Mostrando postagens com marcador Papa Francisco. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Papa Francisco. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de junho de 2021

José, o homem do Discernimento

Texto 8 (e último) da série elaborada pelo pe. Adroaldo Palaoro, sj sobre a vida e missão de São José que poderá ser usada como subsídio para melhor viver o ano de São José (2021) decretado pelo Papa Francisco na Carta Apostólica "Patris Corde".

“De forma análoga a quanto fez Deus com Maria, manifestando-Lhe o seu plano de salvação, também revelou a José os seus desígnios por meio de sonhos, que na Bíblia, como em todos os povos antigos, eram considerados um dos meios pelos quais Deus manifesta a sua vontade” (Papa Francisco – Patris Corde)

 

Os relatos “da infância de Jesus” (Mt e Lc), não são crônicas de acontecimentos, não são “história” no sentido que hoje damos à palavra. São “teologia narrativa”.

Os relatos bíblicos nos revelam que Deus dirige a história. Para isso se serve de pessoas eleitas. Cada vez que há um acontecimento importante na história da salvação, ali aparece um homem ou uma mulher como mediadores da obra de Deus ou transmissores de sua vontade.

O acontecimento mais importante da história da salvação é o Nascimento do Filho de Deus. Para “fazer-se homem”, Deus precisava de uma família. O nome de José está profundamente ligado ao mistério de Jesus. E se o anjo é um sinal de que Deus se faz presente na vida de uma pessoa para comunicar-lhe algum de seus desígnios, Deus mesmo se fez presente a José, por meio de seu anjo. Segundo o evangelho de Mateus, José é a pessoa a quem primeiro lhe é revelado o mistério que sua esposa guardava em seu ventre.

Quantas coisas acontecem envolvidas pela noite e pelo mistério!

Enquanto o agricultor dorme, na noite rompe-se a casca e cresce a semente lançada na escura terra, acompanhada de renovadas expectativas e esperança.

Tudo começa na noite: na noite dos pensamentos, dos corações, das intenções, das esperas, dos encontros.

Eis o mistério, eis a noite! A noite, a nossa noite, é habitada por Aquele que vem.

Até na noite da desolação, na solidão, no deserto, é possível encontrá-Lo.

Deus revelou seus planos a S. José através dos “sonhos”, que na Bíblia eram considerados como um dos meios pelos quais Deus manifestava sua vontade; hoje Deus manifesta seus planos através dos “sinais dos tempos”, que não se centram no sonho, mas na vigilância.

Contemplando a noite de José, nosso coração se alarga até o assombro, nossos braços se abrem para a acolhida, nossos olhos se aquecem ao reconhecer Àquele que vem e na brisa pronuncia o nosso nome. Nas sombras da vida Ele se faz encontrar, na solidão revela sua presença, na fragilidade mostra seu rosto.

O mistério da Encarnação de Jesus, sem dúvida, significou também “a paixão vivida por José, esposo de Maria”. Momentos de angústia, de dúvida; momentos de obscuridade em seu coração; momentos de pura fé na palavra de Deus.

José, assim como Maria, vai além da lógica e das condições humanas; também ele termina se apresentando como “o servo do Senhor”, dizendo em seu coração: “faça-se em mim segundo tua palavra”.

Como a Maria, Deus também diz a José: “Não tenhas medo de receber Maria como tua esposa”.

Há homens que são importantes não pelo que fazem, mas pelo que são no coração. Há homens que são grandes não por suas grandes ideias, mas por acolher a lógica de Deus, que quebra toda lógica humana. José foi o homem humilde como carpinteiro de um povoado; mas José foi grande por ser o “homem da fé”.

Em São José, a obediência se situa entre o escutar e o ver. Dizer “obediência” (de ob-audire) é afirmar a capacidade-dever de “escutar” humildemente a todos e a tudo. A obediência “é uma narração conjunta com Deus, daquilo que alguém via, ouvia e entendia, mais que uma submissão da vontade”.

Do que foi dito, se conclui que a mística da obediência não é a mística da submissão, senão que, como em José, é a mística da responsabilidade; responsabilidade que questiona a liberdade, não a que se fecha sobre si mesma, mas “em relação” que, para ser tal, deve evitar a unilateralidade da “escuta”.

