terça-feira, 12 de abril de 2022

A Eucaristia “faz a comunidade”

 Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar e meditar os acontecimentos da Semana Santa 2022: Quarta-feira Santa.

“Ao cair da tarde, Jesus pôs-se à mesa com os doze discípulos”

 

+ Prepare-se para viver este momento denso da Última Ceia; disponibilize todo seu ser (sentidos, razão, afetividade, coração) para “sentir e saborear” este Mistério.

+ Um cuidado especial com os preâmbulos: oração preparatória, composição vendo o lugar, petição da graça...

+ Leia os “pontos para a oração”: isso pode ajudar a aquecer o coração para viver mais intimamente o encontro com o Senhor que está às portas de sua Paixão.

Mais uma vez a liturgia nos convida a “fazer memória” desta Ceia tão especial. Jesus havia transitado por muitas refeições, participado de muitas mesas (especialmente com os pobres e pecadores) e agora Ele nos deixa uma “mesa” como “marca” dos seus seguidores. Mesa da partilha e da inclusão, mesa da festa e da comunhão.

É em torno a esta mesa que os(as) seguidores(as) de Jesus se constituem como verdadeira comunidade.

Ao “re-cordar” a vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus, os cristãos se comprometem a prolongar os Seus gestos, atitudes, valores, compromissos... “Fazer memória” de Jesus junto à mesa é comprometer-se com a vida; é colocar a própria vida a serviço da vida.

Entre a traição de Judas e a negação de Pedro, Mateus colocou a instituição da Eucaristia.

Deste modo, ele destaca para todos nós a inacreditável gratuidade do amor de Jesus, que supera a traição, a negação e a fuga dos amigos. O seu amor não depende do que os outros fazem por ele.

Jesus quer cear com os seus amigos e por isso precisam encontrar uma sala na qual haja espaço para estar juntos. O ritual pascal dá lugar aos gestos simples que se fazem entre amigos: partilhar o pão, beber da mesma taça, desfrutar da mútua intimidade, entrar no clima das confidências...

Jesus sempre buscou companhia; havia nele uma necessidade irresistível de contar com os seus como amigos e confidentes. Sua relação com eles vinha de longe: levavam longo tempo caminhando, descansando e tomando refeições juntos, partilhando alegrias e rejeições, falando das coisas do Reino. E continuará considerando-os como amigos, mesmo quando um deles irá traí-lo e os outros fugirão.

Nos evangelhos, nós encontramos pessoas que não faziam parte do grupo dos Doze e que revelaram uma presença que fez toda a diferença junto a Jesus. Viviam o verdadeiro sentido do seguimento, sem buscar prestígio, vaidade, poder, competição... Pessoas que se revelaram muito mais em sintonia com Jesus e sua proposta de vida do que os Doze.

Uma delas foi a do homem do Evangelho de hoje: anônimo, mas deu sua contribuição decisiva e que ficou registrada na história; sua casa foi o lugar onde aconteceu a última Ceia.

Jesus era da Galileia, não tinha casa em Jerusalém.  Nos dias da festa de Páscoa, a população de Jerusalém triplicava. Não era fácil para Jesus encontrar uma sala ampla para poder celebrar a Páscoa junto com os seus mais íntimos. Ele pede para os discípulos encontrarem uma pessoa em cuja casa decidiu celebrar a Páscoa. O Evangelho não oferece mais detalhes e deixa que a imaginação complete o que falta nas informações. Era um conhecido de Jesus? Um parente? Um discípulo?... 

Aquele homem desconhecido, que abriu sua casa para Jesus, representa todos nós; cabe a nós mostrar o caminho do local da Ceia, cabe a nós preparar a mesa da partilha, abrir o espaço interior para acolhida, indicar o rumo que leva à casa do Pai. Orientadores(as) do povo de Deus, abrimos as portas da grande sala e a confiamos ao Mestre para que realize, ali, o imenso dom da Eucaristia, “como aquele que serve”.

Chama-nos a atenção, no Evangelho proposto para hoje, a maneira como Jesus indicou aos discípulos o local onde queria que a Ceia fosse celebrada. Ele mandou-os seguir um homem que encontrariam à entrada da cidade. Junto a personagens conhecidos nos Evangelhos, outros, sem rosto, nem identidade, nem protagonismo, surgem inesperadamente, deixando sua “marca”, como este desconhecido homem que emprestou sua casa para que Jesus e seus discípulos pudessem celebrar a Páscoa.

Anônimo perante a posteridade e seguido pelos que vinham detrás dele, este homem, de certo modo e do modo certo, serviu a Jesus como a Igreja deve serví-Lo, sem perguntar qual seria seu lugar à mesa.

O que teve lugar dentro de sua casa, transformada no mais importante templo material da história humana, seria mais do que suficiente para arrancar dele alguma expressão de vaidade capturada pelo evangelista. Mas não é isso que acontece com ele; oferece a casa sem perguntar quem viria celebrar a Páscoa, sem pedir garantias, sem cobrar aluguel pelo espaço; enquanto os sacerdotes e Judas pechinchavam o valor da vida de Jesus, este desconhecido, por pura gratuidade, oferece sua casa ao mesmo Jesus. Certamente, ele e sua família foram testemunhas desta ceia única e especial, e que será a marca de todo(a) seguidor(a) de Jesus.

Ontem o Evangelho falou da traição de Judas e da negação de Pedro. Hoje, fala novamente da traição de Judas. Apesar da convivência de quase três anos, nenhum dos discípulos ficou para tomar a defesa de Jesus. Judas traiu, Pedro negou, todos fugiram. Mateus, no Evangelho de hoje, quer ressaltar que o acolhimento e o amor de Jesus superam a derrota e o fracasso dos discípulos. Ele deixa entender que nós podemos romper com Jesus, mas Jesus nunca rompe conosco. O seu amor é maior do que a nossa infidelidade.

Estando todos reunidos pela última vez, Jesus anuncia quem é o traidor. É "aquele que põe a mão no prato comigo". Para os judeus, a comunhão de mesa, colocar juntos a mão no mesmo prato, era a expressão máxima da amizade, da intimidade e da confiança. Mateus nos indica que, apesar da traição ser feita por alguém muito amigo, o amor de Jesus é maior que a traição.

