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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Epifania ou o Deus de portas abertas

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade da Epifania do Senhor (Dia de Santos Reis).

“Quando entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe” (Mt 2,11)

 

Para a Igreja do Oriente, hoje é o dia da Natividade, o dia que Jesus se manifestou como a Luz do mundo, o dia que Deus elegeu para manifestar-se a todos os homens através da pequenez do filho de Maria. 

Esta festa nos convida a descobrir a “epifania” não só em nós, mas em tudo e em todos. Tudo é transpa-rência de Deus, tudo é manifestação de Sua presença providente e iluminadora.

O evangelho de Mateus nos faz aproximar do nascimento de Jesus através de um relato original, carregado de simbolismos que nos orientam e nos ajudam a captar o verdadeiro significado deste evento divino. 

Por isso, é importante não ler o texto de forma linear, mas dando atenção aos diferentes cenários que se cruzam para ter uma visão panorâmica de tudo o que está acontecendo.

O primeiro cenário, que abre e fecha o relato, é o fato simples e cotidiano do nascimento de um menino numa pequena aldeia. Um menino em quem transparece a salvação de Deus, renovada e persistente em seu desejo de convidar todo ser humano a vivê-la.

Mas essa iniciativa divina carregada de gratuidade e ternura é vista como ameaça pelo rei Herodes e pela elite religiosa de Jerusalém que protagonizam a ação do segundo cenário. Herodes usa estratégias para cortar pela raiz a ameaça ao seu poder, quando fica sabendo que o anúncio da salvação de Deus brota a partir de baixo, da periferia, das fendas cotidianas da história.

Por sua parte, os Magos vindos do Oriente, que ignoravam os grandes desígnios divinos, só conhecidos pelos representantes religiosos de Israel, aparecem como buscadores honestos, pondo todo seu conheci-mento e seu esforço em encontrar Aquele que salva e dá vida. Para isso, não duvidam em colocar-se a caminho, em questionar sua própria verdade e arriscar tudo a partir de uma intuição do coração.

 

Os Magos, dos quais Mateus se refere, representam o dinamismo próprio das religiões que vão mais além delas mesmas; um dinamismo que é busca da verdade, a busca do verdadeiro Deus, a busca da sabedoria, a busca de um sentido para a vidaPor isso, os magos são representantes dos “buscadores”de todos os tempos. Eles deixam transparecer a verdadeira identidade de todo ser humano, que se define como buscador.

Viver é desafiador na medida que viver é buscar. A dinâmica da busca marca a caminhada humana e define os rumos da vida. Vive-se em permanente busca e só à medida que se vive para buscar é que a vida se torna, de verdade, vida, com mais sabor e sentido. O que se busca define e determina o que é a vida da pessoa. Diga-me o que você busca e lhe direi quem você é”.

 

É decisivo ter claro o que é que se busca. No supermercado da vida pode-se buscar tudo. As ofertas são muitas e são sedutoras. Viver para buscar “outras coisas” é correr o risco de perder o rumo, priorizar o menos importante, apegar-se ao que é passageiro, não perceber o que é e onde está o essencial. 

Muitas buscas, que permanecem na superfície da vida, acabam gerando prejuízos graves porque aatitude de busca, tão própria do ser humano, desemboca em algo sem sentido, sem horizonte, vazio.

É difícil alimentar o “espírito de busca” quando nossa realidade insiste na vivência do imediato,entendido como carência de um projeto de vida consistente, de uma causa mobilizadora, de uma razão por viver enraizada no coração. É difícil buscar quando alguém se encontra acomodado e satisfeito de tudo e, ao mesmo tempo, de nada. Então, para que buscar? Como despertar e alimentar a fome e sede da busca?

A força da busca que move o próprio coração exige cuidado e especial atenção. Toda busca inclui a purificação de motivações para permitir, como fruto, o encontro de tudo o que garante e promove a vida. É exercício de discernimento constante: “o quê busco? Por que busco? Tem sentido e valor aquilo que busco? Para onde me leva a força da busca?...

É preciso buscar sempre, pois é esta atitude que dá garantias de fecundidade e criatividade à vida.

 

Nesse sentido, o relato dos Magos é uma das passagens bíblicas mais belas que descrevem o sentido, o valor e a dinâmica da busca. De fato, todo o relato e todos os protagonistas são pessoas que estão em busca: Herodes e toda Jerusalém, os sumos sacerdotes e os escribas do povo e, obviamente, os Magos.Todos envolvidos na inquietante busca do Messias. 

No entanto, quanta diferença nas motivações e nos êxitos desta busca.

Herodes não é somente o cínico e perverso rei que teme pela estabilidade do seu trono. É também aquele que vive na mentira e que tem medo da verdade. Quer, portanto, buscar a verdade, mas para eliminá-la radicalmente da face da terra. Tudo faz para conservar egoisticamente o seu poder. Este é o seu ídolo e este é o seu verdadeiro deus.

Os sumos sacerdotes e os escribas sabem onde buscar a verdade, tem a Escritura, são “experts” em indagar e investigar a verdade, mas permanecem fechados e resistentes em sua posição. No fundo estão a serviço do poder e tem medo de perder seu lugar.

 

Quão diferente, contrastante e diametralmente oposto foi a atitude de busca dos Magos!

