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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Revisão de Vida Comunitária 2019

Na quinta-feira, dia 05 de dezembro de 2019, a CVX Amar e Servir realizou sua Revisão de Vida anual, momento ímpar de reflexão, conscientização, partilha e decisão de uma Comunidade de Vida Cristã.

REVISÃO DE VIDA COMUNITÁRIA 2019 – CVX AMAR E SERVIR

INTRODUÇÃO – Músicas de Taizé

Imaginando a Cristo nosso Senhor diante de mim e pregado na cruz, fazer um colóquio: como de Criador veio a fazer-se homem, e de vida eterna a morte temporal, e assim a morrer por meus pecados. E, assim em colóquio, interrogar-me a mim mesmo: o que tenho feito por Cristo, o que faço por Cristo, o que devo fazer por Cristo [...](EE 53)
O colóquio faz-se, propriamente, falando, assim como um amigo fala a outro [...], ora pedindo alguma graça, ora confessando-se culpado por algum mal feito, ora comunicando as suas coisas e querendo conselho nelas. [...] (EE 54)

Em nível de ORAÇÃO
- Como anda a minha vida de oração pessoal?
- Como anda a oração comunitária?

Em nível APOSTÓLICO
- Como está para mim a questão da missão?

Evangelho de São Lucas 13, 6-9
6Disse-lhes, também, a seguinte parábola: “Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha e foi lá procurar frutos, mas não os encontrou.  7Disse ao encarregado da vinha: ‘Há três anos que venho procurar fruto nesta figueira e não o encontro.  Corta-a! Para que está ela a ocupar a terra?’ 8Mas ele respondeu: ‘Senhor, deixa-a mais este ano, para que eu possa escavar a terra em volta e deitar-lhe estrume. 9Se ser frutos na próxima estação, ficará; senão, poderás cortá-la!’”

Em nível PESSOAL
- Como tem sido a minha participação no grupo?
- O que me motiva, atualmente, no grupo?

Em nível GRUPAL
- Temos crescido como comunidade?
- Qual o eixo da nossa comunidade hoje, o que prevalece como fator de unidade do grupo?
- Em que precisamos crescer mais?




segunda-feira, 27 de maio de 2019

Eva e Maria

Compartilhamos um reflexão usado em nossa última reunião do Mês de Maio:



Feita pela irmã Grace Remington, da Abadia do Mississip, esta obra chama-se “Eve and Mary” e retrata as duas mulheres – concebidas sem o pecado original – em uma cena bem feminina: a mãe da humanidade natural (Eva) e a mãe da humanidade redimida segundo a Graça (Maria). Alguns detalhes fazem desta obra um exemplo de simplicidade e reflexão.

1) A Virgem Maria toca levemente o rosto de Eva, consolando-a. Sorridente, longe de demonstrar soberba, mostra misericórdia por Eva.  Enquanto Eva, entristecida, segura em uma das mãos a maçã (o fruto proibido, a condenação), com a outra toca o fruto do ventre de Maria (o fruto sagrado, a salvação).

2) A serpente, enroscada na perna de Eva, é pisada, na cabeça, pela Virgem Maria. A mesma que enganou Eva no Paraíso, é derrotada por Maria.

Se por uma mulher (Eva) veio o pecado ao Mundo, por outra (Maria) veio a Salvação.
Que pela intercessão de Virgem Maria possamos ser introduzidos no mistério da redenção misericordiosa de Deus
.

Após as reflexões e partilhas, finalizamos com a seguinte oração: 

Oração à Nossa Senhora, Mãe da Libertação

Mãe do Amor, faça-nos viver o amor: amar ao nosso Deus e aos nossos irmãos.
Mãe da Esperança, faça-nos viver cheios de esperança e ser esperança para os que encontramos no caminho!
Mãe da Justiça, livra-nos dessa tendência para julgar facilmente e faça-nos encontrar a justiça em nosso mundo!
Mãe do Silêncio, ensina-nos que o silêncio é terra fecunda em que a palavra pode renovar e transformar!
Mãe da Verdade, faça-nos coerentes, transparentes, libertos da hipocrisia e da mentira.
Mãe da Vida, livra-nos da morte do pecado, do egoísmo, ressuscita-nos para o essencial, para o SIM.
Mãe da Libertação, liberta-nos do nosso eu pequeno, dos horizontes estreitos e confinados, para que nos constituamos o povo livre que constrói o Reino de Deus.
Amém!

domingo, 3 de junho de 2018

Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate - Capítulo 1

Na reunião do dia 29/05/2018, a CVX Amar e Servir iniciou a reflexão e partilha da Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (GE), do Papa Francisco. A exortação tem foco nos desafios de ser santos no mundo atual, com indicações sobre como viver a santidade - um chamado que é para todos - em um mundo que apresenta tantos desafios à fé.