Deus é encontrado, não na estrada suntuosa do domínio e do triunfo, mas na estrada do desapego, da doação, do despojamento e da fragilidade. Para entrar em sintonia com sua Vontade e deixar-se conduzir pelo seu Anjo, não é preciso estar coberto de títulos honoríficos, nem envolto pelo manto de obras realiza-das; é preciso, isto sim, ser como José, sem títulos e sem riquezas, mas justo e humano, como o seu Filho que “não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida”.

Como costuma acontecer com todas aquelas pessoas às quais lhes são confiadas missões importantes, José é um homem discreto. Sua presença é silenciosa. Na relação de José com Jesus, poderíamos aplicar a ele estas palavras: “é preciso que ele (Jesus) cresça e que eu diminua” (Jo 3,30).

Não podemos entender a presença de José em função de si mesmo, mas a serviço de Jesus e de seu mistério. Saber estar em função de outro não é fácil, mas é um dos modos mais belos de amar. O silêncio de José não tem nada de ingênuo. É o silêncio daquele que escuta atentamente para assim poder servir melhor.

José, “homem justo”: para alguns o têrmo é sinônimo de “delicadeza ou piedade”, para outros signi-fica “respeito, reverência” em relação ao mistério de Maria; para outros ainda, é um título jurídico, ou seja, “obediente à lei”.  Sabemos que o “Justo” por excelência é Deus, fiel à Aliança e que, com constância, continua seu projeto salvífico, apesar das rupturas provocadas pela infidelidade humana.

José e “justo” porque se ajusta ao modo de agir surpreendente de Deus. É “justo” porque se abre para o infinito, inspirando-se em Deus mesmo, o Justo; à justiça exterior, farisaica, ele opõe a justiça da fé e do coração. Portanto, o termo justo quer indicar a abertura e a adesão à ação suprema de Deus.

 

Nesse sentido, José se coloca na linha das grandes figuras da história da salvação. Sua vida é um exemplo de silenciosa dedicação ao Reino.

Este José é hoje o homem do discernimento, e nos alegramos que ele tenha se mantido firme e mudado seus critérios para estar a serviço da Vida. Também nós somos “josés” em tempos de obscuridades. Também nós, algumas vezes, nos encontramos em momentos de obscuridade, marcados por dúvidas e crises, pensando em fugir, abandonar a missão. É normal que, ao adentrar-nos em nosso próprio mistério, nos encontremos com nossos medos e preocupações, nossas feridas e tristezas, nossa mediocridade e incoerência.

Mas Deus quer atuar em nós e através de nós; Ele sempre conta conosco para uma nobre missão.

Não devemos nos inquietar, mas permanecer no silêncio. A presença amistosa, que está no mais íntimo de nós, irá nos pacificando, libertando e sanando.

Este mistério último da vida é um mistério de bondade, de perdão e salvação, que está em nós: dentro de todos e cada um de nós. Se o acolhemos em silêncio, conheceremos a alegria de viver.

Na vida, há muitos momentos nos quais só cabe o silêncio, em vez do alvoroço, só cabe a serenidade, em vez da precipitação; cabe a nós renunciar aos nossos próprios critérios e esperar que Deus fale.

Isso pede de nós confiança total, muitas vezes sem compreender nem conhecer o “por quê e o como”; o decisivo é “deixar-nos fazer” por Deus, deixar-nos conduzir por Aquele que, a partir do mais profundo de nós mesmos, abre um horizonte de sentido e de surpresas.

Aprendamos de José a abrir nosso interior e deixar-nos surpreender por Deus.

Textos bíblicos: Mt 1,18-24; Lc 12,54-59; Is 50,4-11

Na oração:

Deus nunca deixa de atuar no meio das nossas noites, dúvidas, provações. Ele conhece nossos pensamentos e temores. E, no momento certo, nos liberta dos  nossos medos e nos dá a conhecer sua Vontade.

- Recordar momentos de dúvidas, incertezas, desolações..., mas que lhe ajudaram a amadurecer na fé e na adesão ao projeto de Deus.

- Diante de pequenas ou grandes decisões: há espaço e tempo de discernimento? de escuta atenta?

José na oficina de Nazaré

Texto 7 da série elaborada pelo pe. Adroaldo Palaoro, sj sobre a vida e missão de São José que poderá ser usada como subsídio para melhor viver o ano de São José (2021) decretado pelo Papa Francisco na Carta Apostólica "Patris Corde".

