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terça-feira, 10 de setembro de 2024

O seguimento de Jesus e a pretensão do nosso ‘ego’

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 24º. Domingo do Tempo Comum (Ano B).

“No caminho perguntou aos discípulos: ‘quem dizem os homens que eu sou’”? (Mc 8,27) 

O Evangelho de Marcos é chamado de “Evangelho do Caminho”. O “caminho” é a verdadeira escola do Mestre da Galileia, pois Ele está aberto às surpresas da vida e não se refugia no interior das sinagogas e espaços sagrados; no caminho Jesus deixa transparecer a sua missão; o caminho revela também o verdadeiro sentido do seguimento.

É no caminho que Jesus faz duas perguntas que deixam transparecer dois círculos: um exterior e um interior. O que se vê de fora e o que se vê de dentro. O que se vê com os olhos e o que se contempla com o coração. As duas perguntas deixam clara uma distinção entre a visão que a multidão tinha de Jesus e a dos discípulos, depois de um tempo de convivência com Ele. Os discípulos são chamados a ter um olhar mais profundo, capaz de mergulhar no mistério de Jesus, um olhar sem falsidade e sem interesse próprio; eles não devem se contentar com o que ouvem dizer, mas são movidos a tomar uma posição, uma decisão.

As afirmações de Jesus no evangelho deste domingo têm dado margem a interpretações deturpadas. Ele é claro: apresenta-nos as consequências do seu seguimento; Ele não está falando da “cruz patíbulo”, imposta pelos homens, mas da “cruz fidelidade” a uma causa em favor da vida, ou seja, estar pronto e preparado diante da resistência e perseguição daqueles que não se abrem à ousada proposta do Evangelho.

Quem vive radicalmente o Evangelho, mais cedo ou mais tarde, vai ser rejeitado, perseguido... Tudo o que aconteceu com o Mestre, acontecerá também com os seus discípulos.

Jesus não veio para complicar a vida dos seus seguidores, nem impor novas leis, ritos, penitências... que só alimentam medo de Deus e culpa doentia. Afinal, Ele veio para que todos tivessem vida, e vida em plenitude. Na sua mensagem, Ele proclamou uma palavra vital e sábia. Não é, certamente, uma palavra que satisfaça nosso ego, alimentando a ignorância e a inconsciência na qual ele se move; também não é uma mensagem que atrofia a vida e a liberdade da pessoa. Pelo contrário.

O texto de Marcos fala de “perder a vida (o ego) pelo evangelho”. Como entender isso? Não se trata, evidentemente, de nenhum tipo de fanatismo que faz do evangelho uma bandeira de sofrimento ou um ídolo ao qual “sacrificar” a própria vida.

“Salvar a vida” ou viver em plenitude só é possível quando permanecemos em conexão com aquela identidade profunda, com o “eu original”. Isso requer, obviamente, deixar de nos identificar com o “ego” de uma maneira absoluta.

Vivemos, interiormente, o eterno conflito entre o “ego” e o nosso “eu verdadeiro”. No mais profundo de cada um de nós habita uma pretensão básica de querer “ser deus”“sereis como deuses” (Gn 3,5). É o pecado de raiz já dos nossos primeiros pais. É a tentação de querer ser outro, de não aceitar ser dependente, de não se aceitar como criatura, como humano (frágil e limitado).

“Renunciar a si mesmo” é não deixar que o impulso para a vaidade, a soberba, o poder... predomine; não deixar que o centro seja o “ego”, mas a identificação com Jesus (“quem quiser me seguir...”). Isso implica em “descer”, humildemente, ao próprio húmus. Se a pessoa não renuncia essa pretensão de “bastar-se a si mesma”, não poderá seguir Jesus Cristo.

Portanto, o convite é este: “negar o ego” para fazer emergir o “eu sou”, nossa originalidade e verdadeira identidade. No encontro com o “Eu sou” de Jesus reacende-se o nosso “eu sou”, aquilo que é mais nobre, elevado e sagrado no mais profundo de nós mesmos.

E quando se manifesta o nosso “eu original”?

Quando nos sentimos genuinamente movidos por sentimentos de compaixão para com as pessoas necessitadas, esse é o nosso verdadeiro eu que está se manifestando. Quando começamos a sentir uma grande gratidão pelos inúmeros dons que a vida nos oferece, podemos ter a certeza de que isso não provém do nosso ego. O ego é completamente incapaz de sentir gratidão. Sentir uma gratidão imensa por todos os dons e graças da nossa vida é algo que brota do fundo do nosso ser. Quando reconhecemos um momento de honestidade e sinceridade no nosso desejo de conhecer a verdade acerca de nós mesmos ou da realidade que nos cerca, esse é o nosso verdadeiro eu. Nos momentos em que agimos com uma coragem e valentia incomum e inexplicáveis, isso também brota de um impulso que provém das profundezas do nosso próprio ser. Se alguma vez experimentamos a alegria tranquila de deixarmos de lado nosso ego, fazendo alguma coisa pelos outros, sem recebermos qualquer recompensa ou agradecimento, e sem que ninguém o saiba, então entramos em contato com o nosso verdadeiro eu. E quando nos sentimos invadidos por uma onda de assombro e deslumbramento, quer dizer que estamos deixando o nosso verdadeiro eu prevalecer.