A reflexão seguirá a divisão do texto da exortação em capítulos. Nessa primeira reunião, refletimos e partilhamos o Capítulo 1 - O chamado à Santidade. Esse capítulo apresenta os seguintes subtemas:
Os santos que nos encorajam e acompanham [3-5]
Os santos ao pé da porta [6-9]
O Senhor chama [10-13]
A ti também [14-18]
A tua missão em Cristo [19-24]
A atividade que santifica [25-31]
Mais vivos, mais humanos [32-34]

Foram destacados os seguintes pontos fortes na reflexão:

-- A comunidade deve ser vista e vivida como um caminho para a santidade: “O Senhor, na história da salvação, salvou um povo. Não há identidade plena, sem pertença a um povo. Por isso, ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo em conta a complexa rede de relações interpessoais que se estabelecem na comunidade humana: Deus quis entrar numa dinâmica popular, na dinâmica dum povo” (GE, 6)

-- O chamado à santidade é universal: “Mesmo fora da Igreja Católica e em áreas muito diferentes, o Espírito suscita ‘sinais da sua presença, que ajudam os próprios discípulos de Cristo’. E o ‘testemunho, dado por Cristo até ao derramamento do sangue, tornou-se patrimônio comum de católicos, ortodoxos, anglicanos e protestantes’. (GE, 9)”

-- Não focar nos ideais inatingíveis de santidade: “Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós. Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal” (GE, 11)

-- A santidade é um caminho singular, cada pessoa traça o seu itinerário a partir de um chamado particular que recebe de Deus: “Não se esgote procurando imitar algo que não foi pensado para ele [...] Há muitas formas existenciais de testemunho” (GE, 11)

-- Santificar-se na missão, na profissão, na vocação, nas ocupações: “Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra” (GE, 14)

-- Entregar-se por amor nas pequenas coisas, santifica-se nas vivências diárias: “Deixa que a graça do teu Batismo frutifique num caminho de santidade. Deixa que tudo esteja aberto a Deus e, para isso, opta por Ele, escolhe Deus sem cessar” (GE, 15)

-- A missão é o caminho para a santidade: “Para um cristão, não é possível imaginar a própria missão na terra, sem a conceber como um caminho de santidade” (GE, 19) E esse caminho faz-se no seguimento do Cristo.

-- Reproduzir na sua existência os traços do Cristo: “A medida da santidade é dada pela estatura que Cristo alcança em nós, desde quando, com a força do Espírito Santo, modelamos toda a nossa vida sobre a Sua” (GE, 21)

-- Santidade sim, perfeccionismo não: “Nem tudo o que um santo diz é plenamente fiel ao Evangelho, nem tudo o que faz é autêntico ou perfeito. O que devemos contemplar é o conjunto da sua vida” (GE, 22)

-- Vida e missão a serviço do Reino: “A tua identificação com Cristo e os seus desígnios requer o compromisso de construíres, com Ele, este Reino de amor, justiça e paz para todos” (GE, 25) ‘Não é que a vida tenha uma missão, mas a vida é uma missão’ (27)

-- Equilíbrio no uso das coisas para que haja espaço para Deus: “As novidades contínuas dos meios tecnológicos, o fascínio de viajar, as inúmeras ofertas de consumo, às vezes, não deixam espaços vazios onde ressoe a voz de Deus” (GE, 29)

-- Resumo: “Precisamos dum espírito de santidade que impregne tanto a solidão como o serviço, tanto a intimidade como a tarefa evangelizadora, para que cada instante seja expressão de amor doado sob o olhar do Senhor” (GE, 31); ‘A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da graça’ (GE, 34)

Os demais capítulos da Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate serão refletidos nas reuniões subsequentes, a partir das seguintes temáticas:
Capítulo 2 - Dois Inimigos sutis da santidade
Capítulo 3 - À luz do Mestre
Capítulo 4 - Algumas caraterísticas da santidade no mundo atual
Capítulo 5 - Luta, Vigilância e Discernimento

domingo, 6 de maio de 2018

10 anos de Comunidade

Este mês a CVX Amar e Servir está completando 10 anos de vida! Se as bodas também servem para celebrar a vida em comunidade, estamos celebrando Bodas de Estanho ou Zinco... Dois metais fortes para celebrar 10 anos de caminhada. Ontem tivemos um lindo almoço festivo, um momento de congraçamento da comunidade, de reecontrar pessoas que caminharam juntos, de celebrar a vida, o chamado, a vocação, a missão!


No encerramento tivemos uma leitura dramatizada que revelou talentos de montagem de roteiros e interpretação teatral nos membros da comunidade.

