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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Compaixão e partilha: verdadeiro sentido do seguimento de Jesus

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 18º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Jesus viu uma grande multidão e encheu-se de compaixão...”; “dai-lhes vós mesmos de comer!”


 

No evangelho deste domingo, Jesus é apresentado como compaixão, saúde alimento. Mas, tudo nasce da compaixão, ou seja, a comoção diante do sofrimento dos outros, que se traduz em ajuda eficaz. Não se trata de ter uma “piedade” passageira, nem de um mero movimento voluntarista, mas de um sentimento muito mais profundo que nasce da sintonia com a situação dos outros: quando calamos o “zunzum” dos pensamentos e o vai-vém dos sentimentos, emerge a “quietude” que somos e aparece a “essência” do nosso ser, que se mostra como Amor e Compaixão.

compaixão não é um atributo que apresenta uma solução mágica e simples aos problemas, mas sim amplia nossa visão da realidade e enraíza nossas decisões e nosso compromisso com a justiça. Pois a compaixão é algo mais que uma reação diante do sofrimento alheio: ela impulsiona à abertura e permite nos colocar no lugar ou na perspectiva do outro, hábito saudável no campo das relações humanas. 

Este foi o sentimento que balizou e deu a tônica no exercício da atividade de Jesus: a compaixão.

compaixão, que tomou conta do seu coração, era fruto do corajoso deslocamento para a margem, para a necessidade do outro. Os Evangelhos destacam os profundos sentimentos de humanidade, compaixão, empatia, ternura e solidariedademisericordiosa de Jesus. Porque amou e foi amado, o coração d’Ele experimentou a alegria e a tristeza, a felicidade e a saudade, a ternura e o sofrimento...

Assim era o Seu coração: feito com as fibras da fortaleza e da coragem, entrelaçadas com as fibras da compaixão e da ternura. Através de seus sentimentos Jesus revelou o rosto humano e misericordioso do Pai. 

A compaixão e a partilha são a chave de toda identificação com Jesus. É preciso sempre insistir nisto, porque é o tema central de todo o evangelho; no entanto, a maioria dos cristãos esquece essa realidade e se fecha em ritualismos estéreis, mortificações e penitências sem sentido, em devoções pessoais que não a move a viver numa atitude de abertura aos dramas dos outros.

Em vez de unir as forças para eliminar em sua raiz a fome no mundo, só vem à mente fechar-se no próprio “bem-estar egoísta”, levantando barreiras cada vez mais degradantes e desumanizadoras. Em nome de que Deus despede-se as pessoas para que afundem em sua miséria? Onde estão os seguidores e seguidoras de Jesus? Por que a compaixão está cada vez mais ausente dos ambientes ditos cristãos?... 

Por isso, o ponto focal do relato deste domingo está nas palavras de Jesus: “dai-lhes vós mesmos de comer!” Provocados por Ele, os discípulos se dão conta do problema e pensam na lógica “comercial”. Como tantas vezes dizemos ou pensamos, também eles disseram entre si: “o problema é deles, que resolvam!” 

Jesus, no entanto, rompe com toda lógica egóica e lhes propõe uma solução muito mais ousada.

Os discípulos lhe informam que “só temos aqui cinco pães e dois peixes”. Não importa. O pouco basta quando há partilha com generosidade. 

Jesus mobilizou seus discípulos para que fossem mediadores efetivos frente à fome do povo. É como se Ele dissesse a eles: “mobilizem e despertem as pessoas para que coloquem em comum os pães e peixes que trouxeram e eu os abençoarei! Que ninguém coma sozinho, pois o alimento é dom do Pai para todos! Vivei em contínua partilha se quiserem ser meus discípulos!”

Ele continua pedindo a seus seguidores para que se ofereçam a serem agentes da solidariedade, oferecendo o que são e tudo (o pouco) que tem. Então, a ração de três pessoas (cinco pães e dois peixes), se converte no incentivo para que todos tragam de sua pobreza e todo o povo de Deus possa ser alimentado, que é o que simboliza os “doze cestos”. 

 “Quanto o pobre acredita no pobre, já poderemos cantar: Liberdade!” (canto salvadorenho).

A fome é um problema demasiadamente sério para vivermos despreocupados e deixar que cada um procure resolver sua situação. Não é o momento de nos separar, mas de unir nossas forças e ativar a criatividade para partilhar entre todos o pouco que cada um traz, sem excluir ninguém.

A cena do evangelho deste domingo não deveria continuar sendo chamado “multiplicação dos pães”, e sim, “partilha, divisão, distribuição dos pães”. O que aconteceu não foi um “milagre”, como o entendemos normalmente. Em nenhum dos relatos se diz que os pães e os peixe se “multiplicaram”. 

É preciso ter em conta que, naquele tempo, quando as pessoas partiam em viagem, não podiam se reabastecer pelo caminho; por isso, iam provisionadas de alimento para não passarem fome. Os apóstolos tinham “cinco pães e dois peixes”, o necessário para passar o dia. O encontro com Jesus e seu apelo – “dai-lhes vós mesmos de comer” - impulsionou a todos para que colocassem em comum o que tinham levado; aqui estamos diante de um exemplo de resposta à generosidade que Jesus pregava. Esse é o verdadeiro “milagre”: a partilha solidária. E onde há partilha não há mais fome.

Onde há partilha, aí também se visibiliza a “bênção” de Deus, pois tudo procede d’Ele, tudo é dom para todos. Uma das experiências mais plenificantes de Israel é a de reconhecer que a benção de Deus lhe concede vida, fecundidade, proteção. Dizer “bênção” é dizer presente, dom gratuito. A raiz hebraica do verbo “bendizer” significa poder de fertilidade ou de crescimento (cf. Deut. 28,1-14).

A benção é o termo que condensa a riqueza e a originalidade da tradição na qual Jesus aprendeu a orar.

Ao dizer, “bendito seja Deus, Senhor do Universo...”, Jesus reconhece o Pai como origem de tudo o que existe, reconhece o mundo como um dom que deve ser acolhido e reconhece os outros como irmãos com os quais procura participar do único banquete da vida.

“Bendizer significa revelar a última identidade das coisas, sua profunda interioridade, que consiste em fazer entrar em relação com o Criador” (Carmine di Sante). Os objetos, a atividade, o trabalho, as relações... podem se tornar opacos e ser ocasião de desencontro; mas a benção faz com que a realidade se torne translúcida: ilumina nossa visão e a faz chegar até Deus, que é sua origem.

