus (que será o iniciador das novas bodas do Vinho do Reino).

mãe é a mulher que introduz a nova páscoa de Jesus. Ela marca a diferença entre as antigas e as novas bodas, a passagem da água ao vinho. É a mulher de dois mundos, dois tempos, duas bodas. 

Parece que ninguém tinha descoberto a carência de vinho. Só a Mãe de Jesus notou a falta e se moveu a buscar uma solução para um problema que parecia sem saída.

De imediato, a mãe de Jesus lhe avisou: “eles não têm mais vinho”. Como vão continuar cantando e bailando? Que significa um casamento sem alegria e sem amor? O que se pode celebrar com o coração triste e vazio de amor? 

No pátio da casa havia “seis talhas de pedra”. Eram enormes. Estavam colocadas ali, de maneira fixa. Nelas se guardava a água para as purificações. Representavam a piedade religiosa daqueles camponeses que procuravam viver “puros” diante de Deus. 

A Mãe de Jesus é, por um lado, uma mulher do mundo antigo: pertence ao espaço das velhas bodas; conhece e compartilha por dentro os problemas e preocupações dos homens e mulheres que não conseguem saborear o verdadeiro matrimônio da vida. Ela se encontra no lugar onde a alegria deveria se manifestar: não é luto de morte, mas fonte de vinho, isto é, de esperança criadora, de Bodas de Deus. É mulher da vida prazerosa: está a serviço gratuito da festa. Seu desejo verdadeiro é o banquete (quer que os homens e mulheres bebam, dancem, vivam), não o ritual das purificações e abluções.

Nesse sentido, a Mãe de Jesus é mulher do mundo novo, mulher de bodas: ela sabe que há um vinho de “bodas” diferentes, sabe que já chegou quem pode proporcioná-lo. Por isso, ela não se contém: a impaciência do novo Reino de Deus pulsa no centro de sua vida e procura expressá-la. 

Assim, aproxima-se e diz a Jesus, de maneira sóbria e reverente: “eles não têm mais vinho!”.

Jesus que, num primeiro momento, parecia ter-se distanciado de sua mãe (“Mulher, porque dizes isto a mim?”), cumpre logo, de maneira diferente e por sua própria vontade, o que ela lhe pediu; e faz isso de maneira transbordante, muito mais que aquilo que ela lhe pedira. Oferece vinho abundante e de excelente qualidade aos convidados das “bodas”. Dessa forma realiza e transborda o desejo mais profundo de Maria.

Sua intervenção vai introduzir amor e alegria naquela religião. Este é seu primeiro “sinal”.

O evangelho indicado para este domingo nos revela esta grande notícia: Deus se manifesta em todos os acontecimentos que nos convidam a viver com mais sentido e prazer. Deus não quer que renunciemos a nada do que é verdadeiramente humano; Ele quer que vivamos o divino naquilo que é cotidiano e normal. A ideia do sofrimento e da mortificação como exigência divina é ante evangélica. 

A mensagem para nós hoje é muito simples, mas demolidor. Nem ritos, nem abluções podem purificar o ser humano. Só quando ele saboreia o vinho-amor, no encontro e na comunhão com o outro, ficará ele todo limpo e purificado.  Quando descobrirmos Deus dentro de nós e nos outros, seremos capazes de viver a imensa alegria que nasce da unidade-amor. Que ninguém nos engane: o melhor vinho está sem estourar, escondido na adega de nosso interior.

 

“Eles não têm mais vinho!”

Esta é uma das expressões mais fortes do NT e do conjunto da Bíblia. Em primeiro lugar, ela é proferida pela Mãe ao seu Filho, mas logo podemos e devemos aplicá-la a diferentes situações de nossa vida.  São palavras que, quando escutadas, têm profundas ressonâncias em nós, sobretudo quando estamos comprometidos na nobre missão de “despertar o sabor da vida”.