TEMPO
PERSONAGENS: ÉRIKA, GUILHERME e THAÍS

(ÉRIKA e GUILHERME estão caminhando e conversando e encontram THÁIS cabisbaixa)

ÉRIKA – O que aconteceu?
GUILHERME – Por que está tão triste?
THAÍS – Não estou triste, apenas pensativa. Ultimamente, sinto que me falta algo, mas não consigo saber exatamente o que é. (pausa) Mas também estou sem tempo para pensar nisto! (faz menção de ir embora, mas ÉRIKA e GUILHERME a detêm)
ÉRIKA – Espere! Vamos conversar um pouco sobre isto. Escute, como anda a sua vida profissional, pessoal...? Seus colegas de trabalho, sua família...está tudo certo?
THÁIS – Tudo certo!  Acho... (pausa) bom, também não tenho muito tempo para perguntar a cada pessoa que eu conheço como ela está!
GUILHERME – E a sua vida espiritual, como está?
THAÍS – Minha vida espiritual? Ora, também está ótima! Rezo todos os dias, frequento a igreja todos os domingos, sou dizimista...o que mais eu posso fazer?
ÉRIKA – Já tentou fazer os Cinco Passos Básicos dos Exercícios Espirituais?
THAÍS – Aquele baseado nos estudos de Santo Inácio? Li algo a respeito, mas sinceramente, ainda não tive tempo para saber mais sobre isto.
ÉRIKA – Pois deveria. De acordo com os Exercícios Espirituais, o Primeiro Passo é colocar-se na presença de Deus, tendo a firme convicção de que Deus está comigo, me ouvindo e me falando, relacionando-se comigo.
GUILHERME – O Segundo Passo é Pedir a Graça de Deus, dizendo o que quero e desejo, várias vezes, mas tendo a consciência de acolher, sempre, a vontade Dele.
THAÍS – (distraído) Sim, sim...interessante (afastando-se) olha, gostaria muito de escutar o resto destes exercícios, mas realmente...
(ÉRIKA e GUILHERME a detêm novamente)
GUILHERME – Espere, ainda não acabou! O Terceiro Passo é Meditar a Palava de Deus, refletindo sobre o texto bíblico, sem pressa e permitindo que a Palavra Dele faça aja em seu espírito .
ÉRIKA – o Quarto Passo é fazer um Colóquio com Deus, manifestando a Ele os seus verdadeiros sentimentos e pensamentos. E, por último...
THAÍS (murmurando) – Graças a Deus que é o último!
ÉRIKA (olhando para THAÍS) – Vou fingir que não escutei isto. Como eu estava dizendo, o Quinto e último passo é o Anotar, guardando em seu espírito as percepções mais significativas da sua oração. (pausa) E então, gostou?
THAÍS – Muito! Muito! (olhando o relógio) Bom, colegas, a conversa está boa, mas tenho que ir!
ÉRIKA e GUILHERME – Espere! Acho que sabemos qual é o seu problema!
THAÍS – Que bom! E qual é?
ÉRIKA – Falta de tempo para você! Quanto mais você se esforça para não perder tempo, mais o está perdendo! E o pior: está deixando de lado o mais importante!
THAÍS – O quê?
ÉRIKA – Os outros! Você não percebe que Deus também está nos outros? Nós somos o reflexo de Deus!
THAÍS – Mas o tempo...
ÉRIKA – O tempo está em nós, assim como está em Deus! Assim como está em algum colega de trabalho com problemas, algum membro da sua família que precisa da sua ajuda ou algum amigo seu que pode estar precisando de conselhos!
THÁIS – Eu...eu não tinha pensado nisto!
ÉRIKA e GUILHERME (juntos e rindo) – Talvez porque tenha lhe faltado tempo!
ÉRIKA – Tempo de partilhar!
GHILHERME – Tempo de viver!
ÉRIKA – Tempo de escutar!
GUILHERME – Tempo de refletir!
THAÍS – Mas como posso resolver isto então?
ÉRIKA e GUILHERME  abraçam THAÍS – Tendo uma vida em comunidade! Uma Comunidade de Vida Cristã!  
FIM

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Reuniões de Setembro: Mês da Bíblia

Durante o mês de setembro, a CVX Amar e Servir, atenta às oportunidades de mais conhecer e experimentar o amor de Deus para mais amá-lo e servi-lo, terá como tema de suas reuniões a 1ª Carta aos Tessalonicenses. Essa carta é recomendada para estudo pela Igreja no Brasil durante o mês da Bíblia este ano:

05/set Mês da Bíblia: 1Ts 1,2-10 - Identidade cristã: fé, esperança e amor

12/set Mês da Bíblia: 1Ts 4,9-12 - Edificação do trabalho como dignidade para a vida 

19/set Mês da Bíblia: 1Ts 4,13-5,11 - A vinda do Senhor e a crença na ressurreição

26/set Mês da Bíblia: 1Ts 5,12-22 - Comunidade cristã, vivida na alegria, em oração e no discernimento

Agosto: Mês das Vocações

O mês de agosto é comumente consagrado às vocações. A Igreja nos chama a refletir sobre o nosso chamado e a nossa missão no mundo. Atenta às oportunidades de mais conhecer e experimentar o amor de Deus para mais amá-lo e servi-lo, a CVX Amar e Servir – Regional Rio de Janeiro, realizou suas reuniões durante este mês de agosto para refletir sobre as seguintes vocações:

08/08/2017 - O chamado a ser família, tendo como base a Exortação Apostólica Amoris Laetitia 

15/08/2017 - O chamado a ser igreja, tendo como base a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium 

22/08/2017 - O chamado a ser gente: dignidade humana e direitos humanos, tendo como base o Compêndio da Doutrina Social da Igreja e um artigo de Inacio Strieder, A Bíblia  e a fundamentação ético-teológica dos direitos humanos.