Que aconteceu no coração de Judas nessa noite da Última Ceia? Rodeado de um mundo de mistério, de um clima de bondade, de amor e salvação, e, no entanto, o coração de Judas está em outro lugar. Está impermeável à verdade que se celebra; está seco em seu interior, fechado ao mistério da graça.

Poucas experiências destroem alguém por dentro como a traição.

A traição que, à primeira vista, pode parecer ser prejudicial apenas àquele que foi traído, de maneira geral, vem acompanhada de um forte sentimento de culpa para o traidor. E ao sentir a culpa pela traição, a pessoa entra em conflito emocional; algumas caem até no desespero.

Aquele que traiu sofre, pois este não confia em si mesmo, não consegue acreditar que mereça confiança. O traidor condena-se à solidão e à culpa existencial, destrói-se e destrói todos ao seu redor, culpando o mundo por seu sofrimento; trai-se a si mesmo, torna-se, aos seus próprios olhos, um monstro, não merecedor de amor, o que o leva a trair mais ainda.

Se a pessoa trai a si mesma, ela fracassa em sua busca, frustrando-se na tentativa de realizar-se enquanto ser humano. E, na ausência de respostas, angustia-se mais, trai mais, atropela os outros que a amam, machuca a todos ao seu redor, procurando justificativas para seus atos e destruindo-se a si mesma em cada nova tentativa de ser amada.

Pontos para oração:

+ Leia atentamente o relato do Evangelho indicado para hoje: Mt 26,14-25

+ Prepare-se para uma contemplação. Com a imaginação, faça-se presente à cena, indo com os discípulos para preparar o ambiente da Última Ceia.

+ Procure ativar todos os sentidos: olhe as pessoas da cena, escute o que elas dizem, observe o que elas fazem, saboreie o pão e o vinho dados a você por Jesus...

+ Participe, com alegria, deste evento único; deixe-se afetar por tudo o que acontece durante a refeição.

+ Faça um colóquio ao Senhor: converse com Ele sobre os sentimentos contraditórios que nascem da fidelidade d’Ele e da traição de Judas.

+ Termine a oração, dando graças a Deus por este momento tão intenso; se possível, registre os apelos, luzes, inspirações, que brotaram da oração.

ÚLTIMA CEIA: lugar de “des-velamento” do coração

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar e meditar os acontecimentos da Semana Santa 2022: Terça-feira Santa.

+ Busque criar um ambiente propício para a oração deste dia: espaço externo, atitude interna, silêncio... para viver mais intensamente os “momentos finais” da vida de Jesus.

+ Faça a oração preparatória (de entrega), a composição vendo o lugar (a última Ceia), e peça a Deus a graça de participar dos sentimentos de Jesus, às vésperas de sua morte.

+ Leia as “indicações” abaixo como ajuda para “entrar em contemplação”:

Estamos na terça-feira da Semana Santa, às vésperas da execução de Jesus. Como ontem, somos convidados a participar de outra ceia de despedida. A ceia em Betânia foi rica em símbolos de amor, de amizade, de festa..., um esbanjamento de humanidade. A ceia de hoje (em Jerusalém) é marcada por uma comoção profunda, onde Jesus se vê traído, vendido, enganado e abandonado por aqueles que juravam fidelidade e amizade profunda. Esta noite, Jesus começou a sentir que estava sozinho. É o sentimento mais duro e doído que alguém pode passar.

Jesus está celebrando a última ceia com os seus discípulos; tinha acabado de lavar os pés deles e de ter falado do dever que temos de lavar os pés uns dos outros. Judas já tinha tomado a trágica decisão, e depois de receber o último pedaço de pão das mãos de Jesus, saiu para cumprir sua traição.

Enquanto Jesus está fazendo aquele gesto de serviço e de total entrega de si mesmo, ao lado dele um discípulo está tramando a maneira de como traí-lo naquela mesma noite. Jesus expressa a sua comoção e diz: “Em verdade lhes digo: um de vós vai me trair!” Não diz: “Judas vai me trair”, mas “um de vós”. É alguém do círculo da amizade dele que vai ser o traidor.

O anúncio da traição foi desconcertante para o grupo dos discípulos. Independentemente de qualquer cultura, a traição é sempre um ato abominável. De modo especial, entre pessoas cujas vidas estão vinculadas por laços profundos, e nas quais se deposita toda confiança. Isto explica a surpresa dos discípulos quando Jesus anunciou que um deles haveria de traí-lo. E essa surpresa foi maior, quando o traidor foi identificado com Judas, filho de Simão Iscariotes.

 O evangelista João dirá várias vezes que se tratava de um ladrão. Logo, alguém de caráter duvidoso, de quem se pode esperar tudo. A traição seria apenas mais uma manifestação da personalidade doentia deste discípulo. Os evangelhos, em geral, referem-se a Judas como alguém que vendeu sua própria consciência ao aceitar entregar o Mestre por um punhado de moedas.

Uma coisa é certa: Judas estava longe de sintonizar-se com Jesus. Algo parecido acontecia com Pedro, que haveria de negá-lo. Só que este recuou e abriu-se à misericórdia do Senhor.

Mas, o que vem a ser a traição? Como ela se manifesta na nossa vida? Por que traímos a confiança do outro?

A palavra “trair” vem do latim “tradere”, que significa entregar, enganar, denunciar ou delatar.

Mas ela pode ser pensada também no sentido de “quebrar” uma ideia, um ideal, um objetivo, trazendo mudanças de planos, estratégias ou ideais.

O ato de trair implica romper um pacto que o sujeito fez com o outro e consigo mesmo.  Trair é uma ação que implica consequências, e, quando se fala de relacionamento humano, envolve sofrimento e sensação de abandono, gerando um estado de desconfiança generalizada naquele que foi traído.

Judas está na ceia pascal de Jesus com os discípulos. Ceia que o Mestre preparou com cuidado, sem que escapasse nenhum detalhe. É uma ceia para amigos onde Ele vai revelar sua entrega, totalmente; esse é o sentido da Eucaristia: “memória” de uma entrega.

