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quinta-feira, 6 de março de 2025

Peregrinos no deserto da vida - 1º Domingo da Quaresma

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho do 1º  Domingo da Quaresma (2025).

 “Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito” (Lc 4,1)

Estamos no início do percurso quaresmal, em sintonia com toda a Igreja que celebra o Jubileu ordinário, inspirado no tema: “Peregrinos de esperança”.

Na verdade, os caminhos estão dentro de nós. Sem caminhos nos sentimos perdidos, confusos, sem rumo, sem bússola e sem estrelas para orientar as noites de nossa existência. Mas, é preciso perguntar aos caminhos o porque das distâncias, porque às vezes são tortuosos, cansam e são difíceis de serem percorridos. Eles guardam os segredos dos pés dos caminhantes: o peso de sua tristeza, a leveza de sua alegria ao encontrar a pessoa amada, as descobertas surpreendentes, o encontro com o diferente...

Mais do que ser-de-caminho, o ser humano é ser-caminho: caminho da vida, caminho da verdade, caminho da justiça, caminho do coração, caminho do amor, caminho da ciência, caminho da ética, caminho da solidariedade... Cada pessoa tem a responsabilidade de ser caminho para os outros.

Caminho escancarado à passagem da humanidade peregrina. Caminho acolhedor; caminho aberto e solidário; caminho ecumênico; caminho plural; caminho sedutor.

Esta é a grande esperança que dignifica toda a humanidade.

Tornar-nos “peregrinos” é a experiência de uma grande liberdade pela via do desprendimento (coisas, apegos, poder, riquezas, ideias fixas, posturas fechadas, conservadorismo...) e aí se abre a possibilidade de um encontro com o Transcendente, com o Deus Peregrino.

Assim, a contemplação da vida de Jesus nos move à liberdade e se manifesta como um chamado a uma vida mais simples, partilhada, apaixonada, natural, livre, transcendente, intensa, comprometida...

Este é o sentido do relato lucano das “tentações de Jesus no deserto”.

Para o povo que peregrina no deserto, é essencial conhecer direções e entender ventos. E para o coração que peregrina no deserto da vida, é essencial conhecer os caminhos do Espírito e os ventos da Graça.

Com sua austeridade e simplicidade, o deserto não é lugar de experiências fúteis e superficiais.

A profundidade da identidade de uma pessoa é testada e experimentada no deserto.

Quem anda no deserto sente profundamente o que é o “nada”; deserto grita o nosso “nada”, nos coloca entre a areia e o céu, o nada e o Tudo, o eu e Deus.

A prática do “deserto” é um fator sempre presente em toda procura séria de Deus.

De Deus viemos. N’Ele somos. N’Ele vivemos. Para Ele caminhamos. Peregrinos espertos em discernir rumos e encruzilhadas. Somos caravana que avança em êxodo continuado. Vida nômade, provisória.

Peregrinar sem morada permanente. Tenda ambulante, não casa sólida de pedra. Somos pessoas de muitas tendas, de muitos acampamentos. Nada definitivo. Estado de itinerância evangélica, traço característico de Jesus e de todo(a) seu(sua) seguidor(a). O mundo, nossa casa sem paredes.

Caminhar em direção a Quem é sempre maior, rumo ao destino prometido.

A tríplice tentação de Jesus no deserto condensa os “impulsos ou dinamismos” mais importantes que o ser humano experimenta e que, quando alimentados, podem afastá-lo do melhor de si: o ter, poder e o prestígio (fama). Nesse sentido, Jesus não vive para seus interesses, mas em docilidade à Vontade de Deus; Jesus não é um Messias que se impõe pelo poder nem pelo êxito; a única força que o move é a fidelidade ao Pai e à missão.

Para muitos, sempre será tentador utilizar o espaço religioso para alimentar a vaidade, buscar reputação, poder e prestígio. Poucas coisas são mais ridículas no seguimento de Jesus que a ostentação e a busca de honras. Causam danos à comunidade cristã e a esvaziam de sua verdade.

As tentações que são descritas em Lucas não são propriamente de ordem moral. O relato nos está advertindo de que podemos arruinar nossa vida se nos desviamos do caminho que Jesus trilhou.

Jesus, nas suas tentações, não cita a Escritura para justificar seus interesses.

Na primeira tentação, Ele renuncia utilizar o nome de Deus para “transformar” as pedras em pães e, assim, saciar sua fome. Ele não segue esse caminho; não vive buscando seu próprio interesse; não utiliza o Pai de maneira egoísta. Alimenta-se da Palavra viva de Deus e só “multiplicará” os pães para saciar a fome da multidão.

Na segunda tentação, Jesus renuncia conquistar “poder e glória”, e não se submete, como todos os poderosos, aos abusos, mentiras e injustiças nas quais se apoia o poder diabólico. Jesus rejeita a tentação do poder porque, para Ele, não há outro meio de salvação e libertação a não ser a solidariedade até a extrema radicalidade. O Reino de Deus não se impõe, mas se oferece com amor. Por isso, Jesus só adora o Deus dos pobres, dos fracos e indefesos.

Na terceira tentação, Jesus renuncia cumprir sua missão recorrendo ao êxito fácil e à ostentação. Não será um Messias triunfalista. Nunca manipula Deus a serviço de sua vanglória. Está entre os seus como aquele que serve.

A contemplação de Jesus no deserto desmascara aquelas atitudes que afogam em nós a possibilidade de viver o seguimento d’Ele com mais intensidade; tal exercício desmascara nosso modo de viver o cristianismo, acomodado aos critérios do mundo, ou seja: insensibilidade do coração, deixar-nos prender pelas garras do consumismo, concretizado nos “afetos desordenados” ou apegos aos bens, poder, auto-imagem, lugares, pessoas, títulos..., que acabam esvaziando nossa vida e nos deslocando do essencial. É uma espécie de "embriaguez existencial" na qual a alteridade desaparece, a abertura a Deus se atrofia e a gratidão frente aos bens se esvazia.

Diante das carências existenciais, surge a tentação de buscar compensações, que exigem investimento afetivo, nos tiram do foco e nos fazem cair em estado de letargia e acomodação. Mas, todas essas compen-sações têm algo em comum: elas nos fazem adormecer e, desse modo, abortam a novidade que poderia brotar em nós e atrofiam a esperança, pois nos prende ao mais imediato (fixação afetiva).

