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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Deus Trindade: circularidade-encontro-amor

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade da Santíssima Trindade.

“Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,17)

 

A festa do Deus Trindade e o evangelho deste domingo nos impulsionam a ir além dos conceitos doutrinários elaborados pela teologia para buscar de novo o rosto do Deus comunhão de Pessoas; não se trata de quebrar a cabeça para entender o “mistério” da Trindade, mas de abrir nosso coração e nossa vida para acolher o Deus Uno e Trino que se comunica a nós e nos põe em relação com Ele, com os outros e com suas criaturas; “mistério” que nos convida a um esvaziamento de nosso ego, da desapropriação de nosso querer e da doação para avançar na dimensão fraternal e comunitária.

Se aceitamos o convite de nos deixar guiar pela Trindade, encontraremos o Amor que esvazia o “meu’ e o “teu”, cria comunhão entre nós e com nosso Deus, nos define e plenifica, dá sentido e solidez à nossa vida, nos faz felizes. Assim nos aproximaremos da verdade de Deus e da nossa própria verdade.

Sabemos que no Amor não há solidão; se “Deus é Amor”, é comunhão de Pessoas. Criados à imagem e semelhança da Trindade amorosa devemos deixar transparecer esse mesmo amor nas relações com os outros. Somente corações carregados de amor acreditam no Deus Trindade; somente corações solidários creem no Deus comunhão de Pessoas. 

A fé na Trindade muda não só nossa visão de Deus, mas também nossa maneira de entender a vida. Confessar a Trindade de Deus é crer que Deus é um mistério de comunhão e de amor; não é um Deus fechado e impenetrável, imóvel, indiferente e impassível. Sua intimidade misteriosa é só amor e comunicação. Consequência: na profundidade última da realidade, dando sentido e existência a tudo, só há Amor. Tudo o que existe vem do Amor, é transparência do Amor.

Uma teóloga norte-americana (Sandra Schneiders) diz, com ironia, que temos reduzido a Trindade a um ancião, um homem jovem e um pássaro. Trata-se de recuperar uma experiência de Deus mais profunda para que aflore sua extraordinária riqueza. É preciso captar qual é a experiência fundamental que está escondida na afirmação cristã de que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. Esta perspectiva crítica não significa menosprezo de nosso passado cristão que, apesar das limitações e condicionamentos humanos, tentou explicitar as relações intra-trinitárias, que se visibilizam nos atributos de justiça, bondade e misericórdia presentes na humanidade e na criação inteira.

A teologia trinitária afirma que toda realidade é comunhão – dar e receber dons -, porque tem sua fonte e seu sustento no amor Trino eterno descrito por teólogos com o termo “perichoresis”, um abrir espaço dentro de si para que o outro seja: relação trinitária, comunhão de amor, em relação circular “em espiral no ritmo pericorético” (dança ao redor). Pericorésis-Kénosis-Ágape.

A leitura dos textos dos Padres da Igreja nos oferece uma maneira de compreender os passos desta “dança trinitária”, para que saibamos escutar a música do Espírito, viver a identificação com o Filho e deixar-nos conduzir pela Graça providente do Pai; à medida que o Deus Trindade vai infundindo seu amor em nós, nossas vidas se convertem em acontecimentos de graça, pois a vida de Deus se expressa e se expande em cada um de nós.

Isso significa que nada na Criação existe por si só ou para si só. As criaturas e toda a humanidade são marcadas, do início ao fim, pela necessidade de relação, de proximidade, de acolhida do diferente.

Se o mundo é nomeado como criação, e a criação narrada de uma maneira trinitária, o movimento do mundo deve sempre ser entendido e avaliado em termos do “movimento” entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Porque é da natureza do amor divino “abrir espaço” para que outros sejam e floresçam. O amor se plenifica em um mundo que contribui para o bem e a beleza da vida.

Se Deus cria um mundo, Deus também comunica seu próprio amor trinitário como base e meta da vida criada. Isso significa que, se queremos saber o que é a vida das criaturas, o que ela significa e para que serve, precisamos olhar para a vida do Deus Trino.

Deus está sempre presente no mundo como o sopro ou Espírito que o mantém, levando as criaturas para a plenitude da vida. Deus assumiu a carne das criaturas na pessoa de Jesus de Nazaré, para que nossa carne pudesse conhecer e participar da própria vida de Deus. A Trindade proporciona os contornos de uma visão do que as relações entre as criaturas devem ser.

Deus Trindade significa, portanto, a fonte de nosso ser, a profundidade última de nossa existência, a inspiração, a consciência... No mais profundo de si mesma, cada pessoa se experimenta como uma abertura de seu “eu” a um “tu” e ao “nós” que surge desse encontro. Assim trazemos impressa, na profundeza de nosso ser a imagem da Trindade. O que percebemos e sentimos em nós é um pálido reflexo de Deus, somos seus filhos e filhas e carregamos um sinal que é trinitário. “Nós não geramos a Luz, somos somente os raios desse grande Brilho” (K. Gibran). Fomos criados à imagem do Deus Trindade e, por isso, carregamos impulsos de comunhão, de proximidade, de compaixão...

Tudo isso nos afasta da tentação de “criar” um Deus de acordo com nossa medida, nosso capricho, para que não nos complique a vida, que não questione nossos próprios critérios, nossas crenças... 

Deus Trindade é vida, movimento plural. Não é um conceito abstrato, distante de nossa realidade, de nossos desejos mais profundos, não é um “ser” estático, imóvel. Não é um ser separado, mas Mistério inefável que perpassa tudo com sua Presença, habita em tudo e em tudo se manifesta com seus atributos de bondade, misericórdia, amor, justiça...

Criados à imagem de Deus, a Trindade nos revela o mais profundo de nós mesmos, nossas aspirações e desejos, inclusive aqueles dos quais não somos ainda conscientes, porque nossa realidade não se esgota em nós mesmos, nos transcende e nos configura com o mesmo Deus.

E isto é magnífico, porque esse dogma, incompreensível e aparentemente estéril, se torna em algo decisivo para nós, porque este conhecimento de Deus orienta nossa vida, nos permite caminhar pela senda da verdade e, como consequência, é fonte de segurança e estímulo.

Descobrir Deus dentro de nós como um processo de geração, de aspiração, de emergência da Trindade no seu jogo de amor: isso é o céu.

Conforme esta compreensão, a Trindade aparece como Fonte da comunidade perfeita e dessa forma oferece um modelo de comunhão social para o mundo, ou seja, para os homens e mulheres, os idosos e as crianças, todos no grande baile da Vida. Partindo de sua participação no mistério divino, em gesto de fé, através do Espírito Santo, os cristãos devem construir uma sociedade que responda a esta dança doadora de vida e geradora de amor.