E não foi ingenuidade o fato de irem perguntar ao rei da Judéia onde tinha nascido o Rei dos judeus;foi, antes de tudo, o desejo de envolver os outros na própria busca da verdade.

Não viram grandes prodígios, mas experimentaram uma grande alegria. Compreenderam que a aventura da busca não se dá nas alturas, mas no encontro com a humanidade.

Por isso, depois de um longo e penoso percurso, encontraram-se diante d’Aquele que se humanizou. Só lhes restou “caírem de joelhos diante dele e o adoraram”. quando aqueles homens se levantaram, já não eram mais os mesmos. 

Ajoelhar-se pode parecer um gesto servil, mas, em ocasiões como esta, é um gesto de humildade. Implica descer do pódio do ego, sobre o qual ele busca subir constantemente, acreditando ser o melhor, o mais sábio, o mais famoso, o mais perfeito. De joelhos, clama-se por compaixão, ajuda, clemência, compreensão, misericórdia. E levantar-se é poder de novo estar de pé, tendo passado pela experiência da pequenez. 

Além disso, pôr-se de joelhos diante daquele menino significa abrir passagem na própria vida à ternura, à grandeza que não está em saber mais, nem ser mais forte, mas a de ser maishumano e, por isso, profundamente imagem de Deus. Ajoelhar-se diante daquele menino éacima de tudodespertar o deslumbramento, o assombro, a admiração. Quando alguém seencontra com aquele que “é” luz, parece que tudo em sua vida se torna mais luminoso, e essa luz se revela expansiva.

 

Herodes e sua corte representam o mundo do “ego” inflado, prepotente, que busca seus próprios interesses e vê ameaça por todos os lados. Tudo vale nesse mundo quando se trata de garantir o próprio poder: o cálculo, a estratégia e a mentira. Vale inclusive a crueldade, o terror, o desprezo ao ser humano e a destruição de inocentes. Apresenta a falsa imagem de ser defensor da ordem e da justiça, mas é vulnerável e mesquinho, pois termina sempre buscando um menino para matá-lo.

Para reconhecer a dignidade do ser humano, em vez de destruí-la, é preciso percorrer um caminho oposto àquele que Herodes segue.

Como os Magos saem de sua terra para buscar o Menino, nós precisamos sair de nosso “ego”, de nossas seguranças terrenas para buscá-Lo. Sem essa atitude, embora tenha nascido o Menino, embora apareça a estrela, o encontro não acontecerá.

 

Texto bíblico:  Evangelho segundo Mateus 2,1-12


 

Na oração: 

Diante de milhões de estrelas de nosso mundo que ofuscam nossos olhos, é preciso aprender a discernir aquela que nos conduz a Jesus. Nesse sentido, o relato dos Magos é paradigma de discernimento. 

- Pedir a graça de ser libertado(a) das atitudes e comportamentos que geram resistência e acomodação; e graça de saber descobrir e discernir no céu, na história e em si mesmo(a) os sinais externos, as moções interiores e os caminhos que levam ao Deus da Vida e à vida plena das pessoas que Deus ama.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Ano Novo: o “novo” que nos habita

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade da Santa Mãe de Deus, em que se celebra também a chegada do Ano Novo e o Dia Mundial da Paz.

 

“Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido” (Lc 2,20)

 


No início deste Novo Ano busquemos inspiração no relato do evangelho de Lucas sobre os pastores dos arredores de Belém, pastores que buscam, encontram e constroem a paz. Relato que quer abrir nossos olhos, despertar nossa esperança, suscitar nosso compromisso e abrir um novo horizonte de sentido na nossa vida. 

Muitas vezes costumamos cair neste erro: considerar o ano civil como um “ciclo”, como um tempo circular que volta sempre, sem mudança, repetindo-se mecanicamente.

Esta sensação de circularidade imprime monotonia e rotina à nossa vida e não corresponde ao que procla-mamos como cristãos; continuamente celebramos o Deus da surpresa, o Deus da novidade, Aquele que vai sempre à frente, que não se repete, Aquele que sustenta e impulsiona nossa história (pessoal, comunitária, mundial, eclesial...), que nos interpela e nos compromete na construção do Reino, até que Jesus (o centro de nossa vida) seja realmente “tudo em todos”.

Foi assim que os pastores, ao se deslocarem para a gruta de Belém, se depararam com a surpreendente novidade de Deus: a salvação se fez visível na margem, na periferia da vida. No rosto de uma criança recém-nascida se revelou a ternura acolhedora de Deus. O “novo” brotou do chão despojado da vida e não dos palácios, dos templos.

 

Neste primeiro dia do Ano vamos reler o relato dos pastores com a liberdade com a qual foi escrito por Lucas. É de noite. Alguns pastores velam seus rebanhos dos perigos. São pobres, marginalizados da socieda-de e do sistema religioso. Desejam a paz, a paz da justiça ou a justiça na paz. Não querem a paz do império romano, de seu poder violento. Tampouco podem esperar que algum “messias” (rei ou sacerdote) traga a paz. Que podiam eles esperar de Deus, pois são considerados como gente de duvidosa moralidade e ritual-mente impura e, portanto, excluída dos benefícios divinos do templo, gente privada do perdão e da paz divina que a religião promete? Que podem esperar do “Deus altíssimo”, invocado pelos poderosos e a quem os sacerdotes do templo imolam os cordeiros de seus rebanhos? Que podem esperar do Deus manipulado pelos mestres da lei que os exclui, por serem ignorantes e inferiores? Por acaso existe outro Deus?

