sábado, 27 de fevereiro de 2016

Quaresma: tempo de nutrir-se interiormente

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho indicado para o 3º Domingo do Tempo da Quaresma.

“Vou cavar em volta dela e colocar adubo; pode ser que venha a dar fruto” (Lucas 13,8-9)

Comprovamos hoje um “déficit de interioridade”. Vivemos num contexto social e cultural no qual o ritmo frenético que nos é imposto para conseguir mais bem-estar material não favorece o acesso à nossa própria interioridade. Seduzidos por estímulos ambientais, envolvidos por apelos vindos de fora, cativados pela mídia, pelas inovações rápidas… vamos nos esvaziando, nos diluindo, perdendo a interioridade e… nos desumanizando. Vítimas da chamada “síndrome da exteriorização existencial”, temos dificuldades de introspecção, silêncio, reflexão, contemplação…; já não somos capazes de velejar nas águas da interioridade, vivendo uma vida superficial e sem sentido. A perda da direção de nossa interioridade, que nos constitui como seres humanos, gera um vazio existencial e espiritual.
Tal como a figueira da parábola do evangelho deste domingo, a vida vai se atrofiando e se ressecando, porque não recebe seiva do seu interior. É pura folhagem, pura aparência e sem frutos.

A originalidade do Tempo Quaresmal encontra-se na aventura da re-descoberta do “mundo interior”, esse mundo desconhecido e surpreendente, onde acontece o mais importante e decisivo de cada um.
Conduzindo-nos a viver a experiência no deserto com Jesus, a liturgia quaresmal revela que toda pessoa possui dentro de si uma profundidade que é seu mistério íntimo e pessoal. Por isso, “viver em profundidade” significa “entrar” no âmago da própria vida, “descer” até às raízes da própria existência e chegar à fonte de água viva que ativa uma nova seiva, fazendo surgir novos brotos e novos frutos.
É no “eu mais profundo” que as forças vitais se acham disponíveis para ajudar a pessoa a crescer dia-a-dia; é aqui que ela experimenta a unidade de seu ser; aqui é o lugar da transcendência, onde realmente acontece uma profunda transformação.
Trata-se da dimensão mais verdadeira de si, a sede das decisões vitais, o lugar das riquezas pessoais, onde a pessoa vive o melhor de si mesma, onde se encontram os dinamismos do seu crescimento, onde brotam as aspirações e desejos fundamentais…
Assim, a descoberta do próprio ser profundo aproxima cada um do autor da vida: Deus.

A vida está oculta nas profundezas. A pessoa superficial é aquela que se confunde com a aparência de sua folhagem, mas não dá frutos. A pessoa de interioridade, por sua vez, é aquela que vive a partir da raiz, da fonte mesma da vida, e deixa vir à tona todas as suas riquezas, dons, capacidades… É no chão da vida que está escondido nosso verdadeiro tesouro; é do chão da vida que existem, em abundancia, os aspectos positivos de nossa personalidade, os talentos naturais e as boas tendências. Ali se aninham imensas riquezas que se exprimem de maneira diferente, dando a cada um uma fisionomia própria, um caráter único. Esta região profunda coincide com o mundo das certezas, dos valores, das ideias-força… que formam o eixo de nossa existência, o melhor de nós, o lugar de nossa recuperação e de nossa realização.
Quem “desce” até sua própria interioridade, até os abismos do inconsciente, até a escuridão de suas sombras, até a impotência de seus próprios sonhos, quem mergulha em sua condição humana e terrena e se reconcilia com ela, este sim, está “subindo” para Deus, faz a experiência do encontro com o Deus “rico em misericórdia”.
Deus, em sua misericórdia reconstrutora, libera em nós as melhores possibilidades, capacidades, intuições… e nos faz descobrir em nós nossa verdade mais verdadeira de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis… É Ele que “cava” no nosso coração o espaço amplo e profundo para nos comunicar a sua própria interioridade. A força criativa de sua misericórdia põe em movimento os grandes dinamismos de nossa vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova nunca ativada.
Por isso, é decisivo alimentar as raízes com os valores do Evangelho (justiça, compaixão, bondade..) para que uma seiva cristificada se espalhe pela árvore, gerando novos rebentos e novos frutos.

“Descer” às raízes é uma oportunidade privilegiada para descobrir-nos e conhecer nosso reino interior, para encontrar nossa riqueza interior e assim experimentar a transformação.
O caminho para uma nova qualidade de vida passa pelo encontro com as próprias raízes. Mas essa descida nos possibilita descobrir um mundo diferente que não conhecíamos, ou que havíamos perdido.
Este é o caminho da espiritualidade que brota do húmus; “descer” até o fundo, mergulhar nas dimensões mais profundas onde estão escondidos os recursos que darão significado e sentido às nossas vidas.

