sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Deus perdoa em nós

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 24º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?” (Mt 18, 33)

 

O evangelho deste domingo traz a última parte do “discurso comunitário” (Mt 18), totalmente dedicado ao perdão, que não é uma formalidade a ser cumprida, mas uma atitude fundamental e permanente, por meio da qual o(a) seguidor(a) de Jesus prolonga o modo de proceder do Pai. 

Deus, na sua essência é perdão, e a comunidade cristã é o lugar privilegiado da visibilização desse perdão.

Jesus tem plena consciência que sua comunidade de seguidores não é constituída de “perfeitos”, mas de pessoas frágeis e limitadas e que só o perdão pode sustentar os vínculos entre elas.

Pouca gente, mesmo entre cristãos, compreende o sentido profundo do perdão.

A maioria pensa que é uma forma de anistia do sentimento, esquecimento, ato interno capaz de compreender o ofensor e desculpá-lo no fundo do coração misericordioso; para uns o perdão significa passar por cima de um erro ou violência, deixando o agressor ir embora; para outros, o perdão é até imoral.

Jesus colocou no perdão fraterno uma das características do ser cristão; ao perdoar-nos, Deus cria em nós um  coração novo, feito de acordo com o Seu, capaz de perdoar à sua maneira; não pode dar o perdão quem não tem consciência de tê-lo recebido; a capacidade de perdoar é diretamente proporcional à expe-riência de ser perdoado. Não perdoar é resíduo de poder que fica em mãos de pessoas fracas.  A verdade é que o perdão exige uma grande liberdade interior.

perdão é a aceitação do outro tal qual ele é. Uma das formas mais importantes do perdão é desejar que cada um encontre seu lugar para ser o que é. perdão, pela superabundância que implica, revela, no outro, recursos desconhecidos, que ele permite atualizar.

perdão é movimento, é expansão de si, é des-centramento e impulso em direção ao outro. O prefixo “per” é o mesmo que encontramos nos verbos per-correr, per-durar, per-fazer..., e leva à plenitude a ação expressa pelo verbo. O perdão é o dom realizando-se no supremo grau de sua gratuidade; é dom em excesso.

Nesse sentido, perdão é um estilo de vida, uma atitude de quem não se prende ao que o outro merece e nem se escandaliza com sua miséria. “Devemos perdoar como pecadores, e não como justos”. 

Por outro lado, o perdão, que tem como fonte o coração do Pai, faz aparecer a verdade mais profunda de nós mesmos, nos faz recuperar uma estima radical que elimina todas as nossas sensações de inferioridade.

Antes de tudo, o perdão nos revela nossa culpa e, ao mesmo tempo, nossa dignidade.

Faz-nos compreender nosso êrro, mas é também mensagem eficaz de estima e de confiança: em sua compaixão, Deus confia em nós e nos torna novamente dignos de seu Amor. O milagre é exatamente esse: poder reconhecer nossa própria fragilidade e permanecermos serenos; descobrir-nos pecadores sem desesperar-nos e deprimir-nos; sentir-nos re-criados,porque perdoados; dignos de estima porque reconci-liados.

Seu perdão é gesto criativo e redentivo: continua a criar em nós um coração novo.

A ação do Deus que perdoa não está em função do passado, mas a serviço do nosso futuro.

Perdoar é re-criar. Deus nos re-cria a cada instante. Cada dia que passa é um perdão sempre novo, pessoal, criativo, mas também discreto e silencioso.

Inspirado pela compaixão do Pai, o(a) seguidor(a) de Jesus vive em contínua atitude de perdão( 77x 7). Perdoar não é um gesto rotineiro, não é um costume de cada dia: é, antes de tudo, flor escondida, única e original, que floresce cada vez no duro terreno da fragilidade humana e do auto-domínio, sem se deixar determinar pelos sentimentos negativos que podem brotar.

Isto indica que as pessoas que têm por hábito o perdão, que vivem segundo a ética do perdão, deparam-se raramente com uma longa lista de coisas para perdoar, pois elas não guardam estas listas.

Elas não estão preocupadas com os insultos, as agressões e outras expressões de violência. Elas não nutrem sentimento de ressentimento pelo mal-feito a elas. Ao invés disso, cultivam a perspectiva que Jesus tinha em relação aos malfeitores.

