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quinta-feira, 23 de outubro de 2025

A oração desvela nossa autoimagem

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 30º. Domingo do Tempo Comum (Ano C).

“Quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado” (Lc 18,14)

 

No seu inspirado ensinamento, são impactantes os diferentes personagens que Jesus apresentou como modelos de vida e que eram, social e religiosamente, considerados “impuros” e “imperfeitos” entre os membros daquela comunidade judaica que resistia acolher a sua mensagem de amor e seu chamado libertador. 

Por outro lado, Jesus denunciou com severidade as atitudes dos fariseus, porque eram exigentes, rigoristas, tradicionalistas, intolerantes, sentindo-se superiores aos demais. Não sentiam a necessidade de se converterem e de restabelecerem a fraternidade com aqueles que não eram de seu grupo. 

Com frequência, pessoas assim são desumanas, pouco compassivas, aferram-se às suas opiniões e desprezam os outros. Sua autossuficiência lhes impede se reconhecerem como filhos de Deus e irmãos dos outros, porque Deus só pode ser reconhecido de verdade nos outros e através dos outros e, de uma maneira muito especial, no rosto dos mais oprimidos deste mundo.

A indiferença, o julgamento, a intolerância e a “imagem aureolada” de si mesmo que exige méritos, são sinais distintivos de um ego inflado em seu modo de se situar na vida e na religião. O ego é incapaz de compaixão e de empatia: vive fechado em sua couraça de necessidades e de medos, empenhando-se por conseguir uma existência agradável para si, à margem de qualquer outro critério. E a religião tem sido um campo fértil para a manifestação das mazelas de um ego prepotente, julgador, rigorista, vazio de vida.

A parábola contada por Jesus revela que o fariseu é um observante escrupuloso da lei e um praticante fiel de sua religião. Sente-se seguro no templo. Ora de pé e com a cabeça erguida. Sua oração é auto-centrada: uma oração de louvor e ação de graças a Deus, mas não lhe dá graças por Sua grandeza, Sua bondade ou misericórdia, mas pela própria grandeza e por aquilo que realiza.

Ele pensa que pode “ficar de pé” diante de Deus, que pode estabelecer o confronto sem problemas, como de igual para igual. O fariseu não suplica a Deus e nem tem necessidade de ouví-Lo; já eliminou as distâncias com as suas palavras e se ilude de ter uma linha direta com o Altíssimo.

Em 2º lugar, o fariseu despreza os outros. Como ele se considera perfeito e não vê nenhuma falha em si mesmo, considera-se superior aos outros. Ao mesmo tempo que se auto-elogia, critica e despreza os outros. De fato, não descobre nenhum projeto divino sobre si, basta-lhe saber que é melhor que todos.

Na realidade, de acordo com o evangelho deste domingo, a oração é o lugar privilegiado onde cada pessoa deixa transparecer sua identidade; a oração é reveladora de quem é o ser humano. Observamos uma falsidade na oração do fariseu. Mais que orar, este homem se contempla a si mesmo. Narra sua própria história cheia de méritos. Necessita sentir-se com créditos diante de Deus e exibir-se como superior aos outros.

Na verdade, este homem não sabe o que é orar. Não reconhece a grandeza misteriosa de Deus nem confessa sua própria pequenez. Busca a Deus para enumerar diante d’Ele suas “boas obras” e despreza os outros: isso é próprio dos perfeccionistas e legalistas. Por detrás de sua aparente piedade se esconde uma oração “ateia”. Este homem não precisa de Deus, não lhe pede nada; na sua soberba, basta-se a si mesmo.

Em sua oração, o fariseu aparece centrado em si mesmo, naquilo que faz. Sabe o que ele não é: ladrão, injusto ou adúltero; nem tampouco é como o publicano, mas não sabe quem é ele na realidade. 

A parábola nos leva a reconhecer quem de fato ele é, precisamente não pelo que faz (jejuar, pagar o dízimo...), mas pelo que deixa de fazer (relacionar-se bem com os outros).

A oração do publicano, no entanto, é muito diferente. Sabe que sua presença no templo é malvista por todos. Seu ofício de cobrador de impostos é odiado e desprezado. Não se desculpa; reconhece que é pecador. Suas batidas no peito e as poucas palavras que sussurra já dizem tudo: “Meu Deus, tem compaixão de mim que sou pecador!”.

Este homem sabe que não pode se vangloriar. Não tem nada que oferecer a Deus, mas sim muito que receber d’Ele: seu perdão e sua misericórdia. Em sua oração há autenticidade. Este homem é pecador, mas está no caminho da verdade.

fariseu não se encontra com Deus, mas com seu ego inflado. O publicano, pelo contrário, encontra a atitude correta diante de Deus: a atitude daquele que não tem nada e necessita tudo. Não se detém sequer a confessar com detalhe suas culpas. Reconhece-se pecador. Dessa consciência brota sua oração: “Tem compaixão deste pecador!”.

Por estar longe de sua própria verdade, o fariseu não pode viver a prazerosa gratuidade – está esperando uma recompensa – e cai no desprezo do outro. Pelo contrário, o publicano apoia-se na verdade sobre si mesmo; e é a verdade que o salva e o reconcilia.

 

Jesus era um profundo conhecedor da condição humana; sabia que a pessoa consciente das suas imperfeições é mais disponível para acolher o anúncio do Reino. Sabemos que as escolhas de Jesus não caíram sobre os chamados “perfeitos”. As pessoas com quem Ele entrou em contato não eram conhecidas por suas boas maneiras nem por práticas religiosas; antes, eram pecadoras públicas.

A parábola narrada por Jesus tem força para desmascarar atitudes egóicas e que nos distanciam dos outros e do próprio Deus. Por “delicadeza”, ou para satisfazer os outros, ou por viver dependente da auto-imagem aureolada, ou alimentar a perfeição..., podemos perder a vida, nossa vida tão bela, tão frágil e efêmera.

Somente quando integrarmos e nos reconciliarmos com os aspectos de nós mesmos que tínhamos negado ou até rejeitado, poderemos alcançar a paz e a harmonia estáveis.  Portanto, nosso esforço não consiste em sermos “perfeitos”, mas “completos”. Na medida em que somos mais “completos”, porque acolhemos de maneira integral toda a nossa verdade, vamos nos tornando mais compassivos e humanos.