29/08/2017 - O chamado a ser CVX, com a partilha e reflexão de depoimentos de membros de outras comunidades, que deram o seu testemunho a partir da pergunta: "Para você, o que é ser CVX?".


Ficamos muito felizes ao ouvir as colocações de outras pessoas que também vivem o carisma de ser CVX, seguindo os passos da Espiritualidade Inaciana para mais amar e servir o Deus da Vida. 

sábado, 26 de agosto de 2017

As Perguntas Inquietantes que nos Habitam

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 21º Domingo do Tempo Comum - Ano A.


“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15)

Já agradecemos alguma vez pelas perguntas que nos fizeram? Em um diálogo, as perguntas são a ponte entre as vozes, a confluência de corações, o brilho de luz compartilhada. Todas e cada uma delas nos fizeram crescer, mesmo aquela que parecia a mais trivial. Porque cada pergunta vem carregada de matizes, umas com carinho, outras de atenção ou de interesse, e, inclusive, algumas de desafio... Umas foram respondidas, outras não sabíamos como respondê-las, talvez nunca saberemos respondê-las...
A pedagogia de Jesus nos Evangelhos é feita de perguntas.
Jesus é um Deus que pergunta. São inúmeras as vezes em que Ele se aproxima das pessoas e as interroga. Desde o “quê buscais?” no início do evangelho de S. João, passando pelas perguntas na região de Cesaréia de Filipe, “quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”, “e vós, quem dizeis que eu sou?”, até à tríplice interpelação a Pedro, “tu me amas”?
Aquele que é a Verdade, o Caminho e a Vida, também se compõe de perguntas.

Jesus, com sua pedagogia fundada em perguntas, nos coloca diante do mistério de Sua vida e de Suas opções. Responder à pergunta “quem é Ele” é comprometer-se com Ele, é assumir o caminho d’Ele, é arriscar-se n’Ele.
Jesus aproxima-se das pessoas. Não procura convencer, argumentar, ou fazer seguidores à base de discur-sos. Suas perguntas ousadas colocam em crise visões distorcidas, falsas concepções e idéias pré-conce-bidas a respeito d’Ele. Com sua pergunta Jesus provoca uma radical decisão pró ou contra Ele, uma clara opção pró ou contra o Reino.
Um cristão que nunca tenha proposto seriamente esta questão a si mesmo, de uma maneira vital, não está maduro na maneira de viver o seguimento de Jesus Cristo.

Como cristãos nós nos definimos mais pelo perguntar do que pelo responder. “Perguntar” é buscar, é despertar a capacidade de nos deslumbrar diante deste mundo fenomenal que somos nós e diante desta realidade que nos circunda.
A espiritualidade cristã reacende em nós as grandes “interrogações existenciais”:  
“Quem somos nós? – Quê estamos fazendo? –
Por quê estamos fazendo? – Para quem estamos fazendo?...”
A índole interrogatória é traço típico da espiritualidade cristã; o perguntar é ousado; perguntar desafia, tem dose de irreverência; são perguntas de “conversão”, de mudança, que abrem para o futuro, para o novo. A pergunta é movimento, é vida... e suscita resposta viva, criativa, surpreendente... e inesgotável.
Não são perguntas para começar a caminhar, mas para reforçar nosso espírito de aventura e mobilizar nossos recursos interiores na busca do “sentido” de nossa identidade e da missão que realizamos.
Tais perguntas trazem à tona nossas motivações, nossas formas de agir, de amar e de sentir...
A busca é interior, o caminho é pessoal e coletivo, a resposta tem um toque de eleição comunitária.

Desde o início, ainda no paraíso, Deus buscou o ser humano com uma pergunta: “onde estás?”. Deus nos busca continuamente com suas perguntas. Nós somos resposta a essa pergunta primordial.
Igualmente, o ser humano é um amontoado de perguntas, é um ser que pergunta. Com pouco tempo de nascimento e quando vai se abrindo à aventura da vida começam suas perguntas: “por quê?”... uma infinidade de “por quês?”
Também somos uma pergunta que fazemos a Deus e esperamos resposta. Quantas gostaríamos de fazê-las a Deus? Mas a resposta só virá quando o nosso coração estiver preparado para escutá-la: sem medo, sem angústias, em atitude de espera e confiança.
“Sê paciente com tudo o que ainda não está resolvido em teu coração... Procura amar tuas próprias perguntas... Não busques as respostas que não podem ser dadas, porque não serias capaz de vivê-las. E é disto que se trata, de viver tudo. Vive agora as perguntas. Talvez assim, gradativamente, sem dar-te conta, possas algum dia viver as respostas” (Rainer Maria Rilke).