Mas Judas só participa do ritual, está ausente; permanece aí só por uns instantes, pois tem coisas a fazer, e desaparece sem ter presenciado o que ali aconteceu. Outros assuntos exigem sua atenção.

A ceia pascal não lhe serviu para nada: nem se surpreendeu, com seus maravilhosos detalhes, nem provocou mudança nele, porque, na realidade, não estava atento, nem sentia necessidade de mudar.

Há pessoas que sempre estão “ausentes” do grupo, da comunidade, quando se celebra algo importante; costumam ser pessoas muito “ocupadas”, mas que não comungam com a comunidade. De fato, só pensam em si mesmos e não sabem desfrutar com os outros de um momento festivo.

Sentimos pena de Judas, porque é um homem decepcionado com o chamado de Jesus e sua própria vocação. Não se sente como os outros, e nem sequer é tão espontâneo como Pedro ou os Zebedeus, que queriam ser importantes; ele não quer só ser importante, quer estar em tudo por cima dos outros. Está “amargo” porque Jesus não correspondia às suas expectativas como Messias e está perdendo o tempo com os discípulos em vez de prepará-los para a revolução e formar um grupo político, não religioso. Judas perdeu a admiração por Jesus.

Judas não compreende o gratuito, ou seja, o que recebeu de Jesus, as possibilidades de ser apóstolo e sair de si mesmo, entregando-se, doando-se... e tudo quer justificar a partir de seu próprio ponto de vista.

Judas não sabe participar e desfrutar de uma agradável refeição em companhia dos outros, nem se preocupa em agradecer a Jesus pela admirável ceia. Judas caminha para a decepção, a solidão e a morte. Abandona o grupo, sai à noite para alimentar seu “ego inflado”, sofre a decepção frente seus “falsos” amigos, vê que sua vida já não tem saída nem sentido.

No fundo é fraco, tira a própria vida, não faz dela uma entrega, como Jesus.

Mas, a Eucaristia é o ato de comensalidade que vai além das traições e dos abandonos, das negações, das covardias e dos comportamentos hipócritas. Não se trata de excluir da Eucaristia os covardes e os traidores. Jesus não excluiu ninguém. Judas comeu do mesmo prato em que comia o próprio Jesus.

Jesus não impôs excomunhões. Respeitou a todos até o extremo; o respeito e o trato que Jesus manteve com todos foi, dessa forma, delicado, tolerante e respeitoso até o fim.

E isso, por uma razão muito simples: a eucaristia não é possível onde há exclusões, desqualificações, ameaças, reprovações, julgamentos...

Pontos para Oração:

+ Leia atentamente o Evangelho da liturgia de hoje: Jo 13,21-33.36-38

+ Comece a contemplação ativando todos os seus sentidos, para poder participar intensamente da Última Ceia.

+ Faça-se e sinta-se presente na sala da refeição pascal, como um “humilde servidor”: observe o ambiente preparado, a disposição da mesa, o jarro e a bacia para o lava-pés, os pães ázimos, ervas amargas, vinho...

+ À meia-distância, observe a seriedade do momento, escute as palavras de Jesus ao tomar o pão e o vinho... Sinta-se desconcertado quando Jesus anuncia que um do grupo vai ser o traidor.

Veja as reações dos discípulos, a tristeza de Jesus...

+ Diante de “Jesus traído”, recorde experiências pessoais de traição: quando foi traído? Quando traiu? Como se sentiu?

+ Passe um bom tempo nesta sala, onde está acontecendo um evento histórico e essencial para os seguidores de Jesus: a instituição da Eucaristia. Participe também você da refeição.

+ No final da oração dê graças por poder participar deste momento.

- Faça exame da sua oração e registre no “caderno de vida” os movimentos (moções) do coração.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Betânia: casa de encontro, espaço educativo

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar e meditar os acontecimentos da Semana Santa 2022: Segunda-feira Santa.

“Jesus foi a Betânia...; lá, ofereceram-lhe um jantar” (Jo 12,1-2)

+ Prepare-se para a oração, criando um clima de silêncio e escuta amorosa.

+ Permaneça, por uns instantes, saboreando o silêncio do seu coração, pois onde há silêncio, aí está Deus presente.

+ Peça a Deus a graça de poder transformar a sua casa/comunidade em nova Betânia: casa da acolhida, da amizade, da partilha solidária, da convivência sadia...

+ Antes de “entrar em contemplação”, leia os “pontos” abaixo:

Para inspirar sua missão como seguidor(a) de Jesus, sinta-se conduzida pelo Espírito a viver Betânia, a ser Betânia, a assumir Betânia. Sinta-se convidado(a) a entrar na casa em Betânia: casa de encontro, comunidade de amor e coração de humanidade. Deixe-se inspirar por este ambiente humanizador, para prolongá-lo em seu cotidiano familiar, social, comunitário...

O relato evangélico em Betânia confere um intenso clima pascal à oração: a ceia é prelúdio da morte de Jesus, visibilizado pela unção que Maria fez em honra ao Mestre. Mas também é anúncio da Ressurreição, mediante a presença do Lázaro ressuscitado, testemunho eloquente da vitória da vida sobre a morte.

E foi neste ambiente de relações de amizade que Jesus encontrou a estabilidade e o ânimo para viver sua entrega radical.

Betânia é um lugar simbólico e instigante para a vida cristã; ela é o ícone de uma comunidade de seguidores(as); nela busca-se inspiração e motivação para viver a seguimento de Jesus na missão.

Buscamos Betânias, somos gratos quando as encontramos, sentimos saudades quando elas nos faltam... É um espaço de nutrientes e de alimento em sentido amplo: afeto, calor, cuidados, atenção, presença, ternura e contato.

Betânia significa “casa dos pobres” (Beth-anawim): nela, em primeiro lugar, habitam as pobrezas pessoais e comunitárias, a pequenez e a fragilidade; mas, também, onde as pobrezas de nosso mundo, da humanidade, têm lugar e tocam nosso estilo de viver, de nos relacionar, de nos mobilizar em nosso seguimento de Jesus.

Betânia é lugar da acolhida, da hospitalidade, da escuta, da amizade e do serviço, onde todos são irmãos(ãs) sentados(as) à mesma mesa, junto ao Mestre, em quem se centra a hospitalidade e a atenção.

