segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Visitação: gerar a vida divina em nosso interior

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana -CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do Quarto Domingo do Advento - Ano Litúrgico (Ano C), preparando-nos para as festividades do Natal.


“Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre...” (Lucas 1,41)

Nos relatos do Evangelho de Lucas há duas mulheres, Maria e Isabel, que experimentaram profundamente o dom da gratuidade, e seu lugar de carência se converteu em lugar de abundância. As duas descobriram o dinamismo curador das relações e a riqueza que os contatos pessoais contém.
As relações que nos constituem são o tecido pelo qual circula nossa abertura a Deus e por onde crescemos em humanidade, acolhendo e sendo acolhidos pelos outros.
Vivemos em um mundo hiperconectado, em contato permanente e presente, ao mesmo tempo, em todos os lugares. O mundo, nossa vida, se converteu num “chat” contínuo. No entanto, em meio a este “chat” universal, a conversação emudeceu; a maior parte de nossas “conversações” tornaram-se prisioneiras das telas (celulares, tablets, smartphones, internet). Corremos o risco de reduzir a comunicação à conexão. Banalizam-se os conteúdos da conversa, mas também são amputadas dimensões fundamentais da experiência da comunicação, sobretudo a presença física. Sem essa presença, sem o encontro pessoal, não é possível o diálogo e a verdadeira comunicação. Este empobrecimento da comunicação vivente com o outro, ou a atrofia e medo de um face-a-face, é sinal claro de uma profunda desumanização.

O “mistério da visitação” nos possibilita recuperar o sentido e o dinamismo de um encontro interpessoal. O encontro é uma realidade inter-humana dinâmica e, até certo ponto, tem algo de arriscado e imprevisível, derrubando todas as nossas prévias tentativas de controlá-lo.
Podemos planificá-lo preparando estratégias; podemos acolhê-lo cheio de expectativas ou, pelo contrário, sem elas, esperando uma mera formalidade, repetição de outras situações semelhantes; podemos nos mostrar desejosos ou desconfiados, seguros ou ansiosos... De repente, algo inesperado acontece, na outra pessoa, ou em nós mesmos, ou no contexto, convertendo aquele encontro numa situação única e original, afetando nosso viver ou transformando nosso eu profundo.
O evangelho de hoje nos apresenta uma visita inesperada: a visita daquela que não permanece fechada nem ensimesmada em seu mistério; a visita daquela que se sente impulsionada a sair de si mesma para colocar-se a serviço daquela que está necessitada de ajuda.
Uma visita alegre, espontânea e gratuita, porque cheia da experiência de Deus; Maria que faz Isabel sentir a alegria de uma maternidade não esperada. Isabel que faz Maria sentir as maravilhas que Deus realizou nela. Uma visita que se expressa em dois cantos de louvor e ação de graças: “Bendita és tu que acreditaste” e “Minha alma engrandece o Senhor”.
Há visitas que não significam muito: só servem para matar o tempo e “jogar conversa fora”. E há visitas que despertam vida, que faz saltar a vida que carregamos dentro de nós.
Por isso, todos somos seres carentes de “mais visitações”. Visitações que despertem nossas possibilidades e sonhos, visitações que nos façam saltar de alegria, visitações que nos ajudem a reconhecer as maravilhas que Deus realiza em nós e nos outros.

À sombra do encontro entre Maria e Isabel e contemplando o modo de visitar e de ser visitado, agradecemos o tecido relacional que conforma nossas vidas. É um tempo para orar as relações, para considerar aquelas que precisamos continuar alimentando e aquelas que se romperam e que queremos reparar.
Agradecer as relações que nutrem nossa vida. Trazer ao coração as pessoas significativas que nos fizeram provar o sabor do amor em nós e seus bons efeitos. Recolher agradecidamente os pequenos gestos de amor, de carinho, de escuta, de confiança, de paciência... Que tiveram conosco.