Abençoar é também o verbo central da Eucaristia e a medula de nossa vida. Quando dizemos “eucaristia” estamos recolhendo toda a herança de benção, de louvor e de agradecimento transbordante que percorre todo o Antigo Testamento e se revela de maneira plena em Jesus.

A eucaristia, que nasceu nesse contexto de benção, é para nós a ocasião de converter em benção nossa vida inteira, de trazer até ela todo o peso de nosso agradecimento, tudo o que em nós e em toda a Criação é chamado a se converter em canção, em “um hino à sua gloriosa generosidade” (Ef 1,14).

Portanto, a mensagem do evangelho deste domingo é muito profunda. Cada vez que partilhamos o pão, partilhamos a vida e Deus, que é Vida-Amor, se faz presente. Não há outra maneira de nos identificar com Deus e de mover os outros a se aproximarem d’Ele. A Eucaristia é memória desta atitude de Jesus que se parte e se reparte. Ao partir-se e repartir-se, fez presente o Deus que é dom total. O pão que verdadeiramente alimenta não é o pão que comemos, mas o pão que se doa.

A mais importante cerimônia de nosso culto cristão está estruturada como uma refeição. O fato do nosso seguimento de Jesus desembocar numa refeição, não nos deve estranhar. O verdadeiramente importante é que nessa refeição todo aquele que tenha algo a trazer, colabora, e o que não tem nada, se sinta acolhido fraternalmente.

A referência à eucaristia pode nos oferecer uma chave importante sobre o nosso modo de celebrá-la: não tanto como o “santo sacrifício da Missa”, mas como momento festivo e prazeroso de encontro e partilha, de onde brota a compaixão ativa.

Multiplicação dos pães e peixes: 637 imagens, fotos e ilustrações stock  livres de direitos | Shutterstock

 

Texto bíblico:  Evangelho segundo Mateus 14,13-21

 

Na oração:

O mais nobre e o mais original que há em todo ser humano não é o que ele sabe ou o que tem, mas a qualidade de sua sensibilidade, que se expressa naquilo com o qual se sintoniza.

Na vivência cristã, ter uma sensibilidade com os mais excluídos e sofredores é o verdadeiramente extraordinário, fora do normal, cha-mativo... E a Eucaristia é celebração primordial para o despertar desta sensibilidade solidária.

- “Dai-lhes vós mesmos de comer!”: como este apelo de Jesus ressoa em seu coração diante do drama da fome, da violência e da concentração dos dons nas mãos de poucos?

sábado, 11 de outubro de 2025

O bom vinho da presença

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o Evangelho da liturgia do dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.

“A mãe de Jesus estava presente” (Jo 2,1)

 

Celebramos, neste domingo, a festa da Padroeira do Brasil: Virgem Maria da Conceição Aparecida.

A liturgia da Igreja no Brasil nos propõe, para esta festa, o relato joanino do “casamento em Caná”, onde Maria “estava presente”: presença inspirada que fez a diferença; presença solidária, marcada pela atenção, prontidão e sensibilidade, próprias de uma mãe; presença expansiva que mobilizou os outros, assim como mobilizou seu Filho a antecipar sua “hora”.

A “boda em Caná” é o ícone evangélico que melhor revela a situação atual da Igreja e do cristianismo. Por todos os lados pede-se renovação e em muitos lugares surgem experiências ousadas e renovadoras. É o frescor de uma espiritualidade que abre passagem entre os caminhos quase desertos de uma religião em agonia. É o vinho novo que se faz presente para brindarmos o amor e celebrar a vida.

No entanto, insistimos em pôr vinho novo em odres velhos. Esse é o drama da Igreja: aferrada aos odres da doutrina e suas obsoletas estruturas, não sabe aproveitar nem desfrutar do vinho novo. Com frequência, não sabe o que fazer com este vinho novo e o desperdiça.

Precisamos de odres novos para este vinho espumante e gracioso, um vinho cheio de vida e de sabor, um vinho encorpado e robusto, um vinho com tanta força que vai rompendo sem piedade os odres desgastados e rachados. É o vinho novo que exige reformular a vida cristã e a Igreja.

Segundo o evangelista João, Jesus realizou “sinais” para dar a conhecer o mistério de sua pessoa e para convidar os seus seguidores e seguidoras a acolherem a força salvadora que Ele trazia consigo. 

Qual foi o primeiro “sinal”? O que primeiramente devemos encontrar em Jesus? 

O evangelista fala de uma “boda em Caná da Galileia”, uma pequena aldeia de montanha, a 15 km de Nazaré. No entanto, a cena tem um caráter claramente simbólico. Nem a esposa ou o esposo tem rosto: não falam, nem atuam. O mais importante é um “convidado” especial que se chama Jesus.

Na Galileia, as festas de casamento eram as mais esperadas e desejadas entre os camponeses. Durante vários dias, familiares e amigos acompanhavam os noivos, comendo e bebendo com eles, bailando danças de casamento e cantando canções de amor. 

O vinho era indispensável em um casamento. Para aquelas pessoas, o vinho era o símbolo mais expressivo do amor e da alegria. Já dizia a tradição judaica: “o vinho alegra o coração”. A noiva cantava para seu amado um lindo canto de amor: “Teus amores são melhores que o vinho”.

O início do relato joanino apresenta Jesus sendo apenas um convidado; como anônimo, Ele vem de fora, não pertence por si mesmo ao espaço do casamento. Ele e seus discípulos parecem formar um mundo à parte, estão como que de passagem. Logicamente, não se preocupam com as questões da organização da festa, ao menos no primeiro momento. Esta é a surpresa da cena: Jesus vem como por casualidade e, no entanto, logo atua como responsável verdadeiro diante das velhas e das novas “bodas” da terra. 

Neste contexto, tornam-se centrais as relações entre a mãe (que é sinal da humanidade anterior, ou seja, do judaísmo da lei, da esperança messiânica) e Jesus (que será o iniciador das novas bodas do Vinho do Reino).

mãe é a mulher que introduz a nova páscoa de Jesus. Ela marca a diferença entre as antigas e as novas bodas, a passagem da água ao vinho. É a mulher de dois mundos, dois tempos, duas bodas. 

Parece que ninguém tinha descoberto a carência de vinho. Só a Mãe de Jesus notou a falta e se moveu a buscar uma solução para um problema que parecia sem saída.