É preciso “des-velar” nosso “eu profundo”, o lugar onde se encontra os dinamismos da nossa personalidade, as boas tendências, os dons naturais, as riquezas do ser, as beatitudes originais, as grandes aspirações
Dentro de nós encontramos forças construtivas que podem mudar-nos eficazmente. É preciso escavar, alimentá-las e deixá-las aflorar espontaneamente. Esse é o nível da graça, da gratuidade, da abundancia, onde a pessoa mergulha no silêncio do deserto interior, à escuta de todo o seu ser.
E das raízes profundas brotam as respostas mais criativas e duradouras; a interioridade des-velada ativa uma relação sadia com todos; com a nova seiva a figueira se expande em direção aos outros, fazendo-a viver numa conexão livre com toda a realidade.

A imagem da figueira destaca também a paciência do agricultor. Lucas é o evangelista da misericórdia; e essa misericórdia se faz visível na esperança e no cuidado esmerado do agricultor para com a figueira; ele não desiste, quer dar tempo para cuidá-la de novo, tempo para a mudança. A pesar de levar “três anos” sem dar fruto, o lavrador continua confiando nela: “vou cavar em volta dela e colocar adubo”.
Jesus realça a paciência divina, porque compreende e respeita o momento e o ritmo de cada pessoa. Conhecedor do coração humano, Ele sabe dos condicionamentos de todo tipo que pesam sobre ele.
Na vivência cristã, a terra interior também pode ser cavada, adubada para que seja despertada a verdade pessoal. Os mecanismos, que ainda impedem a transformação interior, algum dia deixarão de funcionar, e o seguidor de Jesus quebrará suas resistências  e  se abrirá para dar início à a uma nova caminhada.
Portanto, revolver a terra é o primeiro requisito a ser cumprido para que a árvore dê fruto; o segundo é o adubo que alimenta e desperta um novo reflorescimento da nossa árvore.
Provavelmente, o místico Johann Tauler estava pensando nessa parábola quando disse: “Dia após dia, o agricultor leva o esterco ao campo, e, após um ano, o campo dá seus frutos. É uma imagem consoladora que, justamente, aquilo que consideramos o esterco da nossa vida – os fracassos, as coisas pouco vistosas e pouco louváveis – prepara o campo para a nossa árvore da vida e a faz florescer”.

Texto bíblico: Lucas 13,1-9

Na oração: Há uma força de gravidade que nos atrai progressivamente para o mais profundo de nós mesmos, onde Deus nos espera e nos acolhe, e onde encontraremos o nosso “eu original” e a verdadeira paz.
É preciso “descer” até às raízes de nossa existência para descobrir uma nova “seiva” para nossa vida; é “descendo” que poderemos revitalizar a vida que se tornara vazia e ressequida.
Trata-se de despertar, de escavar nosso chão interior, alargar nosso coração e garimpar em direção às energias que estão disponíveis no eu mais profundo.

- O quê alimenta as raízes de sua existência? Onde você busca o adubo que se transformará em seiva vital?

domingo, 21 de fevereiro de 2016

“Somos seres transfigurados... E não sabíamos”

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho indicado para o 2º Domingo do Tempo da Quaresma.

“Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante” (Lucas 9,29)

O relato da Transfiguração não é crônica de um fato histórico; é, muito mais, a experiência de fé dos discípulos que, com toda certeza, perceberam em Jesus uma “transparência”  ou “profundidade” que os impactou profundamente.
Podemos expressar numa frase o significado do relato: “Jesus é transparência do divino”. Por isso, podemos dizer também que Ele é um homem transfigurado. Jesus viveu constantemente transfigurado.
A transfiguração não foi um fato isolado na vida do Mestre de Nazaré, mas o ‘estado habitual de seu ser’. Mas foi durante sua oração no monte que Jesus deixou transparecer sua identidade mais profunda e escondida; algo que os seus discípulos não podiam captar no ritmo da vida cotidiana.

Quê fazia de Jesus um “homem transfigurado?” Era sua bondade, sua compaixão, sua autenticidade, sua integridade e coerência, sua liberdade, seu projeto de vida, sua relação com o Pai...
Ou seja, o que há de divino em Jesus está em sua humanidade. Só no humano transparece Deus.
Jesus nos dá a medida do humano: ser pessoa compassiva e comprometida com os demais. É precisamente na condição humana de Jesus onde podemos conhecer quem é Deus e como é Deus.
Mais ainda, é na entranhável humanidade de Jesus onde compreendemos a profunda e desconcertante humanidade de Deus.
Sua humanidade e sua divindade se expressavam cada vez que Ele se aproximava das pessoas, especialmente as mais excluídas e sofredoras, ajudando-as a reconstruir a própria humanidade ferida.
Sua humanidade levada à plenitude é Palavra definitiva. Por isso, é preciso “escutá-Lo”.
Escutar o “Filho amado” é transformar-se n’Ele e levar uma vida comprometida, semelhante à d’Ele, ou seja, empapar-se do “modo” como Ele humanamente viveu.

