terça-feira, 1 de junho de 2021

José na oficina de Nazaré

Texto 7 da série elaborada pelo pe. Adroaldo Palaoro, sj sobre a vida e missão de São José que poderá ser usada como subsídio para melhor viver o ano de São José (2021) decretado pelo Papa Francisco na Carta Apostólica "Patris Corde".

“Um aspeto que caracteriza São José é a sua relação com o trabalho. São José era um carpinteiro que trabalhou honestamente para garantir o sustento da sua família. Com ele, Jesus aprendeu o valor, a dignidade e a alegria do que significa comer o pão fruto do próprio trabalho”. (Papa Francisco – Patris Corde)

A oficina é esse espaço simbólico onde tudo é criado, concertado, refeito... A oficina é o lugar da re-criação, da criatividade. É ali onde os projetos se realizam. E ali está o labor e a criatividade do artesão.

O amor e a sagacidade criativa do artesão estão no refazer o que foi estragado, no encontrar saídas para resolver o difícil, para ajustar o desajustado. Na oficina entra a matéria informe e sai modelada, transformada. De certa maneira, uma oficina é um lugar onde o inútil se torna útil, o feio se torna formoso, o que estava quebrado consegue funcionar.

Uma especial sabedoria e bondade envolve o artesão. Para ele não há nada impossível. Está aliado, cordialmente aliado, com o material que cai em suas mãos e aliado com seus proprietários.

O artesão “passa fazendo o bem”. Poucas vezes tem tempo para dedicar-se ao que é especificamente “seu”, mas quando serve, faz “seu”, ou como se fosse seu, o que é dos outros. O artesão, por vocação, encontra na fadiga seu prazer; sabe-se e sente-se criador. Em qualquer lugar vai deixando sua marca. Encanta-lhe a obra bem feita e rejeita o serviço mal feito. O artesão é como o médico das coisas; sua oficina é como um hospital. A bondade de seu coração se materializa em tudo o que faz.

As necessidades das pessoas, suas legítimas urgências, não lhe deixam tempo nem para descansar. O artesão, que tem capacidade para a compaixão, rompe seus horários em favor dos que estão necessitados. O artesão cuida das pessoas da comunidade, de seu bem-estar.

E ele ensina o ofício a seu filho.

Por isso, a oficina é também escola; ali o carisma é transmitido. O filho, talvez não recorde quando começou a primeira lição, mas, pouco a pouco, vai familiarizando-se com o trabalho transformador. O pai vai lhe ensinando os pequenos segredos que tornam fácil o que parece difícil, que deixa sua assinatura única em tudo o que ele faz. O pai se converte em mestre, em transmissor de sabedoria, corrigindo, elogiando...

Os filhos diligentes estão em boas condições e em forma para superar o mestre; o pai nunca desaparecerá, pois seu espírito criativo impregnará a oficina.

Nazaré e sua oficina foi para Jesus uma parábola trinitária. José, o artesão que lhe ensinou e o treinou para fazer suas mesmas obras, era o símbolo vivento do Abbá. Maria era a presença inspiradora, a que mantinha viva a chama do amor e da criatividade, a que transformava a oficina em lar e em seio fecundo. Era ela o ícone vivente do Espírito. E Jesus, o aprendiz.

E ali, na oficina de Nazaré, Jesus se exercitou na Redenção. Não lhe foi difícil passar de “artesão de coisas” a “artesão da humanidade”, passar da “oficina de Nazaré” à “oficina do Evangelho”.

José, o artesão de Nazaré nos ensina o valor das coisas cotidianas quando são feitas com dedicação e carinho. Nesta “ocultação”, estava assumindo a condição da imensa maioria dos mortais deste mundo, dos homens e mulheres “comuns”, daqueles que vão trabalhar ou estão sem emprego, daqueles que precisam “ganhar a vida”, porque na vida não encontram seu lar, daqueles que são pura estatística...

Na sua vida em Nazaré, José nos convida a entrar na sua casa e em sua oficina para aprender d’Ele e com ele os valores próprios de uma família trabalhadora.

Nazaré é o sinal da “epifania” de Deus nas pequenas coisas, é o sinal da palavra divina escondida nas vestes humildes da vida simples, é o sinal do sorriso de Deus que se faz visível nos espaços comunitários.

A “vida em Nazaré, coloca em evidência nossas motivações e nossos valores mais profundos.

É a importância do não importante.  O importante é ser significativo e não importante! É preciso atenção com os critérios do mundo que busca os primeiros lugares, o poder, a fama, a eficácia acima de tudo, o trabalho explorador...

Não é o trabalho que nos faz importantes, mas somos nós que fazemos qualquer trabalho ser importante, quando ele é realizado na perspectiva do Reino de Deus. Todo trabalho é nobre, seja ele o de cinzelar estátuas ou o de esfregar o chão.

É o sentido que damos à nossa vida e à nossa ação que fazem com que estas sejam significativas ou não.

Na escola da vida, todos somos aprendizes.

Precisamos alimentar uma outra relação com o trabalho no sentido de assumi-lo como cooperação com o Deus trabalhador e com tantas pessoas tocadas pela sua graça. Uma relação que permita nos distanciar das

cargas, ativismos, tarefas estressantes... e viver o trabalho com humor e criatividade.