As duas mulheres se encontram em diferentes momentos vitais: Isabel na terceira etapa de sua vida, Maria quase na primeira, entrando na segunda. Uma é estéril e anciã, a outra, jovem e virgem, ambas portadoras de uma vida maior que elas mesmas, conhecedoras do mistério que crescia em seu interior.
Devido à sua gravidez, as duas se encontram fora da norma social, do estabelecido. Isabel é idosa para poder conceber, e Maria está grávida sem estar casada.  Ambas deviam sentir não só alegria no abraço, mas também a comoção e as dúvidas: “quê vai acontecer?”, “como vamos ajeitar as coisas?”...
Elas apoiam-se mutuamente no momento no qual estão, na situação que atravessam; reconhecem-se e se confirmam; estabelecem um vínculo entre elas, aceitam-se mutuamente; não se julgam nem valoram em função do que a sociedade considera correto ou incorreto; compreendem o que significa para cada uma delas que algo novo está crescendo em seu interior.
Maria não vai só servir a Isabel; ela precisa de alguém que a partir de sua experiência lhe diga: “vai em frente, que isso é de Deus”. Necessita que Isabel a confirme e a bendiga. E Isabel, por sua vez, necessita agradecer o sonho de Deus que as duas compartilham e que se tornou possível.
Estas mulheres são um ícone preciosíssimo para cultivar as dimensões do diálogo intergeracional e a necessidade que temos de diálogo em todas as dimensões da vida, entre as culturas, entre as diversas tradições religiosas... O diálogo como caminho para a comunhão.
Elas nos conduzem a agradecer a capacidade feminina, que homens e mulheres tem, de deixar transparecer o Mistério que nos habita, de despertar-nos uns a outros para essa Vida que nos habita e cuja presença reconhecemos.
Isabel e Maria se convertem cada uma em comadre, em parteira da outra; a partir de seus diferentes momentos vitais, vão se ajudar a esperar e a passar o processo do “dar à luz”. Na vida nova que está se gestando nelas, no secreto, anseiam em uníssono para trazer ao mundo algo de Deus que estava oculto.
As duas sabem de espera e de dores de parto. O parto não é um fato isolado e acontece nele a contração e a relaxação, a dor e o prazer, a posse e o desprendimento, a tristeza e a alegria, o medo e a confiança.
Isto que as parteiras mencionam como momentos do parto, do “dar à luz”, são momentos de nossa vida, de nossas relações. Todos nos reconhecemos aí. Somos parteiros uns dos outros, e necessitamos cuidar desses processos cotidianos onde a vida do Espírito se manifesta como luz da vida.

Os ícones que ao longo dos séculos expressam esta visita, esta saudação, nos apresentam as duas mulheres vinculadas, unidas por um abraço, por um beijo, por uma mesma alegria. Em seu modo de entrar em relação, em sua maneira de dialogar, se apresentam na qualidade de mestras para nós, para nossa humanidade fragmentada que aspira relações novas.
Isabel e Maria se fazem valer mutuamente e despertam o melhor que há em cada uma. Viveram uma história de agradecimento e de libertação, se encontraram a partir da alma, a partir do mais profundo de si mesmas e se ofereceram mutuamente palavras amigas, palavras de encorajamento e de sabedoria.
Elas nos ajudam a nos perguntar: Quê tipo de história relacional queremos viver? Uma história a partir do ego ou a partir interioridade?

Texto bíblico: Lucas 1,39-45

Na oração: sua casa, lugar de visitação e encontro, espaço humano de partilha, convivência, festa, ajuda...?
Ou, casa cercada de parafernália eletrônica de segurança, com entrada rigorosamente controlada..., impedindo o acesso até mesmo dos mais próximos (parentes, amigos)?
- Seja uma casa sempre aberta: “entrada franca”;
Casa, lugar do lava-pés, do mandamento novo, da amizade, da oração...
Casa, lugar do discipulado: olhar, escutar e seguir
Casa, lugar de unção-acolhida, serviço e cuidado...
Casa, lugar do Nascimento, da experiência de um Natal permanente.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Advento: tempo que destrava nosso interior

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana -CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do Terceiro Domingo do Advento - Ano Litúrgico (Ano C), preparando-nos para as festividades do Natal.

“As multidões perguntavam a João: ‘que devemos fazer?’” (Lucas 3,10)

Na iminência da vinda do Messias, os que se deixam envolver pela pregação do Batista lhe pedem normas de comportamento. Estas poderiam ser resumidas numa palavra: humanismo, ser gente.
Novamente, estamos acostumados demais a estes textos, impedindo-nos de descobrir sua novidade. Mas, o normal que se esperaria do profeta e asceta como o Batista, seria: exercícios de penitência, jejum e cilício.
No entanto, o Batista tem as ideias muito claras; não propõe às pessoas acrescentar às suas vidas novas práticas religiosas, não lhes pede que fiquem no deserto fazendo penitência, não lhes fala de novos preceitos. É preciso acolher o Messias, olhando atentamente e comprometendo-se com os necessitados.
Em outras palavras: viver a partilha; para os fiscais de imposto, serem honestos; para os soldados, não devem molestar as pessoas e contentar-se com seu soldo.
Ser humano: esta é a exigência do momento quando o Reino de Deus acontece no meio de nós.