Por isso, a festa que celebramos hoje não é um “mistério incompreensível” para nossa mente sobre Deus Uno e Trino; é uma celebração de nossa capacidade infinita de ser comunhão na diversidade, de viver rodeados de um amor que não tem limites e de participar neste momento da história dessa identidade de filhos e filhas, que nos faz irmãos e irmãs de todos.

 

Santíssima Trindade | Arquidiocese de Goiânia


Texto bíblico: Evangelho segundo João 3,16-18

 

Na oração:

Deus é o Amante do mundo e de toda a humanidade; para Ele, nós não somos “seres de experimento”, mas meta de seu amor, porque Deus é Amor. O Amor é a realidade fundante, absoluta; o Amor rege o universo, o cosmos, a vida.

Somos chamados e ser “diáfanos”: pura transparência do Amor trinitário nas relações com as pessoas e no cuidado da Casa Comum (morada da Trindade).

- Quê gestos e atitudes assumir no cotidiano da vida para ser canal trans-missor do Amor trinitário.

sábado, 23 de maio de 2026

Viver em contínuo Pentecostes

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade litúrgica de Pentecostes (2026).

“Veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde eles se encontravam” (At 2,2)

 

A festa de Pentecostes está situada no contexto da Páscoa; mais ainda, é a culminação de todo o tempo pascal. A primitiva comunidade cristã sentiu que tudo o que estava acontecendo com ela era obra do Espírito. Tudo o que o Espírito tinha realizado em Jesus, estava agora realizando na comunidade e em cada um dos seus seguidores. 

Assim nos recorda o evangelho deste dia: a comunidade dos discípulos se encontrava desconcertada, temerosa e insegura, depois da morte de Jesus: numa casa com as portas fechadas. É nesse ambiente pesado que o Ressuscitado se faz presente, “sopra” o dom do seu Espírito. Trata-se do Paráclito, prometido por Jesus, que se revela como “Restaurador de sonhos”, “gerador de resistências”, “mobilizador de vidas” ...

Provavelmente, também nós hoje podemos experimentar algo similar. A impotência, o medo, o desconcerto e a incerteza nos atravessam, tanto no nível pessoal como comunitário, situados no contexto global de um mundo violento, em guerra contra a vida. São outras tantas feridas abertas, presentes em nosso contexto, que é preciso deixar o Espírito Sanador transitar por elas, pacificando-as, curando-as... Ele se manifesta como a pequena brasa que se oculta no rescaldo da destruição. A chuva apaga a chama, o vento dissipa a fumaça, mas debaixo de tudo continua presente uma brasa acesa, inextinguível. O Espírito é Aquele que sustenta o frágil alento de vida no império da morte.

Também para cada um de nós, celebrar Pentecostes significa descobrir a presença do Deus-Espírito em nosso interior e deixá-lo reacender a chama escondida nos escombros das feridas, dos fracassos, das dores... Pentecostes permanente significa abrir nossa casa interior e deixar que o Espírito circule livremente, despertando o melhor em cada um de nós.

Inicialmente, para o povo judeu, Pentecostes era uma festa para dar graças a Deus pela colheita, ou seja, pela Vida. Podemos dar graças pelo Espírito que nos habita sempre, tomar consciência de sua presença e de sua ação contínua em nossas vidas. O Espírito animou e orientou sempre a vida de Jesus de Nazaré: sua entrega aos outros, seu anúncio de uma sociedade diferente e fraterna, seus chamados ao amor...

Quando Jesus sentiu que a hora de sua morte se aproximava, convidou seus amigos e amigas a receberem o Espírito que Ele lhes enviava com uma nova força. Esse Espírito que já os habitava, devia fazer-se forte neles e orientar-lhes a vida em ausência física de seu Mestre e suas palavras. 

Os discípulos, angustiados pela dor, sentiram, alguns dias depois em meio ao luto, que essa presença de Luz, de Calor e de Vida lhes fazia arder seus corações e os chamava a uma nova missão: levar a mensagem evangélica a todos os rincões da terra.

A celebração de Pentecostes não pode se reduzir a um simples ritual, uma noite de tochas, velas, cantos. Este ritual só adquire todo seu sentido na medida em que ilumina nossa vida diária, nossas relações, projetos e decisões. Por isso, o tempo de Pentecostes é um convite a abrir espaço em nossas vivências e atitudes à Energia divina: o Espírito que nos chama à unidade, que nos convida ao amor, que nos motiva à entrega. É necessário deixar Pentecostes acontecer todos os dias, em cada momento, diante de cada decisão.

Esse Espírito se revela como Sabedoria que deve sempre acompanhar nossas pequenas ou grandes opções de vida, tornando-as mais oblativas, descentradas e comprometidas com a transformação da realidade. Mas, a sabedoria só pode chegar aos corações que albergam a humildade, a busca, o desejo permanente de alcançar novas metas e buscar novas sendas. O Espírito não deixa ouvir sua voz em meio ao consumismo, aos ruídos, às buscas de satisfações periféricas... A Sabedoria de Deus, sua Energia e Vento, nos fala no silêncio, na pergunta que cada situação nos faz, em meio à compaixão e às entranhas de misericórdia.

Dar graças ao Espírito por sua presença inspiradora e provocativa em nós, é assumir a vida a partir de seus critérios: buscar a profundidade de nós mesmos, trabalhar em prol da unidade essencial que torna mais humanos, construir projetos de irmandade universal, de acolhida e encontro, fazer do ágape nosso horizonte último... Pentecostes só pode ser uma festa na Assembleia cristã se essa mesma assembleia busca atualizar em suas rotas as palavras e os atos do Mestre Jesus da Galileia. E isto em meio a um mundo que destrói a Casa Comum, que explora os mais pobres, que alimenta guerras que destroem massivamente, um mundo que se move por entre as violências, ódios, mentiras, intolerâncias...

A assembleia cristã só pode celebrar Pentecostes quando a Vida de todo ser sobre a terra passa a ser o centro de suas preocupações e práticas diárias.

Sem o Espírito de Jesus, a Igreja é barro sem vida: uma comunidade incapaz de introduzir esperança, consolo e vida no mundo. Ela pode pronunciar palavras sublimas sem comunicar o alento de Deus aos corações; pode falar com segurança e firmeza sem alimentar a fé das pessoas. De onde vai tirar esperança se não é do alento de Jesus? Como vai defender-se da morte sem o Espírito do Ressuscitado?

Sem o Espírito criador de Jesus podemos acabar vivendo em uma Igreja que se fecha a toda renovação, não consegue sonhar grandes causas, atrofia-se numa liturgia estéril e repetitiva; sem o Espírito, o mais seguro é viver uma religião estática e controlada, que mude o menos possível; o que é recebido de outros tempos, petrifica-se e adquire valor perene; as novas gerações acabam celebrando sua fé vacilante com a linguagem e os ritos de outrora; os caminhos já estão demarcados antecipadamente e mata-se a possibilidade do novo.

