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sexta-feira, 4 de julho de 2025

Itinerância comprometida com a vida e a paz

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 14º. Domingo do Tempo Comum (Ano C).

“Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘a paz esteja nesta casa!’” (Lc 10,5)

 

No Evangelho deste domingo Lucas recolhe um importante discurso missionário de Jesus, dirigido não mais aos Doze, mas a outro grupo numeroso de discípulos, o qual envia para que colabore com Ele em seu projeto de instauração do Reinado do Pai. As palavras de Jesus constituem uma espécie de carta fundacional onde seus seguidores devem alimentar sua missão evangelizadora.

Jesus “designou discípulos” e não “escolheu”. Designar é nomear para uma função; “desígnio” = intenção, propósito, vontade. Designar 72 discípulos significa que Jesus já os tinha no próprio coração; não foi uma escolha aleatória. Ele designa as pessoas que conviveram com Ele e se deixaram impactar pelo seu modo original de ser e agir.

Jesus envia seus discípulos de “dois em dois”; por que esta insistência em fazer o caminho ao menos junto a outro? Para os judeus, a opinião de um só não tinha nenhum valor em um juízo, e os missionários são, sobretudo, testemunhas. Também, porque a mensagem deve ser proclamada sempre em comunidade.

É preciso ir “de dois a dois”, ou seja, dispostos a caminhar com outros, a comportar-se como cúmplices e companheiros, a negociar metas e compartilhar itinerários, convencidos de que o individualismo já cadu-cou; ajudam-se um ao outro, se sustentam e se apoiam mutuamente.

É importante destacar que há um dado constante em todos os relatos de envio: a casa, como lugar preferencial para os discípulos missionários. E isso não é estranho. É certo que Jesus ensinou nas sinagogas; no entanto, Ele preferia muito mais ensinar a campo aberto, indo pelos caminhos, atravessando vilas e povoados, aproveitando as travessias do Lago de Genesaré... Mas, sobretudo, Ele ia aonde homens e mulheres realizavam suas atividades comuns, no simples contexto do trabalho cotidiano e, de maneira privilegiada, nas casas, começando, desde logo, pela sua própria casa. A casa acaba sendo o espaço alternativo que se adequava melhor à atuação do Mestre, enquanto sua pregação acontecia na itinerância.

A Boa Notícia de Jesus deve ser comunicada com respeito total, a partir de uma atitude amistosa e fraterna, contagiando a paz. É um erro pretender impô-la a partir de uma pretensa superioridade, de ameaça ou de ressentimento. É ante evangélico tratar sem amor as pessoas só porque não aceitam a mensagem. Mas, como vão aceitá-la se não se sentem compreendidas por aqueles que se apresentam em nome de Jesus?

Em primeiro lugar, Jesus convida seus discípulos e a nós a viver em atitude de saída, de encontro com o outro. Ele não funda uma religião onde as pessoas se fecham no ritualismo, no culto, na doutrina, vivendo uma auto-referência e um narcisismo doentio. Jesus move aqueles que o seguem a saírem de si mesmos para se deixarem contagiar pelos outros. Aqueles que vivem fechados em si mesmos não sabem escutar o clamor e os gemidos dos outros e acabam se tornando insensíveis e incapazes de viver uma presença solidária.

Jesus convida a romper distâncias e suspeitas para viver uma proximidade acolhedora com o outro; é preciso viver em situação de saída para que entre o diferente, a novidade, o surpreendente... Citando o poeta Rilke, o ser humano deve viver em situação de despedida.

Infelizmente temos esquecido que “ser cristão” é “seguir” Jesus Cristo: mover-nos, dar passos, caminhar, construir nossa vida seguindo suas pegadas. Nossa vivência cristã, muitas vezes, se restringe a uma fé teórica e inoperante ou se fecha numa prática religiosa rotineira e vazia; não transforma nossa vida em seguimento de Jesus.

Seguir Jesus Cristo é aderir a Ele incondicionalmente, é “entrar” no seu caminho, recriá-lo a cada momento e percorrê-lo até o fim. Seguir é deixar-nos con-figurar”, isto é, movimento pelo qual nossa vida vai sendo modelada pelo modo de ser e viver de Jesus.

Jesus não nos chama para seguir uma religião, uma doutrina, nem fazer proselitismo... Ele desencadeia um movimento de vida e nos convoca a segui-Lo, ou seja, identificar-nos com Ele e com a causa do Reino.

O horizonte do chamado e do envio não é outro que o compromisso em favor da vida e das pessoas, frente àquelas forças que tendem a travar e danificar a mesma vida. A partir desta perspectiva, a “missão” pode reencontrar seu verdadeiro sentido. Enviados(as) em favor da Vida, seus(suas) seguidores(as) sabem muito bem qual é o encargo que Jesus lhes confia. Nunca O viram governando a ninguém; sempre O conheceram curando feridas, aliviando o sofrimento, regenerando vidas, destravando os medos, contagiando confiança em Deus. O que Jesus sempre quis foi “discípulos/as” que lhe “seguissem”, ou seja, que vivessem como Ele viveu: dedicados a curar enfermidades, aliviar sofrimentos, acolher as pessoas mais perdidas e extraviadas, pacificar as relações. Assim nasceu o “movimento de Jesus”.

É preciso sair dos limites conhecidos; sair de nossas seguranças para adentrar-nos no terreno do incerto; sair dos espaços onde nos sentimos fortes para arriscar-nos a transitar por lugares onde somos frágeis; sair do inquestionável para enfrentarmos o novo...

É decisivo estar dispostos a abrir espaços em nossa história a novas pessoas e situações, novos encontros, novas experiências... Porque sempre há algo diferente e inesperado que pode nos enriquecer...

A vida está cheia de possibilidades e surpresas; inumeráveis caminhos que podemos percorrer; pessoas instigantes que aparecem em nossas vidas; desafios, encontros, aprendizagens, motivos para celebrar, lições que aprendemos e nos fazem um pouco mais lúcidos, mais humanos e mais simples...

“Sede itinerantes”: este é o apelo que brota do modo de viver que Jesus elegeu quando se dedicou a proclamar sua Boa Notícia e aliviar o sofrimento humano. Ele não tinha templo, não tinha casa, não tinha onde reclinar a cabeça... Este desapego de todo tipo de segurança é a atitude básica e fundamental que todo(a) discípulo(a) deve adotar. O anúncio não pode ser realizado em lugares fechados ou sentados numa cátedra. Seguir Jesus exige uma dinâmica continuada. Nada pode ser comunicado a partir de uma cômoda instalação pessoal. A disponibilidade e a mobilidade são exigência básicas da mensagem de Jesus.

Mesmo que, com frequência, esqueçamos desse apelo de Jesus, a essência da Igreja está marcada pela mística do envio. Por isso, é perigoso concebê-la como uma instituição fundada para cuidar e proteger uma religião. Ela não foi fundada para preservar ritos arcaicos, doutrinas estéreis, normas vazias... Ela é um “corpo” para a missão; responde melhor ao desejo original de Jesus quando a Igreja é imagem de um movimento profético que caminha pela história, segundo a lógica do envio: saindo de si mesma, comprometendo-se com os outros, levando ao mundo a boa notícia de Deus. “A Igreja não está aí para si mesma, mas para a humanidade” (Bento XVI).

Por isso, é tão perigosa a tentação de viver na retaguarda, centrados em nossos próprios interesses, nosso passado, nossas conquistas doutrinais, nossas práticas e costumes “religiosos”. Pior ainda é quando fazemos isso petrificando nossa relação com o mundo.

