sábado, 25 de junho de 2016

“Ter os olhos fixos em Jesus”

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho indicado para a Liturgia do 13º Domingo do Tempo Comum - Ano C.

“Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus” (Lucas 9,62)

O olhar é o reflexo de nossa interioridade; ele tem um grande poder porque deixa transparecer o que acontece e o que sentimos por dentro.
O corpo humano é um receptor e um transmissor de emoções e a principal mediação para comunicá-las e transmiti-las é através do olhar. A maneira de conhecer melhor uma pessoa, criar laços de empatia com ela e inclusive saber se o que está dizendo é verdade ou mentira... é através do olhar.
O olhar é o recurso não verbal mais expressivo e sincero que nós, seres humanos, possuímos, porque com um simples olhar podemos transmitir desde o ódio até uma declaração de amor ou de amizade.
“Se eu morrer, morre comigo um certo modo de olhar”, disse um poeta. Mas o hábito contamina os olhos e tira seu brilho expressivo. Acostumamos a ver as coisas, as pessoas e, de tanto ver, banalizamos o olhar, perdendo a capacidade de despertar assombro e encantamento. Vemos e não olhamos. O que está próximo de nós, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual vai se estreitando e tudo se torna rotina.

Faz-se necessário, então, despertar a criança que ainda habita nosso interior; ela vê o que o adulto não vê, pois tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo.
“Um olhar contemplativo percebe sinais de evangelho nos acontecimentos mais simples” (Ir. Roger).
A saturação de imagens, informações e efeitos especiais, tão característica de nossa cultura, está minando, progressiva e sutilmente, a capacidade tanto de apreciar as realidades simples como de perceber a profundidade e o mistério que há nelas. O pior desta situação não é somente a perda da visão contemplativa, mas sobretudo não ter consciência do que acontece ao nosso redor.
Seria de grande ajuda conhecer as “enfermidades” mais frequentes de nossa visão. Detectá-las e reconhecê-las constituiria um avanço decisivo para eliminar os obstáculos que impedem penetrar no significado do mistério da vida em seu estado mais “puro”.
Mas não basta pousar os olhos sobre a realidade para captar a profundidade e transcendência do que é contemplado. É difícil ver o evidente. Exige uma tarefa prévia de “desvestir” os olhos para olhar de novo e descobrir o que verdadeiramente existe. “Ver é um esforço, e olhar, literalmente, é um milagre” (Luis Rosales).

Todo olhar não é neutro; ele tem sua intencionalidade. No olhar revelamos algo de nossa identidade: onde está o nosso olhar, aí está o nosso coração. Vemos muitas coisas, mas só “olhamos” aquilo para o qual se dirige nossa atenção. Nesse olhar três aspectos se interrelacionam: aquele que olha, o objeto do olhar e o ato de olhar, ou seja, como olhar. Sempre precisamos ter presente o processo de olhar, mas especialmente os pólos: quem olha (aspecto subjetivo) e onde se olha (aspecto objetivo).
Normalmente, nossa tendência é focar a atenção mais no pólo objetivo, ou seja, para onde se olha, qual o conteúdo do objeto do olhar. No caso do Seguimento, os olhos estão fixos em Jesus, deixando-nos afetar pela Sua identidade, Suas relações, Sua paixão pelo Reino, Sua missão, Seu chamado...
Mas o caminho do Seguimento possibilita também centrar a atenção no pólo subjetivo, ou seja, sobre quem olha: quem é aquele que olha, sua liberdade interior, seus movimentos internos diante da pessoa e do chamado de Jesus, a sedução que sente por uma grande causa...; da mesma forma, os obstáculos que percebe ao olhar a pessoa e o projeto de Jesus, a resistência em encontrar-se com o olhar d’Ele, o medo de ser visto em sua fragilidade...

Nossos olhos refletem nosso interior. Eles podem estar em condições favoráveis para contemplar a cena do chamado de Jesus. São olhos sadios. Sadios porque há uma correspondência direta e uma profunda intimidade entre aquele que olha e Aquele que é olhado.
Há pessoas que olham de forma bastante objetiva, transparente. São pessoas internamente mais livres, cujo olhar se deixa impactar pela presença e pela proposta de Jesus. Desse olhar brota o assombro, a admiração e o impulso em assumir o mesmo sonho do Jesus peregrino: a realização do Reino do Pai.
No entanto, há também os olhos feridos que não ousam ir mais além; os ferimentos podem vir do interior, bem como do exterior da pessoa. São ferimentos de sua história, de seu passado, das experiências frustrantes que viveu até o momento presente. Muitas pessoas passam grande parte da vida fortemente impactadas por experiências negativas, de desamor, de solidão e desvalorização...
Existencialmente, em seu olhar a pessoa pode revelar seus ferimentos afetivos, experiências de rejeição e de “olhares pesados” dos outros sobre ela.
Elas escondem o olhar quando expostas a realidades externas difíceis, de violência, de exclusão... Elas acabam pensando que o mundo e a realidade das pessoas se reduzem a isso, e projetam uma visão deturpada sobre a própria pessoa de Jesus. Dói-lhe fixar os olhos n’Ele.
Com isso, seu olhar fica atrofiado e não ousa levantar-se para contemplar diante de si a pessoa de Jesus. É o que poderíamos chamar de “cataratas” existenciais e espirituais. São obstáculos que impedem uma experiência mais profunda e objetiva na vivência do Evangelho.
Todos somos testemunhas de como pessoas internamente feridas no amor expressam um rosto um tanto sofrido e os olhos revelam certa tristeza e amargura.
Por isso, temos a clara convicção de que a objetividade do olhar e a capacidade de fixá-lo em Jesus requer um mínimo de liberdade interior, de ter experimentado o amor em suas múltiplas expressões.