O que está em questão é precisamente “salvar a vida”, ou seja, viver em plenitude, com sentido e inspiração. Pois bem, isso só é possível quando descobrimos nossa verdadeira identidade e nos libertarmos das armadilhas do ego que nos confundem e nos mantém no sofrimento.

O evangelho deste domingo não reforça nenhum tipo de voluntarismo egóico, nem trata da exigência arbitrária de um Deus que exige sacrifícios e mortificações. É uma questão de sabedoria ou de compreensão. E é isso que expressam as palavras de Jesus que fecham o relato: “se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la”.

Uma consideração superficial destas palavras de Jesus deu margem a uma apresentação do cristianismo como a religião que enfatiza a dor, a renúncia e a negação da própria vida e da própria identidade.

Mas Jesus não buscou a dor e nem negou a vida. Suas palavras não são uma exaltação do sofrimento, mas expressam uma grande sabedoria: elas buscam “despertar” a pessoa para sua verdadeira identidade, para que assim ela possa assumir uma atitude acertada diante da vida.

O horizonte de toda pessoa é precisamente a vida e a plenitude. Isso é o que todos, sabendo ou não, buscamos. E buscamos isso em tudo o que fazemos e em tudo o que deixamos de fazer. Como acertar?

A verdade é que, nos ouvidos de muitas pessoas, a palavra “religião” soa como “negação”, “sofrimento”, “cruz”, “mortificação” ..., ou seja, como “negação da vida”. Diante deste grande equívoco, é preciso começar a reconhecer que tal visão não tem fundamento no Evangelho, mas em fatores alheios, de diferentes procedências, que chegaram a configurar o imaginário coletivo com matizes doloridos e angustiantes. Temas como o pecado, a culpa, o castigo, as “penas eternas” ..., rechearam os catecismos doutrinários, pregações moralistas e devoções estéreis, até os extremos difíceis de imaginar.

São muitos os cristãos que sofrem, feridos pela negatividade, pela rigidez, pela exigência; talvez humilhados pela culpabilidade, pelo medo, pelo perfeccionismo, pelo voluntarismo ou idealismo vazio, pelo excesso de cruzes inúteis, negações e sacrifícios impostos por uma educação religiosa repressora, restritiva e dominadora. Em suma, são muitos que estão feridos por uma religião tenebrosa, e acabam abandonando por pura necessidade de sobrevivência.

Infelizmente, como no tempo de Jesus, há uma religião que desumaniza em vez de potencializar todos os recursos mais humanos; uma religião que massacra em vez de contagiar vida; uma religião que atrofia em vez de expandir a pessoa. Muitas “autoridades religiosas” se transformam em implacáveis juízes, com a lei na mão, em vez de serem bons samaritanos. Fica cada vez mais patente dois estilos de religião: a que encarcera e a que liberta.

Qual delas determina nossa vida?

Texto bíblico: Evangelho segundo Marcos 8,27-35

Na oração:

Orar é aproximar-me da verdade que me faz livre”; livre para ser “eu mesmo”, chegar a ser aquilo a que sou chamado a ser.

Por isso a oração cristã é também descoberta do “eu”, da minha própria realidade pessoal, do mistério que a habita. É nessa experiência divina que “descubro-me a mim mesmo”. Começo, então a descobrir o meu ser (único, original, sagrado...) quando “mergulho” no misterioso relacionamento com Deus e quando permito que o “mistério experimentado” se torne fonte de minha identidade. Mais ainda, saberei melhor “quem sou eu”, esquecendo-me de mim mesmo, aceitando perder-me, deixando que o Amor me liberte de meu pequeno e atrofiado “ego”.

sábado, 19 de outubro de 2019

Projeto Inaciando

Durante os meses de julho e agosto de 2019, a CVX Amar e Servir teve como estudo, em suas reuniões, o projeto “Inaciando”, de autoria do coordenador Alexandre Doelher de Oliveira, que consistia em uma visão subjetiva dos episódios mais relevantes da vida de Santo Inácio de Loyola, tendo como base oito aquarelas do pintor espanhol Carlos Sáenz de Tejada. A finalidade deste projeto foi uma reflexão e partilha das atitudes de Santo Inácio de Loyola na vida em comunidade, buscando traduzir os Exercícios Espirituais em resultados práticos de amar e servir ao próximo.

A seguir são apresentadas as aquarelas utilizadas na reflexão, com as respectivas propostas de oração e vivência:

Primeira aquarela: Inácio convalescente do ferimento adquirido na Batalha de Pamplona.
Proposta de reflexão e vivência: Quais são os obstáculos que me impedem de viver plenamente?


Segunda aquarela: Inácio em Manresa, onde adota um modelo de vida severamente penitencial e inicia a escrita dos Exercícios Espirituais.
Proposta de oração e vivência: Quais são as minhas respostas cotidianas perante o chamado de Deus?


Terceira aquarela: Inácio às margens do rio Cardoner, onde recebe uma profunda revelação de Deus.
Proposta de oração e vivência: O que me aprisiona, na minha realidade e na minha vida?


Quarta aquarela: Inácio com Francisco Xavier, em Paris.
Proposta de oração e vivência: Eu sou individualista ao propagar a mensagem de Cristo, ou permito que outros me auxiliem no trabalho de evangelização?