De imediato, a mãe de Jesus lhe avisou: “eles não têm mais vinho”. Como vão continuar cantando e bailando? Que significa um casamento sem alegria e sem amor? O que se pode celebrar com o coração triste e vazio de amor? 

No pátio da casa havia “seis talhas de pedra”. Eram enormes. Estavam colocadas ali, de maneira fixa. Nelas se guardava a água para as purificações. Representavam a piedade religiosa daqueles camponeses que procuravam viver “puros” diante de Deus. 

A Mãe de Jesus é, por um lado, uma mulher do mundo antigo: pertence ao espaço das velhas bodas; conhece e compartilha por dentro os problemas e preocupações dos homens e mulheres que não conseguem saborear o verdadeiro matrimônio da vida. Ela se encontra no lugar onde a alegria deveria se manifestar: não é luto de morte, mas fonte de vinho, isto é, de esperança criadora, de Bodas de Deus. É mulher da vida prazerosa: está a serviço gratuito da festa. Seu desejo verdadeiro é o banquete (quer que os homens e mulheres bebam, dancem, vivam), não o ritual das purificações e abluções.

Nesse sentido, a Mãe de Jesus é mulher do mundo novo, mulher de bodas: ela sabe que há um vinho de “bodas” diferentes, sabe que já chegou quem pode proporcioná-lo. Por isso, ela não se contém: a impaciência do novo Reino de Deus pulsa no centro de sua vida e procura expressá-la. 

Assim, aproxima-se e diz a Jesus, de maneira sóbria e reverente: “eles não têm mais vinho!”.

Jesus que, num primeiro momento, parecia ter-se distanciado de sua mãe (“Mulher, porque dizes isto a mim?”), cumpre logo, de maneira diferente e por sua própria vontade, o que ela lhe pediu; e faz isso de maneira transbordante, muito mais que aquilo que ela lhe pedira. Oferece vinho abundante e de excelente qualidade aos convidados das “bodas”. Dessa forma realiza e transborda o desejo mais profundo de Maria.

Sua intervenção vai introduzir amor e alegria naquela religião. Este é seu primeiro “sinal”.

O evangelho indicado para este domingo nos revela esta grande notícia: Deus se manifesta em todos os acontecimentos que nos convidam a viver com mais sentido e prazer. Deus não quer que renunciemos a nada do que é verdadeiramente humano; Ele quer que vivamos o divino naquilo que é cotidiano e normal. A ideia do sofrimento e da mortificação como exigência divina é ante evangélica. 

A mensagem para nós hoje é muito simples, mas demolidor. Nem ritos, nem abluções podem purificar o ser humano. Só quando ele saboreia o vinho-amor, no encontro e na comunhão com o outro, ficará ele todo limpo e purificado.  Quando descobrirmos Deus dentro de nós e nos outros, seremos capazes de viver a imensa alegria que nasce da unidade-amor. Que ninguém nos engane: o melhor vinho está sem estourar, escondido na adega de nosso interior.

 

“Eles não têm mais vinho!”

Esta é uma das expressões mais fortes do NT e do conjunto da Bíblia. Em primeiro lugar, ela é proferida pela Mãe ao seu Filho, mas logo podemos e devemos aplicá-la a diferentes situações de nossa vida.  São palavras que, quando escutadas, têm profundas ressonâncias em nós, sobretudo quando estamos comprometidos na nobre missão de “despertar o sabor da vida”.

Precisamente ali onde podemos nos sentir satisfeitos, ali onde pensamos que as coisas se encontram já resolvidas, tudo em ordem, se eleva com mais força a voz da Mãe de Jesus dizendo: “Eles não têm mais liberdade, estão cativos!” “Não têm mais saúde, estão enfermos!” “Não tem mais pão, estão famintos!” Não tem mais família, estão abandonados!” “Não tem paz, encontram-se deprimidos, em guerras sem fim!” ...

Já não podemos mais responder como Jesus em um primeiro momento: “que importa a mim e a ti? Não é nossa hora!” Sabemos que, em Jesus e por Jesus, chegou a hora da Mãe que nos mostra as necessidades de seus filhos, os humanos sofredores. Sobre um mundo onde falta o vinho das bodas da liberdade/amor/justiça, sobre um mundo que sofre a opressão e o forte vazio da vida, sobre um mundo onde continua acontecendo guerras, ódios, intolerâncias..., a voz da Mãe de Jesus ressoa como uma recordação ativa das necessidades das pessoas; por isso, é princípio de forte compromisso.

A imagem de Nossa Senhora que emerge dos Santos Evangelhos | Diocese de São  João del Rei

 

Texto bíblico:  Evangelho segundo João 2,1-11

 

Na oração: 

Como podemos pretender seguir a Jesus sem cuidar mais da alegria e do amor entre nós? O que pode ser mais importante que isto na Igreja e no mundo? Até quando poderemos conservar em “talhas de pedra” uma fé triste e enfadonha? Para que servem nossos esforços, se não somos capazes de introduzir amor e alegria em nossa religião? 

Nada pode ser mais triste do que dizer de uma comunidade cristã: “eles não têm mais vinho!”.

- Sua presença na comunidade cristã desperta o sabor do bom vinho da vida e da amizade?

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

"Fazei-vos pescadores do humano"

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 5º. Domingo do Tempo Comum (Ano C).

 “... lançai vossas redes para a pesca em águas mais profundas” (Lc 5,4)

Neste 5º. domindo do Tempo Comum a liturgia nos situa no início do cap. 5 de S. Lucas; encontramo-nos diante de um episódio com múltiplos atos: a multidão que se comprime em torno a Jesus para escutar a Palavra de Deus; o ensinamento a partir da barca; o convite a remar mar adentro e lançar as redes; a pesca surpreendente; a confissão da indignidade de Pedro; o chamado dos discípulos e o imediato seguimento.

O relato não nos diz sobre o que Jesus falava, mas o que segue nos dá a verdadeira pista para descobrir do que se trata; tal relato abre um horizonte novo na vida das pessoas e nos convida a conhecer Jesus mais profundamente e a conhecer-nos a nós mesmos; só assim o seguimento se revela mais inspirado.