Uma relação que nos ajude a desfrutar do trabalho, apesar da sua intensidade.

Poderíamos assumir um tipo de trabalho mais semelhante ao do artista, que se esmera em sua peça musical, literária ou pictórica, mas que se enriquece e se expande na sua obra.

Por meio do trabalho poderemos conhecer nossa própria interioridade projetada sobre a obra e, ao mesmo tempo, a obra realizada torna-se o espelho do nosso próprio rosto; contemplar-nos a nós mesmos no trabalho realizado e, com júbilo, podermos exclamar como o Criador: “E viu que era bom!”

O fundamento do ser humano não é o seu trabalho, sempre limitado e pobre, mas o amor criativo e redentor  de Deus que se expressa em seu trabalho. O ser humano “é criado... e é criativo”; ele se realiza no trabalho e Deus pôs a Criação nas mãos d’ele para que a aperfeiçoasse e a levasse à plenitude. É no trabalho que a pessoa encontra o sentido de sua vida e o modo de colaborar com o bem-comum.

A presença de Deus no mundo é ativa e dinâmica: Deus ama atuando em nossa história. Tudo está sendo construído e reconstruído por Deus. Deus trabalha em todas as coisas. Ele é a força inesgotável de onde brota todo o trabalho do mundo. Deus continua fazendo tudo novo.

Diante do “Deus trabalhador”  o ser humano responde com um trabalho criativo; ele se sente chamado a trabalhar a serviço do Senhor, para sua maior glória.

Assim, aquele trabalho pesado, arrastado, sem muito sentido... de repente fica leve, transparente e carregado de utopia. Deixa de ser “tri-palus” (instrumento de tortura) para ser “poiesis” (poesia), ou seja, ação criativa, entusiasmo criador, inspiração, intuição...

Trabalho que se faz com amor; trabalhar com a mesma intenção de Deus;  trabalhar com Deus na mesma direção, fazendo as mesmas obras que Deus está  fazendo, ou seja, aperfeiçoando a Criação.

Nesse sentido, o melhor seria chamar o trabalho de “labor”, e o ato de trabalhar de “elaborar”.

O ser humano se elabora como tal, ao mesmo tempo que elabora a natureza. Ele luta, cansa-se, afadiga-se, esforça-se, esmera-se... mas o trabalho o rejuvenesce, ativa-lhe energia e entusiasmo, alegra-se com o fruto...

Ele vive e delicia-se do e com seu trabalho.

Evangelizar o mundo do trabalho significa escutar o Criador que nos convida mais à fecundidade (criatividade) do que à eficácia. Convém não confundir uma com outra. Enquanto a eficácia quebra as pessoas e não respeita as comunidades, a fecundidade/criatividade acomoda-se aos ritmos naturais e faz crescer a comunidade.

“Sede fecundos!”, é o convite do Criador que continua ressoando em nosso interior.

Textos bíblicos: Gen 1; Jo 5,15-20; Mt 20,1-16; Mc 6,1-6; 2Tes 3,6-12

Na oração:

Dar sentido de amor e profundidade ao trabalho; através do trabalho, servir a Deus por puro amor;

- Ser contemplativo na ação: o trabalho como lugar do encontro  com Deus.

* Como é a seu trabalho cotidiano: rotina e repetição ou desafio e criação?

* Seu serviço na Igreja: ativismo ou “ação discernida”? “tarefismo” ou “co-labor” (trabalhar com...)?

Situar-nos em torno a Jesus

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ (Centro de Espiritualidade Inaciana), como sugestão para rezar o Evangelho do 10º Domigo do Tempo Comum (Ano B).


“E olhando para aqueles que estavam sentados ao seu redor...” (Mc 3,34)

Depois do percurso quaresmal e pascal, retomamos o tempo litúrgico conhecido como Tempo Comum, seguindo o evangelista Marcos. Será uma longa caminhada contemplativa, através da qual buscaremos dar uma “nova feição” ao nosso seguimento de Jesus.

O Evangelho deste domingo nos mostra como Jesus exerce um grande poder de atração sobre as pessoas; são muitos aqueles que o buscam: a multidão, os membros de sua família, os mestres da lei... São muitos e diferentes, como são diferentes as razões pelas quais se aproximam e se situam em torno a Jesus.

Os primeiros, as multidões, admiradas de seu ensinamento e de sua capacidade de “destravar vidas”, buscam-no com intenso desejo; aglomeram-se nas portas das casas onde Jesus se encontra, acudindo a Ele vindo de todos os lugares. Todos estão maravilhados e são capazes de reconhecer que Deus atua nele. Estes são os simples e frágeis, enfermos e incapazes, limitados e sem forças, que não duvidam que Jesus os atenderá, os escutará e oferecer-lhes-á seu consolo e seu tempo, até o ponto de ser capaz de deixar de comer para estar com eles.

Por outro lado, seus familiares querem “agarrá-lo” e levá-lo para casa; querem preservar a honra da família, pois estão preocupados pelos comentários que se fazem sobre Ele. A atitude desses familiares se restringe a preservar a boa reputação de sua tradição.