O caminho da transformação implica reconhecer a importância da vida simples e sóbria. É sábio tomar consciência de que vivemos uma super-excitação do desejo de posse. É preciso fazer a experiência de que podemos prescindir da maioria das coisas que nos são oferecidas. O papa Francisco nos recorda que “a espiritualidade cristã propõe um modo alternativo de entender a qualidade de vida, encorajando um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de gerar profunda alegria, sem estar obcecado pelo consumo. É importante adotar um antigo ensinamento, presente em diferentes tradições religiosas e também na Bíblia. Trata-se da convicção de que ‘quanto menos, tanto mais’” (Laudato si’ n. 222).

Fazer estrada com Jesus” não nega nossas necessidades e desejos naturais, mas re-ordena nossas prioridades e nos recorda constantemente que Ele está nos chamando e nos atraindo para um modo alternativo de viver, mais humano e mais leve.

Texto bíblicoEvangelho segundo Lucas 4,1-13

Na oração:

A oração sobre as “tentações de Jesus” nos ajuda a tomar consciência das alianças e cumplicidades nas quais podemos cair em nossas relações com o mundo e com aqueles elementos que de modo mais decisivo põe em perigo nossa liberdade: as riquezas, poder, prestígio.

- No fundo, a questão fundamental é esta: a quê “reino” estou servindo? O “reino” do meu ego, ou o Reinado do Pai, no seguimento de seu Filho?

- Quais “tentações” exercem maior sedução em minha vida? Onde estou investindo o melhor de minha vida?

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

FELICIDADE: fome e sede de plenitude

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 4º. Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Felizes os pobres em espírito, os mansos, os pacíficos, os misericordiosos, os puros de coração...”

Todo ser humano anseia por felicidade; como filhos e filhas do “Sopro criativo”, somos habitados por uma “fome e sede” de eternidade, de infinita liberdade, de vida plena...

Muitas são as pistas sobre o lugar onde se encontra a “chave da felicidade”. Alguns o situam na arte; outros, numa religião fundamentalista; muitos, num consumo desordenado; vários, na política alienada; tantos, no sucesso a todo custo; poucos, na militância comprometida; inúmeros, no trabalho estressante; raros, no serviço desinteressado...

A sociedade de consumo que tudo invade, realça a felicidade como a meta imediata de nossas buscas, algo ao qual temos direito e que depende de fatores externos. Esta felicidade é passageira, pois quando a alcançamos, invade de novo a insatisfação, a inquietude, o ressentimento, a inveja... e de novo empreendemos nossa busca.

A felicidade não se encontra na saída e nem no final. Parodiando Guimarães Rosa, podemos dizer que ela está presente na travessia.

Nesse sentido, felicidade pode ser entendida como um “estado de espírito”; é experimentar uma sensação de renascimento contínuo, de satisfação interior... ou sentir despertar em si um potencial de bondade, muitas vezes desconhecida...

A felicidade não vem a nós a partir de fora, nem nos espera no futuro; tampouco se encontra em “algo” que deveríamos alcançar. A felicidade se identifica com o que somos; é outro nome de nossa identidade profunda e transcende toda circunstância e acontecimentos.

Muitas vezes somos ignorantes de nosso estado de felicidade; na essência, já somos felicidade. O problema é que nos identificamos com o que não somos e, nessa mesma medida, nos afastamos da felicidade quando a localizamos em “algo” ou a projetamos “fora”. Mas a felicidade não é um “estado de ânimo” que pode variar, mas um “estado de ser”, que nasce justamente da experiência profunda de nossa vida e que é capaz de abraçar todos os estados de ânimo.

A verdadeira felicidade coincide com a paz interior; é o prazer de descobrir a cada dia que a vida se inicia novamente a cada amanhecer; é fazer da mesma vida uma grande aventura...

As bem-aventuranças, pronunciadas por Jesus sobre um monte, tem o caráter de uma teofania e constituem umas das páginas mais belas da sabedoria universal. Falam de uma felicidade diferente que  abre caminho em meio às adversidades e contradições. Cada frase é uma passagem, uma páscoa, onde chega ao auge o que parece contraditório: bem-aventurados são os que sofrem, os pobres, os persegui-dos, os humildes, os que choram... pois demonstram que eles ainda não perderam a sensibilidade, que eles sentem o mundo como injusto e que, por isso, são, verdadeiramente, os únicos a sonharem, a buscarem e a lutarem por um novo mundo.

Tanto as bem-aventuranças como o Reino são trans-confessionais. São atitudes que aproximam todos os seres humanos. Seu caráter universal é o que faz com que muitas vezes sejam lidas em encontros inter-religiosos. Elas nos convocam a ir além de nossos pequenos e atrofiados lugares, em direção a uma terra prometida da qual já falavam os profetas de Israel.

Para surpresa de todos, Jesus subiu a uma montanha para ver o amplo horizonte da vida e lá fez um profundo mergulho em seu interior, estimulando também os discípulos e a multidão a descerem no insondável mundo do “eu profundo”. É ali que se encontra a fonte das inspiradas “beatitudes”, aquelas que tecem nossa vida e nos fazem originais.

Não há outro modo de alcançar o divino a não ser “escavar” e fazer emergir aquilo que é mais nobre e humano, escondido nas profundezas da vida. Para ativar as bem-aventuras é preciso perfurar a dura casca do ego inflado e prepotente.

Nas afirmações surpreendentes de Jesus, são chamados de bem-aventurados ou felizes aqueles que vivem em sentido contrário ao que o mundo propõe: pobreza, mansidão, paz, compaixão, sensibilidade solidária.

A felicidade evangélica não é como aquela que o mundo vende, ou seja, euforia fácil e prazer imediato. Ela é muito mais um chamado à plenitude e sabe suportar os embates que a vida apresenta. Com frequência, associamos a felicidade à ausência de problemas, ao êxito econômico, à beleza perene ou ao prazer em todas as suas dimensões. No entanto, tudo isso esgota ou é simplesmente insustentável, pois não tem consistência interior.

Não podemos considerar as bem-aventuranças como leis ou como algo a cumprir. Elas são o horizonte, a meta, o tesouro a descobrir. Devemos nos aproximar de cada uma delas como “atributos divinos” presentes em nosso interior e no interior de todas as pessoas. Elas são como estradas através das quais avançamos até viver na “dinâmica do Reino”, que tantas vezes encontra resistência frente a outras dinâmicas egóicas e formas de viver auto-centradas que nós mesmos alimentamos.

- Ao escutar e acolher que somos felizes quando somos “pobres de espírito”, significa ter alcançado a liberdade interior, ser conscientes de onde colocamos a segurança de nossa vida. Mas também implica viver uma existência simples e despojada, sentindo-nos chamados a partilhar os dons e a nossa própria vida com os mais necessitados.

