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domingo, 7 de janeiro de 2024

Feliz Ano Ano! Feliz 2024

Prezados leitores e prezadas leitoras,

Depois de um tempo sem as postagens semanais dos textos de reflexão do Evangelho da liturgia dominical escritos pelo Pe. Adroaldo Palaoro, SJ estamos de volta!
Um ano efetivamente novo é resultado de novos olhares, novas perspectivas e novas atitudes. Que tenhamos sabedoria e força para construir o novo.
Desejamos a todas as pessoas de boa vontade um ano fecundo e cheio de bênçãos de vida!

 

segunda-feira, 30 de março de 2020

O Despertar da Consciência Fraterna


Jesus, meu Irmão e meu Senhor,

como esta mulher arrastada diante de Ti,

como estes homens tão cheios de si,

eu também sou infiel ao Teu Amor.

Movido

pelas carências ou pelos excessos,

pelos prazeres ou pelas vinganças,

nem sempre consigo ver nos outros

o rosto de um irmão e uma irmã:

nem um bem a ser devorado,

nem um mal a ser lapidado,

mas, simplesmente, pecadores perdoados,

alcançados pela graça, assim como eu!

Ajuda-me, Senhor,

a me inclinar até tocar nosso chão comum,

a deixar que o silêncio gere a Palavra que salva:

Aquela capaz de me livrar, ao mesmo tempo,

do perigo de morrer e de matar.

Sim, eu sou tão falho quanto meus irmãos!

Mas, já sem pedras nas mãos,

descubro que também posso vir a ser

mais parecido contigo:

o Primogênito que não veio para condenar,

mas para despertar nossa consciência fraterna,

revelando-nos que podemos amar, de graça,

porque somos, desde sempre,

incondicionalmente, amados por Ti...

(cf. João 8,1-11)

Fonte: Francys Silvestrini Adão SJ via Facebook

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Ilumina teu andar com a LUZ que há em ti mesmo

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 5º Domingo do Tempo Comum (Ano A).


“Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14)

O evangelho deste domingo é continuação das bem-aventuranças; estamos no início do primeiro discurso de Jesus, conhecido como “Sermão da Montanha”. É, portanto, um texto ao qual Mateus quer dar suma importância. As duas imagens, luz e sal, tem forte impacto na vida do(a) seguidor(a) de Jesus, pois sua presença no mundo deveria fazer a diferença: iluminar e dar sabor.
A mensagem de hoje é muito simples e de grande valor; efetivamente, todo(a) aquele(a) que alcançou a iluminação, ilumina. Se uma vela está acesa, necessariamente tem de iluminar. Se colocamos sal no alimento, este necessariamente ficará temperado. O encontro com Aquele que é a Luz ativa a luz, talvez atrofiada, em nosso interior.
Quanto mais luz emergir de dentro, mais brilhante será o mundo em que vivemos.
Sabemos que a luz, por si mesma, é contagiosa e expansiva; em oposição às trevas, a luz exalta o que belo e bom, na realidade e nas pessoas. Pelo fato de ser benfazeja e criadora, ela nos permite dizer com o poeta Thiago de Mello, no meio de impasses, ameaças e conflitos que pesam sobre nossa vida: “Faz escuro, mas eu canto”.

Mas, quê queremos dizer quando aplicamos a uma pessoa humana o conceito de iluminada?
Todos os grandes líderes espirituais falam de iluminação. Não é fácil entender o que isso significa. Na realidade, só pode compreender isso quem faz a experiência de estar iluminado.
Quando as tradições religiosas falam de iluminação, elas se referem a uma pessoa que despertou, ou seja, que ativou todas as suas possibilidades de ser humano. Estamos, então, falando de uma pessoa plenamente humana: aquela que vive uma interioridade iluminada.
Isto é precisamente o que está nos dizendo o evangelho de hoje. Dá por suposto que o caminho do seguimento de Jesus é um “caminho de humanização”, é uma experiência de iluminação; os discípulos, na convivência com o Iluminado, são despertados, mobilizam seus recursos iluminantes e tornam-se também iluminados; como consequência, são capazes de expandir suas luzes e mobilizar a luz escondida nos outros. É inútil tentar iluminar os outros, estando apagados, adormecidos, paralisados em sua obscura vida.

Devemos ter cuidado de iluminar, não deslumbrar. Como é sedutor estar no candeeiro! Há muitos que anseiam estar no candeeiro, mas não tem luz. Não se trata de “subir” ao candeeiro, mas possibilitar que a luz interior ilumine a partir dele.
O candeeiro não é para que os outros nos vejam; é para que a luz de nossas vidas ilumine melhor. O candeeiro não é para que estejamos mais alto, e sim, para que a luz interior se espalhe mais e desperte a “faísca de luz”, presente no coração dos outros. “Estar no candeeiro” significa estar a serviço do outro, pensando no bem dele e não em nossa vaidade; devemos oferecer o que o outro espera e necessita, não o que nós queremos lhe oferecer.
Muitas vezes, nós cristãos somos mais afeiçoados a deslumbrar que a iluminar; temos a tendência a ser presença iluminante desde que com isso se potencie nosso “ego”. Porque o ego necessita fazer-se notar e brilhar; não está disposto a consumir-se nem a passar desapercebido.
Cegamos as pessoas com imposições excessivas e tornamos inútil a mensagem de Jesus para iluminar a vida real de cada dia. Quando tiramos alguém de sua obscuridade, devemos dosificar a luz para não causar dano a seus olhos.