Quinta aquarela: Votos de Montmartre, onde Inácio e seus companheiros fundam a Companhia de Jesus.
Proposta de oração e vivência: Como realizo meu trabalho missionário?


Sexta aquarela: Inácio diante do Papa Paulo III, onde, em 3 de setembro de 1539, é aprovada a Ordem da Companhia de Jesus.
Proposta de oração e vivência: Eu tenho clareza do que eu quero para a minha vida de evangelização?


Sétima aquarela: Inácio em Roma, onde dedicou-se a difundir os Exercícios Espirituais e catequizar o povo.
Proposta de oração e vivência: Eu ofereço a Deus, integralmente, a minha liberdade, memória e entendimento? Eu sou grato(a) pelos dons que recebo Dele?


Oitava aquarela: Em 1556, morre santo Inácio de Loyola, cujo lema era “Tudo para a maior glória de Deus”.
Proposta de oração e vivência: Diante dos apelos de Cristo, como faço escolhas, tomo decisões e assumo as consequências?

sábado, 12 de outubro de 2019

Gratidão: a mais agradável das virtudes

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 28º Domingo do Tempo Comum - Ano C.


“Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro? (Lc 17,18)

Lucas descreve, ao longo de seu livro, o acontecimento salvífico de Jesus como uma “viagem”.
Mais uma vez, o evangelho deste domingo nos recorda que Jesus está a caminho de Jerusalém, onde os conflitos com as autoridades religiosas atingirão o ponto máximo, culminando na sua morte e na entrega total. Nessa subida, a salvação vai se fazendo presente, não só no final do caminho. Muitos dos oprimidos e excluídos, que estavam à beira do caminho, foram reconstruídos em sua dignidade pela presença itinerante de Jesus.
No seu deslocamento contínuo, Jesus está sempre com os seus sentidos abertos, atento a tudo e todos. Não é alguém distraído, centrado em si mesmo e incapaz de ver e ouvir aqueles que cruzam o seu caminho. Seus sentidos transbordam compaixão.
Nesse caminho, dez leprosos saem ao seu encontro. Assim como exigia sua condição de enfermos contagiosos (inabilitados para a convivência social), param ao longe e se comunicam através dos gritos: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!”
Enfermidade é a lepra, mas maior enfermidade é a falta de fé (de enraizamento e confiança na vida, de escuta e de ajuda mútua); não cremos em Deus, não cremos unos nos outros, e assim vivemos em conflito permanente, em um mundo de leprosos, submetidos a um sistema que violenta e exclui.
É urgente superar a “lepra” de uma vida marcada por imposições e medos, optar pelo caminho de Jesus, que é a fé que salva; precisamos passar por uma profunda limpeza de pele em nosso interior, para eliminar todo vestígio das lepras da intolerância, do preconceito, da indiferença..., que rompem toda possibilidade de viver encontros humanizadores.

Jesus escuta os gritos e olha aqueles leprosos. Todos temos experiência que, dirigir nosso olhar para alguém – um olhar carregado de respeito e ternura - é um dos meios que mais o reabilita, quando este está enfermo. Muito mais ainda, quando se trata de alguém que sofre exclusão e experimenta continuamente como as pessoas desviam dele seu olhar.
Olhar cara a cara, centrar em alguém nossos olhos e deixar-nos olhar por ele, nos compromete e nos impede passar ao largo.
Ao vê-los, Jesus coloca os leprosos como protagonistas, no centro de atenção de todos. Eles lhe gritaram suplicando-lhe compaixão e isso é o que receberam já d’Ele: um olhar compadecido e atento, que percebe as necessidades deles, antes mesmo de serem explicitadas.
Estranhamos o método terapêutico que Jesus emprega aqui. Ele olha para eles e diz: “Ide apresentar-vos aos sacerdotes”. Evidentemente, Jesus não vê apenas o exterior dos doentes; seu olhar expressa que Ele os acolhe e assim lhes transmite dignidade e ativa neles a autonomia; ao olhá-los, diz que devem apresentar-se aos sacerdotes. Nessa palavra, apesar de sóbria, os doentes encontram a esperança de que os sacerdotes os proclamarão puros, e de que assim poderão voltar à comunhão humana e religiosa.

Neste ponto, o relato já poderia ser dado por concluído. Se este continua é porque o mais importante vai ser descrito a seguir. Dos dez leprosos, um deles, vendo-se curado, não chega a apresentar-se aos sacerdotes, mas dá meia volta em seu caminho para prostrar-se por terra aos pés de Jesus e manifestar-lhe uma profunda gratidão, ao mesmo tempo que louva a Deus. Com este gesto reconhece Jesus não só como seu “mestre”, mas como um sanador e Salvador.
A sua admiração por ter sido curado se torna caminho de retorno e hino de gratidão.
Este leproso samaritano está disposto a começar de novo, do zero, e Jesus com ele, iniciando um caminho arriscado de fé salvadora. Ele regressará à sua casa com a certeza de que a cura manifestada em sua pele atravessou, na realidade, todo seu ser. As palavras de Jesus “levanta-te e vai! Tua fé te salvou”, serão o motor para empreender o caminho mais uma vez, e o profundo agradecimento experimentado o fará viver de um modo novo.