Quando alguém perguntou a Mahatma Gandhi, grande líder indiano da não-violência, se ele tinha perdoado todas as ofensas recebidas, declarou: “Nada tenho que perdoar a ninguém, porque nunca ninguém me ofendeu”. ofensa é objetiva; considerar-se ofendido ou não é subjetivo. Gandhi simplesmente não considerou a ofensa como ofensa.

O maior dano de uma ofensa – frequentemente maior que a própria ofensa – é que ela contamina nossa liberdade de sermos nós mesmos, pois percebemo-nos involuntariamente dominados pela raiva e ressentimentos interiores (uma espécie de veneno emocional que penetra todo nosso ser) que exercerão uma influência velada, mas poderosa sobre quase todos os aspectos de nossa vida.

Perdoar é aceitar a responsabilidade por nossa maneira própria de olhar a vida e as relações entre as pessoas. Se a mágoa provocou uma desconfiança fundamental em relação aos outros, quem perdoa deve questionar essa atitude.

No entanto, a libertação das emoções negativas é possível porque no perdão começamos a ver o outro muito mais do que simplesmente alguém que foi culpado pela ofensa ou mágoa.

“Perdoar... é a única reação que não apenas reage, mas age de forma nova e inesperada, não se deixando condicionar pelo ato que a provocou e libertando assim de suas consequências, tanto o que perdoa como o que é perdoado” (Hannah Arendt)

De fato, o perdão nunca se encaixa confortavelmente dentro dos padrões naturais do comportamento humano. Ele não nasce espontâneo dentro do coração do ser humano.

perdão viola as sensibilidades sociais, e sempre fará isso. O perdão transgride.

perdão não é um gesto fácil; o perdão é um gesto ... “inumano”, porque toda a nossa impulsividade natural vai em direção contrária a ele.

Representa considerável avanço em relação ao mais primitivo desejo de vingança. 

Sabemos que, no nível mais primitivo, o desejo humano não visa o perdão, mas a retaliação, o revide.

Perdoar é ir além do princípio de retaliação. Por isso é uma atitude atrevida e ousada.

perdão representa a inovação: ele ataca, com todo vigor, aquilo que parece ser uma lei de nossa história. Isso porque a lógica que regula as relações inter-humanas é regida pela lei do mais forte, ou, no melhor dos casos, pela lei da reciprocidade, da equivalência, como norma de justiça.

Perdão não é esquecimento do passado, é o risco de um outro futuro que não aquele imposto pelo passado ou pela memória ferida. É convite à imaginação para responder com um gesto inovador e criativo a quem causou dano ou ofensa. É preciso aventurar-se no encontro com o outro.

perdão “inventa” uma atitude não prescrita e nem prevista em nenhum manual de comportamento.

O cristianismo é tão revolucionário que exige do ser humano não apenas a grandeza de compreender e desculpar o ofensor, mas a capacidade de amá-lo. O perdão é superlativo do amor. 

Reinhold Niebuh descreveu o perdão como a “forma final do amor”. Perdão é amor que reconstrói o passado e que só Deus podia inventá-lo. O perdão nos configura à imagem de Deus.


Perdão não é só sobre esquecer o que houve: 9 pontos para levar em conta -  20/02/2020 - UOL VivaBem

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 18,21-35

 

Na oração: 

Joan Chittester chama o perdão “o mais divino dos atributos divinos”. “Perdoar é ser como Deus”, afirma ela.

- Fazer “memória” dos momentos em que você experimentou a força criativa do perdão do outro, ou foi presença por onde fluiu o verdadeiro perdão.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Igreja, comunhão de comunidades

Texto do Pe. Adroaldo Palaoro, sj como sugestão para rezar o Evangelho do 23º Domingo do Tempo Comum (Ano A).

“Tudo o que vocês ligarem na terra, será ligado no céu” (Mt 18,18)

 

Precisamos reavivar a consciência de que somos comunidades de Jesus. Reunimo-nos para escutar seu Evangelho, para manter viva sua memória, para contagiar-nos com seu Espírito, para acolher em nós sua alegria e sua paz, para anunciar sua Boa Notícia.