- Quando Jesus proclama que devemos ser “mansos, para possuir a terra” percebemos a radical diferença frente ao orgulho e prepotência cultivados pela nossa sociedade. A mansidão é fruto do Espírito, próprio de quem deposita toda sua confiança em Deus. Se vivemos tensos, agressivos diante dos outros, acabamos cansados e esgotados. Mas, quando olhamos nossos limites e fragilidades com ternura e mansidão, sem nos sentir superiores ou inferiores a ninguém, podemos viver mais integrados, evitando desgastar energias em lamentos ou dissimulações inúteis.

- Ao escutar que somos felizes quando “sabemos chorar com os outros”, significa compartilhar o sofrimento alheio e enfrentar as situações dolorosas, solidarizando-nos com o sofrimento do mundo para transformá-lo.

- E continuamos escutando que somos felizes, bem-aventurados, quando sentimos “fome e sede de justiça”, ou seja, quando emerge de nosso interior um impulso mobilizador para que a vida digna seja possível para todos e sentimos isso como se sente a fome, a partir das entranhas.

- Quando somos “misericordiosos”, significa que deixamos fluir de nosso coração o amor recebido de Deus, significa que estamos acolhendo os outros incondicionalmente, assim como nos sentimos acolhidos por eles.

- Ao nos descobrir que somos felizes quando temos “um coração limpo para poder ver a Deus”, significa ter um coração simples, sem falsidade, autêntico, transparente.

- E nos admiramos, nestes tempos tão sombrios, ao escutar que somos felizes quando “trabalhamos pela paz” sem excluir ninguém; construímos paz quando buscamos o consenso, a harmonia, o perdão, a possibilidade de vida para todos.

- Mais ainda, no final nos é dito que somos felizes quando nos sentimos “perseguidos por causa da justiça”, porque o Reino de Deus pede uma sociedade justa e em paz e isto não é possível sem uma grande dose de entrega pessoal para contrapor todos os obstáculos que nascem dos interesses pessoais e dos egoísmos grupais, retardando a plenitude do Reino.

Texto bíblico: Mt 5,1-11

Na oração:

“Contemplar” o significado de cada bem-aventurança; verificar em que medida e em que circunstância ela se faz visível em sua vida.

terça-feira, 26 de julho de 2022

Legado de Santo Inácio de Loyola: a Espiritualidade na vida cotidiana

Durante o mês de julho publicaremos semanalmente um texto para celebrar a vida e memória de Santo Inácio de Loyola. Esse texto também estará disponível em áudio (podcast) no canal Rezando o Evangelho no  Spotify e em outras plataformas de áudio. O quarto e último texto aborda uma reflexão sobre a vivência da Espiritualidade Inaciana no nosso cotidiano, mais um legado de Santo Inácio de Loyola que permanece e gera frutos até os nossos dias. Boa leitura! Que Santo Inácio nos ensine a ser e buscar sempre o Magis!

Vivemos mergulhados na cultura de resultados; o ativismo é o nosso estilo de vida; a existência inteira faz-se maquinal e rotineira; a vida perde seu sentido; já não encontramos tempo para desfrutar das atividades mais simples e humanas; nosso cotidiano torna-se pesado, cansativo, passa a ser rotineiro, convencional e, não raro, carregado de desencanto. A maioria das pessoas vive restrita ao cotidiano com o anonimato que ele envolve. Tal situação acaba gerando pessoas ansiosas, irritáveis, frustradas.

O que fazer então?

Quando a vida cotidiana se torna monótona e se faz normal, é necessário sacudi-la com algum “detalhe anormal”, que ajuda a revigorá-la e dar-lhe fecundidade. “Se, às vezes, há um fastio na rotina, não raro ela revela um mistério insondável” (Cláudio Van Balen). A mística inaciana desperta nossa atenção para o mistério das pessoas, das coisas, da normalidade da vida. Santo Inácio, quando nos convida a contemplar a “vida oculta” de Jesus, no fundo ele quer que coloquemos em evidência nossas motivações, nossos valores, nossos critérios.

Jesus nos ensina, em Nazaré, a descobrir o valor eterno do doméstico, do cotidiano.

Ele nos ensina a saborear o eterno e o Absoluto nas pausas e nos silêncios da vida cotidiana. Ele gasta praticamente toda sua vida nesta humilde condição; passou despercebido como Messias. Identificando-se com a vida de todo mundo, Jesus mostrava que a salvação não consistia em coisas extraordinárias ou em gestos fantásticos, mas na “adoração do Pai em espírito e verdade”.

Tanto em Nazaré quanto na vida pública, Jesus nos comunica uma profunda união com o Pai. Para Ele o Reino se revela no pequeno, no anônimo, no cotidiano e não no espetacular, no grandioso. Para Ele, não são as coisas que nos fazem importantes, mas somos nós que fazemos qualquer coisa ser importante. É o sentido que damos à nossa vida e à nossa ação que fazem com que estas sejam significativas ou não. É a importância do não importante. “Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia a própria dificuldade” (Mt. 6,34). Com estas palavras, Jesus estabelece a diferença entre o modo pagão e o modo cristão de viver o cotidiano. A cotidianidade de nossa vida está tecida de coisas ordinárias e não de coisas extraordinárias. Falamos de uma cotidianidade humana, isto é, daquelas atividades de nossa vida diária, que embora irrelevantes em sua aparência, tem uma razão de ser, uma motivação e um modo de fazer-se que não se deve à mera casualidade ou a um impulso instintivo de repetição e automatismo.

O cotidiano é o que vivemos e/ou fazemos cada dia: o conjunto de circunstâncias, atividades e relações que formam a trama da vida de uma pessoa por meio das quais Deus atua nela e a pessoa se relaciona com Deus. As ações cotidianas insensatas podem ser sensatas se percebermos Deus presente nelas. Descobrir a presença divina escondida no cotidiano é encontrar-se acolhido pelo abraço do Criador que nos envolve. Quando a pessoa assume seu cotidiano e o vivifica com injeções de novidade, de idealismo, de criatividade, então começa a irradiar uma rara energia interior.

A essa força denominamos de carisma, que significa a energia que tudo vitaliza, que tudo penetra e rejuvenesce. O carisma inaciano nos desperta da letargia do cotidiano. E despertos, descobriremos que o cotidiano guarda segredos, novidades, mensagens ocultas, que podem acordar e conferir sentido e brilho à vida.

O cotidiano passa a ter sabor de eternidade.

O cotidiano é o meio pelo qual o amor toma densidade e se expressa preferentemente. Tem-se dito que “a humildade do amor é o dom da vida cotidiana”, ou seja, a humildade do amor sem brilho, no escondido. O amor é, precisamente, o lubrificante que dá sentido à vida cotidiana e lhe faz superar as dificuldades inerentes à mesma: o desprendimento de si mesmo, a busca da verdade e do bem comum, a atenção ao que facilita a vida dos outros, se tornam normais quando se cultiva o amor. E é esta fidelidade no cotidiano que possibilita a transformação da realidade.