Betânia é espaço educativo, onde todos expressam o melhor e mais original que há no interior de cada um; espaço de aprendizagem mútua, onde todos se enriquecem com os dons compartilhados. Em Betânia não aprendemos doutrinas, mas gestos humanizadores, gestos descentrados e carregados de vida.

Betânia é o templo onde Jesus percebe a presença e o agir de Deus nos fatos mais simples da vida cotidiana; Betânia é, para Jesus, um prolongamento de Nazaré, o lugar do cotidiano, do pequeno, do simples: o lugar da revelação.

Neste ambiente, já não há mais rivalidade entre as duas irmãs, Marta e Maria, mas colaboração, complementariedade e reciprocidade. Servem à mesa e ungem os pés. Juntas se fazem transparentes para algo maior que elas mesmas. Certamente Jesus se deixou impactar por aquilo que viu fazer estas duas mulheres. E Ele, como eterno aprendiz, vai prolongar os gestos delas na sua última Ceia.

Jesus se deixou fazer, para poder fazer isso com outros e quis tomar para si os gestos destas mulheres para fazer memória de sua vida. Agora é Jesus quem se mostra necessitado, e elas são as verdadeiras educadoras, pois expandem sua capacidade de cuidado e de ternura.

Preparar a mesa e ungir os pés: dois gestos que se complementam mutuamente; amor que se faz serviço, serviço que é feito com amor; amor e serviço vividos como unção.

Marta nos ensina que servir não é algo que acrescentamos à nossa vida, nem algo que seja mérito nosso; o serviço é a expansão natural daquilo que somos, a visibilização de nossa interioridade.

Maria pode ser considerada como um ícone da sensibilidade nova que o evangelho nos oferece; ela expande todo o seu afeto num gesto de enorme ternura para com Jesus: suas mãos acariciam os pés do Mestre e enxuga-os cuidadosamente com seus próprios cabelos.

Sua criatividade feminina encontrou no perfume um símbolo para expressar com grande delicadeza o que nesse momento seu coração transbordava. Maria investiu num gesto gratuito e desmedido, expressão de um amor exagerado. O perfume de Maria é o símbolo da vida e do amor da comunidade. É um amor que não tem preço. Aqui, no centro do Evangelho de João, a comunidade, reconstruída no amor, exala o bom perfume que enche toda a casa.

Na cena do jantar em Betânia, outro personagem aparece compartilhando a mesa com Jesus. Lázaro é um personagem pascal, um ressuscitado; presença silenciosa, não tem nenhuma ação a realizar. Lázaro é símbolo do humano pobre, enquanto necessitado e frágil, dependente... Ele pode representar os membros de nossas famílias e comunidades, marcados pela vulnerabilidade, enfermidade e idade avançada, carentes de ajuda e cuidado; mas ele pertence à casa, é companheiro de mesa com Jesus. Percebemos que não são suas ações, trabalhos, compromissos ou qualidades que fundamentam sua amizade com Jesus; podemos pensar que Jesus o amava “porque sim”, para além do que Lázaro pudesse fazer algo por Ele.

Frente aos enganos que acompanham com frequência nosso “fazer”, com suas tendências insanas, o caminho do seguimento de Jesus nos convida a fomentar o “ser” e o “estar” mais que o “fazer”.

Lázaro, “o passivo”, nos ajuda a reconhecer com alegria que, em nossa vida, tudo é dom gratuito e o melhor dela não depende de nosso esforço: é um presente do qual somos fundamentalmente “receptores”.

Mas, neste jantar festivo que os três amigos oferecem a Jesus, há um personagem que destoa: Judas. Ele não consegue entrar em sintonia com aquilo que está acontecendo durante a ceia; não compreende que em torno a Jesus tudo é gratidão e gratuidade; não compreende o gesto amoroso de uma mulher secando com seus cabelos os pés de seu amigo e derramando perfume sobre ele.

Judas aparece nos três relatos evangélicos destes dias (segunda, terça e quarta-feira). Não como protagonista, mas como contra-ponto, deslocado.

Há atitudes e gestos que estão mais além do valor monetário: a delicadeza com as pessoas, com os irmãos mais necessitados, a acolhida carinhosa, a companhia amigável... A vida de comunidade é feita de detalhes carinhosos, não de racionalizações e conveniências ao nosso gosto.

A entrega amorosa de cada dia revela seu verdadeiro sentido. Só o que brota do amor tem sentido na Igreja. A infinidade de cristãos que lavam os pés de Jesus nos pobres do mundo, enche “toda a casa” (a Igreja) de um extraordinário perfume.

Pontos para Oração:

- Como preparação para a contemplação, leia uma ou duas vezes o texto do Evangelho indicado para este dia (Jo 12,1-11).

- Com a imaginação, faça-se presente à casa em Betânia; procure olhar atentamente cada uma das pessoas (Jesus, Lázaro, Marta e Maria); sinta o clima de alegria e amizade; procure escutar o que elas dizem; observe as reações, gestos, acolhida... de cada uma das pessoas.

- Naquele espaço inspirador, deixe que eles lhe ensinem a descobrir a força sanadora da amizade, a amadurecer-se nas perdas, a tecer afetos em momentos de adversidade, a servir a partir do coração, a ungir com as mãos terapêuticas, expressão do amor oblativo.

- Sinta o perfume do frasco quebrado tomando conta da casa.

- Participe ativamente da cena, conversando, perguntando, ajudando a servir...

- Faça um colóquio com Jesus, falando do clima “pesado” que existe em Jerusalém, pois estão à procura dele para matá-lo. Permaneça aí, deixando-se impactar pelo clima humano reinante nesta casa.

- Finalize sua oração, dando graças por esta convivência amistosa.

- Registre no caderno de vida os sentimentos predominantes durante a oração.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Jerusalém, uma Praça, uma Mesa, um Espaço Educativo

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj, como sugestão para rezar o relato da "Entrada de Jesus em Jerusalém" - Domingo de Ramos.

“... alguns dos fariseus disseram a Jesus: ‘Mestre, repreende teus discípulos!’