O que Deus quer de nós não pode ser conhecido por meio da busca da perfeição e das altas exigências que estabelecemos para nós mesmos. Pois é nisso que justamente se manifesta a nossa ambição. Queremos alcançar altos ideais para darmos a impressão de estar bem diante dos outros e, também, diante de Deus.

É esse modelo de perfeição que gerou demasiado sofrimento inútil, causando verdadeiros estragos na vivência do seguimento de Jesus. Gostaríamos de ser pessoas fortes, perfeitas, ascetas virtuosos; sonhamos ser onipotentes, “feitos para vencer” ... Na realidade, estamos mais preocupados com a própria glória, poder e perfeição que com a glória de Deus.

E aqui nos deparamos com uma das práticas mais comuns e universais do ser humano: a justificação. Buscar continuamente argumentos para esconder nossas fragilidades e incoerências. Somos peritos em alimentar um “fariseu” dentro de nós, com a lei na mão e rigidez no coração.

Elaboramos discursos e mais discursos para nos autoconvencer e convencer os outros daquilo que julgamos que somos. Tanto esforço para nada. Impossível cobrir a verdade tão simples como evidente daquilo que, na realidade, somos: “pobres pecadores(as)”.

“fariseu”, que todos hospedamos em nosso interior, realiza seu trabalho em silêncio, mas com uma eficácia impressionante: torna o nosso coração impermeável à experiência divina e petrifica nossa compaixão na relação com os outros.

publicano, por outro lado, nos revela que basta redescobrir o caminho da humildade (do húmus), bem no fundo de nós mesmos: este é o lugar da oração.

E quanto mais baixo for o ponto de partida, tanto mais alta ela vai subir...

salvação que esperamos não é fruto de nosso esforço e penitências, de nossa prática legal e de nossas virtudes perfeitas.  Ela é puro dom de Deus, divino presente de seu coração de Pai. Só nos resta acolhê-la em atitude de humilde gratidão.


How to Prevent Your Ego from Running Your Life - Tiny Buddha

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Lucas 18,9-14

 

Na oração:

humildade é a coragem de acolher a verdade sobre si mesmo; ela é o caminho para Deus; ela é a resposta para a experiência de Deus; ela é o lugar onde nós podemos ir ao encontro do Deus verdadeiro. A humildade é acolher as próprias fragilidades e alargar o espaço interior para que o Infinito possa atuar livremente nas “fendas” de nossa existência.

- Trazer à memória os possíveis sintomas da presença do “fariseu” em sua relação com os outros: rigidez, julgamento, legalismo, perfeccionismo, indiferença, religiosidade auto-centrada...

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Porta aberta: travessia para o inesperado

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 21º. Domingo do Tempo Comum (Ano C).

“Esforçai-vos por entrar pela porta estreita...” (Lc 13,24) 

Jesus está a caminho de Jerusalém, onde também pretende fazer chegar a Boa Notícia do Reino. Nesse percurso, o evangelista Lucas recolhe uma série de afirmações do Mestre que tem como objetivo instruir os discípulos e a nós sobre o seu seguimento.

Mais uma vez estamos diante de uma pergunta curiosa apresentada por alguém da multidão que o seguia: “é verdade que são poucos os que se salvam?” Jesus não responde diretamente à questão pois a salvação não significa um voluntarismo para cruzar a linha de chegada na vida; ela é dom de Deus, que desperta em nós o desejo de entrar no fluxo da sua Graça, esvaziando-nos do “ego” e abrindo-nos a uma atitude de serviço oblativo e gratuito.

Jesus não está preocupado com a quantidade dos que se salvarão, nem dá resposta à pergunta pela salvação final. Pelo contrário, faz um sério apelo a praticar a justiça no momento presente. Muda, assim, a direção da resposta esperada acerca do futuro para centrar-se no chamado a viver o presente com mais sentido e intensidade. A salvação não é simplesmente uma realidade do futuro, mas está conectada com as atitudes assumidas no presente, ou seja, é consequência de uma prática da justiça. O decisivo não é o futuro, que está nas mãos de Deus, mas o presente das ações justas ou injustas.

Jesus usa a imagem da “porta” para falar dessa passagem de uma vida limitada e auto-centrada, a uma vida expansiva, aberta à realidade. Porta que possibilita “entrar” na vida; dom em plenitude.

Na realidade, há uma tendência em todos nós de vivermos trancados em nossos mundos limitados; criamos e vivemos em “mundos-bolha”. Qual é o problema deste mundo-bolha? Porque questionar se alguém está tranquilo, comodamente instalado em suas seguranças, rodeado de um universo familiar e não ameaçante? Porque este afã por romper a bolha?

É difícil sair do terreno conhecido. Tudo parece conspirar para que nos mantenhamos dentro dos limites politicamente corretos. Portas são trancadas em todas as dimensões da vida: afetiva, social, religiosa, política... Podemos construir uma vida encapsulada em espaços feitos de hábitos e seguranças, situações estáveis, convivendo com pessoas que pensam e vivem do mesmo modo...; podemos ancorar-nos em três ou quatro seguranças que nos permitem viver sem sair de terrenos conhecidos.

Com isso, acabamos estabelecendo fronteiras vitais e sociais impermeáveis ao diferente. Se isto acontece, terminamos tendo perspectivas pequenas, visões incompletas, horizontes atrofiados e, provavelmente, ignorância sobre um mundo amplo, complexo e cheio de ricas possibilidades.

Em outras palavras: colocamos “portas” intelectuais e espirituais à audácia do amor. Falta-nos fé nas maravilhas do Espírito. Essa atitude de sair por nossas portas em direção à necessidade alheia com criatividade é a essência do Seguimento.

O tema da “porta” é mencionado muitas vezes pelos evangelistas para indicar uma passagem significativa ou a entrada em uma nova maneira de viver. O próprio Jesus se definiu como a “Porta da Vida”; Ele não veio complicar a vida com mais exigências. Só passa pela “porta estreita” quem se esvazia do próprio ego. Bater à porta significa desejo de entrar na intimidade; abri-la é sinal de acolhida e fechá-la é dizer não a quem se aproxima.