Nesta terceira semana do Advento os sinais se tornam mais concretos: é preciso abrir-se à alteridade para viver a partilha, sair do estreito círculo do “meu”, para que o instinto de posse deixe passagem à liberdade de preferir o bem maior da relação: oportunidade de humanizar nosso louco consumismo, fazer-nos mais sensíveis ao sofrimento das vítimas, crescer em solidariedade prática, denunciar os desmandos na gestão da coisa pública, ativar a força da compaixão...
Essa será nossa maneira de acolher com mais verdade o Messias em nossas vidas.

O Advento nos torna flexíveis, atentos às inspirações do Espírito; é um estado de alerta, de escuta e de uma grande atenção em relação à realidade que nos cerca, buscando ser presença que ajuda, que eleva e que salva quem está em situação de necessidade. O Advento revela a natureza humana verdadeira, quando esta não está entulhada pela ilusão e pelo ego; é des-centrar-nos, desfazer-nos de tudo aquilo que acreditamos ser, para que somente fique em nós o que é próprio de Deus.
Viver em “estado de mobilidade expansiva” é sair de nossos hábitos, sair do conhecido. Se entrarmos nessa aventura, nossa vida será virada pelo avesso e completamente questionada.

O Advento é o que diz “sim” em nós: sim à vida, sim ao compromisso, sim à compaixão...
É necessário que descubramos em nosso interior, o sim mais profundo; ativá-lo para que nossa vida cresça em humanidade e alargue nossa capacidade de sair e caminhar para além de nós mesmos.
O sim interior deve ser uma irradiação de todo o nosso ser.
Quando o impulso para o além, para a transcendência nos habita, tudo se torna sagrado, nossos olhos se tornam contemplativos e se fazem mais oblativos, movendo-nos em direção aos outros.
Podemos dizer que o Advento, quando carregado por uma expectativa de Alguém que vem ao nosso encontro, destrava nosso coração, mãos e pés: coração cheio de compaixão e ternura; mãos que curam, cuidam, abençoam... e pés que nos arrancam de nossos lugares estreitos e nos deslocam em direção às margens, para junto dos pobres e excluídos.
Uma pessoa marcada pela vivência do Advento não é aquela que, por medo, se distancia do mundo, mas é aquela que, movida por uma radical paixão, desce ao coração da realidade em que se encontra, aí se encarna e aí deixa transparecer o rosto da velada presença do Inefável. Isso significa uma maneira diferente e original de ser presença na realidade, dividida e conflituosa.

A espera do Messias não é passiva; ela se revela na saída de si mesmo, des-centrar-se para entrar em sintonia com o outro, sobretudo os mais necessitados.
A espera implica um “modo de proceder” aberto e expansivo...
Também na vivência cristã somos contaminados pela cultura do imediatismo e do ativismo; somos vítimas ingênuas de uma competitividade que nos é imposta e que nos exige desumanamente; com isso, o desejo de ajudar e de servir ficam soterrados pelo esgotamento, pela descrença e pelo desgaste profundo.
Há uma doença terrível e mortal que nos afeta a todos: a “compulsão prática” (popularmente conhecida como “fazeção”) ou seja, preocupação sem medida com o “fazer”. Com a chegada do “utilitarismo”, a pessoa passou a ser definida pela sua “produção”: a identidade é engolida pela “função”. E isto se tornou tão enraizado nela que, quando alguém lhe pergunta “quem ela é”, responde imediatamente o “que ela faz”.
Estamos mergulhados na cultura de resultados. A existência inteira faz-se maquinal e rotineira; já não encontramos mais “tempo” para desfrutar das atividades mais simples e humanas.
Sentimo-nos invadidos por ruídos, pressas, atropelos, ansiedade, resultados imediatos, vivências superficiais... Sem uma unidade interna e sem uma direção. Vivemos uma quantidade de experiências rápidas, amontoadas, sem possibilidade de avaliação... e vamos perdendo, pouco a pouco, a história pessoal e comunitária. Com isso, nosso “modo de viver” torna-se rotineiro, pesado, carregado de desencanto..., nos tornamos medíocres e nos acomodamos na passividade.
Nossas ações e nosso serviço se esvaziam, tornam-se “insensatos” (sem sentido, sem inspiração e sem motivação: “para quê?” “para quem?”); fazemos coisas que não faríamos se pudéssemos tomar distância e discernir a respeito do que estamos fazendo. Tudo isso nos faz viver à margem de nós mesmos, na superficialidade... sem poder captar o “mistério” escondido em nosso interior, nos outros e nas criaturas.