Proposta de reflexão: Faça pequenas pausas durante o seu dia: pela manhã, no início da tarde, no início da noite... Procure perceber os milagres, o sagrado nas coisas simples, os passos da presença divina em suas vivências humanas cotidianas.

Fonte: Magis Brasil. Reflexões Inacianas: Espiritualidade do cotidiano criativo, Disponível em: https://magisbrasil.com/reflexoesinacianas18-20181204

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Legado de Santo Inácio de Loyola: a Espiritualidade Inaciana

Durante o mês de julho publicaremos semanalmente um texto para celebrar a vida e memória de Santo Inácio de Loyola. Esse texto também estará disponível em áudio (podcast) no canal Rezando o Evangelho no Spotify e em outras plataformas de áudio.  O terceiro texto aborda de maneira sintética a Espiritualidade Inaciana como legado da vida e trajetória de Santo Inácio de Loyola. Boa leitura! Que Santo Inácio nos ensine a ser e buscar sempre o Magis!

Muitas escolas de espiritualidade se desenvolveram ao longo de toda a história do cristianismo como um caminho inspirado pelo Evangelho, pelo qual se procura seguir Jesus. Nessa perspectiva, cada espiritualidade assume formas próprias: na relação com Deus, no estilo de vida e no modo como se compromete com a transformação do mundo.

A Espiritualidade Inaciana enraíza-se na experiência de Santo Inácio e nos Exercícios Espirituais. Inácio de Loyola vivia convicto de que Deus habita e trabalha em tudo o que existe e acontece. A vida espiritual não se resume a momentos de oração ou à celebração dos sacramentos, mas implica identificar-se com Jesus, procurando e encontrando Deus e a Sua vontade em todas as coisas. Esta procura exige viver numa atitude de discernimento. Implica também recordar que o ser humano não se inventou a si próprio, sendo convidado a reconhecer todo o bem recebido e a viver agradecido.

Com base na experiência de Inácio de Loyola, os Exercícios Espirituais (EE) constituem um método que nos ajuda a lidar com a nossa dimensão interior. Os EE nos expõem à ação de Deus e ao seu convite para que tenhamos uma vida plena de serviço gratuito. Os EE são uma ginástica espiritual, uma experiência pessoal de Deus que transforma a vida e liberta o coração de tudo o que o impede de ser livre e fazer a vontade de Deus.

Podemos dizer que os EE são a porta de entrada da Espiritualidade Inaciana. Os EE foram pensados por Inácio para serem feitos em 30 dias, mas podem ser adaptados para períodos mais curtos. Há ainda a possibilidade de fazer os EE na vida quotidiana sem que seja necessário retira-se para algum lugar específico. Na sua versão completa, os EE dividem-se em quatro etapas designadas por semanas. Ainda que feitos em grupo, os EE são uma experiência pessoal de encontro com Deus, adaptando-se ao que cada pessoa está vivendo. Esta adaptação é feita com a ajuda de um acompanhante espiritual que orienta os EE.

Os EE são um caminho de identificação com Jesus e com o seu estilo de vida. Uma forma de estar em que, libertos de preconceitos e rótulos, aprendemos a amar livremente, e nos disponibilizamos a servir a todos. Os EE nos auxiliam a perceber o modo concreto como, em cada momento da nossa vida, Deus nos convida a colaborar com o seu Reino, tornando o mundo mais justo.

Os EE nos auxiliam a ordenar a nossa vida. Provavelmente isso implicará que, ao longo do processo, experimentemos dificuldades e resistências, desânimos e agitações, mas também alegrias e esperanças. Ao começar os EE ninguém pode saber aonde Deus vai levá-lo, mas podemos estar certos que seja onde for, só pode ser bom e para nosso bem.

A quem deseja fazer os EE, pede-se generosidade e confiança. A generosidade de procurar estar inteiro e sem reservas. Uma atitude de confiança em Deus, no processo e em que o acompanha. Os EE estão pensados para pessoas que desejam encontrar-se com Deus, procurando a conversão contínua a um modo mais livre de amar. Destinam-se aos que sabem que precisam de algo mais [Magis] na sua vida e que são atravessadas pela busca de sentido que Jesus nos oferece.

A espiritualidade sempre será um caminho que nos ajuda a ter intimidade com Deus. A mística da Espiritualidade Inaciana está intrinsecamente enraizada na realidade cotidiana. A lógica da espiritualidade inaciana nos propõe a adotar a realidade como matéria e base para a oração, a partir das seguintes perspectivas:

- Considerar a realidade: Considerar como fomos criados por Deus e qual o fim da nossa vida: “Louvar, servir e reverenciar a Deus Nosso Senhor e mediante isto salvar a sua alma. As outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem e para o ajudarem na consecução do fim para o qual é criado” (EE 23).

- Meditar a realidade: Propõe-se pedir perdão pela forma como vivemos e estamos nos relacionando com o ser humano e com a natureza; pelo modo como olhamos distantes a realidade e não nos envolvemos com ela, a fim de cuidar das feridas e vidas.

- Contemplar a realidade: Devemos pedir a graça de não sermos surdos ao chamado de Nosso Senhor, “mas sermos prontos e diligentes para cumprir a Sua santíssima vontade […]” (EE 91).

- Esperançar uma nova realidade: Devermos ser anunciadores de um Deus que nos ama e trabalha sempre, cuidando, resgatando o ser de cada criatura, em vista do Reino definitivo.

Inácio afirma nos EE que “não é o muito saber [nem o muito fazer] que sacia e satisfaz a pessoa, mas o sentir e saborear as coisas internamente.” E, à medida em que dermos a primazia à interioridade, podemos ter a certeza que daremos ainda muito mais frutos, tanto no saber quanto no fazer. Aquilo que Inácio nos propõe nos EE é impressionantemente rico e atual para o desenvolvimento pessoal, sobretudo por nos ensinar a desenvolver, de maneira integrada, os chamados “três olhos do conhecimento”: o “olho dos sentidos”, o “olho da razão” e o “olho do espírito” (Ken Wilber).

 

Proposta de reflexão: A Espiritualidade Inaciana se estrutura em uma perspectiva de desenvolvimento espiritual com os pés no chão. Colocar em oração o lugar das diversas realidades que vivencio (familiar, afetiva, profissional, social, política...) no meu diálogo com Deus e no meu agir cotidiano. 