De fato, o símbolo da “porta” não se define em si como um espaço, não é um lugar, mas é o “limite” entre um lugar e outro, é o interstício entre dois espaços; é, portanto, o que divide dois modos de ser e viver: egóico ou oblativo.

A “porta” representa o lugar onde acontece a passagem de um estado a outro, a dobradiça entre dois mundos... ; a “porta” protege o sagrado, esconde o mistério...; tem o seu momento “fascinante”, mas comporta também um “tremendum”; ela nos situa num momento de ansiedade, de espera, de inquietação  que toda passagem de um estado a outro provoca; esta preocupação com o que está “além da porta”, ou seja, a passagem de uma situação que se conhece a uma outra que se revela inédita, mas na qual se desejaria entrar, provoca medo e insegurança.

O que está além da porta provoca arrepios; “passar a porta” significa, portanto, ir ao encontro do novo, do futuro, do diferente, do “fora do normal” ...

O “outro lado” é um espaço não esclarecido, é um lugar ainda não explorado.

Há um véu que impede a visão, é o lugar da inacessibilidade, comporta a proibição de se aproximar da “sarça ardente”. “O homem não pode ver a face de Deus e continuar vivendo”, diz a Bíblia.

Está cada vez mais difícil encontrar algo que soa verdadeiramente diferente: sair de nossas seguranças para adentrar-nos no terreno do incerto; sair dos espaços onde nos sentimos fortes para arriscar-nos a transitar por lugares onde somos frágeis; sair do inquestionável para enfrentarmos o novo...

É decisivo estarmos dispostos a abrir espaços em nossa história a novas pessoas e situações, novas vivências, novas experiências... Porque sempre há algo diferente e inesperado que pode nos enriquecer.

A vida está cheia de possibilidades; inumeráveis caminhos que podemos percorrer; pessoas instigantes que aparecem em nossas vidas; desafios, provocações, aprendizagens, motivos para celebrar... lições que aprenderemos e nos farão um pouco mais lúcidos, mais humanos e mais simples...

Portanto, a primeira atitude é sair do “ego” (“sair do seu próprio amor, querer e interesse” – S. Inácio).

E isso significa desconstruir nossa linguagem, nossa presença, nossas seguranças, nosso solo nutrício; deixar-nos romper, abrir-nos aos outros e ao grande Outro; não sermos nós o centro do processo a partir de nossas seguranças e daquilo que conhecemos.

“Vivo já fora de mim, porque vivo no Senhor que me quis para si” (S. Teresa de Ávila).

O compromisso é “viver fora de mim”. E “viver fora de mim” implica estar aberto ao inesperado, ao surpreendente, ao desconcertante.

“Dá-me, Senhor, capacidade e valentia para deixar o terreno conhecido, para sair do já sabido, para aprender cada dia aquilo que possa se tornar novidade, surpreendente, diferente” (oração Magis)

A “porta estreita” que atravessamos representa a nossa porta pessoal, que precisamos encontrar e atravessar, para deixar o rastro da nossa própria vida neste mundo. O caminho espaçoso representa o que todos usam; o apertado é o caminho que Deus preparou para cada um de nós: é o caminho único e original, no qual vivemos e deixamos transparecer a imagem que Ele tem de cada um de nós.

Na verdade, o caminho estreito leva a um horizonte mais amplo. Nele, alcançamos a harmonia conosco. Aquele que se contenta em seguir os outros não vive de verdade. Nosso processo de humanização só pode ser completado se encontrarmos nosso caminho pessoal e percorrermos por ele.

John Sanford afirma: “O caminho largo é aquele da vida que seguimos de forma inconsciente, é o caminho da menor resistência e da identificação com as massas. O estreito exige consciência e atenção desperta se não quisermos nos desviar do caminho”.

Texto bíblico: Evangelho segundo Lucas 13,22-30

Na oração:

A experiência de oração é um risco, é uma travessia para um outro “lugar” e deixar-se afetar por este “outro lugar”: lugar provocativo, carregado de uma Presença que chama, que fala, que envia...

“Passar a porta” revela que em toda experiência de oração está implícita a ideia de uma “soleira”, de um “limiar e, portanto, um momento de “passagem”. Não se pode estar “dentro” e “fora” ao mesmo tempo; não se pode ser mero observador na experiência de oração: ou se fica fora da porta, ou se dá o passo que “desinstala”, que “compromete”, que “vincula”.

- Atravesse a “porta” de sua interioridade e viva a intimidade com Aquele que está sempre à sua espera; entre em diálogo com Ele.

terça-feira, 18 de março de 2025

JOSÉ, o Homem do Discernimento

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ como sugestão para rezar o Evangelho da Liturgia da Solenidade de São José, Esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria, Padroeiro da Igreja Universal.

De forma análoga a quanto fez Deus com Maria, manifestando-Lhe o seu plano de salvação, também revelou a José os seus desígnios por meio de sonhos, que na Bíblia, como em todos os povos antigos, eram considerados um dos meios pelos quais Deus manifesta a sua vontade”

(Papa Francisco – Patris Corde)

Os relatos “da infância de Jesus” (Evangelhos segundo Mateus e Lucas), não são crônicas de acontecimentos, não são “história” no sentido que hoje damos à palavra. São “teologia narrativa”.

Os relatos bíblicos nos revelam que Deus dirige a história. Para isso se serve de pessoas eleitas. Cada vez que há um acontecimento importante na história da salvação, ali aparece um homem ou uma mulher como mediadores da obra de Deus ou transmissores de sua vontade.

O acontecimento mais importante da história da salvação é o Nascimento do Filho de Deus. Para “fazer-se homem”, Deus precisava de uma família. O nome de José está profundamente ligado ao mistério de Jesus. E se o anjo é um sinal de que Deus se faz presente na vida de uma pessoa para comunicar-lhe algum de seus desígnios, Deus mesmo se fez presente a José, por meio de seu anjo. Segundo o evangelho de Mateus, José é a pessoa a quem primeiro lhe é revelado o mistério que sua esposa guardava em seu ventre.

Quantas coisas acontecem envolvidas pela noite e pelo mistério!