No evangelho deste domingo Lucas dá um destaque ao chamado dos primeiros discípulos. Marcos e Mateus situam este chamado no início da vida pública de Jesus. Lucas o narra de uma forma mais compreensível, mais lógica, depois de apresentar Jesus como Mestre nas sinagogas, como o libertador de um endemoniado, como presença terapêutica na cura da sogra de Pedro e dos doentes com diversas enfermidades. Assim, ele nos transmite que o seguimento significa identificação com Jesus e o prolongamento de suas obras.

A primeira parte do relato nos convida a contemplar Jesus ensinando, junto ao lago de Genesaré. Diante da crescente multidão, sobe à barca de Simão e lhe pede para que a afastasse um pouco da terra. Sua presença muda o significado da barca: não é só instrumento de pesca, mas torna-se o “novo púlpito” a partir de onde Ele passa a ter uma visão mais ampla da multidão que o escuta. Pastoral nos espaços amplos ou no descampado, à margem da “sinagoga”, fora dos espaços sagrados.

Jesus se deixa conduzir pela criatividade do Espírito, que rompe os lugares estreitos e controlados. Seu “templo” é a vida, o lugar cotidiano das pessoas. Ali, o anúncio da Boa Notícia do Reino encontra muito mais ressonância no coração das pessoas, sobretudo aquelas que não tinham “lugar” nos templos.

A segunda parte do relato descreve a pesca abundante e surpreendente; os pescadores retornam ao trabalho por iniciativa de Jesus: “remai mar adentro e lançai vossas redes para a pesca” (literalmente: “voltai para a profundidade e fazei descer vossas redes para a pesca”)

A tradução oficial da CNBB diz: “Avançai mais para o fundo, e ali lançai vossas redes para a pesca”, destacando o esforço pessoal dos pescadores. Pedro e seus companheiros revelam-se ser pessoas “arriscadas”, inclusive ousados, por acreditarem em Jesus na realização de sua tarefa. Jesus lhes pede um novo esforço, os leva a novos mares, e eles assumem a atividade sem resistência.

No fundo, eram homens “aventados” (com o sopro do bom Espírito), pois foram capazes da arriscar, lançando as redes em um horário impróprio (de manhã); sabemos que os pescadores armam as redes ao cair da tarde e as recolhe na manhã do dia seguinte.

Nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos”. O fato de que a pesca abundante seja precedida de um total fracasso, tem um significado existencial muito profundo. Quem nunca teve a sensação de ter trabalhado em vão durante décadas? Só teremos êxito quando nosso trabalho se situa no horizonte do sentido: para quem trabalhamos? É para o Reino? É para o bem dos outros...? Isto quer dizer que devemos agir de acordo com a atitude vital de Jesus, para além de nossas posições raquíticas e rasteiras. O que o relato nos pede é algo muito diferente: deixar Jesus Cristo entrar na barca de nossa vida.

Confiando em tua palavra, lançarei as redes”.

Simão já havia presenciado a cura de sua sogra. Sua confiança em Jesus aumenta com a quantidade de peixes que apanharam. A pesca abundante, ao meio-dia, depois do fracasso noturno, é um presente, um sinal da benção divina. Pedro não se considera digno de tal benção, mas reconhece a força de Jesus que tivera a iniciava de mover os pescadores a uma nova tentativa de pesca.

A reação dos pescadores é de assombro e reconhecimento que, talvez, não mereciam tanto. Mesmo assim, superado o primeiro impacto emocional, eles encontram um sentido novo e uma direção diferente para avançar na vida. Jesus os chama explicitamente – “eu vos farei pescadores do humano” – ou seja, “eu os convido a que me ajudeis a situar as pessoas em uma posição diferente para recuperar a verdadeira essência da vida”.

Lucas usa a expressão “dsogrón”: reanimador ou despertador de pessoas. Jesus reanima, desperta aqueles rudes pescadores com seu Espírito; tira-os de sua cotidianidade repetitiva, sem criatividade, sem sonhos maiores; abre os olhos deles e os reaviva para prolongar Seu caminho, ou seja, dedicarem-se a despertar o melhor em cada pessoa.

O apelo a lançar “redes em águas mais profundas” é ocasião para motivar e buscar a inspiração no oceano interior. Jesus convida aqueles pescadores, instalados numa maneira tradicional de pescar, a serem criativos na arte de lançar redes: sair da rotina, buscar o novo e o diferente nas profundezas do mar...

Isso dá medo, mas os impulsiona a se deslocarem para o desconhecido, saírem das margens conhecidas, seguras e mergulharem na aventura do próprio Jesus.

Jesus sempre se revelou como o homem integrado que, livremente, teve acesso ao seu oceano interior e deixou emergir as ricas possibilidades, recursos, criatividades, inspirações... Movido pelo Espírito, Ele trouxe o “novo” das profundezas do seu próprio ser: novo ensinamento, novo olhar sobre a vida, nova atitude, novo compromisso...

Ao mesmo tempo, com sua presença instigante, Ele despertou, ativou e fez vir à tona o que havia de mais humano nas pessoas. Com sua sensibilidade, Jesus foi capaz de tocar naquilo que as pessoas mais amavam (mundo das esperanças, impulsos para uma vida plena...) e o potencializou.

No caso dos pescadores, homens rudes, mas que carregavam uma nobreza interior, Jesus os desafiou a serem mais humanos. “Farei de vós pescadores do humano”.

Pescar o humano” é trazer à tona o que de humanidade está escondido ou atrofiado em cada um.

Debaixo das cinzas do cotidiano, encontra-se as brasas da paixão, dos desejos mobilizadores, dos sonhos...

Do mar da Galileia ao mar da vida: este é o movimento que Jesus desencadeia em todos nós. Ele nos desafia a descer no mais profundo no oceano do nosso coração e ali buscar o humano que está escondido: novos sonhos, novas possibilidades, nova inspiração, novo sentido para a existência...

Para isso é preciso vencer o medo que atrofia tudo o que é humano em nós. Alargar nossos espaços interiores, sermos mais ousados e sonhadores, romper com o “normótico” e tradicional, ativar e desvelar o que está escondido. Assim, com nossa presença humanizadora, seremos capazes de pescar o “humano” que também está presente no outro.

Sejamos pessoas que, saindo ao campo da vida, tenhamos a oportunidade de também tornar melhores os outros com quem nos encontramos!

Texto bíblico: Evangelho segundo Lucas 5,1-11

Na oração:

Pedro e seus companheiros desejavam algo novo; no entanto, romper com a normalidade na arte de pescar estava para além de suas possibilidades. Foi necessário que Alguém de fora os incitasse ao abandono daquele modo arcaico de pescar.