E, de repente, sentem que, na noite da desesperança, uma luz os envolve e uma voz os consola. E se põem a caminho, guiados pelo coração e pela luz.

E na gruta, onde costumam guardar seus rebanhos, a luz de seus olhos se encontra com a glória da vida e do universo, encarnada no sinal mais humilde e luminoso: um recém-nascido. Nas ruínas do velho mundo quebrado, do mundo desgarrado, se acende a luz da justiça que garante a paz verdadeira, a luz da paz que gera a justiça. Nas profundezas do universo e de cada ser humano se acende e brota sem cessar um mundo novo, onde as honras não fascinam, as riquezas são compartilhadas, os poderes se rendem, um mundo onde a justiça e a paz se encontram. 

 

“Já não há mais um Deus altíssimo”, poderiam ter dito aqueles simples pastores. Não existe o Deus dos reis com seus exércitos, tronos e palácios, nem o Deus das religiões com suas doutrinas, cleros e templos. Deus é o Ser fontal de tudo quanto existe. É a Luz originária da qual tudo nasce e vive desde sempre. É a luz da energia que tudo atrai e tudo impulsiona. É a Paz na justiça, a paz ativa, terna e subversiva, que cria e re-cria tudo incessantemente, de transformação em transformação. É o Amor universal que atrai tudo e tudo impulsiona para o “novo céu e a nova terra”.

É preciso ter um coração de um humilde pastor para compreender o “mistério” da Gruta de Belém. O Deus de Jesus não é o Deus que já tem tudo preparado, atado e bem atado; não é o Deus da inércia ou da rotina, mas o Deus que faz tudo novo e, por isso, nos move à renovação permanente e nunca à acomodação. É o Deus sempre criativo que suscita o “novo” e o “surpreendente”, que não “ata” as coisas nem amarra a Criação; por isso, nos convida a sermos co-criadores e colaboradores com Ele na criação contínua através do trabalho e da ação humana. É o Deus da surpresa e da liberdade; uma liberdade humana que conduz a situações imprevisíveis. 

 

Naquela noite de Natal, numa Gruta despojada de qualquer tecnologia, aconteceu uma conexão muito especial, a melhor conexão jamais inventada. Deus, rompe as distâncias, faz-se “humano” e se põe em contato com a humanidade, sem mensagens nem mensageiros. É certo que fora anunciado pelos profetas, mas fazia muitos anos e não havia nenhum sinal extraordinário de que fosse acontecer naquele momento.

Mas, esta é a surpresa: Ele vem em pessoa, rompe as distâncias entre o céu e a terra, entre sua divindade e nossa humanidade; naquela luminosa noite, Deus, em Jesus, nascido da Virgem Maria, se faz um de nós, “um entre tantos” e nos faz partícipes de sua vida. O Verbo se humaniza para nos divinizar”; e assim recebemos a filiação divina e nos tornamos filhos e filhas de Deus.

 

O Deus do “novo” vem dar sentido e inspiração ao Novo Ano que se inicia. É Ele que desperta nossa imaginação, reacende nossos desejos e alimenta nosso espírito de busca.

Imaginação, inspiração, originalidade, criatividade... são o sal da vida e o sopro do Espírito; é o que faz sair luz das sombras e ordem da confusão; é o início de tudo.

Tudo o que é novo começa por uma inspiração e o que não é novo é apenas repetição do que já foi.

criação é privilégio do Criador. Participar de alguma maneira humilde, simples, mínima, na emoção suprema da criação primeira é o prazer mais íntimo que o ser humano pode ter sobre a terra. A criatividade e a inspiração são a faísca do divino no coração do ser humano. 

É a expressão da inspiração que, tal como vento, não se sabe de onde vem e nem para onde vai.

Por nossa conta não podemos fazer muito, apenas nos preparar, estar atentos, observar o horizonte, esperar a oportunidade. Mas quando a inspiração surge é preciso lançar-nos. Quem hesita diante da oportunidade perde a vida, que é feita de oportunidades. É preciso aprender a reconhecê-la, acolhê-la com imediata alegria e vontade decidida. “Cada um deve inventar sua vida”.

vida só tem sentido quando se torna “história”, isto é, quando não se limita a repetir o passado, senão que gera algo novo a partir de uma origem. Todo ser humano experimenta, de alguma maneira, impulsos para a superação de si”; sua vida está orientada para algo definitivo, pleno... e ele vai construindo-se a si mesmo até converter-se em alguém único e irrepetível. A maneira de fazer isso não pode ser forçada, mas consiste em aceitar o que já se tem e, partindo daí, dar uma direção nova à sua história.

 

Somos impulsionados, continuamente, a romper com a vida formal e convencional, a vida ordenada com normas claras e recompensas seguras, o exercício de virtudes pessoais...  e caminhar para uma vida mais audaz e incerta, de horizontes amplos, de exigências que nos impulsionam a “começar de novo”, de signifi-cado mais universal; despertar a motivação e a intenção daquilo que vivemos e fazemos: por quê? para quem?... Temos um coração maior que o mundo e desejos que nos fazem ter asas de águia.