É neste contexto dramático e perigoso que devemos situar o lugar e o sentido do Advento, fonte primordial de inspiração do novo, de sentido evangélico de nossa ação, de esperança ousada... Como um modo de ser, uma atitude de base a ser vivida em cada momento e em todas as circunstâncias.
O Advento é a contra-corrente do ativismo. Se, de um lado, o ativismo nos arrasta para a repetição e a conservação, de outro lado, a espiritualidade do Advento nos impulsiona para a busca, a criatividade, a ação discernida... Visando o “maior e melhor serviço”.
Devemos habitar um mundo onde a interioridade faz a diferença, ou seja, onde as pessoas se definem por suas visões, paixões, esperanças, sonhos, imaginação criativa...

Texto bíblico:  Lucas 3,10-18

Na oração:  
A realidade cotidiana (casa, comunidade, trabalho, militância, relações...) é o “lugar” onde somos chamados a viver o Advento e a deixar-nos conduzir pelo mesmo Espírito que animou João Batista, o levou a mergulhar na trama humana e a assumir o risco do compromisso.
- Contagiar os outros com a nossa esperança: esta é a disposição de uma “Igreja em saída” e que não aguarda numa sala de espera.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Uma voz que “vê”

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana -CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do Segundo Domingo do Advento - Ano Litúrgico (Ano C), preparando-nos para as festividades do Natal.

“Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor...” (Lucas 3,4)

Advento nos convida a fazer estrada”, numa viagem em busca do mundo interior, sede dos desejos, daquilo que é importante e essencial, o nosso modo de projetar o futuro, as nossas decisões... Nesse “mergulho” interno cada um pode construir uma espécie de mapa do “eu”, com as regiões fortes e fracas, vulneráveis e criativas, transparentes e ainda misteriosas.
A figura de João Batista “toca” o coração de cada um e nos possibilita “entrar” em nosso mundo e captar em profundidade a nossa realidade, a perceber a raiz do nosso ideal de vida (cada vez mais atraente-convincente-exigente), como também suas contradições e ilusões, medos e necessidades.

Esse processo interior, motivado pela presença instigante do Batista, nos motiva a elevar vales e rebaixar montes de nossa paisagem interior: desmontar colinas do medo, nivelar os acidentados terrenos de esperança, alongar a “pele da alma” para nos redimir das escleróticas rugas dogmáticas e facilitar os caminhos do Senhor.
Profundidade e amplitude: são as duas dimensões ativadas neste tempo litúrgico do Advento; elas estão intimamente conectadas de modo que quanto mais profunda é uma pessoa, mais livre se faz de seus limites imediatos e mais capaz de olhar amplamente a realidade que a envolve.
E o percurso do caminho interior nos ensina muitas coisas.
Aquele que “desce” em seu interior, é alguém que não tem medo de si mesmo, de olhar para si em todos os aspectos e dar-se conta do que está acontecendo. Um fio e intenso raio de luz penetra e ilumina, quase imperceptível, alguns rincões do seu aposento interior. Em seu silêncio interior, nas profundezas de seu ser, acolhe, escuta e reconhece o murmúrio de uma voz, chamando-o a engajar-se na aventura do serviço a Deus e aos outros. Com o passar do tempo, torna-se capaz de reconhecer a ação de Deus.
É ali que a pessoa descobre aquilo que podemos denominar a “bússola interior” do coração, algo capaz de lhe revelar as “moções” de seu íntimo; “moções” que mobilizam a energia vital mais profunda de seu ser. Esta interiorização é abertura, é dilatação do coração, é expansão do ser em direção a um mundo percebido como “morada do Criador”.