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Organização do texto: Cláudia Cruz, membro CVX Regional Rio de Janeiro

Fontes:

A espiritualidade inaciana, uma ajuda para viver a realidade atual - José Laércio Lima, SJ. Disponível em: https://www.jesuitasbrasil.org.br/2020/08/10/a-espiritualidade-inaciana-uma-ajuda-para-viver-a-realidade-atual/

Espiritualidade Inaciana – Província Portuguesa da Companhia de Jesus. Disponível em: https://pontosj.pt/jesuitas/espiritualidade-inaciana/

Espiritualidade inaciana: um modo de ser uma escola de vida - Adroaldo Palaoro, SJ. Disponível em: http://centroloyola.com.br/espiritualidade-inaciana-um-modo-de-ser-uma-escola-de-vida.html

Exercícios Espirituais – Província Portuguesa da Companhia de Jesus. Disponível em: https://pontosj.pt/jesuitas/exercicios-espirituais/

Exercícios Espirituais: transformação a partir do interior - Luís Maria da Providência, SJ. Disponível em: https://pontosj.s3.eu-west-2.amazonaws.com/wp-content/uploads/sites/13/2018/02/14161324/EE-Transformacaoo-a-partir-do-interior.pdf

domingo, 19 de julho de 2020

Aceitar o Joio nos Humaniza

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 16º  Domingo do Tempo Comum (Ano A).


“Deixai crescer um e outro até a colheita!” (Mt 13,30)

Jesus costumava contar parábolas com frequência e as pessoas gostavam de ouvi-lo; suas parábolas, brotavam do chão da vida, estavam carregadas de vida e comprometiam as pessoas a viverem de um modo diferente, deixando-se inspirar por Aquele que é Fonte da Vida. Como relatos instigantes, as parábolas faziam emergir uma nova imagem de Deus e uma nova imagem do ser humano.
Sabemos que as imagens, que cada um guarda em seu interior, tem um peso e marcam a vida: elas podem fazer adoecer ou ativar uma vida sadia, podem alimentar medos ou despertar coragem, podem estreitar a vida ou expandi-la.... Todos temos experiências das funestas consequências das falsas imagens de Deus, que acabam alimentando, em cada um, uma auto-imagem atrofiada e paralisante. Jesus, com suas parábolas provocativas, desejava quebrar tais imagens nocivas e substitui-las por outras saudáveis.
Para isso, Ele usa uma pedagogia para nos provocar e dirigir nossa atenção para algo específico, que nos inquieta: quando nos sentimos incomodados com Suas imagens, isso significa que estamos sendo confrontados com imagens falsas de Deus e de nós mesmos, petrificadas em nosso interior. Algum aspecto nosso, que até então havia permanecido na sombra, é iluminado; agora somos capazes de nos ver de modo diferente. Essa transformação interior, de nossa visão e de nossos sentimentos, não pode ser alcançada por meio de meras palavras de ensinamento. Para isso, precisamos da arte das parábolas, pois elas des-velam, põem às claras, situações e modos fechados de viver, visões distorcidas, falsas verdades, ideias atrofiadas, crenças vazias..., que nos dão uma sensação de segurança e temos resistências em abrir mão de tudo isso.

Como muitas outras parábolas, também a do “joio e do trigo” é um relato provocativo. Não só porque parece ir contra o “senso comum”, que aconselha arrancar o joio que impede o crescimento do trigo, mas porque é também uma resposta às críticas que o próprio Jesus recebia por sua atitude com relação àqueles que a religião tinha excluído. Não em vão Ele foi acusado de ser “amigo de publicanos e pecadores”.
Por outro lado, a parábola pode deixar transparecer as inquietações da comunidade de Mateus, preocupada por separar com clareza os “bons discípulos” daqueles que não eram. Como tantos grupos humanos, a tentação é marcar uma linha divisória, entre o “trigo” e o “joio”. Essa separação, no interior da comunidade cristã, acaba se projetando nas relações sociais, políticas, econômicas, culturais..., criando “muros” e “fronteiras” que esvaziam o processo de humanização.
Pois bem, seja porque se refira à vida histórica de Jesus, seja porque se tenha adaptado para responder a alguma polêmica comunitária posterior, o certo é que a mensagem da parábola não deixa lugar a dúvidas: “deixai crescer um e outro até a colheita!”.

Por isso, a atitude sábia de deixar o “trigo e o joio crescerem juntos”, nos remete precisamente ao que temos de fazer com o nosso próprio “joio”: aceitá-lo, acolhê-lo, integrá-lo, reconhecê-lo como nosso, sem reduzir-nos a ele e sem nos deixar determinar por ele. Tal atitude implica um crescimento em integração e em humildade. Por mais estranho que pareça, a aceitação do “joio” nos humaniza, pois nos faz descer de nosso pedestal egóico – feito de exigência, perfeccionismo e de complexo de superioridade – e aproximar-nos de nosso ser verdadeiro.
Quanto mais nós nos conhecemos e conhecemos o Sol que nos habita (Deus), mais nos integramos e mais nos humanizamos.
Humanizar-se, não no sentido de ser mais virtuoso, brilhante, bem-sucedido, perfeccionista... Humanizar-se é também a capacidade de acolher-se frágil, vulnerável e, ao mesmo tempo, ativar o vigor, ser criativo, resistir, poder traçar caminhos... Fazer a síntese entre ternura e vigor.
Não pretendamos, pois, arrancar o joio; demonstremos com nossa vida que, ser trigo, é mais humano.

Nossa vida está repleta da graça divina. Vivemos mergulhados na Graça que nos santifica.
Ser santo (a) é viver em plenitude nossa humanidade. É aprender a descobrir e a redescobrir a “presença de Deus em tudo e tudo em Deus” (S. Inácio).
Já foi dito que o ser humano nunca é tão grande como quando sabe reconhecer e aceitar sua fragilidade, sua limitação...  Reconhecer e aceitar sua própria “humanidade”, diante de Deus e dos outros, significa percorrer um caminho em direção a uma visão positiva, madura e profunda de si mesmo.
Com isso, já não desperdiçamos as nossas energias para tentar, inutilmente, afastar de nós algo que faz parte de nossa vida e que devemos aprender a integrar, a preencher de sentido, a transformar...
Às vezes, no mal que queremos extirpar, há um bem que não sabemos descobrir.

Com efeito, temos sempre a tentação de querer extirpar logo e totalmente o “joio” do nosso coração, arriscando-nos a arrancar com ele, pela raiz, os germes do bem que estão crescendo com dificuldade e que exigem uma atitude muito diferente, isto é, paciência e delicadeza, capacidade de intuição e clarividência, disponibilidade para alimentar uma sadia tolerância para conosco.
Todo este processo de integração interior se faz visível na integração com os outros com quem convivemos.