Jesus respondeu: ‘Eu vos declaro: se eles se calarem, as pedras gritarão” (Lc 19,39-40)

- Entre em seu “santuário interior”, espaço sagrado, tenda de encontro consigo mesmo(a) e com Deus; prepare a “terra do coração” para receber a Palavra e que ela possa fecundá-lo(a).

- Comece sua oração, mobilizando todo o seu ser (corpo-mente-afetividade) para o encontro com Jesus que vive a fidelidade ao Reino até sua entrega radical.

- Faça uso dos preâmbulos: oração preparatória, a composição vendo o lugar, petição da graça...

- Antes de fazer uma contemplação, aqueça o seu coração com as “considerações” abaixo:

Jesus participava do sonho de todo o povo de Israel que via em Jerusalém a cidade da promessa de paz e plenitude futura, lugar onde deviam vir em procissão todos os povos da terra. A tradição profética havia anunciado uma “subida” dos povos, que viriam a Jerusalém para iniciar um caminho de comunhão e justiça e adorar a Deus no Templo, que estaria aberto para todos. Toda a cidade se converteria num grande Templo, lugar onde se cumpririam as esperanças dos povos.

Com sua entrada em Jerusalém, Jesus quis recuperar a cidade como lugar do encontro e da comunhão, como espaço da paz e da solidariedade..., desalojando aqueles que se fechavam a qualquer tentativa de mudança. Por isso, seu gesto provocativo e escandaloso de entrar na cidade montado num jumentinho, símbolo da simplicidade e do despojamento de qualquer pretensão de poder e força, causou violenta reação naqueles que se beneficiavam da estrutura política e religiosa da cidade.

Jesus entra em Jerusalém rodeado pelo povo simples. Este povo, escravo e oprimido, o aclama porque vê n’Ele uma luz de esperança, de vida, de libertação; escutou seus ensinamentos e viu seus feitos durante alguns anos; sentiu-se tocado pelas palavras de vida, de justiça, de amor, de misericórdia, de paz... Também

viu seus gestos de cura dos enfermos, de defesa dos fracos, de oferta de alimento aos famintos, de reabilitação dos desprezados, de acolhimento dos marginalizados, de denúncia dos opressores...

Jesus quis continuar anunciando e realizando na cidade de Jerusalém aquilo que fizera na região excluída da Galileia; quis também humanizar esta cidade para que ela fosse sol de justiça e paz para todos os povos.

E nós, se queremos continuar percorrendo o caminho que Jesus abriu, temos de ser também buscadores de alternativas em nossos espaços urbanos. Vivemos em uma sociedade na qual parece que já não é mais possível outra economia, outra educação, outra política, outra justiça...; a impressão que temos é a de que é preciso nos resignar com o que nos é imposto, que não há alternativas, que só são possíveis pequenos retoques no sistema sócio-econômico-político que nos rodeia.

O Deus, presente nas cidades, é um Deus que nos chama e nos interpela a partir do reverso da história, a partir dos últimos e dos excluídos, a partir dos lugares ocultos, dos “outros-espaços” mais inspiradores.

Esta é a cidade que Deus deseja: uma praça de encontro, uma mesa celebrativa para todos, um espaço educativo que inspira. A praça é de todos e todos podem ter acesso a ela, todos podem circular livremente, criar relações e convivência, fazendo a experiência de serem aceitos e reconhecidos como humanos. 

A mesa, no centro da praça, é lugar de hospitalidade, de festa e de memória, lugar de chegada e de inclusão da pluralidade e da diversidade.

O espaço educativo, aberto e inclusivo, ativa a criatividade, a construção do saber alternativo e a mobilização dos recursos e dos dons de cada um.

“Entrar na nossa Jerusalém” é comprometer-nos com uma cidade mais humana e humanizadora; a cidade que sonhamos e que queremos: a Cidade Nova. E o(a) seguidor(a) de Jesus tem em quem se inspirar.

A cidade é o lugar por excelência do discernimento, porque é o espaço de decisão onde se constrói o futuro comum. Lugar da política, da cultura, da educação, da saúde...  onde se forjam as mudanças, a capacidade de criar novos modos de existir, de romper com as estruturas caducas que desumanizam e buscar o diferente, o novo, o desconhecido...

        Nossas cidades devem ser o espaço das inovações, dos riscos, dos experimentos e da criatividade. Nelas se encontra o lugar dos sonhos, dos desejos, da liberdade e autonomia.

“Cristificar” o espaço urbano é ter como meta a formação integral das pessoas; o ser humano deve ser considerado como ser em movimento, protagonista da mudança,

Vivemos, em nosso contexto urbano, o deserto assolado pelos ventos da pobreza, da exclusão, da violência cotidiana, da corrupção, da falta de educação... Ou seja, o deserto da perda do horizonte de sentido, da fragmentação cultural, com sua carga de rupturas de vínculos de pertença, onde custa reconhecer-nos uns aos outros, onde as identidades se confundem e as responsabilidades se esvaziam...

O mundo urbano é, certamente, área de missão da Igreja e dos cristãos. Sua principal preocupação deve ser a defesa integral da vida e de seu sentido último, o mundo dos valores éticos que iluminam o homem e a mulher na sua ação no mundo. Para concretizar essa missão, os cristãos devem assumir uma atitude testemunhal, tendo como proposta uma ética comunitária, fundada no valor sagrado da pessoa humana e de suas relações, sobretudo com o mais fraco e pobre como interpelação do Deus vivo.

Inspirados no “Divino Mestre”, “todos somos educadores e exercemos esse ministério o tempo todo”; todos somos chamados a ser guias e responsáveis uns dos outros nos desertos das grandes cidades.

E guias para orientar, animar, motivar; testemunhas e garantidores de sentido.

Guiar no deserto da educação é desafiante e requer fortes doses de ousadia.

Mas, acima de tudo, assumir o deserto é ativar, pessoal e comunitariamente, a esperança.

É preciso recuperar o sentido de educar como um ato vital de entrega para ajudar a construir ou resgatar vidas. Com a educação se trata de abrir possibilidades para que todos, desenvolvendo suas próprias riquezas, sejam capazes de viver em plenitude e com dignidade, de assumir com responsabilidade sua condição cidadã, de desejar humanizar e transformar sua realidade.