Há um outro aspecto no Evangelho de hoje que é preciso ressaltar: precisamos também aceitar que o “objeto do olhar” (Jesus e seu chamado) pode melhorar nossa visão. Isso significa que a experiência do encontro com a pessoa de Jesus, seu olhar misericordioso e marcado pela ternura, a proposta ousada e desafiante que Ele nos faz... podem ajudar a purificar nossos olhos e a melhorar nossa visão.
A própria pedagogia de humanização ampla de Jesus vai beneficiar nossa própria identidade, despertar dinamismos e desejos ocultos em nosso interior, sacudir nossas amarguras e ampliar nosso atrofiado olhar.
Ao “fixar seu olhar” em cada um de nós, chamando-nos pelo nome, seremos movidos a fazer opções mais radicais e integrais pelo Reino, segundo o modo de ser, de viver e de fazer do próprio Jesus.

“Chamado-resposta” implica, pois, uma troca comprometedora de olhares. O olhar transparente e livre de Jesus ressuscita o nosso olhar tímido e estreito e nos capacita a olhar amplos horizontes: seu povo, seu mundo dividido e excluído... Seu olhar nos predispõe a encontrar motivações saudáveis e maduras que nos permitam olhar e viver no contexto atual plural com amor, com entusiasmo e criatividade.

Texto bíblico: Lucas 9,51-62

Na oração: o que me impede de ter um olhar límpido e transparente na tentativa de me configurar ao olhar de Jesus? O que busco ao fixar os olhos em Jesus? O que sinto ao perceber os olhos de Jesus fixos em mim?

domingo, 19 de junho de 2016

Do “Eu Estreito” ao “Eu Expansivo”

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho indicado para a Liturgia do 12º Domingo do Tempo Comum - Ano C.

“Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me” Lucas 9,23)

Uma leitura superficial do evangelho de hoje pode dar a impressão que o cristianismo é a religião que preconiza o sofrimento, a renúncia, a negação de si mesmo, o esvaziamento da própria identidade.
O sofrimento foi de tal modo exaltado que levou muita gente a viver na passividade e resignação, esvaziando o sentido do seguimento e bloqueando a esperança.
De fato, existem sofrimentos que são vazios, sem sentido, “in-sensatos”..., pois fecham a pessoa em si mesma, na sua aflição e angústia; não apontam para o futuro, para a vida.
Como consequência, a Cruz ocupou o primeiro lugar e tudo passou a girar em torno a ela.
Mas Jesus não buscou a dor nem negou a vida. Pelo contrário, a missão primeira de Jesus foi a de aliviar toda dor humana. Por isso, suas inumeráveis curas relatadas nos evangelhos. Suas palavras não são uma exaltação do sofrimento, senão que expressam uma grande sabedoria: elas buscam “despertar” a pessoa para que possa viver com mais plenitude e perceber a melhor atitude frente à vida; elas condensam o significado de uma vida vivida por Jesus na fidelidade ao Pai que quer que todos vivam intensamente.

Todos nós carregamos recursos ainda adormecidos, potencialidades quase divinas que, em alguns momentos privilegiados, descobrimos em nosso interior. E, no entanto, ao reconhecer nossa fragilidade humana, estremecemos diante de nossas ricas capacidades.
Deixar-se determinar pelo “ego atrofiado” implica cair num con-formismo doentio e na mediocridade tranquila e temerosa; ou seja, medo de ir além de si mesmo, para além de suas capacidades. Quem tem medo afunda-se no mar escuro e revolto da vida.
“Renunciar a si mesmo” desvela o dinamismo ou força de morte no interior de cada pessoa, marcado pelo medo de ir para além de si mesma; trata-se do medo de sua própria grandeza, o medo da sua missão, medo da vastidão dos seus sonhos... Por não ter horizontes, ela se limita ao seu modo habitual e fechado de viver; acomoda-se e não faz a travessia; não faz as coisas com paixão e com criatividade.
Quando não se vive em profundidade só resta a rotina, a superficialidade, o tarefismo sem sentido, o desânimo, o “vazio vital”; renunciando à tensão do “mais” a pessoa revela incapacidade de tomar a vida nas próprias mãos e dar-lhe uma direção mais ousada e criativa.
É nesse contexto que surgem inúmeros sofrimentos “in-sensatos” (sem sentido).
“Negar a vida” (o grego original não diz “bios”, nem “zoos”, mas “psyché” – “eu psicológico”) significa não reduzir-se ao “eu superficial” ou “ego”. Trata-se de negar a “ilusão do eu”, para acessar à Vida, que é nossa verdadeira identidade. Porque só quando deixamos de nos identificar com o “ego”, tomamos consciência da Vida que somos. Essa é a Vida de que fala o evangelho, a mesma Vida que Jesus viveu, com a qual Ele mesmo estava identificado (“eu sou a Vida”) e a que buscava despertar nos outros.

Nós somos continuamente bombardeados com slogans, imagens, mensagens... que nos obrigam a permanecer na superfície de nós mesmos, ativando o nosso “ego” a ser o centro da nossa vida: “você vale”, “você pode”, “você merece”… “bem-vindo à república independente de sua vida” “o mundo à sua medida”, “pensa em você”, “seja você mesmo”, “viva a sua vida”, “sinta”, “experimente”, “aproveite”...
Quantas mensagens centradas o tempo todo no restrito campo do nosso ego!
Se o mundo se converte em uma competição de egos, então não sobra espaço para o diálogo, para o encontro, para o amor. Se a pessoa só se constrói a partir da auto-complacência e do olhar centrado em si mesma, termina fechando-se numa bolha que a isola. E essa bolha, finalmente, se torna uma prisão na qual ela fica só.
Vaidade, orgulho, soberba... revelam a atitude daquele que se volta sobre si mesmo e se coloca tão no centro, tão no pedestal, tão inflado e cheio de si, que se faz cego ou indiferente aos outros. É estar encantado de si mesmo, mendigando aplausos, esquecendo-se de seus pés de barro e de suas limitações. É acreditar ser o umbigo do mundo.