No nosso processo espiritual do Advento, devemos também ativar esta capacidade de ver quem somos nós, onde estamos, para onde vamos... sem o temor de nos defrontarmos com respostas desagradáveis.
Somente partindo da realidade de nós mesmos, do conhecimento do nosso terreno interior, poderemos crescer como peregrinos em direção a um horizonte que progressivamente se mostrará sempre mais claro. Caminhando por estradas interiores desconhecidas, poderemos atingir experiências imprevistas e surpreendentes, ou reconhecer “vozes novas” que nos mobilizam na direção de uma causa nobre e divina.

Dizem que há pessoas capazes de serem curadas por uma voz, pela sonoridade de uma voz determinada. Vozes que “tocam” e despertam forças desconhecidas. Certas vozes nos devolvem ao nosso ser essencial. Quanto aspira nosso coração escutar uma voz que desate em nós forças libertadoras! Livres do domínio de nossas compulsões, livres para amar sem defesas, livres para sermos nós mesmos e poder entrar numa relação nova com a realidade...
Somos seres de palavras e somos também seres de silêncio. Neste mundo de “palavreado crônico” temos esvaziado o dom da palavra, as palavras tem pouco valor, as vozes se fazem estridentes e agressivas... Por isso, precisamos educar nossa voz no calor do silêncio, porque só o silêncio restaura a integridade de nossas palavras. Essas palavras podem curar, elevar, comunicar vida... Vozes que devolvem a dignidade a cada pessoa, remetendo-a a si mesma, ajudando-a a conectar com seu ser mais profundo.

Precisamos ouvir vozes que toquem nossas superfícies endurecidas e nos libertem de tantas ataduras que não nos deixam respirar com profundidade, nem olhar compassivamente, nem considerar a beleza da diversidade e da diferença. Também nós buscamos pessoas que possam nos dizer palavras para viver e somos também cobrados a entregar aos outros uma palavra de vida.
Os primeiros cristãos viram na atuação e na voz do Batista o profeta que preparou decisivamente o caminho para a chegada do Messias. Por isso, ao longo dos séculos, a voz do Batista continua ressoando com intensidade, despertando-nos para uma atitude de acolhida d’Aquele que quer fazer morada entre nós.

Lucas resumiu sua mensagem com este grito tomado do profeta Isaías: “Preparai o caminho do Senhor”.
O importante é a Voz, uma Voz que grita e diz: “preparai”. Ela nos define e nos faz ser mais humanos, pois alimenta nossa esperança e nos abre um caminho de transformação.
É tempo de profetas, tempo para escutar e discernir as vozes que vem do interior e vozes de outros homens e mulheres que abrem, com sua palavra, uma esperança de humanidade.
Uma voz que grita no deserto: nossos “reinos neoliberais” estão demasiados cheios de propaganda deste mundo, de poder e de dinheiro, de intrigas e invejas, de corrupção e falsos amores, de puras imagens que passam e morrem, mantendo as pessoas ocupadas em suas mentiras e ilusões.
É preciso sair ao deserto, retornar ao silêncio dos grandes profetas para escutar as vozes verdadeiras, aquelas que brotam do eu mais verdadeiro e que nos fazem mais humanos.
Fernando Pessoa nos diz: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.

O caminho foi e continua sendo uma experiência de rumo que indica a meta e simultaneamente é o meio pelo qual se alcança a meta. Sem caminho nos sentimos perdidos, interior e exteriormente. Assim se encontra a humanidade, sem rumo e num vôo cego, sem bússola e sem estrelas para orientá-la nas noites tenebrosas.
Cada ser humano é “homo viator”, um caminhante pelos caminhos da vida. Assim disse o poeta cantor argentino Atahualpa Yupanqui: “o ser humano é a Terra que caminha”. Não recebemos a existência acabada; devemos construí-la. E para isso é preciso abrir caminho, a partir e para além dos caminhos andados que nos precederam. Assim, nosso caminho pessoal nunca está dado completamente: tem de ser construído com criatividade e sem medo.