Parece claro que, nós seres humanos, ficamos incomodados com o “diferente”, com aquele que sente, pensa e crê de outra maneira. Se a isso agregamos a necessidade de “ter razão”, característica do ego, poderíamos explicar a origem de tantas intolerâncias, fanatismos, juízos, processos inquisitoriais e condenações... Tanto as religiões, como os grupos sociais, insistem em ter tudo bem clarificado e estabelecido, para evitar sobressaltos. Detrás de tudo isso, o que se busca é assegurar a sobrevivência e defender-se da ameaça da insegurança ou da necessidade de mudanças. Sair das próprias posições e convicções, no campo religioso, social, político, cultural...é, para muitos, um processo doloroso.
A parábola que estamos comentando (joio e trigo) é um chamado à tolerância e à paciência. A virtude da tolerância não é sinônimo de “bonzinho amorfo”, nem constitui um relativismo suicida. Tolerância é respeito e valorização da pessoa, acima das diferenças, acima das atitudes contrárias e inclusive, segundo Jesus, frente às agressões recebidas: “Amai vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem”.

A personalidade fanática tende a ver a realidade dividida completamente em duas: tudo é branco ou preto, verdadeiro ou falso, bom ou mau, “trigo e joio”; para ela, não existem outras tonalidades. Por isso, ela se converte em juiz implacável que “salva” ou “condena”, assume atitudes fascistas ou nazistas, com a ilusão da raça pura, da ideologia pura, da religião pura...
Niels Bohr, um dos grandes iniciadores da física quântica, afirmou que “o oposto de uma verdade profunda pode ser também outra verdade profunda”. E para ele não se tratava de uma crença ou de uma opinião pessoal, mas de uma constatação, fruto de seus experimentos com partículas sub-atômicas.
Há um fato inegável: ninguém é igual a outro, todos temos algo que nos diferencia. Por isso existe a biodiversidade, milhões de formas de vida. O mesmo e mais profundamente vale para o nível humano. Aqui as diferenças mostram a riqueza da única e mesma humanidade. Podemos ser humanos de muitas formas e devemos ser tolerantes, como toda a realidade é tolerante. A intolerância será sempre um desvio e uma patologia e assim deve ser considerada.


Texto bíblico: Mt 13,24-43

Na oração:
O rigorismo não faz parte do caminho da Graça; o caminho da graça se chama compreensão e tolerância. A melhor resposta é dar a oportunidade para que o trigo amadureça; a melhor solução é abrir possibilidade para que o joio seja transformado. É questão de saber esperar. E disso, o amor é especialista.
- Frente ao “joio” presente em seu interior, que atitudes assume: Auto-julgamento? Moralismo? Intransigência?
- E frente ao “outro”, que “pensa, sente e ama de maneira diferente”, como você se situa?

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Deserto, Lugar do Discernimento

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 1º Domingo do Tempo da Quaresma. Uma santa Travessia Quaresmal a todos(as).


“O Espírito conduziu Jesus ao deserto...” (Mt 4,1)

Na experiência do batismo, Jesus escutou a voz do Pai. Trata-se do principal momento teofânico de sua vida, juntamente com a transfiguração. Mateus se serve deles para proclamar que a identidade de Jesus consiste em ser o Filho amado do Pai. Essa é sua identidade e nela se revela que seu “código genético” consiste em ser o Filho, o Amado, o Predileto..., sobre quem se visibiliza a complacência do Pai.
Agora podemos compreender sua ida ao deserto, movido pelo Espírito, como uma necessidade imperiosa de “processar”, no silêncio e na solidão, essa revelação, de alargar espaço, em sua interioridade, para o deslumbramento e o assombro.
O significado do deserto não é prioritariamente o penitencial. “Levá-lo-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração”, tinha dito Oséias (2,16), convertendo o deserto em um lugar privilegiado de encontro pessoal e de escuta da Palavra. Jesus é conduzido ao deserto para acolher a Palavra escutada em seu coração no momento de seu batismo. Ele precisava de tempo para assentar no mais profundo de seu ser uma Palavra que o descentrasse para sempre de si mesmo e o situasse à sombra da ternura incondicional de Alguém maior.

O evangelista Mateus apresenta a estadia de Jesus no deserto como um tempo de lucidez, fazendo-nos perceber que a relação filial da qual Ele tinha tomado consciência, iluminou de tal maneira sua visão, que se tornara impossível confundir a Deus com os falsos ídolos que o tentador lhe apresenta: um deus em busca de um mágico e não de um Filho; um “deus” contaminado das vazias pretensões do pior da condição humana: ter, brilhar, ostentar poder, exercer domínio...
O que parece claro é que Jesus buscou o deserto para um tempo de discernimento, em oração e em solidão, diante do Pai que o proclamou seu Filho; Ele teve de refletir e discernir sobre o modo como assumiria sua missão em sua vida pública.
Ora, essa missão comportava, de fato, não só um fim que havia de realizar (a salvação e a libertação total da humanidade) senão, também, um meio, ou seja, um caminho e uma maneira de proceder, tendo em vista alcançar aquele fim. E esse meio ou esse procedimento era, essencialmente, a solidariedade com todos os pecadores e excluídos da terra, a ponto de morrer com eles e por eles.
Não podemos esquecer que o tentador não propõe a Jesus que se afastasse de seu fim, ou seja, de seu projeto messiânico de salvação (“Se és o Filho de Deus...”), senão que, na realidade, o que ele faz é oferecer a Jesus alguns meios determinados para realizar a implantação do Reino do Pai.
Como viver sua missão e a partir de quê lugar? Buscando seu próprio interesse ou escutando fielmente a Palavra do Pai? Como deverá atuar? Dominando os outros ou pondo-se a seu serviço? Buscando sua própria glória ou a vontade de Deus? Centrando sua vida na busca de poder e riqueza ou assumindo uma vida pobre, como expressão de solidariedade com os mais excluídos?

Na cena das tentações, vemos Jesus reagindo do mesmo modo como fez ao longo de toda sua vida: centrado e em sintonia afetiva com tudo aquilo que Ele vai descobrindo como o querer de seu Pai: a vida abundante daqueles que veio buscar e salvar. Ele não veio para preocupar-se de seu próprio pão, mas de preparar uma mesa na qual todos pudessem se sentar para comer; Ele não veio para que os anjos o carregassem sobre as asas, para angariar fama e “ter um nome”, mas para dar a conhecer o nome do Pai e carregar sobre seus ombros todos os perdidos, como um pastor carrega a ovelha extraviada. Não veio para possuir, dominar ou ser o centro, mas para servir e dar a vida.
O que livra Jesus de cair nos enganos do tentador é sua ex-centricidade, sua referência ao Pai e à sua Palavra, e, a partir desse Centro, receberá o impulso para abandonar o deserto e se deixar conduzir pela corrente de Vida, alimentada pelo Espírito. A partir desse momento, vê-lo-emos caminhando pela Galileia, entrando em relação com o mundo dos pobres e excluídos, anunciando o Reino, criando uma nova comunidade de vida, buscando colaboradores, aproximando-se das pessoas, entrando nas casas, acolhendo, curando, ensinando, abrindo um horizonte de sentido para a vida das pessoas...