E, por último, aparecem os mestres da lei, que tinham descido de Jerusalém para acusá-lo de realizar seus exorcismos com a força do chefe dos demônios, e assim esvaziar sua fama.

Esta crítica, sendo muito grave, revela a petrificação daqueles que fazem da lei o centro da vida e não se abrem à novidade que Jesus apresenta. O ministério terapêutico de Jesus em favor da vida colocava em questão a estabilidade da estrutura social e religiosa na qual os mestres da lei empenhavam-se por mantê-la. Jesus confronta-os com inteligência e serenidade, para que compreendam que as acusações não têm fundamento e que reconheçam que quem o move a libertar as pessoas de suas “amarras” é o mesmo Espírito Santo, o Alento de Deus.

Resistir a reconhecer isso é “pecar contra o Espirito Santo”. O pecado contra o Espírito Santo tem raízes profundas no coração e não é simplesmente um ato, mas uma disposição interior permanente, é uma cegueira culpável por si mesma, um resistir-se à ação salvadora de Deus.

Quando o coração está fechado aos sinais de Deus, a pessoa se coloca numa atitude contrária à conversão, petrificando-se de tal modo que Deus não tem como lhe perdoar.

Trata-se da opção fundamental pelo mal: impedir o Espírito Santo de atuar, tanto em Jesus como nas pessoas. O perdão requer mudança de atitude: deixar o Espírito agir livremente. Não adianta pedir perdão sem uma correspondência. O blasfemo se exclui a si mesmo do perdão, se separa de Deus.

Diante das diferentes reações das pessoas, o que nos impressiona é a atitude de Jesus, um homem essencialmente livre e comprometido com a causa da vida. Ele desafia a todos, também os seus familiares e mestres da lei, a não permanecerem “fora”, a tomarem parte de seu círculo íntimo, situando-se ao seu redor e deixando-se impactar pelo seu modo de ser e agir. Aqui está o sentido do verdadeiro discipulado, a constituição de sua nova família.

Jesus aproveita a visita de sua mãe e seus irmãos para falar do nascimento da nova família: aquela que vive em sintonia com a vontade do Pai, reforçando os laços entre as pessoas, constituindo a nova comunidade.  Por isso, é preciso sair do que é “meu”: minha família, minha religião, minha Igreja...

Jesus transgride os espaços: família, religião, povo, cultura... Ele alarga os espaços estreitos da família; não permanece dentro das quatro paredes. Há uma tendência em todo ser humano a se fixar numa zona de conforto, nos espaços estreitos, bons, nutrientes... mas que precisam ser ampliados.

Nesta perspectiva, fica em segundo plano a consangüinidade. Doravante, ser mãe ou irmão de sangue não tem importância. O critério de pertença à família do Reino consiste em abrir-se à vontade do Pai.

Aí o agir do(a) seguidor(a) identifica-se com o agir do Mestre, a ponto de Jesus poder considerá-lo como irmão e irmã: a vontade do Pai é o imperativo na vida de ambos. Basta alguém viver um projeto de vida fundado na vontade do Pai, para que Jesus o reconheça como pertencente à sua família.

A identidade dessa nova família se configura por um idêntico modo de proceder, fundado no amor e na prática da justiça. Por esse caminho, os discípulos se reconhecem como irmãos e irmãs, unidos para além de qualquer divergência, cultura ou raça. Essa fraternidade não é mera formalidade. Existe entre eles e elas uma efetiva comunhão de vida.

“E olhando para os que estavam sentados ao seu redor…” Esta imagem circular expressa um tom diferente do seguimento. A imagem habitual que temos é aquela em que alguém vai adiante – Jesus – e nós vamos atrás. Aqui, no entanto, aparece outra forma de proximidade com Jesus: é a circularidade, reunir-nos ao redor do próprio Jesus que nos convoca. Estar em círculo, portanto, também quer dizer que estamos vinculados uns aos outros numa postural corporal que tem Jesus no centro.

Estamos diante de uma imagem de relação com Jesus que tem muito de circularidade, de proximidade espacial, de intimidade na identificação com Ele.

Nossa vida cristã, como expressão do seguimento de Jesus, tem muito disto: estamos e vivemos em círculo. Não somos “anacoretas”, somos pessoas que vivem em circularidade e a coesão do grupo depende, em grande parte, de que o Centro vincule aos que estão ao redor.

A imagem do círculo quebra toda estrutura piramidal, hierárquica, de poder, de prestígio... Todos estão ao redor de Jesus, vivendo ministérios e serviços diferentes.

Jesus inicia um novo movimento humanizador a partir das casas: nova família. Ele amplia o conceito de família: inclui a todos. Já não são os laços de sangue que contam. Família que se abre ao diferente, que valoriza a diferença e todos aprendem com as diferenças.

Situar-nos no círculo do seguimento Jesus implica acolher a diversidade das pessoas que compõem este mesmo círculo; isso permite nos enriquecer, adquirir mais humanismo. Diferença é expressão inerente ao ser humano, é modo de pensar, de dizer, de trabalhar, de existir e de conviver.