De fato, habitamos nas perguntas. Viver à escuta das interrogações nos mantém despertos no caminho.
São as perguntas que suscitam em nós o assombro frente à riqueza da realidade, a preocupação frente o drama da humanidade, a disposição frente ao futuro..., exigindo-nos assim viver continuamente numa atitude de escuta.

A mediocridade das respostas formatadas paralisa e fecha as portas às novas possibilidades. As perguntas, ao contrário, são o fio de ouro em meio ao cascalho que mobilizam o garimpeiro a buscar sem cansar. As respostas cortam o movimento, atrofiam a curiosidade, matam a criatividade e o espírito de aventura; elas impedem a mobilização dos recursos interiores da pessoa na construção do conhecimento, levando-a à apatia e à acomodação.
O momento é de tecer perguntas onde há mais respostas formatadas e fechadas.
Urge, pois, implementar e desenvolver hábitos, processos, que nos ajudem a sermos mais intuitivos através das perguntas que abrem acesso às reservas interiores de criatividade e imaginação, frente aos desafios cotidianos.

A pregunta “quem é Jesus” não pode ser respondida simplesmente com os dogmas.
A resposta deve ser prática, brotar do chão da vida. Nossa vida é a que tem que dizer quem é Jesus Cristo para nós. “Quê diz tua vida de mim?”
Do esforço dos primeiros séculos da Igreja por compreender a Jesus, devemos fazer nossas, não as respostas que deram, mas as perguntas que foram feitas.
A verdadeira pergunta é: “quê é, que significa Jesus Cristo em nossa vida?”  Não basta dizer que cremos em Jesus. É preciso nos perguntar: em quê Jesus cremos e quem é Jesus para nós?

Texto bíblico: Mt 16,13-20


Na oração:
-- Nosso coração se encontra diante da revelação do “eu original”, porque está enraizado na identidade do próprio Jesus (“quem sou eu para vocês?”).
-- A contemplação da pessoa de Jesus é também desvelamento do eu “escondido com Cristo em Deus” (Col 3), ou seja, revelação da verdade do eu, onde descobri-mos os traços de nossa própria fisionomia.
-- Não posso responder a essa pergunta – “Quem é Jesus para mim?” – se não me pergunto ao mesmo tempo: “Quem sou eu, diante do Senhor?” Sem identificação não haverá um encontro profundo com o Senhor.
-- O encontro comigo mesmo me aproxima do encontro com o Senhor e o encontro com o Senhor revela minha própria identidade.

domingo, 13 de agosto de 2017

Assumir nossas tormentas

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 19º Domingo do Tempo Comum - Ano A.


“A barca, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário” (Mt 14,24)

Poderíamos começar nossa reflexão sobre o Evangelho, indicado para a liturgia deste domingo, com estas inquietantes perguntas: “Que farias tu se não tivesses medo? Que faríamos nós, seguidores e seguidoras de Jesus, se não fôssemos afetados pelo medo?”
Chegamos à pós-modernidade com uma enorme carga de medo; somos atormentados o tempo todo pelo medo; um medo sem nome, um fantasma sem rosto, escuro como uma sombra e rápido como uma tempestade; medo cruel que afeta os corajosos e agride os ousados. Não existe depósito de munição mais potencialmente explosivo do que os estoques de medo guardados nas escuras profundezas do ser humano. Há um verdadeiro pânico permanente envolvendo grupos, pessoas e instituições.
Podemos afirmar que o centro dos evangelhos de Marcos e Mateus é uma espécie de relato de navegações e tormentas. Essa recordação de Jesus que acompanha seus amigos no barco e que “acalma” sua vida tormentosa (tormenta de dentro ou de fora?) está no fundo da tradição cristã.
O medo, a angústia, a insegurança , o espanto dos apóstolos, o não saber quê fazer na tormenta, é parte de nossa condição humana. Isso não nos faz menos pessoas, mas nos faz mais próximos, se somos simples e humildes.

Quando lemos com um pouco mais de atenção os capítulos centrais do Evangelho de Mateus passamos a ter convicção de que Jesus está continuamente “passando para outra margem” e convidando seus discípulos a fazerem o mesmo. Poderíamos dizer que o seguimento implica permanente travessia de uma margem à outra. Isto nos move a pensar que esta passagem não é geográfica; nesse deslocamento há algo mais profundo, ao menos um convite à não instalação. Nenhuma margem pode se converter em lugar de “parada”, todas são lugares de passagem.
Mateus realça que Jesus “forçou” os seus discípulos a entrarem na barca. Isto indica que não queriam ir embora e foi necessário obriga-los a se retirarem dali. Por quê? Sem dúvida, porque ao verem a oportunidade de que o Mestre se convertesse em rei, não queriam perder a ocasião de ter algo de poder, de vaidade, de prestígio. Compreende-se, assim, o mandato de Jesus a passar para a “outra margem”, a deixar de lado as solicitações do ter, do poder... para buscar o caminho do despojamento e da partilha.
A atualidade do relato é patente: quando os discípulos de Jesus não se contentam em ser o que são, mas buscam poder e prestígio, “faz-se noite”, não avançam, a tormenta se amplia, vêem em Jesus um fantasma que lhes dá medo, Pedro se afunda...
Seguir Jesus implica estar continuamente passando para a outra margem; passar para o outro diferente, não permanecer fechado em si mesmo. “Passar para o outro” como condição necessária para “passar para Deus”. Aquele que se instala, se perde, envolve-se na tormenta. É preciso buscar sempre novos espaços e novos horizontes. E toda travessia implica “correr riscos”.