O destaque do agradecimento deste samaritano se converte para nós hoje um convite a sermos agradecidos. Quem se sente agradecido para com alguém, mantém uma relação próxima com essa pessoa, está atenta a ela, escuta-a e deseja demonstrar-lhe sua gratidão.
Viver como agradecidos é reconhecer que tudo é dom, que nada nos é devido, que tudo parte de um Deus Misericórdia, cuja grandeza e bondade são insondáveis. Intuir isto, é reconhecer que só podemos viver diante d’Ele dando-lhe graças. E isso gera um modo novo de nos situar não só diante de Deus, mas também

diante dos outros e de nós mesmos.
Na experiência bíblica, a gratidão nasce com naturalidade e espontaneidade nos corações humildes, nas pessoas conscientes de que aquilo que recebem não é por mérito ou retribuição. Tudo é gratuidade.
A gratidão é a virtude humana por excelência. Por um pouco que a deixemos aflorar, a gratidão irá abrindo caminho, pacificando nosso coração e fazendo emergir, ao mesmo tempo, o melhor que há em nós.
A gratidão é um sentimento profundamente terapêutico: ela nos afasta dos obscuros pensamentos e nos situa na terra firme da presença, em sintonia com o presente.
Para que isto seja possível a gratidão deve ser um estado duradouro da personalidade. Um modo de ser que desperta a pessoa para ativa uma consciência assombrada de ter recebido um dom não buscado de alguém que não espera nada em troca, um dom que provoca um estado emotivo que a livra de ressentimentos, e que a leva a reagir, por sua vez, de modo positivo e altruísta com os demais.
Por isso, há um tom de assombro na atitude agradecida: Não só “por quê a mim?”, mas, sobretudo, “como é possível esta generosidade?”
Começamos agradecendo a alguém por algo, e isto está bem. Mas, uma vez emergida ou sentida, se permanecemos em conexão consciente com ela, a gratidão revelará aquilo realmente somos: outro nome ou dimensão de nossa verdadeira identidade.
Comprovaremos então que a gratidão não é só algo que fazemos ou sentimos, senão que é exatamente o que somos: seres vulneráveis e dependentes que, em sua verdadeira identidade, somos gratidão.
Dirigida para aqueles que nos acolhem e nos cuidam, a gratidão fará com que se renove nosso olhar para eles, para vê-los em sua verdadeira beleza e, mais além, reconhecê-los naquela mesma e única identidade que compartilhamos. Atendida em si mesma, a gratidão nos mostra que estamos em “casa”.

A gratidão é atitude fundamental para a integridade pessoal; muitos relacionam a gratidão com a maturida-de humana e com a melhoria relações interpessoais, ou ainda com a felicidade. Constata-se que as pessoas agradecidas mostram uma tendência notável a apreciar as pequenas satisfações e prazeres que costumam estar ao alcance de todos, e que muitos não percebem.
A pessoa capaz de agradecimento aparece, de modo constante, como mais extrovertida, mais aberta, mais responsável e amável. E, como facilmente podia prever-se, menos neurótica.
Uma pessoa ingrata é uma pessoa doente, incapaz de reconhecer-se cercada de tantos dons e cuidados.
Por isso, para S. Inácio, o agradecimento é a experiência humana que mais pura e decididamente mobiliza a generosidade da pessoa. Em outro contexto, o mesmo S. Inácio afirma que a ingratidão é o maior de todos os pecados. De fato, ela envenena as relações, petrificando nossa interioridade e levando-nos a um processo de desumanização.

Texto bíblico:  Lc 17,11-19

Na oração:
Todos vivemos o milagre diário da vida, mas só alguns sabem agradecer. Nossa vida inteira deve navegar em um mar de ação de graças.
A memória agradecida é o húmus natural de onde brota a gratidão. Só a generosidade gratuita do coração de Deus é capaz de reconfigurar mentes e encorajar atitudes oblativas em nós.
- Faça memória de tantos dons e bens recebidos, e deixe brotar naturalmente do seu interior, o desejo uma resposta generosa e radical ao Deus que é Fonte de tudo.

sábado, 9 de março de 2019

QUARESMA: tempo precioso para afinar nosso interior

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 1º Domingo do Tempo da Quaresma.

“Não só de pão vive o homem” (Lc 4,4)

Antes da Quaresma, carnaval...; o carnaval é o tempo dos disfarces, o tempo das máscaras, quando ninguém quer mostrar seu próprio rosto e cada um se esconde detrás de seu próprio disfarce. Às vezes, temos a impressão que é preciso sempre estar usando máscaras, trocando-as de acordo com as circunstâncias.
Somos os mesmos, mas disfarçados. Somos os mesmos, mas dissimulando nossa identidade e revestindo-nos de qualquer outro personagem. Debaixo da aparente segurança, pulsa um rosto temeroso; detrás de uma face risonha há uma expressão de dor.
Agora, quando se apagam os ecos do carnaval, é tempo de tirar as “maquiagens”. Começamos o tempo quaresmal, o tempo do “des-velamento” (tirar o véu, ou a máscara), tempo privilegiado para deixar transparecer nossa verdade mais profunda e nossa real identidade.