Somos diferentes, mas todos pertencemos com igual direito à “cidadania planetária”; todos temos direito a ser singulares, direito a ser diferentes, direito a partilhar e receber as diferentes riquezas.

A ideia de unidade da espécie humana não deve eliminar a ideia de sua diversidade.

Saber conviver com as diferenças é sinal de maturidade.

A diversidade racial, sexual, cultural, religiosa... supera a monotonia e oferece a criatividade de muitas formas. A harmonia fecunda entre as pessoas está na diversidade das diferenças, não na repetição mecânica. O conformismo repete cópias, mas não facilita a união autêntica. Sem as diferenças entre pessoas, a sociedade seria apenas um marasmo. Por isso, as diferenças pluralistas são valores, não anomalias. Além disso, são sedutoras, não amedrontadoras. A diferença pessoal mantém certo fascínio.

Muitas vezes, o zelo religioso, moral ou político degenera em formas de intransigência e intolerância.

Com isso, nos colocamos “fora” do círculo familiar de vida.

Texto bíblico:  Mc 3,20-35

Na oração: Os tecelões e as comunidades cristãs têm muito em comum. Quanta necessidade temos, nestes tempos pandêmicos, de forjadores-tecedores de comunidade!

Hoje, mais do que nunca, precisamos de artesãos que sejam construtores de relações, de novos tecidos comunitários. Homens e mulheres que, inspirados em Jesus, teçam com arte e paciência, uma relacionalidade que fortaleça a comunidade. E assim, deixar transparecer a nova família dos(as) seguidores(as) do artesão de Nazaré.

- Onde você se situa: dentro do círculo jesuânico, como participante ativo(a), ou fora, como mero(a) espectador(a).

- Sua presença no interior da “nova família do Reino” faz diferença? Você contribui tecendo novas relações ou é propagador do “fio” do ódio, do preconceito e da intolerância...?

Para uma Existência Eucarística

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ (Centro de Espiritualidade Inaciana), como sugestão para rezar o Evangelho da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi).

“Ide à cidade; um homem carregando um jarro de água virá ao vosso encontro” (Mc 14,13)

 

A Eucaristia, comemorada especialmente na chamada solenidade de “Corpus Christi”, ocupa, sem dúvida, um lugar privilegiado na espiritualidade dos cristãos.

Mas, que celebramos quando celebramos “Corpus Christi”?

Muito incenso e muito pálio pode nos impedir ver o que há por detrás da fumaça e entre os adornados tecidos que cobrem o Corpo de Cristo; muitas vezes, oferecemos uma visão um tanto distorcida, difusa, imprecisa, desse “mistério”: “Deus se faz Corpo e assume todos os corpos”.

Somos, então, convidados a voltar com a memória cordial àquela casa onde o ritual pascal judaico dá lugar aos gestos simples que se fazem entre amigos: partilhar o pão, beber da mesma taça, desfrutar da mútua intimidade, entrar no clima das confidências... E assim buscar recuperar o essencial. Fazer memória para comemorar. E podemos fazer este “retorno memorial” em companhia do “homem do cântaro de água”, relatado no evangelho de hoje.

 

Há personagens do Evangelho cuja notoriedade ultrapassa as margens do texto onde são recolhidas suas atuações. São imagens históricas de alcance universal, tais como Lázaro, a Samaritana, Jairo, Maria Madalena, Zaqueu, Pedro...  Junto a estes personagens de primeira fila, encontramos outros, anônimos e sem protagonismo, presentes nas estantes menos visíveis do relato evangélico. Um dos mais desconhecidos é o “homem do cântaro de água”.

Na maioria das vezes ele passa desapercebido. Sua passagem pela cena é vista, mas não lhe é dada atenção. Uma aparição tão efêmera no texto que a maioria dos leitores não se fixa nele, apesar de ser citado nos três primeiros evangelhos. Por isso, ele se revela como inspirador a todos nós nesta festa de “Corpus Christi”.

 

Chama-nos a atenção, no Evangelho proposto para hoje, a maneira como Jesus indicou aos discípulos o local onde queria que a Ceia fosse celebrada. Jesus mandou-os seguir um homem que encontrariam à entrada da cidade. Junto a personagens conhecidos nos Evangelhos, outros, sem rosto, nem identidade, nem protagonismo, surgem inesperadamente, deixando sua “marca”, como este desconhecido que emprestou sua casa para que Jesus e seus discípulos pudessem celebrar a Páscoa.

Anônimo perante a posteridade, porque era seguido pelos que vinham atrás dele, este homem, de certo modo e do modo certo, serviu a Cristo como a Igreja deve serví-Lo, sem perguntar qual seria seu lugar à mesa.

O que teve lugar dentro de sua casa, transformada no mais importante templo material da história humana, seria mais do que suficiente para arrancar dele alguma expressão de vaidade, capturada pelo evangelista. Mas não; não é isso que acontece com ele.