No final de seu evangelho, João descreve uma cena inspiradora, no momento do encontro dos discípulos com Jesus ressuscitado. Segundo seu relato, o nascimento da Igreja é uma “nova criação”. Ao enviar seus discípulos, Jesus “sopra seu alento sobre eles e lhes diz: recebei o Espírito Santo”.

E esse Espírito “soprado” pelo Ressuscitado atua em nós e através de nós. Somos chamados a viver em contínuo Pentecostes. Alguns sinais de sua presença insinuante e inspiradora: quando alguém cai e é capaz de levantar-se; quando os excluídos sentem o renascer da esperança; quando o perdão tem a última palavra; quando o solitário encontra alguém que o escute; Ele se visibiliza no amor oblativo que não exige nada em troca; revela-se presente em meio à amizade, a alegria e o prazer de estar com os outros; deixa-se “ver” quando calam as palavras e falam os abraços; sorri quando deixamos ir embora o rancor e as velhas feridas; é mestre que nos ensina a acolher-nos como frágeis e limitados; é nosso apoio em meio ao medo e ao conflito; é fortaleza quando nos levantamos contra a injustiça...

O Espírito do Ressuscitado não é patrimônio de nenhuma religião; Ele está para além de toda religião, e continuará soprando, animando a vida o infundindo espiritualidade mesmo depois que todas as religiões, com suas crenças e doutrinas, ritos e normas, hierarquias e instituições, desaparecerem.

O Espírito não é confessional, não está ligado a nenhuma instituição religiosa, e menos ainda a nenhum privilégio de algum grupo religioso. O Espírito exige que as religiões abandonem suas pretensões de verdade, de poder e de domínio. Não há mais verdade nem mais bondade dentro que fora das religiões; não há mais bem-aventuranças de Jesus dentro que fora das igrejas cristãs.

Torrentes de novos carismas emergem por todos os poros da humanidade; é o mesmo Espírito que os desperta, que está por detrás de cada um deles, fazendo com que não sejam abortados, mas que sejam cuidados, alimentados, até florescer totalmente. 

O Espírito é o mesmo em tudo e em todos, e nos impulsiona para a mesma meta. Uma maior humanização será a manifestação de sua presença; o maior compromisso com os demais é a melhor prova de que alguém está se deixando conduzir pelo mesmo Espírito de Jesus.


Liturgia: Solenidade de Pentecostes – Portal da Diocese de Taubaté

 

Texto bíblico: Evangelho segundo João 20,19-23

 

Na oração: 

- Viva a energia divina de Pentecostes ao longo deste ano; não apague a brasa interior com complexos, medos, resistências, petrificações, sentimentos doentios...

- Abra portas e janelas de seu interior, para que a “Ruah” de Deus circule livremente, trazendo um novo alento, despertando nova criatividade, rompendo com o rotineiro, ampliando mente e coração...

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O Espírito da Verdade desvela nosso ser verdadeiro

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho do 6º Domingo da Páscoa (Ano A - 2026).

“Vós o conheceis, porque Ele permanece junto de vós e estará dentro de vós” (Jo 14,17)

 

Segundo o evangelista João, Jesus não prometeu um magistério externo com dogmas e doutrinas; tampouco deixou uma estrutura de poder ou uma organização religiosa. Sua verdade se expressa no ensino interior do Espírito, que atua através do testemunho dos seus seguidores. 

Acolher o Espírito de Deus quer dizer deixar de falar só com um Deus a quem quase sempre o colocamos longe e fora de nós, mas aprender a escutá-lo no silêncio do coração. Deixar de pensar em Deus só com a nossa cabeça, e aprender a percebê-lo no mais íntimo de nosso ser.

O Espírito é “o Deus de guarda”: está em missão ativa desde o primeiro dia da Criação, na inspiração dos patriarcas e profetas, no momento da concepção de Jesus e em sua vida pública, quando do alto da cruz “entregou seu espírito”, como último alento nesta vida (Jo 19,30), no seu primeiro Sopro como Ressuscitado (Jo 20,22), nas línguas ou labaredas de fogo em Pentecostes (At 2,3-4).

Espírito da verdade sempre se manifestou e se revela como espírito forte, um vento e uma força que transforma os medrosos em valentes, os mudos em anunciadores, os desanimados em fiéis seguidores, comprometidos com a causa de Jesus, o Reinado do Pai.

O “Espírito da verdade” está sempre distante das instituições petrificadas e se revela presente nas situações mais surpreendentes.  Brisa suave, Vento impetuoso, Sopro primaveril, Hálito de vida, Línguas de fogo...: são diferentes formas de sua manifestação e que abrem nossas consciências, não nos deixa tranquilos, desperta o melhor que há em nós, nos impulsiona a viver o compromisso em favor da vida.

O Espírito nos livra da indiferença, do fantasma do relativismo. do medo à mudança, à pluralidade. Porque o Espírito nos ensina que a única coisa que não muda é seu Sopro que nos faz mudar, fazendo tudo novo.

Não é fácil expressar esta experiência. O Evangelista João chama “Espírito da verdade”. É uma expressão muito acertada, pois Jesus, que se deixou conduzir por Ele, revelou-se como força e luz que o fez “viver na verdade”. Qualquer que seja a situação em que nos encontremos na vida, acolher Jesus significa acolher seu Espírito em nós e que nos leva para a verdade.

O evangelista o chama também “Espírito defensor”, porque nos defende daquilo que nos poderia separar de Jesus. Este Espírito “estará sempre conosco”, continuará sempre vivo no mundo. Se o acolhemos em nossa vida, não nos sentiremos órfãos e desemparados.

O tempo pascal vem nos recordar que Jesus não prometeu uma sociedade sem excluídos, nem um mundo sem males, um corpo sem enfermidades, uma realidade sem conflitos; mas, sim, nos prometeu o Espírito Paráclito, que estará sempre conosco e tornará possível os sonhos de Deus sobre a humanidade. 

No atual contexto, marcado por tanto ódio e violência, descobrimos sementes de bondade espalhadas sobre a terra, uma primavera de boas atitudes, de amizade, de ajuda mútua, de criatividade... Quem vive bloqueado e petrificado é incapaz de descobrir o Espírito que sopra em toda a criação, em toda a humanidade e de conectar-se a Ele para poder respirar.

“Espírito da verdade” é o “Espírito do momento presente”. O Espírito não está no mais além, mas aqui, nos envolve e nos constitui em nossa essência; Ele não é patrimônio de nenhuma religião. É o fundamento de toda espiritualidade que responde à sede de transcendência, para que a vida seja algo mais que deixar passar o tempo, acontecimentos, etapas..., inclusive projetos, êxitos e fracassos. O Espírito nos lança para além de nosso individualismo absurdo e nos faz cair na conta de que não podemos buscar só nosso próprio bem-estar.