Mas, o mais curioso é que a Quaresma começa também com um “disfarce”. Com as tentações, percebemos que elas não são outra coisa senão o disfarce do “demônio” para enganar e enredar Jesus. Se examinarmos bem qualquer das três tentações, nos daremos conta de que são “disfarces do mal” “sob a aparência de bem” (S. Inácio).
A tentação tem muito de sedutora e maliciosa; aí está precisamente sua força de atração. A tentação é uma sedução que atrai irresistivelmente nossa liberdade, exerce uma fascinação que nos deslumbra.
Acaso alguém quer o mal pelo mal? Acaso alguém quer afastar-se de Deus livre, voluntária e conscientemente? A mentira reveste-se de algo que a esconda e a apresente como verdade.
A tentação necessita revestir-se do bem para que nós a aceitemos livremente.
A tentação nunca apresenta o rosto descoberto. Sempre aparece escondida e disfarçada. E assim foram também as tentações de Jesus. Tratava-se de demonstrar que realmente era Filho de Deus; ou de fazer-se poderoso e dono do mundo; ou simplesmente demonstrar que nada lhe iria acontecer e que ganharia a admiração de todo o mundo se pulasse da parte mais alta do templo.
Mas, onde está o verdadeiro “disfarce” das tentações de Jesus? Está justamente no fato de procurar justificá-las com a Palavra de Deus. Portanto, utilizar Deus como uma justificação e legitimação para alimentar o ego, para fazer-se o centro, para dominar...  E esta é a pior tentação e o pior dos disfarces.

Os evangelhos sinóticos (Mc, Mt e Lc) colocam o relato das tentações de Jesus no início de sua atividade pública. Talvez, com isso, eles estão nos dizendo que, antes de começar o percurso quaresmal, é necessário confrontar-nos com nossos próprios “demônios interiores”.
Sem ter passado por aí, o mais provável é que comecemos a ver “demônios” nos outros, ou que estejamos à mercê dessas forças que permanecem ocultas, mas bem ativas, em nós, conduzindo-nos aonde não queríamos ir.
Os “demônios” dos quais o relato evangélico deste domingo fala são três e que caracterizam bem o nosso ego: o ter, o poder e a vaidade (aparentar). É neles onde o ego se entrincheira e onde se apega para sentir-se que é “algo”. Bens materiais e consumismo, poder e influência, imagem e prestígio: eis aí os interesses do ego. Então, é quando o instinto de viver se transforma em obsessão pela saúde e pela vida longa;
o instinto de ter se transforma em cobiça de acumular sempre mais; o instinto de valer, em obsessão pelo prestígio e pelo poder. É a deriva do coração humano, a inversão de sua vocação mais profunda.
Se nos damos conta, o que se busca detrás deles, é uma mesma coisa: segurança. Precisamente por isso, a maneira de “desmascarar” esses “demônios” é reconhecer suas artimanhas e descobrir a falsidade de suas promessas.

O relato das tentações de Jesus não é “história” mas teologia; não é crônicas de um acontecimentos, mas as tentações são descaradamente reais. Empregando símbolos conhecidos por todos, os evangelhos nos querem fazer ver uma verdade espiritual fundamental: a vida humana se apresenta sempre situada entre dois movimentos internos opostos: um, de saída de si, de vida expansiva, aberta a todos, comprometida...; outro, de retração, de medo, de fechamento no próprio “ego”. Trata-se do “joio” e do “trigo”, presente nas raízes de nosso ser. A questão fundamental é esta: “qual dos dois dinamismos alimentamos em nossa vida?”
Que as tentações sejam três, não é casual. Trata-se de uma síntese perfeita de todas as relações que o ser humano pode desenvolver. A tentação consiste em entrar numa relação equivocada conosco mesmo, com os outros e com Deus. Uma autêntica relação humana com os outros depende, queiramos ou não, de uma adequada relação conosco mesmo e com Deus.

1ª. tentação: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão”. A tentação permanente é deixar-nos levar pelos instintos, pelos apetites, pelas “afeições desordenadas”. Ou seja, fazer em todo momento o que o ego exige. É negar-nos continuar crescendo e superando a nós mesmos, porque isso exige descentrar-nos, sair do círculo fechado do “eu autossuficiente”.
Nossa grande tentação hoje é converter tudo em pão. Reduzir cada vez mais o horizonte de nossa vida à satisfação de nossas necessidades, viver obcecados por um bem-estar sempre maior ou fazer do consumismo indiscriminado e sem limites o ideal quase único de nossas vidas.
Estamos vendo claramente que uma sociedade que arrasta às pessoas para o consumismo sem limites e para a auto-satisfação não faz outra coisa senão gerar o vazio e o sem-sentido nas pessoas e alimentar o egoísmo, a falta de solidariedade e a irresponsabilidade na convivência.

2ª. tentação: “Se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu”. O poder, em qualquer de suas expressões, é a idolatria suprema. O poder traz sempre consigo a opressão, nunca é mediação de libertação. Adorar a Deus não significa incensar um “deus exterior”. Trata-se de descobrir o que de Deus há em nós e viver em sintonia com Ele. Nosso autêntico ser não está no ego aparente, mas no “eu profundo”. Se descobrimos nosso ser essencial, não nos importaremos esvaziar nosso falso eu e, em vez de buscar o domínio sobre o outros, buscaremos o serviço para com todos.

3ª. tentação: “Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo”! Realizar um ato verdadeiramente espetacular, para que todos vejam o quão grande somos. Todos nos exaltarão e nossa soberba chegará ao limite.
A resposta é esta: que deixemos Deus ser Deus. Aceitemos nossa condição de criaturas e, a partir disso, alcancemos a verdadeira plenitude.