Mas o Evangelho de hoje nos convida, mais uma vez, a alargar o círculo, a olhar para fora, a descentrar-nos para encontrar o outro, a Deus, e, provavelmente, por esse caminho, também o olhar mais autêntico e completo sobre a nossa própria vida. Ali Jesus fala em “renunciar a si mesmo”. O modo mais simples de traduzir isso poderia ser: “deixa de viver para teu eu estreito”, “não gires em torno ao teu ego, porque esse modo de vida te aprisionará cada vez mais, e tua vida será vazia e estéril”.
Dito positivamente: trata-se de um convite a ir mais além do ego e descobrir nossa verdadeira identidade, aquela “identidade compartilhada”, na qual o próprio Jesus se encontrava.

Por isso, estamos diante de uma boa notícia: “Desperta!” “reconhece quem tu és!”.
“Descobrir-se a si mesmo” é descobrir que no próprio interior há um movimento infinito de construção de si mesmo, de identidade em movimento... que se torna possível graças a um constante arrancar-se do imobilismo e do auto-centramento existencial, que travam o fluxo da vida.
Só transcende quem se aproxima da própria interioridade, do próprio coração.
A verdadeira identidade, ou “eu expansivo”, é dinâmica, histórica, fecunda, aberta ao desconhecido, aventureira... Ela só se des-vela para aquele que se desprende das defesas e projeções do falso eu.
Como fazer para sair de um “estado de aprisionamento” e encontrar um lugar de expansão e de manifestação da livre circulação do impulso vital, que faz de cada um de nós um “sopro divino vivo”?
Ter identidade é viver a partir das raízes que nos sustentam. Em contato com a fonte e na viagem para dentro, clareia-se a visão de nós mesmos, da nossa originalidade e dignidade.
Há uma força de gravidade que nos atrai progressivamente para o mais profundo de nós mesmos, onde Deus nos espera e nos acolhe, e onde encontraremos o sentido de nossa existência e a verdadeira paz.

O sentido de nossa existência consiste, portanto, em “passar da morte à vida”: é a isso que as palavras de Jesus nos convidam. O destino do eu atrofiado é a morte: viver para o eu equivale a perder a vida. Pelo contrário, quem começa a descobrir sua verdadeira identidade, já está morrendo ao seu ego, porque desco-briu que é “outra realidade”: a Vida que não morre. E, a partir desta nova percepção, toda a visão da própria existência se modifica.
“Aquele que quer salvar seu ego, perde a vida; mas aquele que perde seu ego, salva a vida”. E Lucas acrescenta o “por minha causa”, para destacar nossa unidade em torno ao seguimento do Mestre.
Nesse sentido, “negar-se a si mesmo” e “carregar a cruz “ equivalem a fazer nosso o caminho de Jesus. Ele se negou a tomar o poder, nem usou a força e o prestígio como meios para servir e salvar a humanidade. Jesus escolheu o único caminho que conduz ao coração do ser humano: a solidariedade com todos os excluídos da terra. Este foi o caminho d’Ele e este deve ser nosso caminho se queremos estar com Ele.

Textos bíblicos:  Lucas 9,18-24

Na oração:  Diante da presença de Deus, esteja aberto ao contato com a própria realidade interior, para que venha à superfície aquilo que o sustenta e dignifica o seu viver.
Dirija seu olhar para o mais íntimo de si, onde nascem sentimentos e valores, decisões e gestos... onde você é convidado a se alegrar com os rastros da Graça. 
- Cesse de buscar-se como “eu” e deixe-se repousar no Silêncio, na Presença que anima tudo o que é.

Não faça do “eu” o centro de sua existência nem de sua identidade. Neste esvaziamento do “ego” um “eu cristificado e expansivo” vai renascendo e plenificando sua vida.

domingo, 12 de junho de 2016

JESUS, pura transparência do rosto misericordioso do PAI

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho indicado para a Liturgia do 11º Domingo do Tempo Comum - Ano C.

“Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. O mistério da fé cristã parece encontrar nestas palavras a sua síntese. Tal misericórdia tornou-se viva, visível e atingiu o seu clímax em Jesus de Nazaré. Com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa, Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus”. (Papa Francisco – Misericordiae Vultus)

Tornar presente o Pai como Amor e Misericórdia foi, para Jesus, o cerne de sua missão: toda a sua vida foi uma eloquente demonstração da misericórdia divina para com a humanidade.
Jesus, presença visível da misericórdia, revela um Deus desprovido de dogmatismos, de controle e de poder. O Deus de Jesus não é um juiz com um catálogo de leis que tem necessidade de mandar, controlar, verificar... Basta-lhe a misericórdia, a compaixão...
Jesus propõe um modo de ser humano inseparável da misericórdia do Pai:
 “Sede misericordiosos como o Pai é misericordioso” (Lc 6,36)
Ser misericordioso “como” Deus constitui o mais elevado convite e a mensagem mais profunda que o ser humano recebe sobre como tratar a si mesmo e aos outros.

“A misericórdia de nosso Senhor se manifesta sobretudo quando Ele se inclina sobre a miséria humana e demonstra sua compaixão, para quem necessita de compreensão, cura e perdão. Tudo em Jesus fala de misericórdia; mais ainda, Ele mesmo é a misericórdia” (Papa Francisco.
Jesus, com sua presença desconcertante, relativiza costumes, ritos e práticas religiosas, inclusive o Templo, e se relaciona com gente excluída e de má reputação. Ele faz muitas coisas e em muitos lugares (ensina, cura, denuncia, alimenta, dialoga, etc.), mas a misericórdia é a que inspira e move tudo em sua vida e ação. Sente a fundo o sofrimento das pessoas; antes de preocupar-se com o pecado, preocupa-se em aliviar a dor da marginalização e exclusão.
Este “princípio-misericórdia” é o que há de iluminar e conduzir a vida dos seguidores de Jesus, e da Igreja como comunidade misericordiosa.
A misericórdia é, pois, um sentimento profundo e dinâmico, que não permite que quem o sente permaneça imóvel ou passivo diante de tanto sofrimento que há na humanidade. Ela é a alma da solidariedade, da ação social, do compromisso com a justiça...
Por um lado, a misericórdia é propriamente a atitude permanente que se revela em qualquer situação, sempre que há fraternidade e amor, e por outra parte, a misericórdia é a compaixão para com a pessoa que sofre. Uma atitude profunda, uma comoção do coração, que conduz a atos de solidariedade...