Que é uma Igreja rígida, paralisada, fechada em si mesma, sem profetas de Jesus e sem portadores da Boa Notícia da vida e da paz.

Texto bíblico: Evangelho segundo Lucas 10,1-12.17-20

Na oração:

Diante de Jesus, que “passa e chama” a todos, responda: como você vive, hoje, sua missão no trabalho, no seu ambiente, na sua comunidade? Que sentido você quer dar à sua própria vida?... em quê gastar suas forças, capacidades? Como viver, no seu cotidiano, sua vocação de discípulo(a)-missionário(a)?

- Sua comunidade cristã está mais próxima do “movimento de Jesus” ou vive “formatada” pelo peso de uma religião fechada, desencarnada e descompromissada?

terça-feira, 10 de setembro de 2024

O seguimento de Jesus e a pretensão do nosso ‘ego’

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 24º. Domingo do Tempo Comum (Ano B).

“No caminho perguntou aos discípulos: ‘quem dizem os homens que eu sou’”? (Mc 8,27) 

O Evangelho de Marcos é chamado de “Evangelho do Caminho”. O “caminho” é a verdadeira escola do Mestre da Galileia, pois Ele está aberto às surpresas da vida e não se refugia no interior das sinagogas e espaços sagrados; no caminho Jesus deixa transparecer a sua missão; o caminho revela também o verdadeiro sentido do seguimento.

É no caminho que Jesus faz duas perguntas que deixam transparecer dois círculos: um exterior e um interior. O que se vê de fora e o que se vê de dentro. O que se vê com os olhos e o que se contempla com o coração. As duas perguntas deixam clara uma distinção entre a visão que a multidão tinha de Jesus e a dos discípulos, depois de um tempo de convivência com Ele. Os discípulos são chamados a ter um olhar mais profundo, capaz de mergulhar no mistério de Jesus, um olhar sem falsidade e sem interesse próprio; eles não devem se contentar com o que ouvem dizer, mas são movidos a tomar uma posição, uma decisão.

As afirmações de Jesus no evangelho deste domingo têm dado margem a interpretações deturpadas. Ele é claro: apresenta-nos as consequências do seu seguimento; Ele não está falando da “cruz patíbulo”, imposta pelos homens, mas da “cruz fidelidade” a uma causa em favor da vida, ou seja, estar pronto e preparado diante da resistência e perseguição daqueles que não se abrem à ousada proposta do Evangelho.

Quem vive radicalmente o Evangelho, mais cedo ou mais tarde, vai ser rejeitado, perseguido... Tudo o que aconteceu com o Mestre, acontecerá também com os seus discípulos.

Jesus não veio para complicar a vida dos seus seguidores, nem impor novas leis, ritos, penitências... que só alimentam medo de Deus e culpa doentia. Afinal, Ele veio para que todos tivessem vida, e vida em plenitude. Na sua mensagem, Ele proclamou uma palavra vital e sábia. Não é, certamente, uma palavra que satisfaça nosso ego, alimentando a ignorância e a inconsciência na qual ele se move; também não é uma mensagem que atrofia a vida e a liberdade da pessoa. Pelo contrário.

O texto de Marcos fala de “perder a vida (o ego) pelo evangelho”. Como entender isso? Não se trata, evidentemente, de nenhum tipo de fanatismo que faz do evangelho uma bandeira de sofrimento ou um ídolo ao qual “sacrificar” a própria vida.

“Salvar a vida” ou viver em plenitude só é possível quando permanecemos em conexão com aquela identidade profunda, com o “eu original”. Isso requer, obviamente, deixar de nos identificar com o “ego” de uma maneira absoluta.

Vivemos, interiormente, o eterno conflito entre o “ego” e o nosso “eu verdadeiro”. No mais profundo de cada um de nós habita uma pretensão básica de querer “ser deus”“sereis como deuses” (Gn 3,5). É o pecado de raiz já dos nossos primeiros pais. É a tentação de querer ser outro, de não aceitar ser dependente, de não se aceitar como criatura, como humano (frágil e limitado).

“Renunciar a si mesmo” é não deixar que o impulso para a vaidade, a soberba, o poder... predomine; não deixar que o centro seja o “ego”, mas a identificação com Jesus (“quem quiser me seguir...”). Isso implica em “descer”, humildemente, ao próprio húmus. Se a pessoa não renuncia essa pretensão de “bastar-se a si mesma”, não poderá seguir Jesus Cristo.

Portanto, o convite é este: “negar o ego” para fazer emergir o “eu sou”, nossa originalidade e verdadeira identidade. No encontro com o “Eu sou” de Jesus reacende-se o nosso “eu sou”, aquilo que é mais nobre, elevado e sagrado no mais profundo de nós mesmos.

E quando se manifesta o nosso “eu original”?

Quando nos sentimos genuinamente movidos por sentimentos de compaixão para com as pessoas necessitadas, esse é o nosso verdadeiro eu que está se manifestando. Quando começamos a sentir uma grande gratidão pelos inúmeros dons que a vida nos oferece, podemos ter a certeza de que isso não provém do nosso ego. O ego é completamente incapaz de sentir gratidão. Sentir uma gratidão imensa por todos os dons e graças da nossa vida é algo que brota do fundo do nosso ser. Quando reconhecemos um momento de honestidade e sinceridade no nosso desejo de conhecer a verdade acerca de nós mesmos ou da realidade que nos cerca, esse é o nosso verdadeiro eu. Nos momentos em que agimos com uma coragem e valentia incomum e inexplicáveis, isso também brota de um impulso que provém das profundezas do nosso próprio ser. Se alguma vez experimentamos a alegria tranquila de deixarmos de lado nosso ego, fazendo alguma coisa pelos outros, sem recebermos qualquer recompensa ou agradecimento, e sem que ninguém o saiba, então entramos em contato com o nosso verdadeiro eu. E quando nos sentimos invadidos por uma onda de assombro e deslumbramento, quer dizer que estamos deixando o nosso verdadeiro eu prevalecer.

O que está em questão é precisamente “salvar a vida”, ou seja, viver em plenitude, com sentido e inspiração. Pois bem, isso só é possível quando descobrimos nossa verdadeira identidade e nos libertarmos das armadilhas do ego que nos confundem e nos mantém no sofrimento.

O evangelho deste domingo não reforça nenhum tipo de voluntarismo egóico, nem trata da exigência arbitrária de um Deus que exige sacrifícios e mortificações. É uma questão de sabedoria ou de compreensão. E é isso que expressam as palavras de Jesus que fecham o relato: “se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la”.

Uma consideração superficial destas palavras de Jesus deu margem a uma apresentação do cristianismo como a religião que enfatiza a dor, a renúncia e a negação da própria vida e da própria identidade.

Mas Jesus não buscou a dor e nem negou a vida. Suas palavras não são uma exaltação do sofrimento, mas expressam uma grande sabedoria: elas buscam “despertar” a pessoa para sua verdadeira identidade, para que assim ela possa assumir uma atitude acertada diante da vida.

O horizonte de toda pessoa é precisamente a vida e a plenitude. Isso é o que todos, sabendo ou não, buscamos. E buscamos isso em tudo o que fazemos e em tudo o que deixamos de fazer. Como acertar?