Esse é o sentido de nossa existência: escolher quê caminho construir e como seguir por ele, sabendo que nunca o percorremos sozinhos. Conosco caminham multidões, solidárias no mesmo destino, acompanhadas por Alguém chamado “Emanuel, Deus conosco”.
O cristão é um contínuo peregrino, enamorado do caminho, não da meta. E caminhando aprenderá a ser feliz com pouco e a ser companheiro samaritano; aprenderá também que o caminho é a meta e que é mais importante saber caminhar que chegar. E caminhando, ele se tornará caminho: um caminho de terra e de ar, de pedra e de fontes, de árvores e nuvens, de encruzilhadas incertas e horizontes luminosos.
Num albergue para peregrinos estava escrito: “Tu és o caminho”. Sim, nós também somos o caminho, a verdade e a vida. Como João Batista, que no caminho deixa ecoar sua voz que desperta e mobiliza a entrar em sintonia com “Aquele que está vindo ao nosso encontro”.
Neste longo percurso, os convites de Deus são absolutos e constantes. Se estamos apegados ao que temos, jamais seremos capazes de “fazer estrada com Deus” e participar da preciosa vida que Ele nos oferece.

Texto bíblico: Lucas 3,1-6

Na oração:  “Senhor, mostra-nos teus caminhos!”
                     Esta é a oração fundamental de Israel, a petição permanente dos Salmos. Para o povo que peregrina no deserto, é essencial conhecer direções  e entender ventos. E para o coração que peregrina no deserto da vida, é essencial conhecer os caminhos do Espírito e os ventos da graça.
- Seu caminho tem “alma”? Tem “coração”? Tem “voz”?

sábado, 28 de novembro de 2015

Advento, deixa-te surpreender

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana -CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do Primeiro Domingo do Advento - Ano Litúrgico (Ano C), preparando-nos para as festividades do Natal.


 “...levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima” (Lucas 21,28) 

Mais uma vez o Advento vem ao nosso encontro, e com ele o convite para continuar ampliando espaços para Deus em nossas vidas. Uma oportunidade para escutar de novo sua promessa: promessa de nova vida, de um novo ânimo, uma nova esperança.

Podemos acolher este tempo com a marca da rotina (mais um ano, repetir as mesmas palavras, a espera, o “vem, Senhor”...); ou mobilizando-nos e abrindo-nos à surpresa de Deus, que virá a nós como chamado, como possibilidade, como grito para despertar-nos... Que nos abramos ao novo!

O melhor do Deus que vem é que Ele se manifesta de maneiras inesperadas: desfaz certezas, rompe convenções, renova sonhos, não busca brilhos ou ornamentos, aplausos ou adesões forçadas. Sua chegada não exige cobranças nem condiciona com exigências desmedidas. A esperança abre passagem por onde menos esperamos. E Deus continua aparecendo onde e quando ninguém espera.

Para “conhecer” a realidade e a verdade do Advento precisamos de olhos novos e de um coração novo.
É necessário despertar aquela “sensibilidade” escondida e abafada pelo ativismo e pelo ritmo estressante de nossa vida. No Advento, toda a humanidade é atingida como que por um raio, é tomada de surpresa. 
A sua noite, o seu silêncio, o seu sono, a sua rotina diária... é quebrada por uma novidade absoluta.
O Advento é, por sua própria natureza, uma surpresa que quebra a solidão das pessoas abandonadas a si mesmas, que irrompe no meio de uma vida sem sentido e sem direção, que traz luz para os ambientes fechados e frios.

A “sensibilidade” despertada pelo Advento recupera em nós o sentido da surpresa,  recobra a atitude da expectativa, da novidade, do assombro... diante da vida. Porque é no traçado das horas e dos dias que Deus prepara sempre a sua novidade, a sua surpresa, o seu dom natalício. Tal surpresa faz brotar o entusiasmo para enfrentarmos os desafios da vida, despertando projetos arquivados, suscitando dinamismo novo no cotidiano pesado, fazendo-nos levantar de novo e retomar o caminho...

Precisamos conservar límpidos os olhos do espírito, prontos para perceber a maravilha que está germinando na nossa vida. O Advento quer reafirmar a possibilidade de uma alternativa, da chegada de um hóspede inesperado, porque é “boa nova”, é evangelho.
Por isso, o cristão não deve jamais cair na resignação, mas permanecer em vigília, na expectativa; ele deve ser também uma surpresa para os outros, com seu gesto de amor imprevisto, com sua palavra que reanima, com sua visita que consola, com sua atenção para com todos os que levam uma vida obscura e monótona. Ele olha o mundo com inteligência, sim, mas também com a simplicidade das pombas; sabe intuir o bem secreto, também sabe apreciar a poesia da vida e da natureza.