O Espírito Santo, é a “marca” de Deus no coração do ser humano, é a energia divina que nos faz capazes de participar do seu Reino, na condição de filhos e filhas, e continuar o caminho de Jesus, sem desviar-nos por outros caminhos, seduzidos por outros “espíritos”.

Espírito do Ressuscitado, neste momento crucial da história, remorde nossas consciências e nos desafia a romper nossas atrofias; uns, conduzidos por Ele, transformam por completo seu estilo de ser para uma vida mais ecológica e despojada; outros salvam vidas, literalmente, dos ventos tempestuosos do mar ou dos desertos que separam países e fronteiras; outros ainda se atrevem enfrentar as máfias das drogas, das armas e do tráfego de pessoas; há ainda aqueles que acreditam que as pessoas são “redimíveis” e podem se transformar em novos seres com o acompanhamento devido; outros se fazem eco do Espírito em despertar consciências: sabem ler ler os sinais de seu tempo e não se amedrontam diante dos ventos contrários, da perseguição; têm consciência de sua missão profética na sociedade porque não buscam nem alimentam vaidade; sua autoridade não procede de seus conhecimentos, mas de seu interior, do espírito.

Ninguém nos poderá destruir, pois somos morada do Paráclito. O Espírito e nós não somos dois; somos “seres espirituais vivendo uma aventura humana” (Theilhard de Chardin).

Na nova perspectiva, o Espírito é não-separado de nada; mais ainda, é o “núcleo” de tudo o que existe, a “outra face” de todo o invisível.

Como “Espírito da verdade”, Ele des-vela nosso ser essencial, é o grande multiplicador do melhor de cada um, o portador das “células-tronco” de nossa vida interior. O Espírito nos faz forte em nossa fraqueza e nos faz amadurecer quanto mais nos humanizamos. Seu modo de nos proteger é abrindo-nos; seu modo de nos defender é desarmando-nos e quebrando nossa rigidez. Soltar as asas nos momentos mais petrificados e pesados de nossa vida é sinal de sua silenciosa Presença. De imediato, nos sentiremos livres do peso que fomos arrastando durante tanto tempo e nos atreveremos a “viver como filhos e filhas do Vento”.

O quarto evangelho nomeia o Espírito como “Defensor” (“Paráclito”) e afirma algo completamente novo: “vive em vós e está em vós”. É assim: o Espírito – outro nome para referir-se Àquilo que está mais além de todos os nomes – constitui simplesmente nossa mais profunda identidade. Nossa existência é expansão do Espírito, vivendo em cada um de nós uma aventura humana.

Tal reconhecimento não significa uma inflação do ego, mas, pelo contrário, sua dissolução. Porque não está identificando nosso “ego” com o Espírito, mas afirmando que o Espírito é a identidade real que transcende por completo o ego, “des-egocentrando-nos” por completo. 

Ali onde nosso ego se esvazia, o Espírito toma o lugar que lhe pertence desde o princípio e para sempre.

Esse lugar não é um espaço físico nem está situado no tempo, senão que esse lugar está dentro, vai conosco lá onde vamos. São “terras do Espírito”, e habitá-las é nossa promessa.

A humanidade sempre sonhou e buscou a “terra prometida”; no entanto, esta não se reduz a um lugar geográfico ou um espaço paradisíaco. São as “terras do Espírito”, terras prometidas a nossos pais e mães que viveram a partir de sua própria interioridade.  É preciso descalçar-nos para entrar nessas terras, tornar-nos cada vez mais leves, mais humildes, peregrinos... Quem se deixa conduzir pelo Espírito, nenhuma terra lhe é estranha; ao contrário, tudo lhe é familiar. 


Os 7 dons do Espírito Santo - saiba quais são eles | WeMystic Brasil

 

Texto bíblico: Evangelho segundo João 14,15-21

 

Na oração: 

Na Igreja, fala-se muito do Espírito, mas, onde e quando escutamos sua presença silenciosa no mais profundo do coração? Onde e quando acolhemos o Espírito do Ressuscitado em nosso interior? Quando vivemos em comunhão com o Mistério da Trindade a partir de dentro?

- No silencioso sussurro da voz do Espírito toda realidade interior fica abençoada: os sentimentos contraditórios, os dinamismos opostos... Ele “desce” para encontrar-nos e despertar nossa vida atrofiada. Com seu toque, uma identidade nova ressurge: não seremos mais estrangeiros, nem inimigos de nós mesmos. Sua presença dá calor e sabor à nossa existência.

- O Evangelho é experiência de nascimento: faz-nos ver que somos filhos(as) de Deus, com Jesus, no Espírito. 

sábado, 10 de janeiro de 2026

Batismo: filhos(as) no Filho

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ como sugestão para rezar o Evangelho da Festa litúrgica do Batismo de Jesus.

“Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado” (Mt 3,17)

 

Celebramos hoje o verdadeiro nascimento de Jesus. Ele mesmo nos disse que o “nascimento pela água e pelo Espírito” era o mais importante. 

Jesus, já um homem adulto, aproxima-se de João Batista para ser batizado por este profeta, a quem seguramente o escutara atentamente. Provavelmente, a pregação daquele homem de aparência excêntrica, tinha provocado já “algo” no mundo interno de Jesus. Quem sabe, aquelas palavras enérgicas que João gritava com força, junto ao rio Jordão, anunciando a iminente chegada do Messias e a exigência de conversão, tenha lhe despertado uma vibração, desde o mais fundo de seu coração.

Conduzido pela mão do Pai, saiu Jesus de Nazaré e foi batizar-se junto com todos os pecadores e pecadoras de seu tempo, que acudiam a receber o banho regenerador do batismo de João.

Por isso se situou na fila dos pecadores, sem julgar ninguém e sem medo de sua própria humanidade. Assim se mostrou ao mundo e assim reconheceu sua própria vocação de entrega.

Mas Jesus, imediatamente após descer às águas do Jordão, sai do rio, passa da água como lugar da morte à água como símbolo da vida, como no Êxodo de Israel, antecipando sua Páscoa, sua “passagem” da morte à sua gloriosa ressurreição e sua ascensão ao Pai.

O encontro com João Batista foi para Jesus uma experiência que transformou sua vida: ali tomou consciência de ser o Filho amado do Pai, o Messias esperado por gerações. Por isso, depois do batismo, Jesus não voltou mais ao seu cotidiano em Nazaré; tampouco aderiu ao movimento do Batista. Sua vida passou a estar centrada num único objetivo: proclamar a todos a Boa Notícia de um Deus que quer salvar o gênero humano.

O que transformou a trajetória de Jesus não foram as palavras que escutou dos lábios do Batista, nem mesmo o rito de purificação do batismo. Jesus viveu algo mais profundo; sentiu-se inundado pelo Espírito do Pai, aquele mesmo Espírito que pairava sobre as águas no início da Criação. Jesus reconheceu a si mesmo como Filho de Deus. De agora em diante sua vida consistirá em irradiar e contagiar esse amor insondável de um Deus Pai, providente e cuidadoso.