A verdade é que, nos ouvidos de muitas pessoas, a palavra “religião” soa como “negação”, “sofrimento”, “cruz”, “mortificação” ..., ou seja, como “negação da vida”. Diante deste grande equívoco, é preciso começar a reconhecer que tal visão não tem fundamento no Evangelho, mas em fatores alheios, de diferentes procedências, que chegaram a configurar o imaginário coletivo com matizes doloridos e angustiantes. Temas como o pecado, a culpa, o castigo, as “penas eternas” ..., rechearam os catecismos doutrinários, pregações moralistas e devoções estéreis, até os extremos difíceis de imaginar.

São muitos os cristãos que sofrem, feridos pela negatividade, pela rigidez, pela exigência; talvez humilhados pela culpabilidade, pelo medo, pelo perfeccionismo, pelo voluntarismo ou idealismo vazio, pelo excesso de cruzes inúteis, negações e sacrifícios impostos por uma educação religiosa repressora, restritiva e dominadora. Em suma, são muitos que estão feridos por uma religião tenebrosa, e acabam abandonando por pura necessidade de sobrevivência.

Infelizmente, como no tempo de Jesus, há uma religião que desumaniza em vez de potencializar todos os recursos mais humanos; uma religião que massacra em vez de contagiar vida; uma religião que atrofia em vez de expandir a pessoa. Muitas “autoridades religiosas” se transformam em implacáveis juízes, com a lei na mão, em vez de serem bons samaritanos. Fica cada vez mais patente dois estilos de religião: a que encarcera e a que liberta.

Qual delas determina nossa vida?

Texto bíblico: Evangelho segundo Marcos 8,27-35

Na oração:

Orar é aproximar-me da verdade que me faz livre”; livre para ser “eu mesmo”, chegar a ser aquilo a que sou chamado a ser.

Por isso a oração cristã é também descoberta do “eu”, da minha própria realidade pessoal, do mistério que a habita. É nessa experiência divina que “descubro-me a mim mesmo”. Começo, então a descobrir o meu ser (único, original, sagrado...) quando “mergulho” no misterioso relacionamento com Deus e quando permito que o “mistério experimentado” se torne fonte de minha identidade. Mais ainda, saberei melhor “quem sou eu”, esquecendo-me de mim mesmo, aceitando perder-me, deixando que o Amor me liberte de meu pequeno e atrofiado “ego”.

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Inácio de Loyola: um santo dos “tempos novos”

A festa de de Santo Inácio de Loyola é celebrada no dia 31 de julho. Nesta ocasião também fazemos memória dos 500 anos de sua peregrinação a Jerusalém. Segue uma reflexão para este dia.


Inácio de Loyola: um santo dos “tempos novos”

Em todo momento histórico, quando a Igreja e a sociedade são sacudidas por grandes mudanças, surgem homens e mulheres que rompem com esquemas e seguranças envelhecidos e se deixam conduzir pelo Espírito ao deserto, às margens, às fronteiras... rompendo um ambiente e uma ordem asfixiantes.

A fronteira, para eles, passa a ser terra privilegiada onde nasce o “novo” por obra do Espírito.

Eles(elas) descobrem na realidade do mundo e da história os “sinais dos tempos” e entram em comunhão com tudo, porque tudo é “diafania” (transparência) de Deus. Enraízam sua convicção nesta visão, nesta mística da presença de Deus em sua obra, na contemplação de um mundo chamado a se transformar em justo e belo, verdadeiro e pacífico, unido e reconciliado, entranhado em Deus, como no primeiro dia da Criação.

Foi num contexto assim que o “peregrino” Inácio de Loyola, “sozinho e a pé” pelos caminhos da Europa, situou-se nas fronteiras da humanidade em busca da comunhão universal; aqui se situa o seu processo original da vivência da santidade.

Depois de cinco séculos, Santo Inácio continua sendo uma figura única e paradigmática. O que é marcante nele está no fato de ter sido capaz de situar-se, de maneira original, no contexto das mudanças de seu mundo e de seu tempo. Ele é considerado o santo dos “tempos novos” que despontavam perante seus olhos deslumbrados. Novos valores emergiam, novos modos de pensar e sentir, de viver.

S. Inácio é o homem da mudança, da transição no tempo, dos tempos novos, agitados, turbulentos, de transbordantes novidades que colocavam em questão tudo o que até então era recebido. Ele não se fechou e nem resistiu a elas, mas abriu-se ao diferente e surpreendente.

O itinerário da sua vida foi um processo constante de “leitura orante da realidade”. Por isso, S. Inácio foi um homem de síntese: num mundo em mudança e até contraditório, ele assumiu com abertura total, sem preconceitos, sem nostalgias estéreis, a mudança de tempo que lhe coube viver. Isso lhe abriu horizontes culturais novos, nos quais vai deixar sua marca original.

Até à época de Santo Inácio, todo aquele que se sentisse chamado à santidade deveria naturalmente afastar-se do mundo e de seus “perigos” e buscar refúgio no deserto, nas montanhas ou nos mosteiros.

S. Inácio não se afastou do mundo para encontrar a Deus; ele fez a “experiência” do Deus agindo no mundo; aí O encontra e caminha com Ele. O mundo não é só o “habitat” da sua missão: é sobretudo a fonte da sua espiritualidade, o lugar certo para encontrar a Deus e escutar o Seu chamado.

Da experiência de “amar a Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus”, nasce uma espiritualidade radicalmente “mundana”, de contemplação do mundo e de ação no mundo.

A partir de então as velhas fronteiras geográficas e políticas pelas quais Inácio lutou apaixonadamente, serão substituídas por outras, aquelas do coração humano.

A santidade, para ele, passa a significar experiência de fronteira: rendição de uma fortaleza, troca de bandeira e de senhor no próprio coração, esvaziamento de si mesmo como “ego inflado” e oferecimento de sua pessoa ao verdadeiro “Senhor” que o chama a segui-lo, ou seja, situar-se com Ele nos “extremos” humanos. Falamos da admirável aventura espiritual de um homem que, dia após dia, aprende, tenaz e apaixonadamente, a viver para Deus no cenário do tempo que lhe coube viver, sacudindo e abalando as consciências daqueles que o rodeavam.

Mas, ao longo de todas as mudanças, de lugar e de horizontes, bem como as profundas transformações ocorridas no interior do próprio Iñigo, notamos que nele permanece idêntica a abertura ao surpreendente e idêntico o discernimento como instrumento para deixar-se interpelar pelos novos mundos e pelos novos desafios que se abriam diante dele. De maneira original e inspiradora, Iñigo assume com intensidade e abertura total a mudança de tempo e de cultura que lhe coube viver.

Isso lhe abriu horizontes culturais novos, nos quais ele vai se fazer presente criativamente.

E a “Narrativa do Peregrino” (autobiografia) nada mais é do que o relato da admirável aventura espiritual e cultural de um homem sincero e obstinado, livre e aberto, sempre empenhado em discernir, nos “sinais dos tempos”, aquilo que vêm de Deus (para acolhê-lo), e aquilo que vem do mal (para rejeitá-lo).

O itinerário de Inácio não é unicamente geográfico. Mais que um simples deslocar-se, trata-se de um modo de viver e de situar-se no mundo. Depois de ter posto literalmente seus pés sobre as “pegadas” de seu Senhor e beijar o solo que Ele havia pisado, Iñigo de Loyola compreende que a terra de Cristo era o vasto mundo de seu tempo. Desde então, para além do deserto e da peregrinação a Jerusalém, abre-se diante de

seus olhos, outro caminho. Decididamente, ele se volta para o mundo, esse borbulhar de acontecimentos sócio-político-religiosos, no qual reconhece o lugar da Encarnação.