O(a) educador(a) na cidade, para tornar eficaz sua ação, deve estar sempre na porta de entrada, com o olhar voltado para as necessidades do interior das cidades. Sua função é ser “fermento na massa”.

É aquele(a) que ultrapassa todas as fronteiras, com uma alternativa sempre nova: a Boa Notícia.

O Evangelho ilumina a vida das cidades e exige dos evangelizadores atitudes novas, propostas ousadas...

Pontos para Oração:

- Leia atentamente o Evangelho indicado para este dia (Lc 19,28-40);

- Prepare-se para fazer uma contemplação.

- Com a imaginação recrie a cena evangélica: a cidade de Jerusalém, o grande Templo, a diversidade de pessoas... Com a chegada de Jesus, montado em um burrinho e uma grande multidão, faça-se presente, procurando olhar as pessoas, escutar o que elas dizem, observar o que elas fazem...

- Em quê lugar da multidão você se encontra? Como reage diante do gesto de Jesus? Como você participa? Ou você fica olhando de longe, sem se comprometer...

Deixe-se conduzir pelo movimento dramático da cena...

- Faça um colóquio com Jesus, expressando sua admiração pela atitude ousada e corajosa dele. Fale com Ele sobre sua presença na cidade onde mora: desejo de ser presença inspiradora, profética, de compromisso com a construção de relações humanizadoras...

- Faça “memória” daquilo que é mais desumano na sua cidade: como você reage diante disso? passivo? suporta? denuncia? atua?... Relate a Jesus.

- Você participa de alguma instituição, organismo, Ong... que ajuda a humanizar mais a sua cidade?

- Faça uma “leitura orante” deste tempo de oração e registre os principais sentimentos.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Jesus, o Mestre da presença misericordiosa

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho do 5º  Domingo da Quaresma (2022).

“De madrugada, voltou ao templo, e todo o povo se reuniu ao redor dele. Sentando-se começou a ensiná-los” (Jo 8,2)

O tempo litúrgico da Quaresma é um tempo privilegiado para nos deixar ensinar pele Mestre da Galileia; somos alunos(as) da escola da vida, centrados no ensinamento e na mensagem de vida de Jesus.

A imagem de Jesus educador atravessa os evangelhos. De fato, o cristianismo é um projeto de educação messiânica, uma escola de vida universal, fundada por Jesus na Galileia.

Seu ensinamento entrou em conflito com os representantes do judaísmo oficial, centrado no templo e na prática da lei, e com o poder romano, que não admitia um ensinamento diferente. Jesus foi perseguido e morto por seu magistério, mas sua mensagem foi recolhida e expandida pelos seus discípulos.

Jesus não fundou uma escola de especialistas, mas quis educar a todos os homens e mulheres, nas vilas e campos, nas sinagogas, no Templo ou em suas próprias casas. Ele não tinha nenhum doutorado na Lei judaica, não tinha nenhum Master em questões do Templo; não era um perito a quem consultar sobre as leis. Diferentemente dos mestres da Lei e dos escribas, cujo ensinamento estava centrado em “decorar” e conservar a Lei, o ensinamento de Jesus partia da realidade humana de sofrimento, exclusão, preconceito...

Jesus era Ele mesmo; seu único título era sua verdade, sua honestidade, sua bondade, sua capacidade de sanar a dor daqueles que sofriam e libertá-los dos maus espíritos que os escravizavam. Era a identidade de si mesmo, plena: a identidade entre o que dizia e fazia, entre o que era e o que ensinava.

Podemos afirmar que Jesus era um “pedagogo da vida”, um “mestre da vida humana digna”. Não tinha estudado em outra universidade a não ser a universidade da vida, do amor, da liberdade...

Jesus, o Grande Mestre, contemplava os rostos das pessoas e via, no interior delas, ricas possibilidades humanas, ainda latentes. Sua presença humanizadora reconstruía a humanidade ferida e abria sentido para sua existência.

No seu magistério, Jesus foi semeando humanidade, um conhecimento criativo e inspirador, que se fazia vida naqueles que escutavam e acolhiam sua palavra. Esta era a sua missão: ensinar aos homens e mulheres, para que fossem eles mesmos em liberdade, para que descobrissem e ativassem a verdade por dentro, sua verdade fontal, para que todos se guiassem e se ajudassem e, assim, fossem e vivessem em plenitude.

Frente aos sábios e entendidos, representantes do poder estabelecido, Jesus descobriu e cultivou a sabedoria de Deus nos pequenos que acolhem sua Palavra e se deixam transformar por ela.

O evangelho deste domingo nos diz que Jesus se encontrava na esplanada do Templo ensinando o povo, quando levaram até ele uma mulher surpreendida em adultério. De um lado, rostos dos fariseus e Mestres da lei, endurecidos pela lei, com pedras no coração e nas mãos; de outro, o rosto de Jesus, que transparece amor, compreensão, bondade. Suas mãos acolhedoras e seu coração misericordioso estão mobilizados para dar segurança e abrir nova possibilidade de vida à pecadora.

Uma “nobre” justificação era apresentada pelos escribas e fariseus e, assim, condenar uma mulher ao apedrejamento: “a lei” mata. Salva-se a lei, mata-se a pessoa.

A lei manda apedrejar; mas a lei não tem coração, não tem misericórdia; ela é fria, fixa no passado, condena e não oferece chance de um novo futuro.

É o eterno conflito do ser humano entre fidelidade à lei ou fidelidade ao coração. A fidelidade à lei prefere a morte do(a) pecador(a), prefere as pedras que ferem e matam; a fidelidade ao coração e ao amor prefere a vida do(a) pecador(a), prefere o abraço acolhedor que devolve a confiança e esperança de vida.

Partindo da perspectiva da lei, a mulher não tinha possibilidade nenhuma de viver; não havia saída nenhuma. Só a misericórdia poderia destravar a vida, colocar a mulher em movimento, arrancá-la do círculo legalista de morte e abrir para ela um novo e amplo horizonte de sentido.