O ser humano é, em sua essência, mudança, movimento, dinamismo, energia... Deus não nos deu um espírito de timidez, de medo, de fuga, de acomodação..., mas de audácia, de criatividade, de luta, de participação... Quando alguém não vive a vida a fundo, só lhe resta a rotina da vida e o vazio vital.

 


Texto bíblico:  Evangelho segundo Lucas 2,16-21

 

Na oração: 

Não percebemos precisamos de um coração novo? Não sentimos a necessidade de sacudir nossa apatia e auto-engano? Como despertar o melhor que há em cada um de nós? Como reavivar a atitude humilde e transparente dos simples pastores que “glorificavam e louvavam a Deus” depois de terem encontrado o Menino na Gruta?

- Qual é o “novo” que Deus quer realizar em nós e conosco, em nossos ambientes, neste ano que começa?

- É preciso nos aproximar da Gruta de Belém “com todo acatamento e reverência possível” e, se fazemos isso de boa vontade e de bom coração teremos o privilégio de nos sentir envolvidos pela rede do amor misericordioso de Deus.

Se conseguirmos que o ano de 2026 seja “novo” com a eterna novidade da bondade, então também teremos um ano feliz.

Um inspirado 2026!


sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A inspiradora Família de Nazaré

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho da Festa litúrgica da Sagrada Família de Jesus, Maria e José.


“Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito!” (Mt 2,13)

 

O relato evangélico indicado para a festa da Sagrada Família é como o espelho de nossa história violenta, que avança sobre cadáveres de crianças sacrificadas, de inocentes fugitivos, de homens e mulheres errantes, perseguidos, em busca de uma pátria. Nossa história do “falso natal” avança sobre o Natal verdadeiro que continua acontecendo nos caminhos dos fugitivos e dos clandestinos deste mundo.

O alarme diante da notícia do nascimento do “rei dos judeus” encaixa perfeitamente no contexto de mentiras e complôs, de terrores e furores dos últimos anos do rei Herodes.

Jesus, já na sua infância, se fez presente no lugar onde se encontravam aqueles que não tinham “lugar”, os “deslocados”, os socialmente rejeitados e que serão, mais tarde, a razão de seu amor e do seu cuidado. Porque fez a experiência da exclusão (exílio) é que Jesus irá desencadear, com sua vida e missão, um movimento de inclusão.

perseguição e o exílio logo no início de sua vida revelam o realismo da Encarnação. Ao entrar na nossa história, o Filho de Deus esvaziou-se de sua glória e assumiu nossa condição humana, com todas as consequências: pobreza e impotência, perseguições e ameaças de morte por parte dos poderosos de turno.

Jesus nasceu num mundo hostil. Ele foi perseguido pelos “donos do poder” desde o início de sua vida.

O não reconhecimento d’Ele por Herodes e por Jerusalém antecipa sua rejeição, sua condenação e sua morte na Cidade Santa, no lugar onde Ele encontrará a maior hostilidade.

O paralelismo entre Jesus e Moisés, de um lado, e entre Herodes e Faraó, de outro, é claro.

Há também um paralelismo entre Jesus e o povo de Israel: Jesus revive na sua própria história a travessia do seu povo, chamado por Deus do Egito. “Do Egito chamei meu filho” (Os. 11,1).

Nessa escola de perseguição cresceu o Messias, compartilhando assim a sorte dos hebreus oprimidos no Egito; crescendo nela pode entender e interpretar nossa história por dentro. Entre fugitivos e perseguidos, cresceu Jesus, nas fronteiras da desumanização; ali vai sendo gestada a história da nova humanidade.

Se a história da Encarnação começa lá “embaixo”, na periferia, quer dizer que a fé em Deus implica prestar atenção e voltar a cabeça em direção aos “últimos”, aos que vivem “deslocados”. É por esse caminho que podemos chegar à descoberta e à experiência de Deus; é também por este caminho que podemos chegar ao conhecimento de nós mesmos e nos fazermos mais “humanos” e “solidários”. No momento em que o Verbo de Deus assume um rosto, todo ser humano chega à plenitude de sua realização: entra em comunhão com o Infinito e recebe uma dignidade infinita.

O relato do exílio interpela a nossa liberdade e a nossa fé. Jesus continua batendo à porta e pedindo hospitalidade na ponta dos pés. São rostos desfigurados pela fome e pobreza, rostos aterrorizados pela violência diária, rostos angustiados de menores carentes, rostos humilhados e ofendidos na sua dignidade... Podemos fechar-Lhe a porta e condená-Lo ao exílio, que é uma atitude gravíssima na relação com Deus. 

Aqui se condena uma criança. Se não entendermos essa lição, nada mais conseguiremos entender. Nesta nossa ignorância e insensibilidade a respeito do presente divino que é a Criança de Belém, estão as raízes de nossas maiores desgraças, injustiças, violências... 

E Deus não pode abençoar uma sociedade que não sabe valorizar e proteger suas crianças...

O Evangelho de hoje termina com três indicações geográficas, que são como que a espinha dorsal da narrativa. Antes de tudo, o anjo diz a José que deve retornar à terra de Israel: é a pátria mais genérica de Jesus e da revelação bíblica. Depois José é advertido em sonho para ficar no território da Galileia.

Enfim, de modo mais específico, ele vai morar “numa cidade chamada Nazaré”.

Nazaré está no traçado do retorno-êxodo de Jesus do Egito.