Buscando considerar todas as coisas em sua referência a Deus, Inácio quer serví-Lo em toda circunstância. Dado que seu Criador e Senhor está presente e ativo em todo e qualquer lugar, ele se dirige ao mundo sem temor a nada, seguro de que cada um de seus passos o conduz ao lugar da adoração e do serviço.

Inácio contempla o mundo com Deus; longe de representar um espaço de tentações e de dispersão, o mundo é para ele o lugar do serviço. O olhar que pousa sobre a realidade reacende nele a saudade de Deus e o sentimento de sua presença.

A partir de então, o mundo o aproxima de Deus e a saudade de Deus não o afasta do mundo.

O olhar de S. Inácio para seu tempo e seu mundo pode nos ajudar a nos situar melhor e mais lucidamente no nosso. Também nós estamos vivendo profundas mudanças sociais, religiosas, culturais… que provavelmente não são de menor porte que as do Renascimento.

Ouve-se dizer hoje, com frequência, que estamos assistindo o fim de uma época e o princípio de outra; emergem novas formas de cultura, entendida como novos modos de relacionamento do ser humano com os outros e com o mundo. Os modos de pensar e de sentir em que vivíamos e estávamos instalados parecem decompor-se aos nossos olhos, ao passo que emergem por todos os lados, dispersos, sem que se veja claramente o perfil, mundos novos, novas visões, novas maneiras de se situar na realidade, novas culturas que nos interrogam, solicitam e inquietam.

Estes nossos tempos, novos e turbulentos, pedem de todos nós, críticos, inquietos e vigilantes, uma constante re-leitura dos novos “sinais” que surgem, a necessidade de viver em estado de atenção permanente, capacidade de re-analisar tudo o que vemos, e decidir a seu respeito no discernimento.

Se alguém se mantém constantemente de olhos abertos diante do que está vivendo, como fez S. Inácio, encanta-se em meio às grandes descobertas da ciência que ampliam o conhecimento do ser humano, às novas formas de socialização que estão transformando o nosso mundo, às novas formas e funções do saber, aos novos desafios que se apresentam diante de seus olhos, às novas esperanças de uma humanidade que é diferente, às novas formas de expressar a experiência religiosa... Este, certamente, estará assumindo uma atitude ativa e acolherá tudo o que humaniza e rejeitará tudo o que desumaniza.

Pondo-nos na escola de Inácio, é aqui, neste mundo, que Deus nos chama a estender o seu Reino, trabalhando cada dia como amigos(as) de Jesus que passam, observam, curam, se compadecem, ajudam, transformam, multiplicam os esforços humanos.

O(a) santo(a) dos tempos modernos é aquele(a) que na liberdade, afirma: “Fora do mundo não há salvação”.

Textos bíblicos: Mc 4,35-41; Ex 33,7-17; Ex 3,1-10; Jo 6,1-15

Na oração:

Para viver em atitude de “travessia” é preciso estar em eterna vigilância; e, ao mesmo tempo, abrir-nos a um constante assombro e gratidão, porque cada manhã é um milagre.

- A nossa vida é um êxodo, um sair constante de uma realidade para entrar em uma outra realidade nova. O peregrinar é o elemento determinante e com maior valor simbólico para toda a vida.

- Existem ainda céus por explorar, aventuras por empreender, pensamentos por experimentar e experiências por aceitar; falta-nos ainda muito por saber, por ver, por sentir, por desfrutar...

- No “mapa espiritual” do meu interior, ainda existe uma “terra desconhecida”, que desperta interesse, suscita curiosidade, me põe a caminho...?

- Vivo uma atitude de busca permanente (discernimento)? Minha presença no mundo faz diferença?...

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Quando a Cruz deixa de ser “peso morto”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 22º. Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24) 

A paixão-morte de Jesus foi, para os primeiros cristãos, o ponto mais impactante de suas vidas. Seguramente, o primeiro núcleo dos evangelhos foi constituído pelo relato da paixão-morte de Jesus. Não nos deve estranhar que, ao relatar o restante de sua vida, se faça a partir dessa perspectiva.

Por isso, até quatro vezes Jesus anuncia sua paixão e morte no evangelho de Mateus. Não era preciso ser profeta para dar-se conta de que a vida d’Ele corria sério perigo. O que Ele dizia e o que fazia ia contra à religião oficial, e os encarregados de sua custódia tinham o poder suficiente para eliminar uma pessoa tão perigosa para seus interesses. Até seus familiares mais próximos quiseram impedi-lo, forçando-o a levá-lo para sua casa, porque havia escolhido um caminho de loucos.

Pedro se rebela só de imaginar Jesus Crucificado. Não quer vê-Lo fracassado; só quer seguir a Jesus vitorioso e triunfante. Também nossa sociedade, marcada pelo imediatismo, competitividade, busca de resultados e rejeição a todo tipo de fracasso, a presença da Cruz é um escândalo inaceitável.

De fato, nela mesma, a Cruz não tem sentido. Se a Cruz é de tal modo exaltada, fazendo com que a vida e a ação de Jesus fiquem reduzidas a ela, então acontece que ela se torna angustiante e aflitiva, incapaz de motivar ao seguimento ou de acender a esperança.

Jesus não morre na cruz para buscar o sofrimento, mas por ser consequente até o fim com sua mensagem: o amor incondicional do Deus da vida. Ele não fugiu, não contemporizou, não deixou de anunciar e testemunhar, embora isso o levasse a ser crucificado.

Nesse sentido, a Cruz de Jesus não permanece confinada em si mesma; ela se insere no interior da paixão dolorosa do mundo e seu sentido mais profundo reside em sua solidariedade para com todos os crucificados da história.

Com a Cruz “descemos” com Jesus até à cruz da humanidade.

A solidariedade com os pobres, a fidelidade à vida evangélica, nos fazem descer aos porões das contradições sociais e políticas, às realidades inóspitas, aos terrenos contaminados e difíceis, às periferias insalubres das quais todos fogem e onde os excluídos deste mundo lutam por sobreviver. Ali nos encontramos com o Crucificado, identificado com os crucificados da história.

Como diz Jon Sobrino, não podemos crer no Crucificado de um modo coerente se não estamos dispostos a fazer descer da Cruz aqueles que estão dependurados nela.

A cruz e a morte só são dignas quando são consequência da luta contra a “cruz” e a “morte” impostas às pessoas e quando expressam solidariedade com os crucificados. Aqui há espaço de transformação.

A cruz se ilumina quando requer o abraço de uma situação inevitável. Se a enfermidade não tem cura, se a morte de um ser querido nos arrebata, se uma catástrofe natural nos deixa impotentes, se a denúncia profética de uma injustiça acarreta perseguições etc., crescemos quando abraçamos essa cruz e a superamos espiritualmente.

A Cruz liberta quando não termina nela mesma, mas na ressurreição. Enquanto a carregamos é leve se ela aponta para um horizonte de esperança. “Vinde a mim, vós todos que estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos darei descanso... Porque meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11, 28-30).

Mas, para carregar a Cruz como Jesus, é preciso passar por um processo de esvaziamento de nosso “falso eu” que, continuamente, busca seus interesses, alimenta vaidades, quer ser o centro das atenções, sem nenhuma sensibilidade solidária com os sofredores e vítimas de uma sociedade que violenta e exclui.

O chamado de Jesus a “renunciar a si mesmo” é um convite ao descentramento, a não viver girando obsessivamente sobre o próprio eu.  Os místicos falam com frequência da “morte do próprio eu”, e da felicidade que brota do interior quando a pessoa se deixa possuir pelo amor de Deus.