O saber estar “à sombra” para não fazer sombra a outros, a atitude de acolhida, a preocupação pelo bem-estar dos demais, a prontidão e a disponibilidade em abrir sua casa, o agir com a liberdade de quem sabe o que faz, colocando-se à inteira disposição dos outros, com total generosidade: estas são as qualidades com as quais o “homem do cântaro” entrou em sintonia com o desejo de Jesus em celebrar a Páscoa com seus discípulos. No seu anonimato ele deixa transparecer sua “existência eucarística”: ele nos revela uma presença surpreendente e servidora, presença que aponta para uma outra presença, a de Jesus. Na realidade, ele foi o verdadeiro discípulo servidor, dando sua contribuição decisiva ao mistério da salvação.

Presença anônima, mas comprometida; presença que é “música calada” no seu cotidiano, uma presença que se manifesta na ausência de recompensa ou de interesse próprio.

 

Se existe uma atitude de vida que pede o resgate de sua profundidade e seu poder evocativo original é a da acolhida. Um dos sintomas do processo de desumanização que estamos vivendo é justamente a resistência em acolher quem é diferente, quem pensa diferente, quem age diferente...

A acolhida é um dos termos bíblicos mais ricos, que nos ajuda a aprofundar e aumentar a compreensão sobre a relação com nossos semelhantes. Por isso, buscamos inspiração no modo original e criativo de ser presença acolhedora na pessoa do “homem do cântaro”.

Tudo isto vem dizer a todos nós que não é suficiente encontrar com os outros para um serviço útil e parcial, mas é preciso investir a nossa própria vida na proximidade viva, no compromisso solidário, no colocar-nos à disposição para ajudar os outros a serem o que verdadeiramente são, o único caminho para a humanização.

Trata-se, pois, de nos perguntar o que significa hoje ser “presença eucarística”, partindo do fato de que no coração do seguimento de Jesus não há – e não pode haver – só um serviço, mas um encontro, rico em assombro e fascinação.

 

O contexto social pós-moderno nos coloca numa situação que acaba atrofiando este impulso tão humano

da acolhida; aqui podemos indicar algumas características próprias de nosso tempo que complicam de modo peculiar a vivência desta virtude: as dificuldades que o ser humano atual tem para abrir-se e escutar uma voz diferente da própria, bem como uma disfarçada resistência para acolher a grandeza do mistério do outro que vem ao seu encontro; há um medo generalizado dos outros que não fazem parte do próprio “gueto”... e as casas se tornaram verdadeiras fortalezas, cercadas de parafernália eletrônica de segurança.

 

No entanto, a virtude da acolhida é um modo de proceder característico do(a) seguidor(a) de Jesus; implica a capacidade de abertura e acolhida daquele que vem de “fora”, o estranho, o diferente...

A acolhida é uma das múltiplas manifestações da capacidade de amar. O amor verdadeiro se exprime, sobretudo, através de uma relação em que o outro é acolhido como próximo.

A acolhida se apresenta como um valor humano e espiritualmente vital, conectado, ao mesmo tempo, com a vulnerabilidade de cada um que sempre requer ser acolhido e aceito, que sempre precisa encontrar espaços humanizadores de convivência e comunhão.

Essa relação de acolhida supõe abrir-nos de verdade à realidade do outro, sem reduzi-lo às nossas projeções, nem submetê-lo às nossas categorias mentais, sem anular seu mistério e contando com o imprevisível, com o inesperado, com o radicalmente novo; em definitiva, com o que supera o plano das nossas expectativas. Receber as pessoas com atenção, romper distâncias, escutá-las, pode ser uma ocasião para receber a única coisa verdadeiramente necessária. A acolhida implica uma integração entre escuta e serviço.

Por isso os pobres são especialistas em hospitalidade e acolhida.

 

A presença silenciosa, original e comprometida do “homem do cântaro” des-vela e ativa também em nós uma presença inspiradora, ou seja, uma “existência eucarística”: descentrar-nos para estar sintonizados com a realidade e suas carências. Tal atitude nos mobiliza a encontrar outras vidas, outras histórias, outras situações; escutar relatos que trazem luz para nossa própria vida; ver a partir de um horizonte mais amplo, que ajuda a relativizar nossas pretensões absolutas e a compreender um pouco mais o valor daquilo que acontece ao nosso redor; escutar de tal maneira que aquilo que ouvimos penetre na nossa própria vida; implicar-nos afetivamente, relacionar-nos com pessoas, não com etiquetas e títulos; acolher outras vidas na nossa própria casa; histórias  que afetam nossas entranhas e permanecem na memória e no coração.

Só tem sentido celebrar “Corpus Christi” quando abrirmos nossas casas para os “corpos” explorados, manipulados, violentados, escravizados, destruídos...

Pode ser que, às vezes, tenhamos um profundo amor e respeito pelo “Corpo de Cristo vivo e presente na Eucaristia”, e não O vejamos nos “corpos” que estão aqui, ali, lá, no nosso lado...

Texto bíblico: Mc 14,12-16.22-26

Na oração:

Reze sua humanidade, seu corpo de homem ou mulher. Seja humano diante de Deus, deixe seu corpo expressar-se em louvor e gratidão.

- Entre em sua “casa”; reze no seu corpo. E agradecido(a) bendiga sempre o Senhor.

terça-feira, 25 de maio de 2021

Trindade: uma dança de Vida

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ (Centro de Espiritualidade Inaciana), como sugestão para rezar o Evangelho da festa da Santíssima Trindade.