Enquanto o agricultor dorme, na noite rompe-se a casca e cresce a semente lançada na escura terra, acompanhada de renovadas expectativas e esperança.

Tudo começa na noite: na noite dos pensamentos, dos corações, das intenções, das esperas, dos encontros.

Eis o mistério, eis a noite! A noite, a nossa noite, é habitada por Aquele que vem.

Até na noite da desolação, na solidão, no deserto, é possível encontrá-Lo.

Deus revelou seus planos a S. José através dos “sonhos”, que na Bíblia eram considerados como um dos meios pelos quais Deus manifestava sua vontade; hoje Deus manifesta seus planos através dos “sinais dos tempos”, que não se centram no sonho, mas na vigilância.

Contemplando a noite de José, nosso coração se alarga até o assombro, nossos braços se abrem para a acolhida, nossos olhos se aquecem ao reconhecer Àquele que vem e na brisa pronuncia o nosso nome. Nas sombras da vida Ele se faz encontrar, na solidão revela sua presença, na fragilidade mostra seu rosto.

O mistério da Encarnação de Jesus, sem dúvida, significou também “a paixão vivida por José, esposo de Maria”. Momentos de angústia, de dúvida; momentos de obscuridade em seu coração; momentos de pura fé na palavra de Deus.

José, assim como Maria, vai além da lógica e das condições humanas; também ele termina se apresentando como “o servo do Senhor”, dizendo em seu coração: “faça-se em mim segundo tua palavra”.

Como a Maria, Deus também diz a José: “Não tenhas medo de receber Maria como tua esposa”.

Há homens que são importantes não pelo que fazem, mas pelo que são no coração. Há homens que são grandes não por suas grandes ideias, mas por acolher a lógica de Deus, que quebra toda lógica humana. José foi o homem humilde como carpinteiro de um povoado; mas José foi grande por ser o “homem da fé”.

Em São José, a obediência se situa entre o escutar e o ver. Dizer “obediência” (de ob-audire) é afirmar a capacidade-dever de “escutar” humildemente a todos e a tudo. A obediência “é uma narração conjunta com Deus, daquilo que alguém via, ouvia e entendia, mais que uma submissão da vontade”.

Do que foi dito, se conclui que a mística da obediência não é a mística da submissão, senão que, como em José, é a mística da responsabilidade; responsabilidade que questiona a liberdade, não a que se fecha sobre si mesma, mas aquela que se abre numa atitude de escuta atenta.

Deus é encontrado, não na estrada suntuosa do domínio e do triunfo, mas na estrada do desapego, da doação, do despojamento e da fragilidade. Para entrar em sintonia com sua Vontade e deixar-se conduzir pelo seu Anjo, não é preciso estar coberto de títulos honoríficos, nem envolto pelo manto de obras realiza-das; é preciso, isto sim, ser como José, sem títulos e sem riquezas, mas justo e humano, como o seu Filho que “não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida”.

Como costuma acontecer com todas aquelas pessoas às quais lhes são confiadas missões importantes, José é um homem discreto. Sua presença é silenciosa. Na relação de José com Jesus, poderíamos aplicar a ele estas palavras: “é preciso que ele (Jesus) cresça e que eu diminua” (Jo 3,30).

Não podemos entender a presença de José em função de si mesmo, mas a serviço de Jesus e de seu mistério. Saber estar em função de outro não é fácil, mas é um dos modos mais belos de amar. O silêncio de José não tem nada de ingênuo. É o silêncio daquele que escuta atentamente para assim poder servir melhor.

José, “homem justo”: para alguns o têrmo é sinônimo de “delicadeza ou piedade”, para outros significa “respeito, reverência” em relação ao mistério de Maria; para outros ainda, é um título jurídico, ou seja, “obediente à lei”. Sabemos que o “Justo” por excelência é Deus, fiel à Aliança e que, com constância, continua seu projeto salvífico, apesar das rupturas provocadas pela infidelidade humana.

José é “justo” porque se ajusta ao modo de agir surpreendente de Deus. É “justo” porque se abre para o infinito, inspirando-se em Deus mesmo, o Justo; à justiça exterior, farisaica, ele opõe a justiça da fé e do coração. Portanto, o termo justo quer indicar a abertura e a adesão à ação suprema de Deus.

Nesse sentido, José se coloca na linha das grandes figuras da história da salvação. Sua vida é um exemplo de silenciosa dedicação ao Reino.

Ele é o homem do discernimento, e nos alegramos que ele tenha se mantido firme e mudado seus critérios para estar a serviço da Vida. Também nós somos “josés” em tempos de obscuridades. Também nós, algumas vezes, nos encontramos em momentos de obscuridade, marcados por dúvidas e crises, pensando em fugir, abandonar a missão. É normal que, ao adentrar-nos em nosso próprio mistério, nos encontremos com nossos medos e preocupações, nossas feridas e tristezas, nossa mediocridade e incoerência.

Mas Deus quer atuar em nós e através de nós; Ele sempre conta conosco para uma nobre missão.

Não devemos nos inquietar, mas permanecer no silêncio. A presença amistosa, que está no mais íntimo de nós, irá nos pacificando, libertando e sanando.

Este mistério último da vida é um mistério de bondade, de perdão e salvação, que está em nós: dentro de todos e cada um de nós. Se o acolhemos em silêncio, conheceremos a alegria de viver.

Na vida, há muitos momentos nos quais só cabe o silêncio, em vez do alvoroço, só cabe a serenidade, em vez da precipitação; cabe a nós renunciar aos nossos próprios critérios e esperar que Deus fale.

Isso pede de nós confiança total, muitas vezes sem compreender nem conhecer o “por quê e o como”; o decisivo é “deixar-nos fazer” por Deus, deixar-nos conduzir por Aquele que, a partir do mais profundo de nós mesmos, abre um horizonte de sentido e de surpresas. Aprendamos de José a abrir nosso interior e deixar-nos surpreender por Deus.

Texto bíblico: Mateus 1,18-24; Lucas 12,54-59; Isaías 50,4-11

Na oração:

Deus nunca deixa de atuar no meio das nossas noites, dúvidas, provações. Ele conhece nossos pensamentos e temores. E, no momento certo, nos liberta dos nossos medos e nos dá a conhecer sua Vontade.