“Um aspeto que caracteriza São José é a sua relação com o trabalho. São José era um carpinteiro que trabalhou honestamente para garantir o sustento da sua família. Com ele, Jesus aprendeu o valor, a dignidade e a alegria do que significa comer o pão fruto do próprio trabalho”. (Papa Francisco – Patris Corde)

A oficina é esse espaço simbólico onde tudo é criado, concertado, refeito... A oficina é o lugar da re-criação, da criatividade. É ali onde os projetos se realizam. E ali está o labor e a criatividade do artesão.

O amor e a sagacidade criativa do artesão estão no refazer o que foi estragado, no encontrar saídas para resolver o difícil, para ajustar o desajustado. Na oficina entra a matéria informe e sai modelada, transformada. De certa maneira, uma oficina é um lugar onde o inútil se torna útil, o feio se torna formoso, o que estava quebrado consegue funcionar.

Uma especial sabedoria e bondade envolve o artesão. Para ele não há nada impossível. Está aliado, cordialmente aliado, com o material que cai em suas mãos e aliado com seus proprietários.

O artesão “passa fazendo o bem”. Poucas vezes tem tempo para dedicar-se ao que é especificamente “seu”, mas quando serve, faz “seu”, ou como se fosse seu, o que é dos outros. O artesão, por vocação, encontra na fadiga seu prazer; sabe-se e sente-se criador. Em qualquer lugar vai deixando sua marca. Encanta-lhe a obra bem feita e rejeita o serviço mal feito. O artesão é como o médico das coisas; sua oficina é como um hospital. A bondade de seu coração se materializa em tudo o que faz.

As necessidades das pessoas, suas legítimas urgências, não lhe deixam tempo nem para descansar. O artesão, que tem capacidade para a compaixão, rompe seus horários em favor dos que estão necessitados. O artesão cuida das pessoas da comunidade, de seu bem-estar.

E ele ensina o ofício a seu filho.

Por isso, a oficina é também escola; ali o carisma é transmitido. O filho, talvez não recorde quando começou a primeira lição, mas, pouco a pouco, vai familiarizando-se com o trabalho transformador. O pai vai lhe ensinando os pequenos segredos que tornam fácil o que parece difícil, que deixa sua assinatura única em tudo o que ele faz. O pai se converte em mestre, em transmissor de sabedoria, corrigindo, elogiando...

Os filhos diligentes estão em boas condições e em forma para superar o mestre; o pai nunca desaparecerá, pois seu espírito criativo impregnará a oficina.

Nazaré e sua oficina foi para Jesus uma parábola trinitária. José, o artesão que lhe ensinou e o treinou para fazer suas mesmas obras, era o símbolo vivento do Abbá. Maria era a presença inspiradora, a que mantinha viva a chama do amor e da criatividade, a que transformava a oficina em lar e em seio fecundo. Era ela o ícone vivente do Espírito. E Jesus, o aprendiz.

E ali, na oficina de Nazaré, Jesus se exercitou na Redenção. Não lhe foi difícil passar de “artesão de coisas” a “artesão da humanidade”, passar da “oficina de Nazaré” à “oficina do Evangelho”.

José, o artesão de Nazaré nos ensina o valor das coisas cotidianas quando são feitas com dedicação e carinho. Nesta “ocultação”, estava assumindo a condição da imensa maioria dos mortais deste mundo, dos homens e mulheres “comuns”, daqueles que vão trabalhar ou estão sem emprego, daqueles que precisam “ganhar a vida”, porque na vida não encontram seu lar, daqueles que são pura estatística...

Na sua vida em Nazaré, José nos convida a entrar na sua casa e em sua oficina para aprender d’Ele e com ele os valores próprios de uma família trabalhadora.

Nazaré é o sinal da “epifania” de Deus nas pequenas coisas, é o sinal da palavra divina escondida nas vestes humildes da vida simples, é o sinal do sorriso de Deus que se faz visível nos espaços comunitários.

A “vida em Nazaré, coloca em evidência nossas motivações e nossos valores mais profundos.

É a importância do não importante.  O importante é ser significativo e não importante! É preciso atenção com os critérios do mundo que busca os primeiros lugares, o poder, a fama, a eficácia acima de tudo, o trabalho explorador...