O sal é um dos minerais mais simples (cloreto de sódio), mas também é um dos mais imprescindíveis para nossa alimentação. Mas tem muitas outras virtudes que podem nos ajudar a entender o relato deste domingo. No tempo de Jesus, eram usados blocos de sal para revestir por dentro os fornos de pão. Com isso, conseguia-se conservar o calor para o cozimento do pão. Este sal, com o tempo, perdia sua capacidade térmica e devia ser substituído. Os restos das placas retiradas eram utilizadas para compactar a terra dos caminhos.
Agora podemos compreender a frase do evangelho: “se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens”.
O sal não se torna insosso; o sal dos fornos sim, pode perder a qualidade de conservar o calor.
A expressão latina “evanuerit” significa desvirtuar-se, desvanecer-se. A tradução melhor seria assim: se o sal perde sua qualidade, como poderá recuperar-se. Esse sal “queimado” só serve para ser jogado nos caminhos e ser pisado pelas pessoas.

Há um aspecto no qual sal e luz coincidem: não tem utilidade por si mesmos. Se o sal permanece isolado em um recipiente, não serve para nada; só quando entra em contato e se dissolve nos alimentos pode dar sabor ao que comemos; para salgar, o sal precisa desfazer-se, deixar de ser o que era.
Segundo os entendidos na arte culinária, não é o sal de “dá sabor”; ele realça o sabor de cada alimento. O humilde sal é feito para os outros, para que os outros sejam eles mesmos.
O mesmo acontece com a luz; se ela permanece fechada e oculta, não pode iluminar ninguém. Só quando está em meio às trevas pode iluminar e orientar. A luz não é para ser vista, caso contrário, cega. A lâmpada ou a vela produz luz, mas o azeite ou a cera se consomem. Imagens que revelam que nossa existência só terá sentido na medido em que nos consumimos em benefício dos outros. Uma comunidade cristã isolada do mundo não pode ser sal e nem luz.
Ser sal e luz do mundo nos move a encontrar outras vidas, outras histórias, outras situações…; escutar outros relatos que trazem muita luz para a nossa própria vida. Olhar a partir de um horizonte mais amplo, ajuda a relativizar nossos próprios absolutos e deixar-nos impactar pelos valores presentes no outro. Escutar de tal maneira que o que ouvimos penetra na nossa própria vida; isso significa implicar-nos afetivamente, relacionar-nos com pessoas, não com etiquetas. Acolher na nossa própria vida outras vidas; abrir espaços para que as histórias dos excluídos e diferentes encontrem morada nas nossas entranhas, na nossa memória e no nosso coração.

Ser sal e luz é dizer sim à vida. Experimentamos isso quando nos submergimos na vida, quando crescemos nela, buscando, saboreando até o final o que ela nos oferece em cada circunstância. Nunca alheios à vida, nada desprezando, nada lamentando.
Ser sal e luz não é um programa. É uma experiência de vida, um modo de estar no mundo a partir da confiança numa promessa. Enraizados na pessoa e promessa de Jesus, o chamado a ser sal e luz nos propõe um estilo próprio de vida aberto e expansivo: uma maneira alegre, pacífica, compassiva, responsável e generosa de se fazer presente neste mundo onde são centrais o cuidado de todo o vivente e o trabalho em favor da justiça.
O apelo de Jesus nos move a transformar o que, com frequência, é terra insípida ou deserto inóspito em um mundo mais humano, com sabor de lar humanizador.


Texto bíblico:  Mt 5,13-16

Na oração:
“Deus é Luz, e n’Ele não há treva alguma” (1Jo 1,5).
É preciso buscar esta faísca de luz dentro de nós, no nosso eu mais profundo. Talvez por isto alguém escreveu: no ser humano há mais coisas dignas de admiração que de desprezo.
- Sua relação com os outros: deixa transparecer a luz da compaixão, da acolhida ao diferente, do cuidado...?
- Qual é o sabor que sua presença revela na realidade onde você vive? Faz diferença? Inspira?...

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Esperas Construtivas

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 19º Domingo do Tempo Comum - Ano C.



“Sede como homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento...” (Lc 12,36)

O texto do evangelho deste domingo faz parte de um amplo contexto, que começou no domingo passado com a petição de alguém a Jesus: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”. A partir daí, Lucas revela uma longa conversação de Jesus com os discípulos e toca diversos temas de difícil harmonização. Naturalmente se trata de pensamentos dispersos que o evangelista organiza à sua maneira para ir aclarando as exigências de Jesus, na formação do seu discipulado.
No domingo passado, Jesus nos pedia para não colocar nossa confiança nas riquezas; hoje, Ele nos diz em quem devemos confiar para que nossa vida seja autêntica. Confiadamente, é preciso ativar todos os recursos de nosso ser, conscientes que Deus atua em nosso interior, e que só através da sintonia com essa presença interna nossa vida avança, amadurece e se plenifica. Nosso Deus não é o “Deus todo-poderoso” distante, mas o fundamento de nossa vida: afinal, somos morada do Deus sempre surpreendente.

A condição humana pode ser definida em termos de “espera radical”.
O nosso coração está habitado por “esperas” de todo gênero. São tantas as esperas na vida humana!
Está todo mundo esperando. É através das esperas que nos fazemos humanos.
Somos feitos disso: desejo, súplica, anseio, abertura, busca, esperança...
A espera está ligada ao verbo “esperançar”: espera ativa, aberta ao futuro imprevisível, ao novo plenificante...; ela cria o espaço vital que permite a realização do possível.
Quem espera faz-se disponível, acolhedor, abre espaço para o mistério do outro que lhe vem ao encontro; quem espera, acolhe o diferente. Os intolerantes e preconceituosos não esperam nada: amargam a vida no fechamento, no dogmatismo e no moralismo.
Esperar é passar do “tempo fechado” ao “tempo aberto”, da fugacidade do “ter” à plenitude do “ser”, do “lugar estreito” ao “lugar amplo”, do “medo paralisante” à “coragem criativa”...
Durante a espera, a imaginação trabalha e cria mil momentos insuperavelmente felizes.
E quando acontece o encontro entre o desejo e a realização, entre a espera e o esperado, entre o vazio e aquilo que plenifica, explode uma alegria incontida. Uma mistura de festa com ternura e boas emoções   solidificam esta certeza: valeu a pena esperar!