Que esse tempo quaresmal possa ser um tempo precioso para “afinar” nosso interior: sermos mais sensíveis à realidade que nos cerca, buscar nela as pegadas de Deus que nos conduzem ao encontro, e deixar-nos alcançar pela graça de um Pai que deseja para todos nós a felicidade e a alegria.


Texto bíblicoLc 4,1-13

Na oração: Para chegar a teu verdadeiro ser, é preciso atravessar teu próprio deserto. Liberta-te de tudo que acreditas ser, para chegar ao que és de verdade. Somente em teu próprio deserto se desvelará o sentido verdadeiro de tua vida. Isso sim, impulsionado pelo Espírito.
Sozinho e no deserto, tens que tomar a decisão definitiva.
A “terra prometida” já está aí, do outro lado de teu falso eu. Mantém-te em silêncio, até que se derrube o muro que te separa de ti mesmo: o muro do poder, da vaidade, da riqueza... Deixa que a luz, que já está em teu interior, te invada por completo. Serás feliz e farás felizes àqueles que vivem junto de ti.
- Como sermos fiéis seguidores(as) de Jesus se não somos conscientes das tentações mais perigosas que nos podem desviar hoje de seu projeto e estilo de vida? Desmascará-las e “dar nomes”.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Misericórdia: Deus Ama a Fundo Perdido

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 7º Domingo do Tempo Comum.


 “Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso”  (Lc. 6,36)

Tornar presente o Pai como Amor e Misericórdia foi, para Jesus, o cerne de sua missão: toda a sua vida foi uma eloquente demonstração da misericórdia divina para com a humanidade.
Jesus, que encarna e torna visível no mundo a misericórdia do Pai, se faz também misericordioso. Anuncia aos pecadores que eles não estão excluídos do amor do Pai, mas que Ele os ama com infinita ternura. O Evangelho só aparece como Boa-Nova se compreendermos esta novidade introduzida por Jesus.
Ele, em sua presença misericordiosa, revela um Deus desprovido de dogmatismos, de controle e de poder. O Deus de Jesus não é um juiz com um catálogo de leis que tem necessidade de mandar, controlar, verificar; o seu Deus é o Deus da misericórdia, da bondade sem limites e da paciência para com todos.
Jesus propõe um modo de ser humano inseparável da misericórdia do Pai:
                        “Sede misericordiosos como o Pai é misericordioso” (Lc 6,36)
Ser misericordioso “como” Deus constitui o mais elevado convite e a mensagem mais profunda que o ser humano recebe sobre como tratar a si mesmo e aos outros.
Deus, em sua misericórdia reconstrutora,  libera em nós as melhores possibilidades, riquezas escondidas, capacidades, intuições... e nos faz descobrir em nós, nossa verdade mais verdadeira de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis... É ele que “cava” no nosso coração o espaço amplo e profundo para nos comunicar a sua própria misericórdia. A força criativa do seu amor misericórdioso põe em movimento os grandes dinamismos de nossa vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova nunca ativada.

A experiência de misericórdia gera em nós uma atitude correspondente de misericórdia. O Deus miseri-cordioso cria em nós um coração novo, feito de acordo com o Seu, capaz de misericórdia (“bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia”). É exatamente este o maior sinal da sua Misericórdia: ama-nos a ponto de enviar-nos ao mundo como instrumentos de Sua reconciliação, pondo em nosso coração um Amor que vai além da justiça.
A misericórdia é não só o atributo primeiro de Deus, mas também a mais humana das virtudes. É aquela que melhor revela a natureza do Deus Pai e Mãe de infinita bondade. É a que revela igualmente o lado mais luminoso da natureza humana. Por isso é a que mais humaniza as relações entre as pessoas.
A misericórdia presente em nós é modelada e alimentada pela Misericórdia divina, que se visibiliza no perdão, na compaixão, no consolo, na ternura, no cuidado...
Nossa atitude misericordiosa nos configura à imagem do Deus misericordioso. É onde somos mais seme-lhantes a Ele. A misericórdia como estilo-de-vida cristã nos descentra de nós mesmos e nos faz descer em direção ao outro, numa atitude de pura gratuidade. A vivência da misericórdia nos torna  realmente livres, e isso nos proporciona profunda alegria interior.

Uma misericórdia superabundante, generosa... é gesto gratuito e positivo de encontro, de acolhida, de cordialidade, que se torna hábito de vida: ser “presença misericordiosa”.
A espiritualidade da misericórdia contém em si a gratuidade do relacionamento, a dimensão desinteres-sada da doação. É a partir da misericórdia que a pessoa é capaz de amar os inimigos, de fazer o bem aos que a odeiam, de bendizer os que a amaldiçoam, de oferecer a outra face, de emprestar sem espe-rar recompensa, de perdoar sem limites...
A misericórdia é humilde e não humilha, porque é discreta e silenciosa. Ser presença misericordiosa não significa pôr o outro de joelhos para que reconheça seus erros; ela nasce de um coração “educado” pela Misericórdia divina e se manifesta externamente com uma atitude mansa e condescendente.
Essa Misericórdia é uma força poderosa, não se rende diante do mal, porque é sempre capaz de redescobrir o bem ou de salvar a intenção do próximo, de abrir-lhe novamente a esperança...