“...batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19)

 

 “Não há dois sem três”, diz a sabedoria popular; toda a realidade humana tem um componente trinitário. Do amor de um homem e uma mulher brota um terceiro ser humano, o filho. Da união de dois ângulos surge o triângulo. Do negócio de dois empreendedores nasce uma expressa. Da relação entre o artista e a matéria (palavra, cor, som, barro ou mármore) aparece a obra de arte. A “trindade visível” e cotidiana é parte da estrutura da vida.

Mas, e a “Trindade invisível”? Falamos do “mistério da Santíssima Trindade”. Ninguém viu e ninguém sabe como é Deus. Ele não cabe em nossa cabeça, em nossos conceitos; por isso dizemos que é um “mistério”.

A Trindade é Mistério para nós na medida em que nunca conseguiremos compreendê-lo e apreendê-lo pela razão. É o desconhecido que nos fascina e nos atrai para conhecê-lo mais e mais, e, ao mesmo tempo, desperta o assombro e a reverência. A Trindade é o mistério que liga e religa tudo, que deixa transbordar seu Amor criativo no coração de toda a humanidade e no universo inteiro.

O Mistério da Trindade sempre está aí (vivemos submergidos n’Ele), permanentemente nos esbarramos n’Ele (dentro de nós e na realidade) e buscamos conhecê-lo; mas ao tentar conhecê-lo percebemos que nossa sede e fome de conhecer nunca se sacia. Por isso, diante da presença do Mistério Trinitário, afogam-se as palavras, desfalecem as imagens e morrem as referências. Só nos restam o silêncio, a adoração e a contemplação. “O ser humano que não tem os olhos abertos ao Mistério passará pela vida sem nunca ver nada” (Einsten)

Quê diz o Evangelho a respeito da Trindade? De maneira muito simples nos revela que o Pai amou tanto o mundo que enviou seu Filho para que, através do amor, pelo envio do Espírito, nós alcançássemos a vida em plenitude; esta consiste em deixar transparecer em nossas relações o mesmo Amor trinitário, expansivo, aberto, acolhedor e integrador de tudo e de todos; só esse Amor é força capaz de nos transformar e, desta maneira, transformar o nosso mundo.

S. Paulo expressa essa realidade na saudação presente no início de toda celebração eucarística: “a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam sempre convosco (2Cor. 13,13).

A Trindade é, antes de tudo, amor recíproco entre as três Pessoas. Os antigos padres da Igreja entendiam o mistério da Trindade não de uma forma estática como nós, cristãos ocidentais, mas de uma forma ativa, como uma dança. E eles fizeram uso de um termo inspirador para descrever esta Dança Trinitária: “perichoresis”. A principal característica é a reciprocidade no dançar: um dança ao redor do outro, o outro dança ao redor do primeiro, em um constante e recíproco circundar-se. A imagem da dança expressa bem a contínua interação recíproca que caracteriza o dinamismo intra-trinitário.

O termo “perichoresis” foi fixado pela primeira vez na igreja antiga pelos Padres Capadócios (Basílio, Gregória de Nissa e Gregório Nazianzeno). Trata-se de um termo grego construído com duas palavras: uma é “peri” (ao redor) e outra “chôreô” (dançar) e significa “intercambiar lugares”, “dançar em torno”. Isso significa que Deus não é só “diá-logo” (comunicação verbal, palavra compartilhada), mas comunhão e comunicação total: cada pessoa existe somente na medida em que “dança” (avança) para a outra, ocupando seu lugar e habitando nela.

“Pericorese” descreve as inter-relações das pessoas da Trindade. Em tudo o que a Trindade é e faz, cada uma das Pessoas se relaciona e se envolve com cada uma das outras Pessoas divinas. Como uma dança eterna, a “coreografia” do nosso Deus é singular em sua diversidade e em sua unidade. É a dança do Deus-Amor. Em outras palavras, a Trindade é uma dança divina de três pessoas que se amam umas às outras e se acolhem de maneira tão plena que cada uma delas se torna “uma” com as outras.

Portanto, o mais profundo da reflexão teológica sobre o mistério da Trindade é a experiência de uma dança, imagem confirmada pelos grandes teólogos e místicos cristãos, os dançantes de Deus. Para eles, uma bela maneira de entender a salvação é sermos convidados a entrar nessa dança, no belo movimento coreográfico da grande Dança da Vida. A participação na dança divina da Trindade é o coração da vida cristã.

Dançamos juntos enquanto deixamos Deus nos tomar pela mão, nos conduzir pelo seu Espírito para ir ao encontro do seu Filho. A grande dignidade do ser humano está aqui: estamos no centro do “círculo dançante de Deus”. Fazemos parte da “dança” do Deus Trindade.

Deus dança e existe dançando, em movimento de amor que é princípio de todas as coisas.

Imagem pro-vocativa: “pericorese” não revela só uma dança entre as três pessoas divinas. A Trindade “dança” na Criação, gerando um grande movimento de vida; em outras palavras, a Criação é o grande palco da dança das Pessoas divinas. Mais ainda, nosso interior também é cenário onde a Trindade dança, ativando e mobilizando nossas energias e forças mais criativas e que se manifestam como amor e cuidado na relação com os outros e com todas as criaturas. Amar é entrar no ritmo da dança trinitária.