A vida que é feita de tantas esperas, também é “esperada”. Somos continuamente tentados a pensar que somente nós esperamos e esquecer que também Deus nos espera. A espera divina é paciente, compreensiva e compassiva.
Em nossas esperas, somos ansiosos e impacientes; fazemos da espera um tempo “em branco”, vivendo como se nada estivesse para acontecer, mergulhados no tempo rotineiro, sem abertura à surpresa.
Não sabemos esperar: basta ir às salas de esperas dos hospitais e consultórios para comprovar como as pessoas se desesperam porque não lhe atendem à hora marcada. Perdemos a paciência porque pretendemos que tudo seja imediato e a nosso gosto. Não suportamos uma contradição.
O evangelho deste domingo pode ser uma boa oportunidade para recordar isto. Exercitar-se na arte de esperar com paciência. Desejar, dar asas à imaginação sobre aquele que vai chegar, sem que esteja em nossa mão adiantar ou controlar sua chegada.

Deus, pelo contrário, nos espera incansavelmente. Por isso se “humanizou”. Não nos esperou com prepotência, tampouco com soberba. Esperou na humildade, no húmus da vida, afundando os pés na nossa existência.
Mas Deus não precisa vir de nenhuma parte. Ele está chamando sempre, mas a partir de dentro de cada um de nós; é a partir de dentro que Ele se faz visível em nossas relações com os outros.
Somos nós que projetamos Deus fora e distante de nós, que nos ameaça com prêmios e castigos, que aparece de surpresa para nos pegar em flagra. O medo de Deus brota quando o imaginamos fora de nós. “Deus de fora” é o Deus idealizado, que alimenta medo, ameaça com inferno, que castiga.
No evangelho deste domingo, Jesus revela “Deus em saída” até o ser humano e des-vela o ser humano em saída até Deus. E o encontro entre ambos é o que o Evangelho propõe. O encontro de pessoas que se esperavam: como nos aeroportos-rodoviárias, desejando a chegada do(a) amigo(a); ou nas salas de urgências dos hospitais desejando saber a situação do enfermo familiar.
Essas são esperas autênticas: desejantes, emocionantes, inocentes... porque esperam uma pessoa.
Essa deve ser a disposição de uma “Igreja em saída” e que não aguarda em uma sala de espera.

O decisivo é entrar em sintonia com o Deus presente em nós; “esperar” significa estar desperto para conectar-nos com essa presença, sempre nova e sempre cheia de surpresa. Deus, ao mesmo tempo, está sempre presente e sempre chegando de maneira surpreendente. Ele é dom e pura gratuidade. Aqui não há mais lugar para o medo, a culpa, a angústia. Quem entra em sintonia com Ele e se deixa conduzir por Ele não atua por mérito, mas por pura gratuidade.
O evangelho de hoje, através de parábolas, nos apresenta alguém que não vive a relação com Deus internamente. O que acontece com ele? As consequências são funestas, provocadas não por Deus, mas pela pessoa mesma: irresponsabilidade no serviço, violência com os outros, auto-agressão, partindo-se ao meio... Uma experiência infernal.

Um cristão é uma pessoa que vive em “estado de espera”.
O importante é isto, o “estado”, o processo, a continuidade, o estar sempre a tempo, sempre alerta, sempre preparado. A vida inteira se converte numa contínua espera: o equilíbrio, o contato, a liberdade, a generosidade, cada nervo sintonizado, cada músculo em forma. E assim entramos na vida e enfrentamos mil situações.
Cada pequeno encontro é uma satisfação em si mesma e uma preparação para a seguinte. Sempre avante. Avanço que pode ser mudado de direção a cada instante.
“Não morras na sala de espera” (Hervey Cox). As “salas de espera do espírito” estão cheias de pessoas que simplesmente estão ali, ali moram e permanecem, ali vivem e morrem. O fato de já estar na “sala de espera” lhes dá a impressão de que já fizeram alguma coisa, já começaram a viagem.
As esperas têm rosto de criatividade, de itinerância, de abertura ao diferente. Elas põem em ação nossos melhores recursos internos; elas alimentam uma contínua atitude de busca.
Só assim o coração estará mais preparado para a chegada do Momento cume, quando deixaremos “Deus ser Deus” na nossa morada interior.


Texto bíblico:  Lc 12,32-48

Na oração:
Você é um impaciente? Não suporta esperar a fila no cinema? Fica nervoso quando o ônibus atrasa mais de cinco minutos? Espera que lhe respondam as mensagens de Whatsapp em questão de segundos? Ou quando alguém chega um pouco atrasado no encontro marcado?...
E, no entanto, você sabe que o importante requer seu tempo, que os bons pratos são cozidos a fogo lento.
A paciência não é uma palavra da moda hoje em dia. E talvez por isso é das mais necessárias. A paciência supõe esperar e respeitar os tempos. Supõe desejar a chegada do outro e não ter mais que fazer a não ser esperar. Desejar e esperar.
- Como você vive suas “esperas cotidianas?”

sábado, 11 de maio de 2019

Uma Voz que Move

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 4º Domingo da Páscoa.