Não é o trabalho que nos faz importantes, mas somos nós que fazemos qualquer trabalho ser importante, quando ele é realizado na perspectiva do Reino de Deus. Todo trabalho é nobre, seja ele o de cinzelar estátuas ou o de esfregar o chão.

É o sentido que damos à nossa vida e à nossa ação que fazem com que estas sejam significativas ou não.

Na escola da vida, todos somos aprendizes.

Precisamos alimentar uma outra relação com o trabalho no sentido de assumi-lo como cooperação com o Deus trabalhador e com tantas pessoas tocadas pela sua graça. Uma relação que permita nos distanciar das

cargas, ativismos, tarefas estressantes... e viver o trabalho com humor e criatividade.

Uma relação que nos ajude a desfrutar do trabalho, apesar da sua intensidade.

Poderíamos assumir um tipo de trabalho mais semelhante ao do artista, que se esmera em sua peça musical, literária ou pictórica, mas que se enriquece e se expande na sua obra.

Por meio do trabalho poderemos conhecer nossa própria interioridade projetada sobre a obra e, ao mesmo tempo, a obra realizada torna-se o espelho do nosso próprio rosto; contemplar-nos a nós mesmos no trabalho realizado e, com júbilo, podermos exclamar como o Criador: “E viu que era bom!”

O fundamento do ser humano não é o seu trabalho, sempre limitado e pobre, mas o amor criativo e redentor  de Deus que se expressa em seu trabalho. O ser humano “é criado... e é criativo”; ele se realiza no trabalho e Deus pôs a Criação nas mãos d’ele para que a aperfeiçoasse e a levasse à plenitude. É no trabalho que a pessoa encontra o sentido de sua vida e o modo de colaborar com o bem-comum.

A presença de Deus no mundo é ativa e dinâmica: Deus ama atuando em nossa história. Tudo está sendo construído e reconstruído por Deus. Deus trabalha em todas as coisas. Ele é a força inesgotável de onde brota todo o trabalho do mundo. Deus continua fazendo tudo novo.

Diante do “Deus trabalhador”  o ser humano responde com um trabalho criativo; ele se sente chamado a trabalhar a serviço do Senhor, para sua maior glória.

Assim, aquele trabalho pesado, arrastado, sem muito sentido... de repente fica leve, transparente e carregado de utopia. Deixa de ser “tri-palus” (instrumento de tortura) para ser “poiesis” (poesia), ou seja, ação criativa, entusiasmo criador, inspiração, intuição...

Trabalho que se faz com amor; trabalhar com a mesma intenção de Deus;  trabalhar com Deus na mesma direção, fazendo as mesmas obras que Deus está  fazendo, ou seja, aperfeiçoando a Criação.

Nesse sentido, o melhor seria chamar o trabalho de “labor”, e o ato de trabalhar de “elaborar”.

O ser humano se elabora como tal, ao mesmo tempo que elabora a natureza. Ele luta, cansa-se, afadiga-se, esforça-se, esmera-se... mas o trabalho o rejuvenesce, ativa-lhe energia e entusiasmo, alegra-se com o fruto...

Ele vive e delicia-se do e com seu trabalho.

Evangelizar o mundo do trabalho significa escutar o Criador que nos convida mais à fecundidade (criatividade) do que à eficácia. Convém não confundir uma com outra. Enquanto a eficácia quebra as pessoas e não respeita as comunidades, a fecundidade/criatividade acomoda-se aos ritmos naturais e faz crescer a comunidade.

“Sede fecundos!”, é o convite do Criador que continua ressoando em nosso interior.

Textos bíblicos: Gen 1; Jo 5,15-20; Mt 20,1-16; Mc 6,1-6; 2Tes 3,6-12

Na oração:

Dar sentido de amor e profundidade ao trabalho; através do trabalho, servir a Deus por puro amor;

- Ser contemplativo na ação: o trabalho como lugar do encontro  com Deus.

* Como é a seu trabalho cotidiano: rotina e repetição ou desafio e criação?

* Seu serviço na Igreja: ativismo ou “ação discernida”? “tarefismo” ou “co-labor” (trabalhar com...)?

terça-feira, 25 de maio de 2021

José, o Santo do cotidiano inspirador

Texto 6 da série elaborada pelo pe. Adroaldo Palaoro, sj sobre a vida e missão de São José que poderá ser usada como subsídio para melhor viver o ano de São José (2021) decretado pelo Papa Francisco na Carta Apostólica "Patris Corde".