- Recordar momentos de dúvidas, incertezas, desolações..., mas que lhe ajudaram a amadurecer na fé e na adesão ao projeto de Deus.

- Diante de pequenas ou grandes decisões: há espaço e tempo de discernimento? De escuta atenta?

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Provocativas palavras

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 21º. Domingo do Tempo Comum (Ano B).

“Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” (Jo 6,60)

O ser humano precisou de milhares de anos para desenvolver um sistema de comunicação tão complexo como a escrita e a palavra que manejamos hoje em dia, muito provavelmente, como parte de sua busca de transcendência, de seu interesse por deixar pegadas, por sobreviver em sua memória. Essa memória falada e escrita, pessoal e coletiva, é riqueza para continuar avançando. Somos o que somos pelo que falamos e pelo que escrevemos.

As palavras, por sua natureza, são ambíguas; podem brotar das profundezas mais sadias de nosso ser (palavras de vida) ou das regiões mais petrificadas e fétidas de nosso interior (palavras de morte); com elas nos humanizamos ou nos desumanizamos; através da palavra criamos ou destruímos, nomeamos ou eliminamos. Com a palavra podemos estabelecer um diálogo construtivo ou envenenar toda possibilidade de encontro e acolhida. As palavras elevam e afundam, constroem e destroem. Com elas se movem os sentimentos, os corações, as vontades. Podem ser usadas para formar ou deformar, para informar, manipular ou coagir. As palavras reforçam e fazem o outro sentir forte ou aumentam a fragilidade e o sentimento de vulnerabilidade. As palavras aproximam as pessoas construindo pontes ou afastam construindo muros e abismos. As palavras podem ser um canto que embeleza e estimula o coração ou podem provocar consequências devastadoras nas relações.

Com as palavras acompanhamos o outro em processos de pacificação e reconstrução de si mesmo, ou alimentamos o rancor e o ressentimento. Com pouco arsenal, as palavras são uma arma com imenso poder de destruição como as “fake News”, o ódio, a intolerância e o preconceito.

Hoje as palavras estão se enfraquecendo cada vez mais, feridas de morte. Palavras como participação, ética, democracia, povo, liberdade, amor, justiça... são usadas e abusadas tanto, conferindo a elas significados tão diversos, dispares e interessados que terminam convertendo-se em meros fetiches, palavras infladas e ocas, sem nada dentro. Quê quantidade de palavras costumamos dizer para, em muitas ocasiões, não dizer nada!

Vivemos cercados por uma aluvião de palavreado crônico que tem seus efeitos colaterais, ou seja, não só a palavra do outro acaba perdendo seu valor, como também a nossa própria palavra, que passa a ser uma a mais em meio a este oceano de vozes e palavras; torna-se “palavra líquida”, pois escapa pelos dedos sem deixar marcas. Palavras que sobram, palavras que faltam, palavras que dizem, palavras que escondem

Há palavras que é melhor não dizer, porque não são necessárias, porque julgam sem tentar compreender, porque são falsas; palavras de maledicência ou de crítica injusta, de fofoca e de condenação; palavras desnecessárias, ou conversa-fiada para preencher silêncios que assustam; palavras de zombaria que ignoram a dor do mais frágil; palavras que apunhalam pelas costas.

Para que a palavra dê fruto, não podemos nos contentar só com o fato de purificar a motivação quando a usamos, pronunciá-la no momento adequado, torna-se oportuna para aliviar, lubrificar, confrontar...; mas, também é preciso também apurar os ouvidos para escutá-la, acolhê-la com respeito, abrir espaço para que desperte ressonâncias em nosso interior. A palavra deve ser acolhida com disposição para deixá-la que se faça fecunda. E escutar, princípio de toda palavra, pede tempo, paciência, ausência de protagonismo e levar a sério o outro.

Como dizia Amado Nervo, “o sinal mais evidente de que se encontrou a verdade é a paz interior”, ou, como dizia Jesus, “a verdade vos libertará”. A verdade liberta das próprias falsidades e arrogância, dos medos e ataduras.

O Evangelho de hoje pode ser uma estupenda ocasião para esquecer velhas palavras desgastadas pelo uso, pronunciadas para afirmar nosso ego ou para conseguir aprovações alheias... e substitui-las por palavras essenciais, nascidas do espírito, que saem do coração e se dirigem ao coração dos outros, fazendo ressoar neles um eco da expressão proferida por Pedro: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna”.

Ele sente que as palavras de Jesus não são palavras vazias nem enganosas. Junto a Jesus descobriram a vida de outra maneira. Sua mensagem lhes abriu à vida eterna. Com que poderiam substituir o Evangelho de Jesus? Onde poderiam encontrar uma Notícia melhor de Deus?

Pela primeira vez Jesus experimenta que suas palavras não têm a força desejada. No entanto, não as retira senão que reafirma mais ainda: “As palavras que vos falei são espírito e vida. Mas entre vós há alguns que não creem” (Jo 6,63). Suas palavras parecem duras, mas transmitem vida, fazem viver, pois contém Espírito de Deus.

Jesus não perde a paz; o fracasso não lhe inquieta. Dirigindo-se aos Doze, faz uma pergunta decisiva: “Vós também quereis ir embora?”. Não os quer reter pela força; deixa-lhes a liberdade de decidir. Seus discípulos não devem ser servos, mas amigos. Se quiserem, podem voltar às suas casas.

Também hoje, as palavras de Jesus continuam nos provocando, nos chamando, des-velando nossas incoerências e contradições internas. Elas podem nos assustar quando nos sentimos incapazes de segui-lo com mais intensidade; elas nos inquietam quando pedem renúncia de nosso próprio ego. São palavras que falam de seguimento e radicalidade, de paixão e entrega, de morte e de Vida. Palavras inspiradoras e, ao mesmo tempo, provocativas, pois nos arrancam de uma vida estreita e petrificada. Palavras que despertam o melhor que há em nosso interior, humanizando-nos e humanizando nossas relações. Palavras que fazem brotar uma “palavra nova e original” de nosso ser profundo, revelando nossa verdadeira identidade.

Por isso, as palavras nobres de Jesus não podem ser domesticadas e manipuladas segundo nossos interesses.