A Transfiguração está nos dizendo quem era realmente Jesus e quem somos realmente cada um de nós. Ela nos revela também nossa identidade e nos faz caminhar em direção à nossa própria humanidade.
Por isso, uma pessoa transfigurada é uma pessoa profundamente humana. Tudo o que é autenticamente humano é transparência de Deus. Em outras palavras, a vivência do humano nos diviniza.
Somos todos “pessoas transfiguradas”..., mas desconhecemos essa realidade surpreendente.
Na Transfiguração, Jesus nos faz descobrir nosso verdadeiro ser, que vemos refletido n’Ele.
Jesus continua se “transfigurando” na montanha interior de cada um de nós.
N’Ele, encontramos “indicações” que nos conduzirão a essa descoberta: a vivência do amor, da compaixão, da confiança, do silêncio, da coragem, da experiência de Deus...
A transfiguração não é condição de um “iluminado”, mas a realidade de toda pessoa que é capaz de “sair de seu próprio amor, querer e interesse” (S. Inácio). Transfigurar é descentrar-se e expandir-se na direção do outro. Transfigurar é ativar todas as possibilidades de vida para que ela se torne oblativa.

Tal experiência também nos confere um “olhar contemplativo” que nos faz descobrir que toda realidade já está “transfigurada”. Seguramente reacenderá em nós a capacidade de admiração, de assombro e de contemplação, para ver as pessoas e “todas as coisas criadas” para além do meramente superficial.
O olhar habitual de nosso contexto pós-moderno não é precisamente esse, mas outro, caracterizado pelo imediatismo, pragmatismo, interesse e voracidade. Em tal contexto há tanta superficialidade e tanto narcisismo que a vivência da profundidade, do silêncio, da admiração... se tornam estranhos para nós.
A Transfiguração possibilita cultivar um “olhar” que sabe ver em profundidade, descobrindo em cada ser humano, para além de suas aparências, um ser transfigurado, porque somos capazes de vê-lo em sua beleza e bondade originais; um olhar que sabe deixar-se impactar por tudo aquilo que nos cerca e é capaz de render-se diante do Mistério.

Nesse sentido, “subir” ao Tabor implica “descer” em direção à nossa própria humanidade. A Montanha nos “transfigura” , revelando nosso ser essencial. Todos estamos dispostos a “subir”, mas nos custa muito “descer”. Não haverá plenitude de humanidade enquanto os de cima não decidam descer, e os de baixo não renunciem subir passando por cima dos outros.
Não se trata de ter a antena dirigida ao céu para esperar que dali venha algumas palavras para indicar o que devemos fazer. Trata-se de descobrir a voz de Deus no grito desesperado de cada um dos seres humanos que encontramos em nosso caminhar.
“Humanizemo-nos!”  Esta é a voz d’Aquele que viveu permanentemente “transfigurado-humanizado”.

Aquele Monte (Tabor) é um espaço instigante, lugar alto de experiência radical de Jesus, para ver os problemas da humanidade, para senti-los, para assumi-los e mudar... Jesus nos faz subir à grande montanha para que vejamos as coisas de outra forma, de outra perspectiva...
É preciso, de vez em quando, tomar distância e nos afastar do cotidiano rotineiro e atrofiado, para ampliar nossa visão e contemplar o drama humano; é decisivo nos situar diante do calor de Deus (sarça ardente) para desvelar nossa verdadeira identidade. Somente assim a Montanha nos transfigurará para que nos empenhemos a serviço dos “desfigurados” do mundo.
A espiritualidade cristã nos possibilita fazer a síntese entre o novo e o antigo, entre a interioridade e exterioridade, enfim, síntese entre a Transfiguração do Tabor e o cotidiano da vida comprometida com os desafios do vale. Sínteses profundas que nos educam para a “liberdade dos filhos de Deus” (Rom. 8,21).
A transfiguração de Jesus é como uma parábola que nos recorda: a vocação cristã é transfigurar o tempo e o espaço. É preciso transfigurar nossas relações humanas: passar de relacionamentos interesseiros a relações afetuosas e amáveis.
É urgente transfigurar a política, transformando o poder e a gestão da coisa pública em serviço ao bem-comum. É preciso transfigurar a natureza na comunhão do ser humano com o universo.
A Transfiguração do ser humano acontece no coração de cada um que crê. É Deus que nos transfigura, “mudando nosso coração de pedra em coração de carne” (Ez. 36,26).

Texto bíblico: Lucas 9,28-36

Na oração:
Na nossa vida de seguidores de Jesus não faltam momentos de claridade e certeza, de alegria de luz. Ignoramos o que aconteceu no alto do Tabor, mas sabemos que na oração e no silêncio é possível vislumbrar algo de nossa identidade interior.
A oração nos transfigura e nos faz descer em direção à nossa própria humanidade e à humanidade dos outros.

Na vida de cada um de nós, como na vida de todo ser humano, certamente encontramos tempos especiais ou momentos privilegiados, cheios de sentido, embriagados de amor, de felicidade plena. Reviver estes momentos ou tempos nos fará bem: quais foram? Como aconteceram? Como os vivemos, que sentimos, porque acabaram? 
* Fazer um tempo de oração revisitando em sua memória essas vivências de “transfiguração”.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

“Não nos deixeis cair em tentação”

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho indicado para o 1º Domingo do Tempo da Quaresma.


“Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e, no deserto, Ele era guiado pelo Espírito” (Lucas 4,1)

Segundo a tradição, a primeira imagem da tentação foi uma maçã: uma fruta vermelha, carnosa, saborosa e brilhante. Seu atrativo aroma penetrou até os tutanos de nossos ancestrais e eles caíram na armadilha da superficialidade.
Atrai-nos a superfície das coisas, justamente aquela que brilha, ainda que de maneira fugaz e solucione nossa fome e nossa sede. Cremos que com apenas uma mordida podemos saciar nossa ânsia de sentir-nos diferentes, reconhecidos e valorizados. Tempos depois o superficial continua sendo superficial e o reconhecimento, o prestigio, o aplauso ou o acúmulo de bens revelam seu rosto inconsistente.
A tentação vai estar sempre ai, como maçã ou como pedras que se convertem em pães, como aplauso buscado a partir dos critérios do mundo, ou como joelhos que se dobram frente às promessas de um ídolo com pés de barro. Sempre vai estar presente, buscando saciar nossa fome e nossa sede, conhecendo onde pisamos, oferecendo-nos novidades no jardim florido e consolo nas gretas de nossos desertos.
Livra-nos Senhor desses “espelhismos” que prometem vida e escondem o vazio!

Ser tentado é próprio do humano, mas o que é divino pode ser encontrado em nosso interior.
Quem não se deixa conduzir pelo Espírito, não é capaz de acessar a própria interioridade, permanece na superfície de si mesmo e se deixam enredar pelos estímulos externos.
Muitos já não conseguem mais recolher-se e voltar para “dentro” de si, para recuperar o centro gravitacional de sua vida, o ponto de equilíbrio interior.
Este é o desafio que nos inquieta: é preciso “conhecer-nos a fundo”, ou seja, ter a experiência de si mesmo, do próprio íntimo, do centro do ser, da região profunda da qual sem cessar tiramos, como de um poço, a água viva, a energia, as certezas para viver.
Vivemos um contexto social e cultural no qual se constata um modo de vida que não favorece o contato profundo consigo mesmo. Seduzido por estímulos ambientais, envolvido por apelos vindos de fora, cativado pela mídia, pelas inovações rápidas, magnetizado por ofertas alucinantes... o ser humano se esvazia, se dilui, perde a interioridade e... se desumaniza. Tudo se torna líquido:  o amor, as relações, os valores, a ética, as grandes causas... (cf. Bauman).

O Evangelho de hoje insiste que Jesus se deixa conduzir pela força do Espírito; por isso, vive uma integração a partir de seu coração e não se deixa levar pelas aparências enganosas.
Tradicionalmente, as tentações de Jesus foram interpretadas num sentido moralizante; costumava-se dizer que Jesus nos queria dar o exemplo de como superar nossas tentações cotidianas.
Tal interpretação não capta em toda sua profundidade o sentido das “tentações de Jesus”.
Elas não são tanto uma prova a superar quanto um projeto que deve ser discernido.
O que parece claro é que Jesus, depois do batismo, buscou o deserto para um tempo de discernimento, em oração, em solidão, diante do Pai que o proclamou seu Filho, sob o impulso do Espírito; de algum modo teve de refletir e discernir sobre que tipo de messianismo assumiria para sua missão em sua vida pública. É um tempo de confronto interior, de crise.
A “crise” põe à prova sua atitude frente ao Pai: como viver sua missão e a partir de quê lugar? Buscando seu próprio interesse ou escutando fielmente sua Palavra? Como deverá atuar? Dominando os outros ou pondo-se a seu serviço? Buscando sua própria glória ou a vontade de Deus? Centrando sua vida na busca de poder e riqueza ou assumindo uma vida pobre, como expressão de solidariedade aos mais excluídos?

Jesus não quer um messianismo que reduza o ser humano a um consumidor de pão; este precisa também do alimento da Palavra de Deus que ative sua dignidade de interlocutor de Deus, o coloque pé e o conduza a assumir ele mesmo o trabalho de fazer o pão e reparti-lo entre todos.
Em vez de seduzir o povo com prodígios e espetáculos, Jesus prefere uma proximidade do tu a tu, nas mesmas praças e caminhos, na convivência criativa e nos encontros humanizadores.
Jesus não buscará o poder da dominação política e da imposição pela força. Preferirá o caminho do serviço. O caminho de Jesus é absolutamente novo. Nem impressionar, nem seduzir, nem dominar a liberdade do ser humano. Só servir.
Aqui  também é preciso nos perguntar:
* Qual é a nossa provação? Qual é a nossa tentação? O que é que nos seduz?
* O que é que nos tenta? O que é que nos desvia de nosso eixo, do nosso caminho?
* O que é que nos desvia do ser essencial?
É preciso questionar certos acontecimentos, certas situações, certas vivências, que podem nos induzir a um caminho que nos afasta de nós mesmos, que nos afasta do melhor de nós.
Desde sempre, a humanidade inteira e cada um de nós, estamos expostos à tentação. Faz parte de nossa condição humana. Trata-se de um conflito que dilacera a existência por dentro.
Por um lado, o ser humano sente o apelo e o impulso para o alto, para a plena liberdade, para o compromisso e a fraternidade. Mas por outro, ele também sente a caducidade, a fragilidade, a fraqueza, toda sorte de limitações... Que o deixam prostrado no chão.
Concretamente, em cada um de nós não existe apenas o chamado para a fraternidade, para o entrega, para a comunhão.... mas também a sedução  e a tendência para o egocentrismo, o prestígio e os instintos de poder e posse. Sentimo-nos simultaneamente santos e pecadores, oprimidos e libertados.