“Todos podem encontrar em São José – o homem que passa despercebido, o homem da presença quotidiana discreta e escondida – um intercessor, um amparo e uma guia nos momentos de dificuldade. São José lembra-nos que todos aqueles que estão, aparentemente, escondidos ou em segundo plano, têm um protagonismo sem paralelo na história da salvação. A todos eles, dirijo uma palavra de reconhecimento e gratidão” (Papa Francisco – Patris Corde)

 

Quando falamos da figura de São José, muitas vezes nos limitamos a afirmar que temos pouquíssimo dados sobre ele nos evangelhos. Mas, sob outra perspectiva, podemos afirmar que temos muitíssimos dados sobre José, todos revelados pelo seu próprio filho, Jesus de Nazaré. Na realidade, quem modelou a natureza humana de Jesus, foi José, da casa de Davi.

Na verdade, lendo o Evangelho como um todo podemos encontrar, com facilidade, uma descrição muito aproximada de quem era José. Quem, senão José, poderia ensinar a Jesus tudo o que conhecia sobre o campo, as colheitas, o tempo, as aves e o mundo que os rodeava? Quem, senão José, poderia ensinar Jesus a tratar as pessoas, a servir o seu próximo, a olhar, a falar, a sorrir...?

Em cada gesto de Jesus, revelava-se um ensinamento do Pai e de seu pai José; em cada parábola havia uma expressão da natureza e da terra com o selo de José, e uma mensagem espiritual inspirada a partir do alto. Em cada cura que Jesus realizava havia um modo e uma sensibilidade de tratar o enfermo, o desvalido, herdados da tradição mantida por José; e à hora de orar havia um hábito criado na casa de seu pai, fiel cumpridor da lei mosaica e aberto à novidade e ao mistério que seu filho Jesus deixava transparecer.

Podemos dizer que o aparente vazio da paternidade legal de José revela, na verdade, plenitude e grandeza.

Foi na escola cotidiana da família de Nazaré, que Jesus foi se humanizando: “Ele crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e diante dos homens” (Lc 2,52)

Nazaré é, em certo sentido, a apologética do cotidiano, das horas, dos meses, dos anos escondidos, da vida tranquila, provinciana, não-escrita, de uma família simples e iluminada.

Essa atenção à simplicidade do cotidiano, à natureza da Galileia, à mensagem que Deus esconde nos corações das pessoas, nas coisas, nas horas…, é uma constante na vida e na família de José. Nazaré é o sinal da epifania de Deus nas pequenas coisas, é o sinal da palavra divina escondida nas vestes humildes da vida simples e familiar, é o sinal da presença graciosa de Deus em todas as casas.

Custa-nos muito descobrir a “espiritualidade da vida cotidiana”, a vida de cada dia nos parece sem sentido, sem muito destaque e sem muitos fatos extraordinários; temos ainda muito que aprender da vida cotidiana do artesão de Nazaré.

Precisamente a vida cotidiana é o lugar privilegiado para descobrir Deus (“por onde passa meu Senhor?”), sentir o sabor da Sua presença que permanece. Os lugares cotidianos são “lugares sagrados” de encontro com o Senhor da Vida.

Encontrar a Deus no cotidiano significa que é preciso viver em um contexto vital no qual cada um se sinta estimulado a tomar decisões, a assumir responsabilidades, grandes e pequenas, a cuidar pessoalmente dos processos concretos da vida de cada dia.

É vital descobrir se nossa vida cotidiana é egocêntrica ou excêntrica, se tem a marca da “cultura do encontro” ou da “cultura da indiferença”, se a missão de nossa vida nos projeta para o compromisso com o outro, se temos paixão pelo Evangelho encarnado nos ambientes onde nos fazemos presentes cotidianamente.

O ritmo da sociedade atual e, sobretudo, o culto à novidade, ao efêmero, ao superficial, ao consumismo, pede de nós recuperar a dimensão de profundidade em nossa vida cotidiana.