É preciso valentia para deixar que cada palavra d’Ele cale fundo, para vivermos com mais seriedade, para deixar que nos desnude um pouco mais, para revestir-nos do modo de proceder d’Ele.

É no encontro com as palavras de Jesus que temos a chance de recuperar a força e o sentido de nossas palavras, de torná-las oblativas, abertas e portadoras de vida. “Palavras cristificadas”, pois revelam a força da cura, do cuidado, da benção, do perdão...

É preciso unir Palavra e silêncio, para que cheguem ao mais profundo de nosso núcleo essencial, sempre insondável, buscando a Fonte que mana em abundância e sai à superfície, cantarolando e fecunda.

Assim, nossa palavra, viva em Jesus, sussurrada pelo mesmo Espírito d’Ele, torna-se como um rio caudaloso que salta qualquer obstáculo, leva vida às margens e nos impulsionam em direção ao Grande Oceano. Uma palavra que se revela como um bálsamo relaxante, remédio doce que acalma, embeleza e faz recordar sadiamente, que insufla ânimo e vida no nosso próprio corpo. Palavra que se manifesta como um grito de envio que nos lança em direção às pessoas, para partilhar, amar, curar...; uma revelação que ilumina nossas incertezas ou que nos enche de alegria. Só assim, o Evangelho se torna sempre boa notícia que fala dos outros, de nós, de Deus, de tudo...

Texto bíblico: Evangelho segundo João 6,60-69

Na oração:

Cave palavras nas minas do seu silêncio, palavras carregadas de sentido e de ânimo.

Silêncio para poder dialogar com seu eu profundo, para ver o que há por detrás de suas palavras, de seus sentimentos, de suas intenções... Silêncio para tentar ir ao coração de sua verdade. Pois somente o silêncio poderá germinar as palavras portadoras de vida.

- Em que me inquieta, me sacode e me provoca a Palavra de Jesus?

sábado, 8 de julho de 2023

A gratidão dá “sabor e calor” à vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 14º. Domingo do Tempo Comum (Ano A).

Dou-te graças, Pai, Senhor do céu e da terra! (Mt 11,25)

 

Sabemos, através dos evangelhos, que Jesus foi sempre um homem de oração, de intimidade profunda com o Pai, nos silêncios da noite, nas montanhas, nos desertos... Nenhum evangelista nos relata o conteúdo da oração nestes momentos de solitude (solidão habitada).

No Evangelho deste domingo, Mateus “pega Jesus em flagra” e nos revela não só o modo como Jesus vivia sua relação com o Pai, mas o conteúdo desta intimidade, através de palavras carregadas de gratidão, de assombro, de admiração...; trata-se de um louvor, um canto à vida.

Estes versículos deixam transparecer um estado de exultação que não nasce de nenhum estímulo exterior concreto. Nada do que precede justifica o canto que segue. Brota, sem dúvida, de um estado permanente, cheio de agradecimento assombrado, que vai mais além de um sentimento momentâneo. É um estado de gratidão que emerge do seu coração comovido, que nem a traição e o fechamento de cidades como Corazim e Betsaida são capazes de fazer sombras.

Mateus reúne aqui vários ditos, que parecem expressar atitudes e sentimentos característicos do Mestre de Nazaré. E, nesses sentimentos, deixa transparecer sua verdade mais profunda: a gratidão, a intimidade com o Pai, a proximidade bondosa para com aqueles que estão suportando fardos desumanos, o convite a permanecer na mansidão e na humildade, o oferecimento de uma mensagem que é descanso...

gratidão parece brotar aos borbotões das entranhas mesmas de Jesus. Isso não é estranho se temos em conta que, junto com a compaixão, a gratuidade constitui a coluna vertebral de toda sua mensagem. E é impossível experimentar gratuidade sem que surja a gratidão.

Quando tomamos consciência de que tudo é Graça, para além de todas as expressões superficiais, brota um agradecimento espontâneo, permanente e profundo.

Mas isso requer uma condição: experimentar-nos em sintonia com a corrente da Vida que procede do Pai, na qual reconhecemos nossa verdadeira identidade. De fato, ao reconhecer-nos no fluxo da Vida, em meio a tudo o que acontece, descobrimos que a gratidão é outro dos nomes de nossa identidade profunda. Na medida em que cresce a compreensão de nós mesmos, reconhecemos que, vista a partir do plano espiritual, a gratidão não é simplesmente uma ação ou qualidade – algo que podemos viver com maior ou menor intensidade -, mas outro nome de nosso ser original“somos gratidão”, é da nossa essência mais nobre. Por isso, ao vivê-la conscientemente, experimentamos comunhão, unificação e plenitude: estamos vivendo o que somos.

gratidão é, ao mesmo tempo, um sentimento e uma atitude admiravelmente terapêuticos, capaz de sustentar o nosso “tônus vital”. Por um lado, nos afasta do funcionamento da queixa; por outro, constitui o melhor antídoto frente ao desalento ou o desânimo.

Na medida em que a exercitamos, ela vai nos transformando interiormente e enriquecendo nosso modo de viver a relação com os outros. Em certo sentido, poder-se-ia dizer que ela expande o nossopróprio coração, favorece a alegria de viver e facilita poderosamente a convivência.

Por pouco que a observemos, poderemos advertir que a gratidão genuína não depende tanto daquilo que nos acontece, quanto do modo como recebemos aquilo que acontece. Se damos graças unicamente quando nos ocorre algo que consideramos “agradável”, não temos saído ainda de nosso egocentrismo.

A gratidão autêntica é profundamente unida com a vida, flui com ela. Nasce e se apoia na compreensão de que, para além dos juízos que nossa mente possa fazer, no fundo, tudo é graça. A gratidão está intimamente relacionada com a capacidade de “ver”. Por isso, quando sabemos ver, a gratidão aflora sem obstáculos.

Pelo contrário, se permanecemos aferrados às nossas expectativas – “a vida deve responder ao meu próprio querer, interesse e desejo” -, a frustração inevitável trará consigo a resistência e o sofrimento, o enfado, a queixa e o vitimismo.

A gratidão, como força que nos des-egocentra, nos faz tomar distância de nossos pequenos interesses e nos abre à compreensão profunda de que, em último termo, tudo é dom, tudo é dado, tudo é graça... Somos seres agraciados, “cheios de graça”.