A presença misericordiosa de Jesus aparece claramente no jantar em casa do fariseu Simão.
O relato de Lucas põe em confronto duas maneiras diferentes de reagir perante a “mulher pecadora”: uma, de acolhida e proximidade; outra, de julgamento e distância.
Uma mulher, pecadora pública, aparece inesperadamente no jantar na casa do fariseu, sem ter medo do que dirão a respeito dela. Há nela como uma espécie de ansiedade e desejo de sair daquela situação; há nela uma necessidade de sentir-se pessoa, de sentir-se mulher de verdade, de recuperar sua dignidade, de sentir-se livre.
Busca alguém que não a veja como simples objeto de prazer; busca alguém que saiba reconhecê-la como pessoa, que possa devolver-lhe sua dignidade. E não se importa com as reações de julgamento. Prostra-se aos pés de Jesus, derrama o perfume que possivelmente era fruto do seu pecado. Lava os pés de Jesus com suas lágrimas de angústia e confiança ao mesmo tempo, antecipando o gesto que Jesus realizará na última Ceia. Seca-os com seus cabelos como expressão de sua esperança.

Jesus revela-se um convidado perigoso, porque é capaz de des-velar o que está encoberto. Sua presença cria problemas para o anfitrião, coloca em risco o seu prestígio, a sua reputação.
Jesus desmascara a maneira medíocre de amar do fariseu, desprovido de compaixão e calculista no julgamento. O fariseu perfeito tem comportamento frio, legalista, insensível, indiferente, rígido.
O perfeccionista e o legalista é um ser anestesiado e petrificado: nele a misericórdia permanece atrofiada; ele ficará confinado dentro de um eu inchado e vazio, que caminha sobre pernas de barro.
Onde o legalismo prevalece, ali a misericórdia não encontra espaço para reconstruir relações quebradas.
Por isso, Jesus revela o abismo que existe entre a posição em que o fariseu se encontra e a da mulher que, através de tantos gestos afetivos, expressa sua ternura e humanidade.
“Entrei em sua casa e não me derramaste água nos pés...
Não me deste um ósculo... Não me derramaste óleo na cabeça”.
Aquele fariseu tinha muitas coisas para dar a Jesus, mas não lhe deu nada de amor; aquela mulher não tinha nenhuma coisa que dar-lhe, mas lhe deu o melhor: muito amor. O fariseu não esperava nada de Jesus, aquela mulher esperava tudo d’Ele. Aquele fariseu e os demais convivas a julgam como pecadora pública, mas Jesus a reabilita diante deles; Ele a acolhe com respeito e ternura. Descobre em seus gestos um amor limpo e uma fé agradecida. Diante de todos, fala com ela para defender sua dignidade e revelar-lhe como Deus a ama.
Jesus é capaz de reconstruir o que os outros haviam destruído; é capaz de devolver a alegria a uma mulher que os outros tinham tirado; é capaz de dar a vida àquela que os outros deram morte.

Jesus não se fixa na vida passada da mulher; por isso, não a julga, pelo contrário, valoriza todos os seus gestos de acolhida e ternura. Não importam “seus muitos pecados”, mas o amor de seu coração.
Jesus não é daqueles que se entretém contabilizando pecados; Ele é daqueles que olha o coração do pecador; e quando descobre amor, aí mesmo perdoa. Porque a melhor expressão de amar é perdoar; a melhor expressão de sentir-se perdoado é sentir-se amado.
O perdão não é um problema de justiça; o perdão é algo que nasce do amor; o perdão é fruto da compreensão, da misericórdia.
O comportamento de Jesus era diametralmente oposto ao do fariseu e dos seus convivas: todas as mulheres que se encontraram com Ele sempre saíram reabilitadas, até o ponto de chegarem a se converter em protagonistas do fato mais importante de Sua vida, a ressurreição.

A linguagem de Jesus para aquelas pessoas que praticavam uma religiosidade vazia, só ritual e elitista, era muito dura e crítica. Como no caso deste fariseu religioso, legalista refinado, são muitos aqueles que afirmam e honram a Deus com os lábios, mas seu coração e seus atos estão muito longe d’Ele.
A maioria das religiões dá muita importância ao cultual, às cerimônias, aos ritos. Gastam muito dinheiro em objetos, roupas, ornamentos, imagens, ostentações, etc...., mas o compromisso com os grandes valores do Evangelho, que são o essencial da mensagem de Jesus, fica ofuscado ou esquecido. É urgente retornar à fonte do Evangelho, onde a misericórdia é o atributo essencial e o modo de proceder de todo seguidor de Jesus.

Texto bíblicoLucas 7,36-50

Na oração: O olhar de misericórdia deve ser continuamente ativado para poder perceber a nobreza escondida no interior de cada um, sobretudo naqueles que estão mais excluídos.
Para despertar este olhar cristificado necessitamos de uma revolução do afeto e da ternura; só assim poderemos olhar a nós mesmos e as pessoas com o olhar carregado de misericórdia.

- O que prevalece em seu agir cotidiano: misericórdia? Preconceito? Suspeita? Julgamento?...

domingo, 5 de junho de 2016

COMPAIXÃO: atributo divino e que nos diviniza

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho indicado para a Liturgia do 10º Domingo do Tempo Comum.