O futuro da fé cristã entre nós depende, em boa parte, daquilo que, como seguidores(as) de Jesus, fazemos e vivemos em nossas comunidades concretas: elas são espaços de acolhida, de valorização do outro, de testemunho dos valores do Evangelho?

Somos nós que devemos centrar nossas comunidades cristãs na pessoa de Jesus como a única força capaz de regenerar nossa fé desgastada e rotineira. Ele é o único capaz de atrair os homens e as mulheres de hoje; o único capaz de despertar uma fé nova nestes tempos de incredulidade. A renovação das instâncias centrais da Igreja é urgente. Os decretos de reformas são necessários. Mas nada tão decisivo como retornar com radicalidade a Jesus Cristo. Afinal, somos “seguidores de uma Pessoa”, o Mestre da Galileia; e a essência da vida cristã está na identificação com Jesus Cristo e não nos ritos, nas doutrinas, nas leis...

O evangelho deste domingo nos desperta para a consciência de que fazemos parte de uma “comunidade em missão”; todos somos responsáveis pela vida interna da comunidade e pelo compromisso de fazer chegar a Boa Notícia a todas as pessoas; todos somos líderes e exercemos a liderança cristã o tempo todo.

É no interior das comunidades cristãs que devemos zelar pelo cuidado de seus membros, favorecer um ambiente onde todos são respeitados e se sintam envolvidos com o crescimento mútuo.

Liderar com autoridade implica espírito de confiança, tratar o outro com bondade, ouvir atentamente, ter verdadeiro respeito para com os talentos do outro, ter real interesse por ajudar o outro para que tenha êxito, confiar responsabilidade, manter acesa a chama do sonho para que cada um possa fazer emergir o melhor de si mesmo a favor da comunidade, sintonizar com os princípios profundos e permanentes da vida, expressar consideração, elogio e reconhecimento pela atuação do outro... Enfim, liderar a serviço dos outros nos livra das algemas do ego e da concentração em nós mesmos que acabam fragilizando os vínculos mútuos e destroem a alegria de viver.

No relato de Mateus, proposto para este domingo, à primeira vista parece que Jesus está pedindo para descartar e expulsar aqueles que fazem o mal, considerando-os como pecadores e publicanos. No entanto, a partir do Evangelho, considerar alguém como “pagão e pecador” não significa excomungá-lo da Igreja. Quem eram os preferidos de Jesus senão os publicanos e pecadores? Tratar alguém como pagão ou pecador não é considerá-lo como um proscrito, mas como um “filho pródigo”. Este texto dá pé para perguntar-nos até que ponto é evangélica a atitude de julgamento, de condenação, de desqualificação, de expulsão. 

O texto começa dizendo: “Se teu irmão pecar contra ti...”, ou seja, um membro da comunidade. Ele não faz isso de forma intimista, mas pondo em risco a unidade e a vida comunitária, pois o “contra ti” tem aqui um caráter coletivo, como interpretam outros manuscritos que colocam “contra nós” ou “contra vós”. Por isso se instaura um processo em regra, que permite conhecer aqueles que fazem parte da comunidade.

O critério de fundo continua sendo o evangelho: gratuidade original, superação do juízo, salvação dos pobres e universalidade messiânica. O método é o diálogo, segundo a ordem descrita: um a um, duas testemunhas, comunidade inteira. O processo de discernimento torna-se doloroso, mas necessário e não pode ser delegado, deixando-o em mãos de uma instância superior ou externa, pois seria como se um casal deixasse em mãos de estranhos a solução de suas desavenças.

A comunidade dos seguidores de Jesus não pode abandonar o pecador; é a comunidade inteira que tem como missão salvar e não condenar: que ninguém exclua ninguém, nem aquele que rompeu com a comunidade. Só quando este resiste entrar em diálogo, fica praticamente excluído dela.

Não é a comunidade que exclui, mas aquele que é incapaz de deixar-se amar; ele mesmo se exclui do amor.

Onde não há amor, onde não nos deixamos amar, já deixamos de pertencer à mesma comunidade cristã.