Nossa liberdade sente-se movida e atraída em duas direções. A cena das “tentações de Jesus” des-vela (distingue, põe às claras...) os dois dinamismos, duas tendências, dois impulsos... que se fazem presentes em nosso interior (um de alargamento ou expansão de si mesmo em direção aos outros e de Deus; e outro de fechamento, auto-centramento, resistência e medo).
A questão de fundo é saber qual dos dois dinamismos alimentamos; é aqui que entra a liberdade (ordenada) para deixar-nos conduzir pelo Espírito. O centro é o Espírito.
Trata-se de sermos dóceis para deixar-nos conduzir pelos impulsos do Espírito, por onde muitas vezes não entendemos e não sabemos. É Ele que ativa o que há de melhor em nós, expandindo nossa vida em direção aos valores do Reino: desapego, serviço, esvaziamento do ego...
Às tentações do poder, do ter e do prestígio, o seguidor de Jesus responde com a partilha, o serviço, a comunhão, a solidariedade... O tempo quaresmal vem ativar esse dinamismo expansivo.

Texto bíblico:  Lucas 4,1-13  

Na oração:
A oração sobre as “tentações de Jesus” nos ajuda a tomar consciência das alianças e cumplicidades nas quais podemos cair em nossas relações com o mundo e com aqueles ele-mentos que de modo mais decisivo põe em perigo nossa liberdade: as riquezas, o poder, o prestígio. É uma espécie de "embriaguez existencial" na qual a alteridade desaparece, a abertura a Deus se atrofia e a gratidão frente aos bens se esvazia.

- Rezar minhas “afeições desordenadas”. Onde está o centro de minha vida? Na aparência ou no interior?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Campanha da Fraternidade 2016

Tema: “Casa comum, nossa responsabilidade”
Lema: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca”. (Amós 5,24)
O objetivo Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) 2016 é chamar atenção para a questão do direito ao saneamento básico para todas as pessoas, buscando fortalecer o empenho, à luz da fé, por políticas públicas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro da Casa Comum, ou seja, do planeta Terra.

A Campanha da Fraternidade Ecumênica é realizada pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) e assumida pelas igrejas-membro: Católica Apostólica Romana, Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Episcopal Anglicana do Brasil, Presbiteriana Unida do Brasil e Sírian Ortodoxa de Antioquia. Além dessas igrejas, estão integradas à Campanha a Aliança de Batistas do Brasil, Visão Mundial e Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP).

Este ano, a CFE terá dimensão internacional, pois será realizada em parceria com a Misereor – entidade da Igreja Católica na Alemanha que trabalha na cooperação para o desenvolvimento na Ásia, África e América Latina.

Contextualização
O Brasil é um dos países com o índice mais alto de pessoas que não possuem banheiro com quase 7,2 milhões de habitantes, de acordo com o Progress on Sanitation and Drinking-Water, 2014. Cerca de 35 milhões de pessoas não contam com água tratada em casa e quase 100 milhões estão excluídas do serviço de coleta de esgotos, como aponta publicação, de 2015, do Instituto Trata Brasil.

Ainda de acordo com o Trata Brasil, a cada 100 litros de água coletados e tratados, em média, apenas 67 litros são consumidos. Contudo, 37% da água no Brasil é perdida, seja com vazamentos, roubos e ligações clandestinas, falta de medição ou medições incorretas no consumo de água, resultando no prejuízo de R$ 8 bilhões. A soma do volume de água perdida por ano nos sistemas de distribuição das cidades daria para encher seis sistemas Cantareira. Eis o porquê de se falar desse assunto, uma vez que afeta a saúde pública, a dignidade humana, a sustentabilidade do planeta e, também, a economia.

Fonte: Portal Kairos

Quaresma da Misericórdia

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI), como sugestão para rezar o Evangelho indicado para esta Quarta-feira de Cinzas: o sentido das práticas quaresmais (oração, jejum e esmola).
Desejamos uma santa "travessia quaresmal" a todos(as).