Com a terra de Israel Jesus revive a experiência do Êxodo; com a Galileia dos gentios Jesus abre a salvação aos mais pobres e excluídos; mas, em Nazaré Ele encontra o ambiente favorável à sua humanização. Um povoado insignificante que se torna o ponto de partida do caminho de Jesus, uma vida oculta e corriqueira que é celebrada pelos profetas.

Podemos dizer que Nazaré é, em certo sentido, a mística do cotidiano”, das horas, dos meses, dos anos escondidos, da vida tranquila, provinciana, não-escrita, de Jesus.

Essa atenção à simplicidade do cotidiano, à natureza da Galileia, à mensagem que Deus esconde no interior das pessoas, nas coisas, nas horas…, é uma constante na pregação de Jesus. Nazaré é o sinal da epifania de Deus nas pequenas coisas, é o sinal da palavra divina escondida nas vestes humildes da vida simples e familiar, é o sinal da presença graciosa de Deus em nossas casas.

Às vezes, as imagens da Sagrada Família nos fazem entendê-la de uma maneira fria, solene e distante. No entanto, não devemos esquecer que Jesus teve uma família e nela viveu muitas das experiências que nós vivemos nas nossas: alegrias e tristezas, dramas e conquistas, perdas e encontros...

família continua sendo o espaço humanizador privilegiado para o desenvolvimento de cada pessoa, não só durante os anos da infância e da juventude, mas durante todas as etapas de nossa vida.

O ser humano só pode crescer em humanidade através de suas relações sadias com os outros. A família é a atmosfera insubstituível e o lugar de referência para que essas relações profundamente humanas sejam amadurecidas. Seja como casal, como filho, como irmão, como pai ou mãe, como avós..., em cada uma dessas situações a qualidade da relação os fará aproximar da plenitude humana, quando todo encontro com o outro é vivido para destravar e ativar suas ricas possibilidades e sua capacidade de amar. 

O espaço familiar des-vela o humano que em todos habita.

Inspirada no lar em Nazaré, cada família se transforma num espaço privilegiado para viver as experiências mais básicas da fé cristã: a confiança num Deus Bom, amigo do ser humano; a atração por um estilo de vida cristificado; a descoberta do projeto de Deus de construir um mundo mais digno, justo e amável para todos; ambiente inspirador para o despertar da criatividade e do espírito de busca; a internalização dos valores do evangelho, etc... 

Num lar onde se vive o seguimento de Jesus com fé simples, mas com grande paixão, cresce uma família sempre acolhedora, sensível ao sofrimento dos mais necessitados, que aprende a partilhar e a comprometer-se por um mundo mais humano. Uma família que não se encerra só nos seus interesses, mas que vive aberta à família humana.

experiência e vivência familiar, portanto, vem responder a uma demanda própria deste momento pós-moderno e se revela capaz de restituir ao ser humano de hoje a espessura de humanidade e os valores que lhe são próprios. O clima familiar não só mobiliza a pessoa em sua integralidade (corporal, afetivo, cognitiva, volitiva...), mas a acompanha para um sentido sapiencialda vida e que a faz saboreá-la como descoberta, como oportunidade, como dom.

A espiritualidade familiar, centralizada em cada um de seus membros, visa mobilizá-los em todas as suas dimensões, promove distensão, paz e alegria, propõe um caminho de plena humanização, forma para a abertura aos outros e para a doação por amor, impele, em suma, a criar as condições para que todos atinjam a maturidade e se realizem como seres humanos.

Oração da Sagrada Família - Departamento Arquidiocesano para a Pastoral  Familiar


Texto bíblico:  Evangelho segundo Mateus 2,13-15.19-23

 

Na oração:  

Contemplar seu espaço familiar: é ambiente instigante, provocativo, inspirador... onde todos se sentem livres para expressar sua identidade e originalidade? Ali educa-se para viver uma consciência moral responsável, sadia, coerente com a fé cristã? Ou favorece um estilo de vida superficial, consumista, sem metas nem ideais, sem critérios e valores evangélicos?

Em quê dimensões você sente que sua família pode e deve crescer mais, tendo como referência a Família de Nazaré?

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Re-descobrir o NATAL em meio ao “natal”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ como sugestão para rezar o Evangelho da noite do Natal. Desejamos a todos(as) uma santa e criativa celebração natalina; que a experiência de "descida" à Gruta de Belém inspire uma maneira original de ser e de estar no mundo.


“Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura” (Lc 2,12)

 

Há mais de um mês que somos continuamente bombardeados pela publicidade, oferecendo um “natal” esvaziado, centrado no consumo, no impacto das luzes que nos cegam, nas insistentes ofertas que nos ensurdecem... A impressão que temos é que tudo no Natal é publicidade, consumismo, materialismo... 

Há uma pergunta que todos os anos nos incomoda, quando observamos pelas ruas os preparativos que anunciam a proximidade do Natal: o que existe ainda de verdadeiro no fundo desta festa tão esvaziada por interesses consumistas e por nossa própria mediocridade? Não há algo mais nobre e profundo que os interesses do mundo não conseguem afogar? 

Continuamente ouvimos falar da superficialidade da festa natalina, da perda de seu caráter familiar, da vergonhosa manipulação dos símbolos religiosos e de tantos excessos e despropósitos que deterioram hoje o sentido do verdadeiro Natal.