Como o amor, como a alegria, a gratidão é uma arte. E, enquanto tal, precisa ser exercitada em um treinamento cotidiano, no qual, conscientemente, damos graças por tudo.

Assim compreendido, poderíamos dizer que a existência inteira de uma pessoa sábia é vivida entre duas palavras: “agradecido” e “sim”. Por tudo o que aconteceu, agradecido(a)!; diante de tudo o que virá, sim!

Ao entrarmos em sintonia com o coração “manso e humilde” de Jesus temos a oportunidade de recuperar algo que a cultura pós-moderna apagou de nossa consciência: a capacidade de admiração, a possibilidade do assombro diante de tantas realidades, simples, mas divinizadas, que nos passam desapercebidas. Custa-nos muito maravilhar-nos porque não despertamos a capacidade de assombro e de valorizar tudo o que desfru-tamos, desde o cosmos até pequenos prazeres diários como tomar um café em boa companhia.

Nosso contexto social não facilita um contínuo louvor, um “canto à vida”. Basta repassar o olhar sobre diferentes realidades – político-econômico-religioso-cultural-ecológico – para nos dar conta da dificuldade objetiva de sairmos dos trilhos das lamentações e queixas. Esquecemos muitas coisas porque não as valorizamos até que nos faltem: saúde, convivência, trabalho, possibilidade de ajudar os outros, a capacidade de superação das adversidades, a própria vida em si mesma como um campo maravilhoso no qual podemos nos esforçar para deixar transparecer as melhores potencialidades de nosso ser...

 

“Dar graças”, “agradecer”, “louvar” ... é também uma questão de memória. Por isso o Papa Francisco fala com frequência de “memória agradecida.

Só a “memória agradecida” está em condições de nos ajudar a entender o sentido, a profundidade e a verdade dos acontecimentos, das pessoas, da realidade que nos envolve..., pois temos de adotar determinada perspectiva e certo grau de isenção no julgamento, a fim de decifrar seu significado. Ela nos distancia estrategicamente dos acontecimentos para poder captar outro sentido, escondido neles. Eles passam a serem vistos sob nova luz para serem ressignificados.

Só a “memória redentora” mobiliza nossos melhores recursos, ativa os sentimentos oblativos e é fonte de vida espiritual pois continua alimentando ressonâncias no cotidiano

Re-cordar (visitar de novo com o coração) os benefícios concedidos por Deus nutrem nosso presente com Sua Santidade e nos desperta para um futuro novo.

Por isso, a “memória agradecida” é o húmus natural de onde brota a gratidão.

Ao “fazer memória” dos dons e bens recebidos, brota naturalmente em nosso interior, o desejo de dar uma resposta generosa e radical ao Deus que é Fonte de tudo. E é Ele mesmo quem, ao criar-nos gratuitamente no amor, nos ensina a “sermos gratuitos e gratos”; só a generosidade gratuita do coração de Deus é capaz de reconfigurar mentes e corações, encorajando atitudes oblativas em nós.

É a gratidão que ativa em nós o ânimo e a generosidade diante do futuro de nossa missão.

Com isso, a esperança e o entusiasmo por viver vem habitar nosso interior. Trata-se de um momento tão fortalecedor e jubiloso que estremecemos reverentes diante do que vivemos e diante do que virá. 

Este é o processo vital que se torna um “estilo de vida”, pois, motiva a busca, desperta o interesse, faz olhar para frente, cria disposição para a construção de respostas novas, desperta o desejo de crescer, amplia os horizontes...


Texto bíblico:  Mt 11,25-30

Na oração: Em sintonia com o coração de Jesus, cheio(a) de gratidão, sinta-se convidado(a) a uma leitura orante de todos os sinais do Amor de Deus manifestados ao longo da história da sua vida, bem como trazer à sumemória todos os bens recebidos ao longo deste tempo. Ponderar com muito afeto tudo o que o Senhor fez por você, por meio de muitas pessoas, da sua história passada e presente; como Ele o(a) cumulou de seus próprios dons e, além disso, continua cumulando-o(a).

Marcado(a) pela experiência da oraçãodeixe emergir a fina percepção de que tudo é dom de Deus, tudo é Graça, tudo é dado “de graça”. Crie um clima de contínua ação de graças.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Olhares que destravam vidas

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 10º. Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Ao passar, Jesus viu um homem chamado Mateus,...” 

É curioso: nossa identidade também se revela no modo de olhar; somos o que olhamos; somos como olhamos. Alguns dizem: “Dize-me como olhas e te direi quem és”. Trata-se de uma linguagem universal, para além das palavras. Diariamente vivemos de olhares, imersos neles, amando ou condenando, acolhen-do ou rejeitando. Quem não experimentou alguma vez sentir-se especial diante do olhar do(a) outro(a)? Quem não provou o peso de um olhar julgador que, como um dardo venenoso, atravessou as entranhas?

O olhar diz muito mais do que pensamos. Há olhares que ocultam um poder imenso: maliciosos, sensuais, provocativos, inocentes... Há olhares intensos e penetrantes que conseguem despertar nosso lado mais selvagem e passional e que ultrapassam a barreira de nosso ser permanecendo gravadas em nossa mente. Há olhares que falam por si sós, sem necessidade de nenhuma palavra, que transmitem sentimentos, desejos e afetos. Igualmente há olhares que deixam transparecer uma personalidade venenosa, destrutiva e daninha e que, muitas vezes, nos fazem afastar dessas pessoas pelas más sensações que nos causam.

Não nos enganemos; os olhares não são neutros. Eles des-velam (tiram o veú) o mais profundo da pessoa.

A maneira com que olhamos uma pessoa, a forma com que respondemos a um olhar, muitas vezes vai determinar a diferença entre um encontro memorável e grandioso ou um encontro repulsivo e constrangedor

Corações petrificados e insensíveis se expressam nos olhares que matam, que fecham as portas e condenam àqueles que são diferente; há olhares que delatam, que invejam e que não suportam o bem alheio; olhares de morte, impessoais e indiferentes, superficiais e interesseiros; olhares embriagados de soberba, calculistas, gélidos. Olhares sem luz e sem Deus.