“Cuidado! Não pratiqueis vossa justiça na frente dos outros, só para serdes notados” (Mateus 6,1)

Em meio a um mundo desumanizado e sacudido pela violência, lutas fraticidas, intolerância e egoísmo exacerbado, o papa Francisco nos convida a viver um Jubileu extraordinário, colocando a Misericórdia no centro de nossas vidas e respondendo ao chamado que Cristo nos faz: “sede misericordiosos como o Pai”.
De maneira especial, o tempo Quaresmal pode ser um momento privilegiado para que deixemos transparecer no mundo a missão de testemunhas da Misericórdia de Deus Pai-Mãe.

A Quaresma pode ser o ponto de partida de uma transformação de vida; os quarenta dias de duração são um tempo propício para viver a “operação saída”, ou seja, expandir a vida em novas direções, rompendo com aquilo que é rotineiro, estreito e atrofiante. Se, nesse tempo, algo calar fundo, o ano se tornará pequeno para aquele que vive uma existência com mais intensidade, coerência e solidariedade.
Este tempo litúrgico especial certamente mobilizará e ativará todas as dimensões de nosso ser: nossos sentidos se expandirão, olhando, escutando e sentindo a realidade que nos envolve; nossa mente tornar-se-á mais clara, sabendo discernir e não se deixando manipular; nosso coração se fará mais atento e misericordioso diante do sofrimento humano; nossa alegria será o fermento do pão cotidiano, compartilhado com os outros. E se dedicarmos mais tempo ao silêncio e à oração, recobraremos energia e sentido, necessários para sair da “normose doentia” de todos os dias.

A Igreja nos proporciona este momento litúrgico como parada estratégica em meio à voracidade do caminho e perguntar-nos se vivemos como realmente desejamos viver; se haverá algum reajuste necessário para reorientar nossos passos de maneira mais acertada, para estabelecer uma harmonia entre cabeça e coração, desejos e hábitos. A Vida de Jesus, testemunhada nos evangelhos, nos convida a viver de um modo mais integrado e unificado.
Somos o que somos graças a essa matriz de relações que nos conecta conosco mesmos, com os outros, com o Outro e com as criaturas. Não nos estranhará, então, que a liturgia nos convide a perguntar a nós mesmos  como nos relacionamos com nossos desejos/impulsos/decisões (jejum), como consideramos os nossos semelhantes (esmola) e como cuidamos de nossa amizade com Deus (oração).
Nesta perspectiva, as três disciplinas espirituais da Quaresma (oração, jejum e esmola), encontram sua relação com as três dimensões do amor: a Deus, ao próximo e a si mesmo. Não é preciso estar publicando no Facebook ou no WhatsApp cada pequeno passo adiante. De fato, nos diz Jesus: “Vosso pai, que vê no segredo, vos recompensará”.
Neste ano em que celebramos o Jubileu extraordinário da Misericórdia, as práticas quaresmais que a liturgia busca ativar (oração, jejum e esmola) vão mais além de nós mesmos: elas devem ter impacto na relação com os outros, em especial com aqueles que mais sofrem e se encontram mais excluídos.

Com a Quarta-feira de Cinzas damos início à Quaresma e entramos num movimento de discernimento: de quê jejuar e com quê saciar-nos nesse tempo litúrgico? Mais que jejum de alimento e bebida, podemos jejuar de soberba, de vaidade, de consumismo, de fazer-nos centro de tudo, de ativismo, de afetos desordenados (smarts, internet...), jejuar de desculpas frágeis e de distâncias, de indiferença e de frieza nos relacionamentos...
Tudo aquilo de que jejuamos, deixa um vazio em nosso interior e que só o amor poderá preenchê-lo.
O jejum ativa o dinamismo do amor que nos faz mais compassivos, solidários, misericordiosos...
Em definitiva, o jejum e a abstinência nos conduzem ao autocontrole e à autoestima e são sinônimos de desintoxicar-se, desconectar, desapegar-se, desprender-se... Ou seja, fazer tudo o que nos leve a ser pessoas mais equilibradas, autônomas e livres... que tem mais tempo para amar a Deus e ao próximo.

A esmola (“elemosyne”) sempre esteve ligada à compaixão e piedade. Quem partilha do que tem é compassivo e misericordioso (“eleémon”). Trata-se, fundamentalmente, da inclinação para os desfavorecidos. A misericórdia (qualidade da esmola) é a atitude própria de quem tem um coração sensível à miséria do outro. Mantém indissoluvelmente unidos o sentimento de compaixão e ternura com a solidariedade efetiva. Está atenta à necessidade de cada pessoa, que em uns casos será econômica, em outras, psicológica, em muitos, afetiva...
A esmola – misericórdia em ação – é uma atitude central para o cristão. Uma das suas qualidades mais atraentes  é precisamente sua capacidade para criar laços de comunhão. Se cada um põe seus dons e bens a serviço dos outros e se deixa socorrer em suas necessidades, criará verdadeira comunidade.