Precisamente ali onde podemos nos sentir satisfeitos, ali onde pensamos que as coisas se encontram já resolvidas, tudo em ordem, se eleva com mais força a voz da Mãe de Jesus dizendo: “Eles não têm mais liberdade, estão cativos!” “Não têm mais saúde, estão enfermos!” “Não tem mais pão, estão famintos!” Não tem mais família, estão abandonados!” “Não tem paz, encontram-se deprimidos, em guerras sem fim!” ...

Já não podemos mais responder como Jesus em um primeiro momento: “que importa a mim e a ti? Não é nossa hora!” Sabemos que, em Jesus e por Jesus, chegou a hora da Mãe que nos mostra as necessidades de seus filhos, os humanos sofredores. Sobre um mundo onde falta o vinho das bodas da liberdade/amor/justiça, sobre um mundo que sofre a opressão e o forte vazio da vida, sobre um mundo onde continua acontecendo guerras, ódios, intolerâncias..., a voz da Mãe de Jesus ressoa como uma recordação ativa das necessidades das pessoas; por isso, é princípio de forte compromisso.

A imagem de Nossa Senhora que emerge dos Santos Evangelhos | Diocese de São  João del Rei

 

Texto bíblico:  Evangelho segundo João 2,1-11

 

Na oração: 

Como podemos pretender seguir a Jesus sem cuidar mais da alegria e do amor entre nós? O que pode ser mais importante que isto na Igreja e no mundo? Até quando poderemos conservar em “talhas de pedra” uma fé triste e enfadonha? Para que servem nossos esforços, se não somos capazes de introduzir amor e alegria em nossa religião? 

Nada pode ser mais triste do que dizer de uma comunidade cristã: “eles não têm mais vinho!”.

- Sua presença na comunidade cristã desperta o sabor do bom vinho da vida e da amizade?

sábado, 16 de agosto de 2025

Maria, a mulher dos olhos contemplativos

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria.

“...porque Ele olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1,48)

 

dogma da Assunção afirma que Maria, mãe de Jesus, “subiu ao céu como mulher plena”. 

A festa da Assunção nos revela que em Maria realiza-se a situação final, situação prometida a toda humanidade: “ser um dia de Deus e para Deus”; Maria o é desde o início (imaculada) até o final (assunção), através de uma fidelidade de toda a sua vida.

Maria foi “assunta ao céu” porque “levantou-se apressadamente” em direção ao serviço; ela foi “assunta” porque assumiu tudo o que é humano, porque “desceu” e se comprometeu com a história dos pequenos e marginalizados. Maria foi glorificada porque se fez radicalmente “humana”; foi “assunta ao céu” porque sempre foi “olhada” por Deus, que a engrandeceu plenamente. 

“Alegra-se meu espírito em Deus meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva”, canta Maria no seu “Magnificat”, reconhecendo que nesse olhar divino está a fonte de seu júbilo: Deus se inclinou para ela, a envolveu em sua ternura e a inundou de graça. E Maria, ao sentir-se assim olhada, se alegra até às raízes mais profundas de seu ser. 

Mas, sem deter-se aí, dirige seus olhos para onde Deus sempre olha, e contempla a história com o mesmo olhar na qual se sentiu envolvida. Aproxima-se da “janela” da realidade com olhos novos, com um realismo consciente da fragilidade das pessoas e da dureza da vida: há famintos, pobres e humilhados; há ambições e poderes opressores que são a causa da tanta miséria e violência. 

Maria não se deixa enganar pelas aparências, pois revela-se capaz de perfurar a realidade e ver as coisas, as pessoas e as relações tal como Deus as vê. Por isso, adianta-se a contemplar os famintos já saciados, os humildes e abatidos já exaltados e os ricos e poderosos despedidos de mãos vazias.

Porque “sentiu-se olhada amorosamente por Deus” Maria se revela com olhos contemplativos; brilham neles traços de ternura, de compreensão e amor compassivo, que atraem como imã. São olhos que expressam amor, proximidade, sensibilidade, interesse pela realidade. É o olhar da pessoa próxima que se “põe na pele do outro”, o olhar da pessoa que se deixa afetar.