O discurso comunitário (Mt 18) define a essência da Igreja como comunidade daqueles que se reúnem, se organizam, celebram, buscam em comum a vontade de Deus, vivem o mandamento do amor revelado por Jesus. A essência da Igreja não é definida pelos seus líderes, mas pela própria comunidade que, assim, aparece de forma autônoma, como “espaço de Deus”, fraternidade messiânica no mundo. 

Esse é o sentido do discernimento sinodal, desencadeado pelo saudoso papa Francisco.

A comunidade que discerne em comum deve criar as condições de escuta, de reciprocidade e de respeito à diversidade; também deve criar espaço de referência que deve ser protegido das intervenções externas. Uma comunidade a caminho da liberdade para buscar e encontrar a vontade de Deus, capaz de ler os sinais dos tempos através dos quais o Senhor se comunica, discernir os movimentos dos espíritos em seu interior e eleger o caminho indicado por Deus (como experiência de Êxodo). Não basta sentir, escutar; é preciso compreender quais os movimentos do Espírito surgem na comunidade. Saber ler estes movimentos é talvez a maior dificuldade para uma comunidade em discernimento, como o é para uma pessoa. No entanto, a única maneira de avançar é pôr em prática estes processos (Pe. Arturo Sosa, sj).

Eis aqui como as novas relações devem ser vividas no interior da comunidade cristã:

- relações fundadas na verdade, ou seja, saber dizer “sim” e saber dizer “não” e não basear-se em suposições; - relações de encontro: assumir os problemas cara a cara, sem escamoteá-los;

- relações de liberdade: comunidade onde reine a liberdade de palavra;

- relações de amabilidade e compreensão: face a face, mas com amor e ternura;

- relações de contínuo desbloqueio: não guardar as coisas, porque nos fecham ao próximo, e quando explodem, causam danos recíprocos;

- relações de esperança: não perder nunca a esperança no outro, não se encastelar nunca, não desistir de reconstruir a amizade com ele; 

- relações de amor vigoroso: ajuda e exigência mútua.

A estrutura hierárquica-piramidal fortalece a estrutura de poder, controle, vigilância, supervisão...; tal estrutura acaba por afetar e asfixiar a liberdade interna, a motivação e o compromisso dos membros da comunidade; além disso, ela suprime iniciativas, criatividade e incentivos, em relação a novos projetos.

Cada comunidade cristã é Igreja reunindo-se em nome de Cristo, orando a Deus Pai e resolvendo por si mesma seus problemas, em diálogo no qual todos participam (sem dúvida, em comunhão com outras igrejas); existem ministérios diferentes com lideranças diferentes, mas os assuntos da comunidade devem ser resolvidos por todos, cara a cara, irmão a irmão, em pequenos grupos ou em assembleia de todos os membros; nenhuma igreja é sucursal de outras, nem é colônia de outras maiores. Cada uma é sinal e presença de Jesus na terra.

autoridade reside na assembleia comunitária, pois cada Igreja é responsável por seu próprio caminho de oração, comunhão e decisão, de forma que deve tomar com responsabilidade suas próprias decisões e criar suas instituições, desde os diáconos, os presbíteros e o próprio bispo. Nem o amor, nem a consciência de “estar em Cristo”, nem a solução dos possíveis problemas (de fraternidade, de sacramentos...) podem ser delegadas a pessoas isoladas ou a outra comunidade mais alta, embora todas sejam solidárias e se unem entre si pelo mesmo Cristo. O amor a Jesus e a comunhão dos seus seguidores não podem ser delegados, pois se assim fizesse deixaria de ser amor cristão, comunhão evangélica.

A Igreja não é uma Multinacional, mas uma comunhão de comunidades, e o Bispo de Roma, chamado carinhosamente Papa, representa a comunhão de todas as igrejas; não está aí para suplantar a autoridade das comunidades concretas, mas para garanti-las.


Como demonstrar amor ao próximo no dia a dia?

 

Texto bíblico: Evangelho segundo Mateus 18,15-20

 

Na oração:

Ter presente sua comunidade eclesial: ela está próxima ou distante da comunidade sonhada por Jesus?

Ela é lugar do discernimento sinodal? Prevalece o poder de uma pessoa só ou todos os membros são escutados? Há uma consciência de que todos são responsáveis pela construção da comunhão entre todos os membros? Que atitudes aparecem diante dos conflitos comunitários?