A oração nos ajuda a amar a Deus e a colocá-Lo como centro de nossa vida. A vivência da oração e de todas as práticas associadas a ela, como o silencio, a solidão, a reflexão, a “consciência plena”, a meditação bíblica, a participação na liturgia da comunidade, a leitura de um livro de espiritualidade..., nos preparam e nos ajudam a entrar em sintonia com a ação de Deus no mais profundo de nosso ser.
Quando oramos, conhecemos e amamos mais a Deus, sentimos sua misericordiosa presença em nosso dia-a-dia, alimentamos nossa vida interior, somos menos artificiais, nos fixamos mais naquilo que nos é dado continuamente como graça, vivemos em contínua gratidão por estarmos rodeados de tanta ternura e beleza, mesmo em meio às situações conflitivas, despertamos empatia para com aqueles que mais sofrem, recobramos novo ânimo para ajudá-los, somos conscientes de nossa fragilidade e pequenez, ao mesmo tempo em que cresce em nós a percepção de nossa maravilhosa dignidade de filhos ou filhas de Deus.

À luz da misericórdia, a esmola, a oração e o jejum não são cargas pesadas sobre nossas costas neste tempo quaresmal e que podemos esquecê-las dentro de algumas semanas. Não são um evento, mas um modo de proceder que tem ressonância na nossa vida. Por isso mesmo, tais práticas quaresmais são uma autêntica revolução e uma alternativa para viver com sentido.
Aqueles que se empenham pacientemente em dar à sua vida um perfil mais evangélico acabam se deparando com o valor do pequeno e do que não é ostentoso, daquilo que nasce do mais profundo e que tem a autenticidade das coisas verdadeiras.
Esse é o movimento de vida despertado pelo tempo quaresmal.

Texto bíblico:  Mateus 6,1-6.16-18

Na oração:  
A oração é o lugar onde se pode indicar “o escondido”, onde aprendemos a decifrar a vida, onde buscamos ter acesso ao nosso tesouro mais apreciado, aquele que não pode ser arrebatado à força e não pode ser comprado por nenhum valor, embora podemos facilmente perdê-lo.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Alargar espaços, sair às margens

Apresentamos a seguir o texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj (Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana -CEI), como sugestão para rezar o Evangelho do 5º Domingo do Tempo Comum - Ano C.


 “Subiu num dos barcos e pediu que se afastasse um pouco da terra” (Lucas 5,3)


Jesus entrou em conflito com o mundo religioso da sinagoga. A Lei, que se expressava em inumeráveis preceitos minuciosos, fragmentava a existência, atrofiava a criatividade e não representava vida nova para o povo. A novidade de Jesus não cabia nos moldes da sinagoga, e começou a buscar outros espaços onde criar a vida expansiva do Reino, elaborar novos sinais e cunhar novas palavras.

O “outro lado”, para Ele, passa a ser terra privilegiada, onde nasce o “novo” por obra do Espírito.

Ali aparece o broto germinal do “nunca visto”, que em sua pequenez de fermento profético torna-se uma denúncia ao imobilismo petrificado e um questionamento à ordem estabelecida. Isso vai gerar uma maneira nova de viver, um estilo de vida, um compromisso diferente, uma ação carregada de ousadia...

Uma multidão vinda de todas as partes o seguiu até à beira do lago de Genesaré, e Jesus pediu a seus discípulos que tivessem uma barca preparada, pois o povo o apertava, porque tinha curado a muitos. O povo acorre onde há vida nova que estremeça sua letargia.

Jesus se afasta do centro, da sinagoga e busca as margens do lago. E ali desencadeia um “movimento humanizador”: vida destravada e abundante, horizonte de sentido, relações de comunhão...


Encontrando-se em meio a um mundo em efervescência, Jesus lançou por terra as paredes e os muros dos templos e sinagogas e mergulhou no mar espaçoso da vida cotidiana. Ele alcançou sua plenitude humana precisamente porque foi capaz de “transgredir” o que estava estabelecido e abrir-se à universalidade de todas as terras, de todos os povos, sem distinção de raças, condição social... Seu itinerário não foi unicamente geográfico. Mais que um simples deslocar-se, trata-se de um “modo de viver” e de situar-se no mundo. Ele se fez presente nos lugares socialmente rejeitados, lugares de exclusão e da marginalidade, e ali revelou a presença d’Aquele que se faz presente e santifica todos os lugares: o Pai.

Jesus, na Galileia, encontrou os seus lugares: junto ao mar, nas estradas poeirentas, nas margens...

Ele se fez presente nos lugares onde se encontravam aqueles que não tinham “lugar”, os “deslocados” e que foram a razão de seu amor e do seu cuidado.

Na Galileia, Jesus tem suas preferências e escolhe o seu “lugar”, o lugar entre os mais pobres, vítimas daqueles que se fazem donos dos lugares ou os excluem dos “lugares sagrados”.

Jesus transitou livremente por diferentes espaços; o deserto foi para ele um espaço necessário de solidão e de oração, onde, na intimidade com o Pai, alimentava a originalidade de sua pessoa e de sua missão.

As margens do lago constituíam a trama da vida cotidiana, lugar de trabalho, de mercado, de encontros.