Estamos mergulhados numa cultura onde, normalmente, o cotidiano é rotineiro, convencional, repetitivo, e, não raro, carregado de desencanto. Fechado em si mesmo o cotidiano torna-se pesado, desinteressado e frustrado. Geralmente não nos damos conta de que estamos envolvidos pelo cotidiano.

Na maioria das vezes, o cotidiano resume-se num fazer tão “normal” que, por causa dele, fazemos coisas que não faríamos se pudéssemos tomar distância e refletir a respeito do que estamos fazendo. Vivemos uma quantidade de experiências rápidas, amontoadas, sem possibilidade de avaliação... e vamos perdendo, pouco a pouco, a história pessoal e comunitária.

A existência inteira faz-se maquinal e rotineira: é a soma das horas, dos dias, dos anos...

Na vida cotidiana, as pessoas correm o risco de serem apenas imitadoras ou repetidoras, pois temem se perderem na busca do novo; as respostas são confirmadas, mesmo que estas estejam velhas e desfocadas e as perguntas são silenciadas. A maioria das pessoas vive restrita ao cotidiano com o anonimato que ele envolve.

No entanto, as grandes histórias são tecidas na trama do cotidiano; os “tempos” de Deus não são os da eficácia, da produção, do ritmo estressante... Também são os tempos do silêncio, da rotina inspirada e da aprendizagem silenciosa. Todo crescimento pessoal demanda previamente tempo, ritmo, reconhecimento e aceitação da própria verdade, sólidos fundamentos sobre os quais podemos construir nossa pessoa.

É a “mística” que nos desperta da letargia do cotidiano. E despertos, descobriremos que o cotidiano guarda segredos, novidades, energias ocultas, forças criativas... que sempre podem sempre conferir novo sentido e brilho à vida. O Reino também se revela no pequeno, no anônimo, no despojamento.

É o cotidiano que nos prepara para as grandes decisões. É a fidelidade ao cotidiano que possibilita a transformação da realidade; é o cotidiano que abre espaço à ação do Espírito para que Ele nos expanda, nos alargue e nos impulsione em direção a uma nova vida.

A realidade cotidiana da nossa Nazaré é o lugar onde somos chamados a viver a espiritualidade cristã e a deixar-nos conduzir pelo mesmo Espírito que animou a família de Nazaré e a levou a inserir-se na trama humana e a assumir o risco da história. Inspirados na pessoa de São José, inseridos no mundo, em meio às agitações cotidianas, somos chamados a prolongar em nós os atributos josefinos: escuta, silêncio, trabalho, cuidado, acolhida, sensibilidade, bondade, vivência da fé, paternidade, sintonia com o Deus Providente...

A espiritualidade cristã é a espiritualidade do cotidiano, que conserva sua força transformadora, que é capaz de despertar o espanto e a admiração, apontando sempre para um horizonte mais amplo e mais rico;

é a espiritualidade que reacende desejos e sonhos novos, que suscita energias em direção ao mais; é a espiritualidade que faz descobrir, escondida no cotidiano, uma Presença absoluta que nos envolve; é a espiritualidade que faz saborear o eterno e o Absoluto no ritmo doméstico e cotidiano da vida...; é a espiritualidade que projeta a vida a cada instante.

Textos bíblicos: Lc 2,41-52; Ex 3,1-10; Lc 10,38-42

Na oração:

A vida cotidiana exige não apenas fidelidade, mas também amor, gratuidade. É o lugar que inspira a viver encontros com a marca da surpresa, da acolhida do diferente, do respeito ao outro...

- Como é o seu cotidiano? rotina e repetição ou desafio e criação? Espaço de encontros inspiradores ou alimentador da indiferença? Nele há lugar para a esperança e o novo?

- Suas atividades diárias formam parte do seu caminho para Deus? Você tem consciência que cada dia é um  “tempo de graça”? Você “apalpa” a presença de Deus nas “rotinas diárias”?


José de Nazaré, o homem de ternura e do cuidado amoroso

Texto 5 da série elaborada pelo pe. Adroaldo Palaoro, sj sobre a vida e missão de São José que poderá ser usada como subsídio para melhor viver o ano de São José (2021) decretado pelo Papa Francisco na Carta Apostólica "Patris Corde".