Ao saber-se e sentir-se amado infinitamente por um Deus que o chama “Filho amado”, Jesus descobriu, para si e para todos, o eixo do equilíbrio emocional, mental, espiritual. O amor que experimentou na descida ao Jordão se transforma em chamado vocacional, em investidura para uma missão universal e libertadora.

Cessou o tempo da espera, abriu-se o céu, escutou-se uma voz. E o Homem Jesus, equilibrado pelo Amor que experimentou em seu interior, começou a transformar as mentes e corações desequilibrados por falsas religiosidades que geram temor e submissão.

batismo e as tentações de Jesus falam da profunda transformação que provocou nele uma experiência que se prolongará durante anos. Duas cenas decisivas que confirmam sua filiação divina e o que Ele devia ser para os demais. Descobriu o sentido de sua vida.

No brevíssimo diálogo entre Jesus e João Batista, Mateus expressa que Jesus rompe todos os esquemas do messianismo judaico. Não é o fato de batizar a Jesus que o Batista custa aceitar, mas o significado de seu batismo, que desloca a ideia do Deus como “juiz poderoso”, que João manifestava em suas pregações. 

Só depois de ser batizado, a partir de sua própria experiência interior, Jesus vai além da mensagem de João e começa a pregar sua própria mensagem, na qual a ideia de Messias e de Deus que o Batista havia pregado, fica notavelmente superada.

Tudo isso preparou Jesus para uma experiência única. Os céus se abriram e Ele viu claro que o Pai o confirmava como Filho e o que esperava dele.

Jesus não foi um extraterrestre de natureza divina que estava dispensado da trajetória que todo e qualquer ser humano precisa percorrer para alcançar sua plenitude. Nem sempre levamos a sério essa experiência humana de Jesus. Mas, os primeiros cristãos tomaram muito a sério a humanidade de Jesus. Falar que Jesus fez um ato de humildade ao colocar-se na fila dos pecadores, embora não tivesse pecados, é pensar em um ato teatral que não tem nada a ver com a personalidade de Jesus.

Muitas vezes, nós nos aproximamos do relato do batismo com certos pré-juizos. O primeiro, é esquecer-nos que Jesus era plenamente humano e precisou ir aclarando suas ideias e discernindo sua missão.

Em segundo lugar, o conceito de pecado e conversão não tem nada a ver com o que até então era compreendido. Entendemos a conversão como um sair de uma situação de pecado. O que é narrado no batismo é uma “autêntica conversão de Jesus”, e isso não tem que supor uma situação de pecado, mas uma tomada de consciência daquilo que significa para um ser humano alcançar a plenitude de uma meta, ainda não conseguida.

Muitos dos estudiosos da Bíblia se perguntam se Jesus tinha neste momento de sua vida uma consciência plena de sua missão, ou se a foi descobrindo pouco a pouco, através dos mesmos acontecimentos históricos que seguiram, a partir desta decisão.

Jesus, no batismo, ao receber o Espírito, é ungido, é consagrado para sua missão, é constituído Messias.

Jesus de Nazaré, a partir do batismo, é o Cristo, que significa o “Ungido”. A partir disso, compreende-se o sentido profundo da sua ida ao deserto, que Mateus narra como fruto da moção do Espírito.

Sabemos que todo ser humano sente em seu interior a força do Espírito que rompe as barreiras de seu egoísmo, que o expande para além de si mesmo, que o arranca de seus “lugares estreitos” ...

Nesse sentido, o batismo significa uma experiência de rompimento de fronteiras profundas, de deslocamento para novos horizontes, de alargamento do coração... um movimento de expansão de todo o ser. “Experiência” que implica emoção e descoberta, com sabor do risco, da criatividade, da ousadia...

Da experiência batismal emerge uma pessoa internamente reconstruída, com vontade de sair daquilo que a limita, empobrece, degrada...; é a experiência de alguém que é impelido a lançar-se, a assumir novos riscos, a deslocar-se para as novas encruzilhadas de si mesmo e da história.

Para “viver o batismo”, é preciso tornar-se velejador de mar aberto, livre e desprendido, abrir-se para o novo e diferente, deixando-se conduzir pela correnteza do rio... e “passar para a outra margem”.

Essa “travessia” exige mudança de atitude, pôr-se a caminho, êxodo, sair-de-si... Sair da margem conhecida, velha, rotineira... para encontrar a nova margem da relação, do compromisso, dos sonhos...;

lugar provocador de mudanças, de onde brotam as grandes experiências, as intuições, os ideais vitais...

Talvez por isso, também nós não tenhamos reconhecido Cristo em nosso batismo. Porque O temos buscado em outras filas, em outros rios e com outros “joãos”. Falta-nos uma iluminação do céu para escutar a voz do Pai e reconhecer a Cristo detrás de nós, ou adiante, ou ao lado, como um de tantos.

Recolhamos o essencial do relato do Batismo no qual somos convidados a escutar, como Jesus, essa Voz que indica nossa raiz divina e nossa dignidade humana, nossa identidade de filhos e filhas, cuja consequência nos compromete a olhar os outros como irmãos e irmãs, na solidariedade incondicional, na igualdade enquanto dignidade, direitos e oportunidades.

O importante para nós é buscar descobrir o que aconteceu no interior de Jesus e ver até que ponto podemos nos aproximar dessa mesma experiência.

Só aqueles(as) que se submergem nas águas amorosas da graça, saem empoderados de Espírito e filiação. E vão descobrindo o lugar, a sua missão, a sua maneira original de viver o seguimento de Jesus.

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 3,13-17

 

Na oração: 

-Oxalá, ao ler ou escutar o evangelho de hoje, sintamos uma sacudida interior e nos despertemos ao perceber que, em Jesus, todos fomos citados pelo Deus-Abbá: “tu es meu(minha) filho(a) amado(a)”.

- Oxalá, o Espírito Santo nos ajude a compreender que somos filhos(as) amados(as), não servos(as); e que fomos salvos gratuitamente. Se descobrirmos que todo ser humano é filho(a) amado(a), terá acontecido um milagre.

sábado, 14 de junho de 2025

Trindade: Pai, Palavra e Vento

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho da solenidade da Santíssima Trindade.

“Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade” (Jo 16,13)

 

Todos nós já experimentamos, muitas vezes, a impossibilidade de comunicar algo muito profundo que sentimos ou vivemos; temos consciência de que não conseguimos nos fazer entender, porque não encontramos as palavras apropriadas para expressar nossos sentimentos mais nobres, nossos desejos mais oblativos, nossas inspirações mais elevadas. As palavras sempre são pobres e limitadas, pois não conseguem abarcar e expressar nossa realidade mais profunda

As palavras são, de fato, o comunicador menos eficaz. São mais sujeitas a erros de interpretação e compreensão. E por que isso ocorre? Devido ao que as palavras são; elas são meramente expressões orais: ruídos que representam sentimentos, pensamentos e experiências; as palavras são símbolos, não são a verdade, a coisa real. As palavras podem nos ajudar a “entender” algo, mas é a experiência que nos permite “saber”, no sentido de saborear.