Mas também sabemos que há olhares que curam e reconfortam; olhares que são oásis e sombra acolhedora, que protegem e bendizem; olhares que são bálsamos que aliviam feridas, derramam consolo e compreensão. Olhares cheios de amor para com o outro, que tornam a vida mais fácil. Olhares tolerantes, que não levam em conta o mal, mas tudo suportam e tudo esperam. Olhares que transmitem o bem e que embelezam seus destinatários, fazendo-os melhores e extraindo o melhor deles.

A Revelação vem nos ensinar que Deus “olhou” para a humanidade, e seu olhar de amor foi tal que desceu até o mais profundo da condição humana. A Encarnação do Filho foi determinada a partir de um “olhar” que saiu do coração da Trindade, que pousou sobre o mundo e que voltou ao seu coração, estremecendo-a de compaixão e movendo-a à ação redentora.

Assim também nossa presença no mundo deve ter sua origem no olhar misericordioso e compassivo, amoroso e esperançoso...

Precisamos reaprender a olhar as pessoas nos olhos para despertar em nós a consciência da bondade humana, cujas raízes foram plantadas por Deus no coração de cada uma delas.

E quando somos capazes de olhar nos olhos, com simplicidade podemos encontrar no coração do outro uma imagem do nosso próprio coração.

Quem é a referência e o modelo na arte de olhar? O Mestre da Galiléia que, passando pelos lugares cotidianos, olhou a todos como ninguém nunca olhou, extraindo o melhor de cada pessoa em cada circunstância, ativando possibilidades inimagináveis, mobilizando todos os seus recursos vitais... Seu olhar  transformava as pessoas em maravilhosas obras de arte.

Durante sua vida, Jesus passou entre nós com um olhar profundo e que chegou a comover muitas e diferentes pessoas: os discípulos, convidando-os a segui-lo; os pecadores, oferecendo seu perdão; os enfermos, oferecendo cura; os excluídos, oferecendo sua acolhida...

Seu olhar nos inspira a olhar o mundo e as pessoas de maneira diferente; olhar que recupera e vibra frente à novidade, que capta a verdade, a beleza e o bem presente em tudo e em todos; olhar que recolhe das margens os olhares perdidos, distraídos ou derrotados de tantos irmãos caídos que necessitam, com urgência de um “olhar cristificado” que os salve. O que salva é o olhar.

O evangelho deste domingo nos situa diante do olhar arrebatador e transformador de Jesus.

O sujeito do primeiro verbo é Jesus: “viu um homem chamado Mateus”. Jesus estava em movimento e Mateus, pelo contrário, estava parado, passivo, “sentado junto à banca”, apegado à sua condição de cobrador de impostos, preso a uma profissão que o tornava desprezível aos olhos de todos.

Mas os olhos de Jesus souberam ver além das aparências: viram no publicano um discípulo, um seguidor.

Para esse olhar ninguém está sentenciado nem qualificado definitivamente, mas tem o futuro diante de si.

Pela primeira vez, Mateus sentiu-se olhado de outra maneira: alguém acreditou nele e o chamou, e por isso ele se transformou em alguém dinâmico que deixou para trás seu passado, assumiu o protagonismo de sua própria vida e se pôs a caminho atrás d’Aquele que foi capaz de olhá-lo assim.

No olhar de Jesus não há, nesse primeiro momento, nem exigência, nem correção, nem sequer chamado à conversão; tão somente um apelo para entrar em outro nível de relação com Ele.

Com seu olhar pro-vocativo Jesus arrancou Mateus de sua mesa (mesa que o distanciava dos outros, mesa da traição do seu povo e que o fazia colaborador do império romano, mesa que o fazia sentir-se inimigo do povo, mesa da exploração, da solidão, da acomodação, da fixação... mesa da morte).

Em casa de Mateus, Jesus funda uma outra mesa: mesa da comunhão, da partilha, da festa, mesa da fraternidade onde todos se sentem iguais... Mesa da vida.

Trata-se de uma mesa provocativa, questionadora, incômoda... que requer mudança de lugar, de mentalidade, de atitude... transformação interior. “Virar a mesa”, eis a questão!

Porém, a aventura de “troca de mesa” requer uma troca de “senhor”.

Para Mateus, a troca de mesa só foi possível a partir da troca de “senhor”: deixou a mesa da dependência ao imperador romano e abriu espaço interior para a presença de Jesus e dos outros. Ele correu o risco de assumir a mesa da liberdade e da comunhão.

Mateus não tem mais mesa fixa (deixa de ficar sentado e põe-se em movimento). Tal como Jesus, ele é chamado a transitar por outras mesas (a mesa dos encontros, da criatividade, do novo, do diferente...)

Todo autêntico seguimento começa por uma troca de olhares; o olhar d’Aquele que chama é mobilizador e move a dar o primeiro passo. E para isso é imprescindível pôr-se de pé, tomar consciência de si mesmo, da presença e da potencialidade da própria dignidade e identidade. O ouvido se abre, o olhar se aclara, a mente se expande, o coração compreende, o corpo se ergue e a vida se re-inicia. Vida que se abre em movimento, pronta para acolher e viver as surpresas.

Fazer caminho com Jesus exige abandonar a espera passiva, colocar-nos de pé e entrarmos em sintonia com a liberdade que nos move por dentro. Nada há mais revolucionário que levantar-nos e proclamar que o Reino está em meio a nós porque o trazemos dentro.

Texto bíblico: Mt 9,9-13

Na oração: Contemple o olhar de Jesus e se sinta como Mateus. Deixe-se olhar pelos olhos d’Aquele que o vê mais por dentro do que os outros ou você mesmo. Ele não se fixa em seus defeitos nem em suas limitações; não se preocupa com o que você é, mas vê todas as possibilidades escondidas que Deus mesmo pôs em você e que talvez você desconheça.

- Confie mais nos olhos d’Ele que nos seus; creia que Seu olhar e Seu chamado podem fazer de você um(a) discípulo(a).

- Peça-o que o ensine a olhar assim os outros: um olhar límpido, sem segundas intenções e livres de todo julgamento; um olhar capaz de vislumbrar o “melhor” que está oculto nas profundezas de cada um.