“As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem” (Jo 10,27)

Todo quarto domingo de Páscoa é dedicado ao tema do “Bom Pastor”; a liturgia não apresenta outros relatos de aparições, mas continuamos com mais um texto profundamente pascal.
No relato deste domingo, a alegoria do Pastor fala de “escuta”, “conhecimento”, “seguimento” e “vida eterna”, que é a chave do tempo pascal; ao mesmo tempo, num aprofundamento progressivo, o texto remete ao Pai e culmina na Unidade, como Fonte de onde tudo procede e para onde tudo retorna.
São estas realidades que nos permitem conectar com o sentido originário da imagem do Pastor, sem cair na literalidade pastor/ovelhas, paternalismo/cordeirinho, poder/submissão..., que acabam provocando uma justificada resistência e rejeição.
Jesus quer estabelecer com seus(suas) amigos(as) uma relação que seja o reflexo daquela que Ele mesmo tem para com o Pai: uma relação de pertença recíproca, na confiança plena, na íntima comunhão.
Para expressar esta realidade profunda, esta relação de amizade, Jesus utiliza a imagem do pastor com suas ovelhas: ele as chama e elas reconhecem sua voz, respondem a seu chamado e o seguem.
Esta parábola é muito instigante. O mistério da voz é sugestivo: desde o ventre de nossa mãe aprendemos a reconhecer sua voz e, quando nascemos, vamos reconhecendo outras vozes. Pelo tom de uma voz perce-bemos o amor ou o desprezo, o afeto ou a frieza, a acolhida ou a rejeição.
A voz de Jesus é única! Se aprendemos a distingui-la de outras vozes, Ele nos guiará pelo caminho da vida, um caminho que supera também o abismo da morte.

O contexto do relato deste domingo é o embate de Jesus com as autoridades religiosas judaicas. Depois de dizer que elas não são suas ovelhas, Jesus descreve com todo detalhe o que significa ser dos seus.
Destaca dois traços, os mais essenciais e imprescindíveis: “Minhas ovelhas escutam minha voz... e elas me seguem”. Não se trata só de ouvir a Jesus, mas de escutá-lo. Muitas vezes só ouvimos e aceitamos somente o que está de acordo com nossos interesses. Escutá-lo significa aproximar-nos sem pré-juízos e acolher o que Ele nos diz, mesmo que isso implique mudar nossas convicções; escutar é pôr toda nossa atenção para tratar de compreender.
“E elas me seguem”. Não basta escutar, é preciso colocar-nos em movimento e entrar na nova dinâmica da vida. Escutar tem ressonância interna e ativa todas as nossas potencialidades ali presentes.
A boa notícia de Jesus consiste em manifestar que há uma nova maneira de assumir a existência humana, uma maneira de viver que esteja mais de acordo com as exigências profundas do nosso ser. Quando alguém é capaz de escutar esse chamado interior e de viver conforme ele, vive uma existência feliz. Vive de acordo com seu mais íntimo e esta adequação entre a vida exterior e a vida interior é a felicidade.

Em um mundo onde há tanto ruído, discursos ocos e palavreado intolerante, não é fácil prestar atenção a alguma voz em especial. O fato é que às vezes vivemos em bolhas onde raramente entram vozes que nos comovam de verdade. E, no entanto, debaixo de gritos, ruídos, músicas estridentes, anúncios, peças publicitárias e frases que apelam ao conservadorismo, continua brotando palavras cheias de verdade. Palavras que valem a pena escutá-las. Talvez, detrás de muitos gestos petrificados, palavras sem sentido, falsas seguranças, estarão vozes que clamam por ajuda, ou simplesmente expressam dor, desejo de paz, de consolo.
O verdadeiro desafio é aprender a escutar, por debaixo desses discursos, a palavra profunda, o canto tranquilo ou a voz que põe em movimento.
Saber escutar o outro é uma simples, mas profunda acolhida humana; trata-se de um ato de hospitalidade, pois consiste em abrir espaço para a presença do outro, sem preconceito. Porque quem escuta de verdade recebe toda palavra como nova e ativa a sensibilidade para deixar-se “tocar” pela voz que alarga a vida.

Vivemos mergulhados num mundo de vozes; um “vozerio” nos cerca: vozes que nos levam à morte, vozes que nos chamam à vida; vozes contaminadas pelo egoísmo, adulteradas pelo medo, deturpadas pela impureza, e vozes que são o eco do paraíso convidando para a festa, comunicando paz, convocando à comunhão... É possível que as vozes do egoísmo, do orgulho e da ambição tentem se disfarçar em voz de Cristo, a fim de arrastar-nos para o vazio e a ruína. Mas o Pastor verdadeiro não fala por ruídos, e sim pelo silêncio; não fala pela força dos pulmões, e sim pelo vento suave de seu Espírito...
Para escutá-la requer-se interioridade e atenção aos sinais de sua presença: pode ser a voz de um irmão pedindo socorro; pode ser a linguagem de um acontecimento alegre ou triste; pode ser uma palavra lida ou proclamada; pode ser uma inspiração misteriosa captada no silêncio...
Na arte do discernimento das vozes, o importante é, através da escuta interior, perceber de onde vem e para onde nos conduz cada voz que ressoa em nós. Se ela nos conduz  para o outro, para o Reino...é clara manifestação da voz do Pastor.