Podemos dizer que Maria tem “olhos oblativos”, comprometidos. “Faz-te olhar”, recomenda Rumi, o místico sufi do século XIII, com sua costumeira simplicidade e determinação.

Maria tem os olhos grandes da mulher contemplativa; olhos abertos e serenos, voltados para o mistério interior e exterior. Tudo cabe sob o amparo desta fonte cálida.

Há um adágio latino que diz: “ubi amor, ibi oculus”. “Onde há amor, ali está o olhar”. O amor direciona o olhar, a atenção e o cuidado para aquilo que se ama. E onde está o olhar, o amor passa do coração aos pés e às mãos. O amor vê o que os olhos não veem. O amor vê o que os egoístas não veem. O amor vê e não pensa duas vezes. O amor não espera chamadas. 

Não basta ver as coisas a partir de longe; nem basta saber que os outros precisam de ajuda; não basta saber que os outros estão sós e necessitados. 

Na Bíblia, “pôr os olhos” é “pôr o coração”. Maria põe seu coração em toda a realidade, em todos os homens e mulheres, seus filhos e filhas; Maria, a contemplativa, é a mulher mística “de olhos abertos”, tocando a terra; assim é a genuína fé cristã, bem enraizada sempre na realidade.

Assim é Maria, revelada pelos evangelhos: uma mulher que se “deixa afetar”, de olhar contemplativo e estremecida de júbilo em Deus, em pé e mobilizada, uma mulher que bendiz e se põe a serviço.

É assim que a encontramos na casa de Isabel, na sua visitação e estadia como servidora.

Maria é a mulher contemplativa, mulher aberta e atenta a Deus e à realidade, ou melhor, a Deus-na-realidade. São olhos de uma mulher mística e profetisa: mística, ou seja, capaz de ver a Deus em tudo e tudo em Deus (“a minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”); e profetisa, capaz de ver tudo com os “olhos” de Deus; olhos que proclamam as maravilhadas e que denunciam as mazelas daqueles que são ambiciosos e rompem a comunhão.

No Magníficat de Maria encontramos uma mulher lúcida, comprometida com a história de seu povo, crítica da ordem estabelecida, na linha dos profetas de Israel.

No Evangelho deste domingo, Maria revela-se disposta, pronta a empreender o caminho em direção à casa de sua prima; inteira em sua atenção profunda e aberta para a ação. É a mulher que “se pôs a caminho e foi às pressas à montanha, a uma cidade de Judá”;

Em Maria vemos uma pessoa de pé, pronta, mobilizada, com talante, capaz de olhar com o coração, deixando-se afetar pela realidade, vivendo a alegria de crer e fazendo de sua vida uma benção.

Como mulher “resolvida”, Maria é transparência de Deus. Nela vemos que “o que é próprio de Deus” não é prioritariamente um assunto de doutrina nem de moral, mas um assunto de “entranhas”, de vida.

Porque experimentou a Deus como fonte de vida, ela explodiu em louvor, mostrando que a fonte da alegria só a encontramos no Deus da Vida: esse é seu canto. Ela também, como Jesus, nos comunica algo extraordinário: o verdadeiramente humano é transparência de Deus.

Contra certas imagens de Maria que predominaram e predominam no imaginário cristão, o evangelho nos revela uma mulher decidida, segura de si e, ao mesmo tempo, voltada para os demais. Tinha olhar atento, inclusive “perscrutador”, para inteirar-se do que acontecia ao seu redor, não para alimentar curiosidade, mas para colocar-se à disposição; seu olhar oblativo parte do movimento interior, despertado pelo seu “sim” a Deus; daí brota sua “responsabilidade” como colaboradora: Maria é a mulher “responsável”, a partir de sua autonomia e seu serviço.