“Ao vê-la, o Senhor encheu-se de compaixão por ela e disse: ’Não chores!’” (Lucas 7,13)

Segundo a Revelação bíblica Deus é compaixão e misericórdia. Ele se sente “afetado” ao relacionar-se com o ser humano. Deus não é insensível. Nele há emoções que, longe de significar imperfeição, manifestam sua proximidade e o compromisso para com cada ser humano.
A compaixão é uma atitude permanente de Deus, e não uma atitude ocasional que surge em determinadas situações. É um “modo de ser” divino. Precisamente aí temos uma luz que nos indica que a compaixão humana não surge unicamente ali onde há sofrimento. É uma atitude permanente e habitual, um modo de relacionar-nos e encontrar-nos uns com os outros. Não se pode identificá-la nem reduzi-la a ter pena.
Neste sentido, a compaixão é um princípio ético que permite relacionar-nos com os outros a partir dos afetos profundos, das entranhas.
De fato, o vocábulo latino “cum-passio” que traduz o vocábulo grego “simpatia”, é uma palavra composta de “com”, comunicação, e “paixão”, afeto por alguém. Na compaixão se trata de um intercâmbio afetivo e efetivo. Compaixão é interação; não é um sentimento superficial, passageiro ou paternalista. É a capacidade de sentir como o outro sente, colocando-se em seu lugar, buscando ver as coisas como ele as vê. Por isso, a compaixão significa também a capacidade de pôr amor onde há dor; ela permite passar da fria justiça ao calor do amor; a compaixão torna possível ir mais além da dura lei para viver a alegria do Evangelho.

A compaixão constitui, junto com a gratuidade, a coluna vertebral da mensagem e da prática de Jesus.
A ética compassiva de Jesus de Nazaré é nuclear em seu evangelho, em sua boa nova, até o ponto de que no relato do juízo, no final dos tempos, ela vai ser o “teste do exame final”: “...tive fome e me destes de comer; ...estava nú e me vestistes; enfermo e me visitastes; preso e viestes me ver” (Mt 25,35-36).
A ética compassiva, pois, é o sentimento que continuamente perpassa sua pregação, seus ensinamentos e sua vida, como se manifesta nesta cena de hoje, na entrada da cidade de Naim.
Normalmente passamos pela vida e não vemos nada; ou somos cegos ou não temos coração; outros passam pelo mesmo caminho e se deixam impactar pelas situações com as quais se encontram.
Jesus é um desses que sempre encontra algo em seu caminho que toca seu coração. Para Ele, os caminhos da vida estão sempre cheios de surpresas, de interrogações, cheios de gente, cheios de dor e sofrimento...
O seguidor de Jesus deve ser alguém que, por onde vai, sabe olhar e escutar, para não passar pela vida como cego e surdo. E esta deveria ser a pergunta que deveríamos fazer continuamente: “Quê vimos ou ouvimos desde que saímos de casa?

Jesus se aproxima de Naim. A cena não é nada simpática. Um funeral de um jovem “filho único” e uma mãe que se desfaz em lágrimas de dor e que, além disso, era viúva. Ela está passando por uma dura prova. A perda de seu filho supunha também a perda de dignidade e consideração na sociedade onde vivia, além de ter sofrido a perda de seu marido, que lhe assegurava estabilidade e respeito.
As lágrimas são como a linguagem do coração que sofre. E quem não se sente comovido pelas lágrimas de uma mãe sofredora? O coração de Jesus é demasiado sensível para não deter-se diante da dor de uma mãe. É a compaixão do Pai que O faz tão sensível diante do sofrimento das pessoas.
Por isso, “ao vê-la, encheu-se de compaixão”.
Lucas, o evangelista da misericórdia, mais uma vez nos des-vela, em Jesus, o rosto do Deus compassivo diante da miséria humana. A expressão ‘encheu-se de compaixão’ não consegue traduzir a força da palavra original, que evoca as entranhas, o seio maternal. Jesus deixa transparecer os sentimentos de ternura maternal e de compaixão para com aqueles que estão na miséria. Ou seja, Ele não tem como permanecer insensível a um tal sofrimento. Por isso, intervém para aliviar a miséria desta pobre mulher.
Comentando o relato de Lucas, o padre Léon Paillot escreve: “A viúva de Naim tinha uma chance: seu filho. Economicamente falando, era importante: ela tinha como viver. E no plano afetivo, ela não estava sozinha: seu filho era para ela como uma presença continuada de seu marido, como o testemunho de um grande amor. E seu filho morre! Coloquem-se no lugar desta mulher. Ela está agora na miséria mais extrema. Seu horizonte está totalmente encoberto. Não há mais nenhum futuro para ela. É como se ela também tivesse morrido”.

O relato de hoje nos diz que há dois cortejos que se encontram na entrada da cidade de Naim: a multidão que segue Jesus; uma grande multidão, alegre, que se dirige para a cidade, isto é, para o lugar da vida. A outra multidão, ao contrário, sai da cidade e se dirige ao cemitério, isto é, ao lugar da morte.