Diante de Deus, considerar algumas posturas que poderão ser desenvolvidas, para eliminar o “vírus” da “normalidade doentia”:

- você tem uma curiosidade sadia diante do novo e do desconhecido?

- você age com otimismo lúcido, enfrentando as situações desconhecidas de forma auto-motivada?

- “Avançai para águas mais profundas!”. Este apelo de Jesus tem ressonâncias em sua vida ou você se deixa determinar pelo medo, permanecendo na superfície da vida?

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Caná: vida com sabor de amizade, festa e vinho

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 2º. Domingo do Tempo Comum (Ano C).

“Mas tu guardaste o vinho melhor até agora!” (Jo 2,10)

 

Talvez porque Israel e Jesus eram mediterrâneos, viram no vinho o sinal de abundância e alegria. Isto está muito presente na Bíblia e na cultura popular.

O vinho é um tema muito usado por Jesus, para falar da nova situação do Reino: vinho novo, odres novos.

A vida de Jesus transcorrerá entre refeições e encontros, banquetes e bodas, multiplicação de pães, etc. Não é muito complicado entender que o cristianismo é alimento, vida e festa em todos os sentidos da palavra.

Jesus oferece a verdadeira salvação, mas esta não vai depender de nenhuma lei (talhas). A água se converterá em vinho fora delas.

“Celebrai a vida com vinho!”, nos diz Jesus, que é o amor que se expande, que contagia,

É antes de tudo o vinho dos “noivos”, daqueles que se uniram para celebrar a festa de sua vida, para beber juntos da mesma taça o vinho do amor que cresce sempre mais. É a festa de todos os convidados, entre eles Maria e os discípulos, que devem transformar o mundo à base de bom vinho. Quando há abundância de vinho e aprende-se a beber em comunhão de prazer, a vida se transforma.

Este é o motivo central da festa de Jesus que nos faz celebrantes da vida, animadores dessa festa, que é de todos, homens e mulheres, convidados ao banquete das bodas, sem que ninguém fique excluído, sem que ninguém o monopolize. Este é o tempo de passar do vinho ruim ao bom vinho de festa, de amor generoso, de bodas de vinho para todos, superando as velhas leis e purificações, para nos colocar a serviço da vida.

Com toda certeza, a festa de casamento era e é um dos momentos mais felizes e importantes na vida dos noivos; a boda é encontro, amor, alegria, festa, esperança, amizade... Talvez por isso a boda era imagem dos tempos messiânicos. O banquete de bodas foi um sinal muito utilizado por Jesus: o Reino de Deus é como um banquete de bodas ao qual somos todos convidados. Nosso Deus é “festeiro” e que organiza ricas refeições.

Esse é o sentido do “evangelho das bodas” onde está presente a alegria de um homem e uma mulher que se vinculam em amor e querem que esse amor se expanda e que chegue a todos, expresso no vinho de festa e na plenitude prazerosa. O judaísmo era religião de purificações e jejuns; por isso, precisava de muita água para as abluções. Pois bem, contra isso, o evangelho começa sendo experiência messiânica de festa. No meio dela, como animadora e guia, como irmã e amiga, encontramos a Mãe de Jesus. Não a busquemos nas penitências e mortificações, mas nas alegrias da vida. Só assim, quando saboreamos com ela do vinho de Jesus, poderemos dedicar nosso trabalho e alegria a serviço daqueles que estão excluídos e não tem acesso ao vinho saboroso.

Muitas vezes, na própria comunidade cristã tem-se impedido que haja vinho para todos: uns desperdiçam, outros só oferecem “vinagre” (ritos estéreis, mortificações, penitências...), outros retém para si o melhor vinho e não o oferecem aos outros...

Às vezes temos a sensação de que a Igreja atual se encontra na mesma situação dos noivos e dos convidados à festa: “eles não têm mais vinho”. Anuncia-se com trombetas a festa, mas não se consegue oferecer nada: só aparência de bodas, uma festa vazia, carregada de ritos que alimentam culpas, inclusive com músicos pagos, ornamentações luxuosas..., mas falta o melhor: o vinho.

Sem o vinho, nem os noivos podem pronunciar sua palavra de amor, nem os amigos podem compartilhar e celebrar com eles, conforme o ritual judaico. Esta é a situação: em muitas comunidades cristãs predomina um funeral de críticas, lamentações e abandono. E muitos vão embora da festa, pois falta o vinho.

“Enchei as talhas de água”, ordenou Jesus, pois estavam vazias. “Estavam seis talhas de pedras colocadas aí para a purificação que os judeus costumam fazer”. Em plano externo, eram necessárias para que os judeus pudessem cultivar sua pureza ritual, mas eram incapazes de oferecer às pessoas a vida e o prazer do Reino.

Em Caná, Jesus se valerá da estrutura religiosa para propor o projeto do Reino, centrado no amor e na amizade entre seus integrantes. O “melhor vinho”, símbolo da qualidade dessas relações, revela-se essencial e não pode faltar na festa existencial que Ele propõe (bodas). Com seu gesto, Jesus declara caduco a antiga ordem centrada na Lei; deslocando-a para uma melhor pauta de vida: alegria, festa, amizade...

Com sua presença numa festa de casamento, Jesus funda uma “nova comunidade”, marcada pela alegria, pela festa e pela abundância do melhor vinho.

É o momento da boda, da vida, do amor, do encontro... Somente esta passagem da água real ao vinho realíssimo da festa, da nova consciência, do prazer partilhado, expressa a novidade de Jesus.

Muitas vezes, corremos o risco de bloquear o projeto de Jesus e fechá-lo em grandes cântaros de água. Pois bem, é a hora de um novo tempo, de abrir as talhas e enchê-las de água nova, para que Jesus nos ajude a transformar a água em vinho da festa sem fim.

Festejar é afirmar a bondade e o sabor da vida. Sem festa não conseguiremos nos ajustar bem à existência e à convivência; falta-nos a leveza existencial da liberdade e do sentido da vida. Na festa, a comunidade que celebra encontra legitimação para sua atuação, re-criando a espiritualidade da vida, aprofundando-a a nível emotivo-afetivo, reavivando a esperança que anima, antecipando a utopia que a une.

O ápice da festa é gratuito. Justamente por isso a festa tem algo a ver com o mistério da vida.