Há momentos em que daríamos tudo por uma chance de pedir a Deus para não corrermos riscos. Mas o risco é necessário. É importante poder enfrentar as dificuldades, o desconhecido e o incerto.
As experiências obscuras, as tribulações, as tempestades... são inerentes à fé cristã; estão presentes em todas as pessoas. Mas isso deve nos permitir renovar constantemente uma confiança e uma união com o Senhor na realidade mais cotidiana.
Percebemos que algumas pessoas fazem opção pelo porto seguro das falsas certezas e seguranças , mas outros preferem correr o risco do “mar agitado” e são capazes de construir o novo. As tempestades, o vento contrário, a escuridão da noite... “agitam a alma dentro de nós”.
Mas como enfrentar as turbulências que são frequentes no nosso processo de amadurecimento?
A sensibilidade, a criatividade, o espírito de iniciativa são nossos maiores aliados.
Para desenvolver ao máximo nossas potencialidades, temos de enfrentar dilemas, encruzilhadas, perplexidades e responsabilidades. Isto nos faz mergulhar na vida, desenvolver nossas forças, ativar e despertar outras possibilidades escondidas no chão de nossa vida.
Na tradição inaciana “formar-se é provar-se”. Só aquele que é posto à prova em sua fé e em suas convicções, se forma, cresce e amadurece.
Com certeza, muitos de nós já tivemos a experiência de que, quando fomos capazes de superar nossos medos e tomar decisões audazes diante de um futuro incerto, então se despertaram, no nosso eu mais profundo, outros recursos e capacidades que ignorávamos ter; no final, nossa vida se viu enriquecida de uma maneira tal que jamais poderíamos imaginar.

Do meio dos ventos contrários e do mar agitado brota um forte apelo: Não tenhais medo”. Um apelo com força libertadora; é a força da voz de Alguém cuja presença alavanca o passo para a travessia: o passo da mudança, o passo da audácia de sonhar de novo, o passo para vislumbrar a outra margem...
Com o Senhor no barco de nossa vida, vamos além, fazemos a travessia... Ele é ao mesmo tempo: mestre, timoneiro, mastro, vela, horizonte, esperança, ar, mar, adorável presença...Salvador...
Os conflitos mais profundos do nosso coração são pacificados com o atrevimento da coragem, com a força da fé, com a imaginação solta, com a criatividade livre e desimpedida...
Por isso, é preciso rastrear, identificar, compreender e desterrar os medos de nossos corações.
É urgente substituir a cultura do medo pela cultura da coragem. A coragem desbloqueia energias, impulsiona decisões, levanta projetos, reacende a criatividade e o gosto por viver.
Sem a superação cotidiana desse medo, nossa missão estará comprometida; perderá sua força inovadora, garantida pela novidade do Projeto de Deus. O compromisso com o Reino requer de todos uma forte dose de coragem e uma alma ágil, animada e vivificada pelo sabor da aventura e da novidade.
Esperança e dúvida, temor e coragem, criatividade e rotina, andam juntas.
Tornamo-nos corajosos quando tomamos a decisão de arriscar.
Vencido o medo, nós nos tornaremos autênticos (as), criativos (as) e audazes seguidores (as) de Jesus. “Quem for medroso e tímido volte para trás” (Jz 7,3)
Texto bíblico: Mateus 14,22-33

Na oração:
Para fazer a “travessia da vida” será necessário descobrir:
- Quantos fantasmas há em sua vida que o paralisam, o impedem de avançar, o travam na hora de tomar decisões?
- Quantos fantasmas o impedem crescer, assumir os desafios, ser criativo...
- Numa dimensão mais ampla, quantos fantasmas há na igreja que não a deixam rejuvenescer-se, que a impedem viver um processo de contínua mudança, que a fazem suspeitar de tudo, que a fazem surda aos chamados de Deus no meio das tormentas da atualidade?

domingo, 16 de julho de 2017

31 dias com Santo Inácio de Loyola – Dia 16

Dia 16: Discernimento em diferentes estágios da vida


O maior presente que a Espiritualidade Inaciana nos oferece é a sabedoria sobre discernimento.

Discernir nos possibilita analisar situações, ficar atentos às várias pistas, chegar a nossa decisão por meio da oração e, finalmente, escolher o melhor de acordo com a nossa fé e a nossa vida.