Algo semelhante ocorre com o Evangelho deste domingo, festa da Santíssima Trindade. O que Jesus tinha a dizer para seus discípulos, o que gostaria de lhes comunicar, excedia a capacidade de compreensão deles. Foi preciso que eles vivessem um processo no qual o Espírito, lentamente, os conduziu à verdade plena, completa. O verbo que João usa - conduzirá à plena verdade – evoca o colocar-se em movimento, dirigir-se para... Não se trata de compreender algo racionalmente, mas de situar-se de outro modo diante do Mistério de Deus, numa atitude de abertura e acolhida.

Ao longo dos séculos, os teólogos realizaram um grande esforço por aproximar-se do mistério de Deus, formulando com diferentes construções conceituais as relações que vinculam e diferenciam as três Pessoas divinas no seio da Trindade. Esforço louvável, sem dúvida, nascido do amor e do desejo de Deus.

No entanto, eles abandonaram o estilo de Jesus, pensaram que com a razão poderiam ter acesso à intimidade de Deus; esqueceram a centralidade da experiência d’Ele e elaboraram alguns conceitos que passaram longe do mistério inesgotável da Comunidade Divina.

De fato, de Deus só conhecemos o que Ele mesmo revelou de si mesmo. Por isso, o ponto de partida deve ser sempre Jesus, porque o eixo fundamental de quem o segue é crer n’Ele como visibilidade de Deus, sem pôr em dúvida sua humanidade. Deus se dá a conhecer a nós em Jesus e se comunica conosco através de Jesus; portanto, crer n’Ele é crer que, não só seus ditos, mas toda sua vida é “Palavra de Deus”. Ele é a presença visível da comunhão Trinitária. Jesus não fala muito de Deus; simplesmente nos oferece sua experiência de Filho.

E Jesus é bem claro: O Pai vive n’Ele e Ele no Pai; e a Trindade vive também em nós. Somos moradas da Santíssima Trindade. Pertencemos ao mistério de Deus. E Deus pertence ao mistério de cada ser humano.

A Trindade habita em nós e nós habitamos nela. Não estamos vazios; podemos estar sozinhos, mas não vazios. Pode acontecer que não estejamos em nossa casa, mas continuamos habitados; pode ser que não tenhamos com quem falar, mas sempre tem os Três com quem dialogar todo dia. Pode ser que ninguém nos conheça, mas sempre há em nós uma Presença que nos conhece profundamente.

Esta experiência de “habitar” na Trindade e deixar que a Trindade nos “habite” pode transformar a raiz de nossa existência. Quanta nobreza! Esse intercambio mútuo, esta comunhão estreita, difícil de expressar com palavras, constitui a verdadeira relação do(a) discípulo(a) de Jesus com a Trindade. Aqui está a essência da nossa verdadeira identidade: somos sustentados(as) pela força e pela providência trinitária.

É preciso também ter presente que o dogma da Santíssima Trindade se revela muito distante para a linguagem de hoje e a razão não nos ajuda a viver este Mistério. No entanto, se formos além da sua formulação dogmática, poderemos descobrir a raiz evangélica que nela se esconde, ou seja, é em Jesus que descobrimos que Deus é para nós “Abbá, Verbo e Ruah” (Pai, Palavra e Vento).

Contemplando a Jesus vemos, pois, que Deus é o Pai Providente que sempre nos ampara, a Palavra que nos guia pela vida e o Vento que nos ajuda a caminhar. Deus se comunica conosco (Palavra), atua em nós (Espírito) e é nosso Pai (Abbá). E isto significa que Deus não é um ser “misterioso” e insondável, mas um Semeador que espalha a semente da Palavra continuamente e nos consola em nossa peregrinação pela vida.

De fato, quando escutamos Jesus falar de Deus, ou quando Deus nos fala de si mesmo através de Jesus, ficamos assombrados, porque não menciona nenhuma das qualidades maravilhosas que sempre lhe atribuímos, mas nos fala de Abbá, o Pai que sai, a cada entardecer, a esperar pela volta do seu filho perdido.

Jesus chama Deus de “Abbá” e o experimenta como um mistério de bondade; revela como uma Presença bondosa que abençoa a vida e atrai seus filhos e filhas a lutar contra tudo o que causa dano ao ser humano. Para Jesus, esse mistério último da realidade que chamamos “Deus” é uma Presença próxima e amistosa que está abrindo caminho no mundo para construir, conosco e junto a nós, uma vida mais humana.

 

Quando vemos Jesus dedicar sua vida a ensinar e a aliviar o sofrimento humano sem descanso, ou o vemos rodeado de multidões que lhe seguem fascinados, ou escutamos seus critérios poderosos de vida, ou o vemos capaz de levar sua fidelidade à missão até as últimas consequências... cremos que n’Ele “sopra” um vento irresistível, o “Vento de Deus”; é o mesmo Espírito (a Ruah de Deus) que impulsiona a humanidade e que atua em cada um de nós.

Jesus atua sempre impulsionado pelo “Espírito” de Deus; este é o amor do Pai que o envia a anunciar aos pobres a Boa Notícia de seu projeto salvador. É o alento de Deus que o move a curar a vida. É sua força salvadora que se manifesta em toda sua trajetória profética.

Este Espírito não se apagará no mundo quando Jesus se ausentar. Ele mesmo promete enviá-lo a seus discípulos. A força do Espírito os fará testemunhas de Jesus, Filho de Deus, e colaboradores do projeto salvador do Pai. Assim, como cristãos, vivemos na prática o mistério da Trindade.

Por fim, Jesus se experimenta a si mesmo como “Filho Amado” de Deus, nascido para impulsionar na terra o projeto humanizador do Pai e para levá-lo à sua plenitude definitiva, inclusive acima da morte. Por isso, busca em todo momento o que o Pai deseja. Sua fidelidade a Ele o conduz a buscar sempre o bem de seus filhos e filhas. Sua paixão por Deus se traduz em compaixão por todos aqueles que sofrem.

Em sintonia com o Pai, a existência inteira de Jesus consiste em curar a vida e aliviar o sofrimento, defender as vítimas e reclamar para elas justiça, semear gestos de bondade e oferecer a todos a misericórdia e o perdão gratuito de Deus: a salvação que vem do Pai.

Assim, somos um “mistério trinitário”; somos o mistério do Pai que nos gera; somos o mistério do Filho que nos revela a nós mesmos; somos o mistério do Espírito Santo que nos faz amadurecer em primavera de graça. Cada uma das Pessoas tem sua maneira original de agir em nós; cada uma tem sua própria obra em nós; cada uma tem seu próprio momento em nossas vidas. E nós somos fruto das três Pessoas.