Há uma forma de viver agarrada ao próprio eu, que é fonte permanente de sofrimento. Muitas vezes, o que mais sofrimento gera na pessoa é precisamente esse modo de viver apegado a ela mesma, buscando cegamente e acima de tudo o próprio êxito, a boa imagem, a aprovação e a estima dos demais. Esse cultivo equivocado do ego inflado se converte em fonte de preocupação e sofrimento.

Inconscientemente, a pessoa pode alimentar falsamente seu “ego” e inclusive agigantando-o de forma desproporcional, organizando todo seu entorno a partir dele: minha pátria, meu partido, minha igreja, minha ideologia; o ego vai então ficando cada vez mais seduzido e mais exposto a toda sorte de problemas.

A atitude mais saudável está em tomar consciência de que a origem de tanto sofrimento inútil está no indivíduo mesmo, nesse coração cheio de egoísmo, de apegos, de invejas, de falsas ilusões, de sede de poder, de ressentimento, de vazio interior... Da mesma forma que a dor física é um sinal de alerta que avisa que algo funciona mal no organismo, existe todo um conjunto de sofrimentos que revelam modos equivocados de viver: apegos, servidões, contradições e incoerências que impedem um desenvolvimento sadio da pessoa.

Este sofrimento não é uma cruz que devemos carregar, mas uma carga que devemos “soltar”, se quisermos viver com o espírito de entrega de Jesus

No que se refere à experiência específica de seguimento, deveríamos retomar o sentido da mensagem de Jesus referente ao “negar-se a si mesmo” para poder viver. “A negação de si” enquanto negação daquilo que nega a vida. “Negar-se a si mesmo” é deixar de identificar-nos com a tirania das mensagens de nossos pequenos “eus”, que se refletem em nossa própria linguagem.

“Negar-se a si mesmo” é um conselho sábio: significa negar o que na realidade “não somos”, despertar da ilusão e do engano, deixar de girar em torno de um suposto “eu” que não existe, para viver a unidade de todos e de tudo em Deus e agir assim de um modo coerente na vida.

Não somos um pequeno “ego” que cremos ser. Precisamos despertar dessa ilusão e entrar em contato com nosso verdadeiro Eu, nosso Ser e, a partir dele, olhar a vida, olhar nossa atividade e olhar os outros, a fim de viver em conformidade com quem somos em profundidade. É esse o modo de “ganhar a vida”.

Precisamos perceber que aquilo que para nosso ego é “perda” e perigo, para nosso Eu verdadeiro é ganho profundo e libertação. Ganhamos mais vida quando ela se esvazia de “ego” e se deixa conduzir pelo amor oblativo que procede d’Aquele que é pura fonte de Amor.

Texto bíblico: Mt 16, 21-27

Na oração:

Todos nós somos habitados por um conjunto de “eus”, alguns conscientes, outros inconscientes. São os “pequenos amores” ocultos (um eu orgulhoso, irado, triste, prepotente, avarento, luxurioso...) que habitam reprimidos nosso interior. São elementos de nossa própria sombra, aos quais deveremos prestar atenção se quisermos avançar rumo a uma pleni-tude humana e espiritual. Uma experiência espiritual profunda consiste em estar cada vez mais lúcidos com relação a eles e identificando-nos prazerosamente com nosso Eu verdadeiro.

- Quais são seus “amores” (afetos desordenados que exigem alto investimento) que fragilizam e atrofiam o seguimento de Jesus?

- Diante da presença inspiradora da Graça, dê “nomes” aos seus “falsos eus” para não se deixar determinar por eles. Ao mesmo tempo “dê nomes” às expressões do seu “eu” original, que plenificam e dão sentido à sua vida.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

FELICIDADE: fome e sede de plenitude

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 4º. Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Felizes os pobres em espírito, os mansos, os pacíficos, os misericordiosos, os puros de coração...”

Todo ser humano anseia por felicidade; como filhos e filhas do “Sopro criativo”, somos habitados por uma “fome e sede” de eternidade, de infinita liberdade, de vida plena...

Muitas são as pistas sobre o lugar onde se encontra a “chave da felicidade”. Alguns o situam na arte; outros, numa religião fundamentalista; muitos, num consumo desordenado; vários, na política alienada; tantos, no sucesso a todo custo; poucos, na militância comprometida; inúmeros, no trabalho estressante; raros, no serviço desinteressado...

A sociedade de consumo que tudo invade, realça a felicidade como a meta imediata de nossas buscas, algo ao qual temos direito e que depende de fatores externos. Esta felicidade é passageira, pois quando a alcançamos, invade de novo a insatisfação, a inquietude, o ressentimento, a inveja... e de novo empreendemos nossa busca.

A felicidade não se encontra na saída e nem no final. Parodiando Guimarães Rosa, podemos dizer que ela está presente na travessia.

Nesse sentido, felicidade pode ser entendida como um “estado de espírito”; é experimentar uma sensação de renascimento contínuo, de satisfação interior... ou sentir despertar em si um potencial de bondade, muitas vezes desconhecida...

A felicidade não vem a nós a partir de fora, nem nos espera no futuro; tampouco se encontra em “algo” que deveríamos alcançar. A felicidade se identifica com o que somos; é outro nome de nossa identidade profunda e transcende toda circunstância e acontecimentos.

Muitas vezes somos ignorantes de nosso estado de felicidade; na essência, já somos felicidade. O problema é que nos identificamos com o que não somos e, nessa mesma medida, nos afastamos da felicidade quando a localizamos em “algo” ou a projetamos “fora”. Mas a felicidade não é um “estado de ânimo” que pode variar, mas um “estado de ser”, que nasce justamente da experiência profunda de nossa vida e que é capaz de abraçar todos os estados de ânimo.

A verdadeira felicidade coincide com a paz interior; é o prazer de descobrir a cada dia que a vida se inicia novamente a cada amanhecer; é fazer da mesma vida uma grande aventura...

As bem-aventuranças, pronunciadas por Jesus sobre um monte, tem o caráter de uma teofania e constituem umas das páginas mais belas da sabedoria universal. Falam de uma felicidade diferente que  abre caminho em meio às adversidades e contradições. Cada frase é uma passagem, uma páscoa, onde chega ao auge o que parece contraditório: bem-aventurados são os que sofrem, os pobres, os persegui-dos, os humildes, os que choram... pois demonstram que eles ainda não perderam a sensibilidade, que eles sentem o mundo como injusto e que, por isso, são, verdadeiramente, os únicos a sonharem, a buscarem e a lutarem por um novo mundo.

Tanto as bem-aventuranças como o Reino são trans-confessionais. São atitudes que aproximam todos os seres humanos. Seu caráter universal é o que faz com que muitas vezes sejam lidas em encontros inter-religiosos. Elas nos convocam a ir além de nossos pequenos e atrofiados lugares, em direção a uma terra prometida da qual já falavam os profetas de Israel.

Para surpresa de todos, Jesus subiu a uma montanha para ver o amplo horizonte da vida e lá fez um profundo mergulho em seu interior, estimulando também os discípulos e a multidão a descerem no insondável mundo do “eu profundo”. É ali que se encontra a fonte das inspiradas “beatitudes”, aquelas que tecem nossa vida e nos fazem originais.

Não há outro modo de alcançar o divino a não ser “escavar” e fazer emergir aquilo que é mais nobre e humano, escondido nas profundezas da vida. Para ativar as bem-aventuras é preciso perfurar a dura casca do ego inflado e prepotente.