Porém o discernimento não é da mesma forma nos diferentes estágios da vida. Cada época da vida nos apresenta desafios próprios que requer uma outra nuance, no discernimento espiritual.

Quando estamos na fase da infância, os discernimentos devem estar relacionados ao nosso próprio reconhecimento, na realização das ações certas, em detrimento das erradas. Discernimos o que é ser honesto, como tratar as pessoas com amabilidade, admitir os erros, e calcular os resultados das nossas ações. Discernimento nesta fase ajuda a construção moral. Como cristãos aprendemos, através do discernimento, identificar qual deve ser o comportamento e as atitudes cristãs.

Na fase de jovem adulto, deparamos frequentemente com decisões que trarão grande impacto na nossa vida. Os discernimentos devem apoiar as seguintes questões:

-- Meu perfil é adequado para o relacionamento com a pessoa escolhida?
-- Estou ajustado para esse tipo de trabalho ou carreira?
-- Quais são as minhas prioridades?
-- Minhas escolhas diárias e atos me movem para o que tenho como propósito de vida?

Na fase adulta, entre 30 a 50 anos, o discernimento deve ser ardiloso, pois neste período temos múltiplas e apropriadas ligações e apegos. Muitos estão em sérios relacionamentos, como pais, em novas carreiras ou em uma estável vida profissional.

Muitos dos discernimentos envolvem-se em calcular como os diferentes aspectos da vida estão inter-relacionados e aonde devem ser corrigidos.

Além de guiar nossos filhos e trabalhar as dificuldades matrimoniais, estamos nos abrindo para o mundo externo, como por exemplo ajudar as pessoas, e a realização de múltiplas obrigações.

Nos últimos anos, os discernimentos relacionam-se a como usar as energias e os recursos. Apesar da diminuição desses aspectos ficamos mais livres para uma vida de aprendizagem e de discernimento. Devemos discernir como nos envolver em problemas e pressões das pessoas de nossas famílias e da comunidade.

Devemos discernir como nos colocar face aos declínios físico e mental e também sobre nossa morte.

Neste estágio da vida, discernimento inclui:
-- Identificar padrões de pensamento ou comportamento que precisamos para as mudanças.
-- Identificar profundamente as feridas e sofrimentos e buscar a cura e restauração.
-- Escolher as melhores das múltiplas boas opções.
-- Enfrentar as dificuldades de saúde, orando e trabalhando para uma liberdade espiritual.
-- Descobrir o melhor caminho para usar nossos recursos - dinheiro, tempo e energia para ajudar o mundo.

Fonte: Adaptação livre do site Ignatian Spirituality 

sábado, 15 de julho de 2017

Tempo das Raízes

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 15º Domingo do Tempo Comum - Ano A.

“Quando o sol apareceu, as plantas ficaram queimadas e secaram, porque não tinham raiz” (Mt 13,6)

Temos perdido as raízes? Como conectar-nos com elas? Quê raízes nos alimentam? Onde estamos enraizados? Quais são as raízes que nutrem atualmente nossa vida? São as melhores?
Enraizamento, fincar raízes, viver da profundidade das raízes... O “novo” vem das raízes, vem de baixo, da base, do chão da vida. É preciso relançar uma nova radicalidade. Viver a partir das raízes, projetar a partir das raízes, criar a partir das raízes. É tempo de fortalecer as raízes; e viver o tempo das raízes para ser presença “diferenciada” na realidade cotidiana de cada um.
Neste novo contexto em que vivemos, marcado pelo desenraizamento, promove-se muito mais viver em mundos virtuais, em espaços criados pela tecnologia, comunicando-se através de relações informáticas com pessoas distantes, desenraizando-se do próprio chão existencial; no emaranhado das imagens e sons perde-se a noção daquilo que é essencial, decisivo para a vida; vive-se na superfície dos acontecimentos e de si mesmo; mina-se a consistência interior e fundamento sobre o qual se apoia a própria vida; esfria-se toda proximidade e relação com o outro; petrifica-se todo compromisso com as causas sociais...
Desenraizar-se é desumanizar-se.

Jesus, o homem enraizado em seu povo e sua cultura, traçou seu caminho em parábolas. Suas palavras romperam a ordem oficial do templo, a segurança dos sacerdotes, a razão dos escribas, colocando todos os homens e mulheres do povo frente à proposta de vida plena e feliz, desejada pelo Pai.
As parábolas parecem revelar a verdadeira identidade de Jesus; é como se alguém lhe perguntasse: “quem és tu? O que fazes?”. Segundo Mateus, Jesus é o verdadeiro semeador. Por isso, é decisivo prestar atenção ao seu modo de semear. E Ele faz isso com uma surpreendente confiança; semeia de maneira abundante; as sementes de humanidade são lançadas em todos os tipos de terrenos, mesmo entre aqueles onde a germinação parece difícil. O semeador não desanima nunca; sua semeadura não será estéril.