Texto bíblico: Evangelho segundo João 16,12-15

 

Na oração:

- Como traduzir hoje, através da arte, a imagem clássica da Trindade representando um ancião, sentado junto a outro varão mais jovem, uma pombinha no centro e uma multidão de anjinhos ao redor?

- Como traduzimos e vivemos a experiência de Jesus que nos convida a chamar “Abbá” Àquele que nos deu a vida e nos envia a comunicá-la aos outros? Como encarnamos suas palavras, seus gestos, suas prioridades para nos identificar cada vez mais com Ele?

- Como nos conectamos continuamente com o Paráclito que nos foi dado? Com que outras imagens e símbolos o expressaríamos hoje?


sexta-feira, 6 de junho de 2025

Somos argila, mas portadores do “Sopro vital”

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho da solenidade de Pentecostes.

“...mostrou-lhes as mãos e o lado; ...soprou sobre eles” (Jo 20,20.22) 

Chegamos à Páscoa do Espírito, o grande protagonista discreto que costuma passar despercebido; chegamos ao recomeço de uma nova história, de um presente criativo e de um futuro diferente. Chegamos, depois de cinquenta dias de encontros ressuscitadores, à possibilidade de “fazer novas todas as coisas”; recebemos Aquele que nos faz estremecer de esperança, que desperta grandes desejos e se revela como Alento vital.

Esta festa se enraíza na tradição judaica da Celebração das colheitas, quando eram oferecidos os primeiros frutos da terra, cinquenta dias depois da Páscoa; uma festa de agradecimento e fecundidade.

O Pentecostes cristão, no entanto, vem nos recordar que a humanidade não está abandonada por Deus, mas que o Espírito do Vivente está presente em nosso mundo e nas profundezas do coração humano; é Ele que sempre nos acode, com seu alento e consolo; é Ele que vem em auxílio de nossa fragilidade (Rm 8,26).

Na realidade, este dia festivo desperta a consciência de que somos “seres habitados” pelo Espírito, o Espírito do Senhor em nós. Às vezes, nem conseguimos percebê-lo, porque estamos envolvidos pela superficialidade da vida. Mas, em outras ocasiões sentimos de verdade que Ele está aí, no mais profundo de nosso ser. Ele sacode nossas entranhas diante da dor dos inocentes, e nos enternece com as coisas mais simples. Ele é presença e proximidade; se deixarmos guiar por Ele, não nos sentiremos sozinhos. Quando o esquecemos, Ele continua aí, sempre, paciente, esperando. Está dentro de nós sem nos anular, sem violentar. É companhia e refúgio, fortaleza e mistério, brisa e vento impetuoso.

Podemos, então, afirmar que o Espírito Santo faz parte de nós mesmos e não tem de vir de nenhuma parte. Está em nós, constitui nossa essência, antes mesmo que nós começássemos a existir. Ele é o fundamento de nosso ser e a causa de todas as nossas possibilidades de ser, enquanto humanos habitados. Nada podemos ser nem fazer sem Ele, mas tampouco podemos estar privados de sua presença em nenhum momento.

No início da Bíblia encontramos uma imagem muito bela e real do mistério da vida. Assim é descrita a criação do ser humano: O Senhor Deus modelou o homem do barro da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida, e ele tornou-se um ser vivente” (Gn 2,7).

O ser humano é barro; em qualquer momento pode desmoronar-se. Como caminhar com pés de barro? Como olhar a vida com olhos de barro? Como amar com coração de barro? No entanto, este barro vive! Em seu interior há um “sopro” que o faz viver; é o “sopro” de Deus, seu Espírito vivificador.

No relato do evangelho deste domingo, o Ressuscitado também “sopra” sobre sua comunidade, prolongando o Sopro original do Criador. A imagem de “soprar sobre eles” contém uma riqueza profunda: significa compartilhar o que é mais “vital” de uma pessoa, sua própria “respiração”, seu mesmo espírito, todo seu dinamismo; trata-se de uma imagem que faz sentir a respiração comum que se compartilha com Ele e com todos os seres vivos.

As angústias mais radicais do ser humano são reunidas e transformadas pelo sopro do Espírito: um sopro vital que possibilita a vitória da esperança contra o desespero, da comunhão contra a solidão, da vida contra a morte. A voz sopra onde quer, a Palavra vem do alto, o Espírito chega impetuoso rompendo o silêncio da morte. O Vento traz a vida, mas não se sabe de onde vem e nem para onde vai.

O Espírito é sopro, hálito, vento que gera vida, que move, impulsiona e sopra onde quer. De onde vem e para onde vai não é fácil dizer. É um Vento leve, refrescante, novo, penetrante, inovador; um sopro sutil, interior, profundo; um sopro que não pode ser detido, sufocado.

Homens e mulheres do Vento somos todos nós, quando nos deixamos mover de acordo com os movimentos do coração de Deus e da paixão pela humanidade. Movidos pelo Vento, pelo Espírito de Deus, acreditamos e construímos mediações libertadoras que promovem, incentivam e enobrecem o espírito humano. Preferimos a proximidade à distância, o dinamismo à inércia, a criatividade à normose.

O Espírito é o sopro que vivifica, anima, restaura e congrega. Pela linguagem do amor, acende a luz da paixão e permite desenvolver os dons da alegria, do entusiasmo, da compaixão, do cuidado, da esperança e da fé inabalável. Tais atitudes construtivas não são obra nossa, mas dom e fruto, isto é, algo de agradável, de fascinante, de belo, de alegre, de espontâneo, de saboroso como um fruto.

Elas nascem da árvore do Espírito. Nós as vivemos, mas é o Espírito que as desperta em nós, pois elas estão presentes como “reservas de humanidade” em cada um de nós.

Como “filhos e filhas do Vento” basta deixar-nos envolver, escutar o Sopro daquela voz que habita a dimensão mais profunda da vida e que se aninha nas cavidades mais secretas de nossa existência.

Assim, com a Revelação aprendemos que o ser humano é um “todo” e que o corpo humano está unido à terra e ao céu; é argila que vive do sopro vital de Deus. Tanto o sopro vital como a terra são do Senhor; entre si estão indissoluvelmente unidos e numa constante tensão. Somos “argila” habitada pela “Ruah” de Deus; somos corpo “animado” (com ânima), atravessado pelo Alento divino.

O Espírito necessita do corpo para expressar-se e o corpo sem o Sopro não poderia transcender-se. O passo mais decisivo nesta integração o encontramos na Encarnação de Jesus Cristo. Numa religião da Encarnação, como o cristianismo, é natural dar toda a sua importância ao corpo e às suas atitudes. O corpo não é o túmulo da alma, mas o templo do Espírito, o lugar onde o “Verbo se fez carne”. Por meio da Encarnação e por meio da Ressurreição de Jesus, a carne se converteu em espelho da divindade, atravessada pelo Sopro vital. Assim, o corpo humano começou a ocupar um lugar central.