“Jesus viu a ternura de Deus em José: «Como um pai se compadece dos filhos, assim o Senhor Se compadece dos que O temem» (Sal 103, 13).Com certeza, José terá ouvido ressoar na sinagoga, durante a oração dos Salmos, que o Deus de Israel é um Deus de ternura, que é bom para com todos e «a sua ternura repassa todas as suas obras» (Sal 145, 9)” (Papa Franciscon – Patris Corde)

 

Com a carta apostólica “Patris Corde” (com coração de pai), o Papa Francisco lança uma nova luz sobre São José, revelando-o inspirador de muitas pessoas que, trabalhando no silêncio, longe dos focos e câmeras, estão escrevendo os acontecimentos decisivos da história. Como S. José, o Papa define estas pessoas como aparentemente ocultas ou na “segunda fila” no cenário da história, mas são presenças que fazem a diferença, pois assumem a fragilidade dos outros, curando as feridas existenciais, com atitudes acolhedores sobre as pessoas, deixando transparecer em seu olhar a ternura e o cuidado de Deus, Pai-Mãe providente.

Ao falar de S. José, o Papa nos desperta para que estejamos conscientes de que nossa vida está tecida e sustentada por pessoas normalmente esquecidas, ocultas e que, a partir de posições aparentemente de segunda linha, manifestam um protagonismo sem igual na história da salvação, através de gestos que sabem dizer aos cansados, aos humilhados e excluídos, aos sem voz: “estou contigo, acolho seu sofrimento, tua solidão, tua busca da vida; sou sensível às tuas lágrimas e à tua fragilidade; não há nada em ti que me deixe indiferente”. São pessoas que, através do cuidado compassivo, se fazem próximas e solidárias da condição humana de cada um de nós.

Recuperar o sentido da ternura exige de nós contemplar a vivência da ternura de José de Nazaré, e não só como um mero modelo ético de atuação, senão em sua profunda intimidade e filiação referida a um Deus materno cujas entranhas se estremecem e sente ternura por seus filhos e filhas.

A ternura emerge assim como algo que é, antes de mais nada, próprio de Deus, e Deus, como Aquele que instaura o primeiro movimento de ternura para com a realidade, como a relação que une Àquele que dá o ser com aquele que o recebe (Criador e criatura).

O coração de Deus é o de um Deus com “entranhas de ternura”, entranhas que se comovem e que o fazem sair e transbordar-se como amor terno sobre a história e sobre a humanidade.

Ou seja, antes de mais nada, há uma ternura divina que se adentra como Amor absoluto de Deus nas fibras do ser humano. À imagem desse Deus de ternura fomos criados como seres capazes e necessitados de ternura. Uma ternura que não será senão um pálido reflexo dessa “forma suprema de ternura” que é o Amor de Deus, que se aproxima da realidade humana como Ternura amorosa.

Contemplando a pessoa de São José, podemos também descobrir que nosso Deus é um Deus de ternura.

Só quem experimentou a ternura de Deus se sabe possuidor de uma “segunda pele” que certamente o faz mais vulnerável, mas ao mesmo tempo mais humano, ou ao menos, mais apto para penetrar no secreto de uma humanidade capaz de sentimento e estremecimento até os limites não imaginados. Nele pulsa o coração de Deus que se sintoniza com a pulsação do coração do mundo.

Com razão afirmava Abrahán Heschel, que “o grau de sensibilidade diante do sofrimento humano indica o grau de humanidade que temos atingido”. E é a ternura aquela que desperta em nós essa sensibilidade e mede, por isso, o grau de humanidade alcançado.

A ternura é o afeto que devotamos às pessoas e o cuidado que aplicamos às situações existenciais marcadas pela fragilidade. É uma proximidade que se revela como intuição, vê fundo e estabelece comunhão.

A ternura brota quando a pessoa se descentra de si mesma, sai na direção do outro, sente o outro como outro, participa da sua existência, deixa-se tocar pela sua história de vida.

Esse sentimento é um modo de ser existencial que afeta todas as dimensões da pessoa.

A expressão por excelência da ternura é o carinho, onde se acentua a proximidade física e o respeito ao outro. O carinho em certas situações é a melhor forma de comunicação não-verbal.

Ele revela cuidado solícito, manifesta sensibilidade através do contato físico, expressa-se como gesto sensível que quer acolher a pessoa como tal.

A ternura é impulso íntimo e comunicacional, é forma de viver e de conviver, circula entre as pessoas, sustenta novas relações, é valor original que se irradia como verdade. A ternura se expressa como acolhida de quem é frágil e não se cansa de amar.