Nas afirmações surpreendentes de Jesus, são chamados de bem-aventurados ou felizes aqueles que vivem em sentido contrário ao que o mundo propõe: pobreza, mansidão, paz, compaixão, sensibilidade solidária.

A felicidade evangélica não é como aquela que o mundo vende, ou seja, euforia fácil e prazer imediato. Ela é muito mais um chamado à plenitude e sabe suportar os embates que a vida apresenta. Com frequência, associamos a felicidade à ausência de problemas, ao êxito econômico, à beleza perene ou ao prazer em todas as suas dimensões. No entanto, tudo isso esgota ou é simplesmente insustentável, pois não tem consistência interior.

Não podemos considerar as bem-aventuranças como leis ou como algo a cumprir. Elas são o horizonte, a meta, o tesouro a descobrir. Devemos nos aproximar de cada uma delas como “atributos divinos” presentes em nosso interior e no interior de todas as pessoas. Elas são como estradas através das quais avançamos até viver na “dinâmica do Reino”, que tantas vezes encontra resistência frente a outras dinâmicas egóicas e formas de viver auto-centradas que nós mesmos alimentamos.

- Ao escutar e acolher que somos felizes quando somos “pobres de espírito”, significa ter alcançado a liberdade interior, ser conscientes de onde colocamos a segurança de nossa vida. Mas também implica viver uma existência simples e despojada, sentindo-nos chamados a partilhar os dons e a nossa própria vida com os mais necessitados.

- Quando Jesus proclama que devemos ser “mansos, para possuir a terra” percebemos a radical diferença frente ao orgulho e prepotência cultivados pela nossa sociedade. A mansidão é fruto do Espírito, próprio de quem deposita toda sua confiança em Deus. Se vivemos tensos, agressivos diante dos outros, acabamos cansados e esgotados. Mas, quando olhamos nossos limites e fragilidades com ternura e mansidão, sem nos sentir superiores ou inferiores a ninguém, podemos viver mais integrados, evitando desgastar energias em lamentos ou dissimulações inúteis.

- Ao escutar que somos felizes quando “sabemos chorar com os outros”, significa compartilhar o sofrimento alheio e enfrentar as situações dolorosas, solidarizando-nos com o sofrimento do mundo para transformá-lo.

- E continuamos escutando que somos felizes, bem-aventurados, quando sentimos “fome e sede de justiça”, ou seja, quando emerge de nosso interior um impulso mobilizador para que a vida digna seja possível para todos e sentimos isso como se sente a fome, a partir das entranhas.

- Quando somos “misericordiosos”, significa que deixamos fluir de nosso coração o amor recebido de Deus, significa que estamos acolhendo os outros incondicionalmente, assim como nos sentimos acolhidos por eles.

- Ao nos descobrir que somos felizes quando temos “um coração limpo para poder ver a Deus”, significa ter um coração simples, sem falsidade, autêntico, transparente.

- E nos admiramos, nestes tempos tão sombrios, ao escutar que somos felizes quando “trabalhamos pela paz” sem excluir ninguém; construímos paz quando buscamos o consenso, a harmonia, o perdão, a possibilidade de vida para todos.

- Mais ainda, no final nos é dito que somos felizes quando nos sentimos “perseguidos por causa da justiça”, porque o Reino de Deus pede uma sociedade justa e em paz e isto não é possível sem uma grande dose de entrega pessoal para contrapor todos os obstáculos que nascem dos interesses pessoais e dos egoísmos grupais, retardando a plenitude do Reino.

Texto bíblico: Mt 5,1-11

Na oração:

“Contemplar” o significado de cada bem-aventurança; verificar em que medida e em que circunstância ela se faz visível em sua vida.

terça-feira, 26 de julho de 2022

Legado de Santo Inácio de Loyola: a Espiritualidade na vida cotidiana

Durante o mês de julho publicaremos semanalmente um texto para celebrar a vida e memória de Santo Inácio de Loyola. Esse texto também estará disponível em áudio (podcast) no canal Rezando o Evangelho no  Spotify e em outras plataformas de áudio. O quarto e último texto aborda uma reflexão sobre a vivência da Espiritualidade Inaciana no nosso cotidiano, mais um legado de Santo Inácio de Loyola que permanece e gera frutos até os nossos dias. Boa leitura! Que Santo Inácio nos ensine a ser e buscar sempre o Magis!

Vivemos mergulhados na cultura de resultados; o ativismo é o nosso estilo de vida; a existência inteira faz-se maquinal e rotineira; a vida perde seu sentido; já não encontramos tempo para desfrutar das atividades mais simples e humanas; nosso cotidiano torna-se pesado, cansativo, passa a ser rotineiro, convencional e, não raro, carregado de desencanto. A maioria das pessoas vive restrita ao cotidiano com o anonimato que ele envolve. Tal situação acaba gerando pessoas ansiosas, irritáveis, frustradas.

O que fazer então?

Quando a vida cotidiana se torna monótona e se faz normal, é necessário sacudi-la com algum “detalhe anormal”, que ajuda a revigorá-la e dar-lhe fecundidade. “Se, às vezes, há um fastio na rotina, não raro ela revela um mistério insondável” (Cláudio Van Balen). A mística inaciana desperta nossa atenção para o mistério das pessoas, das coisas, da normalidade da vida. Santo Inácio, quando nos convida a contemplar a “vida oculta” de Jesus, no fundo ele quer que coloquemos em evidência nossas motivações, nossos valores, nossos critérios.

Jesus nos ensina, em Nazaré, a descobrir o valor eterno do doméstico, do cotidiano.

Ele nos ensina a saborear o eterno e o Absoluto nas pausas e nos silêncios da vida cotidiana. Ele gasta praticamente toda sua vida nesta humilde condição; passou despercebido como Messias. Identificando-se com a vida de todo mundo, Jesus mostrava que a salvação não consistia em coisas extraordinárias ou em gestos fantásticos, mas na “adoração do Pai em espírito e verdade”.

Tanto em Nazaré quanto na vida pública, Jesus nos comunica uma profunda união com o Pai. Para Ele o Reino se revela no pequeno, no anônimo, no cotidiano e não no espetacular, no grandioso. Para Ele, não são as coisas que nos fazem importantes, mas somos nós que fazemos qualquer coisa ser importante. É o sentido que damos à nossa vida e à nossa ação que fazem com que estas sejam significativas ou não. É a importância do não importante. “Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia a própria dificuldade” (Mt. 6,34). Com estas palavras, Jesus estabelece a diferença entre o modo pagão e o modo cristão de viver o cotidiano. A cotidianidade de nossa vida está tecida de coisas ordinárias e não de coisas extraordinárias. Falamos de uma cotidianidade humana, isto é, daquelas atividades de nossa vida diária, que embora irrelevantes em sua aparência, tem uma razão de ser, uma motivação e um modo de fazer-se que não se deve à mera casualidade ou a um impulso instintivo de repetição e automatismo.

O cotidiano é o que vivemos e/ou fazemos cada dia: o conjunto de circunstâncias, atividades e relações que formam a trama da vida de uma pessoa por meio das quais Deus atua nela e a pessoa se relaciona com Deus. As ações cotidianas insensatas podem ser sensatas se percebermos Deus presente nelas. Descobrir a presença divina escondida no cotidiano é encontrar-se acolhido pelo abraço do Criador que nos envolve. Quando a pessoa assume seu cotidiano e o vivifica com injeções de novidade, de idealismo, de criatividade, então começa a irradiar uma rara energia interior.