Mas, o problema é mais profundo. Como pode celebrar o mistério de um “Deus feito homem” uma humanidade que vive praticamente de costas para Deus e que destrói, de tantas maneiras, a dignidade do ser humano? Como pode celebrar “a humanização de Deus” uma sociedade marcada por uma desumana indiferença, onde os grandes sonhos e causas mobilizadoras estão esvaziados?

Para muitas pessoas não faz diferença crer ou não crer, ouvir que “Deus morreu” ou que “Deus nasceu”. Sua vida continua funcionando como sempre. Não parecem necessitar mais de Deus.

A realidade contemporânea está nos empurrando para esta grave situação: já faz algum tempo que se falou da “morte de Deus”; hoje, fala-se da “morte do ser humano”; faz alguns anos que foi proclamado o “desaparecimento de Deus”; hoje, anuncia-se “o desaparecimento do ser humano”. Não será que a morte de Deus arrasta consigo, de maneira inevitável, a morte do ser humano?

No entanto, para quem tem um coração contemplativo, percebe que junto a tantos luminosos sinais, há outros mais discretos, que ninguém anuncia: relatos que falam daquela noite em Belém, de uma Boa Notícia, de um Deus que nasce nas entranhas da terra, que é acolhido por humildes pastores...

Nesta Noite Santa, a esperança que foi sendo alimentada durante séculos, rompe o céu e se derrama numa gruta de uma aldeia insignificante com o nome de poesia: Belém.

Nesta Noite Santa, o rebento de um tronco já seco germina para a vida do Universo, abrindo um novo tempo e uma nova Criação, onde não haverá pranto nem lágrimas.

Nos olhos fechados de um recém-nascido, deitado em um presépio, se revela e se faz visível toda a ternura de Deus, toda a espera de muitos séculos, todos os sonhos de muitas gerações. 

Nesta Noite Santa, Deus se faz um de nós, passando a transitar, como um             “clandestino”, por entre os mais excluídos e revelando que todos somos incrivelmente amados e com capacidade ilimitada de amar.

Nesta Noite Santa, o silêncio se faz gesto radical de entrega, amor transbordante, humanidade plenificada. Na presença repousante de uma criança, encontra-se toda a humanidade que sonha um mundo diferente, de paz, de justiça e de concórdia.

A festa de Natal nos conecta com a essência de nossa própria humanidade. O que se celebra é um Deus-menino, que está chorando entre animais, e que não mete medo nem julga ninguém. É bom que os cristãos voltem a esta imagem; ela representa o “puer aeternus”: o eterno menino que, no fundo, nunca deixamos de ser.

Ter o “eterno Menino” diante dos olhos desperta em nós renovação da esperança, o retorno à inocência perdida, o surgimento de novas possibilidades de vida que correm em direção ao futuro.

Imaginamos “outro Natal possível”, mais próximo do Menino Jesus, nascido humildemente em um presépio, onde, em lugar de “dar presentes”, nos “faremos presentes” junto aos famintos, necessitados e excluídos, abriremos corações e portas à chegada salvadora do Deus que se humaniza. A solidariedade e a ternura abrirão passagem frente ao individualismo, ao egoísmo e ao consumismo.

Imaginamos um Natal onde aproveitaremos para fazer uma viagem ao interior de nosso coração, ali onde habita o Deus da Vida que dá fundamento à nossa verdadeira identidade.

Imaginamos um Natal simples, solidário, alegre... sem luxos, onde abriremos espaços em nosso interior para que ali encontrem hospedagem todas as pessoas que sofrem e que são as preferidas de Deus Pai e Mãe.

Desejamos ardentemente que Deus nasça de novo entre nós, que brote com Luz nova em nossas vidas, que abra caminho em meio aos nossos conflitos e contradições.

Para encontrar-nos com esse Deus não é preciso ir muito longe. Basta nos aproximar silenciosamente de nós mesmos; basta “descer” em nossa gruta interior, em nossos desejos mais profundos.

Deus sempre é surpreendente e novo; é assim que Ele, como um anônimo, se aproxima de nós, onde estamos, para fazer de nosso eu profundo sua Gruta, onde a Vida se revela. O Deus “inacessível” se fez humano e sua proximidade misteriosa nos envolve. Em cada um de nós pode nascer Deus.

Caminhemos até Belém! Vamos todos fazer este caminho em direção ao “Deus clandestino”, para que as águas do Natal possam empapar nossas vidas e despertar em nós o assombro, a acolhida, o olhar contemplativo... diante do Menino que não fala, mas revela tudo de Deus. Basta “ser gruta” para Ele.

 

“Eu vos anuncio uma grande alegria... nasceu para vós um Salvador”. Quem está preparado para escutar e acolher esta surpreendente notícia? Somente os pastores, a profissão mais desprezada e marginalizada daquele tempo. A Salvação é anunciada em primeiro lugar aos oprimidos, aos que não são contados, aos excluídos. Os demais estão descansando, adormecidos, acomodados; não precisam de nenhuma salvação.

Deus sempre é Boa Notícia. Deus deixa transparecer seu rosto salvífico no rosto de um recém-nascido. Atualizando este mistério, podemos assim afirmar: Deus está vindo sempre em nossa direção, para nos comunicar vida plena. Os pastores saem correndo. Não é fácil encontrá-Lo. Alguma pista? Um menino, enrolado em faixas e deitado entre palhas, num coxo de animais. Seus pais não dizem nenhuma palavra. O que poderiam dizer? Deus decide enviar sua Palavra e nos envia um recém-nascido que não sabe falar.