A passagem evangélica das tentações também nos inspira a encontrar com o mesmo Deus a quem Jesus conheceu no deserto: um Deus que não exige de nós proezas nem gestos espetaculares, mas somente alimentar nossa confiança n’Ele e nosso agradecimento; um Deus que nos dirige sua Palavra, não para nos impor obrigações ou para apontar nossas fragilidades, mas para nos alimentar e nos fazer crescer; um Deus que não é encontrado nos lugares carregados de prepotência, de poder, de vaidade e consumismo, mas nos lugares do despojamento e da simplicidade de vida, nos lugares dos “descartados” e excluídos.
Muitas vezes pensamos que Deus é um “estraga-prazeres”, ou um Deus triste que não quer que vivamos prazerosamente. E, então, temos a sensação que as tentações são essas coisas fascinantes que nos seduzem, mas que temos de renunciá-las em nome de uma suposta “perfeição”. Porém, Deus não é Aquele que complica nossa vida com leis, sacrifícios, renúncias... Ele quer que vivamos e, de maneira intensa.
Para cruzar os desertos da vida é preciso ativar uma atitude de esvaziamento de tudo aquilo que é “peso morto” para chegar ao mais profundo e verdadeiro de nosso ser. O deserto nos revela de onde viemos e para onde vamos; ele nos remete inteiramente ao Doador da vida e desperta outros recursos vitais, aninhados em nosso interior.
Tudo o mais é pouco para a sede do coração. “Só Deus basta”, nos sussurra o deserto.

Desde sempre, a humanidade inteira e cada um de nós, estamos expostos à tentação. Faz parte de nossa condição humana. Trata-se de um conflito permanente que pode travar nossa existência por dentro.
Por um lado, sentimos o apelo e o impulso para o bem, para a liberdade, para o compromisso e a fraternidade. Mas por outro, sentimos também a sedução e a tendência para o egocentrismo, o prestígio e os instintos de poder e posse. Sentimo-nos simultaneamente santos e pecadores, oprimidos e libertados.
As tentações sempre estão diante de nós, como pedras que se convertem em pães, como aplauso buscado a partir dos critérios do mundo, ou como joelhos que se dobram frente às promessas de um ídolo com pés de barro.  São dinamismos que bloqueiam o fluxo da vida, impedindo-a de se expandir e de se colocar a serviço de outras vidas.
Ser tentado é próprio do humano, mas o que é divino pode também ser encontrado em nosso interior.
Quem é conduzido pelo Espírito, é capaz de acessar à própria interioridade e não se deixa enredar pelos estímulos externos nem pelos impulsos egóicos.

Diante das tentações do poder, do ter e do prestígio, o(a) seguidor(a) de Jesus responde com a partilha, o serviço, a comunhão, a solidariedade... O tempo quaresmal vem ativar esse dinamismo expansivo. E a Campanha da Fraternidade nos motiva a fazer da vida um grande dom e um profundo compromisso.
Só quem se deixa conduzir pelo Espírito, como Jesus, consegue romper com tudo aquilo que atrofia a vida; só assim consegue fazer o salto libertador
Trata-se de ser dócil para deixar-se conduzir pelos impulsos do Espírito, por onde muitas vezes não entende e não sabe. É Ele que ativa o que há de melhor em si mesmo, expandindo sua vida em direção aos valores do Reino: desapego, serviço, esvaziamento do ego...
Na realidade, só existe uma “grande tentação” para os cristãos: a tentação radical da infidelidade a Cristo e a seu Reino. É a tentação de traçar para si mesmo um caminho, isto é, de projetar uma vida para si, dando uma direção diferente daquela que lhe deu o próprio Deus. Esta é a maneira de trair o melhor de si mesmo, de renunciar ao que há de melhor em si mesmo. Tentação essa que significa o fracasso da própria vida.


Texto bíblico: Mt 4,1-11

Na oração:
Diante de “Jesus tentado”, recorde experiências pessoais de tentação: quais são aquelas que mais lhe afetam e lhe seduzem? Como você procede para não se deixar conduzir e nem se determinar por elas?
- Recorde dimensões da vida que precisam ser ampliadas a partir da experiência do deserto. 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

QUARESMA: Cinzas que dão vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho da Quarta-feira de Cinzas, que inicia o Tempo Litúrgico da Quaresma.


“E o teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa” (Mt 6,4)

Com a cerimônia da “imposição das Cinzas”, toda a Igreja dá início ao percurso Quaresmal. Neste tempo litúrgico, inspirados pelo tema da CF2020, teremos a oportunidade de experimentar um modo diferente de viver, onde a verdadeira liberdade terá a chance de se expressar.
Quaresma pode ser escola de vida para o restante do ano; é tempo favorável para “ordenar a própria vida” na direção do sonho de Deus para toda a humanidade. Para que este processo de “ordenamento” aconteça, o tempo litúrgico quaresmal nos convida a “considerar” as nossas relações vitais: com Deus, conosco, com os outros e com o mundo.
Nem sempre sabemos viver de maneira intensa: conformamo-nos com uma vida estreita, estéril, fechada ao novo, carregada de “murmurações”... O dinamismo do seguimento de Jesus, no entanto, é gerar vida, possibilitar que o(a) discípulo(a) viva a partir da verdade mais profunda de si mesmo(a); ou seja, viver a partir do coração. O seguimento proporciona vigor inesgotável, a vida se destrava e torna-se potencial de inovação criadora, expressão permanente de liberdade, consciência, amor, arte, alegria, compaixão....
Por isso, o sinal decisivo de que alguém crê no Deus de Jesus está na vida que leva; ou seja, está na experiência de viver como viveu Jesus de Nazaré.
Distanciar-se da vida superficial-consumista e eleger a vida plena, profunda, comprometida: aqui está o sentido do “percurso quaresmal”