Por sua gratuidade, a festa faz descobrir a gratuidade da vida humana, a gratuidade da ação histórica.

Os evangelhos apresentam Jesus concentrado, não na religião, mas na vida. Viver o “estilo de vida” de Jesus não é só para pessoas religiosas e piedosas. É também para quem ficou decepcionado com a religião, mas sente necessidade de viver de forma mais digna e ditosa. Por quê? Porque Jesus contagia a fé num Deus festeiro, que não complica nossa vida, mas nos move a confiar n’Ele, que com Ele podemos viver com alegria pois Ele nos atrai para uma vida mais generosa, movida por um amor solidário.

A espiritualidade de Jesus não é a espiritualidade do sacrifício, do pecado e da culpa, da busca da perfeição, mas é a espiritualidade da felicidade e da alegria para as pessoas. Com sua presença, participando das bodas, das refeições festivas e dos banquetes, Jesus anunciava e indicava um outro mundo diferente, onde partilha-se a vida, a convivência, a alegria, abrindo espaço à participação de todos, sobretudo daqueles que eram excluídos da religião. É a alegria contagiante do Evangelho.

Para Jesus, Deus se manifesta em todos os acontecimentos que nos impulsionam a viver mais plenamente. Deus não quer que renunciemos nada do que é verdadeiramente humano. Ele quer que vivamos o divino no que é cotidiano e normal. A ideia do sofrimento e da renúncia como exigência divina é anti-evangélica.

Texto bíblico: Evangelho segundo João 2,1-11

Na oração:

Deixe-se mobilizar pelo Espírito: Ele suscita, em você e na realidade, ricas possibilidades que equivalem a um saboroso vinho da melhor qualidade

Não seja nunca uma “talha de pedra” que sufoca a Vida. Mereça a Vida que Deus lhe dá! Que em você, a vida saboreada seja expressão de sua filial sintonia com o Senhor.

Faça-se disponível perante Ele; seja um bom recipiente do melhor vinho da Graça!

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

CEGO DE JERICÓ: olhos abertos às surpresas da vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 30º. Domingo do Tempo Comum (Ano B).

“O cego jogou o manto, deu um salto e foi até Jesus” (Mc. 10,50)

 

Bar-Timeu: “bar”, em aramaico, significa “filho de”. Ele é um homem sem nome, conhecido simplesmente como filho de Timeu. Está sentado num ponto estratégico, mendigando às margens da estrada. Todos os peregrinos passam por ali para ir a Jerusalém. Marcos nos fala da “marcha decidida”, encabeçada por Jesus, em direção à Cidade Santa. Esta marcha estremece, dá medo, pois não se realiza nas melhores condições. Em três ocasiões anteriores Jesus já tinha predito sua paixão e morte em Jerusalém, nas mãos das autoridades, civis e religiosas. Os discípulos, também com medo, o seguiam; pouco a pouco muitas pessoas vão se somando à peregrinação: uma “multidão considerável”, nos diz o evangelista.

É o caminho da fidelidade no seguimento de Jesus. Identificar-se com Ele é levar até as últimas consequências o compromisso em favor da vida e dos mais excluídos.

À beira deste caminho, um cego está atento, pois é difícil que alguém passe por este ponto sem perceber a presença dele. Só ele sabe o incômodo que é estar cego, esmolar, vivendo fora da cidade, à margem do caminho.

A hora é agora e não há tempo a perder diante de tamanha oportunidade: a passagem do “Filho de Davi”.

Aquele que não via, vê Alguém muito especial que passa; e Aquele que passa é o Filho de Davi, o Messias aguardado por tantas gerações.

Ao mesmo tempo, o cego reconhece que Ele tem poderes terapêuticos e que pode curá-lo de sua cegueira.

Assim, do meio do barulho dos passos, da balbúrdia e do vozerio das pessoas, brota, da boca do cego, uma invocação incontrolável, cada vez mais persistente; uma oração, um ato de fé:

                                      “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim”.

Surpreende-nos a variedade de nomes e qualificativos em sua maneira de dirigir-se a Jesus. Certamente já ouvira falar sobre Ele e reconhece que Ele vem da parte de Deus e que age com autoridade.

Soa o primeiro “kyrie eleison”, que depois repetiremos constantemente nas comunidades cristãs.

Os “guardiões da ordem” o repreendem para que se cale esta voz incômoda que vem da margem.

Aqueles que acompanham a Jesus não querem saber nada dos problemas do cego. É como se dissesse: “na situação em que te encontras não tens direito a protestar nem a gritar. Aguenta e cala-te!”.  São “muitos” que fazem caminho com Jesus, mas não têm a sensibilidade de descobrir a necessidade dos outros.

Mas a voz suplicante chega aos ouvidos de Jesus; este deixa-se afetar por ela e “se detém” no caminho.

Jesus interrompe bruscamente a sua caminhada apressada para Jerusalém. Ele ouve e pede para chamar justamente aquele cujo grito perturbava e incomodava a “tranquilidade” da multidão que o seguia.

O relato deste domingo tem pouco a ver com outros relatos de cura em Marcos.

É Jesus que chama o cego, pergunta o que ele quer, admite o título de “Filho de Davi”, não o afasta da multidão, a cura não é acompanhada de nenhum gesto, não o manda guardar silêncio a respeito da cura...

Os dois ainda não se conheciam, mas era forte, em ambos, o desejo de se encontrar.

Aquele que vê com os olhos da fé, quer ver com os olhos físicos. O cego levanta-se de um pulo, deixa de lado seu manto, sem hesitar: sua riqueza, sua segurança, seu teto... e entra na luz do olhar de Jesus.

Bartimeu não está mais excluído, às margens da estrada. Agora, ele se encontra no centro da cena: face a face com o “Filho de Davi”. Na verdadeira fé a luz interior envolve todo o seu corpo. Jesus acende os sentidos do cego e este recupera sua visão. Curado, ele se incorpora à marcha e segue alegremente Àquele que vai na frente.

A partir de agora ele poderá ver, não apenas o rosto das pessoas, a cor de uma flor, o sorriso de uma criança, o encanto da aurora ou o pôr-do-sol, mas, sobretudo, poderá ver a própria existência, o sentido das coisas, da história, dos acontecimentos humanos e da vida...