Depois de mais vinte séculos, nós seguidores(as) precisamos recordar de novo que o essencial para ser a Igreja de Jesus é escutar sua voz e seguir seus passos.
Primeiramente, é preciso despertar a capacidade de escutar Jesus; ativar muito mais em nossas comunidades essa sensibilidade, que está viva em muitos cristãos simples que sabem captar a Palavra que vem de Jesus em todo seu dinamismo e sintonizar com sua Boa Notícia de Deus.
Mas não basta escutar sua voz. É necessário seguir a Jesus. Chegou o momento de decidir-nos entre contentar-nos com uma “religião burguesa” que tranquiliza as consciências mas afoga nossa alegria, ou aprender a viver a fé cristã como uma aventura apaixonante de seguir a Jesus.
Parece óbvio afirmar isso: somos seguidores de uma Pessoa (Jesus Cristo) e não seguidores de uma religião, de uma doutrina, de uma moral... Estas são mediações que deveriam nos ajudar a crescer na identificação e vida d’Aquele é o Bom Pastor.
A aventura cristã consiste em crer naquilo que Ele acreditou, dar importância àquilo que Ele deu, defender a causa do ser humano como Ele a defendeu, aproximar-nos dos indefesos e desvalidos como Ele se fez presente, ser livres para fazer o bem como Ele, confiar no Pai como Ele confiou e enfrentar a vida e a morte com a esperança com que Ele enfrentou.
Se, aqueles que vivem perdidos, sozinhos e desorientados podem encontrar na comunidade cristã um lugar onde se aprende a viver juntos de maneira mais digna, solidária e libre, seguindo a Jesus, a Igreja estará oferecendo ao mundo de hoje um de seus melhores serviços.


Texto bíblicoJo 10,27-30

Na oração:
Minha voz, está a serviço de quem?
Da vida ou da morte? Como ela se expressa: com intolerância, julgamento, preconceito? Sou canal através do qual a Voz de Vida chega até os últimos..., ou coloco minha voz à disposição daqueles que estão a serviço da violência e da morte? Sei distinguir as diferentes vozes que se fazem ouvir ao meu redor? Purifico minha voz no fogo do silêncio ou ela é expressão do ruído da superficialidade?

O Senhor nos atrai

Uma reflexão: No Evangelho de quinta-feira, dia 09/05/2019, Jesus disse à multidão: "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrair." 
Vivemos em uma multidão e o Senhor chama a cada um individualmente. 
Uma sugestão para reflexão e partilha: Como o Senhor me atraiu? E como me atrai até hoje? 
O que realmente me encanta e me atrai no caminho do Senhor?

Curar feridas do passado

O truque jesuíta para curar feridas do passado

Esta prática de 5 etapas de Santo Inácio pode abrir o caminho para a cura


Frequentemente, emoções surgem de uma fonte misteriosa dentro de mim, e eu me vejo ansioso ou irritado, sem saber o porquê. Eu normalmente não sei dizer por que estou tendo um dia ruim e tenho dificuldade em corrigi-lo. Isso porque, como um psicólogo uma vez me disse, não tenho a menor ideia do que estou sentindo em momento algum. O que significa que eu geralmente me comporto de maneiras que não são saudáveis, porque eu estou carregando coisas do passado que nem tenho consciência de que ainda estão me afetando. E só mais tarde eu reflito e entendo a causa.
Tão pequenas quanto minhas mágoas podem ser, eu me esforço para deixá-las para trás. Como sacerdote, eu converso com pessoas que estão buscando aconselhamento e oração, e descubro que as dores do passado e o trauma podem permanecer como uma ferida aberta. Pode ser uma lembrança da infância ou um evento mais recente, mas, de qualquer forma, se não for tratada, a dor do passado continuará a causar um efeito negativo e permanente. A falta de cura interior pode destruir casamentos e amizades. Faz com que nos comportemos de forma autodestrutiva e podemos tornar a paz interior impossível.

Então, como curar e seguir em frente?

Vejamos o que diz Santo Inácio de Loyola, padre do século XVI e fundador dos jesuítas. Sua vida foi marcada por vários eventos indutores de trauma. Sua mãe morreu quando ele era jovem, ele esteve envolvido em várias brigas violentas, assassinou um homem em um duelo, e ainda teve sua perna estilhaçada por uma bala de canhão em batalha. Como resultado da lesão, ele passou por várias cirurgias dolorosas sem anestesia. Foi durante a recuperação que ele começou a contemplar sua vida e começou a fazer mudanças. Por fim, ele publicou seus Exercícios Espirituais, que detalham seu método prático para alcançar a liberdade espiritual. Parte de seu processo, chamado Examen, ajuda a examinar as mágoas, os erros e as motivações do passado.

Aqui está sua meditação diária de cinco etapas que ajuda a trazer à luz o que está doendo e abre o caminho para a cura.

1) Buscar esclarecimento
Santo Inácio indica aqui que devemos ampliar nossa perspectiva. É muito fácil ficar focado em mágoas passadas e permitir que elas se tornem nossa identidade. É extremamente útil nos vermos com novos olhos. Inácio tem particularmente em mente buscar uma perspectiva divina, mas também é bom encontrar apoio de amigos e familiares.

2) Agradecimento
Quando estou ansioso ou me sentindo magoado, minha mente fixa constantemente em minhas preocupações, o que só faz a mágoa crescer. Os psicólogos concordam com Santo Inácio que é importante insistir na experiência positiva para quebrar um ciclo mental negativo. Isso não apagará a dor, mas proporcionará um espaço de ar fresco emocional muito necessário.