No momento em que as duas multidões se encontram, Jesus se detém e mobiliza a todos a olhar com atenção para aquela triste cena: um jovem é levado para ser sepultado.
Léon Paillot escreve: À multidão alegre que segue atrás da vida, Jesus diz: “vocês não tem o direito de passar ao largo do sofrimento e da miséria humana sem parar. Eu, Deus, parei. Também meus discípulos devem parar”.
Jesus não conhece a mulher, mas se deixa impactar pela situação dela, se solidariza com ela, olha-a com atenção e a leva em consideração. Capta sua dor e solidão, e se comove até as entranhas. O abatimento daquela mulher lhe atinge o mais profundo. O pranto da viúva é o grito silencioso de uma mulher que sente não só a perda de seu filho mas também seu destino de vulnerabilidade, exclusão e desigualdade. É o pranto que denuncia o machismo e a discriminação social.
A reação de Jesus é imediata: “Não chores”. Ele não pode ver ninguém chorando. Precisa intervir.
Não pensa duas vezes; detém o enterro, aproxima-se do féretro, toca o esquife e diz ao morto: “Jovem, eu te ordeno, levanta-te!” Esta é a palavra chave de Jesus: que o filho da viúva se levante... que retome seu caminho. Quando o jovem se ergue e começa a falar, Jesus o entrega à sua mãe para que deixe de chorar. De novo estão juntos; a mãe já não estará mais sozinha. E aquele que era levado a caminho do cemitério, regressa agora à sua casa, tomado pela mão de sua mãe. Jesus não só ressuscitou o filho; também ressuscitou a mãe. Secaram-se as lágrimas e o sorriso voltou a florescer em seus lábios.
Tudo parece simples. O relato não insiste no aspecto prodigioso daquilo que Jesus acaba de fazer. Convida os seus leitores para que vejam n’Ele a revelação de Deus como Mistério de compaixão e força de Vida, capaz de salvar inclusive da morte. Jesus transgride de novo as regras excludentes daquela sociedade, devolvendo a vida e a dignidade à mulher.

Essa mensagem de Lucas é uma mensagem de esperança. A morte não pode ter a última palavra sobre a vida. Deus nos quer vivos e devemos nos deixar conduzir pela vida.
A estratégia de Jesus não é de tipo assistencial, mas libertador. Não ajuda passivamente à viúva, senão que lhe entrega seu filho, para que iniciem um novo caminho, ativo, comprometido, no seio da comunidade.
Em Sua mensagem e em Sua atuação profética pode-se escutar este grito de indignação: o sofrimento dos inocentes deve ser tomado a sério; não pode ser aceito como algo normal, pois é inaceitável para Deus.
A compaixão que Jesus introduz na história reclama uma maneira nova de nos relacionar com o sofrimento que há no mundo. Para além de imperativos morais ou religiosos, Jesus está exigindo que a compaixão penetre mais e mais nos fundamentos da convivência humana e se torne um “estilo de vida”.

Texto bíblico: Lucas 7,11-17

Na oração: Na Igreja temos de recuperar, o quanto antes, a compaixão como estilo de vida próprio dos seguidores de Jesus. Devemos resgatá-la de uma concepção sentimental e moralizante que a esvaziou de sentido. A compaixão que exige justiça é o grande mandato de Jesus: "Se compassivos como vosso Pai é compassivo”.
- Quê lugar ocupa a “compaixão” em minha vida interior, em minha vida espiritual, em meu compromisso diário, no horizonte de minha vida?

sábado, 28 de maio de 2016

HUMILDADE: “andar na verdade”

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho indicado para a Liturgia do 9º Domingo do Tempo Comum.

“...não sou digno de que entres em minha casa; mas ordena com a tua palavra, e o meu empregado ficará curado” (Lucas 7,6-7)

Neste belo relato do Evangelho de Lucas nos é apresentado, com simplicidade, a força e a intrepidez que se revelam numa pessoa de fé. Podemos imaginar o que significou para aquele centurião romano o gesto de ter que acudir a alguém do povo a quem dominava, buscando a cura de seu empregado. Teve de superar muitas barreiras e impedimentos e esvaziar-se de seu orgulho e amor próprio para realizar aquele gesto humilde de solicitar ajuda a um judeu.

Cultivar a humildade é uma das maiores e mais difíceis virtudes humanas. Ela está vinculada ao amor à verdade. "Ser humilde é amar a verdade mais que a si mesmo", escreve o filósofo  Comte-Sponville.
Em outras palavras, é assumir tudo o que a pessoa é, reconhecer-se diante de Deus e dos outros, ativando seus recursos e capacidades e acolhendo suas limitações, sua fragilidade e seus medos, com a disposição de viver o caminho do crescimento.
A humildade não deve ser entendida como humilhação, mas como a capacidade de ser verdadeiro, transparente em nossa vida, reconhecendo-nos necessitados dos outros e de Deus.
Humildade, dizia S. Teresa, é andar na verdade. Não se trata de atrofiar e esconder nossas próprias capacidades ou de desvalorizar-nos. Trata-se de reconhecer e expressar, com simplicidade, quem somos. Humildade é agradecer as capacidades e talentos e superar as limitações e fragilidades. É a virtude que mais humaniza, pois nos faz descer em direção à nossa própria humanidade e, a partir desta perspectiva, entrar no movimento que nos leva para além de nós mesmos.
A radicalidade que o Evangelho nos propõe é a radicalidade de ser radicalmente humanos. E a humildade nos despoja de tudo o que é ilusão, falsas imagens de nós mesmos, vazias pretensões de poder, prestígio e vaidade... fazendo emergir o que há de mais humano, portanto, mais divino, em nosso interior.

Na história da humanidade e da Igreja grandes homens e mulheres deixaram transparecer em suas vidas a marca da humildade; e a humildade se expande no coração daquele que vive sinceramente sua existência.
O termo latino “humilis” deriva-se de “humus”, a terra ou o solo.
Todos surgimos deste fecundo húmus fundamental, onde “humildemente” acolhemos o dom da vida, onde toda existência funda suas raízes que a nutrem e se faz “humilde” e verdadeiramente “humana”.
Nós somos o solo, o húmus, onde o Deus-semente pode germinar, criar raízes e florir.
Só admitindo nossa própria fragilidade e limite e descendo ao fundo de nossa realidade, podemos retornar transformados e com abundantes riquezas descobertas no garimpo do nosso coração.
O caminho de descida ao nosso próprio “húmus”, à nossa própria condição terrena onde Deus plantou sua tenda, nos revela quem realmente somos, nos preserva de considerarmos como “deuses” e nos liberta do orgulho e do auto-centramento que nos destroem.
À medida que, verdadeira e completamente, nos aceitamos e nos acolhemos como húmus, mergulhamos na graça de Deus, pois ela já fala dentro de nós desde nosso nascimento.
Todas as grandes correntes espirituais, tanto do Oriente como do Ocidente, conduzem à humildade.
Reconhecer nossa realidade humana é a condição não apenas para a humanização autêntica, mas também para a verdadeira experiência de Deus. Sem humildade, facilmente corremos o risco de nos apossarmos de Deus; sem humildade, facilmente procuraríamos nos identificar com Deus.
“Sereis como deuses” (Gen. 3,5): este é o grande pecado de origem. A humildade é a virtude do ser humano que reconhece não ser “deus”. Nesse sentido, ela é a virtude dos santos e santas.