A retirada de cena dos mestres da lei e dos fariseus é patética. É o sistema legalista e opressor que termina cedendo o lugar a uma nova relação, instaurada por Jesus, centrada na misericórdia. A mulher permanece aí, no centro, porque o sistema que decretava sua morte terminou. Agora, inicia-se um novo diálogo, entre Jesus e a mulher. Não é um diálogo inquisitório, mas uma oferta de salvação: esta mulher, humilhada e condenada por todos, envergonhada de si mesma, se encontra com Jesus que lhe diz: “Eu também não te condeno”. Desde modo, Jesus nos ensina que não se extirpa o mal eliminando quem o cometeu, mas oferecendo ao pecador condições de vida nova e plena. E a mulher, talvez, se sentiu profundamente amada pela primeira vez.

Jesus é o “pedagogo misericordioso” pois ativa nas pessoas as melhores possibilidades, riquezas escondidas, capacidades, intuições... e faz emergir nelas sua verdade mais verdadeira de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis...

A força criativa da sua presença misericórdia põe em movimento os grandes dinamismos da vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe sempre uma possibilidade de vida nova nunca ativada.

O “princípio misericórdia” é o núcleo e a essência do Evangelho. E a misericórdia é o “amor em excesso”. Na misericórdia, Deus sempre nos surpreende, sempre excede nossas estreitas expectativas, abrindo caminho a partir de nossas fragilidades. Só o amor misericordioso de Deus nos reconstrói por dentro, destravando-nos e abrindo-nos em direção a horizontes maiores de coragem, responsabilidade e compromisso.

A misericórdia constitui a resposta de Deus à nossa indigência.

A misericórdia é expansiva, pois abre um novo futuro e desata ricas possibilidades latentes em cada um. Ela não se limita ao êrro e às fragilidades, mas impulsiona cada um a ir além de si mesmo.

Onde não há misericórdia, não há sequer esperança para o ser humano.

A misericórdia, portanto,  não só é a mais divina mas também a mais humana das virtudes. É aquela que melhor revela a essência do Deus Pai e Mãe de infinita bondade. É a que revela, igualmente, o lado mais luminoso da natureza humana. Por isso, ela é o atributo que mais humaniza as relações entre as pessoas.

Fundamentalmente, a misericórdia significa assumir como própria a miséria do outro, inicialmente como sentimento que comove, mas que, logo em seguida, leva à ação.

A misericórdia parte das “entranhas” e se dirige instintivamente ao próximo na forma de presença, acolhida, compaixão, ternura e consolo.

Misericórdia é exatamente: “ter coração” para o outro, dando preferência aos mais frágeis e limitados.

A misericórdia é a caridade que “toma mãos e pés”, ou seja, o amor que se expressa em uma ação decidida e generosa, capaz de transformar e libertar.

Ser presença misericordiosa é um “modo de proceder”, um “estilo de vida” que não está ligado a uma transgressão; é muito mais um estilo de bondade, compreensão, magnanimidade, estilo de quem não se fixa no que o outro merece, nem se escandaliza com sua miséria.

"Devemos ser presença misericordiosa como pecadores, não como justos”.

A misericórdia é fundamentalmente uma mensagem de estima e confiança no outro, crer na sua amabilidade e bondade. Por isso, a presença misericordiosa é força que provoca no outro a re-descoberta de sua própria identidade (uma pessoa amada e acolhida pelo Deus misericordioso). Quem é misericordioso está convencido de que o irmão é melhor que aquilo que aparenta ser.

Texto bíblico: Jo 8,1-11

Na oração:

Uma vez mais somos chamados(as) a aprender de Jesus, que sempre olha o que há de mais autêntico em cada pessoa, isto é, a imagem de seu Pai.

- Entrar no movimento da misericórdia nos humaniza e nos cristifica. Como seguidores(as) de Jesus, somos seu coração, seus olhos, suas mãos e seus pés juntos aos que mais sofrem rejeições, julgamentos, condenações...; somos “canais de misericórdia” por onde flui a Misericórdia e a Compaixao de Deus Pai-Mãe.

quinta-feira, 24 de março de 2022

Misericórdia Reconstrutora

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ, como sugestão para rezar o Evangelho do 4º  Domingo da Quaresma (2022).

“...este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado” (Lc 15,32) 

Lucas, o poeta da misericórdia, soube pintar com palavras a parábola de Jesus que tanto nos comove.

Por que a parábola do “Pai Misericordioso” nos comove e provoca tanta ressonância em nosso interior?

Evidentemente, a parábola fala dos nossos anseios mais profundos: de retornar de terras estranhas para nosso lar, de sair da insignificância para encontrar nossa essência, de deixar a morte para trás e voltar à vida. É o desejo que nos diz que, independentemente da situação em que nos encontremos e de quão perdidos estejamos, sempre é possível mudar a direção de nossa vida perdida, retornar e encontrar nosso verdadeiro lar.

Na realidade, a parábola deixa claro o que nos distancia e nos aproxima do nosso ser essencial.

Toda a parábola do “Pai Misericordioso” acontece entre dois polos: distanciamento e proximidade.

Quando Lucas escreve que o filho mais novo “partiu para uma região longínqua”, ele se refere a uma quebra drástica da maneira de viver, pensar e agir que ele recebeu como um legado sagrado através das gerações, e uma traição aos valores cultuados pela família e pela comunidade.

O “país distante”  é o mundo no qual não se respeita o que em casa é considerado sagrado.

As consequências da ruptura com o pai serão a miséria extrema e a degradação máxima. Quando atravessou o limiar da casa paterna e deu as costas ao pai, o filho estava partindo para a solidão, para a alienação, para a perdição.

No início, parece que só o filho mais novo estava longe do pai e da sua casa: lá, numa situação de extrema miséria e morte, ele sente saudades da casa do pai e da presença do amor e da vida que ali reinava.

Mas, a volta do filho “distante” ressalta, inesperadamente, a distância do filho mais velho, o perfeito”, que sempre esteve em casa e que servia ao pai de modo irrepreensível. Na realidade, porém, também ele vivia, sem se dar conta, como estranho e... distante.

O “filho mais velho” apresenta uma aparência de perfeição que camufla um medo de viver, uma falsa submissão, uma rejeição do outro, uma incapacidade para receber os dons do pai. Ele ignora que, para entrar na festa, é insuficiente não transgredir as leis, mas ter uma outra disposição do coração. Não é criativo, não assume nenhum risco. Percebe-se que ele não é feliz naquilo que vive: o peso da lei o torna uma pessoa amarga, cheia de ressentimentos, de julgamentos, de indiferença...