Finalmente, Bartimeu poderá decidir aonde ir, o que fazer da própria vida e como dirigir-se ao próprio Deus. Jesus não o segura; não o convida a segui-lo, mas oferece a capacidade de ver na direção certa; oferece-lhe a liberdade; ajuda-o a descobrir que, o desejo de viver, de caminhar, de gritar, nasce da fé.

E, naquela liberdade total, interior, faz a sua opção decidida: “...e seguia-o pelo caminho”. Esta frase expressa mobilidade e proximidade. Depois da experiência do encontro com Jesus, Bartimeu passou da imobilidade ao movimento, da exclusão à inclusão, do afastamento à proximidade...

Para ele, a obscuridade se tornou luz; a marginalidade se tornou estrada; a estraneidade se tornou familiaridade; a liberdade se tornou gratidão; a solidão se tornou seguimento...

E tudo isso começou de um grito... e de um salto.

A capa, que antes o acompanhava e o protegia, agora é abandonada. Fica lá, na beira da estrada, marcando o lugar da mudança. A imagem que ela representava é coisa do passado. A capa continua lá no mesmo lugar, mas Bartimeu, agora tomado pelo olhar de Jesus, é homem do caminho, discípulo, seguidor...

Ao chamado de Jesus, reage dando um salto. Salta para um novo ver, salta ainda mais para um novo ser.

Salta da vida sem graça, limitada a pedinte da margem do caminho, para a graça da vida de caminheiro solidário rumo à transformação.

O relato evangélico deste domingo também nos ajuda a recuperar o sentido de nossa visão, normalmente possessiva, estreita e interesseira. Nossa maneira de ver, nesta cultura da imagem, está muito condicionada pelos grandes meios de comunicação, que constantemente nos transmitem informações sobre a realidade, segundo a visão e o interesse dos donos. Gerou-se nas sociedades atuais uma maneira “comprada de ver”.

Por isso temos de libertar nossos olhares, tanto para olharmos a nós mesmos como para não entrarmos nas expectativas daqueles que nos olham com olhos que não respeitam nossa própria realidade pessoal.

É preciso olhar de outra maneira para ver e oferecer uma visão alternativa da realidade, para saber o que vivemos e a partir de onde o vivemos. Mas isso supõe um longo processo contemplativo que é inseparavelmente ascético e místico, íntimo e social, pessoal e comunitário.

Todos participamos de algum jeito das diferentes cegueiras deste mundo. Necessitamos de colírios que nos devolvam a vista, como a Igreja de Laodicéia (Ap 3,18).

Todos precisamos libertar o olhar de nossas cegueiras para contemplar a realidade como Deus a olha.

Precisamos voltar a receber, muitas e muitas vezes, esse olhar primeiro e originante de Deus, que pôs seus olhos sobre a criação, sobre cada criatura, fixa-se nela e a vê como boa e preciosa.

Nossa presença consiste em recuperar esse olhar de benção sobre nós e sobre o mundo. Com muito mais motivo sobre aqueles rostos que não encontram razões para serem considerados bons, formosos e atrativos.

São muitos os que, à beira da estrada, clamam para serem escutados e olhados de maneira compassiva, sem a frieza do julgamento, sem intolerância e preconceito.

É preciso “cristificar” nosso olhar para ativar uma sensibilidade solidária e comprometida.


Textos bíblicos: Evangelho segundo Marcos 10,46-52

Na oração:  

Orar com os olhos é dar o salto do simples “ver” a um sereno e profundo “olhar”. E deste, a um “sentir-nos olhados” muito mais amorosamente...

Ao orar, precisamos “olhar” e “sentir-nos olhados”.

     “O olho através do qual eu vejo Deus é o mesmo olho através do qual Deus me vê” (Angelo Silésius).

Para orar, basta aprender a olhar e a sentir-nos olhados.

Se pretendemos aprender a “olhar com amor”, sintamo-nos olhados desse modo.

- Além de olhar tudo com paz, se você quiser converta cada olhar em oração; olhe tudo com carinho.

- Recorde todos os “olhares amorosos” que Deus foi depositando sobre você ao longo da vida.

- Procure sempre que seu olhar seja límpido, sem filtro, isto é, isento de preconceitos.

- Coração e olhos espreitam na mesma direção. São os puros de coração os que verão a Deus (Mt 5,8).

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Abrir-se à Vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 23º. Domingo do Tempo Comum (Ano B).

“Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar” (Mc 7,33)

 

O relato do evangelho deste domingo é como se fosse um “ritual ou sacramento de iniciação à palavra”. Para compreender a parte anterior do evangelho de Marcos e para acompanhar Jesus no seu caminho posterior, é necessário abrir os ouvidos e a língua, aprendendo a escutar e a falar.

Para aquela cultura do tempo de Jesus o fato de uma pessoa ser surda, muda ou cega, não era simplesmente uma questão de saúde, mas um problema religioso. Essa carência física era sinal de que Deus a tinha abandonada. Se Deus a abandonara, a instituição religiosa estava obrigada a fazer o mesmo. Era, portanto, marginalizada pela religião; e isto era a maior desgraça que podia acontecer a uma pessoa.

Jesus, com sua atitude e seus gestos terapêuticos, revela que Deus está mais próximo dos marginalizados, daqueles que sofrem. Ao curar, Ele os arranca de sua marginalização religiosa, demonstrando que Deus não marginaliza ninguém e que a religião não atua em seu nome.

O evangelho de João começa dizendo que “no princípio era a Palavra”, e que a Palavra era Deus, para depois acrescentar: “... e a palavra se fez carne” (Jo 1,14). Pois bem, o evangelho de Marcos continua dizendo que Jesus “veio ao mundo” precisamente para que homens e mulheres pudessem viver sua verdadeira identidade, ou seja, na sua essência, ser palavra oferecida, partilhada, escutada... Em sentido mais profundo, nascemos da palavra, nela existimos, nos movemos e somos, como seres de linguagem.

Este é o maior de todos os milagres: que homens e mulheres aprendam a escutar e responder, sendo o que são, “palavra feito carne” no tempo. Assim nos mostra o relato da cura de um surdo-mudo na região da Decápole, a quem Jesus abre os ouvidos e desata a língua para que pudesse escutar a palavra, dizê-la e dizer-se, partilhando assim sua vida com os outros.