As margens das cidades situavam-no frente à vida descartada, excluída, enferma ou fracassada.

A montanha foi um lugar de perspectiva em momentos especiais de mudança, como a eleição dos Doze, a apresentação das Bem-aventuranças ou a Transfiguração no caminho para a Páscoa.


Jesus não se move preso aos espaços do Templo, mas vive aberto à surpresa e ao dinamismo do Reino, que irrompe como graça no centro da vida cotidiana. Em seus deslocamentos descobre, nas margens do lago e nas aldeias dos camponeses, que os homens e mulheres considerados os excluídos e os sem lugares são os verdadeiros criadores de uma nova realidade, os reais protagonistas, construtores de um mundo novo, sal nos paladares desanimados e luz nas noites escuras da humanidade e da história.

Com sua presença inspiradora e provocativa, Jesus alarga os espaços e os corações das pessoas: ao entrar no barco, este deixa de ser simples instrumento de pesca para ser lugar do anúncio; Ele amplia o rotineiro modo de pescar (“lançai as redes em águas mais profundas”); por fim, desafia aqueles rudes pescadores a deixarem aquele atrofiado mar e entrar no vasto oceano da vida (sereis pescadores do humano”). Do mar da Galileia ao mar da vida: este é o movimento que Jesus desperta nas pessoas.

Ele continua desafiando a que cada um mergulhe mais fundo no oceano do coração e ali ative os recursos ainda escondidos: novos sonhos, novas possibilidades, nova inspiração, novo sentido para a existência...

Para isso, é preciso vencer o medo que atrofia tudo o que é humano em nós e entrar no movimento expansivo de Jesus.


Onde estão os espaços de nossa missão e de nossa presença? Em quê margens da sociedade, da economia, da cultura...,  devemos nos situar para aí descobrir a novidade de Deus que nos desinstala e nos abre um futuro iluminador? Onde estão os espaços de solidão e de silêncio, de desintoxicação de informações, de encontro com o mais profundo de nós mesmos, por onde surge a palavra única que Deus nos dirige, integrando-nos como pessoas e expandindo-nos a uma presença mais criativa na realidade?


O profeta Isaías nos recomenda ampliar este “espaço interior”: “Alarga o espaço de tua tenda, estende sem medo tuas lonas, alonga tuas cordas, finca bem tuas estacas” (Is. 54,2).

Ampliar os espaços do coração implica agilidade, flexibilidade, criatividade e abertura às novas ideias e às novas descobertas. Algumas fortalezas e seguranças pessoais caem quando os “espaços interiores”, abrasados e iluminados pela força do Espírito, começam a romper as paredes e se encarnam em “espaços exteriores”, marcados pela beleza e encantamento: espaço familiar, espaço celebrativo, espaço esportivo, espaço de convivência... um espaço nobre que só tem sentido quando carregado de presenças.

Não tem sentido ampliar os espaços externos se nossa mente permanece estreita, se nosso coração continua insensível, se nossas mãos estão atrofiadas, se nossa criatividade sente-se bloqueada...

Espaço amplo é convite a sonhar alto, a pensar grande... ousar ir além, lançar por terra nosso modo arcaico de proceder, romper com os espaços rotineiros e cansativos.

Deus nos chama cada dia, nos tira de nosso estreito mar, nos faz sair do que é nosso, da segurança, da comodidade... e nos faz entrar numa “terra nova”. A “travessia” ativa e revela o que há de melhor em cada um de nós. Igualmente, com nossa presença expansiva e inspiradora seremos também capazes de “pescar o humano” que está escondido no outro.

Somos desafiados a “viver uma vida no mundo e no coração da humanidade” (Pe. Kolvenbach).

Precisamos levantar-nos cotidianamente de nossos “lugares” estreitos e seguros: há sempre um “lugar ferido” que nos espera, um “ambiente atrofiado” a ser curado, um “espaço limitado” a ser ampliado...



Texto bíblico:  Lucas 5,1-11


Na oração: Para S. Inácio, os lugares nascem na imaginação; nos Exercícios Espirituais, ele nos convida, através do preâmbulo “composição vendo o lugar”, a imaginar lugares em movimento, lugares de encontro, de desafio, lugares provocativos e criativos..., enfim, lugares carregados de presença.
A “composição vendo o lugar” desperta em nós um novo “olhar” para perceber, com mais nitidez e intensidade, os lugares por onde transitamos, uma nova disposição para dar sentido e valor aos lugares cotidianos, um olhar solidário para perceber o lugar  do outro, uma nova sensibilidade para “ver” a Presença d’Aquele que ocupa todos os lugares e que nos conduz para o “lugar” da plenitude.

Da imaginação para a realidade, da oração para a ação..., uma travessia dos “nossos mares estreitos” para os “amplos lugares cristificados”.
Um “lugar sagrado” que nasce do coração, carregado de afeto, de inspiração, de vitalidade...
O “lugar externo” é o prolongamento do lugar saboreado internamente.