3) Conheça suas emoções
Dê uma olhada honesta no seu dia, incluindo as mágoas que podem ter se acumulado e quais feridas passadas ainda persistem. Costumo tirar um tempo sozinho no final do dia para refletir e considerar honestamente onde estou, perguntando a mim mesmo quais emoções estou sentindo e identificando sua origem. Emoções fortes significam que eu tenho algo para resolver na minha alma. Os psicólogos concordam que é vital fazer essa revisão, identificar emoções e trabalhar para compreendê-las.

4) Seja responsável
É difícil, mas não importa quem tenha me machucado, não posso usar isso como desculpa para minhas falhas. Um dos passos para a cura é quebrar o ciclo de ação. Mesmo que eu seja afetado negativamente por mágoas passadas, não posso permitir que a negatividade sature o resto da minha vida e controle o meu comportamento. Quando assumimos a responsabilidade por nossas ações, isso nos liberta para fazer escolhas positivas no futuro.

5) Esteja pronto para o amanhã
Nós não temos que ser escravos do nosso passado para sempre, e o futuro é iluminado para cada pessoa, independentemente das experiências que nos levaram aonde estamos hoje. Santo Inácio aconselha que todos os dias que façamos uma resolução, que seja a melhor versão possível de nós mesmos.

Ao longo de sua vida, Santo Inácio achou que suas meditações eram uma forma eficaz de deixar o passado para trás e progredir em direção ao tipo de pessoa que ele queria se tornar. Sua influência continua a ser amplamente sentida hoje, quando pessoas de todas as esferas da vida usam seus métodos práticos para progredir no autoconhecimento, compreender suas emoções e encontrar a cura.


domingo, 5 de maio de 2019

RESSURREIÇÃO: experiencia que nos tira de um fatal ‘ponto morto’

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 3º Domingo da Páscoa.


“...e naquela noite não apanharam nada” (Jo 21,3)

Estamos desfrutando do tempo Pascal no qual tudo na vida dos cristãos (a liturgia, os símbolos, as leituras da Palavra de Deus, as flores, o branco litúrgico, e inclusive, em algumas partes do mundo, o tempo meteorológico) nos fala da vitória da vida. É, sem dúvida, um tempo precioso no qual ressoa o Aleluia da noite de Páscoa e se prolonga na liturgia, na vida e nos corações.
O Evangelho deste domingo nos conduz até à “praia pascal” da Galileia. Depois dos terríveis capítulos anteriores (gritos, sangue, cruz, violência, tortura, morte...), os apóstolos se encontram de novo na Galileia, numa paisagem quase idílica, dedicados outra vez à pesca, como se nada tivesse acontecido. O texto está cheio de simbolismos, de significados insinuados e de sugestões, mas basta recordar que tudo acontece no alvorecer, nessa hora tão charmosa na qual vemos ainda com dificuldade.

O encontro com o Ressuscitado nas praias da Galileia nos motiva a buscar um novo sentido e uma nova inspiração para o cotidiano de nossas vidas. De fato, nem todos os dias são iluminados pelos êxitos; tampouco as noites. Há dias que anoitecem e há noites que amanhecem em meio a muitos fracassos. Nem todas as manhãs nossos pescadores chegam ao porto com suas barcas carregadas de peixes.
A vida tem seus êxitos e seus triunfos. Mas também suas derrotas e fracassos. É preciso saber acolher os triunfos sem que a fumaça do ego cubra nosso coração. E é preciso saber assumir a desilusão do fracasso, sem por isso sentir-nos derrotados. Os triunfos podem alimentar ilusões; os fracassos põem à prova nossa resistência e nossa constância.
Os discípulos, naquela noite não tinham pescado nada, além do cansaço e do frio do lago. Mas não tinham perdido a esperança. A pesca tinha sido um fracasso e, a partir da margem, um estranho personagem lhes sugere que lançassem as redes do outro lado do barco, como se eles não soubessem onde deveriam lançá-las; surpreendentemente eles têm grande êxito na pescaria. Nesse momento, o discípulo amado diz a Pedro: “É o Senhor!”
Adiantou-se a todos sem mover-se do lugar; olhou para frente sem soltar a ferramenta de trabalho; não gritou sua descoberta; simplesmente sussurrou, mas entre admiração e comoção: “É o Senhor!”
Voltou a sentir a água caindo sobre seus pés e o pulsar de um coração na noite do Serviço e do Amor; suas mãos não deixaram a rede de lado, mas seu olhar foi mais além: “É o Senhor!”
E, como sempre, Jesus se encanta com os encontros em torno ao fogo e à refeição. Ele se manifesta nas coisas simples da vida. Não foi preciso palavras. Um coro de silêncios interiores proclamava: “É o Senhor!”, enquanto se espalhava no ar um agradável odor a peixe recém assado.

Podemos considerar que a exclamação do discípulo amado – “É o Senhor”! – mostra o que significa ser contemplativo. O verdadeiro contemplativo pascal olha ao seu redor, à realidade mesma, à vida em sua contradição, com suas obscuridades e suas claridades, com suas grandezas e suas misérias, com seus êxitos e seus fracassos..., e descobre nela os sinais pequenos, frágeis, vulneráveis e, às vezes, aparentemente contraditórios da presença do Ressuscitado em nossas vidas.
Talvez seja este um dos desafios mais importantes da vida cristã neste nosso mundo tão cheio de mensagens, de bombardeio de notícias, de imediatismo e rapidez, de encontros e desencontros.

Nós, seguidores(as) do Ressuscitado neste século XXI, do mundo digital, da pós-modernidade ou da arqui-pós-modernidade, da “cultura líquida” e dos “não-lugares”, deste mundo complexo e fascinante no qual nos toca viver e ao qual devemos amar, podemos ser esses humildes contemplativos que, em meio aos afazeres cotidianos, sussurram com emoção “É o Senhor!” e apontam para o Ressuscitado, presente nas penumbras da vida.