Entrar no movimento da misericórdia humaniza e cristifica essencialmente a pessoa, porque a miseri-córdia constitui “a estrutura fundamental do humano e do cristão”.
Fundamentalmente, a misericórdia significa assumir como própria a miséria do outro, inicialmente como sentimento que comove, mas que, logo em seguida, leva à ação. Ela brota das “entranhas” e se dirige instintivamente ao próximo na forma de proximidade, acolhida e compaixão.
Misericórdia é exatamente: “ter coração” para o outro, dando preferência aos pequenos e pobres.
A misericórdia é a caridade que “toma mãos e pés”, ou seja, o amor que se expressa em uma ação de-


cidida e generosa, capaz de transformar e libertar.
Em hebraico, a palavra “misericórdia” – “rahamim”, significa ter entranhas como uma mãe.
É comover-se diante da situação de fragilidade do outro; é sentir-se intimamente afetado e, por isso, com a disposição de ser magnânimo, clemente e benevolente para com ele.
A misericórdia recebida e experimentada é a base da atitude compassiva, não como ato ocasional mas como estilo de vida evangélico. Torna-se o fundamento e a perene inspiração de uma existência de par-tilha e solidariedade.

Ser presença misericordiosa é um “modo de proceder”, um “estilo de vida” que não está ligado a uma transgressão; é muito mais um estilo de bondade, compreensão, magnanimidade, estilo de quem não se fixa no que o outro merece nem se escandaliza com sua miséria.
"Devemos ser presença misericordiosa como pecadores, e não como justos”.
A misericórdia é fundamentalmente uma mensagem de estima e confiança no outro, crer na sua amabilidade. Por isso, a presença misericordiosa é força que provoca no outro a re-descoberta de sua própria identidade (uma pessoa amada e acolhida pelo Deus misericordioso) e ao mesmo tempo desata nele as ricas possibilidades de vida que estavam latentes.
Quem é misericordioso está convencido de que o irmão é melhor que aquilo que aparenta ser.
A misericórdia é expansiva, ela abre um novo futuro e ativa os melho-res recursos no interior de cada um. Ela não se limita ao êrro, mas impulsiona o outro a ir além de si mesmo.
Onde não há misericórdia, não há sequer esperança para o ser humano.


Textos bíblicos:   Lc 6,27-38

Na oração:
- Pedir maior consciência do Amor Misericordioso do Pai por você; que você possa deixar-se surpreender pelo Amor criativo do Deus Pai/Mãe... e participar em sua festa de reconciliação.
- Ao mesmo tempo, pedir um coração “desarmado”, pronto a re-criar (perdoar é re-criar, é dar oportunidade para alguém viver de novo).
- Entrar no “fluxo” da misericórdia divina: ser canal por onde ela circula para chegar até os outros.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Viver em Redes... Sem Enredar-se

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 5º Domingo do Tempo Comum.

“Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes...” (Lc 5,4)

Indiscutivelmente, Jesus é o misterioso visitante que cada dia chega até nós para advertir que precisamos nos libertar do tedioso cotidiano, quando ele se torna convencional e, não raro, carregado de desencanto, pesado, estressante... Corremos o risco de sermos apenas imitadores ou repetidores, pois tememos nos perder na busca do novo, bloqueando o desenvolvimento pessoal e comunitário.
O encontro com Jesus nos arranca da rotina, do “sempre fizemos assim” e nos desafia a “pescar” de maneira diferente; sua presença alarga nossa mente e nosso coração instigando-nos a sair dos nossos estreitos mares e entrar no movimento do vasto mar que Ele nos oferece.
Em quê grau Sua presença nos desperta para aquilo que devemos ser como seus(suas) seguidores(as)?
São grandes os riscos de vivermos em mares tão estreitos; é cômodo perceber, delimitar, defender e fechar-nos no próprio mar. Isso fazemos de maneira tão zelosa que nem vemos aquilo que está para além da margem onde nos estabilizamos.
Tal estreiteza de vida aprisiona a solidariedade e dá margem à indiferença, à insensibilidade social, à falta de compromisso com as mudanças que se fazem urgentes. O próprio espaço se torna uma couraça e o sentido do serviço some do horizonte inspirador de tudo aquilo que se faz.

Hoje, o lago de Tiberíades se converteu numa grande rede que abarca o mundo inteiro. Mas, o que as pessoas buscam nessa grande rede? E, sobretudo, o quê estamos oferecendo nela para evangelizar?
Com um só click podemos chegar a milhões de pessoas, podemos fazer muito bem, mas também podemos criar muita confusão e inclusive repulsa, podemos levar a mensagem de Jesus ou simplesmente fazer transparecer todo o nosso ego inflado, cheio de si mesmo. As redes sociais têm seus perigos, mas também tem suas grandes oportunidades que não podemos desperdiçar. Vamos nos dando conta que, enquanto não evangelizemos a partir dos meios eletrônicos modernos, não poderemos encher nossas redes de peixes. O seguimento de Jesus implica hoje a necessidade de evangelizadores nas redes sociais.
Tendo as ferramentas em mãos (nossas pobres barcas e redes) e sendo portadores de uma mensagem de vida (o evangelho) somos movidos por Jesus a “ser pescadores do humano”.
No mar das redes sociais ressoa mais uma vez o apelo de Jesus: “fazei-vos pescadores do humano”.
Frente a esta nova realidade, quê tipo de profecia responde melhor a nossa peculiar forma de cooperar na missão do Espírito do Abbá e de Jesus.
Estamos no mundo das telas: através delas nos interconectamos, transmitimos informações, saberes. As diversas telas tendem à convergência: com um só dispositivo, fixo ou móvel, podemos falar, enviar e receber fotos, música, vídeos e qualquer tipo de arquivo; com o “boom” das redes sociais podemos fazer isso com o grupo que elegemos em cada momento.