 “Onde está a humildade, está também a caridade” (S. Agostinho). É que a humildade leva ao amor, e todo amor verdadeiro a supõe; sem a humildade, o eu ocupa o espaço disponível, e só vê o outro como objeto ou como inimigo. A humildade é essa atitude pelo qual o eu se liberta das ilusões que tem sobre si mesmo. Nesse sentido, a humildade significa adotar uma atitude gratuita e receptiva, de um amor agradecido que dirige tudo a Deus e entrega-se por completo à Sua Vontade.
Podemos, portanto, dizer que ser humilde é ser humano simplesmente, com a capacidade de amar. A humildade é o contrário do orgulho, soberba, prepotência... que abrem a porta para todas as injustiças: o desprezo do fraco, a exploração do pobre, a exclusão do marginalizado e o ferido da vida.
Só podemos aceitar o presente da graça divina quando temos consciência de nossa própria condição humana. Por isso, aqueles que mais avançaram no caminho espiritual foram os que mais viveram a humildade. Eles passaram pela experiência de que só podemos nos aproximar de Deus com humildade.

A humildade é o pólo terreno em nossa caminhada espiritual. Para permitir que Deus atue nas profundezas de nosso ser faz-se necessário o auto-esvaziamento, para ser preenchido por Sua presença. Agora, sim, podemos escutar a voz de Deus e sentir a sua presença em nosso próprio coração, em nossos sonhos e desejos, em nossas paixões, em nosso corpo e .nossos sentimentos
Nós “subimos” a Deus quando “descemos” à nossa humanidade. Este é o caminho da liberdade, este é o caminho do amor e da humildade, da mansidão e da misericórdia; é o caminho de Jesus também para nós.
O coração, a quem não é estranho nada do que é “humano”, alarga-se, enche-se do amor de Deus, que transforma tudo o que é humano. O caminho da humildade é o caminho da transformação.
Ao fazer, junto com Jesus Cristo, o caminho da “descida”, o ser humano vai ao encontro de sua realidade e coloca-se diante de Deus para que Ele transforme em amor tudo quanto existe nele, para que ele seja totalmente perpassado pelo Espírito de Deus.

No Novo Testamento, a humildade é entendida não apenas como atitude para com Deus, mas também para com os outros. Por isso, a humildade é vista juntamente com a mansidão, brandura, perdão... Os elevados “ideais de perfeição” nos impedem de envolver-nos com as pessoas reais e com suas feridas.
A humildade pressupõe um descentramento, um êxodo para o encontro com o outro, acolhendo-o tal como é; ela nos conduz à pura gratuidade do amor desinteressado; ela pressupõe, essencialmente, o reconhecimento da alteridade.
Por isso, não é possível viver a alteridade sem efetuar essa renúncia à posição narcisista na qual a pessoa se centra sobre si mesma, caindo numa fria insensibilidade diante de tudo o que acontece ao seu redor.
Quando alguém encontrou sua própria condição humana, reconcilia-se com tudo aquilo que é humano, quebra a rigidez na relação com o mais fraco e o enfermo, com o imperfeito e o fracassado.

Vê tudo envolvido pelo olhar de bondade e misericórdia de Deus.

Texto bíblico:   Lucas 7,1-10  

Na oração:  A oração significa uma necessária “escavação”, esse esvaziamento que finalmente abrirá um lugar para Deus. Somos chama-dos à santidade. Entretanto, como tudo na Criação, também a santidade está em processo, em gestação, em crescimento, em trabalho de auto-esvaziamento. Ela floresce na liberdade, na abertura e na humildade que leva à ação eficaz
- Para Jung, a humildade é a coragem de olhar a própria sombra.
  Como você lida com seus conflitos, seus limites e fragilidades, suas paixões...?

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Espiritualidade do Corpo

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho indicado para a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi) .


“Jesus: CORPO de Deus entre nós, CORPO que se dá aos homens, CORPO para os corpos, como carne e sangue, pão e vinho. E o CORPO de Deus, Jesus Cristo, se expande, incha, tomando o universo inteiro...
É bem aí, no CORPO, que Deus e o homem se encontram.
A humanidade de Deus nos incomoda. Coisa que os primeiros cristãos descobriram com espanto.
Eles entenderam que para falar de Deus é necessário deixar de falar de Deus, e falar sobre um homem, um rosto, uma vida... Foi então que eles ficaram cristãos.
Deus, para falar de si, tornou-se homem. Fala sobre Deus é fala sobre um homem.
          A PALAVRA se fez CARNE. Nosso irmão. Um de nós. Nasceu, viveu, morreu... ressuscitou” (Rubem Alves)

“A festa de Corpus Christi quer nos fazer recordar que CORPO é cálice, onde se bebe o vinho da alegria e da salvação, inserido no CORPO místico e cósmico de Cristo. Só haverá futuro digno quando todos os CORPOS viverem em comunhão, saciados da fome de pão e de beleza” (Frei Betto).