Em sintonia com toda as comunidades cristãs somos chamados a viver o “tempo quaresmal” sempre de maneira nova e inspiradora. O centro de nossa vida é Jesus Cristo, sua pessoa, sua mensagem, o mistério de sua morte e de sua ressurreição. O caminho do seu seguimento é sempre rico e surpreendente. Muitas vezes, corremos o risco de viver o tempo litúrgico da Quaresma como uma celebração rotineira, algo já conhecido.
Contemplando Jesus Cristo, descobrimos também quem somos nós. Ele nos interpela: que queremos fazer de nossa vida? Como queremos viver? Para quê e para quem vivemos?...
Nesse sentido, através da Campanha da Fraternidade, a Igreja no Brasil nos motiva a viver a Quaresma como um tempo privilegiado para dar um novo sentido à nossa vida. Através do tema “Vida, dom e Missão” e do lema “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”, somos movidos a desatar todas as ricas possibilidades e recursos que querem se expressar e que se encontram no mais profundo de nossa interioridade.
A imagem de Jesus, presente junto às vidas feridas e bloqueadas, nos ajuda a conhecer nossa própria interioridade e desperta nossa vida, arrancando-a de seu fatal “ponto morto”, de seus limites estreitos e constituindo-a como vida expansiva em direção a novos horizontes.
Nesse sentido, nossa quaresma torna-se um “estar com Jesus” para, como Ele, dar a Deus o lugar central de nossa vida. A quaresma é um tempo em que damos maior liberdade a Deus para agir em nós; é abrir espaço, alargar o coração para a ação de Deus. É tempo de re-construção de nós mesmos (conversão), de retomada da opção fundamental por Deus e pelo seu Reino (maior serviço, mais compaixão, mais partilha, mais solidariedade...).

O Evangelho da 4ª. feira de Cinzas fala das “práticas quaresmais” da oração, esmola e jejum, onde nossas relações são iluminadas e questionadas pelo modo de viver e de proceder de Jesus.
São três gestos que nos humanizam e tornam a vida mais leve e com sentido; eles condensam o sentido da vida cristã e apresentam-se como uma alternativa privilegiada para viver com mais intensidade.
A vida é um abrir-se aos demais (esmola), sintonizar-se com o coração de Deus (oração) e colocar ordem na própria existência (jejum).
É preciso criar espaço novo no coração e na mente, para que coisas novas aconteçam.
Sintonizados com o lema da CF – “viu, sentiu compaixão e cuidou dele”a Quaresma é também um tempo privilegiado para re-educar a olhar: superar o olhar possessivo, interesseiro, frio... e entrar em sintonia com o modo de olhar de Jesus, ou seja, olhar carregado de admiração, compaixão, calor humano... Este tempo litúrgico nos move a fixar o olhar naquilo que vivemos, a contemplar tudo o que compõe nossa existência, para dar um novo sentido e significado.
Como o bom samaritano, precisamos re-aprender a olhar, para nos deixar impactar pela situação dos outros, sobretudo dos mais carentes e excluídos. Nesse sentido, as três práticas quaresmais – “jejum, oração e esmola” – implicam também uma conversão do olhar, para captar o mistério da vida que nos envolve e nos aproximar d’Aquele que é Fonte da Vida.

A liturgia quaresmal nos propõe o jejum; aqui, a novidade não está tanto em reduzir o que comemos, o que ingerimos de uma maneira quase mecânica. O jejum também tem a ver com o sentido da visão: olhar a nós mesmos, fixar a atenção naquilo que nos alimenta, ativar a prática de nos olharmos com mais compaixão; talvez, afastar de nós aquele olhar que nos destrói por dentro, que nos causa dano, que bloqueia a expressão de nossa verdadeira identidade.
O olhar é o reflexo de nossa interioridade; ele tem um grande poder porque deixa transparecer o que acontece e o que sentimos por dentro.

A outra prática quaresmal proposta é a esmola; dar o que temos, não o que nos sobra; aqui significa compartilhar um olhar novo, que eleva o outro, que consegue perceber nele um tesouro escondido, olhar humanizante e humanizador; tem a ver com o presentear ao outro um olhar de consolo, de acolhida, de cui-dado, de sorriso...; acostumamos a “ver” as coisas, as pessoas e, de tanto ver, banalizamos o olhar, perdendo a capacidade de despertar assombro e encantamento. Vemos e não olhamos. O que está próximo de nós, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual vai se estreitando e tudo se torna rotina.
É salvífico ativar o olhar mais expansivo e contemplativo, um olhar que nos faz sair de nós mesmos, conduzindo-nos à admiração e ao encantamento diante do dom maravilhoso da vida, em suas múltiplas expressões. Olhar que desperta a gratidão e o louvor. Um olhar que deixa transparecer, neste tempo propício, que a Vida com maiúscula é possível.

E, finalmente, a prática quaresmal por excelência: a oração. Deixemos retumbar dentro de nós a pergunta: “a partir de onde você olha?” A liturgia nos pede, neste tempo litúrgico, que sejamos capazes de olhar a partir de Deus; que fixando nosso olhar no Senhor Jesus, sejamos capazes de olhar-nos com mais bondade, de olhar os outros com mais carinho, de olhar a criação com mais admiração. Só assim teremos olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo.
Quaresma é um tempo para nos deixar olhar por Deus, para descobrir o olhar em cada irmão e aprender a olhar como Deus olha, porque um olhar Seu, bastará para nos fazer “converter e crer no evangelho”.
“Um olhar contemplativo percebe sinais de evangelho nos acontecimentos mais simples” (Ir. Roger).

Quaresma é um convite a começar outra vida, a concentrar nossas energias e a nos deslocar em outra direção. Nesse sentido, a vivência quaresmal é uma verdadeira “escola de vida”, cujo aprendizado nos leva ao centro do nosso ser, para enraizar nossa vida no coração da Trindade, dele haurir a seiva da vida divina e deixar-nos plenificar pela graça transbordante de Deus.
Nada mais contrário ao espírito do Evangelho que a vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores... É vida em movimento, gesto de ir além de nós mesmos; vida fecunda, potencial humano. Vida com fome e sede de significado, que busca o sentido... Vida que é encontro, interação, comunhão, solidariedade. Vida que é seduzida pelo amor, pela ternura. Vida que desperta o olhar para o vasto mundo. Vida que é voz, é canto, é dança, é festa, é convocação...


Texto bíblico:  Mt 6,1-6.16-18

Na oração:
- Torne o seu coração vulnerável ao olhar do Pai, receptivo a todo apelo que vem d’Ele, deixando-se tocar pelo inesperado, pela novidade, pela iniciativa amorosa de Deus.
- Evangelizar o olhar: aprender a olhar como Jesus, ultrapassando as aparências.
- Como você “olha” as pessoas, as coisas, os fatos, o mundo...?