A parábola do “semeador” é muito precisa, nem uma palavra a mais, nem uma a menos; nenhum floreio ou comentários em excesso... Austeramente, Jesus descreve o que acontece com a semente, partindo das experiências normais da agricultura de seu tempo, um exemplo concreto do trabalho nos campos, de maneira que todos os ouvintes podiam entendê-lo.
Tudo é normal e todos se descobrem imersos nela, como se estivessem juntos construindo a parábola, buscando seu sentido. Pois bem, quando ela é escutada dessa forma descobrimos que ela desafia todas as convenções sociais, pondo em movimento nossa vida, pois ela fala de nós, do que somos e fazemos. Assim ela se revela surpreendente, pura transparência, como um chamado à nossa própria criatividade.
Nesse sentido, toda parábola vem iluminar e inspirar nosso modo de seguir e de nos identificar com Jesus; tal seguimento não é questão de uma simples adesão à pessoa de Jesus, mas um enraizamento na vida d’Ele, buscando ali a seiva que vai dar novo sentido à nossa existência.

A “nova radicalidade” (e não radicalismo) é a forma de seguir a Jesus. É uma radicalidade amável e expansiva, porque quem chega às raízes descobre-se enraizado na natureza humana, naquilo que todos compartilham e, por isso mesmo, descobre-se e sente-se enraizado no Outro.
Ninguém pode viver sem raízes, pois não se sustentaria de pé. Quando perde suas raízes, o ser humano se atrofia e fica privado de algo decisivo, essencial: de uma fonte de vitalidade.
A verdade é que a vida cristã nos pede “desenraizamento” de algumas realidades que nos envenenam e  fazem romper as relações (enraizamento no poder, na riqueza, na centralidade do próprio ego, na cultura da superficialidade...). Para dizer um “sim” ao seguimento de Jesus e enraizar-nos em uma realidade verdadeiramente consistente (sua palavra e vida) é preciso dizer “não” àquelas outras realidades, desprender-nos delas, desenraizar-nos delas.

Ao nos convidar a ter raízes profundas, o Evangelho de hoje está afirmando algo muito importante: nesta terra, nesta realidade social, cultural, eclesial e política, já está semeado o Reino, já está viva e ativa a presença do Deus fiel que cria futuro. Nós nos alimentamos desta realidade na medida em que nos deixamos semear nela.
Somente aquele que se deixa semear experimenta o sabor da seiva da vida de Deus entrando por suas raízes, percorrendo seu ser inteiro, fazendo-o crescer e dando os frutos de que nosso povo precisa. Aquele que não se deixa semear vive de ilusões e quimeras que envenenam sua existência.


O duro trabalho de lavrar a terra, de semear e semear-nos nela, supõe um amor pela terra. Acreditamos nela, a apalpamos entre os dedos para sentir sua qualidade. O camponês ama sua terra não só pelo que lhe possa produzir, mas porque nela está presente a herança de gerações familiares que lhe precederam. Sua terra tem nomes e sobrenomes: para ele é um ser vivo com sangue de família em suas entranhas.
Amamos a terra na qual estamos semeados como Jesus amou o seu povo?
Ter as raízes fincadas na história, na realidade, raízes que a partir do oculto nutrem nossa vida e alargam o coração, é saber que temos uma origem e uma meta que é o próprio Deus.
Raízes que se entrecruzam por debaixo do solo, no profundo, compartilhando a mesma água e o mesmo húmus. Vida nova, que cresce a partir de dentro e a partir de baixo, a partir do oculto.
Ramos que se abrem e se curvam buscando a luz.
Uma vida iluminada. Profundidade, serenidade e descanso. Solidariedade e comunhão. Vida que cresce em companhia. Vida consistente. Solidão habitada e fecunda.

Muitas vezes o enraizamento supõe estar presente naquelas realidades das quais muitos fogem, das quais muitos renegam, ou que são somente terras de passagem, fronteiras que geram medo e insegurança.
O enraizamento supõe respeito para com toda realidade, amar a terra concreta tal como ela é, como Jesus que, na Encarnação, foi semeado naquela terra dominada e excluída da Palestina.
Foi no enraizamento do chão daquele povo que Jesus foi se humanizando e abrindo-se à novidade do Reino do Pai que tudo transforma. Assim expressa Jesus de si mesmo quando se comparou com a videira plantada na terra de Israel.
É preciso deixar-se semear não só onde a terra já está preparada durante gerações, mas também nas margens da realidade, na dureza das terras sem arar, cheias de pedregulhos e de espinhos. Não podemos fugir da realidade que temos de arar, semear e cultivar com sua dureza e com seu encanto.

Texto bíblicoMt 13,1-23

Na oração:
Uma vida que se enraíza, é uma vida firme, consistente.
Por outra parte, as raízes na planta, são as que se introduzem na terra e crescem em sentido contrário do tronco, servindo-se como sustentação. Graças a elas pode absorver o alimento necessário para seu crescimento.
- Quais são e onde estão as raízes nas quais seu coração se alimenta?

- Onde apoia sua vida? Quê é o que a sustenta?