Por isso, o Evangelho deste domingo também nos recorda algo sumamente importante: o Espírito brota do lado aberto e das mãos feridas do Ressuscitado; portanto, não é alheia à violência, à injustiça e ao sofrimento.

É a partir das marcas das feridas que o Espírito se derrama como bálsamo, como alento, como resistência, como energia..., para atravessar os “infernos humanos”, enfrentá-los com ousadia, denunciá-los e buscar coletivamente eliminá-los. O Espírito aparece sempre como “resistência”, atravessando e curando todas as feridas atuais: ódios, intolerâncias, preconceitos, mentiras, violências...

Por isso, celebrar Pentecostes nos incomoda e nos desinstala; a paz que o Espírito nos oferece não é tranquilizadora de consciência, mas uma provocação profunda para sairmos de nossos esconderijos e trabalhar em favor de uma vida esperançada e da reconciliação entre todos. Receber o Espírito nos move sempre à missão e esta não se sustenta com nossas próprias forças, mas que é recebida e alentada como uma brasa inextinguível que nos move sempre à gratidão e à gratuidade.

Texto bíblico: Evangelho segundo Joao 20,19-23

Na oração:

Sinta todo o seu corpo como um templo. E neste templo acolha o Sopro.

- Procure saboreá-lo internamente. E deixe atuar em você a força da inspiração e da expiração para que todo o seu

corpo seja iluminado e plenificado. Deixe vir a Luz e que ela penetre nas partes mais dolorosas do seu ser.

- Sinta que você é um corpo de argila e, também, um corpo de diamante.

- Simplesmente respire na presença d’Aquele que É.

- Com a argila de sua existência, aquecida pelo calor do Espírito de Deus, você pode transformá-la em material de uma nova experiência de vida. Não se trata de sufocar a vida, mas de torná-la leve e luminosa, mantendo límpida a sua fonte, livrando-a da camada de sentimentos doentios.

- Suplique com força: “Vem, Espírito Santo! Vem libertar-me do medo, da mediocridade e da falta de fé em tua força criadora!”

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Bem vindo, Leão XIV

O cardeal Robert Francis Prevost foi escolhido no Conclave para suceder o Papa Francisco e será conhecido a partir de agora como Leão XIV. 

A paz (citada dez vezes), a união entre os povos e o papel da igreja católica foram centrais no discurso do novo papa. Leão disse que pretendia trabalhar "com homens e mulheres fieis a Jesus Cristo sem medo para proclamar o Evangelho e para ser missionários."

Compartilhamos a seguir  a íntegra do discurso inaugural do novo papa:

A paz esteja com todos vocês!

Irmãos e irmãos, caríssimos. Esta é a primeira saudação do Cristo ressuscitado, um bom pastor que deu a vida pelo rebanho de Deus. Eu também gostaria que esta saudação de paz entrasse no coração de vocês, alcançasse a família de vocês e todas as pessoas, onde quer que elas estejam, todos os povos, toda a Terra. Que a paz esteja com vocês.

Esta é a paz de Cristo ressuscitado. Uma paz desarmada e uma paz desarmante, humilde e perseverante, que provém de Deus, Deus que nos ama a todos, incondicionalmente. Guardamos ainda nos nossos ouvidos aquela voz fraca mas sempre corajosa do papa Francisco que nos abençoava Roma. O papa que abençoava Roma e dava sua bênção para todo mundo naquela manhã do dia de Páscoa. Permito-me dar prosseguimento àquela mesma bênção. Deus nos ama e Deus ama todos vocês. O mal não irá prevalecer. Estamos todos na mão de Deus.

Portanto, sem medo, juntos, de mãos dadas com Deus e uns com os outros, prossigamos. Somos discípulos de Cristo. Cristo nos precede. O mundo precisa da Sua luz. A humanidade precisa Dele como a ponte para ser alcançada por Deus e por seu amor. Nos ajudem também, uns aos outros, a construir pontes, com diálogos, com encontro, em um único povo,sempre em paz. Obrigado, papa Francisco.

Quero agradecer também todos os irmãos cardeais que me escolheram como sucessor de Pedro para caminhar junto com vocês enquanto Igreja unida, sempre em busca da paz e da justiça, e sempre tentando trabalhar com homens e mulheres fieis a Jesus Cristo sem medo para proclamar o Evangelho e para ser missionários.

Sou um filho de Santo Agostinho, sou agostiniano. Sou cristão e, por vocês, bispo. E, nesse sentido, como ele disse, podemos caminhar juntos em direção àquela pátria para qual Deus nos preparou.

Para a Igreja de Roma uma saudação especial. Precisamos tentar juntos ser uma Igreja missionária, uma Igreja que constrói pontes e diálogo, sempre aberta a receber como nesta praça, com os braços abertos todos aqueles que precisam de nossa caridade, nossa presença, diálogo e amor.

[Fala em espanhol]

Se me permitem também dizer algumas palavras a todos aqueles a todos, em especial a minha querida diocese de Chiclayo, no Peru, onde um povo fiel acompanhou seu bispo, compartilhando sua fé, e deu tanto para continuar sendo uma Igreja fiel a Jesus Cristo.

[Volta a falar em italiano]

A todos vocês, irmãos e irmãs de Roma, da Itália e de todo o mundo, queremos ser uma Igreja sinodal. Uma Igreja que avança, que busca sempre a paz, busca sempre a caridade, busca sempre estar próxima, principalmente daqueles que sofrem.

Hoje, o dia da súplica para a Madonna de Pompeia, nossa Mãe, Maria, quer sempre caminhar conosco, estar próxima, e nos ajudar com sua intercessão e seu amor. Gostaria de rezar junto de vocês, vamos rezar juntos por essa nova missão de toda a Igreja e a paz no mundo, pedindo graças à Maria, nossa Mãe.

[Reza Ave Maria]

[Reza Urbi et Orbi em latim]

Que os Santos Apóstolos Pedro e Paulo, dos quais no poder e julgamento confiamos, estes intercedam por nós até o Senhor. Amém.

Que por meio das orações e dos méritos da Santíssima Sempre-Virgem Maria, de São Miguel Arcanjo, de São João Batista, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e de todos os santos, o Deus omnipotente mostre compaixão à vós, e perdoados todos os vossos pecados, Jesus Cristo vos conduza à vida eterna. Amém.

Que o Senhor Todo Poderoso e misericordioso vos conceda indulgência, absolvição, e remissão de todos os vossos pecados, espaço para um verdadeiro e frutuoso arrependimento, o coração arrependendo-se sempre, e a benção da vida, a graça, a consolação do Espírito Santo e perseverança final nas boas obras. Amém.

E que a bênção de Deus Todo Poderoso, Pai e Filho e Espírito Santo desça sobre vós e permaneça sempre. Amém.