Para viver a fidelidade autêntica ao Evangelho, precisamos ser, como Maria, místicos e profetas: capazes de ver a Deus em toda realidade e de ver toda a realidade com os olhos de Deus. Precisamos, em definitiva, sentir-nos entranhavelmente amados(as) e benditos(as), para poder fazer de nossa vida uma benção, para nós mesmos(as) e para os outros. Precisamos sentir o que Maria experimentou: “Deus olhou com bondade minha pequenez”; em nossa “pequenez” Deus continua realizando maravilhas e nos olha (“põe seu coração em nós”), sempre e incondicionalmente, com bondade e misericórdia, querendo só nosso bem. 

Este é o Seu desejo para todos nós: que sejamos pessoas a caminho da completude e plenitude humana: em Deus, já somos “assuntos(as), ou seja, pura transparência d’Ele.

Assim, o mistério da Assunção de Maria torna-se uma inspirada referência para aclarar melhor o mistério de cada um de nós. Porque em Maria se encontra realizado aquilo que todos aspiramos: viver no fluxo da santidade divina; todos aspiramos a uma plenitude que, saibamos ou não, só Deus pode saciar. 

Maria, “cheia de graça”, “cheia de Deus”, é a realização plena de todas as nossas aspirações.

Por outra parte, além de uma vida plena, todos aspiramos a uma vida duradoura. Vida plena que permaneça, vida cheia de Deus e eterna. Na Assunção de Maria se realiza esta outra grande aspiração humana: viver para sempre, unidos(as) a Deus, fonte de toda vida. E viver com toda nossa realidade, plenificada em todas as suas dimensões. O pensador Kierkegaard afirmou que quando o ser humano ignora o eterno que há nele, sente o vazio, a angústia e o desespero.

Maria, na plenitude, é o referente do qual todos almejamos: que nada nos falte, que todos os aspectos e dimensões de nossa vida estejam plenificadas e saciadas. É este o significado do dom da salvação, oferecida por Aquele que a todos nos eleva. A salvação é um projeto de vida feliz, estável e completa, no qual todos os nossos desejos estão plenamente saciados. Isso é o que, com outras palavras, o dogma da Assunção diz de Maria. Essa é a esperança cristã. Por isso, Maria é transparência de nosso próprio mistério.

Solenidade da Assunção da Virgem Maria ao Céu – Paróquia Coração de Maria

 

Texto bíblicoEvangelho segundo Lucas 1,39-56

 

Na oração: 

Ao longo da oração peça que as palavras de louvor e de libertação cantadas por Maria penetrem no seu coração e deixem bro-tar frutos de conversão, de alegria e de gratidão; peça especialmente a graça de cantar com um cora-ção transbordante de júbilo, pela salvação recebi-da. Peça também que as palavras do Magnificat transformem seus valores, suas atitudes e suas prá-ticas na linha da justiça e da misericórdia do Evan-gelho do Reino, proclamado por Jesus e antecipado no cântico de sua mãe.

- Rezar as “marcas salvíficas” de Deus na sua própria história pessoal.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Ano Novo: a esperança desperta nosso “ser peregrino”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade da Santa Mãe de Deus, em que se celebra também a chegada do Ano Novo e o Dia Mundial da Paz.

 “Agora chegou o momento de um novo Jubileu, em que se abre novamente, de par em par, a Porta Santa para oferecer a experiência viva do amor de Deus, que desperta no coração a esperança segura da salvação em Cristo” (Bula Papa Francisco, n. 6)

Com a Bula “Spes non confundit” (“a esperança não decepciona” – Rom 5,5), o Papa Francisco proclamou o Jubileu ordinário do ano 2025. Com o tema “Peregrinos de esperança”, a intenção do Papa é reacender a esperança em todo o povo cristão, tendo presente o contexto social e religioso marcado pela “desesperança”, carência de projetos e de sonhos, falta de sentido...