Essa é talvez a missão central da nossa vida cristã hoje: captar com emoção a luz que abre passagem entre as folhas da densa floresta, contemplá-la com gratuidade, indicá-la com humildade e anunciá-la com amor. E, mais ainda, devemos nos sentir chamados a deixar transparecer a luz da ressurreição na própria realidade interior, para poder ser presença iluminante no contexto tão obscuro no qual vivemos.

É a vida inteira que deve ser iluminada pelo acontecimento pascal. Viver, para o cristão, é acolher sua vida, com suas luzes e sombras, à luz do Ressuscitado que, embora não o veja de maneira transparente, continua se fazendo presente nas praias da nossa existência.
Não há obscuridade que não possa ser iluminada; não há situações, por mais difíceis que sejam, que não possam ser revertidas pela presença d’Aquele que está no meio de nós.

Gastamos energia em dissimular nossas falhas e fracassos quando, afinal, é pela sua aceitação que a porta poderá abrir-se para esse Outro que, por sua vez, nos ama incondicionalmente. No segredo do coração podemos pressentir que estes fracassos, estas dificuldades são, talvez, a nossa maior sorte. Porque através deles nos libertamos de nossas ilusões sobre nós mesmos. Eles tendem a nos deprimir, mas também podem ser uma ocasião para nos fazer mais humanos e humildes. Acolher o fracasso é retirar nossas couraças, revelar-nos abertos, tolerantes e compassivos.
Segundo um místico “felizmente Deus criou falhas em nós; caso contrário, não vejo por onde Ele poderia entrar em nossa vida!”.
Nossa vivência da fé pascal também nos revela que Deus tem mais facilidade de entrar na nossa vida pela porta dos fracassos, das feridas, das crises... Aqui é onde nos sentimos mais desarmados, mais abertos e mais sensíveis à acolhida do Deus surpreendente que sempre vem ao nosso encontro. Por outro lado, Deus encontra muito mais resistência de se fazer presente em nossa vida quando nos centramos na busca da perfeição, das virtudes... Aqui estamos “formatados”, fechados em nossa autossuficiência.
Através dos fracassos nos aproximamos de nosso ser essencial e da fonte de recursos que transforma estes fracassos em caminhos de realização.

O Pe. Adolfo Nicolás (ex-superior geral dos Jesuítas) afirmou certa vez: “é preciso celebrar nossos fracassos”. Causa estranheza ao ouvir tal afirmação, pois vivemos em um mundo onde somente os êxitos e vitórias são celebrados. Mas, o certo é que, quando compartilhamos e acolhemos nossos fracassos, derrotas e quedas, surge uma corrente de comunhão especial, nos sentimos mais autênticos e vivemos tais situações duras como parte de uma vida que, ao mesmo tempo, é difícil e preciosa, que desafia e recompensa, que golpeia e abraça. Assim, podemos crescer na consciência de que esses momentos também são constitutivos de nossa identidade; eles se revelam como ocasião privilegiada para ativar outros recursos e possibilidades que certamente não brotariam em tempos tranquilos.


Texto bíblico: Jo 21,1-19

Na oração:
Percorrendo o capítulo 21 do Evangelho de João captamos a profundidade da contemplação inserida na vida ativa.
- Não coloquemos fronteiras ao Espírito que irá moldando nossa visão e nossa escuta e, como João, nos fará proclamar: “É o Senhor!”, sem soltar a ferramenta, nem o computador, nem o carro, nem o bisturi, nem o livro, nem o pincel, nem o microfone, nem a vassoura...

sábado, 5 de janeiro de 2019

Epifania é Abrir Caminhos

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho da Festa da Epifania do Senhor.

“...voltaram para sua terra por outro caminho” (Mt 2,12)

“Por que é que os homens se deslocam em vez de ficarem quietos”? Esta pergunta do escritor Bruce Chatwin nos reconduz ao centro do mistério do próprio ser humano.
Somos seres de travessia. As viagens nunca são apenas exteriores. Não é simplesmente no espaço geográfico que o ser humano viaja. Isso significaria não perceber toda sua a profundidade; deslocar-se implica uma mudança de posição, uma ampliação do olhar, uma abertura ao novo, uma adaptação a realidades e linguagens diferentes, uma expansão da sensibilidade, um confronto, um diálogo tenso ou deslumbrado..., que deixam necessariamente impressões muito profundas.
A experiência da viagem é a experiência de fronteira e do horizonte aberto, de que o ser humano precisa para ser ele mesmo. Nesse sentido, a viagem é uma etapa fundamental da descoberta e da construção de sua própria identidade e do conhecimento do mundo que o cerca. É a sua consciência que perambula, descobre cada detalhe do mundo e olha tudo de novo como da primeira vez. A viagem é uma espécie de propulsor desse olhar novo. Por isso, é capaz de introduzir na sua vida elementos sempre inéditos que o incitam a uma mudança contínua. Nada mais anti-humano que uma vida estabilizada em posições fechadas, ideias atrofiadas, visões limitadas pelo medo do diferente...
Mais do que viajantes, aos poucos vamos nos descobrindo peregrinos.
Quando fazemos uma peregrinação, muitas vezes nos interrogamos onde é que ela termina, porque uma das coisas que experimentamos é que, à medida que caminhamos, a realidade torna-se sempre mais aberta e nós nos enriquecemos muito mais. A peregrinação não tem propriamente um fim: tem uma extraordinária finalidade. No caso dos Magos é o encontro com o “Rei de Israel”.