Tudo o que nos torna mais humanos deve ser incorporado a esta Festa: o encontro familiar, a refeição, os abraços, a memória celebrativa...; tudo pode nos ajudar a descobrir o que somos na nossa essência humana e manifestar isso com muita alegria. A festa adquirirá sentido para todos os momentos em que soubermos unir o humano e o divino. Se formos capazes de ir mais além da superficialidade, poderemos nos encontrar celebrando a única realidade que interessa: a Vida que está em nós e espera ser ativada. 

Deus continua nascendo entre nós se O deixamos transparecer em nossas atitudes diante dos outros, em nossa entrega e sensibilidade oblativa. Deus está onde nós O descobrimos e nos fazemos presentes. Deus está onde há amor, compaixão, vida partilhada, acolhida...; ali onde um ser humano é capaz de superar seu egoísmo e viver descentrado; ali onde há compreensão, perdão, abertura ao diferente...; ali está Deus, “assim novamente encarnado” (Santo Inácio de Loyola).


O Natal subversivo de Jesus de Nazaré – Portal do CEBI

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Lucas 2,1-14

 

Na oração:

O mais importante acontece no silêncio, acontece no centro de sua própria vida e o convida a olhar para além das aparências. Viver um Natal inspirado implica fazer uma viagem ao interior de seu coração, ali onde habita o Deus da Vida que dá fundamento à sua verdadeira identidade.

Continua sendo Natal em cada história, em cada terra, em cada vida que se abre ao Mistério, em cada verbo que se faz eco das palavras de justiça e de paz, em cada gesto que se soma na mobilização dos direitos de todos, dos direitos da Terra, dos direitos da vida.

Um Natal com sabor de Evangelho fará toda a diferença em sua vida!

 

Um inspirado Natal a todos!

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

“Magos”, os primeiros “peregrinos de esperança”

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade da Epifania do Senhor (Dia de Santos Reis).


... retornaram para sua terra seguindo outro caminho” (Mt 2,12)

Celebremos “Epifania” situando-nos no horizonte do Ano Jubilar, com o tema: “Peregrinos de esperança”. Guiados pela estrela no céu e pela estrela de uma grande esperança no coração, os Magos começaram a caminhar. Na sua busca, examinaram o céu e auscultaram o próprio coração. Porque buscavam, empreenderam o caminho. Puseram-se a caminho porque tinham perguntas e uma inquietante esperança no coração.

A itinerância dos Magos vem nos recordar que “caminhantes somos”, todos no mesmo percurso, no mesmo voo, no mesmo barco. Mas temos esquecido nossa condição de nômades do tempo e da vida, peregrinos de Deus, pensando que podemos construir, com a ajuda do mesmo Deus, uma casa permanente sobre o mun-do, um “tabernáculo” perpétuo onde repousar, seja na forma “sacral” (nossas seguranças religiosas), seja na forma secular (nossos sistemas econômico-sociais). Mas, as condições dos tempos e, de um modo especial, a experiência mesma do evangelho, nos fazem descobrir que somos nômades do tempo e peregrinos de Deus, para além de todas as formas e estruturas que fomos criando ao longo da história.

Ser nômade do tempo significa caminhar (voar, navegar), leves de equipagem e por itinerários que ainda não foram percorridos por ninguém, não como aves migratórias que vão e voltam por rotas pré-fixadas na mesma evolução do tempo, pelas estações e pelos ventos da terra. Somente nós, seres humanos, somos verdadeiros peregrinos da criação, pois para continuar existindo precisamos abrir, por terra, mar e ar (ou seja, por nós mesmos, no interior de nossa humanidade), os caminhos que ainda não existem, pois nós mesmos os traçamos.

Peregrinos somos, e assim a festa da Epifania, inspirado no deslocamento dos Magos, nos leva para fora dos pequenos lugares de refúgio que fomos edificando (nossas torres de Babel) para amar, viver e morrer no descampado, como Jesus, enquanto buscamos e esperamos a cidade futura. Assim, caminhamos com Ele, sabendo que nem o olho viu e nem o ouvido ouviu o que poderemos olhar e escutar se continuamos caminhando com Jesus.

Na Epifania, não somos simples espectadores, mas, sim, criadores de futuro, ou seja, de nós mesmos, em Deus. Unidos por uma esperança compartilhada, queremos ser pessoas “epifânicas”, sabendo que nossa história não está escrita nem fixada ainda, mas que nós mesmos vamos traçando-a, enquanto Deus percorre seu caminho em nós e por nós. Como cristãos cremos que nossa vida não está escrita, mas que precisamos escrevê-la, nós em Deus e com Deus. Por isso “somos epifania”; vivemos em “estado de epifania”.

O caminho foi e continua sendo uma experiência de rumo que indica a meta e simultaneamente é o meio pelo qual se alcança a meta. Sem caminho nos sentimos perdidos, interior e exteriormente. Assim se encontra a humanidade, sem rumo e num voo cego, sem bússola e sem estrelas para orientá-la nas noites tenebrosas.