A essa força denominamos de carisma, que significa a energia que tudo vitaliza, que tudo penetra e rejuvenesce. O carisma inaciano nos desperta da letargia do cotidiano. E despertos, descobriremos que o cotidiano guarda segredos, novidades, mensagens ocultas, que podem acordar e conferir sentido e brilho à vida.

O cotidiano passa a ter sabor de eternidade.

O cotidiano é o meio pelo qual o amor toma densidade e se expressa preferentemente. Tem-se dito que “a humildade do amor é o dom da vida cotidiana”, ou seja, a humildade do amor sem brilho, no escondido. O amor é, precisamente, o lubrificante que dá sentido à vida cotidiana e lhe faz superar as dificuldades inerentes à mesma: o desprendimento de si mesmo, a busca da verdade e do bem comum, a atenção ao que facilita a vida dos outros, se tornam normais quando se cultiva o amor. E é esta fidelidade no cotidiano que possibilita a transformação da realidade.

Proposta de reflexão: Faça pequenas pausas durante o seu dia: pela manhã, no início da tarde, no início da noite... Procure perceber os milagres, o sagrado nas coisas simples, os passos da presença divina em suas vivências humanas cotidianas.

Fonte: Magis Brasil. Reflexões Inacianas: Espiritualidade do cotidiano criativo, Disponível em: https://magisbrasil.com/reflexoesinacianas18-20181204

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Legado de Santo Inácio de Loyola: a Espiritualidade Inaciana

Durante o mês de julho publicaremos semanalmente um texto para celebrar a vida e memória de Santo Inácio de Loyola. Esse texto também estará disponível em áudio (podcast) no canal Rezando o Evangelho no Spotify e em outras plataformas de áudio.  O terceiro texto aborda de maneira sintética a Espiritualidade Inaciana como legado da vida e trajetória de Santo Inácio de Loyola. Boa leitura! Que Santo Inácio nos ensine a ser e buscar sempre o Magis!

Muitas escolas de espiritualidade se desenvolveram ao longo de toda a história do cristianismo como um caminho inspirado pelo Evangelho, pelo qual se procura seguir Jesus. Nessa perspectiva, cada espiritualidade assume formas próprias: na relação com Deus, no estilo de vida e no modo como se compromete com a transformação do mundo.

A Espiritualidade Inaciana enraíza-se na experiência de Santo Inácio e nos Exercícios Espirituais. Inácio de Loyola vivia convicto de que Deus habita e trabalha em tudo o que existe e acontece. A vida espiritual não se resume a momentos de oração ou à celebração dos sacramentos, mas implica identificar-se com Jesus, procurando e encontrando Deus e a Sua vontade em todas as coisas. Esta procura exige viver numa atitude de discernimento. Implica também recordar que o ser humano não se inventou a si próprio, sendo convidado a reconhecer todo o bem recebido e a viver agradecido.

Com base na experiência de Inácio de Loyola, os Exercícios Espirituais (EE) constituem um método que nos ajuda a lidar com a nossa dimensão interior. Os EE nos expõem à ação de Deus e ao seu convite para que tenhamos uma vida plena de serviço gratuito. Os EE são uma ginástica espiritual, uma experiência pessoal de Deus que transforma a vida e liberta o coração de tudo o que o impede de ser livre e fazer a vontade de Deus.

Podemos dizer que os EE são a porta de entrada da Espiritualidade Inaciana. Os EE foram pensados por Inácio para serem feitos em 30 dias, mas podem ser adaptados para períodos mais curtos. Há ainda a possibilidade de fazer os EE na vida quotidiana sem que seja necessário retira-se para algum lugar específico. Na sua versão completa, os EE dividem-se em quatro etapas designadas por semanas. Ainda que feitos em grupo, os EE são uma experiência pessoal de encontro com Deus, adaptando-se ao que cada pessoa está vivendo. Esta adaptação é feita com a ajuda de um acompanhante espiritual que orienta os EE.

Os EE são um caminho de identificação com Jesus e com o seu estilo de vida. Uma forma de estar em que, libertos de preconceitos e rótulos, aprendemos a amar livremente, e nos disponibilizamos a servir a todos. Os EE nos auxiliam a perceber o modo concreto como, em cada momento da nossa vida, Deus nos convida a colaborar com o seu Reino, tornando o mundo mais justo.

Os EE nos auxiliam a ordenar a nossa vida. Provavelmente isso implicará que, ao longo do processo, experimentemos dificuldades e resistências, desânimos e agitações, mas também alegrias e esperanças. Ao começar os EE ninguém pode saber aonde Deus vai levá-lo, mas podemos estar certos que seja onde for, só pode ser bom e para nosso bem.

A quem deseja fazer os EE, pede-se generosidade e confiança. A generosidade de procurar estar inteiro e sem reservas. Uma atitude de confiança em Deus, no processo e em que o acompanha. Os EE estão pensados para pessoas que desejam encontrar-se com Deus, procurando a conversão contínua a um modo mais livre de amar. Destinam-se aos que sabem que precisam de algo mais [Magis] na sua vida e que são atravessadas pela busca de sentido que Jesus nos oferece.

A espiritualidade sempre será um caminho que nos ajuda a ter intimidade com Deus. A mística da Espiritualidade Inaciana está intrinsecamente enraizada na realidade cotidiana. A lógica da espiritualidade inaciana nos propõe a adotar a realidade como matéria e base para a oração, a partir das seguintes perspectivas:

- Considerar a realidade: Considerar como fomos criados por Deus e qual o fim da nossa vida: “Louvar, servir e reverenciar a Deus Nosso Senhor e mediante isto salvar a sua alma. As outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem e para o ajudarem na consecução do fim para o qual é criado” (EE 23).

- Meditar a realidade: Propõe-se pedir perdão pela forma como vivemos e estamos nos relacionando com o ser humano e com a natureza; pelo modo como olhamos distantes a realidade e não nos envolvemos com ela, a fim de cuidar das feridas e vidas.

- Contemplar a realidade: Devemos pedir a graça de não sermos surdos ao chamado de Nosso Senhor, “mas sermos prontos e diligentes para cumprir a Sua santíssima vontade […]” (EE 91).

- Esperançar uma nova realidade: Devermos ser anunciadores de um Deus que nos ama e trabalha sempre, cuidando, resgatando o ser de cada criatura, em vista do Reino definitivo.

Inácio afirma nos EE que “não é o muito saber [nem o muito fazer] que sacia e satisfaz a pessoa, mas o sentir e saborear as coisas internamente.” E, à medida em que dermos a primazia à interioridade, podemos ter a certeza que daremos ainda muito mais frutos, tanto no saber quanto no fazer. Aquilo que Inácio nos propõe nos EE é impressionantemente rico e atual para o desenvolvimento pessoal, sobretudo por nos ensinar a desenvolver, de maneira integrada, os chamados “três olhos do conhecimento”: o “olho dos sentidos”, o “olho da razão” e o “olho do espírito” (Ken Wilber).

 

Proposta de reflexão: A Espiritualidade Inaciana se estrutura em uma perspectiva de desenvolvimento espiritual com os pés no chão. Colocar em oração o lugar das diversas realidades que vivencio (familiar, afetiva, profissional, social, política...) no meu diálogo com Deus e no meu agir cotidiano. 