No evangelho de hoje, Jesus dá por suposto a existência de situações desastrosas que nos sacodem, enchendo-nos de ansiedade e preocupação; mas, onde nós só vemos catástrofes, Jesus vê “sinais”. E a condição para descobri-los é erguer a cabeça, levantar os olhos, ir mais além do imediato que nos cega e nos prende em redes de desejos insatisfeitos, em obsessões por conservar modos de vida que considerávamos definitivos, em temores que embotam nosso coração impedindo o fluir da vida.

Curvados sobre nós mesmos, sem horizonte, sem poder olhar de frente, nem entrar em relação de reciprocidade, carregando durante longo tempo um peso excessivamente grande (culpa, ressentimento, vergonha), bloqueados, privados de nosso próprio potencial: este é o drama que nos desumaniza. Nossos corpos encurvados se fazem texto, linguagem, grito, petição... para serem endireitados. Nesse contexto ressoa com força o apelo de Jesus: “levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima”.

Nosso corpo fala mais e com mais veracidade que nossas palavras, o que irradiamos revela algo sobre nós. E há corpos que em silêncio clamam por cura e cuidado. É preciso interrogar nossos corpos para que eles nos contem suas histórias guardadas: seus segredos, suas dores, suas vivências. Devemos ser capazes de lê-los e respeitá-los, para poder devolver-lhes sua harmonia e sua beleza originais.

É nosso próprio corpo posto de pé, é nossa própria vida circulando sem  ataduras, é a libertação de nossas forças afetivas, a possibilidade de olhar outros olhos sem temor e de entrar em comunicação... que nos faz experimentar uma relação nova com a vida.

Aspiração, sede, ansiedade, expectativa, estar de pé: isso é o que nos invade quando sentimos que se aproxima algo que desejamos de verdade. Pois isso é o Advento: tempo para os grandes sonhos.
Só os medíocres ou os desesperados renunciam a sonhar.
Pois bem, se o desânimo nos assalta, é tempo novo para levantar a cabeça, olhar ao longe, bem para fora, bem para dentro. Deixar que ressoe como uma promessa a Voz de um Deus que atravessa o tempo para dizer-nos: “aproxima-se vossa libertação”. 
Mergulhados naquilo que é margem, passageiro, na superfície das coisas, perdemos de vista o essencial e caímos na resignação. Perdida a capacidade de maravilhar-nos, o Advento esvazia-se e torna-se mais um tempo litúrgico rotineiro.

Poderíamos dizer que o Advento nos apresenta uma “espiritualidade do despertar”. Se estamos adormecidos ou anestesiados, sem nos encantar com a maravilha e o desafio de estarmos vivos, precisamos despertar. Despertar para a gratuidade da vida, para o chamado à convivência e comunhão, despertar para uma presença misericordiosa. Jesus vem despertar-nos e ativar nossa esperança.
É preciso saber olhar, abrir os olhos, ler a vida e despertar-nos para aquilo que acontece à nossa volta.
Se há uma palavra que perpassa todas as tradições religiosas, essa palavra é “despertar”, não no sentido individualista e moralizante, ou seja, manter um adequado comportamento moral para, desse modo, alcançar a salvação.
O chamado original a “despertar” reveste-se de uma profundidade muito maior, que conecta com aquela palavra com a qual Jesus inicia sua atividade pública: “convertei-vos”. Na realidade, trata-se de um novo modo de olhar ou de conhecer, de um “conhecer mais além da aparência”.
Quê significa “despertar”? Em quê sonhos estamos mergulhados? Como dar-nos conta de que estamos “adormecidos”? Há algo que possamos fazer?... Todas estas questões são evocadas pelo convite que aparece na boca da Jesus: “Estai sempre despertos”.
A pessoa desperta é aquela que experimentou intensamente a vida e, graças a isso, vive ancorada, enraizada e conectada com a sua verdadeira identidade, ao seu eu original e universal.

Texto bíblico:  Lucas 21,25-28.34-36

Na oração: Quando foi Deus, para você, o Deus inesperado?”

                     Em quê se concretiza para você a promessa de Deus? Quê espera ou deseja de verdade? Qual é a boa notícia na qual você acredita? Como vive você este Advento? Quê há, em sua vida, de busca, sonho, aspiração, desejo... Em sintonia com Deus?