De Jesus foi dito que “passou pela vida fazendo o bem” (At 10,38). Defendeu sempre as pessoas, frente à tirania das autoridades religiosas, das normas e tradições, apostando por sua dignidade. No encontro com Ele, muitas pessoas se sentiram reconhecidas, pois Ele sabia olhar o coração de cada uma delas; elas também se sentiram libertadas das escravidões de todo tipo e impulsionadas a viver com mais intensidade, saindo de sua situação tão desumana.

Trouxeram-lhe um homem surdo (não é capaz de escutar a palavra), que falava com dificuldade...”  (tem a língua presa). É um enfermo de comunicação: não pode falar corretamente, nem se expressar com desenvoltura, não pode escutar a voz de Deus, nem se comunicar de verdade com os outros. No fundo, é um escravo de sua própria surdez e mudez: não consegue entender o que dizem, não pode se manifestar.

O enfermo é a expressão de uma humanidade que não tem acesso à palavra: as leis religiosas lhe impedem entender e falar, fazendo-o puro espectador em um sistema onde outros pensam e decidem em seu nome, mantendo-o fechado em si mesmo.

Aqueles que trouxeram o surdo-mudo até Jesus são anônimos; não sabemos quem são, se eram familiares ou amigos, nem sequem quantos formavam o grupo. O que podemos intuir é que estas pessoas buscaram o melhor modo de ajudar a quem tinha dificuldade e foram capazes de se organizar para isso. Não pediram algo para si mesmos, mas o bem para quem estava mais ferido em sua dignidade.

O surdo-mudo deixou-se ajudar e acompanhar pelos outros. Porque, às vezes, alguém está tão bloqueado que não pode, por si mesmo, sair da situação na qual se encontra. Se o surdo foi apresentado diante de Jesus é porque também ele se deixou apresentar.

Nesta expressão encontramos o valor da amizade, a força do grupo ou da comunidade. Todos precisamos uns dos outros! Quanto bem podemos fazer uns aos outros!

Marcos supõe que este enfermo, embora tivesse amigos que o levaram ao lugar onde estava Jesus, não tinha recebido ainda uma devida atenção pessoal. Pois bem, Jesus a oferece, pela primeira vez, respondendo ao desejo daqueles que o trouxeram: o acolhe, o toma consigo e lhe trata como irmão/amigo, iniciando uma terapia de proximidade e conversação simbólica, numa linha de humanidade básica (que possa ouvir, que possa falar!). Jesus não lhe ensina nenhuma doutrina e nem lhe complica a vida com leis e normas mais pesadas. Realiza numerosos gestos significativos: tira a pessoa do entorno no qual se mantinha surda e com dificuldades para falar, afastando-a um pouco do grupo; toca-lhe os ouvidos, a língua, os órgãos do corpo onde se manifesta o bloqueio; eleva seus olhos ao céu como expressão de oração, de sintonia permanente com seu Abba.

“Ephathá!” (abre-te), é a única palavra que Jesus pronuncia neste relato. Só pronuncia uma palavra e, surpreendentemente, não é “ouve”, “escuta” ou “fala” ... É “abre-te”.

Por meio de seus gestos e palavra (por sua vida inteira) Jesus pôs em marcha um processo definitivo de comunicação, semeando “a palavra”, isto é, fazendo com que os homens e as mulheres pudessem ouvir e falar. Jesus não impõe aos surdos-mudos um tipo de palavra (não os obriga a pensar e falar de uma maneira), mas faz algo muito mais profundo: oferece a eles uma possibilidade de comunicação, para que sejam eles mesmos os que falam, os que expressam em suas ideias e sentimentos.

“Ele tem feito bem a todas as coisas”: esta é a experiência que Jesus nos oferece. Ao encontrar-nos com Ele, sua força sanadora rompe nossas ataduras e bloqueios. Assim como o homem do evangelho, também nós experimentamos nossa língua se desatar e poderemos, assim, pronunciar nossa própria palavra. Uma palavra que se multiplica no encontro com os outros.

A escassez de escuta na comunicação humana atual é talvez causa e consequência desse excesso de palavras que padecemos. Causa, porque ao não sentirmos escutados, pensamos que falando mais talvez consigamos fazer chegar algo ao nosso interlocutor. Consequência, porque frente tal torrente de palavras optamos por não escutar, já que não somos capazes de assimilar tanta informação.

Precisamos abrir o nosso mundo interior para fazer chegar aí um pouco de luz. Isso significa olhar, reconhecer, nomear e acolher tudo o que se move no campo dos sentimentos e das emoções. Implica também abri-lo para reconhecer nossa sombra e abraçá-la. Porque só o encontro com tudo isso tornará possível viver de maneira integrada, unificada, harmoniosa, serena e criativa.

É preciso ter vivido este tempo interior gratuito para saber escutar. Um trabalho para toda a vida. É quando estamos preparados para saber escutar o outro.

Mas é preciso saber ativar a capacidade de escuta. É uma atitude sábia, ou seja, escutar com atenção, seguir as razões ou a argumentação do outro. Não confundir escutar com ouvir: ouvir vozes, ouvir movimento das cordas vocais, ouvir falar… Ouvir faz referência ao ato simples, desnudo, de perceber um som; escutar é o ato reflexo, consciente, atento, desse ouvir. Acontece com frequência que escutamos sem ouvir, do mesmo modo que também ouvimos sem escutar. Chegam até nós os sons do falar alheio, ouvimos seus ruídos, mas não suas palavras. As palavras só se abrem para a escuta. Saber escutar é saborear o que o outro diz; e isto pede, em primeiro lugar, ter aprendido a escutar-se a si mesmo.


Texto bíblico: Evangelho segundo Marcos 7,31-37

Na oração:

Em nosso contexto, há uma doentia “surdez” generalizada, alimentada pelas “redes sociais”; escuta-se atentamente os aparelhos eletrônicos, mas não as pessoas; escasseia-se uma atitude de escuta das carências e das palavras dos outros; atrofia-se a capacidade de escuta dos sofrimentos e dos sentimentos dos demais; distancia-se da escuta da Palavra de Deus. É por isso que, vivendo numa sociedade da comunicação, nos sentimos incomunicáveis; numa sociedade de ruídos, e vivemos todos sem nos escutar.

- Na cultura do ruído e do palavreado crônico como a nossa, o silêncio nos aterroriza, porque o confundimos com o mutismo. Ouvidos saturados de ruídos não podem perceber o som do Silêncio.

- O que está surdo e mudo em você? Como se manifesta?

- Você vive em atitude de abertura e sensibilidade diante daqueles que não tem voz nem vez?