Se há algo que caracteriza nosso tempo é a nova consciência de ser rede-comunhão-interconexão-unidade. Encontramo-nos em um tempo surpreendente: as espetaculares inovações tecnológicas nos convidam a entrar numa inimaginável rede de informações, imagens, conexões... Nosso planeta está dotado de uma complexíssima textura de comunicações. Com apenas alguns clics oferece-se, diante de nós, um mundo complexo, de graça e maldade, de alianças para o bem e para o mal, de luzes e trevas.
E aí estamos nós, seguidores(as) de Jesus, “en-redados(as)”, nos perguntando por nossa identidade cristã, na vivência do Evangelho e na missão de nos fazer presentes neste “novo mundo”.
Todos já sabemos que tudo está interconectado: a globalidade é interação. Lentamente vai-se tomando consciência de que formamos parte de um todo. A realidade vai se revelando como um manto sem costuras, sem fraturas, onde todos estamos implicados e comprometidos.

“Rema mar adentro!”, ressoa a voz de Jesus. A multidão permanece em terra; somente Pedro e seus companheiros se adentram no mar profundo. Este apelo de Jesus é muito simbólico. Em grego “bados” e em latim “altum” significam profundidade (alto mar); só nas profundezas é que se pode extrair o mais autêntico do ser humano, o que é mais nobre e divino.
Tudo o que, em vão, buscamos na superfície, está dentro de nós. Mas, ir mar adentro não é tão fácil como pode parecer. Exige ultrapassar as seguranças do “eu superficial” e adentrar-nos nas incontroladas águas de nosso ser profundo. Confiar naquilo que não controlamos exige uma fé-confiança autêntica. Dizia Teilhard de Chardin: “Quando descia ao profundo de meu ser, chegou um momento em que não ‘dava mais pé’ e parecia que me deslizaba para o vazio”.
O mar era o símbolo das forças do mal. “Pescar homens” era um dito popular que significava tirar alguém de um perigo grave. Não quer dizer, como se entendeu com frequência, fazer proselitismo ou converter as pessoas à força para a religião cristã. Aqui quer dizer: ajudar as pessoas a sair de todas as opressões que lhe impedem crescer e desenvolver suas potencialidades. Só pode ajudar o outro a sair da influência do mal aquele que encontrou o que é mais verdadeiro e nobre dentro de si mesmo.

Neste contexto atual, onde corremos o risco de nos converter em pessoas “grudadas” a uma tela, se faz mais necessário que nunca humanizar a rede para “pescar o humano” que está escondido no oceano interior de cada um. Esta humanização requer, em primeiro lugar, muita responsabilidade.
Tudo isto nos leva a pensar que na rede há uma grande necessidade de silêncio (“silêncio na rede”), precisamente para que possamos ouvir a verdade com amor. Há excessivas palavras que afogam, notícias falsas, “bullings”, campanhas desqualificadoras e comentários feitos com extrema má educação. Sobretudo nas páginas religiosas, precisamos de um silêncio construtivo para que se escute a verdade que liberta.
Silêncio construtivo significa utilizar uma linguagem propositiva, compreensiva, que estenda pontes de diálogo, que escute o outro que é diferente, que leve em conta o que “o outro” diz, talvez um aspecto da realidade que nos tinha escapado.
Silêncio construtivo significa tomar partido pelos mais fracos e excluídos; significa usar uma linguagem que sare as feridas, que reconstrua os vínculos quebrados. Uma página (mensagem) que só busca condenar, que só revela intolerância e preconceito, não pode ser evangélica. Literalmente, “há demasiado disparos” que desumanizam. Precisamos do azeito do consolo que cura as feridas, o vinho da esperança que nos une como irmãos acima das diferenças, o pão da compaixão que alimenta e eleva ...
É preciso fazer a “travessia” do estreito mar de nossa vida, onde nossas inúteis barcas e redes só “pescam” futilidades e lixo, para o grande oceano que Jesus nos oferece, carregado de vida e vida em plenitude.

Texto bíblicoLc 5,1-11

Na oração:
“Rema mar adentro e desce ao profundo de teu ter!”
É um convite dirigido a todo ser humano. Sem essa profundidade, não é possível a plenitude humana. A contemplação é o único caminho.
“Não é necessário que percorras os mares buscando alimento; aprende a pescar em teu próprio mar interior; o que com tanto afinco buscas fora de ti, já tens ao alcance da mão, dentro de ti.

Se não tens pescado nada, que poderás oferecer aos outros? Se não tens aprendido a pescar, como poderás ensinar a outros? Dá verdadeiro sentido à tua vida e ajudarás os outros a atingir o mesmo”. (cf. Fray Marcos)