Que é o Jubileu da esperança? O texto bíblico do Levítico 25 nos ajuda a compreender o que significa “jubileu” para o povo de Israel. A cada 50 anos os hebreus ouviam o alegre som do “jobel” (corneta de chifre de carneiro) que ecoava nas montanhas e nos vales, convocando a todos (“jobil”) para celebrar um ano jubilar. Neste tempo devia-se recuperar a boa relação com Deus, com o próximo e com toda a Criação, fundada na gratuidade. Era um ano do perdão, ou seja, os pobres ficavam livres de suas dívidas, os escravos tornavam-se livres, os camponeses recuperavam suas terras... Cheios de júbilo, podiam respirar, podiam viver, podiam reacender uma nova esperança; era o jubileu.

Neste Novo Ano que se inicia, o Jubileu vem nos recordar que somos “peregrinos de esperança”; é da nossa essência humana. A vida é constituída de contínuas “travessias” em direção a um horizonte inspirador. Somos seres em trânsito, rumo ao novo. Itinerantes. Temos “fome e sede de estradas”. O próprio caminhar desvenda mais caminhos, desperta uma inspirada esperança.

O ser humano é Terra que anda” (Atahualpa Yupanqui). O caminho está dentro de nós. Sem caminho nos sentimos perdidos, confusos, sem rumo, sem bússola e sem estrelas para orientar as noites de nossa existência.

Mais do que ser-de-caminho, o ser humano é ser-caminho: caminho da vida, caminho da verdade, caminho da justiça, caminho do coração, caminho do amor, caminho da ciência, caminho da ética, caminho da solidariedade. Cada pessoa tem a responsabilidade de ser caminho para os outros.

Caminho escancarado à passagem da humanidade peregrina. Caminho acolhedor; caminho aberto e solidário; caminho ecumênico; caminho plural; caminho sedutor. Esta é a grande esperança que dignifia toda a humanidade.

Peregrinar” e “esperançar”: fundamentos de nossa vida; duas dimensões humanas indissoluvelmente unidas, pois uma não existe sem a outra; duas atitudes que revelam a verdadeira identidade do ser humano. Quando os pés se movem, a esperança se acende; por outro lado, ninguém caminha se não é alimentado pelo fogo da esperança; é a esperança que mobiliza nossos melhores recursos, mobiliza nossos pés e nos faz peregrinos(as). Enquanto avançamos no caminho, importa colher e acolher o que a esperança oferece. Expandimos a esperança que ilumina a mente e o coração do nosso ser caminhante.

Todo ser humano é aventureiro por essência; com ardor, ele anseia por uma causa última pela qual viver, um valor supremo que unifique a multiplicidade caótica de suas vivências e experiências, um projeto que mereça sua entrega radical. Para dar sentido à sua vida e realizar-se como pessoa, o ser humano necessita da autotranscedência, isto é, viver para além de si mesmo, de seus impulsos, caprichos, desejos...

Ele carrega dentro de si a sede do infinito, a criatividade, a capacidade de romper fronteiras, os sonhos, a luz... Portador de uma força que o arrasta para algo maior que ele, não se limita ao próprio mundo; traz uma aspiração profunda de ser pleno, de realização, de busca do “mais”...

Nesse sentido, o Jubileu vem ao encontro desse nosso desejo profundo e se apresenta como uma mediação para ajudar-nos nessa longa travessia em direção à nossa própria identidade expansiva, deixando nosso estreito território e nos enveredando pelas terras desconhecidas do nosso “eu profundo”.

Somos ainda, em grande parte, uma “terra desconhecida” para nós mesmos, e a viagem de descoberta é como a viagem imaginária a uma nova terra, estranha e bela, que desperta assombro frente aos seus encantos e à novidade de suas mil maravilhas. Perceberemos, depois, com surpresa e alegria, que a bela terra nova a que chegamos sem saber é nosso próprio país natal esquecido, subestimado e abandonado. A redescoberta de nós mesmos é a maior e sem dúvida a mais gratificante aventura de nossa vida. Redescobrindo a nós mesmos, vamos encontrar o nosso lugar na história e a nossa missão no mundo.