Por outro lado, o “retorno” do filho mais jovem deixa também transparecer a grandeza de um coração transbordante, quase inimaginável, de um pai absolutamente “surpreendente” e, “incompreensível”, no seu modo de lidar com os fracassos e limitações dos seus filhos.

Enquanto os filhos demonstram todo o seu “distanciamento”, o pai se aproxima, sempre mais, fazendo-os descobrir não só o fato de serem filhos, mas também de irmãos.

Para ambos os filhos, torna-se necessário percorrer a estrada do “retorno reconstrutor”, não só para a redescoberta do próprio pai, mas também, da própria dignidade e da verdade sobre si mesmos.

O filho mais novo, decidido a uma realização pessoal e autônoma, distancia-se daquela casa, onde tudo parecia ser muito tranquilo e monótono. No entanto, quando se encontra em estado de completo abandono, com a ameaça da morte diante dele, volta, em seu coração, a lembrança de casa e a saudade da segurança, que lá podia encontrar com abundância. Enquanto estava mergulhado nas trevas da morte, a luz da vida, finalmente encontra espaço nele.

Então a lembrança se torna decisão; a decisão... caminho, retorno... aproximação. No momento de maior distanciamento e solidão, esse filho se dá conta, em seu íntimo, da proximidade da ternura e do amor do pai. A centelha que ilumina o caminho, que conduz à liberdade e à vida, se manifesta precisamente nas trevas da derrota, da morte, da falência, da miséria...

A lembrança e a saudade da casa do pai se tornam caminho no coração do filho distante, exatamente no pior momento da sua existência: ele não tinha mais nada, nem dignidade e nem comida para sobreviver.

O fracasso, a impotência, a limitação... podem se tornar momento regenerador e inédito: o encontro do caminho da liberdade e da vida. À luz da misericórdia, o fracasso, a derrota, a ferida... se revelam como bênção e uma ocasião privilegiada para a quebra do “ego inflado e autossuficiente”.

Na solidão e na indigência, o filho, que estava “perdido”, contemplou o rosto amoroso de seu pai e encontrou a força para levantar-se e ir bater à porta de casa.

Aquele filho que antes era “pedra de tropeço” agora se torna “pedra angular”, sobre a qual se derrama a misericórdia gratuita do pai e sobre a qual se constrói uma história nova, que envolve todos os que vivem naquela casa.

Os dois filhos, apresentados a nós nessa parábola, têm trajetos fundamentalmente distintos; contudo, possuem em comum o fato de não conhecerem de verdade o Pai e o fato de não terem nenhuma consciência das consequências de suas rupturas. Um, está seguro de saber o que quer: partir, estar em outro lugar. O outro, tem a certeza de estar no caminho certo: o dever.

Ambos perderam o caminho do coração. Um, esqueceu-o; o outro, endureceu-o.

Nenhum deles tinha vivido uma relação sadia com o pai: nem aquele que partiu, nem aquele que permaneceu a seu lado. Ambos perderam a sua fonte e não recebiam mais a água do amor. Não eram mais iluminados a partir do coração; tornaram-se cegos. Caminhando dia e noite, vão tropeçar: um, na desordem; o outro, no excesso de ordem.

O fracasso do filho mais novo e sua volta imprevista abalarão a ambos; um será sacudido pela tristeza, pelo fracasso, pela humilhação; o outro, pela revolta, pela explosão de uma raiva reprimida há muito tempo. O retorno foi um acontecimento revelador, para os dois, de um possível ponto de partida para uma nova vida, de uma ocasião oferecida para a recuperação da dignidade de filhos.

“E foi ao encontro de seu pai”. O filho mais novo muda de direção. Vira-se, dá meia-volta, abandona o caminho de morte e decide não cuidar mais dos porcos. A memória da misericórdia do pai o torna capaz de colocar-se a caminho. Não se imobiliza mais na infelicidade, no vitimismo, na culpabilidade estéril: é o tempo da determinação, da opção em favor da vida e da comunhão.

O filho pródigo reencontra o movimento da vida. Sabe tirar proveito de um acontecimento catastrófico. Decide retomar o caminho de casa a partir do estado em que se encontra, mesmo não tendo uma clara compreensão de tudo, mesmo quando sua preocupação primordial é a sobrevivência. Está pronto para assumir esse retorno sem glória, pois agora é livre. É iluminado por um desejo encontrado no fundo de si mesmo: “levantar-me-ei e irei ter com meu pai”. Renuncia às antigas vestes, entra numa vida renovada, pois percebe a possibilidade de dar um passo em direção à vida.

É então que vai viver, nos braços do pai, o encontro que irá fazer dele um filho. Quebra-se o seu coração autossuficiente, e ele está pronto a deixar-se moldar. A misericórdia do pai o reconstruirá como filho.

Segundo o texto evangélico, o pai não diz uma única palavra ao filho no momento em que o acolhe.

Ele deixa transparecer seus sentimentos através dos gestos: corre ao seu encontro, abraça-o e cobre-o de beijos. Não há aqui o menor sinal de rejeição ou repreensão. Antes que o filho diga algo, o pai é acolhida total, compaixão visceral, perdão incondicional.

O relato evangélico acentua, em primeiro lugar, a compaixão e a ternura sentidas pelo pai.

Ele viu o filho no caminho de volta para casa “quando estava ainda longe”. Na verdade, não tinha deixado de esperá-lo, com o coração e com os olhos, desde o dia inesquecível em que o filho saíra de casa. Este tinha, sim, partido; mas nunca tinha se afastado do afeto, do amor sofrido do pai, que contemplava todos os dias, com sua vista cansada e com os olhos do coração, o caminho percorrido pelo filho, na esperança de vê-lo voltar.

Texto bíblicoLc 15,1-3.11-32

Na oração:

Diante do Pai Misericordioso, perguntar a si mesmo:

- o que em mim está “perdido”, “distante”, “isolado”...?

- o que em mim é “dever”, “ressentimento”, “legalista”...?

- o que em mim é acolhida, compaixão, proximidade...?