 

Forte é a ternura que permanece resistente.

A ternura revela lucidez, firmeza e tenacidade. Não se deve confundir ternura com emocionalismo.

A ternura possui fibra e sustenta causas justas. A ternura mantém fidelidade às pessoas e assume posições sérias. A verdadeira ternura é destemida, não se amedronta e sustenta a verdade, é corajosa, não compactua com a violência, a crueldade, a exclusão. A ternura pode e deve conviver com o extremo empenho por uma causa: “hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás” (Che Guevara).

A ternura emerge do próprio ato de existir no mundo com os outros

A ternura mantém a reciprocidade com o diálogo, a afetividade, a compreensão, a amizade, o respeito, o direito, a solidariedade; ela é aberta, não se fecha, ajuda o mundo a ser humano e não selvagem, é alegre e não triste, pacífica e não belicosa, justa e não legalista, limpa e não contaminada. Assim, a ternura ética preserva a humanidade, ventilada pelo sopro da dignidade. A ternura leva a pessoa a sentir-se gente.

A ternura vital é sinônimo de cuidado essencial. O exercício da ternura é fundamental para desenvolver atos de cuidado. O cuidado faz o ser humano aberto, sensível, solidário, cordial e conectado com tudo e com todos no universo. Sem o cuidado o humano se faria inumano.

O cuidado vive do amor primordial, pois o amor é a expressão mais alta do cuidado; tudo o que amamos também cuidamos e tudo o que cuidamos é um sinal de que também amamos.

O cuidado abre-nos caminho para viver, com mais intensidade, nossa humanidade. E viver “humanamente” significa viver em vulnerabilidade.

A arte do cuidado confere a cada um a capacidade de exercer a paternidade-maternidade espiritual; cuidar é sentir o outro, é verdadeiramente escutar, é ter um olhar desarmado, eliminando todo preconceito. Cuidar é dar atenção com ternura, isto é, descentrar-se de si mesmo e sair em direção do outro, participando de sua existência; é esvaziamento de si mesmo para deixar o mistério da fragilidade do outro, que também traz em si, encontrar abrigo no coração.

Cuidar é entrar em sintonia com... Disso emerge a dimensão de alteridade, de respeito, de sacralidade...

Quem não aceita a própria vulnerabilidade e inter-dependência não desenvolve atitudes de cuidado. Quem não aceita ser cuidado, também não está disposto a cuidar dos outros. Somos educados para sermos “super-homens” ou “super-mulheres”; aprendemos a não admitir e a não aceitar o limite, a vulnerabilidade, o fracasso... O ser humano é finito, portanto vulnerável. Ele não se basta a si mesmo; necessita de relações com o seu meio, com os seus semelhantes e com o Transcendente, dando sentido à sua existência.

 

Isto significa que o cuidado faz parte da constituição do ser humano. É um “modo-de-ser” singular do homem e da mulher. Fomos criados à imagem e semelhança do “Deus cuidador e providente”.

Cuidar é mais que um ato; é uma atitude “kenótica”, porque exige o esvaziamento de nós mesmos para deixar o mistério do outro encontrar abrigo em nosso coração.

O cuidado se encontra na raiz primeira do ser humano, é um “modo-de-ser essencial” de cada pessoa.

É uma dimensão fontal, originária, primeira, impossível de ser totalmente esvaziada.

Por isso, para além do “ter cuidado”, “somos cuidado”; é da nossa essência, ou seja, no cuidado vamos construindo nosso próprio ser, nossa autocons-ciência e nossa própria identidade.

Textos bíblicos:

Is 49,8-26; Os 11; Mt 6,25-34; Mt 5,43-48

Na oração:  

Quem já foi afetado por um olhar de uma pessoa pobre ou sofredora, e deixou que este olhar penetrasse no fundo do seu coração, sabe que não sai “ileso” desta experiência; algo mudou dentro de si: a ternura é despertada e o cuidado é mobilizado.

O modo-de-ser-ternura e cuidado de São José se prolonga em nós, no encontro com as pessoas.

- Pedir a graça de sentir a ternura, o carinho, a proteção das mãos benditas e providentes de São José.

Alargar o coração, para que aí a ternura de Deus possa fazer morada.