Cada ser humano é “homo viator”, um itinerante pelos caminhos da vida. Assim disse o poeta cantor argentino Atahualpa Yupanqui: “o ser humano é a Terra que caminha”. Não recebemos a existência acabada; devemos construi-la. E para isso é preciso abrir caminho, a partir e mais além dos caminhos andados que nos precederam. Assim, nosso caminho pessoal nunca está dado completamente: tem de ser construído com criatividade e sem medo.

Esse é o sentido de nossa existência: escolher quê caminho construir e como seguir por ele, sabendo que nunca o percorremos sozinhos. Conosco caminham multidões, solidárias no mesmo destino, acompanhadas por Alguém chamado “Emanuel, Deus conosco”.

Todo caminho implica um mundo de relações; relações livres porque não sabemos com quem vamos encontrar; falamos de igual para igual, compartilhamos alegrias e tristezas, nossa conversação, nossa ajuda. Não há pré-juízos no trato mútuo, ajudamos e somos ajudados, carregamos a mochila de nosso irmão cansado, curamos suas bolhas nos pés; aproximamo-nos das pessoas sem barreiras, superando fronteiras de raça, credo e cultura.

Nosso caminhar pessoal, familiar, social, histórico... é um caminhar para a “terra prometida”, para o melhor, para a superação constante...; é um caminhar que se abre a nós cheio de possibilidades, que alimenta a esperança, que nos enche de novas energias..., porque Deus, que é novidade constante, nos impulsiona a partir de dentro.

Os sábios do Oriente, com humildade perscrutaram por entre as pegadas da ciência em busca da verdade e quando descobriram um vestígio dela, puseram-se em movimento.

Viram a estrela e partiram, seguindo seu caminho; e no seu trajeto se informaram, procuraram, indagaram, retomaram o caminho. Com a paciência do diálogo, com a humildade da espera, com a alegria da esperança, esses foram ao encontro da Verdade.

O cristão é alguém que vislumbrou a “estrela”, aponta-a e, junto com os outros, desloca-se seguindo sua direção. O caminho da vida é marcado por percalços, dúvidas, fracassos..., mas seu coração é portador da força insubstituível da busca.

Como os Magos, porque busca, desperta nos outros o “ser buscador” que está escondido.

No processo da experiência cristã, a busca é um dinamismo determinante da mente e do coração de cada pessoa. Aquele que busca, movido por uma razão, quando encontra vibra de alegria, como a parábola do buscador de pérolas.

“Se eles (magos) percorreram um caminho tão longo para ver o recém-nascido, que desculpa terás tu, se nem sequer fores ao bairro ao lado para visitá-lo enfermo e encarcerado”? (São João Crisóstomo).

De Deus viemos. Dele somos. Nele vivemos. Para Ele vamos. Peregrinos espertos em discernir rumos e encruzilhadas. Somos caravana que avança em êxodo continuado. Vida nômade, provisória.

Peregrinar sem morada permanente. Tenda ambulante, não casa sólida de pedra. Somos Pessoas de muitas tendas, de muitos acampamentos. Nada definitivo. Estado de itinerância evangélica, traço característico de Jesus e de todo(a) seu(sua) seguidor(a). O mundo, nossa casa sem paredes.

Caminhar em direção a Quem é sempre maior, rumo ao destino prometido.

Em chave de interioridade, podemos interpretar o relato de Mateus recorrendo à psicologia do profundo. Os magos representam o caminho que seguem aqueles que escutam seus desejos mais nobres do coração humano; a estrela que os guia é a busca do divino; o caminho que percorrem é o desejo; o menino é a eterna criança que nos habita. Para descobrir o divino no humano, para adorar o menino em vez de buscar sua morte, para reconhecer a dignidade do ser humano em vez de destruí-la, é preciso percorrer um caminho oposto àquele que Herodes segue.

Podemos também recordar o significado simbólico dos presentes que os Magos oferecem. Com o ouro reconhecem a dignidade e o valor inestimável do ser humano: tudo há de ficar subordinado à sua felicidade; um Menino merece que sejam colocadas a seus pés todas as riquezas do mundo.

O incenso recolhe o desejo que a vida desse menino se expanda e sua dignidade se eleve até o céu: todo ser humano é chamado a participar da vida mesma de Deus.

A mirra é o remédio para curar a enfermidade e aliviar o sofrimento: o ser humano necessita de cuidados e consolo, não de violência e agressão.

Texto bíblico: Evanglho segundo Mateus 2,1-12

Na oração:

No contexto pós-moderno, onde predomina o uso dos meios eletrônicos, os “lugares virtuais” acabam determinando nossa vida, nosso modo de pensar, nossa visão, nosso sentir... Enquanto a tecnologia nos permite transitar por todos os lugares e encontrar pessoas mais distantes, cresce, no entanto, o medo do outro, daquele que é “diferente” de nós, daquele que não pensa como nós, encerrando-nos em pequenos mundos. Assim, os “percursos virtuais” acabam atrofiando nosso horizonte, nossos desejos e inspirações; as relações tornam-se frias, neutras, não nos comprometemos com o outro e não permitimos o confronto; matamos a possibilidade de viver contínuas travessias.

- É preciso despertar o “mago peregrino” que habita no interior de cada um, para empreender caminhos novos e acolher descobertas surpreendentes.

- Sua vida carrega a marca dos “magos buscadores” ou de Herodes acomodado, amigo da morte?