O Jubileu da esperança nos convida a fazer estrada”, numa viagem em busca do mundo interior, sede dos desejos, daquilo que é importante e essencial, o nosso modo de projetar o futuro, as nossas decisões...

Foi essa a experiência vivida pelos pastores, que os arrancou do seu cotidiano e os fez caminhar em direção à Gruta de Belém; nas suas vidas, muitas vezes rotineira e sem expressão, uma Criança se fez presente e a alegria tomou conta do coração deles. E, repentinamente, sentem que, na noite da desesperança, uma luz os envolve, uma voz os consola, uma esperança floresce. A plenitude chegou para eles, e quando ela chega não se esgota num instante, senão que permanece ao longo de toda a vida. Eles se puseram a caminho, na direção do lugar onde o coração e a luz os guiaram. Num despojado presépio, a luz de seus olhos se encontrou com a glória da vida e do universo, encarnada no sinal mais humilde e luminoso: um recém-nascido.

Os pastores encontraram Aquele que é a “Luz da esperança”, e tudo se transfigurou para eles, pois Deus se revela em tudo. Com eles, também nós podemos nos colocar a caminho, olhar mais para dentro de nós mesmos, sentir o sofrimento dos excluídos, contemplar a harmonia do amanhecer e do entardecer de toda a natureza vivente, e reconhecer no fundo de tudo a paz que nos sustenta e nos relança em direção a um futuro carregado de esperança.

Neste mundo da violência globalizada, da economia que gera “massa sobrante”, da política planetária submetida aos poderes financeiros, da juventude condenada ao desespero, dos equilíbrios da natureza rompidos, neste mundo que parece ter perdido o juízo e caminha desesperadamente para o suicídio, neste mundo onde só cabe a resignação ou o conformismo doentio, ainda continua sendo possível ver a Luz e experimentar, como os pastores, que ter “esperança é ser capaz de ver a luz apesar da obscuridade” (Desmond Tutu).

Caminhamos juntos, acompanhados por Aquele que é o Caminho: “Emanuel, Deus conosco”! Quem caminha quer ser mais. Seu horizonte é o seu sonho, o seu ideal. Aceita o desafio de caminhar com os pés no chão e o coração na eternidade.

O Ano Novo nos abre as portas para uma vastidão de possibilidades, sonhos, desejos.... No início de cada ano civil nos é oferecida uma nova oportunidade, uma possibilidade aberta para investir o melhor de nós mesmos nos 365 dias que temos pela frente; assim, deveríamos viver o começo de cada ano, que se oferece a todos como novidade, oportunidade, novo começo...

Caminhar é preciso. O seu caminho tem coração? O Ano Novo mora dentro de você.

Textos bíblicos: Evangelho segundo Lucas 2,16-21

Na oração:

- Orar é entrar na Tenda do Senhor, que é o próprio coração: peregrinação interior, mobilidade...

- Deus “passa” e nos coloca em movimento; a oração é “fazer estrada com Deus”, caminhar na mesma direção, entrar no ritmo d’Ele, deixando-nos “ser conduzidos”.

- Para onde você sente que Deus vai lhe conduzindo? Há alguma coisa que o aprisiona?

- Recordar medos, entraves, obstáculos... que limitam sua vida interior, impedindo-o(a) fazer-se peregrino(a)

- Quê eventos inesperados no caminho transformaram sua vida? O que realmente causou impacto? Era algo planejado? Em que aspectos da vida você pode “sair” dos terrenos conhecidos? Você já se arriscou alguma vez?

- Neste Novo Ano que se inicia, você vislumbra caminhos inspiradores? Quê esperanças você alimenta no seu coração? Nele há lugar para a surpresa, para o inédito?

Um inspirado Ano Jubilar a todos.

Pe. Adroaldo Palaoro sj