Na noite de Natal, Jesus se manifestou aos pastores, homens pobres e humildes, que foram os primeiros a se deslocarem para levar um pouco de calor à fria gruta de Belém. Agora são os Magos que chegam de terras longínquas, também eles atraídos misteriosamente por essa Criança. Os pastores e os Magos são muito distintos entre si; mas uma coisa tem em comum: o céu.
Os pastores de Belém foram correndo para ver o menino Jesus não porque fossem particularmente devotos, mas porque velavam de noite e, levantando os olhos ao céu, viram um sinal e escutaram uma mensagem.
Assim também os Magos: investigavam os céus, viram uma nova estrela, interpretaram o sinal e se puseram a caminho. Os pastores e os Magos nos ensinam que para encontrar Jesus é necessário saber levantar o olhar para o céu, não fixar-nos em nós mesmos, ter o coração e a mente abertos ao horizonte de Deus, que sempre nos surpreende, saber acolher suas mensagens e responder com prontidão e generosidade.

O termo “magos” tem uma considerável gama de significados; mas, certamente, em Mateus são sábios cuja sabedoria religiosa e filosófica os põe em caminho; é a sabedoria que leva a Cristo. Somente homens de uma certa inquietude interior, homens de esperança, em busca da verdadeira estrela da salvação, seriam capazes de colocar-se em caminho e percorrer a longa distância entre Oriente e Belém.
Chama a atenção a prontidão da resposta dos Magos. Com simplicidade expressam como no preciso momento em que perceberam a indicação do céu, imediatamente reagiram e a seguiram.
A estrela que os guiava era uma estrela nova, superior, peregrina, que despertava assombro e atraía àqueles que a contemplavam. Os caminhos deste novo astro, orientam à salvação divina para toda a humanidade.
A experiência dos Magos nos exorta a não nos contentar com a mediocridade, a não permanecer adormecidos e estáticos, mas a buscar o sentido das coisas, a perscrutar com paixão o grande mistério da vida. Eles nos ensinam a não nos escandalizar frente à pequenez e à pobreza, mas a reconhecer a majestade na humildade e sabermos ajoelhar diante dela. O deslocamento dos Magos ajuda a nos deixar guiar pela estrela do Evangelho para encontrar Aquele que é Luz, e despertar a luz que nos habita. Assim, poderemos levar aos outros um raio de sua luz e compartilhar com eles a alegria do caminho.
Os Magos vêm do Oriente e caminham para a luz. Estão orientados. Oriente significa onde nasce o sol, a luz. A desorientação é a perda do sentido, do caminho, é viver na escuridão. A verdadeira luz está mais presente na gruta despojada que nos palácios e templos de Jerusalém.
Epifania, portanto, é abrir caminhos; Epifania é buscar e caminhar para a luz.

Mateus termina seu relato notando que, uma vez que os magos se encontraram com o Menino Jesus, “regressaram por outro caminho”. E não mudam de caminho para evitar Herodes, mas porque encontraram o Caminho: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”.
Deus, a Luz, não está presente nos caminhos e pretensões de Herodes (e existem muitos Herodes e faraós soltos pela história), mas naquele que é frágil e está deitado em um presépio.
Como os Magos, levantemos e voltemos à casa por outro caminho!
Quem se encontra com Jesus voltará à sua casa, ao seu trabalho, às suas ocupações, mas já não será o mesmo. Voltará de outra maneira, por outro caminho, com um coração dilatado e um espírito renovado. Quem se encontra com a Criança de Belém, dá-se conta de que os caminhos de Herodes, do poder, do prestígio, da riqueza, são caminhos que levam à morte. E Epifania é o caminho da vida, da acolhida e do encontro.

O itinerário espiritual, portanto, pode ser descrito como uma viagem da cabeça ao coração; é uma viagem longa, difícil, mas apaixonante.
Por diferentes motivos, também hoje vivemos uma grande mobilidade; precisamos ser espertos em mover-nos entre o diferente, o que nos confunde, o mistério, o que nos questiona... Sempre caminhando. Esta é a atitude daquele que segue um Deus sempre maior, sempre surpreendente, que está sempre mais além de onde estamos. Então, que sigamos, sempre adiante... mas façamos isso juntos, sem deixar ninguém fora!
Este e o dinamismo que deve perpassar nossa vida: da instalação ao crescimento, da acomodação ao deslocamento contínuo. Partimos da realidade de que a tendência natural é amparar-nos nas “zonas de conforto”; elas nos dão mais segurança; é mais cômodo; requer menos energias.
A inércia leva a viver o ordinário, o repetitivo; custa-nos admitir e saborear o excepcional, o extraordinário; muitas vezes nos movemos em meio a um certo ceticismo vital, sem paixão pela vida e pela missão. Mas o caminho da fé nos leva de assombro em assombro, de graça em graça, de alegria em alegria.
“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos” (Fernando Pessoa).


Texto bíblicoMt 2,1-12

Na oração:
Esse “outro caminho” é o caminho que deve direcionar para Deus nossa vida.
O que importa é pôr-se a caminho nas pegadas dos Magos, fazer escolhas e recusar desvios.
- Há alguma “estrela” abrindo horizontes para você?
- O que há de “herodiano” em sua realidade e em seu mundo interior? Quais são as causas, as manifestações e os efeitos das suas inseguranças, do fixismo em torno do próprio eu, dos seus medos?
- Conserve-se em movimento interior, sempre; nada de roteiros rígidos que sufocam o Espírito, matam a criatividade, prendem à rotina e empobrecem o dinamismo de uma vida em transformação.