Segundo isso, a “pericorese” é uma forma de entender o convite que Deus oferece à humanidade, para que os homens e mulheres entrem na dança do Amor íntimo da Trindade, dirigindo-se uns aos outros em amor, de maneira que todos se despertem para esta interconexão fundamental de uns com os outros.

Certamente, Deus nos convida continuamente a participar nesta dança divina; mas, muitas vezes, não sabemos se queremos ou não queremos “aceitar a mão” de Deus para dançar com Ele.

A dança é um símbolo instigante para falar de Deus, um símbolo também usado de maneiras diferentes em outras tradições religiosas; nelas existe uma maneira de expressar a como convite para “dançar com Deus”.

As comunidades judaicas festejam o Dia do Perdão, o Ano Novo, a Festa das Tendas e a Festa da Alegria da Lei. Nesse dia, em Israel, os rabinos saem pelas ruas, tendo nas mãos os pergaminhos sagrados e dançando com fervor. Toda a comunidade canta, bate palmas e dança em roda, até experimentar a união íntima com Deus.

Também os muçulmanos têm movimentos que buscam a comunhão com Alá através da dança.

As comunidades do candomblé, em cada festa, dançam sem parar.

Uma das imagens que também podem nos ajudar é a visão que teve S. Inácio de Loyola (estamos celebrando o Ano Inaciano) que era muito devoto da Trindade. Ele viu como três teclas de um piano. Três teclas distintas que, tocadas ao mesmo tempo, produzem um só acorde.

Este “som” é o que nos interessa para viver: o Amor. Se Deus é Deus, Ele “abraça e abrasa” tudo, também a dimensão comunitária. Quando somos solidários, compassivos, amorosos... revela-se o rosto da Trindade. “Só corações solidários adoram um Deus Trinitário”

Texto bíblico: Mt 28,16-20

Na oração: No interior de cada um, a Trindade está atuando, está convidando a que ponha em movimento toda a capacidade de admiração e quer ensinar a ler e interpretar Sua presença em todas as coisas.

- Como você deixa transparecer no seu cotidiano o amor fontal da Trindade?

José, o Santo do cotidiano inspirador

Texto 6 da série elaborada pelo pe. Adroaldo Palaoro, sj sobre a vida e missão de São José que poderá ser usada como subsídio para melhor viver o ano de São José (2021) decretado pelo Papa Francisco na Carta Apostólica "Patris Corde".

“Todos podem encontrar em São José – o homem que passa despercebido, o homem da presença quotidiana discreta e escondida – um intercessor, um amparo e uma guia nos momentos de dificuldade. São José lembra-nos que todos aqueles que estão, aparentemente, escondidos ou em segundo plano, têm um protagonismo sem paralelo na história da salvação. A todos eles, dirijo uma palavra de reconhecimento e gratidão” (Papa Francisco – Patris Corde)

 

Quando falamos da figura de São José, muitas vezes nos limitamos a afirmar que temos pouquíssimo dados sobre ele nos evangelhos. Mas, sob outra perspectiva, podemos afirmar que temos muitíssimos dados sobre José, todos revelados pelo seu próprio filho, Jesus de Nazaré. Na realidade, quem modelou a natureza humana de Jesus, foi José, da casa de Davi.

Na verdade, lendo o Evangelho como um todo podemos encontrar, com facilidade, uma descrição muito aproximada de quem era José. Quem, senão José, poderia ensinar a Jesus tudo o que conhecia sobre o campo, as colheitas, o tempo, as aves e o mundo que os rodeava? Quem, senão José, poderia ensinar Jesus a tratar as pessoas, a servir o seu próximo, a olhar, a falar, a sorrir...?

Em cada gesto de Jesus, revelava-se um ensinamento do Pai e de seu pai José; em cada parábola havia uma expressão da natureza e da terra com o selo de José, e uma mensagem espiritual inspirada a partir do alto. Em cada cura que Jesus realizava havia um modo e uma sensibilidade de tratar o enfermo, o desvalido, herdados da tradição mantida por José; e à hora de orar havia um hábito criado na casa de seu pai, fiel cumpridor da lei mosaica e aberto à novidade e ao mistério que seu filho Jesus deixava transparecer.

Podemos dizer que o aparente vazio da paternidade legal de José revela, na verdade, plenitude e grandeza.

Foi na escola cotidiana da família de Nazaré, que Jesus foi se humanizando: “Ele crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e diante dos homens” (Lc 2,52)

Nazaré é, em certo sentido, a apologética do cotidiano, das horas, dos meses, dos anos escondidos, da vida tranquila, provinciana, não-escrita, de uma família simples e iluminada.

Essa atenção à simplicidade do cotidiano, à natureza da Galileia, à mensagem que Deus esconde nos corações das pessoas, nas coisas, nas horas…, é uma constante na vida e na família de José. Nazaré é o sinal da epifania de Deus nas pequenas coisas, é o sinal da palavra divina escondida nas vestes humildes da vida simples e familiar, é o sinal da presença graciosa de Deus em todas as casas.