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Organização do texto: Cláudia Cruz, membro CVX Regional Rio de Janeiro

Fontes:

A espiritualidade inaciana, uma ajuda para viver a realidade atual - José Laércio Lima, SJ. Disponível em: https://www.jesuitasbrasil.org.br/2020/08/10/a-espiritualidade-inaciana-uma-ajuda-para-viver-a-realidade-atual/

Espiritualidade Inaciana – Província Portuguesa da Companhia de Jesus. Disponível em: https://pontosj.pt/jesuitas/espiritualidade-inaciana/

Espiritualidade inaciana: um modo de ser uma escola de vida - Adroaldo Palaoro, SJ. Disponível em: http://centroloyola.com.br/espiritualidade-inaciana-um-modo-de-ser-uma-escola-de-vida.html

Exercícios Espirituais – Província Portuguesa da Companhia de Jesus. Disponível em: https://pontosj.pt/jesuitas/exercicios-espirituais/

Exercícios Espirituais: transformação a partir do interior - Luís Maria da Providência, SJ. Disponível em: https://pontosj.s3.eu-west-2.amazonaws.com/wp-content/uploads/sites/13/2018/02/14161324/EE-Transformacaoo-a-partir-do-interior.pdf

quarta-feira, 13 de julho de 2022

Legado de Santo Inácio de Loyola: a Companhia de Jesus

Durante o mês de julho publicaremos semanalmente um texto para celebrar a vida e memória de Santo Inácio de Loyola. Esse texto também estará disponível em áudio (podcast) no canal Rezando o Evangelho no Spotify e em outras plataformas de áudio. 

O segundo texto aborda de maneira sintética a Companhia de Jesus como legado da vida e trajetória de Santo Inácio de Loyola. Boa leitura! Que Santo Inácio nos ensine a ser e buscar sempre o Magis!

As experiências espirituais e peregrinações de Inácio de Loyola em busca do princípio e fundamento da sua existência o colocaram em contato com muitas pessoas. Especificamente na Universidade de Paris, Inácio reuniu alguns companheiros, que formaram um grupo a partir do qual se deu a fundação da Companhia de Jesus.

Aquele grupo de companheiros tinha o desejo de se dedicar ao bem dos filhos e filhas de Deus, buscando imitar Cristo, peregrinar a Jerusalém e se colocar à disposição da Igreja. Em 15 de agosto de 1534, na capela de Montmartre, em Paris, os companheiros fizeram votos com esses propósitos. Era o início da Companhia.

O projeto inicial dos companheiros de Jesus de peregrinar a Jerusalém e lá se colocar a serviço foi adiado por tensões político-territoriais da época, então eles se estabeleceram em Roma e se dedicaram a pregar e a efetuar obras de caridade na Itália.

A Companhia de Jesus (em latim, Societas Iesu, S. J.) foi aprovada oficialmente pelo Papa Paulo III em 1540, por meio da bula Regimini militantis Ecclesiae. No ano seguinte, Inácio foi eleito o primeiro superior geral da Ordem, e passou a viver em Roma, onde se dedicou à função de preparar e enviar os jesuítas aos “novos mundos” para pregar o Evangelho de Jesus Cristo, combater os avanços do protestantismo e expandir as fronteiras da Igreja.

Nos primeiros anos da sua trajetória, a Companhia de Jesus passou por diversas adversidades, tanto de natureza econômica, por não possuir fontes permanentes de renda, quanto relacionadas à aceitação por parte da sociedade eclesial da época, marcada pelas tensões da Inquisição. Inácio, porém, manteve-se firme diante das adversidades que surgiram, pois tinha confiança plena de que a missão da Companhia tinha em vista Ad Majorem Dei Gloriam (a maior glória de Deus).

Na perspectiva de um mundo em expansão na segunda metade do século XVI, a Igreja necessitava de missionários para terras longínquas, como as Américas e o Oriente. E os jesuítas assumiram essa missão de modo marcante ao longo da história.

À época do falecimento de Inácio (31 de julho de 1556), a companhia contava com cerca de 1.000 jesuítas, espalhados em mais de 100 casas, organizadas em diversas províncias e também era responsável por cerca de 40 colégios. Atualmente, a Companhia de Jesus constitui uma das maiores ordens religiosas ligadas à Igreja Católica, congregando milhares de membros (padres e irmãos), e respondendo pelas atividades de centenas de universidades e colégios.

A despeito da sua singificativa expansão inicial, a Companhia de Jesus teve na supressão um dos episódios mais difíceis da sua história. Desde a sua fundação, a Companhia teve uma trajetória de controvérsia e confrontamento. Por ter adotado princípios missioneiros e dialógicos, as estratégias de evangelização e inserção cultural dos jesuítas atraíram críticas da própria Igreja. Além disso, a influência política e social crescente dos jesuítas, que se tornaram notórios educadores e administradores, incomodava tanto as outras ordens quanto as monarquias absolutistas da época. Esse contexto foi o cenário da supressão da companhia pelo Papa Clemente XIV em 1773, sendo restaurada somente em 1814, pelo Papa Pio VII. Após esse episódio, a Companhia de Jesus reafirmou sua unicidade e seus propósitos iniciais.

Além de serem responsáveis por muitos sinais da Evangelização nas Américas e do Oriente, os jesuítas contribuíram com relevante atuação na formação de atores sociais e políticos em diversos territórios de missão. No campo espiritual, são os principais responsáveis pela escola de espiritualidade fundada por Santo Inácio, com a difusão dos Exercícios Espirituais entre religiosos e leigos.

Em entrevista concedida em 2017, Arturo Sosa (atual superior geral dos jesuítas e primeiro não europeu) afirmou que, para a Companhia de Jesus e, portanto, para todos os jesuítas, é fundamental e necessário ser criativamente fiéis à própria vocação e à missão. Segundo o padre geral, é necessário, a partir do olhar de Santo Inácio, continuamente percorrer o caminho do retorno às fontes originais.

O Pe. Arturo Sosa afirma que “hoje, a Companhia deve encontrar, a cada dia, o caminho para pôr em prática a reconciliação. Em três níveis: com Deus, com os seres humanos, com o ambiente. Somos colaboradores da missão de Cristo, razão de ser da Igreja de que fazemos parte. E justamente a experiência de Deus nos restitui a liberdade interior e nos leva a dirigir o olhar para aqueles que estão crucificados neste mundo, para entender melhor as causas da injustiça e contribuir para elaborar modelos alternativos ao sistema que hoje produz pobreza, desigualdade, exclusão e põe em risco a vida sobre o planeta. Assim, devemos restabelecer uma relação equilibrada com a natureza. Contribuir com essa reconciliação significa também desenvolver a capacidade de diálogo, entre as culturas e entre as religiões”.

Reflexão: Após mais de 400 anos de existência da Companhia de Jesus, com adversidades e avanços, há um reconhecimento de que é necessário percorrer o caminho do retorno às fontes originais.  Proposta: Fazer memória dos altos e baixos da sua jornada pessoal e espiritual e identificar quando foi necessário retomar os propósitos iniciais e fundantes da sua vida.

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Organização do texto: Cláudia Cruz, membro CVX Regional Rio de Janeiro

Fontes:

Santo Inácio de Loyola, o fundador (https://www.jesuitasbrasil.org.br/institucional/santo-inacio-de-loyola/)

Biografia Santo Inácio de Loyola (http://www.santoinaciosp.com.br/biografia-santo-inacio-de-loyola/)

Da supressão à “Restauração” (1773-1814): A Companhia de Jesus, entre continuidade e descontinuidade (https://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/5756-luiz-fernando-rodrigues)

A missão da Companhia de Jesus hoje. Entrevista com Arturo Sosa (https://www.ihu.unisinos.br/categorias/570167-a-missao-da-companhia-de-jesus-hoje-entrevista-com-arturo-sosa