Celebramos o “Corpo de Cristo”, uma das festas mais ricas que nos faz pensar em seu conteúdo e simbolismo, mas que nos faz pensar também neste “Corpo de Cristo” no meio de tantos outros corpos.
Aceitamos, pela fé, a presença real de Cristo na Eucaristia; isso implica comunhão bem maior com sua vida, seu testemunho de amor, de partilha, solidariedade, dedicação pela transformação de tudo aquilo que não dignifica a vida ou não dignifica os “corpos”.
Participamos, com muita fé, dedicação e respeito, das celebrações do “Corpo de Cristo”,  mas pode ser que, às vezes, façamos uma profunda cisão ou ruptura entre o que celebramos e a realidade que nos cerca, ou seja, os famosos “corpos”: explorados, manipulados, usados, escravizados, destruídos...
Pode ser que, às vezes, tenhamos um profundo amor e respeito pelo “Corpo de Cristo vivo e presente na Eucaristia”, e não O vejamos nos “corpos” que estão aí, aqui, ali, lá, dos nossos lados...

Por meio da Encarnação e por meio da Ressurreição de Jesus, a carne se converteu em espelho da divindade. Assim, o corpo humano começou a ocupar um lugar central.
Parece que não sabemos lidar muito bem com esse estranho e (des)conhecido que são os nossos “corpos”. Do corpo temos tido suspeitas e o temos olhado com desconfiança.
É preciso estabelecer o diálogo com o corpo. Não se trata apenas de uma reconciliação amistosa, mas de uma descoberta radical. Ignoramos nosso corpo, apesar de tê-lo tão próximo; é preciso dar-nos conta das riquezas que tem, o muito que sabe, a importância do que tem a nos dizer, a necessidade de seu apoio e a sabedoria de sua amizade.
Aqui está nosso melhor amigo, fielmente junto a nós, e nem sempre o percebemos.
A corporeidade penetra toda a nossa auto-realização como seres humanos. O corpo não é simplesmente “organismo vivo” ou mera “exterioridade” ou mero “instrumento do espírito”. O corpo não é o túmulo da alma, mas o templo do Espírito, o lugar onde o “Verbo se fez carne”.
O corpo é de importância máxima para a experiência que temos de nós mesmos e para a comunicação com Deus, com os outros e com a natureza.
A consciência do respeito e do valor ao corpo é necessária para a maturidade afetiva. A desvalorização do corpo, por outro lado, resulta na mutilação da expressividade, da comunicação de sentimentos e prejudica a maturidade afetiva-social-espiritual.
Uma relação negativa com a corporeidade equivale a uma relação negativa consigo mesmo, com os outros e até mesmo com Deus. Não aceitar o corpo é atentar contra a vida.

A pessoa é uma totalidade unificada, um “todo espiritual” e um “todo corpóreo”, tanto que não existe fenômeno corpóreo que não tenha um reflexo no espírito, nem experiência espiritual que não se reflita no corpo. O corpo participa, de maneira imprescindível, na atuação do eu espiritual e vice-versa.
A “linguagem espiritual” acompanha a “linguagem corporal”, assim como a linguagem do corpo reforça a linguagem espiritual.
O corpo fala por si mesmo, comunica, reage... O corpo é expressão de nossa masculinidade ou feminilidade, de nossa sexualidade integrada ou reprimida, de nossa saúde ou doença, de nossa alegria ou tristeza, realização ou frustração, de nossa consolação ou desolação.
O corpo é expressão e comunicação daquilo que somos.

O próprio Deus se fez corpo, no corpo de uma mulher: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.
A espiritualidade cristã é “encarnada”.
A Encarnação foi o caminho que a Trindade escolheu para se aproximar da humanidade e fazer história conosco. Nosso corpo humano, feito de barro – vaso frágil e quebradiço – tornou-se o lugar privilegiado da chegada e da revelação do amor trinitário.
“Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós?” (1Cor, 6,19)
O nosso corpo é o “templo” santo e santificado, onde Deus Trino faz sua morada.

Se nos fixarmos nas palavras e nos gestos de Jesus na última Ceia, descobriremos que suas palavras (“isto é meu corpo”) e seus gestos (partir e repartir o pão) constituem a essência afetiva e social (de amor e justiça) do cristianismo, a verdade do Evangelho.
Eucaristia é “Corpo” e é corpo doado e partilhado, não pura intimidade de pensamento, nem desejo separado da vida. A Eucaristia é Corpo feito de amor expansivo e oblativo, que se expressa no trabalho da terra, na comunhão do pão e do vinho, no respeito mútuo frente o valor sagrado da vida, no meio do mundo, nas casas de todos, em plena rua. Não são necessários grandes templos e nem suntuosas procissões para celebrar a festo do Corpo de Deus; basta a vida que se faz doação e partilha, no amor, como Jesus fez.
É assim porque no gesto do partir e repartir o pão se condensou todo o caminho de Jesus: vida que se doou para aliviar todo “sofrimento humano” (curas), para proporcionar a “refeição partilhada” (ceias e multiplicação dos pães) e para ativar “novas relações humanas” (sermão da montanha).
Celebrar o “Corpus Christi” é atualizar estas três preocupações centrais da vida de Jesus. Aqui se conecta a essência de Sua vida na vida dos seus seguidores.
Diante do Corpo de Cristo, nosso corpo se plenifica na comunhão com outros corpos, com Deus e com o corpo da natureza. Nosso humilde corpo é parte da Criação inteira e nosso bem-estar faz sorrir a natureza.
Nosso corpo é pura relação. Nele ficam registradas todas as marcas de nossa vida, de nossa história.
O corpo é presença e linguagem - tudo nele fala: fala o rosto, falam os olhos, falam os movimentos e as posturas, falam os gestos, acompanhando, reforçando e expressando a intenção íntima.
Celebrar “Corpus Christi” é “cristificar” nossos corpos.


Texto bíblicoLucas 9,11-17

Na oração:  Nosso corpo é tocado pela encarnação de Jesus. E lembre-se de que Deus conhece nossa estrutura. Ele sabe de que barro somos feitos.
Reze sua humanidade, seu corpo de homem ou mulher. Leve para sua oração os desafios do cotidiano, os imprevistos da vida.
Seja humano diante de Deus, deixe seu corpo falar a Deus.

Reze com seu corpo. E agradecido(a) bendiga sempre o Senhor.