Custa-nos muito descobrir a “espiritualidade da vida cotidiana”, a vida de cada dia nos parece sem sentido, sem muito destaque e sem muitos fatos extraordinários; temos ainda muito que aprender da vida cotidiana do artesão de Nazaré.

Precisamente a vida cotidiana é o lugar privilegiado para descobrir Deus (“por onde passa meu Senhor?”), sentir o sabor da Sua presença que permanece. Os lugares cotidianos são “lugares sagrados” de encontro com o Senhor da Vida.

Encontrar a Deus no cotidiano significa que é preciso viver em um contexto vital no qual cada um se sinta estimulado a tomar decisões, a assumir responsabilidades, grandes e pequenas, a cuidar pessoalmente dos processos concretos da vida de cada dia.

É vital descobrir se nossa vida cotidiana é egocêntrica ou excêntrica, se tem a marca da “cultura do encontro” ou da “cultura da indiferença”, se a missão de nossa vida nos projeta para o compromisso com o outro, se temos paixão pelo Evangelho encarnado nos ambientes onde nos fazemos presentes cotidianamente.

O ritmo da sociedade atual e, sobretudo, o culto à novidade, ao efêmero, ao superficial, ao consumismo, pede de nós recuperar a dimensão de profundidade em nossa vida cotidiana.

Estamos mergulhados numa cultura onde, normalmente, o cotidiano é rotineiro, convencional, repetitivo, e, não raro, carregado de desencanto. Fechado em si mesmo o cotidiano torna-se pesado, desinteressado e frustrado. Geralmente não nos damos conta de que estamos envolvidos pelo cotidiano.

Na maioria das vezes, o cotidiano resume-se num fazer tão “normal” que, por causa dele, fazemos coisas que não faríamos se pudéssemos tomar distância e refletir a respeito do que estamos fazendo. Vivemos uma quantidade de experiências rápidas, amontoadas, sem possibilidade de avaliação... e vamos perdendo, pouco a pouco, a história pessoal e comunitária.

A existência inteira faz-se maquinal e rotineira: é a soma das horas, dos dias, dos anos...

Na vida cotidiana, as pessoas correm o risco de serem apenas imitadoras ou repetidoras, pois temem se perderem na busca do novo; as respostas são confirmadas, mesmo que estas estejam velhas e desfocadas e as perguntas são silenciadas. A maioria das pessoas vive restrita ao cotidiano com o anonimato que ele envolve.

No entanto, as grandes histórias são tecidas na trama do cotidiano; os “tempos” de Deus não são os da eficácia, da produção, do ritmo estressante... Também são os tempos do silêncio, da rotina inspirada e da aprendizagem silenciosa. Todo crescimento pessoal demanda previamente tempo, ritmo, reconhecimento e aceitação da própria verdade, sólidos fundamentos sobre os quais podemos construir nossa pessoa.

É a “mística” que nos desperta da letargia do cotidiano. E despertos, descobriremos que o cotidiano guarda segredos, novidades, energias ocultas, forças criativas... que sempre podem sempre conferir novo sentido e brilho à vida. O Reino também se revela no pequeno, no anônimo, no despojamento.

É o cotidiano que nos prepara para as grandes decisões. É a fidelidade ao cotidiano que possibilita a transformação da realidade; é o cotidiano que abre espaço à ação do Espírito para que Ele nos expanda, nos alargue e nos impulsione em direção a uma nova vida.

A realidade cotidiana da nossa Nazaré é o lugar onde somos chamados a viver a espiritualidade cristã e a deixar-nos conduzir pelo mesmo Espírito que animou a família de Nazaré e a levou a inserir-se na trama humana e a assumir o risco da história. Inspirados na pessoa de São José, inseridos no mundo, em meio às agitações cotidianas, somos chamados a prolongar em nós os atributos josefinos: escuta, silêncio, trabalho, cuidado, acolhida, sensibilidade, bondade, vivência da fé, paternidade, sintonia com o Deus Providente...

A espiritualidade cristã é a espiritualidade do cotidiano, que conserva sua força transformadora, que é capaz de despertar o espanto e a admiração, apontando sempre para um horizonte mais amplo e mais rico;

é a espiritualidade que reacende desejos e sonhos novos, que suscita energias em direção ao mais; é a espiritualidade que faz descobrir, escondida no cotidiano, uma Presença absoluta que nos envolve; é a espiritualidade que faz saborear o eterno e o Absoluto no ritmo doméstico e cotidiano da vida...; é a espiritualidade que projeta a vida a cada instante.

Textos bíblicos: Lc 2,41-52; Ex 3,1-10; Lc 10,38-42

Na oração:

A vida cotidiana exige não apenas fidelidade, mas também amor, gratuidade. É o lugar que inspira a viver encontros com a marca da surpresa, da acolhida do diferente, do respeito ao outro...

- Como é o seu cotidiano? rotina e repetição ou desafio e criação? Espaço de encontros inspiradores ou alimentador da indiferença? Nele há lugar para a esperança e o novo?

- Suas atividades diárias formam parte do seu caminho para Deus? Você tem consciência que cada dia é um  “tempo de graça”? Você “apalpa” a presença de Deus nas “rotinas diárias”?